UMA AULA PRÁTICA DE COMO LER O MANUAL DA CRIANÇA.

Em um post recente, escrevi sobre a importância dos pais lerem o manual que acompanha cada filho. Cada manual é pessoal e intransferível e, para young-girl-crying-in-her-car-seat-Dcomplicar um pouco a tarefa dos pais, dinâmico. Quando os pais acham que entenderam tudo, os filhos mudam as instruções.

Hoje, vou compartilhar uma aula prática de como ler o manual da criança. Os nomes (e a foto) são fictícios, mas, a história é real. Os pais me autorizaram a compartilhar esta vivência deles que, certamente, poderá inspirar outros pais.

Silvia e Pedro são pais da Alice.  São pais amorosos, cuidadosos, preocupados com o bom desenvolvimento da Alice. Alice é uma linda menina de 2 anos, esperta, alegre, um pouco bagunceira demais para o gosto do pais. Ela não é de fazer muita pirraça. Não mais do que as crianças da sua idade. No entanto, andar na cadeirinha do carro era uma tortura para Alice. Ela ia toda animada para o carro, mas, ao colocá-la na cadeira, urrava, esperneava e não havia nada que a distraísse ou convencesse de que estava tudo bem. Os pais chegaram a imaginar que pudesse haver algum defeito na cadeira, ou um parafuso mais alto, que justificasse essa reação da Alice. Mas, a cadeira estava perfeita. Passear ou ir visitar familiares e amigos se tornou um pesadelo, para todos. Diante desta situação, os pais recorreram ao manual da Alice e à sua criatividade. Decidiram, antes de mais nada, tentar entender o que estava acontecendo. Ficou claro que, entender com a Alice dentro do carro, seria impossível. Assim, resolveram tirar a cadeirinha do carro e deixar na sala, sem dar muita atenção para este novo “móvel”.

Quatro dias após a cadeirinha estar na sala,  Silvia me enviou a seguinte mensagem: “A Alice agora há pouco pediu para sentar na cadeirinha (que ela já vê na sala desde segunda, pela manhã). Depois, pediu para que eu sentasse ao lado dela e eu sentei. Ele ficou um pouco, saiu e pediu que eu sentasse na cadeirinha. Eu sentei um pouco e ela pediu para eu sair. Depois, pediu água e foi para a cozinha(encerrando o assunto)”.  Meu comentário foi o de achar a história uma delícia. Ao que a Silvia me respondeu que também tinham achado e que estavam na torcida.

Ontem, recebi um   e-mail da Silvia, que transcrevo a seguir:

Após quase um mês com a cadeirinha em casa, achamos que era hora de colocá-la no carro. A Alice já estava à vontade com ela na sala de casa (assistia TV sentada nela, fazia desenhos, brincava etc.).

Então há uma semana atrás pedi a “ajuda” da Alice para colocar a cadeirinha no carro. Ela me “ajudou” a carregá-la e a colocá-la no assento do carro. Sentou nela a pedido e emendou “quero ir para Niterói”. Eu respondi que para passear de carro faltava colocar o cinto. Daí o tempo fechou, ela ficou inquieta, disse que não queria ir para Niterói, não queria o cinto e queria voltar para casa. Eu disse que tudo bem: “Hoje você não precisa, vamos para casa”. Meia hora depois, em casa, já em outra atividade ela me diz: “Mamãe, não quero cinto”.

Alguns dias depois encontramos a madrinha dela e o marido e eles, sabendo do problema, resolveram fazer uma brincadeira: tudo que fizéssemos de bacana colocávamos um “cinto” imaginário antes, porque aí ficava “melhor”. Vamos comer um doce? Então vamos botar o “cinto” antes… e assim por diante.

Hoje decidimos que seria um bom dia para tentarmos um passeio curto de carro, todos bem-humorados, calmos, o dia bonito etc. Não mencionamos a cadeirinha nem o cinto mas antes de sairmos o Pedro mostrou para ela um desenho animado para crianças, bem bonitinho, sobre a importância do uso do cinto, que ele pesquisou no youtube. Como só tinha em inglês, ele ficou fazendo a tradução simultânea. Ela assistiu com atenção e quis ver várias vezes a cena que mostra o que acontece com quem não usa o cinto (é uma cena bem leve).

Bom, fomos para o carro e ela sentou sem problemas mais uma vez. Falamos firme e gentil com ela: agora vamos botar o cinto. Ela começou a se agitar, eu falei que eu conseguia soltar o cinto quando ela quisesse. Ela ficou puxando o cinto para frente e me ofereci para segurar o cinto, desprendendo do peito dela. Conseguimos distrai-la e assim ela foi no percurso de ida: o cinto preso e eu segurando-o afastado do peito dela.

Na volta, surpresa: Apesar dos protestos (fracos) fechamos o cinto e ela o deixou na posição correta. Distraiu-se com desenho animado e de vez em quando resmungava que não queria o cinto, mas estava relaxada.

Enfim, por ora – e perto de como ela já esteve -, um sucesso estrondoso!!!!!

Eu fiz um relato longo porque os detalhes podem servir de ideia para outras situações semelhantes. Afinal, não sabemos exatamente o que deu resultado (ou se foi um somatório).

Um abraço e obrigada,

Silvia

Francamente, acho que, neste relato, podemos perceber um somatório de ações que Silvia e Pedro tomaram que contribuiu para que a Alice perdesse o pânico que tinha ao se sentar na cadeirinha. Dentre essas ações, destaco:

– o respeito dos pais à uma resistência da Alice. Ao não medir forças com Alice, Silvia e Pedro se colocaram em uma posição de não confronto. Quando há um confronto, haverá um vencedor e um vencido. Na posição de não confronto, pode surgir uma solução. O não confronto corresponde a ler o manual da Alice. Ler o manual do google, do livro, do curso de pais, das avós ou do pediatra pode dar a falsa sensação de que há uma verdade e esta deve “triunfar”.

– o envolvimento da Alice na solução.  A partir da posição de não confronto, Silvia e Pedro, permitiram que a Alice fosse dando as cartas, mostrando o caminho. Se aproximou da cadeirinha na sala, com certo cuidado. Testou, retestou, até que sentiu total conforto para sentar, desenhar, brincar com e na cadeirinha.

– a criatividade. Na ausência de uma solução pronta, foram criativos ao tirarem a cadeirinha do carro e “esquecer” ela na sala. O movimento racional, lógico, poderia ter sido um de dois. Ou tentar convencer Alice de que não havia nada de errado com a cadeirinha, ou forçá-la a se sentar e deixar que chorasse “até que se acostumasse”. Uma cadeirinha de carro é para ficar no carro. Só com  alguma criatividade se leva uma cadeirinha de carro, para a sala!

– a paciência. O resultado só apareceu quase um mês depois de iniciado o processo. O tempo que as coisa levam para acontecer, é o tempo que leva! Uma obviedade que, em tempos do instantâneo, do rápido, do agora, nem sempre nos lembramos. Respeitar esse tempo, sem atropelar o processo, é muito importante.

– a firmeza  e/ou energia, a partir de um dado momento onde perceberam que já era possível ou necessária essa atitude. Alice sinalizou que estava pronta, mas, na hora H, “amarelou”. Neste momento, o ato de amor foi o de “empurrar” a Alice. Em inglês, existe uma palavra que define esse empurrão- nudge. É o que a mãe do elefante faz com a sua tromba, para dirigir o filho. Amor não é só acolhimento, aceitação e tolerância ilimitada. Amor é, também, saber usar a autoridade e energia, na hora certa. Alice precisava desse “nudge”.

E, talvez, o mais importante- a ausência de regras pré-fabricadas. Foram construindo a solução, dia a dia, sem estarem presos a esquemas pré-concebidos.

Obrigado à Silvia, Pedro e Alice (eles sabem quem são!) por me permitir compartilhar esta história. Estou certo de que ela poderá inspirar os pais a, diante de uma situação inusitada, buscarem no manual dos filhos, uma solução criativa, envolvendo-os, com a necessária paciência e , no momento certo, o uso adequado de energia.

Parabéns aos três!

 

 

 

4 pensamentos sobre “UMA AULA PRÁTICA DE COMO LER O MANUAL DA CRIANÇA.

  1. Artigo interessantíssimo não apenas para os pais, mas para educadores. Quando eu era criança, me perdia com facilidade, as professoras brigavam comigo pensando que era por desobediência e eu, ainda criança, nunca soube explicar que na verdade haviam momentos em que eu me distraía, divagava, e quando voltava a mim ficava confusa porque não percebia que havia se passado algum tempo, apenas sabia que as pessoas haviam mudado de lugar ou já não eram as mesmas pessoas ali. Levei muitas broncas, me consideravam como aluna desobediente, mas nunca tentaram ler o meu manual. Só fui descobrir o problema com 17 anos de idade, quando um professor que era médico percebeu o que ocorria durante uma de suas aulas. Conheci o seu site ao procurar sobre medos em crianças por causa do comportamento de um sobrinho meu e agradeço por compartilhar tantos conhecimentos, agora tenho uma ideia de como proceder e ler o manual dele.

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