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QUE BRINQUEDO ESCOLHER?

sucata6Semana que vem teremos o dia da criança. Que brinquedo escolher para presentear os filhos? São tantas as opções (e tentações), que ficamos tontos. São tantos os preços (caros), que ficamos mais tontos ainda! De um lado, o olhar pidão das crianças, do outro, comerciais na TV, vitrines de lojas e os fatídicos amiguinhos que sempre têm algo que nossos filhos desejam. Como decidir o que dar? Quem lê o blog ocasionalmente já sabe que, em geral,  sou avesso a regras (exceto quando a questão é segurança!). Sempre acho mais interessante que os pais tomem as decisões, principalmente aquelas que não estão nos livros de pediatria. Antes de escrever este post, verifiquei uma vez mais nos livros da minha formação médica e não falam de brinquedos! Portanto, a decisão será de vocês. Mas, só queria compartilhar algumas ideias com vocês. sucata4

A primeira ideia é uma pergunta. O que queremos ao presentear nossos filhos com um brinquedo? Certamente cada mãe ou pai tem algo em mente e eu não poderia saber todas as respostas. Umas que me ocorrem são:

  • demonstrar afeto e carinho pelos filhos. Um presente é um veículo de amor. Em geral, é escolhido pensando no filho, no que ele gosta ou precisa. Portanto, a primeira função de um presente é o de aproximar. Assim, o melhor embrulho para o presente do dia das crianças, qualquer que seja, é um abraço apertado e um beijo carinhoso.
  • produzir prazer nos filhos. Escolhemos algo que imaginamos agradará nossos filhos. Seja pela necessidade que tinham, seja pelo “sonho” de ter aquele objeto.
  • desenvolver alguma aptidão nos filhos. Não raro os pais procuram brinquedos que estimulem a criatividade dos filhos. É sobre isto que vou falar um pouco mais no post de hoje.

sucata1A criatividade é algo que todos nós temos, dentro de nós. Não é algo fora que nos torna criativos. Quem inventou o i-pad não tinha um outro i-pad para se inspirar. Todas as invenções criativas surgiram de um pensamento ou de uma observação e não de um objeto. Picasso nunca tinha visto um quadro como o que pintou, para se “inspirar”. Newton não tinha conhecimento de algum tipo de descrição de uma lei que explicasse porque os objetos são atraídos para o chão. Os exemplos são infinitos e comprovam apenas que a criatividade é uma potência que todos temos dentro de nós. Portanto, brinquedos eletrônicos, ultra modernos, poderão, ou não estimular essa criatividade. O fato é que, quanto menos “pronto” estiver o objeto, mais estímulo produzirá na criatividade humana. Aí entra em cena a sucata doméstica. Objetos que iriam para o lixo, podem assumir as mais diversas formas (vide as fotos do post de hoje). O desafio de transformar algo em outra coisa é superado pela nossa criatividade. Portanto, se o presente que queremos dar para nossos filhos é um que estimule sua criatividade, que tal lhe dar uma caixa cheia de sucata doméstica? Melhor ainda, embrulhe o presente no abraço e beijo que mencionei acima e, para tornar o presente memorável, sente-se com sua filha e filho e, juntos, criem. Passem algum tempo juntos, rindo, provocando um ao outro, cooperando e competindo. Não é o brinquedo que é criativo, é a criatividade que faz o brinquedo!sucata3

Este é um post curtinho, mas que pode render uma longa e deliciosa memória nos seus filhos. Encerro com uma pergunta: se esta cena que descrevi de pais brincando com seus filhos, montando objetos a partir de sucata doméstica ocorrer, quem presenteou quem?

Cartas para a redação!

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PEDIATRIA INVASIVA!

Jack-and-Barbossa-pirates-of-the-caribbean-30769540-500-334Pediatria invasiva? O que será isso? Procedimentos invasivos, cirurgia invasiva, são termos mais comuns e conhecidos. O que seria a pediatria invasiva, ao menos a que eu gostaria de comentar no post de hoje? Seria a pediatria que cuida de crianças graves e precisa fazer uso de procedimentos invasivos, necessários em cuidados intensivos? Esta é uma pediatria invasiva desejável, diante de uma situação crítica. O que eu gostaria de comentar hoje é sobre uma pediatria que invade um território que não lhe pertence e, ao fazê-lo, se coloca como sendo a legítima ocupante desse espaço, como se invasão sequer tivesse havido.

Falo da invasão da pediatria pelo território dos saberes da   saúde e, principalmente, dos cuidados com as crianças. Claro que já escrevi sobre este tema, mas, como ele me é muito caro, retorno a ele. Retorno para, usando bom humor, chamar a atenção dos pais sobre a “eleição” de alguns como detendo um conhecimento especial, inacessível aos demais. Se elegermos o pediatra (ou outro profissional) como sendo detentor de um conhecimento que não temos, abrimos a fronteira para o invasor. Este, treinado para pensar a partir de uma lógica da doença, ocupa, sem se dar conta, esse espaço, julgando que é o legítimo “proprietário” do terreno.

Vamos simplificar a conversa? Toda vez que perguntarem algo para o seu pediatra, após ouvirem a resposta dada, complementem com outra pergunta: ” Dr. em que curso da faculdade de medicina lhe ensinaram isto? ” ou, ” em que publicação científica, leu isto? “. Vou dar alguns exemplos simples e frequentes de perguntas cujas respostas nós pediatras damos a partir de um saber de observar, tão bom quanto o de avós, pais e amigos que também já observaram crianças, mas que parece ser um conhecimento científico :

  • posso dar banho no bebê à noite?
  • quantos minutos devo esperar com o bebê  no colo, até ele arrotar?
  • é melhor ventilador ou ar condicionado?
  • que alimentos eu posso introduzir, agora que meu filho tem 8 meses?
  • com que idade um bebê pode sair na rua?
  • meu filho está fazendo muito pirraça, o que posso fazer?
  • a que horas meu filho deve ir para cama dormir?

Poderia fazer uma lista realmente longa de perguntas que, frequentemente são feitas aos pediatras como se estes tivessem um conhecimento científico  a respeito e pudessem dar respostas “certas”. Na origem dessa delegação de saber para o pediatra, identifico algumas causas.

A primeira é que o saber científico se tornou hegemônico. Isto é, temos praticamente como certo  que se o conhecimento não vem da ciência, não tem valor. Ora, a ciência é algo que não tem mais do que 500 anos e o homo sapiens está na terra há cerca de 180 mil anos. Portanto, o conhecimento, não científico, acumulado ao longo desses milênios foi capaz de nos trazer até aqui. Sou defensor ferrenho do conhecimento científico, mas, é preciso reconhecer que nem tudo é ciência. Aliás, a própria ciência começa com uma curiosidade ingênua, não estruturada, não inserida em métodos. Mas, como nossa cultura passou a considerar este conhecimento (científico), como o único válido, o que vemos é uma proliferação de declarações baseadas em pseudo-ciência. Pseudo-ciência é a apresentação de um fato, recheado de números e estatísticas, como se isso fosse o método científico. Como poucos de nós está afeito ao que seja o rigor do método científico, bastam esses números e alguns gráficos, para validarmos o conhecimento como sendo científico. Resumindo e concluindo este ponto, o conhecimento científico (verdadeiro) é fundamental, mas não é o único que nos faz compreender e, principalmente, agir no mundo. É preciso  resgatar o valor de outros saberes baseados na observação, experimentação pessoal e emoção. Se o único saber válido é o científico, olhamos para o pediatra como sendo o detentor ( não é), desse conhecimento especializado.

A segunda causa, talvez consequência da primeira, é que deixamos de ousar aprender. Ousar aprender significa se apropriar desse processo, questionando, criticando, experimentando, validando o conhecimento. Estamos imprensados entre a noção de que não sabemos nada (só quem tem conhecimento científico sabe) e um modo de aprender que é baseado no modelo escolar de fazer prova. Aprender para passar na prova e não para apreender o conhecimento! Se nos lembrarmos dos mais de 150 mil anos de conhecimentos acumulados, sem ciência e sem provas escolares, talvez nos sintamos encorajados a ousar um pouco e testar, do mesmo modo que nossos antepassados fizeram (e deu certo!).

A terceira causa, seria o custo da ousadia. Nos tornamos reféns de uma cultura de performance, eficiência, resultados. É preciso ser excelente em tudo que fazemos. Qualquer coisa menos do que isso é sinônimo de fracasso. Num contexto como esse, ousar e, certamente, errar algumas vezes, não é algo fácil de ser feito. Melhor delegarmos para “quem entende”, não nos arriscando à sensação de frustração (ou culpa) que um “erro” pode gerar em nós. Pais erram, sempre. Mas, dificilmente, erramos no essencial, fundamental. Portanto, a ousadia de aprender com nossos filhos  como devemos cuidar deles, não os coloca em risco. Pelo contrário, lhes dá uma chance de serem tratados como únicos e não com uma receita “científica”, aplicada a todos, sem distinção.

Finalmente, uma quarta e última causa (ao menos para o post de hoje) seria um distanciamento afetivo ou o estabelecimento de relações com objetivos e metas. Afeto é a base do relacionamento humano. A razão ou racionalidade só nos fascina e encanta (é uma delícia ler ou ouvir uma pessoa inteligente ou brilhante) quando há afeto para formar o vínculo. Ora, o mundo da razão acabou nos convencendo de que afetos, emoções atrapalham mais do que ajudam. No entanto, não é preciso ser nenhum gênio para constatar que somos animais simbólicos, antes de sermos racionais. Olhamos para uma pessoa que não conhecemos e pensamos algo a seu respeito. Seja pelo sua roupa, postura, aspecto etc. Sem que nenhum contato racional com a pessoa tenha sido estabelecido, já formamos uma opinião, a partir dos símbolos que captamos e interpretamos. Poderia dar outros exemplos, como o de olharmos para um bebê e sentirmos algo, antes de pensarmos. A racionalidade, característica fundamental do ser humano não é melhor, nem pior do que a emotividade, também um atributo humano essencial. Mas, em um mundo onde racionalidade inibe o afeto, como desenvolver um aprendizado ou conhecimento baseado em emoções, sensações, experimentação sem “base científica”? Fica muito difícil e o mais fácil é “terceirizar” esse saber para quem identificamos como sendo dono de um conhecimento que não temos (mas poderíamos ter).

A síntese deste post poderia caber em uma frase. Pais, vocês sabem muito mais da saúde e cuidados dos filhos do que imaginam e podem aprender sempre, se forem ousados de criativos, sem medo de errar.

É isso, ou entregar o tesouro aos piratas!

 

UMA AULA PRÁTICA DE COMO LER O MANUAL DA CRIANÇA.

Em um post recente, escrevi sobre a importância dos pais lerem o manual que acompanha cada filho. Cada manual é pessoal e intransferível e, para young-girl-crying-in-her-car-seat-Dcomplicar um pouco a tarefa dos pais, dinâmico. Quando os pais acham que entenderam tudo, os filhos mudam as instruções.

Hoje, vou compartilhar uma aula prática de como ler o manual da criança. Os nomes (e a foto) são fictícios, mas, a história é real. Os pais me autorizaram a compartilhar esta vivência deles que, certamente, poderá inspirar outros pais.

Silvia e Pedro são pais da Alice.  São pais amorosos, cuidadosos, preocupados com o bom desenvolvimento da Alice. Alice é uma linda menina de 2 anos, esperta, alegre, um pouco bagunceira demais para o gosto do pais. Ela não é de fazer muita pirraça. Não mais do que as crianças da sua idade. No entanto, andar na cadeirinha do carro era uma tortura para Alice. Ela ia toda animada para o carro, mas, ao colocá-la na cadeira, urrava, esperneava e não havia nada que a distraísse ou convencesse de que estava tudo bem. Os pais chegaram a imaginar que pudesse haver algum defeito na cadeira, ou um parafuso mais alto, que justificasse essa reação da Alice. Mas, a cadeira estava perfeita. Passear ou ir visitar familiares e amigos se tornou um pesadelo, para todos. Diante desta situação, os pais recorreram ao manual da Alice e à sua criatividade. Decidiram, antes de mais nada, tentar entender o que estava acontecendo. Ficou claro que, entender com a Alice dentro do carro, seria impossível. Assim, resolveram tirar a cadeirinha do carro e deixar na sala, sem dar muita atenção para este novo “móvel”.

Quatro dias após a cadeirinha estar na sala,  Silvia me enviou a seguinte mensagem: “A Alice agora há pouco pediu para sentar na cadeirinha (que ela já vê na sala desde segunda, pela manhã). Depois, pediu para que eu sentasse ao lado dela e eu sentei. Ele ficou um pouco, saiu e pediu que eu sentasse na cadeirinha. Eu sentei um pouco e ela pediu para eu sair. Depois, pediu água e foi para a cozinha(encerrando o assunto)”.  Meu comentário foi o de achar a história uma delícia. Ao que a Silvia me respondeu que também tinham achado e que estavam na torcida.

Ontem, recebi um   e-mail da Silvia, que transcrevo a seguir:

Após quase um mês com a cadeirinha em casa, achamos que era hora de colocá-la no carro. A Alice já estava à vontade com ela na sala de casa (assistia TV sentada nela, fazia desenhos, brincava etc.).

Então há uma semana atrás pedi a “ajuda” da Alice para colocar a cadeirinha no carro. Ela me “ajudou” a carregá-la e a colocá-la no assento do carro. Sentou nela a pedido e emendou “quero ir para Niterói”. Eu respondi que para passear de carro faltava colocar o cinto. Daí o tempo fechou, ela ficou inquieta, disse que não queria ir para Niterói, não queria o cinto e queria voltar para casa. Eu disse que tudo bem: “Hoje você não precisa, vamos para casa”. Meia hora depois, em casa, já em outra atividade ela me diz: “Mamãe, não quero cinto”.

Alguns dias depois encontramos a madrinha dela e o marido e eles, sabendo do problema, resolveram fazer uma brincadeira: tudo que fizéssemos de bacana colocávamos um “cinto” imaginário antes, porque aí ficava “melhor”. Vamos comer um doce? Então vamos botar o “cinto” antes… e assim por diante.

Hoje decidimos que seria um bom dia para tentarmos um passeio curto de carro, todos bem-humorados, calmos, o dia bonito etc. Não mencionamos a cadeirinha nem o cinto mas antes de sairmos o Pedro mostrou para ela um desenho animado para crianças, bem bonitinho, sobre a importância do uso do cinto, que ele pesquisou no youtube. Como só tinha em inglês, ele ficou fazendo a tradução simultânea. Ela assistiu com atenção e quis ver várias vezes a cena que mostra o que acontece com quem não usa o cinto (é uma cena bem leve).

Bom, fomos para o carro e ela sentou sem problemas mais uma vez. Falamos firme e gentil com ela: agora vamos botar o cinto. Ela começou a se agitar, eu falei que eu conseguia soltar o cinto quando ela quisesse. Ela ficou puxando o cinto para frente e me ofereci para segurar o cinto, desprendendo do peito dela. Conseguimos distrai-la e assim ela foi no percurso de ida: o cinto preso e eu segurando-o afastado do peito dela.

Na volta, surpresa: Apesar dos protestos (fracos) fechamos o cinto e ela o deixou na posição correta. Distraiu-se com desenho animado e de vez em quando resmungava que não queria o cinto, mas estava relaxada.

Enfim, por ora – e perto de como ela já esteve -, um sucesso estrondoso!!!!!

Eu fiz um relato longo porque os detalhes podem servir de ideia para outras situações semelhantes. Afinal, não sabemos exatamente o que deu resultado (ou se foi um somatório).

Um abraço e obrigada,

Silvia

Francamente, acho que, neste relato, podemos perceber um somatório de ações que Silvia e Pedro tomaram que contribuiu para que a Alice perdesse o pânico que tinha ao se sentar na cadeirinha. Dentre essas ações, destaco:

– o respeito dos pais à uma resistência da Alice. Ao não medir forças com Alice, Silvia e Pedro se colocaram em uma posição de não confronto. Quando há um confronto, haverá um vencedor e um vencido. Na posição de não confronto, pode surgir uma solução. O não confronto corresponde a ler o manual da Alice. Ler o manual do google, do livro, do curso de pais, das avós ou do pediatra pode dar a falsa sensação de que há uma verdade e esta deve “triunfar”.

– o envolvimento da Alice na solução.  A partir da posição de não confronto, Silvia e Pedro, permitiram que a Alice fosse dando as cartas, mostrando o caminho. Se aproximou da cadeirinha na sala, com certo cuidado. Testou, retestou, até que sentiu total conforto para sentar, desenhar, brincar com e na cadeirinha.

– a criatividade. Na ausência de uma solução pronta, foram criativos ao tirarem a cadeirinha do carro e “esquecer” ela na sala. O movimento racional, lógico, poderia ter sido um de dois. Ou tentar convencer Alice de que não havia nada de errado com a cadeirinha, ou forçá-la a se sentar e deixar que chorasse “até que se acostumasse”. Uma cadeirinha de carro é para ficar no carro. Só com  alguma criatividade se leva uma cadeirinha de carro, para a sala!

– a paciência. O resultado só apareceu quase um mês depois de iniciado o processo. O tempo que as coisa levam para acontecer, é o tempo que leva! Uma obviedade que, em tempos do instantâneo, do rápido, do agora, nem sempre nos lembramos. Respeitar esse tempo, sem atropelar o processo, é muito importante.

– a firmeza  e/ou energia, a partir de um dado momento onde perceberam que já era possível ou necessária essa atitude. Alice sinalizou que estava pronta, mas, na hora H, “amarelou”. Neste momento, o ato de amor foi o de “empurrar” a Alice. Em inglês, existe uma palavra que define esse empurrão- nudge. É o que a mãe do elefante faz com a sua tromba, para dirigir o filho. Amor não é só acolhimento, aceitação e tolerância ilimitada. Amor é, também, saber usar a autoridade e energia, na hora certa. Alice precisava desse “nudge”.

E, talvez, o mais importante- a ausência de regras pré-fabricadas. Foram construindo a solução, dia a dia, sem estarem presos a esquemas pré-concebidos.

Obrigado à Silvia, Pedro e Alice (eles sabem quem são!) por me permitir compartilhar esta história. Estou certo de que ela poderá inspirar os pais a, diante de uma situação inusitada, buscarem no manual dos filhos, uma solução criativa, envolvendo-os, com a necessária paciência e , no momento certo, o uso adequado de energia.

Parabéns aos três!

 

 

 

PRESCREVENDO O ÓCIO PARA CRIANÇAS !

Pensar em crianças (exceto os bebês muito pequenos e, muitas vezes, até estes) é pensar em atividade. Crianças brincam, se movimentam, correm, pulam, sobem onde devem e não devem. Crianças mexem em botões, tiram as coisas do lugar, perguntam sem parar. Crianças são energia pura. Alguns pais dizem que seus filhos parecem “ligados na tomada” e só param na hora de dormir. Não é sem motivo que todos os pais se sentem exaustos após um dia com seus filhos. child_relaxing-wide

Essa realidade nos faz pensar que crianças precisam de atividades. Quanto mais, melhor. Certos pais podem pensar que mais atividades seria melhor porque cansaria mais a criança e isso facilitaria o sono, permitindo que eles também pudessem descansar. Outros, podem supor que mais atividades representariam mais estímulos e isso aumentaria a capacidade da criança, seja física, seja intelectual.

Vamos dar uma pausa (sem trocadilho) e viajar pela história da língua ou etimologia. Os gregos, que muito antes do google, irritantemente escreveram e comentaram sobre quase tudo que é essencial para nós, deram o nome de scholé para o momento de lazer, ócio, onde as pessoas, incluindo as crianças, poderiam estar com a mente livre para aprenderem coisas novas. Já devem ter desconfiado que a scholé grega é a nossa palavra escola. Portanto, para se aprender algo, os gregos já sabiam que era preciso estar em um estado de “desocupação”, com a mente livre para o novo. O trabalho, a atividade, tinham outro nome- ascholé. O a, em grego, significa negação. Então, o nome que deram para o trabalho foi, traduzindo, “não escola”, signficando não lazer, não ócio. Se formos ver como os romanos resolveram isso, constatamos que “copiaram” os gregos. Eles usavam a palavra ócio, para esses momentos de devaneio, pensamentos soltos e negócio (neg + ócio = negação do ócio!) para o trabalho. Vejam que em ambas culturas deram mais valor ao tempo livre que tinha um nome só para si, enquanto o trabalho ganhou o nome de “não tempo livre”.

Voltemos ao presente e a essa altura já devem estar se perguntando onde eu quero chegar. Talvez muitos já tenham percebido que o caminho que escolhi foi uma brincadeira para pensarmos um pouco no uso do tempo de nossos filhos. Não há a menor dúvida quanto à necessidade e importância de atividades no dia a dia das crianças. Mas, em mundo onde a cultura dos negócios (olha a negação do ócio aparecendo), de certa forma, invadiu nossas vidas, pensamos sempre em performance, resultados, metas e objetivos. Nesse cenário, não fazer nada é perder tempo, desperdício.

Quero provocar meus leitores a pensar em não fazer nada como um investimento! No planejamento das atividades de nossos filhos, devemos considerar um tempo para não fazerem nada. Um tempo ocioso, onde, deixados livres, farão o que quiserem. Para fazer o que quiserem, terão que ousar e criar. Sem a nossa ajuda, determinando o que é para ser feito ou sugerindo brincadeiras, terão um tempo para a reflexão criativa.

O tempo sem fazer nada é onde tudo acontece!  É o tempo onde a noção de liberdade se expressa com intensidade e as descobertas de limites e responsabilidade também vão acontecer.  Que pais não desejam que seus filhos sejam adultos livres, independentes?  Não fazer nada,  é o tempo onde através da criatividade se constrói a auto estima, a noção de capacidade e competência, a segurança em si. Que pais não desejam isso para seus filhos?

Em um mundo onde fazer é fundamental, não sobra tempo para ser! Na agenda de seus filhos, deixem um tempo para que não façam nada e possam ser  pessoas felizes. Na agenda de vocês, deixem um tempo para contemplarem os filhos crescendo, sem, obrigatoriamente, ter que fazer algo, o tempo todo.

 

BRINCAR (É COISA SÉRIA!)

children-playingImagine algo que seja universal e natural, sem ser uma função de sobrevivência  (respirar, comer, dormir etc.). Se essa atividade, que todo ser humano faz ou fez, existir, sem necessariamente precisar que lhe ensinem, deve ser algo muito importante nas nossas vidas e na história do desenvolvimento da nossa espécie. Se isso não é sério, o que será?

Todo ser humano saudável ou sem limitações extremas, brincou ou brinca! Ninguém precisou nos ensinar a brincar. É algo que começamos a fazer, espontaneamente. Certamente que, em algum momento, um adulto introduziu em nossas vidas, brincadeiras ou jogos organizados, com algumas regras. Mas quando bebês, ninguém nos ensinou como brincar, e brincamos!  Portanto, o brincar é uma parte essencial da vida que permite o crescimento e o desenvolvimento de algumas aptidões humanas importantes. Se é parte essencial do crescimento, o brincar faz parte da saúde das crianças. Se isso não é sério, o que será?

No começo, é a mãe  que brinca com o bebê. Ela usa um tom de voz especial, sorri ou muda sua expressão facial, se aproxima e se afasta do rosto da criança, pega no seu pé e balança, cheira, sopra na barriga, finge que desaparece e reaparece. Provoca no bebê pequeno um sorriso e à medida que este vai crescendo, surge uma certa agitação com os braços e pernas, acompanhado ou não de sons, que fazem a mãe brincar ainda mais. O bebê parece antecipar e, eventualmente, provocar a mãe para que esta repita um jogo estabelecido entre ambos. Nesta fase, o bebê está brincando também. Portanto, o brincar não é algo que começa somente quando a criança é maior e já se senta ou pega objetos, por exemplo. O brincar é uma atividade que pode ser identificada no bebê pequeno. Para adultos racionais (leia-se homens em geral), isso pode parecer uma peça de ficção. Mas, perguntemos às mães se elas não estão convencidas de que seus bebês brincam com elas? A grande maioria dirá que sim.

Certamente, o brincar fica mais evidente quando a criança já está um pouco maior. Talvez a primeira brincadeira que tenha alguma “sofisticação” seja a de jogar objetos no chão ou para longe, esperando que alguém (um adulto) o pegue de volta. Crianças adoram essa brincadeira de fazer sumir e reaparecer um objeto. É uma experiência mágica para a criança. Ela joga o objeto fora (no chão) e ele volta! Se os pais tiverem uma boa dose de paciência, essa brincadeira pode levar um bom tempo. Mas, ela é fundamental para o desenvolvimento do sentimento de confiança. Este sentimento é fundamental para a estruturação de uma identidade.

O brincar é importante  para o desenvolvimento de atributos físicos, cognitivos (do pensamento racional) e emocionais das crianças. Ao brincar, as crianças desenvolvem, entre outros :

  • cooperação e relacionamento em grupo
  • capacidade de superar desafios
  • capacidade de negociação
  • tolerância à frustração

No entanto, a maior e mais importante consequência que o brincar produz é o desenvolvimento da criatividade. É através da criatividade que o brincar estimula que se constói a personalidade de uma pessoa. A criança, ao ser criativa brincando, está buscando entender o mundo que a rodeia e, mais importante, como ela vai viver nesse mundo. Não raro, a brincadeira é o melhor caminho que a criança tem para se adaptar a situações complexas e ameaçadoras, como a viagem de um dos pais, a chegada de um irmão ou os primeiros dias de creche ou escola. Assim,  o brincar também permite que os pais percebam o mundo do ponto de vista de seus filhos. Ver uma criança brincar nos mostra como ela capta o mundo e como se insere neste. Nesse sentido, o brincar é, também, uma forma de comunicação. Ao brincar, nossos filhos nos contam histórias deliciosas ou nos revelam suas aflições e como estão lidando com elas.

Esse brincar que estou comentando é um “livre brincar”. Não é uma atividade programada, com um objetivo definido. O livre brincar é um momento em que a criança tem liberdade de ficar só. Ainda que adultos devam estar por perto, nem sempre devem estar dentro da brincadeira (em algumas sim, claro!). Tanto quanto o brincar, este estar só, acompanhado, é importante para a criança. A criança desenvolve segurança e auto-confiança quando sabe que a pessoa que ama está ali, mesmo que esquecida.  Portanto, esse brincar não obedece à lógica de eficácia empresarial que os pais, muitas vezes, trazem para dentro de casa, ainda que de forma involuntária. Não é um brincar “profissionalizante” da infância, onde todo o tempo deve ser aproveitado para a criança fazer coisas “úteis”. Muitos pais comentam sobre a pré-escola: mas lá não ensinam nada, só brincam!. Como ensinar algo “útil”, antes de se desenvolver uma pessoa? Por isso, precisamos, ao menos para nossos filhos menores, subverter a lógica vigente e dizer: menino, vai brincar! depois você faz algo útil! brincando2

Esse brincar, deve ser, preferncialmente,  com “brinquedos verdadeiros”. Brinquedos verdadeiros é um nome fantasia, uma brincadeira, para aqueles que estimulam mais a criatividade da criança, como blocos, cubos, caixas, fitas, bonecos, carrinhos, baldes, massa, areia,  “sucata” doméstica etc. Não é preciso um brinquedo caro, eletrônico, na moda, para estimular a criatividade da criança. Muitas vezes, os pais fazem um esforço para dar esse tipo de brinquedo e ficam frustrados ao ver a criança deixar o brinquedo de lado e brincar com a caixa, fita e o papel da embalagem!

A ideia deste post é estimular os pais a verem a livre brincadeira dos seus filhos, aquela espontanea e criativa, não como uma perda de tempo , mas como uma parte vital do desenvolvimento dos seus filho.  E, sem brincadeira, adoraria que o post estimulasse os pais a brincarem mais, na vida. Brincar não é tudo na vida. Mas, uma vida sem brincar, não é nada!

Vou adorar receber comentários brincalhões, ou não!

DIA DA CRIANÇA

Se é verdade que todos os dias são dias da criança, existe uma, com toda certeza, que frequentemente fica esquecida e raramente é celebrada. Não falo de crianças pobres. Estas, como todas as outras, se estiverem minimamente bem de saúde, saberão como brincar. Brincam com pouco ou nada, como todas as crianças são capazes de fazer. Crianças são espontâneas e criativas. Por isso nos surpreendem e encantam.

Então, de que criança estaria eu falando? Deixe-me começar pelo começo e só peço uns tres minutos da sua atenção. 

Era uma vez um pediatra que sentiu a necessidade de escrever um blog para os pais e, talvez, para adolescentes. Não queria escrever um blog sério, sisudo, cheio de expressões médicas ou técnicas. Queria compartilhar informações confiáveis, de uma forma que o maior número de pessoas pudesse entendê-lo. Se possível, queria que o texto fosse leve e, onde coubesse, com algum humor. Pois bem, o tempo foi passando e esse pediatra foi escrevendo ora a respeito de coisas ligadas à saúde, ora sobre questões comportamentais e até sobre algumas doenças ele escreveu. Ele se divertia muito escrevendo e gostava quando os pais lhe mandavam comentários. Muitas vezes ele não tinha como responder porque os pais queriam saber coisas dos seus filhos. Filhos que ele, pediatra, não conhecia e, por isso, não podia comentar especificamente. E assim, o tempo foi passando quando, de repente (toda historinha que se preze tem que ter um  momento súbito, um de repente!) chegou o dia 12 de outubro, dia da criança. O que escrever, pensou ele?

Pensou, pensou, pensou e só sabia que não queria escrever nada que fosse banal e óbvio. Empacou! Quando empacou, se assutou e pensou: “melhor eu não inventar nada e escrever sobre sinusite!”. Sinusite é mais simples do que dia da criança, pensou ele. Foi aí que pensou em falar da criança que não é lembrada. A criança que mora dentro de cada adulto! Decidiu então escrever para esta criança, incentivando-a  a fazer algumas coisas:

– lembrar de como era quando criança e tentar brincar, com seu filho,  ao menos de uma das suas brincadeiras favoritas

– pintar ou desenhar. Vale lápis de cor, tinta guache, lápis de cera, tinta a óleo. Vale tudo, só não vale dizer que não sabe desenhar. Inventa.

– contar a história do desenho para seu filho.

– se lambuzar comendo sorvete ou chocolate e gargalhar com o filho ou filha

– andar descalço

– se estiver chovendo, chutar poças, sem guarda-chuvas

A lista poderia continuar, mas o pediatra achou melhor que cada um fizesse a sua listinha. Mais do que uma listinha, ele gostaria que os adultos pensassem menos no que fazer  e mais no como poderiam ser com seus filhos nesse dia. Que soltassem a espontaneidade e criatividade sem o menor receio de parecerem ridículos. Pelo contrário, com o maior desejo de serem felizes.

Finalmente, o pediatra pensou, se eu ainda tivesse uma filhota pequena me abraçaria com ela e diria: você sabia que papai já foi criança como você? Sabia que é uma delícia poder brincar com você e que papai adora ser seu pai?  (As mamães podem  e devem mudar o título!).

São sugestões. Feliz dia das crianças para todos os adultos!