PRESCREVENDO O ÓCIO PARA CRIANÇAS !

Pensar em crianças (exceto os bebês muito pequenos e, muitas vezes, até estes) é pensar em atividade. Crianças brincam, se movimentam, correm, pulam, sobem onde devem e não devem. Crianças mexem em botões, tiram as coisas do lugar, perguntam sem parar. Crianças são energia pura. Alguns pais dizem que seus filhos parecem “ligados na tomada” e só param na hora de dormir. Não é sem motivo que todos os pais se sentem exaustos após um dia com seus filhos. child_relaxing-wide

Essa realidade nos faz pensar que crianças precisam de atividades. Quanto mais, melhor. Certos pais podem pensar que mais atividades seria melhor porque cansaria mais a criança e isso facilitaria o sono, permitindo que eles também pudessem descansar. Outros, podem supor que mais atividades representariam mais estímulos e isso aumentaria a capacidade da criança, seja física, seja intelectual.

Vamos dar uma pausa (sem trocadilho) e viajar pela história da língua ou etimologia. Os gregos, que muito antes do google, irritantemente escreveram e comentaram sobre quase tudo que é essencial para nós, deram o nome de scholé para o momento de lazer, ócio, onde as pessoas, incluindo as crianças, poderiam estar com a mente livre para aprenderem coisas novas. Já devem ter desconfiado que a scholé grega é a nossa palavra escola. Portanto, para se aprender algo, os gregos já sabiam que era preciso estar em um estado de “desocupação”, com a mente livre para o novo. O trabalho, a atividade, tinham outro nome- ascholé. O a, em grego, significa negação. Então, o nome que deram para o trabalho foi, traduzindo, “não escola”, signficando não lazer, não ócio. Se formos ver como os romanos resolveram isso, constatamos que “copiaram” os gregos. Eles usavam a palavra ócio, para esses momentos de devaneio, pensamentos soltos e negócio (neg + ócio = negação do ócio!) para o trabalho. Vejam que em ambas culturas deram mais valor ao tempo livre que tinha um nome só para si, enquanto o trabalho ganhou o nome de “não tempo livre”.

Voltemos ao presente e a essa altura já devem estar se perguntando onde eu quero chegar. Talvez muitos já tenham percebido que o caminho que escolhi foi uma brincadeira para pensarmos um pouco no uso do tempo de nossos filhos. Não há a menor dúvida quanto à necessidade e importância de atividades no dia a dia das crianças. Mas, em mundo onde a cultura dos negócios (olha a negação do ócio aparecendo), de certa forma, invadiu nossas vidas, pensamos sempre em performance, resultados, metas e objetivos. Nesse cenário, não fazer nada é perder tempo, desperdício.

Quero provocar meus leitores a pensar em não fazer nada como um investimento! No planejamento das atividades de nossos filhos, devemos considerar um tempo para não fazerem nada. Um tempo ocioso, onde, deixados livres, farão o que quiserem. Para fazer o que quiserem, terão que ousar e criar. Sem a nossa ajuda, determinando o que é para ser feito ou sugerindo brincadeiras, terão um tempo para a reflexão criativa.

O tempo sem fazer nada é onde tudo acontece!  É o tempo onde a noção de liberdade se expressa com intensidade e as descobertas de limites e responsabilidade também vão acontecer.  Que pais não desejam que seus filhos sejam adultos livres, independentes?  Não fazer nada,  é o tempo onde através da criatividade se constrói a auto estima, a noção de capacidade e competência, a segurança em si. Que pais não desejam isso para seus filhos?

Em um mundo onde fazer é fundamental, não sobra tempo para ser! Na agenda de seus filhos, deixem um tempo para que não façam nada e possam ser  pessoas felizes. Na agenda de vocês, deixem um tempo para contemplarem os filhos crescendo, sem, obrigatoriamente, ter que fazer algo, o tempo todo.

 

4 pensamentos sobre “PRESCREVENDO O ÓCIO PARA CRIANÇAS !

  1. Concordo inteiramente com o ócio, e o chamo de ócio criativo.. No diário de minha primeira filha, que mantenho sem muita regra de frequência ou mesmo sem saber até quando vou escrever nele, tenho uma página inteira só dedicada ao ócio. Imagino q ela vá gostar de ler sobre si mesma no futuro, como era, quando falou, o q gostava de fazer, como agia em determinadas situações, enfim, tudo q pode parecer pouco importante agora mas que, no futuro, pode ajuda-la a se reconhecer, a aceitar quem é, a descobrir quem foi, enfim. E, claro, nas entrelinhas, alguns conselhos da mãe.
    Como o ócio criativo.

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