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PRAIA, PISCINA, BANHO DE MANGUEIRA E… DOR DE OUVIDO!

otite3Continuamos no verão, e que verão! Uma festa para as crianças que se divertem ao ar livre, com uma energia invejável. Correm, pulam, gritam, uma algazarra que traz boas memórias da nossa infância. No post anterior, falei um pouco sobre a importância do protetor solar. Hoje, vou comentar sobre algo que acontece com maior frequência no verão: a otite externa.

A otite externa é uma inflamação do ouvido externo. Para que fique mais claro, sugiro que olhem o desenho no final do post. Verão que o ouvido é composto das seguintes partes:

– pavilhão auricular, conhecido como orelha;

– canal auditivo, que vai da orelha até o tímpano, chamado de ouvido externo, que pode ficar inflamado. Quando fica inflamado, o médico fará o diagnóstico de otite externa (nosso assunto de hoje);

– ouvido médio, que fica após o tímpano. Quando a inflamação é no ouvido médio, o médico fará o diagnóstico de otite média.

O canal auditivo, exatamente por fazer a comunicação entre o exterior (ambiente) e o tímpano, possui alguns mecanismos de proteção e defesa, naturais.  Na parte mais externa, perto da orelha, a pela do canal é mais grossa, com pelos e glândulas que produzem cerúmen (cera). O cerúmen e os pelos são barreiras protetoras do ouvido. Sua função é impedir a entrada de partículas e criar um ambiente que não seja favorável a outras bactérias que não aquelas que vivem normalmente no ouvido. Como em todas as partes do nosso organismo, convivemos com bactérias que são conhecidas como flora bacteriana normal. Muitas destas bactérias têm a função de proteger nosso organismo contra outras bactérias, mais agressivas. Além dos pelos, do cerúmen e da flora bacteriana, o canal auditivo vai ficando mais estreito à medida que vai se aproximando do tímpano. A pele que reveste o canal também se modifica, ficando mais fina e frágil, ao se aproximar do tímpano.

Essa longa explicação tem como objetivo facilitar a compreensão de como pode acontecer uma otite externa. A seguir, algumas das principais causas:

  1. Água- quando o ouvido externo fica muito tempo em contato com a água, a pele que o reveste, fica mais macia e frágil. Basta olhar para a pele das mãos, depois de um bom tempo dentro d´água. Fica bem diferente, toda enrugadinha, mole. A pele dentro do ouvido externo, principalmente aquela mais fininha, perto do tímpano, também sofre alterações e fica mais vulnerável à ação de bactérias trazidas pela água ou até das bactérias “amigas” que moram no ouvido externo e que podem se aproveitar de uma fragilidade da pele para se tornarem bactérias “inimigas”. Além desse efeito sobre a pele, a água pode quebrar a barreira natural do cerúmen, facilitando também a ação de bactérias. Quando as bactérias conseguem vencer essas barreiras, ocorre uma infecção e o organismo responde com uma inflamação. Como a pele perto do tímpano é muito fina, ela também é muito sensível. Assim, uma inflamação pequena pode produzir uma dor intensa, o que, geralmente, é o sintoma principal da otite externa. Depois de um dia divertido na praia, piscina ou brincando com a mangueira, uma noite com dor de ouvido, forte!
  2. Trauma- a limpeza excessiva ou agressiva do ouvido externo pode romper as barreiras descritas (principalmente o cerúmen) e facilitar a infecção com a consequente inflamação.
  3. Uso frequente de de objetos que ocluem (fecham) o ouvido externo, como por exemplo os fones auriculares, tampões de natação, podem alterar as barreiras descrita. Esta causa é menos frequente e é preciso que o ouvido externo fique fechado por muito tempo, muitas vezes, para favorecer uma infecção.

Como desconfiar que uma criança está com otite externa? Dor é o principal sintoma. Uma criança que está bem, sem febre e apresenta dor de ouvido, provavelmente tem uma otite externa. Se ela passou o dia na água, as chances aumentam. Além da dor, a criança pode sentir o ouvido coçar ou descrever uma sensação de entupimento. O diagnóstico certo, só pode ser dado pelo médico, após examinar o ouvido da criança. Enquanto a criança não for examinada pelo médico, os pais poderão dar um analgésico por via oral e fazer um pouco de calor sobre o ouvido, usando uma bolsa de água morna ou um pano passado a ferro, sempre verificando antes se não está quente demais, para evitar queimaduras.  Só o médico deve prescrever o tratamento específico.

Nestes dias de verão, para prevenir a otite externa, existem algumas sugestões “caseiras”:

– antes de entrar na água, pingar uma gota de óleo mineral em cada ouvido. A intenção é criar um filme que proteja o ouvido externo da ação da água;

– ao sair da água, pingar uma gota de solução saturada de álcool boricado a 3% (é preciso encomendar em farmácias de manipulação). A intenção é “retirar” a água que entrou no ouvido com um leve efeito antisséptico (contra as bactérias).

– não usar cotonete. O cotonete pode remover o cerúmen que é um protetor natural ou empurrar a cera mais para dentro do ouvido, criando um tampão. O cotonete só deve ser usado na parte externa da orelha. Lembrem-se que o ouvido tem um mecanismo auto-limpante!

Vejam o desenho que ilustra as partes do ouvido:

ouvido2

 

DOR DE OUVIDO

dor de ouvido1Uma das queixas mais frequentes nos consultórios e emergências pediátricas é dor de ouvido. A principal causa de dor de ouvido é uma infecção que tanto pode ser viral, quanto bacteriana. Somente o seu pediatra, ouvindo a história do seu filho e procedendo a um exame do ouvido (otoscopia) poderá fazer um diagnóstico ( probabilístico) de que tipo de infecção seria. Além dessa classificação em infecção viral ou bacteriana, esta pode estar localizada no canal auditivo e é chamada de otite externa. Quando a infecção se localiza no ouvido médio (atrás da membrana timpânica), é chamada de otite média.Veja a ilustração no final do post (se não confundir mais ainda!)  Crianças entre 6 meses e 2 anos apresentam características anatômicas do ouvido que favorecem o aparecimento de infecções. Por isso, não raro, uma criança pequena apresenta mais de um episódio de dor de ouvido na sua vida. A boa notícia é que, à medida que a criança cresce e a anatomia do ouvido se modifica, essas infecções se tornam menos frequentes, tendendo a desaparecer. A otite externa, frequentemente está associada a banhos de mar ou piscina. Já a otite média, não raro, aparece durante um resfriado comum.

Existem outras causas para a dor de ouvido, menos frequentes:

  • corpo estranho ou machucados- a criança pode ter enfiado a ponta de um lápis ou um pedaço de um brinquedo, que pode ou não estar no conduto auditivo. Se você suspeitar ou tiver certeza de que seu filho introduziu algo no ouvido, NÃO  tente retirar o objeto, por mais fácil que pareça (exceto algo que esteja praticamente do lado de fora e você consiga garantir uma boa “pega”do objeto). Tentar tirar um objeto pode empurrá-lo mais para dentro, aumentando a dor e tornando sua remoção mais difícil
  • cêra (cerumen) impactado- a cêra produzida pelo próprio ouvido pode obstruir o conduto auditivo, gerando desconforto e alguma dor. Em geral, é uma dor muito menos intensa e mais tolerável do que a das otites e corpo estranho.
  • traumatismo- uma bolada ou uma agressão de colega na escola pode produzir dor de ouvido.

O que os pais podem fazer diante de uma criança com dor de ouvido? A primeira providência é saber que, na imensa maioria dos casos, apesar da intesa e desconfortável dor, a gravidade é baixa. Portanto, como em todas as situações onde a criança “perde o controle”, cabe aos pais manter a calma. A seguir, avaliar o estado geral do seu filho. Está bem, apesar da dor? Tem febre alta?   Acima de 39 C? Olhando para a orelha percebe alguma secreção saindo? Ou então, a parte posterior da orelha está vermelha? A orelha está deslocada (ficando como se fosse uma orelha de abano)? O pescoço está duro ou dolorido, impedindo a criança de encostar o queixo no peito? Se algum desses sinais, raros, estiver presente, contate o seu pediatra imediatamente. Se nenhum desses sinais estiver presente, não há necessidade de contato imediato com o seu pediatra e você pode fazer duas coisas:

1- analgésicos via oral- dê para seu filho o analgésico que seu pediatra costuma prescrever, na dose adequada para seu peso. Repita a cada 6 horas, até falar com o seu pediatra.

2- compressa morna- coloque uma bolsa de água morna ou um pano morno, do lado de fora do ouvido.

Essas duas medidas devem aliviar, um pouco, a dor. Nunca pingue nada no ouvido de seu filho, sem a orientação do seu pediatra. O tratamento específico da dor de ouvido deve ser prescrito pelo pediatra.

Resumindo: mantenha a calma, analgésicos pela boca e compressa morna. Ligue para seu pediatra e o mantenha informado.

Enviem suas perguntas ou comentários. São sempre muito bem vindos.

Ouvido