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DIA DA CRIANÇA E O NOBEL DE ECONOMIA.

Hoje, dia 12 de outubro, se comemora o dia da criança. Praticamente como todas as datas que celebram alguém, há forte cunho comercial que as criou e sustenta. Datas (mães, pais, namorados e crianças) vendem! Nada contra, afinal de contas a economia precisa se movimentar, gerando riqueza, empregos e melhoria do nível de vida de todos. Por falar em economia, nesta semana foi anunciado o vencedor do Prêmio Nobel de Economia. O vencedor deste ano foi Richard Thaler, professor de Ciências Comportamentais e Economia, na Universidade de Chicago. O prof. Thaler é um dos acadêmicos que estuda e divulga uma linha chamada de Economia Comportamental. Trata-se de uma abordagem que incorpora ao conhecimento de economia, boas doses de psicologia. Em 2002, outro pesquisador que segue a mesma linha, Daniel Kahneman, também recebeu o Nobel de Economia. De forma simplória (a ser criticada pelos eventuais economistas que leiam este post), a economia comportamental incorpora nas suas análises uma faceta irracional do comportamento humano. Uma linha mais “clássica” ou ortodoxa, crê firmemente que o ser humano tomará as melhores decisões, baseadas em uma análise lógica e buscando otimizar seus ganhos e/ou minimizar perdas ou riscos. Para estes estudiosos, seríamos um homo economicus, ator racional, cujo comportamento (tomada de decisões) é previsível e redutível a modelos matemáticos. Ocorre que a nossa história pessoal (sejamos sinceros, quantas decisões sem um fundamento racional tomamos? Ou, quantas decisões envelopamos em racionalidade apenas para não revelar um desejo irracional?) e coletiva (guerras, intolerância de toda espécie, machismo, obesidade, uso de tabaco) nos mostram que não podemos ser reduzidos a um modelo mecânico de uma máquina que pensa. Somos seres, indivíduos, com uma alta complexidade e vetores (muitos desconhecidos de nós) que nos impulsionam no percurso das nossas vidas. Nesse contexto, agraciar um pesquisador que introduz a irracionalidade e relativa imprevisibilidade no comportamento humano deveria nos fazer repensar o modelo vigente de privilegiar a lógica e racionalidade.

Se você chegou até aqui na leitura deste post, já deve estar se perguntado se eu deixei de ser pediatra e resolvi estudar economia! O elo que farei (me acompanhem neste salto!) é o de que crianças não precisam de um Prêmio Nobel para lembrá-las de que a irracionalidade é um atributo fundamental e inerente ao ser humano. Não é um atributo do homo economicus idealizado por alguns, mas do homo (quase) sapiens que somos.

Para começar, observemos um bebê com poucos dias de vida. É um ser humano, sem a menor capacidade de cognição, sem processar pensamentos de forma lógica, ordenada, analítica ou sistemática. É apenas uma esponja de sensações! Tudo que se passa ao seu redor é captado e absorvido, sem o filtro da racionalidade. Portanto, sem nenhuma possibilidade de discussão, a existência, repleta de estímulos e registros, precede a lógica e a racionalidade.

O bebê cresce e, dadas as boas condições, vai amadurecendo.  Esse amadurecimento leva um bom tempo e durante esse tempo, somos capazes de observar como um pensamento pré-lógico ou mágico infantil domina o universo da criança. Ainda não há espaço para metáforas, tudo é muito concreto. As fábulas lidas ou contadas, representam algo que, de fato, aconteceu ou acontece em algum lugar. Vestir-se de princesa ou homem aranha, não é uma fantasia. É uma transformação! Naquele momento a crianças se percebe e se sente como se princesa ou homem aranha fosse. As histórias que nossos filhos “inventam” são absolutamente fascinantes e dignas de serem registradas para que possam ser recontadas a eles mesmos, uma vez mais crescidos ou adultos. Isso, sem falar na criatividade que as crianças têm para inventar brinquedos, a partir de sucata doméstica ou realizar pinturas, modelagens e colagens. O medo, tão natural em crianças, é outra manifestação explícita e observável da fase de “irracionalidade” que precede a introdução da lógica no pensamento infantil. De forma resumida, a imensa criatividade das crianças é uma homenagem à irracionalidade. Para aqueles que ficam incomodados com o termo irracionalidade (contaminados que estamos com o valor da racionalidade), podemos usar a palavra simbolismo ou simbólico. A imensa criatividade das crianças é uma homenagem ao ser simbólico que elas exibem (e que nós temos vergonha de mostrar).

Neste dia da criança, como em outros, vale a pena pegarmos carona no Prêmio Nobel de Economia, para justificarmos uma boa dose de irracionalidade nos nossos atos. Amor, carinho e afeto não são lógicos ou racionais. Estar perto, estar junto, sem uma justificativa ou sem estar fazendo algo, simplesmente estando, não é lógico ou racional (não raro ficamos aflitos por não estarmos fazendo nada!). Fabular, inventar, criar, encenar, não é lógico nem racional. Vejam que tudo que nossos filhos querem de nós é que também sejamos irracionais!

Para concluir, um segredinho: se formos irracionais, nós vamos nos divertir também, e muito! Bom dia das crianças (todos os dias)!

de: CRIANÇA@VIVERSEDIVERTINDO.ORG para: PAIS@PREOCUPADOS.COM

criança computador2Mamãe e Papai,

No dia da criança, queria aproveitar para lhes dizer algumas coisas que considero importantes e, talvez, vocês não tiveram a chance de ouvir antes.  O autor deste blog, que gosta muito de crianças, me ofereceu o espaço para escrever. Achei uma ótima ideia e aceitei.

A primeira coisa que eu quero lhes dizer é que vocês se pré-ocupam demais. Isto é, adoecem de futuro. Parece que essa é uma doença de adultos que se ocupam, antes da hora, com o futuro. Eu, como criança, só consigo viver a vida no presente. E ainda desconfio que se existe esse tal futuro, o melhor jeito de eu poder vive-lo vai ser tendo vivido de forma intensa e adequada todos os presentes que existem antes de chegar nele (futuro). Pode parecer um pouco confuso para vocês, mas o sapo da lagoa, aquele que não lava o pé, me disse para dizer isso para vocês de um jeito que vocês entendessem. Ele disse uma frase que eu não entendi bem, mas, me garantiu que vocês entenderiam: cada coisa no seu tempo, na sua hora!  Claro que eu confio em vocês e se pensam nesse tal futuro, devem ter seus motivos (ou não). Mas, gostaria que pensassem um pouco no que eu disse e, ao invés de antecipar as coisas, aproveitem, comigo, o presente.

Outra coisas que eu não sei se vocês sabem, mas, quando eu era bebê, eu chorava sem motivo. Nem eu mesmo sabia porque eu estava chorando. Claro que eu chorei de fome, de frio, de calor e porque a fralda estava suja e achava o máximo como vocês adivinhavam rápido o que estava me incomodando. Ponto para vocês! Mas, tinha momentos em que eu chorava porque levava um susto com o barulho do leite sendo engolido, ou não entendia bem um trum que acontecia na minha barriga. Teve dias em que eu chorei muito e forte, só porque estava achando divertido e relaxante. Afinal de contas, eu não tinha muita coisa para fazer, além de mamar, dormir e fazer cocô. Chorar era um momento bem animado. Mas, confesso que ficava preocupado, tenso, com vocês, desesperados, tentando entender o meu choro que não era nem de calor, frio, fome ou fralda suja. Também não era de cólica ou dor. Era só choro. E vocês indo e vindo, olhando, apertando, virando, mexendo, eventualmente chorando junto comigo, ligando para parentes, amigos e pediatra. E eu ali, querendo dizer que estava tudo bem, ia ficando nervoso e fazia o que eu sabia fazer de melhor: chorava mais forte! Se, vocês decidirem que eu vou ter uma irmãzinha ou irmãozinho (coisa que eu definitivamente não quero, apesar de, às vezes, dizer que quero), lembrem-se que bebês choram sem motivo também!

Tenho um pedido para lhes fazer, leiam mais comigo. Vocês não imaginam o prazer que me dá sentar no colo e ouvir a voz de vocês, apontando para as figuras no livro. Fico fascinado e gostaria de repetir isso mais vezes. Claro que tem horas que eu não estou tão a fim e vou querer brincar de outras coisa. Não interpretem isso como sendo um não gostar. É só que, como criança, naquela hora, não quero. Mas, se vocês tiverem paciência e, de algum modo, criarem uma rotina de leitura, vou adorar. Depois, já andei pensando, aquele celular e i-pad são bem divertidos também, mas, algo me diz, que estes me hipnotizam enquanto aqueles (os livros) me fazem criar imagens e histórias.

Sei que vocês não fazem por mal, pelo contrário, mas, não gosto de mentirinhas. Por exemplo, quando me dizem que vacina não dói nada, fico uma fera. Dói e muito! Se vocês não querem me assustar, digam que é uma picada que dói mas passa. Ou, não digam nada sobre a dor e comentem que é normal não querer tomar ou ter medo da vacina. E, na hora de aplicar a vacina, não fiquem horas me explicando a sua importância da. Expliquem uma vez, me segurem com força e vamos acabar logo com isso! Vocês não sabem o que é um sofrimento adiado por uma negociação interminável. É muito maior do que a picada que acaba logo. Isso vale não só para vacinas, mas para qualquer coisa desagradável pela qual eu tenha que passar.

E, por falar nisso, nunca entendi porque chamam o pediatra de tio! Nunca vi ele em nenhuma festa da família, nem no Natal! Que tio estranho esse que nunca aparece, só eu que apareço num lugar que nem é a casa dele. Um lugar que tem um nome esquisito: vamos lá no consultório do tio fulano, para ele te examinar. Desconfio que esse tio não é tio. Acho que ele é um médico e aí eu não sei porque vocês não chamam ele pelo que ele é. Adultos tem cada uma!

Talvez vocês imaginem que precisem ser perfeitos, excelentes, maravilhosos, o tempo todo, todos os tempos. Pois bem, outro dia, na consulta com o meu médico, eu ouvi ele contando para vocês o que uma pessoa com um nome muito diferente, Winnicott?, dizia: bebês e crianças não precisam de mães (e pais) perfeitos. Basta que sejam suficientemente bons. Na hora, eu estava brincando com um dos palitinhos que eu ganhei e pensei: por favor escutem porque se vocês forem perfeitos, a minha vida vai virar um inferno! O que o filho de perfeitos pode ser na vida? Perfeito! E, dado que a perfeição não existe, vou passar o resto da minha vida perseguindo algo inalcançável. Relaxem, errem sem medo e cuidem um pouco de vocês, deixando que eu me vire sozinho também.

Quando eu ficar doente, com um resfriado, por exemplo, cuidem de mim, mas, não me sufoquem com cuidados. Fiquem perto, porque isso me faz sentir bem. Não precisam ficar medindo a minha temperatura de meia em meia hora, nem me empurrando comido pela boca adentro, repetindo que é importante comer e que eu não estou comendo nada. Também não fiquem me oferecendo infinitas opções de comidas. Me deixem ficar um pouco quieto, um pouco só, acompanhado  por vocês. Nunca fui adulto para saber, mas, suponho que quando ficam doentes, com febrão, enfiados na cama, também não querem ninguém oferecendo algo ou dizendo o que devem fazer, de 10 em 10 minutos! Se essa minha suposição estiver correta, lembrem-se disso, no meu próximo resfriado.

Aliás, não é só quando eu ficar doente, mesmo saudável,  eu gostaria que me deixassem um pouco em paz. Eu não preciso fazer algo, o tempo todo. Aliás, preciso de um tempinho para não fazer nada para descansar, relaxar e até me tornar mais criativo. Como vocês devem saber, os gregos, sempre eles, perceberam que era preciso um momento de ócio para que se pudesse aprender algo. O ócio é tão importante para o aprendizado que é a origem da palavra escola! Portanto, não precisam encher minha agenda com atividades. Muitas vezes vocês imaginam que se eu fizer muitas coisas durante o dia, dormirei melhor, à noite. Às vezes eu fico tão excitado por causa das atividades que acabo dormindo mal e aí escuto vocês conversando que talvez eu não esteja fazendo atividades suficientes para me cansar! Além disso, quando vocês enchem meu dia com atividades programadas, eu fico sem tempo para inventar as minhas atividades e isso (criar minhas atividades) parece que pode ser importante para aquele tal futuro com o qual vocês pensam.

Um assunto difícil para mim é o dos limites. Eu odeio limites. Simples assim. Mas, fico tão aliviado quando vocês os impõem a mim. Eu brigo, choro, deito no chão, mas, no meu íntimo, fico aliviado por saber que cuidam de mim e que eu posso explorar o mundo sem medo porque estarão atentos e não permitirão que eu quebre a cara (muito). Portanto, peço, imploro, que usem a autoridade de vocês, sempre. Não estou pedindo para que sejam autoritários e até desconfio que, muitas vezes deixam de usar a autoridade porque confundem com autoritarismo. Não é isso. Peço que exerçam o papel de pais, colocando limites, sem se sentirem culpados. Eu vou saber que isso também é amor.

E assim chegamos no assunto mais importante da minha vida: amor. Me sentir amado por vocês é uma delícia. E olha que eu sinto isso desde bebezinho. Cada vez que eu percebo o quanto me amam, seja cuidando de mim, seja lendo e brincando comigo, seja me apresentando o mundo, seja simplesmente me segurando, abraçando e beijando, seja colocando limites como eu já disse, é como uma epifania, um sentido para a vida. Ser amado, que não é mesma coisa que ser paparicado ou ganhar muitas coisas, é o maior presente que vocês podem me dar, no presente. Portanto, no dia da criança, adoraria um abraço apertado e um beijo carinhoso. Claro que um presentinho, como a tal sucata doméstica que o Dr. Roberto descreveu aqui no blog, ou o que vocês quiserem dar, cai bem. Afinal, ninguém é de ferro!

Obrigado por me deixarem ser quem eu sou, amo vocês,

um beijo bem gostoso,

seu filho.

 

QUE BRINQUEDO ESCOLHER?

sucata6Semana que vem teremos o dia da criança. Que brinquedo escolher para presentear os filhos? São tantas as opções (e tentações), que ficamos tontos. São tantos os preços (caros), que ficamos mais tontos ainda! De um lado, o olhar pidão das crianças, do outro, comerciais na TV, vitrines de lojas e os fatídicos amiguinhos que sempre têm algo que nossos filhos desejam. Como decidir o que dar? Quem lê o blog ocasionalmente já sabe que, em geral,  sou avesso a regras (exceto quando a questão é segurança!). Sempre acho mais interessante que os pais tomem as decisões, principalmente aquelas que não estão nos livros de pediatria. Antes de escrever este post, verifiquei uma vez mais nos livros da minha formação médica e não falam de brinquedos! Portanto, a decisão será de vocês. Mas, só queria compartilhar algumas ideias com vocês. sucata4

A primeira ideia é uma pergunta. O que queremos ao presentear nossos filhos com um brinquedo? Certamente cada mãe ou pai tem algo em mente e eu não poderia saber todas as respostas. Umas que me ocorrem são:

  • demonstrar afeto e carinho pelos filhos. Um presente é um veículo de amor. Em geral, é escolhido pensando no filho, no que ele gosta ou precisa. Portanto, a primeira função de um presente é o de aproximar. Assim, o melhor embrulho para o presente do dia das crianças, qualquer que seja, é um abraço apertado e um beijo carinhoso.
  • produzir prazer nos filhos. Escolhemos algo que imaginamos agradará nossos filhos. Seja pela necessidade que tinham, seja pelo “sonho” de ter aquele objeto.
  • desenvolver alguma aptidão nos filhos. Não raro os pais procuram brinquedos que estimulem a criatividade dos filhos. É sobre isto que vou falar um pouco mais no post de hoje.

sucata1A criatividade é algo que todos nós temos, dentro de nós. Não é algo fora que nos torna criativos. Quem inventou o i-pad não tinha um outro i-pad para se inspirar. Todas as invenções criativas surgiram de um pensamento ou de uma observação e não de um objeto. Picasso nunca tinha visto um quadro como o que pintou, para se “inspirar”. Newton não tinha conhecimento de algum tipo de descrição de uma lei que explicasse porque os objetos são atraídos para o chão. Os exemplos são infinitos e comprovam apenas que a criatividade é uma potência que todos temos dentro de nós. Portanto, brinquedos eletrônicos, ultra modernos, poderão, ou não estimular essa criatividade. O fato é que, quanto menos “pronto” estiver o objeto, mais estímulo produzirá na criatividade humana. Aí entra em cena a sucata doméstica. Objetos que iriam para o lixo, podem assumir as mais diversas formas (vide as fotos do post de hoje). O desafio de transformar algo em outra coisa é superado pela nossa criatividade. Portanto, se o presente que queremos dar para nossos filhos é um que estimule sua criatividade, que tal lhe dar uma caixa cheia de sucata doméstica? Melhor ainda, embrulhe o presente no abraço e beijo que mencionei acima e, para tornar o presente memorável, sente-se com sua filha e filho e, juntos, criem. Passem algum tempo juntos, rindo, provocando um ao outro, cooperando e competindo. Não é o brinquedo que é criativo, é a criatividade que faz o brinquedo!sucata3

Este é um post curtinho, mas que pode render uma longa e deliciosa memória nos seus filhos. Encerro com uma pergunta: se esta cena que descrevi de pais brincando com seus filhos, montando objetos a partir de sucata doméstica ocorrer, quem presenteou quem?

Cartas para a redação!

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MEU DIA DA CRIANÇA

guilhermedealmeida-toribaPensei muito sobre o que escrever no dia da criança. Pensei tanto, que acabei não escrevendo nada, no dia. Como estou convencido de que as crianças, espontaneamente, sabem que todos os dias é dia delas e, por outro lado, os pais também percebem isso pelo cuidar diário que elas precisam, acredito ser  pouco importante não ter escrito um post exatamente no dia 12 de outubro.

Mas, há um segundo motivo pelo qual não escrevi no dia 12. Apesar de ser um sábado, foi um dia bastante movimentado. Fui ao consultório pela manhã, cedo, ver crianças que não poderiam esperar. De lá, fui a uma festa para celebrar a Lina, uma linda menina de 6 meses. Deste almoço fui direto para um plantão e, assim, lá se foi o dia 12, sem post!

Essa  introdução, cheia de justificativas, é para chegar onde eu queria. Ou melhor, onde eu ainda hesitei um pouco. Me deu vontade de escrever um post mais pessoal e me perguntei se quem lê o blog de um pediatra que escreve sobre crianças teria algum interesse nas suas memórias e lembranças. Decidi, ainda que sem consultar os leitores, escrever sobre emoções da minha juventude.

Domingo, dia 13, chego ao Hotel Toriba, em Campos do Jordão. Aqui passei férias de julho dos 12 aos 17 anos, com meus pais e irmãos.  Guardava, desse tempo, lembranças deliciosas. A viagem começava a ficar boa, quando chegávamos em Pindamonhangaba, para colocar o carro em cima de um trem, chamado gôndola. Na estação de Pinda, pintada numa das paredes, uma frase que me marcaria para a vida: antes da hora, não é hora; depois da hora, não é hora. Hora é hora!  E lá íamos nós, meus pais e seus cinco filhos, do lado de fora do carro, sentindo o vento no rosto, subindo a serra. Mas, nossa primeira vinda a Campos do Jordão foi muito menos traquila. Vinhamos de São Paulo e meu pai errou a entrada em S. J. dos Campos. Entramos por Pinda e, a bordo de um Simca  Jangada, meu pai pegou a estrada de terra que subia para Campos. Não era uma estrada usada e tivemos que saltar do carro, algumas vezes, para ajudar a empurrá-lo. Imagino o “sufoco” dos meus pais com cinco crianças pequenas a bordo. Finalmente chegamos em algo civilizado e meu pai perguntou a uma pessoa que estava na porteira: “onde é o Toriba?”. Aqui, foi a resposta. Alívio geral. Depois, ninguém acreditava quando meus contavam que tinham subido pela estrada de Pinda. Mas, a lembrança  mais intensa, talvez, era a da liberdade. Pode andar “solto”, correndo com os amigos recém feitos e outros já conhecidos de outras férias, era uma sensação incrível. Andávamos a cavalo, uns pangarés alugados pelo Sr. Simplício, sempre com a emocionante galopada que todo pangaré dá, quando volta para casa.  Minha mãe, uma mulher muito rígida para algumas coisas, era flexível para outras. Assim, ainda sem carteira de habilitação, me deixava dirigir. Qual adolescente não acha o máximo dirigir? De início, acompanhado por ela, depois sozinho! Ia e vinha do Toriba a Capivari, várias vezes ao dia. Outros tempos, menos carros, nenhum trânsito. Mas, de toda forma, uma certa irresponsabilidade da minha mãe, que eu até hoje agradeço que tenha tido! Perto do Toriba, uma colônia de férias chamada Pumas. Lá tive um alumbramento  por uma das monitoras. Como não lembrar de um encantamento juvenil? No Toriba, um esocorrega de madeira levava do térreo a um subsolo que servia de sala de jogos para as crianças, em dias de chuva ou à noite. Uma farra descer nesse escorrega que, como posso constatar no livro de ouro dos 70 anos do Toriba, faz parte das lembranças de todos que por aqui passaram.  No Toriba, no que hoje é uma lojinha de souvenirs, era a sala de TV, onde assisti a chegada do homem à lua, em julho de 69. A televisão era mínima (comparada com as de hoje), em preto e branco, com uma imagem de péssima qualidade. Mas ali estávamos, fixados na tela, vendo o homem fazer algo impensável, pisar na lua. Um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade, disse o comandante Neil Armstrong. Não sei o tamanho do passo, só sei que as imagens da chegada à lua e daquela noite de inverno no Toriba, passaram a fazer parte da minha história. Mas, nem só de momentos “‘épicos” se faz uma história de vida. No Toriba aprendi a jogar canastra ou baralho, achando muito estranho que se marcassem os pontos,  em duas colunas: ELES e NÓS. Uma besteira, mas que ficou gravada na memória. No Toriba aprendi a jogar poquer de dados e, o mais importante, conseguia (e consigo até hoje!), puxar os dados da mesa para dentro do copo, com um movimento rápido , arrastando o copo até a beira da mesa e girando a mão. Não é nada, mas fazer isso com 15 ou 16 anos me dava uma sensação de competência e habilidade que me faziam sentir “mais velho”. Nessa idade, quem não gosta de se sentir “mais velho”!

Ao entrar no Toriba, depois de tantos anos, meu olhos se encheram de lágrimas. Sem um motivo específico, mas com todos os inespecíficos. Pude reencontrar tantas coisas exatamente como sempre estiveram e um turbilhão de lembranças me envolveu e eu me deixei levar. Logo na entrada, a placa com um poema de Guilhereme de Almeida que eu sei recitar de cor:

Quem vem lá? É de paz! Entra! À vontade! Sente o que a vida às vezes significa!Depois, parte, ficando… que a saudade é bênção de quem parte e de quem fica.

E assim, passei o meu dia da criança. Me emocionando, com memórias e lembranças. Nenhuma delas ligada a um objeto ou brinquedo. Todas, carregadas de emoção e afeto. Para que o post não fique sendo só uma crônica do passado, me ocorreu reforçar que os verdadeiros presentes que podemos dar aos nossos filhos não são aqueles comprados, mas os vividos juntos.  Mais, há um ditado que diz: “recordar é viver”. Sugiro subverter o ditado: “viver é recordar, no futuro”. Portanto, vivam intensamente os momentos de lazer com seus filhos.  Será um presente para hoje e amanhã. Hoje, produzindo a alegria que contribui para formar um adulto feliz. Amanhã, produzindo a emoção de poder perceber que essa alegria (de ser criança) continua viva!

Não há idade para descermos pelo escorrega da memória afetiva!

Toriba

DIA DA CRIANÇA

Se é verdade que todos os dias são dias da criança, existe uma, com toda certeza, que frequentemente fica esquecida e raramente é celebrada. Não falo de crianças pobres. Estas, como todas as outras, se estiverem minimamente bem de saúde, saberão como brincar. Brincam com pouco ou nada, como todas as crianças são capazes de fazer. Crianças são espontâneas e criativas. Por isso nos surpreendem e encantam.

Então, de que criança estaria eu falando? Deixe-me começar pelo começo e só peço uns tres minutos da sua atenção. 

Era uma vez um pediatra que sentiu a necessidade de escrever um blog para os pais e, talvez, para adolescentes. Não queria escrever um blog sério, sisudo, cheio de expressões médicas ou técnicas. Queria compartilhar informações confiáveis, de uma forma que o maior número de pessoas pudesse entendê-lo. Se possível, queria que o texto fosse leve e, onde coubesse, com algum humor. Pois bem, o tempo foi passando e esse pediatra foi escrevendo ora a respeito de coisas ligadas à saúde, ora sobre questões comportamentais e até sobre algumas doenças ele escreveu. Ele se divertia muito escrevendo e gostava quando os pais lhe mandavam comentários. Muitas vezes ele não tinha como responder porque os pais queriam saber coisas dos seus filhos. Filhos que ele, pediatra, não conhecia e, por isso, não podia comentar especificamente. E assim, o tempo foi passando quando, de repente (toda historinha que se preze tem que ter um  momento súbito, um de repente!) chegou o dia 12 de outubro, dia da criança. O que escrever, pensou ele?

Pensou, pensou, pensou e só sabia que não queria escrever nada que fosse banal e óbvio. Empacou! Quando empacou, se assutou e pensou: “melhor eu não inventar nada e escrever sobre sinusite!”. Sinusite é mais simples do que dia da criança, pensou ele. Foi aí que pensou em falar da criança que não é lembrada. A criança que mora dentro de cada adulto! Decidiu então escrever para esta criança, incentivando-a  a fazer algumas coisas:

– lembrar de como era quando criança e tentar brincar, com seu filho,  ao menos de uma das suas brincadeiras favoritas

– pintar ou desenhar. Vale lápis de cor, tinta guache, lápis de cera, tinta a óleo. Vale tudo, só não vale dizer que não sabe desenhar. Inventa.

– contar a história do desenho para seu filho.

– se lambuzar comendo sorvete ou chocolate e gargalhar com o filho ou filha

– andar descalço

– se estiver chovendo, chutar poças, sem guarda-chuvas

A lista poderia continuar, mas o pediatra achou melhor que cada um fizesse a sua listinha. Mais do que uma listinha, ele gostaria que os adultos pensassem menos no que fazer  e mais no como poderiam ser com seus filhos nesse dia. Que soltassem a espontaneidade e criatividade sem o menor receio de parecerem ridículos. Pelo contrário, com o maior desejo de serem felizes.

Finalmente, o pediatra pensou, se eu ainda tivesse uma filhota pequena me abraçaria com ela e diria: você sabia que papai já foi criança como você? Sabia que é uma delícia poder brincar com você e que papai adora ser seu pai?  (As mamães podem  e devem mudar o título!).

São sugestões. Feliz dia das crianças para todos os adultos!