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QUANDO VOU DORMIR DE NOVO?

maecsonoUma leitora do blog sugeriu o tema- quando vou dormir de novo?-, que achei extremamente interessante. No mínimo, é um tema que interessa a todos os pais de bebês e crianças pequenas. Resolvi escrever a respeito e me vejo diante de uma dúvida imensa: o que escrever? Imaginei escrever o post mais curto da história:

NUNCA!

O argumento para o post mais curto seria o de que, em cada etapa da vida de nossos filhos, sobrarão motivos para tirar nosso sono. Da demanda absoluta do bebê, passando pelas pirraças, os medos infantis de madrugada, as febres e tosses,  a preocupação com o comportamento, a rebeldia juvenil, as notas na escola, os namoros e festas da adolescência, a escolha da profissão, o vestibular, o emprego, a escolha de uma companheira ou companheiro, o padrão de vida e, até,finalmente, os netos deixados na nossa casa para que os pais possam ter uma noite de sono- tudo conspira contra dormir de novo!

Mas, este não é um post carregado de pessimismo amargo, mas de uma pitada de humor. Somente com algum humor é que poderemos encarar a realidade em que se tornou nossas vidas, depois dos filhos. Mais especificamente a noite, quando tudo o que queremos é dormir direto, sem que um bebê lindo resolva, às 3h20minutos, gargalhar, fazer barulhos e, finalmente, chorar de fome!

Para quem é leitor do blog, já sabe que, aqui,  não vai encontrar fórmulas mágicas. Nesse capítulo (das fórmulas mágicas para dormir de novo), já conversei com o pai de um paciente, ele humorista, a respeito da escolha entre vodca e Stilnox  (para os pais)! Como ele é humorista, não passou de uma piada feita por um pai com profundas olheiras!  Para quem nunca leu o meu blog e chegou até aqui pelo Google, com a expectativa de encontrar uma receita infalível que lhe devolva o sono, sugiro que nem continue a ler porque vou frustrá-lo. Não tenho essa receita.

Não ter fórmulas ou receitas não significa que não possamos pensar, juntos, a respeito. Começando pelo bebê, precisamos entender que suas necessidades são específicas e especiais. Somos a única espécie de mamíferos que nascemos sem a capacidade de nos locomovermos nas primeiras horas ou dias de vida. Um cavalinho quando nasce, se levanta, trôpego, mas fica ali, de pé, ao lado da sua mãe. Se ela anda, ele anda atrás. Isso, no momento do nascimento. O mesmo acontece com gatos, cachorros e baleias. Nenhum mamífero fica parado, imóvel ou apenas com movimentos dos membros, sem capacidade de sair um centímetro do lugar, exceto nós, humanos. Isso acontece porque a nossa cabeça é proporcionalmente maior do que as dos demais mamíferos e a bacia da mulher tem proporções semelhantes às de nossos ancestrais comuns. Se fôssemos nascer com as mesma aptidões motoras que os demais mamíferos, deveríamos nascer como uma criança de nove meses, que já começa a engatinhar. Uma criança de nove meses jamais passaria pela bacia de uma mulher. Por esse motivo, nascemos antes. Somos, relativamente aos demais mamíferos, prematuros. Isso tem consequências imediatas no cuidar de um bebê que tem dependência absoluta de um adulto, para sobreviver. É como se, após uma gravidez dentro da barriga da mãe, existisse outra, fora, , de aproximadamente mais nove meses, onde é preciso dar carinho, alimentação e proteção, 24h por dia. Dentro da barriga já cansa muito, fora então, acabam-se as noites dormidas por inteiro.

Algumas pessoas acreditam que um bebê seja uma folha em branco, sem genética, sem emoções, sem estar construindo uma identidade. Para estes, tudo não passa de uma questão de condicionamento. Se fizer isso, o bebê responde desta forma. Se fizer aquilo, de outra. De fato, bebês e seres humanos respondem de acordo com estímulos. Um bom número de prisioneiros políticos, sob tortura, confessam o que for. Bebês, submetidos à tortura do condicionamento, deixados sozinhos, chorando, “aprendem” a dormir. Não dormem por aprendizado, mas, por desesperança, desistência. É o que demonstram os estudos que medem os níveis de cortisol (hormônio associado ao estresse) em bebês chorando e os que “aprenderam” a dormir. Em ambos, o nível é elevado, demonstrando que, mesmo dormindo, continuam estressados. A pergunta é: como será a construção da identidade de um ser humano exposto ao que percebe como abandono, ainda sem ter como dar conta desse sentimento? Não é de surpreender a quantidade de adultos com personalidade psicótica convivendo conosco. Portanto, nesse período, não dormir a noite toda é consequência de características humanas e do reflexo primitivo de não deixar um bebê chorando. Não digo com isso que tenhamos prazer ou alegria em acordar de madrugada para segurar um bebê no colo. Pelo contrário, podemos ter sentimentos impublicáveis, mas, o reflexo não é o de virar de lado e tentar dormir, como faríamos com o barulho de uma festa acontecendo no vizinho. Levantamos, nem que seja para ver se está tudo bem.

Dito isso, talvez nesta fase o que poderíamos fazer, na tentativa de voltar a dormir quando a criança for um pouco maior é a de deixar o bebê dormir no seu próprio berço e, o quanto antes (e se possível), no seu próprio quarto. Assim, quando chegar o momento de criar uma rotina para a criança dormir, ao redor de um ano, ela já terá a noção do seu berço e quarto.

Outra atitude que pode nos ajudar a ter uma noite de sono, é a implantação de uma rotina da hora de dormir. Desde os oito ou nove meses, já se pode instituir uma rotina ou um esboço do que virá a ser uma. Definir e anunciar para a criança a hora para apagar as luzes ou deixar apenas uma pequena luz, ler ou cantar, evitando fazer outras atividades neste momento (que pode demorar!).  Também ajuda compreender que, nesta idade, a criança vai acordar, mais porque quer ter certeza de onde estão seus pais e não por fome ou outra necessidade. Nesta idade, não há mais a urgência de atender a criança, como quando era bebê. Podemos esperar um pouco, apenas falar para que ouçam nossa voz, entrar no quarto, sem pegar a criança, fazer um carinho com a criança no berço. Bem diferente de um bebê! Aqui, não se trata de condicionamento para dormir, mas, de aprendizado a lidar com pequenas frustrações e o desenvolvimento da capacidade de se auto-consolar. Nem sempre isso é fácil para os pais, habituados que estão a atender às necessidades de um bebê. Não só a questão do hábito, mas, para nós, amor é dar. Difícil compreender que demorar um pouco, retardar o atendimento à demanda da criança ou mesmo não atendê-la, é uma forma de amor fundamental para o seu desenvolvimento. Mas, é uma fase que ainda dá trabalho e, talvez as noites não sejam de sono completo e reparador!

Em torno dos dois anos, os pais podem (e devem) ser muito mais claros com os limites. Se passamos pelas etapas anteriores, é a hora de respeitar a rotina da hora de dormir e, sempre de forma carinhosa, dar à criança o espaço para “se virar sozinha”. Isso pode significar ouvir um choro e não atender, excluindo quando suspeitarmos de que a criança possa estar passando mal ou com algum desconforto físico.paidormindo

Talvez, o mais importante seja os pais se darem conta de que a perfeição não existe. Se conseguirmos, passado o período da gravidez fora da barriga,
aquele da dependência absoluta, retomarmos nossas vidas, estaremos ensinando a nossos filhos duas coisas importantes para o seu bem estar: eles têm a vida deles, devendo cuidar dela e não precisam ser perfeitos (o que dá um enorme alívio a qualquer um). Ser perfeito exclui o bom humor porque a perfeição, sendo inatingível, transforma qualquer possibilidade de sorriso em cobrança e culpa. Cobrança e culpa, dificilmente têm graça. Por outro lado, pais humanos, limitados, imperfeitos, ganham como bônus o relaxamento do riso e o prazer do afeto.

E, durma-se com um barulho destes!

O SONO DO BEBÊ

Nada mais angelical do que um bebê dormindo. Por outro lado, nada mais cansativo, frustrante e até irritante, do que a falta de ritmo e regularidade que o sono de um bebê pode ter. Em geral, nos primeiros meses de vida todos os pais tem aquela cara de quem acabou de completar uma maratona, exaustos. Não raro os pais chegam ao consultório do pediatra com perguntas sobre o sono. A resposta mais desejada é quando que o meu bebê vai dormir a noite toda!. Impossível esgotar um assunto como esse em um blog, mas vou abordar alguns pontos, com a expectativa de ajudar os pais a, se não ficarem descansados, pelo menos relaxarem um pouco.

Um recém nascido dorme em torno de 16hs por dia, ou mais. Mas, este sono não é como o do adulto, contínuo ou por longos períodos. Cada bebê estabelece um ritmo próprio de dormir e, não raro, dorme por períodos de 1 a 2 horas. Portanto, não se assustem se o sono do seu bebê for “picado”.

Bebês pequenos desconhecem o que seja dia ou noite. Assim, esse sono curtinho, acontece de forma quase que igual se for de dia ou de noite. Em torno de 3 a 4 meses de idade, seu bebê poderá começar a aumentar o tempo de sono à noite. Mas, lembrem-se que a escolha do ritmo de sono é sempre do bebê. Algumas pessoas dirão que um bebê deve ser “ensinado” a dormir. Dirão ainda  que, não ensinar o bebê a dormir, desde pequeno, vai ter como consequência, uma criança mimada, difícil. O pior é que existem livros escritos que reforçam essa crença e “ensinam” os pais a fazerem seus filhos dormirem à noite. BEBÊS NÃO DEVEM SER “TREINADOS” A DORMIREM À NOITE. O ritmo de cada criança deve ser respeitado e nenhuma criança se tornará mimada ou com problemas, por esse motivo.

Crianças maiores, em torno de um ano, dormem, em média, um pouco menos de 14 horas por dia.  Médias são medidas de tendência e não de normalidade. A normalidade é definida pelo desenvolvimento da criança, seu comportamento, crescimento etc. Não só pelo número de horas que dorme por dia.

Em torno de um ano vocês poderão começar a tentar implantar algumas medidas práticas, visando o sono tranquilo do seu filho. O que se segue são apensas sugestões e não um “regulamento” a ser seguido.

  • Procure estabelecer uma rotina para a hora de dormir: um mesmo horário, uma desaceleração das atividades, talvez um banho para relaxar. Este é um ótimo momento para a leitura de um livro ou escutar música. Brincar com seu filho, por mais prazeroso que seja, pode ser estimulante ou excitante, tornando o sono mais difícil. Brinque à vontade, até uma meia hora antes do horário que a família definiu como o de ir para cama dormir. Na meia hora ou quarenta minutos que antecedem esse horário, leiam, ouçam musica, conversem.
  • Permita que seu filho leve um objeto ou brinquedo preferido para a cama, exceto algo que tenha o risco de sufocá-lo ou provocar engasgo.
  • Verifique se o ambiente está confortável:  uma pequena luz acesa ou a porta entreaberta, temperatura do quarto, cobertor se estiver frio, um copo d’água ao alcance, se isso for um hábito do seu filho etc.
  • Se forem chamados à noite, saibam que é normal uma criança acordar. Esperem um pouco (pouco mesmo) antes de atender ao chamado. Entre no quarto, sem acender a luz ou fazer grande movimento e assegure que você está perto, falando ou tocando no seu filho. Aos poucos, aumente o intervalo de resposta e tente apenas falar.
  • Muita paciência! Nenhuma adapatação ou mudança de hábitos será rápida. Não raro os pais se sentirão frustrados ou irritados. Isso é perfeitamente normal. Reconhecer esses sentimentos é uma forma de evitarmos que nossa irritação se trasnforme em algum tipo de punição para nossos filhos. Educar é andar sobre esse fio da navalha onde, de um lado existe a tolerância carinhosa e, do outro, o limite, igualmente carinhoso.

Se eu pudesse resumir o que eu penso e como eu acredito que possam ser pais carinhosos, diria duas coisas:

  1. Façam o que o seu coração determinar. Não se deixem levar pelas opiniões de terceiros. Acertem e errem , seguindo seus sentimentos.
  2. Não comprem livros que “treinam” bebês a dormir ou fazer qualquer outra coisa. Treinar um bebê é uma violência.

Finalmente, desejo que todos durmam muito bem!

Como sempre, gosto de receber suas críticas e comentários.

DEVO DEIXAR MEU BEBÊ CHORAR?

Uma pergunta frequente que os pais se fazem é se devem deixar o bebê chorando ou se devem pegá-lo no colo? Existem mitos a respeito de se pegar um bebê que chora, no colo. Se pegar no colo, ele só vai querer o colo. Vai ficar mimado. O bebê precisa aprender, desde cedo, que não pode ter tudo que quer. Pior do que os mitos são algumas publicações que estimulam categoricamente os pais a deixarem seus filhos chorando, principalmente à noite, para que aprendam a dormir. Pessoalmente considero essa orientação absurda e prejudicial ao bom desenvolvimento da criança. Bebês que choram querem e precisam do colo. Nenhum colo dado com carinho e amor será prejudicial, tornará a criança uma tirana ou a transformará em mimada.

Para responder à pergunta se devo deixar meu bebê chorar, pedi à Dra. Eliane Volchan, professora no  Laboratório de Neurobiologia do Instituto de Biofisica Carlos Chagas Filho daUniversidade Federal do Rio de Janeiro que escrevesse um pequeno texto. A seguir, o texto da Dra. Eliane, que dá embasamento científico ao que nós humanos já sabíamos através da emoção.

O Choro do bebê- Dra. Eliane Volchan

Existe uma EXTENSA literatura científica sobre a vocalização de filhotes de várias espécies de mamíferos quando separados de suas mães ou de seu grupo, incluindo as regiões cerebrais envolvidas nesse comportamento (veja lista abaixo). Os filhotes tem um sistema de alarme não-aprendido que se manifesta bem cedo e sinaliza sempre que eles se separam dos adultos, enquanto que os adultos do grupo são extremamente sensíveis a esses sinais. Se assim não fosse, nossa espécie (e a de outros mamíferos) não teria sobrevivido, pois o maior risco à nossa sobrevivência é ficarmos sozinhos (particularmente as crianças)!

Recentemente, estudos mostraram em HUMANOS, que a dor da separação ativa as mesmas áreas cerebrais da dor física. Esses resultados levaram os autores a especular que a separação social equivale à dor física na sinalização de alarme para uma situação premente de perigo. Ou seja, os achados CIENTÍFICOS corroboram o bom senso demonstrando que, quando um bebê chora ao perceber sinais de separação (ausência de contato visual, auditivo e principalmente somático: contato físico corpo a corpo), seu cérebro está acionando o recurso máximo de alarme para uma ameaça à sua sobrevivência. Do mesmo modo, os adultos mais próximos são sensíveis a essa vocalização que provoca atitudes de socorrer e confortar bebê trazendo-o para perto de si e embalando-o.  A proposta de reprimir o impulso de pegar a criança no colo é, assim, absurda, pois viola umas das nossas reações mais básicas e fundamentais da nossa herança evolutiva.

Referencias:

– Eisenberger NI, Lieberman MD. (2004) Why rejection hurts: a common neural alarm system for physical and social pain. Trends Cogn Sci., 8: 294-300

– Eisenberger, N.I. et al. (2003) Does rejection hurt: an fMRI study of social exclusion. Science 302, 290-292

– Kirzinger, A. and Jurgens, U. (1982) Cortical lesion effects and vocalization in the squirrel monkey. Brain Res. 233, 299-315

– Krossa et al (2011). Social rejection shares somatosensory representations with physical pain. Proceedings of the National Academy of Sciences 108 : 6270–6275

– Lorberbaum, J.P. et al. (1999) Feasibility of using fMRI to study mothers responding to infant cries. Depress. Anxiety 10, 99-104

– MacLean, P.D. and Newman, J.D. (1988) Role of midline frontolimbic cortex in production of the isolation call of squirrel monkeys. Brain Res. 45, 111-123

– Robinson, B.W. (1967) Vocalization evoked from forebrain in Macaca mulatta. Physiol. Behav. 2, 345-354

– Stamm, J.S. (1955) The function of the medial cerebral cortex in maternal behavior of rats. J. Comp. Physiol. Psychol. 47: 21-27

Na próxima vez que o seu bebê chorar, pegue-o no colo e sinta que ambos estão felizes. Se alguém lhe disser alguma das barbaridades que são ditas por aí, repasse o texto da Dra. Eliane Volchan.

Gostaria de ouvir comentários dos pais a respeito de coisas que já ouviram com relação ao choro dos bebês. Se tiverem alguma dúvida, enviem que eu tentarei respondê-la.