A MÃE SUFICIENTEMENTE BOA.

Hoje é o dia das mães e sinto um certo bloqueio criativo para escrever algo que seja, ao mesmo tempo, original, interessante e carinhoso. Não deveria ter relido posts que escrevi em dia das mães passados! Gostei de alguns, o que só aumentou meu bloqueio porque me convenci de que já tinha escrito o que eu poderia escrever a respeito da mães, no seu dia. Se algum leitor do blog desejar visitar esses posts, seguem os links: MÃE COM M DE MULHER!    RECEITA DE MÃE  MÃE OU MULHER?  MÃE

Em um mundo onde fazer, realizar, agir, bater metas, atingir objetivos, se tornou praticamente a única forma de se obter reconhecimento, sucesso e realização, é razoável que tentemos transformar todos os aspectos das nossas vidas em desafios, onde essa lógica (da ação e metas) funciona muito bem. Essa lógica é perfeita para uma empresa ou empreendimento, para atividades físicas, para o planejamento de vários aspectos da vida como viagens, cursos, orçamento familiar, mas, definitivamente, não dá conta de todos os aspectos das nossas vidas. A complexidade da vida não se deixa reduzir a uma planilha Excel, nem a um ou dois aplicativos que tudo registram, controlam e calculam. Mas, na cultura vigente, é como se fosse possível traduzir a nossa complexidade a uma só linguagem, a da eficiência. Toda vez que tentamos reduzir algo complexo a uma única “fórmula”, nos comportamos como uma sapataria que só vende calçados no tamanho 36! Muitos pés caberão nos sapatos vendidos, mas um número grande, permanecerá descalço.

Quando falo da complexidade da vida humana, não me refiro a nenhuma teoria de difícil compreensão. Falo do nosso dia a dia. Por que um dia acordamos de bom humor e outro nem tanto? Por que olhamos para um nascer do sol e temos um sentimento gostoso, difícil de descrever? Por que me nos emocionamos ao ouvir uma música (e não outra)?  Por que, mesmo com toda a informação disponível, existem fumantes? Por que instalamos um aplicativo para saber onde tem lei seca ao invés de ir e vir de taxi? Por que sentimos atração por uma pessoa e não por outra? Por que, com tantas publicações, blogs, programas de TV, falando de alimentação saudável, só aumenta o percentual de pessoas com sobrepeso? Por que existem guerras?  Claro que um pragmático radical terá uma resposta simples e convincente para todas estas perguntas. Mas, o fato é que não existem repostas únicas, muito menos simples.

Nesse contexto, as mulheres se tornam mães e a maternidade passa a ser vista como um “empreendimento”. A cobrança explícita ou velada é uma só: performar para ser uma mãe maravilhosa (leia-se, uma mãe perfeita).  Amamentar deixa de ser um meio, para ser um fim. É como uma maratona a ser corrida, amamentar até os 6 meses de idade. E lá vai a mãe, ofegante, atravessando o terceiro mês e a torcida (grupos de mães no WhatsApp) gritando: não para não! Continua! Só faltam 3 meses, não vai parar agora, vai? O que deveria ser prazeroso para o bebê e para a mãe, virou meta a ser cumprida (em tempo- óbvio que sou defensor do aleitamento materno exclusivo até os 6 meses. Só não sou um fundamentalista que acha que é isso ou nada! Leiam MAMADEIRA: ASSUNTO PROIBIDO!). Além de amamentar, a mãe não pode falhar em nada! Ao seu redor, todos os bebês dormem a noite inteira, nunca golfam, choram pouco e os que já estão comendo, comem tudo! A cobrança é total e o desespero, idem. Essa mãe passa o dia correndo atrás de uma meta imaginária e inexistente de perfeição que só a exaure física e emocionalmente.

Essa exigência da perfeição explica, em parte, a proliferação de cursos sobre tudo que se possa imaginar. Desde o curso geral, como ser uma ótima mãe, até os mais específicos: como dar o banho no bebê, como amamentar, como trocar fraldas, como estimular o seu bebê, como fazer o bebê dormir, o cardápio saudável etc.  As pessoas entram em tal frenesi que sequer param para pensar como a humanidade chegou até aqui. Foram 70 mil anos de percurso (homo sapiens falante) até os dias de hoje. Durante aproximadamente, 60 mil anos, fomos caçadores coletores, andando pelo mundo. Só começamos a escrever há uns 12 mil anos, a prensa só tem 570 anos, a pediatria uns 300 anos e o Google, 19 anos. O ponto é que a espécie sabe cuidar da espécie! Esse saber é intrínseco, não dependendo de cursos, pediatras, grupos de WhatsApp etc.  Claro que o progresso e a tecnologia tornaram nossas vidas muito mais seguras e confortáveis. Mas, posso garantir que Michelangelo e Einstein não tinham tapetinhos estimuladores, nem suas mães lhes deram comida utilizando o método BLW (ou qualquer método)!

Em torno de 1950, Donald Winnicott, um pediatra que se tornou psicanalista, cunhou a expressão- mãe suficientemente boa (good enough mother). O que Winnicott queria dizer é que as mães, ao olharem para seu bebês, são capazes de identificar suas necessidades (no bebê pequeno, a necessidade essencial é viver) e estar lá para atendê-los. Simples assim, ainda que muito cansativo. O segredo (acho eu) está no olhar para o seu bebê e não para o mundo de livros, sites e conselhos que existem. Estes, ainda que possam conter algumas informações úteis e interessantes, sempre falam de um bebê médio, de um bebê estatístico. O bebê individual é único só é conhecido por seus pais. Estes são os verdadeiros “especialistas” no filho ou filha. (MANUAL DE INSTRUÇÕES PARA CUIDAR DOS NOSSOS FILHOS. UMA AULA PRÁTICA DE COMO LER O MANUAL DA CRIANÇA.)

O olhar a que Winnicott se refere não é apenas o olhar objetivo, mas, sobre este, o olhar afetivo. É no olhar afetivo que mães e bebês trocam informações que, sem que se deem conta, farão com que se entendam e o bebê possa se desenvolver bem, tanto objetivamente (peso, tamanho, conquistas motoras etc.) como subjetivamente (identidade pessoal, autoestima, capacidade de tolerar frustrações, afeto, agressividade etc.). O afeto é um sentimento onde a lógica da performance não se aplica. Não se quantifica afeto, não se traduz o afeto em metas e objetivos. O afeto se vive e esse viver afetivo é fundamental para todos nós os seres humanos.

Se eu pudesse desejar algo para todas as mães no seu dia, seria que confiassem na sua emoção ao olhar para o seu bebê ou criança, desconfiando de todas as regras e métodos que lhe tentarem empurrar.

Que todas as mães possam se sentir excelentes mães por serem apenas suficientemente boas, sem buscarem a perfeição. E, uma vez livres desse peso (da perfeição) possam deixar fluir o amor que nos torna humanos.

 

 

 

 

 

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