O PEQUENO EXECUTIVO

A lógica empresarial é a do crescimento e lucro. Para isso, precisa de profissionais qualificados. Por qualificados, entenda-se eficientes, eficazes, auto-motivados, competitivos, ambiciosos, que perseguem os resultados. No jargão das empresas, essas pessoas “entregam”. Isso é perfeito para empresas, negócios, que têm donos ou acionistas preocupados com o retorno dos seus investimentos. O problema é quando essa lógica ultrapassa os limites das empresas e passa a fazer parte da vida, como um todo.

O que vemos, no entanto, é que essa lógica foi se instalando e, sem nos darmos conta, está presente na nosso dia a dia. A cultura da gestão eficaz passou a fazer parte do dia a dia das famílias. Uma viagem de lazer é encarada como um desafio à otimização do tempo e minimização de custos, com maximização de benefícios. Um jantar é considerado bom quando a relação custo/qualidade é satisfatória. Até aí poderíamos  considerar que querer ser organizado e não gastar mais do que o necessário é perfeitamente aceitável ou desejável. O problema (na minha opinião) é quando esse tipo de lógica passa a definir ou guiar a forma com que fazemos as escolhas para nossos filhos.

Vemos pais escolhendo escolas primárias usando critérios de bom investimento ou aprovação no vestibular, sem considerar que o desenvolvimento da criança passa por diferentes etapas. Crianças menores precisam de estímulos à criatividade, um ambiente acolhedor e pouca ou nenhum rigor pedagógico. Assim, poderão desenvoler melhor suas aptidões e, quando for  o momento adequado, performar academicamente de forma satisfatória.

Vemos crianças com agendas de fazer inveja a um executivo de multinacional! Essas crianças, como os bons executivos, se ressentem da falta de tempo. No caso das crianças, falta de tempo para ser criança. Simplesmente se divertir, brincar, sem obrigatoriamente estar fazendo algo produtivo, só sendo criança. Se criança também significa descansar, tirar uma soneca. Não só bebês precisam dormir, crianças até uns 5 ou 6 anos também. Quando não dormem ou descansam, ficam excitadas ou irritadas e os adultos interpretam como sendo falta de atividades e ainda acham mais coisa para a criança fazer!

Nos preocupamos com o futuro de nosss filhos, o que é humano e normal, mas, frequentemente, nos descuidamos do presente. Porque o mundo é competitivo e duro, não significa que as crianças devam competir e viver as durezas da vida, desde pequenas. É preciso que respeitemos as etapas de cada criança. Um bom exemplo é o da educação sexual. Quando seu filho lhe pergunta de onde ele veio ou de onde vêm os bebês, sua resposta será curta, objetiva, na medida do que ele pode entender e assimilar, neste momento. Jamais lhe dará uma explicação completa da anatomia, fisiologia e psicologia sexual do ser humano. Não fará isso porque ele ainda não está pronto para isso. O mesmo acontece com a realidade da vida adulta. Esta existe e temos a obrigação de educar nossos filhos para que possam ser pessoas adaptadas e felizes, nessa realidade. Para isso, precisamos respeitar os tempos e desenvolvimento de cada criança. Precisamos lembrar do que uma criança precisa ser criança e para isso:

  1. precisa de carinho. Não só o carinho da preocupação com as escolhas, mas o carinho físico. O embolar junto, beijar e abraçar muito.
  2. precisa de tempo com a família. Jantar ou almoçar com os pais e irmãos. Sairem todos juntos para um passeio ou programa.
  3. precisa brincar. Brinquedos criativos, brincadeiras ao ar livre, muita risada e gargalhada.
  4. precisam ler. Menos tempo de TV e computador e mais livros. Desde os 6 meses os pais podem e devem ler para seus filhos.
  5. precisam de elogio, reconhecimento. Claro que, a partir de uma certa idade, toda criança precisa aprender que existem limites. Cabe aos pais essa dura tarefa. Mas, na nossa cultura, elogio “estraga”. Isso é um mito. Falta de elogio mina a segurança e a auto estima. Elogiar, celebrar as pequenas conquistas, é fundamental.
  6. precisam de poucas regras vindas de manuais ou “experts”. O sentimento dos pais e os valores familiares devem prevalecer sobre regras externas. Ouvir opiniões e se aconselhar com pessoas em quem confiam é importante. Mas, isso é bem diferente de considerar que as regras externas são leis a serem obedecidas, mesmo que não façam o menor sentido para vocês, pais. Se não faz sentido, ignore!

Este é um tema polêmico. Como em todos meus posts, gostaria de ouvir (ler) os seus comentários.

8 pensamentos sobre “O PEQUENO EXECUTIVO

  1. O termo limite está bastante em voga nos dias atuais. Eu consegui tirar uma certa ” cortina de fumaça” com relaçao ao tema voltando a usar uma sentença de longa data: ” O meu direito ( como mae) termina quando começa o do outro (filho)”. A criança tambem DEVE ser respeitada,. Respeitada para que no futuro nossos filhos sejam pessoas seguras, independentes, com auto estima…

  2. Realmente tema bem polemico !
    A sociedade muitas vezes nos coloca em situações aonde acabamos nos esquecendo de que se trata somente de uma criança.
    Veja, hoje em dia para se entrar em algumas das escolas mais tradicionais da cidade a criança precisa fazer um cursinho para que se possa realizar um vestibulinho e desta forma tornar a sua vaga garantida. COMO ASSIM ??? Estamos falando de crianças de 5 anos e nao de um adolescente de 17-18 que deveria, mas nem sempre sabe, o que gostaria de fazer e ser no futuro.
    Nao distante estão os pequenos bebes que ja precisam ir a aulas de psicomotricidade e aulas dissos e daquilos e mal ficam em casa de ” bobeira” fazendo nada que nao sendo bebes.
    Complicado…
    Ninguém quer que seu filho fique para trás ,que seja menos que um outro bebe. Acredito que isso motive cada vez mais as maes a criarem um pequeno executivo.
    Diversas vezes ouvi comentários do tipo: ” Nossa, aquele bebe tem a idade do meu e ja se senta ou nossa, ela ja esta andando ? Ja fala ? Toma suco no canudinho ? Come sozinha ? Gente, meu filho esta com atraso de desenvolvimento porque ele nao eh tao ativo quanto os outros bebes da pracinha.”
    Ate onde sei o desenvolvimento eh individual, depende do estimulo que o bebe recebe, depende do ambiente aonde ele vive e simplesmente depende dele mesmo. Cansativo esta competição entre maes para ver qual eh o mais esperto, o melhor do grupo. Quem eh o pequeno executivo.
    Acho importante dosar. Procuro muito este equilibrio.
    Minha filha ganhou de presente uma caixinha de Lego ( pecas de encaixe ) do tema do ursinho Pooh. Ela tem 02 anos, acha bonitinho o ursinho e achei que fosse ser interessante o brinquedo mesmo sabendo que ela eh muito pequena para monta-lo e por isso nao o troquei. Quando ela abriu a caixinha fiquei curiosa para saber o que ela iria fazer com as pecinhas. Todos ali presentes ficaram apreensivos e olhando para ver a sua reação e de repente ela começou a enfileirar as pecas, colocou-as uma ao lado da outra, olhou para mim e morreu de rir achando o máximo aquela brincadeira.
    O sentimento de satisfação dela foi tao bom e sincero que ninguém, muito menos eu , teve coragem de mostrar a ela o que fazer exatamente com as pecinhas do Lego, a brincadeira virou enfileirar e nao encaixar.
    Oras, deixe ela ser criança, usar a imaginação e fazer o que quiser, pelo menos no dia do aniversario dela, hehehehe !!!

    Beijos

    Bia

    • Bia,
      Ao nos preocuparmos com o futuro, perdemos o presente. E é exatamente no presente que se modela o futuro! Há um tempo para tudo, ciclos de maturação, que não podem ser acelerados. Ninguém pensa em exigir do obstetra uma gravidez de 3 meses! Em termos de desenvolvimento, onde cada um é, de fato, único,impossível comparar. Essa história de supor ser possível apressar o desenvolvimento me fez lembrar da senhora de meia idade que, ao entrar no taxi, disse para o motorista: vamos devagar porque eu estou com pressa.
      Quanto ao Lego, achei perfeita a sua opção de deixar sua filha brincar com as peças do jeito que ela quis. A função do jogo é desenvolver a criatividade e alguns aspectos motores da criança. A função do jogo não é acertar. Pelo menos, não aos 2 anos. Parabéns!

    • Concordo plenamente. Hoje em dia desde 6 meses de idade já existem todos os tipos de cursos, além das creches. Caso o seu filho nao entre neste “esquema” acaba parecendo “atrasado” em relaçao as outras crianças…É uma situaçao angustiante, pois como muito bem colocado por voce, COMEÇA A COMPETIÇAO. Há todo um futuro para este mundo selvagem, portanto, nao concordo em tirar este tempo de bebê- criancinha tao cedo !!! Mas, por outro lado ver seu filho o “unico” q ainda nao faz malabarismos aos 2-3 anos de idade, e ainda ser inferiorizado é bastante desagradavel.Complicada a situaçao !!!

      • Thais,
        Concordo que a situação não seja simples e a pressão social enorme. Mas, já existem movimentos na direção oposta, sem serem “alternativos” ou idealistas. O que se está descobrindo, através de pesquisas, nossos avós já sabiam. Há um tempo para que as coisas maturem e é impossível se acelerar esse tempo (na expectativa ilusória de se ganhar tempo). Portanto, vamos ver, espero que em breve, que os pais preocupados com futuro de seus filhos (todos nós, é óbvio), colocarão mais foco nas necessidades do presente, do momento em que a criança está sem aclerar, nem frear. Apenas respeitando as necessidades próprias da criança, no estágio de vida em que se encontrar.

      • É EXTREMAMENTE importante tambem lembrarmos o que vc mencionou: Nao frear o processo. O prejuizo tb é muito grande, como exemplo, necessidade de fonoaudiologista. Como tudo na vida , os extremos não sao bons.

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