RISCOS DA VACINAÇÃO

“Para todo problema complexo, existe uma solução simples, elegante e completamente errada” Henry Louis Mencken.

Após a publicação do post da semana passada, recebi alguns comentários, relacionados à segurança da vacina contra a Febre Amarela. Algumas pessoas acreditam que as autoridades sanitárias omitam os casos onde ocorra algum efeito indesejável, após a vacinação. Não tenho nenhum envolvimento, direto ou indireto, com o setor público. Portanto, não posso afirmar nada em nome destes agentes. Mas, sei que o nosso sistema de vigilância epidemiológica é muito eficaz e, como parte desse sistema, temos um sistema de vigilância epidemiológica para efeitos adversos pós vacinação. Nem todas pessoas sabem desse sistema que é o responsável por coletar dados, de forma regular, através de procedimentos padronizados e, assim, acompanhar a incidência de efeitos colaterais que possam ocorrer com todas as vacinas administradas pelo Programa Nacional de Imunizações. Os profissionais de saúde envolvidos em vacinação recebem treinamento e/ou têm acesso aos manuais do Ministério da Saúde que tratam, especificamente, de efeitos adversos de vacinas e a forma de notificá-los. Estou detalhando um pouco mais esse sistema porque acho relevante a informação de que, no Brasil, acompanhamos, de forma sistemática, quaisquer efeitos colaterais de vacinas (não só a de Febre Amarela). Acredito que é pouco provável, nos dias de hoje, com a circulação eletrônica da informação que uma autoridade possa omitir ou ocultar dados, por um longo período de tempo.
Com relação à segurança das vacinas em geral, gostaria de citar alguns fatos:

1- Não sabemos tudo, nunca. O conhecimento é um processo contínuo e o conhecimento científico pressupõe que não se consiga chegar a uma Verdade (com V maiúsculo). O conhecimento científico é, na melhor das hipóteses, a melhor informação disponível, naquele momento. Por esse motivo algumas verdades (com v minúsculo), frequentemente são substituídas por outras (também com v minúsculo). Um exemplo caricato é a história do ovo. Ovo faz bem ou faz mal? Pode comer ovo ou precisamos parar de comer ovo? A cada momento, em função de novos conhecimentos embasados no método científico (que é algo bem complexo e não somente a apresentação de estatísticas), teremos uma verdade.

2- O impacto da vacinação no crescimento da expectativa de vida foi imenso e esta realidade só foi possível através da vacinação sistemática da população exposta. Este é um fato praticamente incontestável. Digo praticamente porque ainda existem pessoas ou grupos que se opõe à vacinação. Não há nenhuma evidência científica que embase esta resistência que, habitualmente, está baseada em argumentos relacionados com crenças (eu acho isso ou eu acho aquilo), crendices (mitos) ou ainda informações já demonstradas como falsas (vacina contra Sarampo produz autismo).

3-As vacinas não são 100% efetivas, e também não estão isentas de oferecerem possíveis riscos para a população. O senso comum é o oposto desta afirmação. Talvez porque seja o mais desejável, pensamos que, uma vez vacinados, estaremos 100% protegidos contra uma determinada doença e que a vacina não pode fazer mal algum (exceto um pouco de dor no local e, talvez, um pouco de febre). Nossa cabeça tem mais facilidade de pensar de forma binária onde ou algo faz bem ou faz mal. Ou protege, ou não protege. No mundo real, as coisas vivas não funcionam de modo binário (exceto computadores). Seres vivos são, por definição, variáveis. Vacinas aplicadas em seres vivos podem proteger a maioria, mas não todos. Podem ter pouquíssimos efeitos colaterais para a maioria, mas não para todos.

4- Nenhuma vacina está totalmente livre de provocar eventos adversos, porém, os riscos de complicações graves causadas pelas vacinas do calendário de imunizações são muito menores do que os das doenças contra as quais elas protegem. Esta é a chave que justifica (ou não) o uso de determinada vacina. É preciso que fique cientificamente demonstrado (usando métodos rigorosos e complexos) que, comparando os riscos da vacinação, com os da doença natural, aqueles (os riscos da vacinação) sejam significativamente menores do que estes (os riscos da doença natural).

Especificamente com relação à vacina contra a Febre Amarela:

1- Mesmo com a possibilidade de eventos adversos graves, incluindo o óbito, a vacina contra a Febre Amarela é o melhor meio de se evitar esta doença que apresenta uma alta taxa de mortalidade (em torno de 50% dos casos morrem) e deve ser utilizada de forma rotineira em áreas endêmicas (onde a Febre Amarela existe de forma contínua) e nas pessoas de áreas não endêmicas que poderiam estar expostas. Essa é a lógica pelo qual, até muito recentemente, pessoas de algumas áreas do Brasil recebiam a vacina contra a Febre Amarela como parte do calendário regular e outras não. Em uma área onde não há o risco de se contrair a doença, o risco de reações adversas da vacina não justifica o seu uso. No entanto, quando uma área ou região que não era de risco de se contrair a doença passa a ser de risco, justifica-se a vacinação porque a equação muda (a doença passa a ser mais “perigosa” do que os efeitos colaterais da vacina).

2- As estatísticas disponíveis para o risco de efeitos colaterais da vacina contra a Febre Amarela não são homogêneas porque dependem de estudos feitos em condições epidemiológicas e metodologias diferentes. Cito alguns números para que tenham uma ideia da frequência com que complicações podem ocorrer.
A pior consequência adversa que pode ocorrer é o óbito provocado pela vacina. As estimativas são de que 0,043 a 2,31 pessoas por um milhão de doses de vacinas, poderão falecer. Traduzindo em porcentagem seria 0,0000043% a 0,00023% das pessoas vacinadas que poderiam vir a falecer. É um número muito baixo, mas não é zero. Portanto, quando comparamos esta porcentagem com a taxa de mortalidade da doença (50% das pessoas podem morrer), verificamos que o risco de óbito pela doença é muito maior do que pela vacinação. Mas, para nós humanos, números são abstrações, e quando temos a notícia de um óbito provocado pela vacina, essa notícia “apaga” a nossa capacidade de pensar de forma abstrata, conceitual ou racional e o medo ou pânico se instalam.
Com relação aos possíveis efeitos colaterais no sistema nervoso central, estima-se que estes podem ocorrer em 1 em 125.000 vacinas aplicadas. O que corresponderia a 0,001 %. As alergias graves (não uma simples urticária ou edema de lábios e olhos), podem ocorrer em 1 em 55.000 vacinas aplicadas, correspondendo a 0,002%.

3- Alergia a ovo e outros componentes da vacina. A vacinação de pessoas com alergia a ovo ou outros componentes da vacina (gelatina, proteína de frango e outros possíveis componentes) deve ser avaliada caso a caso. Não há consenso em como lidar com esses casos, mesmo porque a expressão “alergia a ovo” pode significar desde uma urticária, até um choque anafilático. As pessoas que tenham alergia a ovo devem procurar um médico para que possam ser orientadas e, em função tanto da intensidade da sua reação alérgica, quanto do risco de contrair a doença (uma epidemia, por exemplo), definir qual a melhor estratégia. Do ponto de vista acadêmico, mas com imensa dificuldade de se fazer na prática, um teste com uma dose de vacina diluída poderia ser feito ao mesmo tempo que se faria um controle  (geralmente com histamina). Se o teste der negativo a pessoa poderia ser vacinada. Se der positivo, não deveria ser vacinada e poderia tentar um tratamento de dessensibilização. Como podem ver, na prática não é possível se implementar estas ações, principalmente em grande escala.

A mensagem, uma vez mais, é que a vacina contra a Febre Amarela, em uma situação de risco epidêmico, é o melhor meio para se proteger contra esta doença que mata metade das pessoas que adoecem. A vacina não é isenta de riscos (nenhuma vacina ou, por extensão medicamento é isento de riscos), mas, em uma situação epidemiológica como estamos vivendo em várias áreas do Brasil, estes riscos são muito menores do que os da doença natural.

Boa vacinação para todos!

DR. É PARA DAR A VACINA DE FEBRE AMARELA NO MEU FILHO?

SIM! Se o seu filho tem 9 meses ou mais e nunca foi vacinado contra a Febre Amarela, a resposta é um sonoro sim. A Febre Amarela é uma doença que tem uma taxa de mortalidade de aproximadamente 50%. Isto é, de cada 100 pessoas que adoecem de Febre Amarela, 50 devem morrer. É muito alta esta taxa para se adiar, postergar ou se negar a vacinar os filhos (e os adultos não vacinados).

Circula pela internet um áudio contendo informações completamente falsas, incentivando as pessoas a não se vacinarem. Trata-se de um crime porque expõe as pessoas a uma desinformação, cujas consequências podem ser fatais caso alguém siga a recomendação de não tomar a vacina.

A seguir alguns fatos sobre a vacina contra a Febre Amarela:

1- A vacina é feita com vírus vivo atenuado. Isto significa que o vírus foi processado de forma a perder a sua capacidade de produzir a doença, mas ainda estimular o sistema imunológico da pessoa. A gotinha da Pólio, que erradicou a doença no nosso país, também é feita de vírus vivo atenuado. As vacinas contra Sarampo, Rubéola, Caxumba e Varicela (Catapora), também são feitas de vírus vivo atenuado. Assim, o uso de vírus vivo atenuado em vacinas não é uma “exclusividade da vacina contra a Febre Amarela.

2- A vacina existe desde 1930. Portanto, é uma vacina com um longo histórico de uso, com eventuais e pequenos efeitos colaterais (dor no local, eventualmente febre). No entanto, raros casos de efeitos colaterais mais graves podem ocorrer. Estes ocorrem na proporção de 0,4 a 0,8 por 100.000 pessoas vacinadas. Como todas as vacinas o que se avalia é o risco que a doença natural impõe, versus o risco de um efeito colateral mais grave. Para uma doença com uma taxa de mortalidade de 50%, fica claro que o risco de não tomar a vacina é muito maior do que o de uma complicação mais grave da vacina.

3- É preciso, no mínimo, dez dias entre a vacinação e o início da proteção. Assim, quem vai viajar para uma área de risco deve levar em conta esse prazo. Quem pretende viajar na sexta-feira de carnaval para algum lugar onde há o potencial risco de Febre Amarela, já deveria ter se vacinado ao ler este post!

4- A vacina fracionada não é mais fraca. O fracionamento da vacina foi uma estratégia adotada pelo Ministério da Saúde, com o endosso da Organização Mundial da Saúde, visando a aumentar a cobertura vacinal (número de pessoas protegidas) em um curto período de tempo. Esta estratégia está baseada em estudos, um dos quais feito na Fundação Oswaldo Cruz com um grupo de voluntários que tomou a vacina fracionada há oito anos atrás. Até o presente momento, foi possível demonstrar, neste grupo, anticorpos em níveis suficientes para proteger contra a doença. Assim, sabemos que por, pelo menos, oito anos, a vacina fracionada é eficaz. Com a continuação do estudo poderemos descobrir que a vacina fracionada protege por mais tempo.

5- Crianças de 9 meses a 2 anos de idade serão vacinadas com a dose plena, não fracionada porque não foram feitos estudos nessa faixa etária.

6- Quem tomou uma dose da vacina contra a Febre Amarela não precisa mais tomar outra dose. Desde 2013 que a Organização Mundial da Saúde eliminou a necessidade de um reforço a cada dez anos. Apenas em caso de viagem internacional para país que ainda exija um reforço, deverá a pessoa procurar a unidade de saúde e trocar o seu certificado por um em que esteja claramente redigido que não há necessidade de reforço.

7- Somente quem teve reação anafilática (choque) a ovo, não deverá tomar a vacina contra a Febre Amarela. Reações como urticária, vômitos, após a ingestão de ovos não contraindicam formalmente a vacina. Mas, pessoas com alergia a ovos devem procurar orientação individualizada junto ao médico e informar sua condição, no momento da vacinação.

8- Até o presente momento não há nenhum caso de Febre Amarela urbana. Isto é, febre amarela contraída em área urbana. Esta é transmitida pelo mosquito Aedes. O que existe são casos de Febre Amarela silvestre, em região de mata ou floresta, transmitidas pelos mosquitos Haemagogus e Sabethes.

9- Crianças menores de 6 meses não podem ser vacinadas. Crianças entre 6 e 9 meses somente devem ser vacinadas se o risco de contrair a doença for muito alto. Siga as orientações da sua Secretaria Municipal de Saúde.

10- Grávidas e mães amamentando, em princípio não deveriam tomar a vacina. No entanto, dependendo do risco de contrair a doença, a autoridade sanitária (Secretaria Municipal ou Estadual de Saúde ou o próprio Ministério da Saúde) poderá autorizar que este grupo seja vacinado.

Para saber mais, não leia informações divulgadas por grupos ou mensagens no WhatsApp. Acesse fontes confiáveis como o Ministério da Saúde: http://portalms.saude.gov.br/saude-de-a-z/febre-amarela-sintomas-transmissao-e-prevencao; Organização Mundial da Saúde: http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs100/pt/ e o CDC de Atlanta (em inglês): https://www.cdc.gov/yellowfever/index.html

Caso leia uma notícia ou ouça um áudio que destoe do que está escrito neste blog ou nos sites recomendados, não o passe adiante. Não participe da rede de notícias falsas e mentirosas que colocam em risco a saúde de outras pessoas.

Boa vacinação para todos!

 

 

 

2018 SEM LISTA DE DESEJOS!

Ano passado fiz uma lista de desejos para 2017. Talvez tenha desejado demais, mas o fato é que,  infelizmente, nenhum deles se realizou! Confiram clicando no link LISTA DESEJOS DE UM PEDIATRA PARA 2017!

Dizem que loucura é quando se faz tudo igual, esperando resultados diferentes. Portanto, neste ano, não vou fazer nenhuma lista, não vou desejar nada, criar metas, planejar o futuro, gerar expectativas a respeito do Trump, da desigualdade no mundo, da lava-jato, eleições e paz na terra para os homens de boa vontade!

Para 2018, proponho que se faça a abolição do futuro e consigamos viver no presente. Parece uma obviedade porque, afinal de contas, vivemos no presente. Mas, não raro, adoecemos de futuro. Isto é, os pés estão plantados no presente, mas a cabeça já voa longe, povoada por pensamentos, preocupada a respeito de algo que, supostamente, poderia ocorrer. A vida, no futuro, é um delírio. Nos permite tanto ganhar na mega sena, quanto sofrer por antecipação com pensamentos pessimistas. A vida no presente, é o que é. É o que temos de real, concreto. É a matéria prima com a qual podemos construir nossa felicidade, real. O presente é o que nos dá os elementos para que possamos enfrentar as dificuldades reais e não as imaginadas. É o fio que tece as nossas vidas.

Lidar com presente não é algo com o que estejamos habituados. Nossa cultura, sem crítica, apenas constatação, sempre nos empurra para o amanhã. Há sempre um amanhã, em geral ameaçador, que nos obriga a viver um presente tenso, preocupado, espartano. A frase: “nunca se sabe o dia de amanhã” resume bem esse tom ameaçador. Nunca é dita de forma a que se entenda que amanhã vai ser uma maravilha. É dita como um sinal luminoso, piscando: cuidado, perigo adiante!

Sem nos darmos conta (ou dando), a vida no presente vai sendo modelada por um futuro suposto ou imaginado. Talvez (não sou nem filósofo, nem psicanalista) a suposição de um futuro, ainda que ameaçador, nos faça afugentar a única certeza que temos a respeito do futuro- nossa finitude. Pensar, continuadamente, no futuro, pode nos trazer uma certa calma (ou ilusão) de um futuro continuado, interminável. Melhor não comer sorvete porque, lá na frente, pode ter diabetes. Melhor fazer exercício, para evitar que, lá na frente, esteja entrevado. Melhor trabalhar furiosamente, para, lá na frente, poder viver com mais conforto. E a lista de sacrifícios no presente, para um futuro melhor, é interminável. Não vou cansar vocês!

É evidente que não me oponho a hábitos saudáveis e atitudes responsáveis. Estou aproveitando este período onde todo mundo se permite alguns devaneios existenciais, para brincar um pouco com a ideia (meu devaneio) de uma resistência organizada contra a tirania do futuro! Afinal de contas, a vida não é binária. Ou nos submetemos à tirania do futuro, ou sucumbimos na esbórnia total. A vida é complexa, multifacetada, dinâmica, variável e, acima de tudo, imprevisível. Exatamente por ser imprevisível, devemos dar um pouco mais de atenção ao presente.

Sequer estou sendo original nessa sugestão. Horácio, poeta romano, escreveu há mais de 2000 anos uma frase que “viralizou”. A frase ficou conhecida por duas palavras: CARPE DIEM, que quer dizer aproveite o dia. O trecho mais completo seria: ” aproveite o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã”. Vários autores e pensadores se manifestaram a respeito do viver no presente. Cito mais dois, só para ilustrar o que estou dizendo. Albert Camus, escritor francês, prêmio Nobel de Literatura escreveu: ” A verdadeira generosidade para com o futuro, consiste em dar tudo ao presente.” Mas, o meu preferido, é o famoso filósofo Kung-Fu Panda: “O passado é história, o futuro é mistério, o agora é uma dádiva e por isso se chama presente”.

E assim, chegamos ao final deste post e de 2017 com uma contradição ou paradoxo (o que garante que este texto não foi escrito por um robô e sim um humano). Disse que não tinha lista de desejos, mas tenho um grande desejo. Desejo que todos possam, em suas vidas, viver um pouco mais intensamente o presente.

Viver o presente significa que o ser precede o ter. O existir se superpõe ao produzir. O sentir não fica inibido ou tolhido pela razão. Viver o presente significa esvaziar a cabeça de pensamentos do futuro, respirar fundo, apreciar o que nos cerca e dar vazão ao que nos une, o afeto.

Feliz hoje, todos os dias, em 2018!

 

DE REPENTE JÁ É NATAL!

Quando a gente menos espera, já é dezembro e, num piscar de olhos, o Natal chegou!  As lojas se enfeitam e ficam abertas até mais tarde, Papais Noel se multiplicam pelos shoppings e esquinas, listas de presentes são feitas e ainda compramos algo unissex para aquela pessoa que não sabemos quem é, mas que, certamente, teremos esquecido. Amigos ocultos e confraternizações ocupam nossos dias. Não há como esconder um Natal! Mas, o que escrever? Algo que seja original, divertido, sem ser bobo, lugar comum ou piegas. Difícil.

Reli meus últimos posts de natal: Papai Noel existe? e Natal é emoção, não razão e me deu vontade de misturar os dois e fazer o post desse ano, contando com a altíssima probabilidade de que ou não leram ou não lembram o que eu já tinha escrito. Seria um caminho fácil, mas pouco criativo. Resolvi então fazer um post para os adultos!

Natal é uma celebração da confraternização. Confraternizar significa estar junto do irmão (com= junto + frater= irmão). E quem é esse irmão? Ora, irmão é quem é filho da mesma mãe e/ou do mesmo pai. Podemos pensar nos nossos pais biológicos, genitores imediatos, como podemos pensar em Lucy, símbolo do primeiro homo sapiens.  Seguindo esse mesmo caminho, podemos retroceder, de forma Darwiniana e afirmar que todos os mamíferos são nossos irmãos. Por que parar nos mamíferos? Toda forma de vida animal é nossa irmã. Se você é uma pessoa religiosa, acredita que todos somos filhos de Deus. De um modo ou de outro, somos todos irmãos. Estar junto do irmão pode ser tanto aquele imediato, com quem me engalfinhei na infância, meu rival pelo amor dos meus pais e, ao mesmo tempo, meu companheiro solidário, na vida. Como também pode ser estar junto de outros humanos, tão parecidos e tão diferentes de mim. Pode ser ainda, estar junto de todas as formas de vida que conhecemos no nosso planeta.

Estar junto dos irmãos, celebrando a vida (Natal= nascimento= vida), exige que desenvolvamos a capacidade de respeitar o outro nas suas diferenças, não apenas com uma postura tolerante, mas de aprendizado. Exige que tenhamos uma abertura para o novo, eventualmente chocante ou conflitante com meus valores. Exige humildade e flexibilidade, competências que só adquirimos se as exercitarmos, já que retornar à infância onde ainda não tínhamos valores morais definidos pela nossa cultura e tudo era fascinante, é impossível. Forjados pela nossa cultura, olhamos para outras com desconfiança ou desdém. Mesmo dentro da nossa cultura, olhamos para as diferenças com desconfiança, partindo da premissa que meus valores são os “corretos”. Recusamos, pelo estranhamento que nos causa, as diferenças.

Confraternizar não é disparar centenas de WhatsApp com uma foto, música e mensagem açucarada. Não é apenas dar um presente por conta de obrigações sociais. Não é desejar um feliz natal repetido, mecanicamente, como um papagaio, sem emoção ou, pelo menos, sinceridade.

Confraternizar é exercitar o silêncio para que o outro possa ocupa-lo. É desenvolver a escuta, para que o outro possa se fazer presente e, com sua presença, me impressionar (ao invés de só me espantar). Confraternizar é negociar, ao invés de polarizar. Diferenças não significam, obrigatoriamente, inimizades, raiva e ódio. Confraternizar é resgatar a nossa essência de seres sociais por natureza, com a capacidade de utilizar a comunicação para nos expressarmos, trocar ideias e nos organizarmos. A cultura vigente, quer nos fazer crer que há uma competição permanente, fazendo com que meu irmão seja uma ameaça constante. Confraternizar é se colocar contra essa imposição cultural e nos inspirarmos nos nossos primos, os Bonobos. Confraternizar é deitar, sem medo, a cabeça no colo do outro e deixar que faça um cafuné, sem que se precise de um motivo, apenas pelo prazer de estarmos juntos.

Confraternizar é mais do que afeto, emoção. É uma posição política ou de cidadania. É se colocar contra as discriminações de raça, gênero ou credo, não como uma declaração genérica de boas intenções, mas como uma prática diária de atenção e combate às formas mais dissimuladas de racismo, sexismo e intolerância religiosa. Confraternizar é se expor, pelo outro.

Finalmente, para não deixar de falar nas crianças, confraternizar é respeitar a enorme criatividade dos nossos filhos, tomando o devido cuidado para que no processo de educa-los, não estejamos criando autômatos a serviço da economia (qualquer economia), mas seres humanos, emotivos, afetivos, inovadores, questionadores, respeitadores, integrados no mundo (e não destruindo o mundo e seus irmãos). Para isso, não bastam as palavras (de pais ou de um blog), é preciso o exemplo vivo, a ação, a prática da confraternização.

Para os que leem o blog, meu abraço fraterno, desejando a todos um Natal muito alegre.

PAIS HELICÓPTERO!

A vida não é fácil para ninguém. A vida pode ser boa, mas fácil, nunca é. A vida em si nos impõe dificuldades que se iniciam no nascimento. Nascer é um processo que tem lá seu grau de esforço e dificuldade, tanto para a mãe, quanto para o bebê. Depois, sucedem-se fases do desenvolvimento e amadurecimento que exigirão, por parte da criança, enfrentar e superar dificuldades inerentes a este processo. Das primeiras mamadas, aos primeiros dentes, seguindo para o esforço de engatinhar, ficar de pé e andar, ainda que naturais e comuns à nossa espécie, nada é “moleza”. Segue a vida e surgem as primeiras palavras. A linguagem é uma conquista que leva tempo e muito esforço. Temos ainda a socialização, a descoberta do outro e a frustração de um mundo que não está posto para me servir, com exclusividade. Vida que segue, regras e normas na escola, deveres, obrigações e um aprendizado de tantas coisas que não fazem sentido para nós. O despertar para o sexo oposto é um mundo de dúvidas e angústias. Ninguém vai olhar para mim, não sou suficientemente atraente ou, mais frequentemente, sou horrorosa ou horroroso! O que responder quando a família me pergunta- o que você quer ser quando crescer? Como vou saber? O resto da história, todos conhecem. Uma escolha profissional, uma escolha para constituir família, compromissos, obrigações, contas a pagar, ameaça de desemprego, plano de saúde que deixa a desejar e filhos. Ah, os filhos! Um novo mundo de amor, prazeres e alegrias se abre. Junto, novas dificuldades na vida cotidiana. Vejam que meu relato é superficial, abordando situações objetivas e visíveis. Mas a vida é muito mais do que isso que vemos. É o que sentimos e nem sempre falamos. É também o que se passa fora do mundo lógico, mas no simbólico, no mundo das emoções, nem sempre plenamente conscientes. A vida não é fácil para ninguém!
Se concordarem comigo de que a vida não é fácil para ninguém e ainda estiverem de acordo que pais, em geral, querem que seus filhos tenham vidas boas, felizes, plenas, vamos ter que rever o modelo de pais helicóptero, adotado por muitos. Mas o que seriam pais helicóptero? São pais que estão sobrevoando seus filhos, 24h por dia, 7 dias na semana, independentemente da idade que tenham. São pais que, apesar de saberem que a vida não é fácil, por algum mecanismo, confundem essa realidade com sofrimento. Esforço, superação de dificuldade, não é necessariamente sofrimento. Alguns pais não toleram a ideia de verem seus filhos fazendo um esforço (normal, desejável) que já descem de rapel do helicóptero ao resgate do filho. Os pais helicóptero ficam atentos à menor frustração vivida pelos filhos e, rapidamente, buscam elimina-la. Pais helicóptero não conseguem exercer sua autoridade legítima, impondo (escolhi esta palavra de propósito!) limites, porque temem que isso possa “traumatizar” seus filhos. Até situações evolutivas normais como a dentição, são vividos pelos pais helicóptero como um “problema” a ser “resolvido” e não como um processo natural que merece carinho e amparo, sem grandes dramas. De um modo muito simplista, pais helicóptero vivem a ilusão de que poderão evitar toda e qualquer dificuldade para seus filhos.
E qual o problema em ser um pai helicóptero? Afinal de contas, se conseguir evitar que meu filho sofra, não é melhor? Esta pergunta é ótima porque nos remete à confusão que citei acima. Esforço não é sinônimo de sofrimento. Longe de mim fazer a apologia de que o sofrimento é bom. Sofrimento, nunca é bom e merece ser atenuado, sempre que possível. Outro ponto importante é que, assumindo que a vida não é fácil para ninguém, como sustentar uma educação que impede a criança de enfrentar e superar dificuldades? Seria o mesmo que tentar ensinar uma criança a andar de bicicleta, sem nunca soltar o selim! Como esperar que nossos filhos sejam adultos resilientes, com capacidade de tolerar a frustração (que vivemos todos os dias em maior ou menor escala), que saibam se auto consolar, se, nunca lhes damos a oportunidade de desenvolver essas aptidões necessárias a uma vida harmônica em sociedade?
A questão é que, quando o bebê nasce e por uns bons meses, ele (o bebê) tem uma dependência absoluta dos pais. Nessa fase, temos todos que ser pais helicóptero! Temos que estar ali, sobrevoando o bebê, 24h por dia, 7 dias na semana, entendendo e antecipando suas necessidades. É uma fase em que esse cuidado absoluto é fundamental para o bom desenvolvimento e amadurecimento da criança. É o colo dos pais, associado ao cuidado com o ambiente em torno do bebê, de modo a que seja facilitador do desenvolvimento, que vai permitir que este desenvolva a capacidade que todos os bebês têm de amadurecimento. Não se “estraga” ou mima um bebê pequeno. O colo, o contato com os pais, não é um luxo e sim uma necessidade para que as fundações de um amadurecimento saudável sejam fixadas. Mas, há um momento em que, desta fase de dependência absoluta, o bebê passa para uma de dependência relativa. Neste momento, os pais devem aposentar o helicóptero (o cuidado absoluto) e passar a oferecer um cuidado relativo, coerente com a fase do filho. Assim, para cada fase dos nossos filhos, nós também devemos mudar o “perfil “do cuidado. Neste caso, onde pais abandonam o helicóptero, passam a oferecer o espaço necessário para que a criança se desenvolva, sem estar “sufocada” por um cuidado absoluto de que não precisa mais.
Não há uma fórmula que possa ensinar aos pais a quando deixarem o helicóptero de lado. Apenas recomendo que olhem para seus filhos (e não para o Google ou algum livro ou blog escrito por pediatra!) e ousem. Olhar cuidadoso associado a tentativas, erros e acertos, é o que funciona. Só não dá para imaginarmos que, para uma criança em evolução e amadurecimento, poderemos adotar uma forma única e contínua de sermos pais. À medida que a criança cresce, nós também temos que nos modificar e adequar nosso modo de interagir com os filhos.
A única coisa que não muda é o amor e afeto que sentimos. Este está presente sempre e é o que garante que pais que “falham” aos olhos dos filhos (deixar de ser pai helicóptero), pais que dizem não, pais que não tem receio de exercer a autoridade, sem autoritarismo, sejam amados por seus filhos, ainda que, na superfície reajam, briguem e esperneiem. Não temam essa superfície. É muito melhor ter uma superfície revolta do que uma tranquila, com correntezas profundas, perigosas e invisíveis. Estas, só se manifestarão mais tarde, em um adulto com dificuldades de viver uma vida boa, ainda que nada fácil!
Gostaria de agradecer à Fernanda, mãe da Ana Helena, que me apresentou à expressão pais helicóptero, inspirando este post.

DIA DA CRIANÇA E O NOBEL DE ECONOMIA.

Hoje, dia 12 de outubro, se comemora o dia da criança. Praticamente como todas as datas que celebram alguém, há forte cunho comercial que as criou e sustenta. Datas (mães, pais, namorados e crianças) vendem! Nada contra, afinal de contas a economia precisa se movimentar, gerando riqueza, empregos e melhoria do nível de vida de todos. Por falar em economia, nesta semana foi anunciado o vencedor do Prêmio Nobel de Economia. O vencedor deste ano foi Richard Thaler, professor de Ciências Comportamentais e Economia, na Universidade de Chicago. O prof. Thaler é um dos acadêmicos que estuda e divulga uma linha chamada de Economia Comportamental. Trata-se de uma abordagem que incorpora ao conhecimento de economia, boas doses de psicologia. Em 2002, outro pesquisador que segue a mesma linha, Daniel Kahneman, também recebeu o Nobel de Economia. De forma simplória (a ser criticada pelos eventuais economistas que leiam este post), a economia comportamental incorpora nas suas análises uma faceta irracional do comportamento humano. Uma linha mais “clássica” ou ortodoxa, crê firmemente que o ser humano tomará as melhores decisões, baseadas em uma análise lógica e buscando otimizar seus ganhos e/ou minimizar perdas ou riscos. Para estes estudiosos, seríamos um homo economicus, ator racional, cujo comportamento (tomada de decisões) é previsível e redutível a modelos matemáticos. Ocorre que a nossa história pessoal (sejamos sinceros, quantas decisões sem um fundamento racional tomamos? Ou, quantas decisões envelopamos em racionalidade apenas para não revelar um desejo irracional?) e coletiva (guerras, intolerância de toda espécie, machismo, obesidade, uso de tabaco) nos mostram que não podemos ser reduzidos a um modelo mecânico de uma máquina que pensa. Somos seres, indivíduos, com uma alta complexidade e vetores (muitos desconhecidos de nós) que nos impulsionam no percurso das nossas vidas. Nesse contexto, agraciar um pesquisador que introduz a irracionalidade e relativa imprevisibilidade no comportamento humano deveria nos fazer repensar o modelo vigente de privilegiar a lógica e racionalidade.

Se você chegou até aqui na leitura deste post, já deve estar se perguntado se eu deixei de ser pediatra e resolvi estudar economia! O elo que farei (me acompanhem neste salto!) é o de que crianças não precisam de um Prêmio Nobel para lembrá-las de que a irracionalidade é um atributo fundamental e inerente ao ser humano. Não é um atributo do homo economicus idealizado por alguns, mas do homo (quase) sapiens que somos.

Para começar, observemos um bebê com poucos dias de vida. É um ser humano, sem a menor capacidade de cognição, sem processar pensamentos de forma lógica, ordenada, analítica ou sistemática. É apenas uma esponja de sensações! Tudo que se passa ao seu redor é captado e absorvido, sem o filtro da racionalidade. Portanto, sem nenhuma possibilidade de discussão, a existência, repleta de estímulos e registros, precede a lógica e a racionalidade.

O bebê cresce e, dadas as boas condições, vai amadurecendo.  Esse amadurecimento leva um bom tempo e durante esse tempo, somos capazes de observar como um pensamento pré-lógico ou mágico infantil domina o universo da criança. Ainda não há espaço para metáforas, tudo é muito concreto. As fábulas lidas ou contadas, representam algo que, de fato, aconteceu ou acontece em algum lugar. Vestir-se de princesa ou homem aranha, não é uma fantasia. É uma transformação! Naquele momento a crianças se percebe e se sente como se princesa ou homem aranha fosse. As histórias que nossos filhos “inventam” são absolutamente fascinantes e dignas de serem registradas para que possam ser recontadas a eles mesmos, uma vez mais crescidos ou adultos. Isso, sem falar na criatividade que as crianças têm para inventar brinquedos, a partir de sucata doméstica ou realizar pinturas, modelagens e colagens. O medo, tão natural em crianças, é outra manifestação explícita e observável da fase de “irracionalidade” que precede a introdução da lógica no pensamento infantil. De forma resumida, a imensa criatividade das crianças é uma homenagem à irracionalidade. Para aqueles que ficam incomodados com o termo irracionalidade (contaminados que estamos com o valor da racionalidade), podemos usar a palavra simbolismo ou simbólico. A imensa criatividade das crianças é uma homenagem ao ser simbólico que elas exibem (e que nós temos vergonha de mostrar).

Neste dia da criança, como em outros, vale a pena pegarmos carona no Prêmio Nobel de Economia, para justificarmos uma boa dose de irracionalidade nos nossos atos. Amor, carinho e afeto não são lógicos ou racionais. Estar perto, estar junto, sem uma justificativa ou sem estar fazendo algo, simplesmente estando, não é lógico ou racional (não raro ficamos aflitos por não estarmos fazendo nada!). Fabular, inventar, criar, encenar, não é lógico nem racional. Vejam que tudo que nossos filhos querem de nós é que também sejamos irracionais!

Para concluir, um segredinho: se formos irracionais, nós vamos nos divertir também, e muito! Bom dia das crianças (todos os dias)!

SER MÃE E PAI É PARA AMADORES!

Ser mãe e pai é para amadores, no sentido de quem ama. Não é para profissionais, no sentido de quem faz as coisas certas, na hora certa, visando, exclusivamente, atingir metas e resultados. Eu não tenho a menor dúvida de que todos os pais amam seus filhos. O que eu não tenho tanta certeza é se todos conseguem acreditar na importância de exibir esse amor. Assim, esse post é uma mistura de registros que venho colhendo, cujo objetivo é provocar os pais atuais e futuros a refletirem sobre a sua importância no desenvolvimento dos filhos.

1- Um recém-nascido precisa do amor dos seus pais. Um recém-nascido é um ser que depende, absolutamente dos seus pais. Diferentemente de outros mamíferos, os seres humanos permanecem com essa dependência absoluta, por um longo período. Assim, precisam de cuidados absolutos e imediatos. Esse cuidado se chama amor e é expresso pelo colo e um certo cuidado com o ambiente (está gostoso, confortável?). No colo, o bebê precisa do olhar e da voz dos pais. Não há o menor risco de bebês ficarem mal-acostumados com o colo dado nessa fase em que dependem absolutamente de seus pais. Pelo contrário, é esse colo, com o olhar e a fala dos pais que vai compor a base de uma segurança e auto estima futura.

2- Bebês cansam, e como! Ter um filho não é uma tarefa simples. As futuras mães e pais deveriam conversar mais com os amigos que já tiveram filhos. Não é algo que deve ser ticado de uma lista de tarefas a serem feitas. Casar, ticado. Ter filho, ticado. Não é assim. Filhos choram, e muito. São noites e noites mal dormidas. Isso faz parte da vida de ser mãe e pai. Não é o seu filho que não dorme, são todos (ou quase) que passam por sucessivas fases, todas muito cansativas. Ter filho significa ter disposição para passar por estas fases, sabendo que não há outro jeito que não seja passando. Não tem remédio para o que é normal!

3- Bebês nos tiram do sério. Bebês choram e, muitas vezes, não identificamos o motivo. Não é fome, frio, calor, fralda suja. Não parece ser cólica. Tentamos o que sempre funcionou, andar, balançar, cantar, massagear, ninar, virar de bruços e nada funciona. Isso, às 3 da manhã, depois de noites mal dormidas. Não tem como bebês não nos tirarem do sério. Sentimentos contraditórios e até ideias bizarras passam pela nossa cabeça. Ninguém fala disso com os pais que acabam se sentindo culpados por terem pensamentos “horríveis”. Pensamentos não são atos ou ações e é normal que ideias nem sempre de amor, paciência, tolerância, atravessem nossa cabeça. Humanos são assim.

4- Bebês crescem e os pais querem dar o melhor para eles. A sociedade de consumo se aproveita deste desejo legítimo dos pais e vende produtos e serviços que estimulam o bebê, de preferência com alguma explicação “científica”. O melhor estímulo para os bebês e crianças é o que vida oferece. Um tapete no chão, sucata doméstica e utensílios da casa (colher, panela, vassoura) ou brinquedos simples: um cubo, uma bola.  O que se deve ter em casa e introduzir muito cedo (6 meses), são livros. Zero necessidade de tecnologia ou sofisticação.  Zero necessidade de “aulas” disso ou daquilo, para bebês!

5- Nem todo desconforto é anormal. Um bom exemplo é a chegada dos dentes. Incomoda, irrita, mas é normal. É um incômodo que o ser humano pode suportar. Muitos pais não conseguem diferenciar o que seria um desconforto normal, de um sofrimento que precisa de atenção e cuidado. Querer tratar todo desconforto como sendo algo anormal, não permite a criança aprender a lidar com situações onde nem tudo está 100%. Muitas vezes os pais se colocam na posição de serem obrigados a eliminar todo e qualquer desconforto da vida de seus filhos. Pais que amam e estão preocupados com o desenvolvimento de um ser que se torne um adulto com capacidade de enfrentar dificuldades, saberão que, em alguns casos, não intervir é um ato de amor. Em outros, aceitam que nem tudo que se apresenta para nós, tem uma solução eficiente que elimine o desconforto, como um resfriado, por exemplo. Conviver com o desconforto por uma semana, será o modo dos pais cuidarem deste resfriado, sem perseguirem uma “solução mágica”, inexistente.

6- A vida não é fácil para ninguém. Um pouco na linha do desconforto que descrevi no item anterior, muitos pais não conseguem ver seus filhos chorarem porque foram frustrados em alguma demanda. Se sentem na obrigação de não deixar o filho “traumatizado” com uma frustração. Atendem a todos os pedidos e desejos da criança, rapidamente. Claro que estou falando de uma criança que não é mais um bebê que tenha uma dependência absoluta. Falo de bebês maiores e crianças. Ora, sem frustração, ninguém desenvolve a capacidade de autoconsolo e tolerância a um não atendimento de um desejo. A frustração é necessária para o desenvolvimento de um ser humano que consiga viver, harmonicamente, em sociedade. Bebês maiores, não precisam mais de cuidados absolutos e imediatos. Pelo contrário, precisam receber pequenas doses de frustração para que “se virem” sozinhos. Bebês e crianças a quem não lhes é oferecida a frustração, podem se tornar adolescentes e adultos onde tudo deve gerar prazer, sempre e de forma imediata. Isso é um desastre para o indivíduo e para a sociedade.

7- Autoridade é fundamental. Na sequência do tópico frustração, vem a questão da autoridade. Um bebê maior e, sobretudo, uma criança, precisa saber quem manda na casa. Mandar não significa abusar da autoridade. Mandar significa colocar ordem no ambiente. Cada família deve definir que valores deseja implementar e, a partir destes, uma autoridade clara (dos pais), assume a responsabilidade de colocar em prática o que acham importante. A criança deve sentir, sem dúvida alguma, que ela faz parte de uma família e não que ela tem uma família para atendê-la. Fazer parte de uma família significa que algumas coisas serão atendidas, outras, não. Significa que a criança terá algumas responsabilidades e obrigações, bem como benefícios e premiações. A ausência de uma autoridade que dê limites claros à criança pode gerar nesta, uma sensação de estar “solta”. Ainda que reclame quando lhe é imposto um limite, por dentro, sente-se segura e pode explorar o mundo sem receios, porque sabe que o limite a conterá. Colocar limites, dizer não, é uma forma de amor.

8- Amor não se terceiriza. Por mais atividades em que se coloquem os filhos, por mais que tenham “tudo”, só a presença do pais, seu olhar, suporte e estímulo, promoverá o melhor e mais completo desenvolvimento dos filhos. O amor, nos primeiros anos de vida, é o vetor mais poderoso para que os filhos possam explorar todo seu potencial. Pais preocupados em oferecer o melhor aos seus filhos, não devem procurar fora o que existe dentro de cada um de nós, o amor. Mais, não devemos ter vergonha ou pudor de exibir esse amor de forma clara para nossos filhos, através do contato físico, do abraço do beijo e da palavra- eu te amo! Crianças que se sentem amadas, se tornam adultos confiantes, seguros, criativos e felizes.

Este post é uma mistura de assuntos em que cada um daria, por si só, um tema. Revela uma inquietude com o que tenho visto na minha prática clínica: propostas externas (cursos, serviços) mais valorizadas do que o amor dos pais, dificuldade em lidar com situações normais de desconforto, impossibilidade de ver filhos frustrados e bebês ou crianças, sendo a “autoridade da casa”. Nada que não se possa reverter ou modificar. O que nos falta é abandonar as teorias sofisticadas e aplicar mais o que as avós faziam: muito carinho, alguma explicação e pouca negociação.