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QUANDO A REALIDADE DESAFIA AS “REGRAS CIENTÍFICAS”.

Quem me conhece pessoalmente ou lê o blog, sabe o quanto eu sou crítico com regras que têm um  jeitão de coisa científica. Essas regras  acabam circulando como dogmas ou verdades absolutas  e que, quando não respeitadas, fariam com que as crianças irremediavelmente sofressem graves consequências e os pais morressem de culpa!

Para começar  a expressão “regras científicas” constitui um paradoxo. A expressão reúne duas palavras que se opõem: regras e ciência. A ciência, por definição, não tem regras. A ciência é o melhor conhecimento possível, naquele momento. O conhecimento científico é mutável, evolui. Quando um suposto conhecimento se torna imutável, fixo, deixa de ser científico e passa a ser uma crença ou convicção. Nada errado em termos crenças e convicções. Todos nós, de um modo ou de outro, enxergamos o mundo de uma forma que vai ser a base de nossas crenças e convicções. O problema é quando estas se apresentam revestidas de um fino verniz de “científico”, para lhes dar mais credibilidade. Isso é fraude! Vou dar alguns exemplos no mundo da pediatria, usando perguntas que os pais frequentemente fazem.

Doutor quando é que ele pode sair de casa? Esta pergunta, habitualmente é feita por pais de bebês pequenos, na primeira ou segunda visita ao bebê no frioconsultório. Costumo responder: “ele veio aqui hoje?”. Os pais ficam um pouco assustados e, em geral, riem quando falamos de um túnel invisível de proteção bacteriológica que liga a casa da família ao consultório do pediatra. Muitas vezes, essa pergunta é associada às vacinas. Mas, ele ainda não começou as vacinas! De fato, além da criança ter alguma imunidade transferida pela mãe, se fossemos esperar a vacinação produzir a plena proteção, uma criança só deveria sair de casa por volta dos 15 meses. Qualquer um lendo o blog balançará a cabeça- que absurdo! Pois bem, existem vacinas que só são dadas a partir do primeiro ano de vida e, nem por isso, os pais têm duvidas a respeito de sair na rua com seus bebês de de meses! Mas, vamos ser mais radicais e ver o exemplo dos finlandeses e outros países nórdicos onde é normal e faz parte da forma saudável de criar filhos, deixar os bebês dormindo do lado de fora da casa, em temperaturas bem abaixo de zero! Esta prática começou nos anos 40, porque a alta mortalidade infantil nesses países era atribuída à qualidade do ar do interior das casas. Hoje, mesmo com a qualidade do ar sendo boa, ainda existem algumas evidências (lá deles) de que esta prática é benéfica para os bebês, com a ressalva que devem estar agasalhados. Não vamos discutir se é bom ou ruim colocar um bebê para dormir em temperaturas abaixo de zero. Vamos pensar no choque que nos produziu alguém fazer algo tão diferente do que nós. Será que um bebê finlandês tem células diferentes de um bebê brasileiro? Ou será que nossas “regras” são fruto mais de tradição e cultura do que de evidências científicas?

Outra pergunta interessante é com relação à introdução de alimentos. Os pais, em geral, perguntam: “Vamos começar com frutas, não é? Quais podemos dar?” Esta pergunta faz supor que o pediatra tenha um conhecimento científico que justifique a escolha pela fruta A ou a restrição à fruta B. okuizomeNo Japão, a primeira refeição de um bebê, por volta dos 4 a 6 meses, se chama Okuizome (primeira refeição). É um ritual  familiar onde a criança é apresentada  a  peixe, arroz papa, polvo, vegetais condimentados e …. umas pedrinhas para a criança morder porque promove a dentição (veja na foto o pratinho com pedrinhas!). Não tem banana, maçã e pera, nessa primeira introdução de alimentos para bebês japoneses. Dirão que fui buscar um exemplo extremo. No Kenya, o primeiro alimento é um purê de batata doce. Na Índia, oferecem um prato chamado khichdi  que consiste em arroz, lentilhas, legumes, temperados com cumim, coentro, hortelã e canela. Isso, para um bebê de 6 meses. Na Suécia, o primeiro prato oferecido a um bebê que vai iniciar sua alimentação sólida, se chama välling , preparado à base de cereal (trigo), frutas, óleo de canola, de palma (nosso azeite de dendê!) e leite em pó. Será que os bebês apresentam um aparelho digestivo diferente, de acordo com a sua nacionalidade ou, nossas “regras” são baseadas na economia, cada país oferecendo o que tem em maior abundância ou facilidade de se encontrar? Onde ficam aqueles cardápios “científicos” para  bebês  em que se estabelece que agora pode isso, mas é melhor esperar para dar aquilo? E o que dizer de cursos de nutrição para as mães dos bebês?

Como todos nós temos interesse no pleno desenvolvimento do potencial de nossos filhos, sempre surge alguma pergunta relacionada ao que seria o brinquedo mais indicado. Brincar é uma atividade fundamental para o desenvolvimento da criança. É através do brincar que a criança aprende a respeito do mundo, da sua identidade, desenvolvendo habilidades psico-motoras, além de explorar causa e efeito. O brincar é tão importante para as crianças quanto o carinho, a alimentação e o sono. Não é um intervalo de diversão na vida das crianças, é parte fundamental desta. Aliás, cavalo gregopessoalmente, também acho que é parte fundamental da vida dos adultos, porque contribui para o estabelecimentos de vínculos sociais e afetivos, nos fazendo viver de forma mais prazerosa. Portanto, crianças brincam há milênios, com os mais diversos brinquedos, como este, na foto do lado, encontrado na Grécia e que tem aproximadamente 2900 anos!  Hoje, dependendo da cultura local e dos recursos familiares, crianças da mesma idade brincam com brinquedos diferentes. Não há nenhum brinquedo que seja “cientificamente”melhor do que outro. E, se julgarmos que a tecnologia é uma aliada no processo do desenvolvimento através do brincar, o que pode até ser verdade, é importante lembrar que Michelangelo nunca brincou com um ipad, Einstein nem sonhava com um computador e Shakespeare não tinha a menor ideia do que seria um smartphone. Certamente brincaram, e muito bem, quando crianças, haja vista sua genial criatividade, quando adultos. O brinquedo deve provocar a criatividade da criança e não sua reatividade. Reagir apertando um botão, para ver uma estrela aparecer na tela, é interessante. Mas, criar um caminhão, a partir de uma embalagem de ovos, é algo bem diferente. Da próxima vez que alguém lhe sugerir um brinquedo que definitivamente desenvolve a capacidade, digamos de pensamento matemático, da criança, pergunte se Isaac Newton brincou com o sugerido! Essa pergunta vale para qualquer área que o brinquedo se proponha a desenvolver. Basta escolher qualquer pessoa de reconhecido talento nesta área, que tenha nascido antes de 1970  e perguntar se usou o tal fantástico brinquedo.

Como podemos ver, a realidade demole  regras pseudo científicas. A realidade nos mostra que não há a menor necessidade de nos qualificarmos, fazermos cursos, contratarmos especialistas (incluindo pediatras) para nos ensinar o que já sabemos. Onde não há conhecimento científico estabelecido, vale a cultura, os valores familiares e pessoais, a ousadia de cada família para criar, modificar e seguir as suas próprias regras. Cuidar de filhos não exige mestrado nem doutorado. Exige afeto e a plena confiança nos seus sentimentos. É muito mais jazz (improviso) do que música clássica (partitura).

 

BRINCAR (É COISA SÉRIA!)

children-playingImagine algo que seja universal e natural, sem ser uma função de sobrevivência  (respirar, comer, dormir etc.). Se essa atividade, que todo ser humano faz ou fez, existir, sem necessariamente precisar que lhe ensinem, deve ser algo muito importante nas nossas vidas e na história do desenvolvimento da nossa espécie. Se isso não é sério, o que será?

Todo ser humano saudável ou sem limitações extremas, brincou ou brinca! Ninguém precisou nos ensinar a brincar. É algo que começamos a fazer, espontaneamente. Certamente que, em algum momento, um adulto introduziu em nossas vidas, brincadeiras ou jogos organizados, com algumas regras. Mas quando bebês, ninguém nos ensinou como brincar, e brincamos!  Portanto, o brincar é uma parte essencial da vida que permite o crescimento e o desenvolvimento de algumas aptidões humanas importantes. Se é parte essencial do crescimento, o brincar faz parte da saúde das crianças. Se isso não é sério, o que será?

No começo, é a mãe  que brinca com o bebê. Ela usa um tom de voz especial, sorri ou muda sua expressão facial, se aproxima e se afasta do rosto da criança, pega no seu pé e balança, cheira, sopra na barriga, finge que desaparece e reaparece. Provoca no bebê pequeno um sorriso e à medida que este vai crescendo, surge uma certa agitação com os braços e pernas, acompanhado ou não de sons, que fazem a mãe brincar ainda mais. O bebê parece antecipar e, eventualmente, provocar a mãe para que esta repita um jogo estabelecido entre ambos. Nesta fase, o bebê está brincando também. Portanto, o brincar não é algo que começa somente quando a criança é maior e já se senta ou pega objetos, por exemplo. O brincar é uma atividade que pode ser identificada no bebê pequeno. Para adultos racionais (leia-se homens em geral), isso pode parecer uma peça de ficção. Mas, perguntemos às mães se elas não estão convencidas de que seus bebês brincam com elas? A grande maioria dirá que sim.

Certamente, o brincar fica mais evidente quando a criança já está um pouco maior. Talvez a primeira brincadeira que tenha alguma “sofisticação” seja a de jogar objetos no chão ou para longe, esperando que alguém (um adulto) o pegue de volta. Crianças adoram essa brincadeira de fazer sumir e reaparecer um objeto. É uma experiência mágica para a criança. Ela joga o objeto fora (no chão) e ele volta! Se os pais tiverem uma boa dose de paciência, essa brincadeira pode levar um bom tempo. Mas, ela é fundamental para o desenvolvimento do sentimento de confiança. Este sentimento é fundamental para a estruturação de uma identidade.

O brincar é importante  para o desenvolvimento de atributos físicos, cognitivos (do pensamento racional) e emocionais das crianças. Ao brincar, as crianças desenvolvem, entre outros :

  • cooperação e relacionamento em grupo
  • capacidade de superar desafios
  • capacidade de negociação
  • tolerância à frustração

No entanto, a maior e mais importante consequência que o brincar produz é o desenvolvimento da criatividade. É através da criatividade que o brincar estimula que se constói a personalidade de uma pessoa. A criança, ao ser criativa brincando, está buscando entender o mundo que a rodeia e, mais importante, como ela vai viver nesse mundo. Não raro, a brincadeira é o melhor caminho que a criança tem para se adaptar a situações complexas e ameaçadoras, como a viagem de um dos pais, a chegada de um irmão ou os primeiros dias de creche ou escola. Assim,  o brincar também permite que os pais percebam o mundo do ponto de vista de seus filhos. Ver uma criança brincar nos mostra como ela capta o mundo e como se insere neste. Nesse sentido, o brincar é, também, uma forma de comunicação. Ao brincar, nossos filhos nos contam histórias deliciosas ou nos revelam suas aflições e como estão lidando com elas.

Esse brincar que estou comentando é um “livre brincar”. Não é uma atividade programada, com um objetivo definido. O livre brincar é um momento em que a criança tem liberdade de ficar só. Ainda que adultos devam estar por perto, nem sempre devem estar dentro da brincadeira (em algumas sim, claro!). Tanto quanto o brincar, este estar só, acompanhado, é importante para a criança. A criança desenvolve segurança e auto-confiança quando sabe que a pessoa que ama está ali, mesmo que esquecida.  Portanto, esse brincar não obedece à lógica de eficácia empresarial que os pais, muitas vezes, trazem para dentro de casa, ainda que de forma involuntária. Não é um brincar “profissionalizante” da infância, onde todo o tempo deve ser aproveitado para a criança fazer coisas “úteis”. Muitos pais comentam sobre a pré-escola: mas lá não ensinam nada, só brincam!. Como ensinar algo “útil”, antes de se desenvolver uma pessoa? Por isso, precisamos, ao menos para nossos filhos menores, subverter a lógica vigente e dizer: menino, vai brincar! depois você faz algo útil! brincando2

Esse brincar, deve ser, preferncialmente,  com “brinquedos verdadeiros”. Brinquedos verdadeiros é um nome fantasia, uma brincadeira, para aqueles que estimulam mais a criatividade da criança, como blocos, cubos, caixas, fitas, bonecos, carrinhos, baldes, massa, areia,  “sucata” doméstica etc. Não é preciso um brinquedo caro, eletrônico, na moda, para estimular a criatividade da criança. Muitas vezes, os pais fazem um esforço para dar esse tipo de brinquedo e ficam frustrados ao ver a criança deixar o brinquedo de lado e brincar com a caixa, fita e o papel da embalagem!

A ideia deste post é estimular os pais a verem a livre brincadeira dos seus filhos, aquela espontanea e criativa, não como uma perda de tempo , mas como uma parte vital do desenvolvimento dos seus filho.  E, sem brincadeira, adoraria que o post estimulasse os pais a brincarem mais, na vida. Brincar não é tudo na vida. Mas, uma vida sem brincar, não é nada!

Vou adorar receber comentários brincalhões, ou não!

ESTRESSE EM CRIANÇAS

stressDiante de um perigo ou situação crítica, o ser humano tem uma reação chamade de fuga ou luta. Esta reação ocorre quando, por algum estímulo, o organismo produz uma descarga de adrenalina. A partir desta descarga algumas reações acontecem. As pupilas se dilatam, há uma redução da circulação periférica, a frequência cardíaca aumenta. Tudo isto para nos deixar em uma situação onde ou vamos fugir (correr) ou vamos lutar. Passado o perigo ou situação crítica, o corpo volta à normalidade e, não raro, ocorre uma sonolência cuja finalidade é o repouso regenerador. Este é um resumo ultra simplificado de uma reação normal e necessária que temos. Quando a situação crítica ou sensação de perigo não cessa, a produção de adrenalina é constante e não há momento de sono reparador. Essa situação de estado contínuo de descarga de adrenalina é conhecido como estresse e tem consequências muito sérias para a saúde do ser humano. Habitualmente, quando falamos em estresse, pensamos em um adulto, sobrecarregado com trabalho, ansioso e angustiado. Dificilmente associamos a palavra estresse às crianças.

No entanto, por inúmeras razões que vão desde a deprivação emocional, abandono, carências básicas como alimentação e manutenção da temperatura corporal, até um ambiente familiar violento, incluindo maus tratos, a criança pode estar ou ficar estressada. Certamente os exemplos que dei, extremos, devem fazer com que imaginem que, nestas circunstâncias, faz todo sentido uma criança ficar estressada. Mas, quero chamar a atenção para um produtor de estresse infantil, muito mais sutil, porém não menos perigoso. Falo do tempo, ou melhor, da falta de tempo.

Apesar da natureza nos dar lições diárias sobre o tempo adequado, através das estações do ano, ou mesmo da duração de uma gravidez, insistimos com a ideia de que há sempre um “tempo para ser ganho”. Isto é verdade em todas as atividades onde a tecnologia pode nos ajudar, como nas viagens de avião, na transmissão de dados por computadores, nos cartões de crédito ou débito. O perigo é acharmos que o tempo pode ser ganho em todas as atividades humanas. Ou, que precisa ser ganho em todas as atividades humanas. Curiosamente, na época em conseguimos “ganhar mais tempo”, também é quando mais nos queixamos de falta da tempo. Algo parece muito errado nessa equação – quanto mais tempo eu ganho, menos tempo eu tenho. Chegamos ao extremo de declararmos que não temos tempo para nada!  Esse quadro, por si só, seria dramatico. Para piorar, na nossa cultura vigente, não ter tempo para nada é sinônimo de status. Quem tem tempo para algo, geralmente para si, seu lazer e prazer, para os relacionamentos com a família e amigos, ou é um sortudo que ganhou na mega sena ou um preguiçoso irresponsável. Vejam aqui, uma nova contradição. Enchemos o peito para dizermos que não temos tempo para nada, buscando a admiração e reconhecimento de quem nos ouve, mas, se ganhássemos na mega sena, muito provavelmente não usaríamos nosso tempo da mesma forma como usamos hoje.

A questão é que passamos a educar nossos filhos da mesma forma com que vivemos: sem tempo para nada.  Uma criança tem necessidade, para seu pleno desenvolvimento físico e mental, de brincar. Brincar, não necessariamente com brinquedos sofisticados, eletrônicos. Brincar como uma ato de criatividade, onde uma caixa se transforma em casa e uma tampa de garrafa em um animal que está sendo perseguido por uma lata que, na verdade é um leão. Esse brincar só tem uma necessidade: tempo. Tempo para nada, só para brincar. Não é um tempo cuja produtividade vá ser medida no momento da brincadeira, mas, cujo reflexo se pereceberá na vida adulta. Uma criança que tem tempo para brincar, sem que seja na aula disso ou no curso daquilo, desenvolve capacidades fundamentais para uma vida adulta saudável. A criança que cria brincando, se torna mais tolerante com a frustração. Aprende a criar alternativas, com o pouco material que tem. A criança que cria brincando, se torna mais analítica, conseguindo avaliar as variáveis que tem em mãos e gerar soluções (criativas). A criança que tem tempo para brincar, não está submetida a uma agenda rígida, com compromissos e exigências que geram uma descarga contínua de adrenalina (estresse). O brincar com tempo, sem exigências de performance ou metas, em um ambiente acolhedor e carinhoso, é a melhor prevenção para o estresse infantil.

Para os pais, selecionei um trecho do clássico Winnie the Pooh:edward bear

Aqui vem Eduardo Urso descendo as escadas –  bong, bong,bong, batendo a cabeça nos degraus, logo atrás de Cristopher Robin. É, até onde sabe, a única maneira de se descer escadas. Mas, às vezes, ele suspeita que possa haver uma outra maneira de descer. Se ele pudesse ao menos parar de bater a cabeça por um instante e pensar em uma alternativa…

Certamente está na hora de pararmos um pouco para pensarmos em alternativas para o uso do nosso tempo e do tempo de nossos filhos. Não é razoável sentirmos orgulho de não termos tempo. Não é aceitável impormos um estresse desnecessário para nossos filhos.

Os comentários, sugestões e dúvidas são sempre bem-vindos (se tiverem tempo!).

COMO ESTIMULAR SEU FILHO?

estimulo2Todos nós queremos dar aos nossos filhos o melhor. Talvez o melhor que possamos dar seja exatamente a capacidade de conseguirem desenvolver plenamente seus potenciais. E aí começam nossas dúvidas e inseguranças. Será que estou fazendo certo? Haverá algo mais que eu poderia estar fazendo e não estou?

Se não tomarmos muito cuidado, nos tornaremos alvos fáceis de modismos e charlatanices. Em algum lugar da internet vamos encontrar testemunhos sobre os efeitos de Mozart, tocado durante a gravidez, na capacidade de resolver problemas matemáticos na adolescência. Ou então, alguém vai nos garantir que determinado jogo eletrônico foi utilizado por algum governo longínquo e o que o país hoje exporta talentos para o mundo. A indústria se beneficia dessa nossa insegurança natural e invade as gôndolas de lojas de brinquedo com o que há de mais “científico” para desenvolver as aptidões intelectuais do seu filho de…… 3 meses!

Como então poderemos estimular nossos filhos? O essencial pode ser resumido em 3 Cs: carinho, cuidado e criatividade. Carinho não é comprar brinquedos ou jogos. É segurar no colo quando bebê, cantar, sussurrar, embalar. Aos 6 meses começar a ler livros ou revistas (sim, 6 meses!) e, depois, brincar junto. Carinho é presença. Carinho é uma emoção e não um objeto comprado (que pode ser adquirido com carinho!). Cuidar é se certificar que o ambiente em volta do seu filho seja agradável, amistoso, seguro e confortável. Não significa decorar o ambiente (ainda que isso possa fazer parte), mas adequar o ambiente para a vida da criança. Um ambiente que ela sinta como dela, onde está integrada, com prazer. Criatividade é ignorar regras que não parecem fazer sentido, ousando um pouco. Ignorar dicas de pediatras, amigos e parentes e fazer o que o coração determinar. É, também, usar o que pode ser chamado de “sucata estimulo3doméstica” como brinquedo. Coisas seguras como caixas de ovos (sem os ovos!), algumas embalagens, acabam virando brinquedos muito divertidos porque eles não vêm prontos como alguns que compramos. Estes exigem que fabulemos (inventar uma história) para que deixem de ser o que são e passem a ser casas, bichos, aviões ou túneis.

Estimular nossos filhos é deixa-los se desenvolverem no ritmo deles, sem tentar acelerar etapas. É respeitar a diferença entre irmãos ou crianças da mesma idade. É fazer as refeições em família, ao menos nos finais de semana.  É sair de casa e fazer mais programas ao ar livre. Estimular nossos filhos é desligar um pouco a TV e computador, conversando com eles.

E o que fazer com o Mozart? Ora, se a família gosta de música clássica, que toque muito Mozart. Mas, se gosta de rock ou samba, que toque o que gosta. Estimular nossos filhos é inseri-los na nossa cultura e valores, sempre com carinho, cuidando e sendo criativo.

Talvez descubramos algo incrível: os estimulados seremos nós, também!

Este post foi publicado originalmente no blog www.4insiders.com.br, onde sou um dos colaboradores.

EXERCÍCIOS, QUANDO COMEÇAR?

A resposta é simples: desde o começo! O bebê se movimenta, alonga, mexe com as pernas e braços. Aprende a rolar, o que, no início é um enorme exercício. Depois se senta, engatinha e anda. E aí, não para mais, até chegar à vida adulta e conhecer o sofá, controle remoto e balde de pipoca!

Mas, como os adultos podem contribuir para que o bebê , a criança e o adolescente, sejam ativos? Em cada fase da vida, um tipo de estímulo pode ajudar. Para o bebê pequeno, o primeiro estímulo está em colocá-lo de bruços (barriga para baixo) nos momentos em que estiver acordado. Essa posição permitirá ao bebê explorar movimentos diferentes, como empurrar os braços contra a superfície, elevando o tronco, movimentar as pernas, pressionando os pés contra o colchão etc. Depois, os pais devem seguir o ritmo do seu filho e, à medida em que este for desenvolvendo novas habilidades motoras (rolar, sentar, engatinhar), facilitar que estas ocorram, colocando o bebê em uma superfície suficientemente firme e com estímulos para que se movimente (objetos ou brinquedos). Sempre respeitando o ritmo da criança, sem a preocupação de acelerar o seu desenvolvimento. Se a criança não está pronta para sentar, não adianta tentar forçá-la a ficar nessa posição. O mesmo quando começar a andar. Espere que a criança dê seus passos apoiada para então estimulá-la. Não usem andadores para tentar acelerar o andar da criança.

À medida que a criança cresce, o que ela precisa é brincar, de preferência ao ar livre. Correr solta pela praça ou praia, ficar numa piscina com bóias e acompanhada de um adulto responsável ( de chapéu e com filtro solar), são excelentes formas de uma criança se exercitar.  Sei que é trabalhoso e exige um bom tempo dos pais, mas os benefícios de permitir que uma criança se exercite espontâneamente são enormes. Em algum momento em torno de 2 a 3 anos a criança já consegue aprender a nadar. Ao menos o suficiente para se defender, o que é fundamental.

A partir de quatro a cinco anos, quando a criança já brinca bem com amigos, basta reuní-los em um espaço aberto e seguro, sob supervisão, que econtrarão a forma de se divertirem, correndo, pulando, catando coisas, sentando e levantando. Não precisam de brinquedos caros e sofisticados, só o espaço e amigos. O resto, deixem por conta da criatividade e energia deles. Nessa idade também é divertido fazer programas familiares, como caminharem juntos, jogarem amarelinha, corida de saco, rolar na grama, dar cambalhotas, pular corda, salto em altura e passar por baixo de uma vara. Algumas crianças já andarão de bicicleta com rodinhas e isso pode ser muito divertido também (lembrando sempre do uso do capacete). Programas familiares ao ar livre fazem bem para a família toda!

Em torno dos 6 ou 7 anos, quando a criança já estiver com boa aptidão física e coordenação, pode-se pensar em algum esporte. Não com o rigor competitivo, mas como algo lúdico e diveritdo. Esportes coletivos são sempre muito desejados e animados. Mas os pais também deveriam pensar em esportes que a criança pudesse praticar pelo resto da sua vida, como por exemplo, tênis, pedalar etc. Esportes coletivos podem ser jogados pela vida toda, mas exigem um pouco mais de logísitca do que os esportes individuais.

Para as meninas, aulas de dança funcionam bem como um exercício e costumam ser muito apreciadas por elas. Além do fato de que dão direito a uma apresentação de final de ano, onde toda a família se emociona!

Na adolescência, o estímulo para os exercícios pode ser fazer algo que os pais também façam. Por exemplo, correr ou pedalar com os pais. Pode ser ainda um estímulo para que os pais voltem a fazer algo que já fizeram quando jovens, como o surfe, por exemplo. A prática da ioga também é uma alternativa interessante para adolescentes pois, além do exercício físico, traz benefícios para a saúde mental.  O exercício ou esporte, nessa fase da vida, é um ótimo motivo para pais e filhos estarem juntos, se desafiando, rindo e, principalmente, estabelecendo um vínculo fundamental em uma idade naturalmente conturbada.

Quanto à musculação, não há nenhuma contra indicação para a sua prática. Pelo contrário, todos os estudos realizados demonstram que um programa de musculação feito por profissional competente e sob supervisão qualificada só traz benefícios, a partir da pré adolescência. A questão é que adolescentes tendem a exagerar nas cargas e querem resultados rápídos, se expondo a riscos de lesões. Por esse motivo, a recomendação é que pratiquem musculação sob supervisão.

Crianças que vivem ao ar livre brincando e praticando esportes, associados a uma boa alimentação , têm uma probabilidade muito maior de se tornarem adultos saudáveis e felizes.  E adultos que, por um motivo ou outro, se tornaram sedentários, têm, com seus filhos, uma excelente oportunidade de “entrar em forma”!

Divirtam-se mais ao ar livre com seus filhos. Qualquer dúvida ou comentário, por favor me enviem.

QUE ESCOLA ESCOLHER? AQUELA QUE ADOTA O MÉTODO CRIANSSORI!

Essa é uma pergunta complexa porque envolve algumas outras perguntas que precisam ser respondidas, pelos pais, antes da decisão de qual escola escolher.

Minha sugestão é que os pais, antes de listar as escolas com seus prós e contras, respondam à perguntas como:

– que valores consideramos importantes e gostaríamos que a escola também os tivesse? Por exemplo, pais com uma visão agnóstica do mundo talvez prefiram que a escola seja laica.

– para quê colocamos nossos filhos na escola? Claro que o óbvio já está respondido- para aprender. Mas a pergunta é se colocam seus filhos na escola para daqui a 15 anos passarem no vestibular ou se gostariam que seus filhos aprendessem a aprender. Não são excludentes, mas também não são a mesma coisa. Em um mundo muito competitivo, passou-se a considerar uma boa escola aquela que aprova o maior percentual de alunos, nas melhores universidades. É um critério, mas não é o único.

– que valor damos à globalização e ao aprendizado de línguas? Se os pais consideram que o mundo será cada vez mais global e que as oportunidades de realização profissional não vão se limitar às fronteiras geográficas, tenderão a avaliar escolas internacionais e bi-lingues. Se, por outro lado, a visão de futuro que os pais têm é de que seu filho terá um futuro excelente, vivendo no Brasil, a questão da diversidade cultural e de línguas perde importância.

Esses são apenas alguns exemplos de conversas que os pais deveriam ter, antes de olharem uma lista de escolas. Com essas e outras perguntas, podem olhar uma lista de escolas e começar a confrontar estas com seus critérios. Se não estabelecerem critérios antes de olhar a lista, poderão ficar tentados a “flexibilizar” em função da estética, simpatia da diretora etc.

Façam uma visita às escolas que passarem por uma primeira triagem. Olhem em volta, observem as crianças, discutam com a representante da escola os seus valores e critérios e avaliem como a escola se enquadra (ou não) no que vocês esperam. Escolas são como vinhos. O melhor vinho é aquele que você gosta, não necessariamente o mais famoso ou mais caro!

Esses comentários são para a escolha de uma escola para crianças maiores. Como escolher uma boa escola para crianças entre 2 e 5 a 6 anos?

Peço licença às pedagogas para uma brincadeira. Escolham uma escola que adote o Método Crianssori. No que consiste esse método? Consiste na implementação da prática dos 3 Cs:

– Carinho

– Cuidados

– Conforto

Carinho- é algo que você observa no trato que as pessoas (todas) da escola têm com as crianças. Se reflete no ar de alegria e satisfação que  as crianças exibem. Também tem relação com o número de crianças e o número de funcionários. Existe uma relação ótima de crianças/funcionários que permite um olhar atento e carinhoso com todas as crianças. Carinho também é respeitar a individualidade da criança pequena, sem definir objetivos pedagógicos rígidos, metas etc. Evidentemente que nenhuma escola poderá dar um tratamento 100% individualizado a seu filho, mas se a cultura for de respeito a essa individualidade, ótimo.

– Cuidados- vai desde a segurança do ambiente, as instalações, a parte objetiva de alimentação, troca de fraldas e higiene, até a forma com que a escola se comunica com os pais.

– Conforto- é a existência de um ambiente com condições adequadas de temperatura, aeração, iluminação e ruído. Também inclui o material disponível para as crianças brincarem, bem como o espaço existente. Para crianças pequenas, o conforto também é a proximidade com a casa, a facilidade de deslocamento e/ou de estacionamento, se for o caso.

Portanto, espero que os pais de crianças pequenas estejam mais atentos às necessidades infantis de seus filhos, deixando a preocupação com o futuro profissional, performance, sucesso e reconhecimento, para outra etapa (aquela em que os valores da família serão fundamentais na escolha da escola). Com seu filho pequeno, o que vocês mais querem é alegria dele brincar e se divertir.

Talvez receba muitas críticas de pedagogas. Serão benvindas. Como serão benvindos os comentários e perguntas dos pais.

PS- Método Crianssori é uma brincadeira com o Método Montessori que, por sinal, é um dos métodos pedagógicos que considero interessante.