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A IMPORTÂNCIA DO COCÔ!

Hesitei um pouco antes de decidir abordar o tema do cocô dos bebês e crianças. Muito baby-diaper-changeprovavelmente essa minha hesitação tem um componente cultural de não falarmos sobre o corpo e suas funções com naturalidade. É como se o tema das secreções e excreções fossem “feios”  ou “sujos”. Se o Roberto DaMatta, brilhante antropólogo, lesse o meu blog, o que não é o caso, talvez pudesse nos brindar com um comentário ou post a respeito dos aspectos antropológicos do corpo e seus produtos.

Apesar desse pudor coletivo que todos temos, todas as mães do mundo se surpreendem com o fato de que se tornam observadoras atentas do cocô de seus filhos. O fato é que o bebê é um ser que se comunica com o mundo. Fala vários “idiomas” que nós já falamos um dia, mas, infelizmente, esquecemos! E, ainda não fala o nosso. Assim, a comunicação se dá por uma série de sinais codificados e cabe às mães a dura tarefa de traduzir o que está sendo “dito”  pelos filhos em algo que seja compreensível para as demais pessoas. Não raro, as mães conseguem interpretar um choro como sendo de fome e outro de frio ou desconforto. Um barulho balbuciado é alegria e prazer, perninhas que se movimentam de um jeito é excitação porque o papai chegou e quando se movimentam de outro é um cocô prestes a sair. À medida que o bebê vai crescendo, seus “idiomas” vão ficando mais conhecidos. Não só porque os pais já convivem há mais tempo com o filho, mas, também, porque este começa a nos ajudar, apontando para as coisas, balançando a cabeça quando não quer algo, jogando um objeto no chão ou afastando nossa mão que se aproxima com uma fruta que não é a sua preferida.

Os pais de bebês pequenos, têm uma pergunta constante e permanente que os atormenta: meu bebê está bem? Uma pergunta absolutamente normal, instintiva. Mas, diferente de outros animais, pensamos. Aí surge a segunda pergunta, geradora de uma certa insegurança “básica”: como saber que está tudo bem? Esta pergunta pode ter variações mais ou menos produtoras de ansiedade, como:  e se eu não souber que algo errado está acontecendo com meu filho? São essas perguntas que nos fazem ficar intérpretes profissionais do que nossos filhos nos comunicam.

Entra em cena, o cocô! O cocô é algo visível, não subjetivo, à espera da observação analítico-interpretativa dos adultos. O cocô fala!  Na maioria das vezes, tranquilizando as mães. Se a criança está fazendo cocô é porque está se alimentando. Se faz todo dia, na consistência conhecida, cor esperada e frequencia habitual, o bebê deve estar bem. Nada como um padrão para tranquilizar os seres humanos. Quando as coisas são conhecidas e se repetem, nos sentimos mais seguros. Temos uma sensação de maior controle sobre a situação e isso nos dá conforto. A questão é que nem sempre, sair de um padrão conhecido signifique que algo não vai bem. Pode ser que sim, mas pode ser que não. Vivemos, como seres humanos e, principalmente pais, oscilando entre a busca de padrões e o fato de que a vida não tem padrões. O único padrão que a vida tem é o de variar!

Na tentativa de ajudar os pais a se sentirem mais tranquilos, comento alguns apectos do que o cocô pode ou não estar querendo nos comunicar.

  1. Cor- todo mundo sabe que as mulheres são capazes de descrever cores absolutamente inexistentes para nós homens. Mães conseguem descrever a cor do cocô de seus filhos com raríssima precisão e um nível de detalhamento impressionante.  A variação do marrom, amarelo e verde é inteiramente normal. Sinaliza apenas a velocidade com que o alimento passou pelo intestino.Costuma haver uma certa preocupação quando o cocô se apresenta mais esverdeado. Quando passa um pouco mais rápido, aparece a cor verde ou o tom esverdeado. Portanto, não se preocupem nem com o tom verde no cocô de seus filhos, nem com variações de uma fralda para outra. Importante lembrar que o recém nascido ainda elimina mecônio que é bem escuro, com uma consistência muito diferente, lembrando piche. Mas, algumas cores devem ser consideradas como inesperadas, atípicas: vermelho, preto e branco. Estas devem ser informadas ao pediatra, lembrando que alguns alimentos modificam a cor, como beterraba e medicamentos como ferro (escurecendo bem a cor). Resumindo: variações entre marrom, amarelo e verde, são inteiramente normais e, isoladamente, não significam nada de especial.
  2.  Frequência- um bebê pode fazer várias vezes ao dia e uma vez em vários dias e ser inteiramente normal. Não há uma regra para quantas vezes ao dia, ou de quantos em quantos dias, um bebê deve fazer cocô. Não devemos falar em constipação usando apenas o critério de número de dias que um bebê leva para fazer cocô. Mais importante que os dias é a consistência que abordarei a seguir. Resumindo: variações de frequência (muitas vezes no mesmo dia e uma vez em muitos dias) não significam, em princípio, nada de especial ou preocupante.
  3. Consistência- bebês costumam fazer cocô com uma consistência que chamamos de líquido-pastosa. Para os padrões de adultos, é um cocô bem mais mole, o que faz com que algumas mães, principalmente aquelas que amamentam ao seio, imaginem que seus bebês estão com diarréia. Alguns bebês que fazem cocô a cada mamada e, ainda por cima “mole”, podem dar a impressão (falsa) de que estejam com diarréia. A consistência é um fator mais importante do que a frequência para se pensar em constipação. Um bebê que fica quatro dias sem fazer nada e acaba fazendo um cocô pastoso, definitivamente não tem constipação. Um cocô endurecido ou em bolinhas (como um cabrito) merece ser comunicado ao pediatra. Resumindo: o cocô de bebês é muito menos consistente do que o de adultos, sendo inteiramente normal que se apresente de forma líquido- pastosa.
  4. Cheiro- o odor do cocô vai depender da alimentação e sua digestão, além  da flora bacteriana que habite o intestino. Assim, à medida que novos alimentos vão sendo introduzidos a a flora normal e saudável vai se modificando, o odor vai variando. Resumindo: raramente o cheiro é um indicador de que algo não vai bem, podendo variar muito.

É preciso lembrar que, com a introdução de alimentos e variação da flora bacteriana intestinal normal, a cor, frequência, consistência e cheiro, irão variar. Alguns alimentos influenciam mais a cor, outros a frequencia e consistência, bem como o cheiro. Alguns remédios também variam a cor (como o ferro).

Espero, com este post, contribuir para o aumento  da compreensão dos pais,  de um dos idiomas que bebês e crianças “falam”.

Aguardo comentários, sempre bem-vindos.

CONSTIPAÇÃO

Uma queixa bastante comum é a de que a criança está constipada. Primeiro, vamos tentar definir o que é constipação.

Constipação é a eliminação de fezes duras ou ressecadas, com desconforto. A frequência com que uma criança vai ao banheiro não pode ser o único parâmetro para se dizer que está com  constipação. O ritmo intestinal varia de pessoa para pessoa, por isso, é mais importante prestar atenção no aspecto das fezes do que no número de dias sem fazer cocô.

Não raro, pode ocorrer constipação em momentos de transição da alimentação ou quando novidades relevantes são introduzidas na vida de uma criança, tais como: a chegada de um bebê na casa, mudança de casa, início da escola, separação dos pais etc.

Em bebês que são exclusivamente amamentados ao seio, a constipação é raríssima. Um bebê que esteja sendo amamentado, ganhando peso, pode ficar até 5 ou 6 dias sem evacuar e ser inteiramente normal. Se as fezes são pastosas, nenhuma preocupação. Agora, se um bebê, mesmo amamentado no seio, elimina fezes ressecadas, endurecidas, ou passa mais de 6 dias sem evacuar, leve ao seu pediatra para que possa ser examinado.

Crianças maiores podem ter alguma constipação quando começam a tirar a fralda e usar o vaso sanitário. Por isso, nunca forçe ou acelere a retirada das fraldas. Deixe que seja um movimento conduzido pela criança.

Quando a criança é saudável e apresenta constipação, geralmente um ciclo se estabeleceu. Medo de evacuar, retenção, fezes duras, evacuação dolorosa, medo de evacuar.

Ainda considerando que a criança seja saudável, algumas dicas de como manejar a consitpação:

1- No caso de bebês alimentados com fórmulas infantis (leite em pó), converse com seu pediatra a respeito do uso de água de ameixas. Se o bebê já está sendo alimentado com sopas e frutas, pergunte ao seu pediatra se pode acrescentar cereais à dieta, bem como um pouco de azeite extra-virgem.

2- Se assegure que seu filho está recebendo uma quantidade adequada de líquidos, por dia

3- Para as crianças maiores, que já utilizam o vaso sanitário, use uma tampa que reduza o tamanho do vaso. Muitas crianças têm medo de cair dentro do vaso e, somente por esss motivo, passam a reter as fezes, inciando o ciclo que culmina com fezes endurecidas e evacuações dolorosas.

4- Para se conseguir evacuar, é fundamental que os pés estejam apoiados. Tente evacuar sem colocar os pés no chão! Portanto, para as crianças que ainda não alcançam o chão com seus pés, use um banquinho ou uma pilha de livros.

5- A alimentação costuma ser o melhor “remédio” para a constipação. Quanto mais fibra, melhor. Fibra é o que encontramos em cereais (aveia, granola, flocos de milho etc.), legumes, verduras e frutas. Se não for tumultuar a vida da família, dê preferência a produtos integrais (arroz, pães) porque possuem mais fibras.

6- Use azeite na comida. Depois de preparada, coloque uma colher de azeite.

7- Para crianças maiores, acima de 4 anos, crie uma rotina de sentar no vaso. Em geral, depois de uma refeição, peça para seu filho se sentar no vaso. Fique com ele, conversem sobre assuntos não relacionados ao cocô, leia um livro junto. Estabeleça um tempo, em torno de 10 minutos para que fique sentado. Se não fizer nada, não comente nada. Se fizer, elogie.

8- Converse com seu filho ou filha, fora do banheiro, para entender o que está acontecendo, onde está o receio. Use historinhas para que possa perguntar o que seu filho ou filha acha que está acontecendo com o patinho que não gosta de fazer cocô, por exemplo.

9- Se o ciclo de medo, reter, dor, reter mais já se estabeleceu, recomendo que procure seu pediatra, Muito provavelmente ele vai prescrever laxativos para quebrar esse ciclo. Não dê laxativos para seu filho, sem consultar o seu médico.

Este é um assunto muito vasto e complexo, difícil de abordar em um post. Se você tiver dúvidas mais específicas, posso tentar respondê-las.