É POSSÍVEL UM LANCHE MAIS SAUDÁVEL?

A resposta é: sim, é possível. No entanto, também é verdade que dá mais trabalho e, eventualmente, custa um pouco mais caro. Mas, o que está em jogo é a saúde, a longo prazo, dos nossos filhos. O sobrepeso e obesidade infantil já se constituem em problema de saúde coletivo, no nosso país e no mundo. A questão do sobrepeso e da obesidade não é estética e sim de qualidade de vida. O risco de doenças como hipertensão (pressão alta), diabetes (açúcar no sangue), infarto agudo, acidente vascular cerebral (derrame), alguns tipos de câncer, problemas ósteo-articulares como atritres e atroses, é muito maior nas pessoas com sobrepeso ou obesidade. A única prevenção possível é o desenvolvimento de hábitos saudáveis, a partir da infância.

Um desses hábitos é o da alimentação saudável. Não significa nenhum radicalismo ou fundamentalismo alimentar. Significa apenas saber que certos alimentos fazem mais bem do que outros. Ou ainda, que certos alimentos fazem mal. De um modo muito simplista, alimentos processados, isto é, os que são produzidos pela indústria e chegam até nós em embalagens sedutoras e rótulos difíceis de entedermos, são menos saudáveis do que os alimentos preparados em casa. Dito de outra forma, um prato de comida feito em casa é mais saudável do que abrir uma embalagem e preparar ou comer diretamente o que a indústria produziu e colocou em embalagem atraente. A questão é que alimentos industrializados são mais práticos, rápidos e, muitas vezes, mais baratos do que prepararmos comida em casa. Mas, a pergunta que devemos nos fazer é: quanto vale a saúde dos nossos filhos? A alimentação, junto como outros hábitos saudáveis (sono, atividade física) funciona como uma “vacina” de longo prazo, prevenindo ou reduzindo a incidência de certas doenças.

Algumas escolas já iniciaram um movimento para ajudar as famílias a desenvolverem hábitos alimentares saudáveis, incluindo, no seu currículo atividades lúdicas de culinária, cantinas com rotulagem de fácil entendimento dos alunos e um conteúdo pedagógico transversal que contemple os diversos aspectos da alimentação, incluindo o prazer de comer, a alegria de comer juntos, fugindo de um aspecto meramente nutricional para uma abordagem mais biopsicossocial do comer. No Rio de Janeiro, as nutricionistas Renata Araujo e Cynthia Howlett desenvolveram o projeto Alimentação Consciente que está sendo apresentado às escolas e já é adotado pela Escola Parque. “Comer é prazer, é necessidade, é partilha, é afeto. Mas também é um ato político! Desejamos que as crianças sejam mais saudáveis. Que comam mais alface e menos miojo! Mais frutas e menos biscoito!Desejamos conter o aumento desenfreado da obesidade, e para isso solicitamos que as crianças façam suas escolhas alimentares baseadas em preceitos, nutricionalmente balanceados. Mas, nos perguntamos: será que estamos preparando as crianças para fazerem suas escolhas alimentares conscientes?” Esse é o enfoque do projeto liderado por estas duas nutricionistas em conjunto com os pais e as escolas.

Para ajudar os pais com algumas sugestões, pedi à Renata  receitas para um lanche mais saudável. Ela me enviou as seguintes receitas, sugerindo que, sempre que possível, a criança seja envolvida em todo o processo, começando pela compra dos ingredientes, passando pelo preparo e, finalmente, a degustação. Quando a criança é envolvida na elaboração da comida, seu interesse e curiosidade pela degustação aumentam. Ela se sente (e é) autora daquela comida que passa a ser dela e não algo completamente imposto por algum adulto.

Vamos às receitas (todas podem ser feitas com as crianças):

Pão de Tapioca
Ingredientes Leite desnatado – 1 e 1/2 xícaras

Tapioca Granulada – 3/4 xícara

Ovo – 1 unidade

Queijo Parmesão ralado – 1/2 xícara

Polvilho Doce – 1/2 xícara

Óleo de Girassol – 1/4 xícara

Sal – a gosto

Modo de Preparo
Em uma panela, ferver o leite com o sal. Desligar o fogo e adicionar o óleo. Em uma tigela colocar a tapioca para hidratar com o líquido ainda fervente. Reservar por 30 minutos. Depois de frio, adicionar os outros ingredientes e amassar bem com as mãos. A massa deve soltar das mãos. Caso isso não ocorra, adicionar um pouco mais de polvilho. Fazer bolinhas com as mãos e colocar sobre tabuleiro antiaderente. Levar para assar em forno préaquecido (180C) por 35 minutos.

Omelete do Pedro e da Alice (filhos da Renata)

4 ovos

4 bolinhas de queijo de búfala (ou uma fatia de queijo Minas)

4 tomates cereja

1 pitada de sal

1 pitada de orégano (opcional)

Modo de preparo:

Picar o queijo, cortar os tomates e misturar bem.

Em uma tigela, bater os ovos com garfo ou batedor manual (fouet).

Uma vez que os ovos estejam bem batidos, acrescentar o queijo e tomate já misturados. Colocar uma pitada de sal e de orégano (opcional) e mexer. Derramar sobre uma frigideira quente antiaderente ou com um fio de azeite. Virar o omelete e dobrar quando estiver com a consistência desejada (os franceses preferem o omelete mais mole, chamado de baveuse).

Iogurte natural caseiro
Ingredientes Leite integral – 1 litro

Iogurte natural desnatado consistência firme – 1 pote

Leite desnatado em pó – 2 colheres de sopa bem cheias

Açúcar Demerara – a gosto

Modo de preparo
Ferver o leite. Desligar. Deixar esfriar (37 C) para adicionar o leite em pó e o iogurte. Misturar delicadamente. Tampar a panela e colocar em local reservado por 12 horas. Sugestão guardar dentro do forno desligado.

Dica gastronomica
No fundo de cada potinho pode-se colocar uma geléia de frutas sem sabor para flavorizar seu iogurte.

Dica de conservação
Após 12 horas de descanso todo o contedo da panela se transformará em iogurte. Conservar na geladeira por até 4 dias. Sugestão transferir o contedo para potinhos individuais. Assim, evita-se a manipulação constante do iogurte, favorecendo a conservação.

Cookie de banana
👉🏼 sem açucar refinado adicionado
👉🏼 receita fácil de ser feita com as criança
👉🏼 os ingredientes como chocolate, coco e amendoas podem ser modificados para outra de preferência da criança

•Banana  madura(3  unidades)

•Aveia em flocos(2  copos duplos)

•Óleo de  girassol(1/4  de  copo duplo)

•Amêndoas sem casca trituradas no  processador(2/3  de  copo duplo)

•Coco  ralado sem açúcar (1/3  de  copo duplo)

•Fermento em pó(1  colher de  sobremesa)

•Baunilha(1  colher de  sobremesa)

•Sal  (1/2  colher de  sobremesa)

•Canela em pó(1/2  colher de  sobremesa)

•Chocolate  amargo picado ou passas pretas(170  g)

Modode preparo:
Numa vasilha,misturar as  bananas amassadas com baunilha e óleo de canola.Reservar. Em outra vasilha, misturar os secos: aveia, amêndoas trituradas, coco ralado,canela em pó, sal e fermento.Adicionar a banana aos secos e misturar  bem com um garfo. Por último,juntar os pedacinhos de chocolate amargo.Faça pequenas bolinhas e disponha no tabuleiro preparado.
Préaqueça o forno a 180°C.Forrar 2 tabuleiros com papel manteiga. Reservar.
Assar por 20 a 25 minutos. Deixar esfriar antes de retirar do tabuleiro com uma espátula de silicone.

E uma receita de sobremesa, em imagens:

YumYum (frappé de frutas com inhame):

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma variação da receita de biscoito de banana me foi enviada pela D. Liliane, avó da Lia, que, sentada no carrinho, não consegue decidir qual dos dois biscoitos vai comer!

 

Biscoitos de banana da Lia:

2 bananas nanicas maduras (quanto mais maduras, mais doce ficarão os biscoitos)

1 xícara de aveia, quinoa ou amaranto

2 colheres de sopa de uvas passa sem semente, coco ralada ou frutas secas picadinhas (opcional)

2 colheres de sopa de nozes, amêndoas, castanhas picadas ou outras oleaginosas (opcional)

1 colher de chá de canela em pó (opcional)

Modo de preparo:

Com um garfo, amasse as bananas e misture os demais ingredientes até obter uma massa bem integrada. Em uma assadeira antiaderente ou untada com um mínimo de azeite, coloque montinhos com pouco menos de uma colher de sopa da massa, com um dedo de distância entre eles. Não deixe-os muito altos para que assem bem e fiquem mais sequinhos.

Leve a assadeira ao forno preaquecido a 180º C por mais ou menos 20 minutos. Quando os biscoitos estiverem dourados, desligue o forno e deixe-os esfriarem lá dentro.

 

É importante lembrar que é em casa que os hábitos devem ser desenvolvidos. A escola tem um papel importante na vida das crianças e de suas famílias, mas não substitui os pais. Mais do que isso, é o exemplo da casa que vai contribuir para a formação de hábitos saudáveis. Palavras têm muito menos poder do que as ações. Se os pais se exercitam, comem razoavelmente bem, os filhos tenderão a seguir o modelo deles. Mas, se os pais são sedentários e optam por uma alimentação rica em gorduras, frituras e açúcar refinado, não há escola que conseguirá desenvolver, nestas crianças, hábitos saudáveis.

 

Contato da nutricionista Renata Araujo: realimentare.com.br  ou Instagram- @realimentare

 

A MÃE SUFICIENTEMENTE BOA.

Hoje é o dia das mães e sinto um certo bloqueio criativo para escrever algo que seja, ao mesmo tempo, original, interessante e carinhoso. Não deveria ter relido posts que escrevi em dia das mães passados! Gostei de alguns, o que só aumentou meu bloqueio porque me convenci de que já tinha escrito o que eu poderia escrever a respeito da mães, no seu dia. Se algum leitor do blog desejar visitar esses posts, seguem os links: MÃE COM M DE MULHER!    RECEITA DE MÃE  MÃE OU MULHER?  MÃE

Em um mundo onde fazer, realizar, agir, bater metas, atingir objetivos, se tornou praticamente a única forma de se obter reconhecimento, sucesso e realização, é razoável que tentemos transformar todos os aspectos das nossas vidas em desafios, onde essa lógica (da ação e metas) funciona muito bem. Essa lógica é perfeita para uma empresa ou empreendimento, para atividades físicas, para o planejamento de vários aspectos da vida como viagens, cursos, orçamento familiar, mas, definitivamente, não dá conta de todos os aspectos das nossas vidas. A complexidade da vida não se deixa reduzir a uma planilha Excel, nem a um ou dois aplicativos que tudo registram, controlam e calculam. Mas, na cultura vigente, é como se fosse possível traduzir a nossa complexidade a uma só linguagem, a da eficiência. Toda vez que tentamos reduzir algo complexo a uma única “fórmula”, nos comportamos como uma sapataria que só vende calçados no tamanho 36! Muitos pés caberão nos sapatos vendidos, mas um número grande, permanecerá descalço.

Quando falo da complexidade da vida humana, não me refiro a nenhuma teoria de difícil compreensão. Falo do nosso dia a dia. Por que um dia acordamos de bom humor e outro nem tanto? Por que olhamos para um nascer do sol e temos um sentimento gostoso, difícil de descrever? Por que me nos emocionamos ao ouvir uma música (e não outra)?  Por que, mesmo com toda a informação disponível, existem fumantes? Por que instalamos um aplicativo para saber onde tem lei seca ao invés de ir e vir de taxi? Por que sentimos atração por uma pessoa e não por outra? Por que, com tantas publicações, blogs, programas de TV, falando de alimentação saudável, só aumenta o percentual de pessoas com sobrepeso? Por que existem guerras?  Claro que um pragmático radical terá uma resposta simples e convincente para todas estas perguntas. Mas, o fato é que não existem repostas únicas, muito menos simples.

Nesse contexto, as mulheres se tornam mães e a maternidade passa a ser vista como um “empreendimento”. A cobrança explícita ou velada é uma só: performar para ser uma mãe maravilhosa (leia-se, uma mãe perfeita).  Amamentar deixa de ser um meio, para ser um fim. É como uma maratona a ser corrida, amamentar até os 6 meses de idade. E lá vai a mãe, ofegante, atravessando o terceiro mês e a torcida (grupos de mães no WhatsApp) gritando: não para não! Continua! Só faltam 3 meses, não vai parar agora, vai? O que deveria ser prazeroso para o bebê e para a mãe, virou meta a ser cumprida (em tempo- óbvio que sou defensor do aleitamento materno exclusivo até os 6 meses. Só não sou um fundamentalista que acha que é isso ou nada! Leiam MAMADEIRA: ASSUNTO PROIBIDO!). Além de amamentar, a mãe não pode falhar em nada! Ao seu redor, todos os bebês dormem a noite inteira, nunca golfam, choram pouco e os que já estão comendo, comem tudo! A cobrança é total e o desespero, idem. Essa mãe passa o dia correndo atrás de uma meta imaginária e inexistente de perfeição que só a exaure física e emocionalmente.

Essa exigência da perfeição explica, em parte, a proliferação de cursos sobre tudo que se possa imaginar. Desde o curso geral, como ser uma ótima mãe, até os mais específicos: como dar o banho no bebê, como amamentar, como trocar fraldas, como estimular o seu bebê, como fazer o bebê dormir, o cardápio saudável etc.  As pessoas entram em tal frenesi que sequer param para pensar como a humanidade chegou até aqui. Foram 70 mil anos de percurso (homo sapiens falante) até os dias de hoje. Durante aproximadamente, 60 mil anos, fomos caçadores coletores, andando pelo mundo. Só começamos a escrever há uns 12 mil anos, a prensa só tem 570 anos, a pediatria uns 300 anos e o Google, 19 anos. O ponto é que a espécie sabe cuidar da espécie! Esse saber é intrínseco, não dependendo de cursos, pediatras, grupos de WhatsApp etc.  Claro que o progresso e a tecnologia tornaram nossas vidas muito mais seguras e confortáveis. Mas, posso garantir que Michelangelo e Einstein não tinham tapetinhos estimuladores, nem suas mães lhes deram comida utilizando o método BLW (ou qualquer método)!

Em torno de 1950, Donald Winnicott, um pediatra que se tornou psicanalista, cunhou a expressão- mãe suficientemente boa (good enough mother). O que Winnicott queria dizer é que as mães, ao olharem para seu bebês, são capazes de identificar suas necessidades (no bebê pequeno, a necessidade essencial é viver) e estar lá para atendê-los. Simples assim, ainda que muito cansativo. O segredo (acho eu) está no olhar para o seu bebê e não para o mundo de livros, sites e conselhos que existem. Estes, ainda que possam conter algumas informações úteis e interessantes, sempre falam de um bebê médio, de um bebê estatístico. O bebê individual é único só é conhecido por seus pais. Estes são os verdadeiros “especialistas” no filho ou filha. (MANUAL DE INSTRUÇÕES PARA CUIDAR DOS NOSSOS FILHOS. UMA AULA PRÁTICA DE COMO LER O MANUAL DA CRIANÇA.)

O olhar a que Winnicott se refere não é apenas o olhar objetivo, mas, sobre este, o olhar afetivo. É no olhar afetivo que mães e bebês trocam informações que, sem que se deem conta, farão com que se entendam e o bebê possa se desenvolver bem, tanto objetivamente (peso, tamanho, conquistas motoras etc.) como subjetivamente (identidade pessoal, autoestima, capacidade de tolerar frustrações, afeto, agressividade etc.). O afeto é um sentimento onde a lógica da performance não se aplica. Não se quantifica afeto, não se traduz o afeto em metas e objetivos. O afeto se vive e esse viver afetivo é fundamental para todos nós os seres humanos.

Se eu pudesse desejar algo para todas as mães no seu dia, seria que confiassem na sua emoção ao olhar para o seu bebê ou criança, desconfiando de todas as regras e métodos que lhe tentarem empurrar.

Que todas as mães possam se sentir excelentes mães por serem apenas suficientemente boas, sem buscarem a perfeição. E, uma vez livres desse peso (da perfeição) possam deixar fluir o amor que nos torna humanos.

 

 

 

 

 

PAIS NÃO SÃO CIENTISTAS, MAS ARTISTAS!

“A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação dá a volta ao mundo.” Albert Einstein ¹

Inicio o texto com uma citação de uma das mais brilhantes mentes científicas da humanidade. É uma afirmação de uma pessoa que passou sua vida envolvida em fórmulas matemáticas, desenvolvendo teorias que, algumas, só vieram a ser comprovadas muito recentemente. No entanto, quando perguntado se confiava mais na sua imaginação do que no seu conhecimento, deu a resposta acima, surpreendente para um físico brilhante. Talvez surpreendente para qualquer um de nós que viva neste planeta, neste século. Vivemos a era das certezas e convicções “científicas”. Coloquei aspas em científicas porque muitas das nossas convicções são baseadas em pseudociência, fraudes, farsas e manipulações. Mas isso é outro assunto. O fato é que o valor dado à racionalidade, lógica, precisão, previsão, modelos matemáticos, estatísticas, algoritmos, big data, é inequivocamente maior do que o dado à arte, intuição, sensações, imaginação, afeto e amor.

Nenhum de nós escapa ao tsunami da cultura, sendo esta o conjunto de valores que expressam uma época ou um grupo humano. Imersos em dados, números, estatísticas, gráficos que projetam eventos futuros, não poderíamos ser mães e pais sem estarmos “contaminados” por esta praga contemporânea.

Imagino que, a esta altura do texto, engenheiros, matemáticos, economistas e físicos já pararam de ler, irritados com minha irreverência com a ciência. Eventualmente, um grande número de leitores, sentiu desconforto ao ver um nossos oráculos atuais (a razão) ser provocado por um pediatra! Mas, antes que não tenha nenhum leitor que chegue ao final do texto, explico alguns pontos. A ciência é fundamental. O pensamento científico é um passo enorme da humanidade para sair do obscurantismo dos mitos e crendices. O pensamento científico é ainda muito jovem na nossa história, datando de aproximadamente 500 anos, o que é muito pouco para o confronto com 60 mil anos de fantasias e crenças, sem nenhuma fundamentação ou comprovação. Portanto, sou um ferrenho defensor do pensamento científico. A proposta deste texto é a de, preservando o pensamento científico, afirmar que é uma condição necessária, mas não suficiente, para a nossa vida, neste planeta. Dito de outra forma há uma característica humana chamada emoção, que não se opõe à razão, sendo, com esta, parte de um todo indivisível do ser humano. Não existe, no mundo real, a divisão ou polarização entre razão e emoção. Fomos induzidos a acreditar nisso por modelos culturais que nos precederam (Descartes sendo um dos mais conhecidos) e que se mantém até hoje. Para me “garantir”, comecei o post com uma declaração de Einstein, valorizando a imaginação, que nada tem de racional!

Como em vários outros posts, tem uma hora em que o leitor, se chegou até aqui, se pergunta- mas o que isso tem a ver com ser mãe e pai? Aonde esse pediatra quer chegar?

Uma mulher engravida. Ao mesmo tempo em que faz o seu pré-natal, baseado nos melhores conhecimentos científicos disponíveis, imagina seu filho. Pode até ver uma imagem de ultrassom do bebê, mas o que os pais imaginam não é aquela imagem, ainda que seja emocionante. Durante a gravidez, a mulher e o pai, imaginam o parto, o recém-nascido, como será, que personalidade terá, com quem se parecerá? As preocupações de todos nós também aparecem no imaginário de casais grávidos: será saudável, perfeito, inteligente?

Nasce o bebê e há um choque de realidade. O imaginado não é exatamente como o real. Seja o aspecto físico (a carinha amassada, a orelha assim ou assado, o nariz que não lembra o de ninguém), seja o comportamento do bebê. O bebê imaginado era doce, meigo, manso. Dormia a noite toda como um anjo e, de dia, mamava feliz. Pois bem, o bebê chora, e chora mais, e chora muito. Não dorme à noite, só quer ficar no peito, machuca o peito, é incomapecido, não poupando a mãe, sugando leite, energia e vitalidade (que mãe não sentiu um cansaço jamais sentido antes?).

Claro que estou exagerando, pintando com tintas fortes, um quadro onde também há um sentimento de amor jamais vivido anteriormente. Quero apenas preparar o clima para o próximo movimento.  Diante da insegurança (natural e normal) que esta “pororoca” entre o imaginado e o real  produz, qual a solução? Consultemos nossos oráculos contemporâneos: Google, grupos de mães e o pediatra. A pergunta, expressa de diferentes maneiras é sempre- isso é normal? E acreditamos que a resposta, técnica, está fora de nós, dos nossos sentidos, guardada a sete chaves por algum sábio que entende mais do que nós de bebês.

Proponho que ao invés de consultar os oráculos ou especialistas com supostos saberes, os pais se voltem para a sua intuição, sensibilidade, emoções, imaginação e criatividade. Claro que os conhecimentos científicos adquiridos serão úteis e servirão como um guia ou norte, mas nunca como uma norma ou regra. De que adianta dizer que um bebê “deve” dormir 16h por dia se o seu dorme 14h ou 18h? O que importa é saber se o bebê está saudável e não se “obedece” a uma regra! De onde vêm as “regras” da introdução alimentar (ou alguém acha que um bebê sueco, vai ser alimentado com banana)? Aliás, de onde vêm tantas regras que assegurem um desenvolvimento “normal” do ser humano. Suspeito que venham, entre outros fatores, de uma exploração da insegurança natural que temos diante de algo novo (filhos, frágeis e dependentes absolutos de nós), com o intuito de vender um serviço ou o simples “conhecimento”. Claro que obedecer a uma regra remove a responsabilidade do eventual erro, mas também tira o que há de mais rico na maternidade e paternidade que é a autoria do processo de criar esse novo ser humano.

A explicação para a necessidade dos pais serem mais artistas e menos cientistas é muito simples. Cada ser humano, bebê, criança, adolescente, adulto, idoso, é único. Não existem duas impressões digitais iguais, duas vozes idênticas, personalidades replicadas etc. Nenhum ser humano está plenamente representado em uma média ou estudo.  O fato de sermos únicos cria um desafio e um prazer na maternidade e paternidade. O desafio de olhar e perceber o filho como sendo outro, literalmente, e não uma edição revista e melhorada dos pais e o prazer  é o de um artista  quando cria uma obra. Para criar uma obra, o artista lança mão da sua imaginação, criatividade e ousadia. Se não fosse assim, não teríamos um Michelangelo, Da Vinci, Monet, Chagall, Picasso, Cervantes, Drummond, Bandeira, Beatles, Caetano, Gil e, nessa relação interminável de artistas que nos emocionam com sua criatividade, por que não incluir os cientistas que, antes de desenvolver uma tese, ousaram pensar de forma inédita. Mesmo a ciência começa com o simbólico, o imaginado, o fantástico.

Ser mãe e pai é um processo continuado de criação artística e o resultado final é o orgulho ao ver a obra viva, feliz e integrada ao mundo. Diferentemente de Michelangelo que, ao ver o seu Moisés terminado, teria batido com o martelo na escultura e perguntado por que não falas, nossa obra fala (e sente).

Sejamos todos mais ousados, imaginativos e emotivos. Sejamos artistas que exploram as infinitas possiblidades de criação na tela da vida. Os filhotes agradecem. A humanidade também!

 

1- Entrevista dada a  G. S. Viereck, “What life means to Einstein”, Saturday Evening Post, 26/October/1929, reimpresso em G. S. Viereck, Glimpses of the Great, new York: Macauley, 1930, p. 447.

RISCOS DA VACINAÇÃO

“Para todo problema complexo, existe uma solução simples, elegante e completamente errada” Henry Louis Mencken.

Após a publicação do post da semana passada, recebi alguns comentários, relacionados à segurança da vacina contra a Febre Amarela. Algumas pessoas acreditam que as autoridades sanitárias omitam os casos onde ocorra algum efeito indesejável, após a vacinação. Não tenho nenhum envolvimento, direto ou indireto, com o setor público. Portanto, não posso afirmar nada em nome destes agentes. Mas, sei que o nosso sistema de vigilância epidemiológica é muito eficaz e, como parte desse sistema, temos um sistema de vigilância epidemiológica para efeitos adversos pós vacinação. Nem todas pessoas sabem desse sistema que é o responsável por coletar dados, de forma regular, através de procedimentos padronizados e, assim, acompanhar a incidência de efeitos colaterais que possam ocorrer com todas as vacinas administradas pelo Programa Nacional de Imunizações. Os profissionais de saúde envolvidos em vacinação recebem treinamento e/ou têm acesso aos manuais do Ministério da Saúde que tratam, especificamente, de efeitos adversos de vacinas e a forma de notificá-los. Estou detalhando um pouco mais esse sistema porque acho relevante a informação de que, no Brasil, acompanhamos, de forma sistemática, quaisquer efeitos colaterais de vacinas (não só a de Febre Amarela). Acredito que é pouco provável, nos dias de hoje, com a circulação eletrônica da informação que uma autoridade possa omitir ou ocultar dados, por um longo período de tempo.
Com relação à segurança das vacinas em geral, gostaria de citar alguns fatos:

1- Não sabemos tudo, nunca. O conhecimento é um processo contínuo e o conhecimento científico pressupõe que não se consiga chegar a uma Verdade (com V maiúsculo). O conhecimento científico é, na melhor das hipóteses, a melhor informação disponível, naquele momento. Por esse motivo algumas verdades (com v minúsculo), frequentemente são substituídas por outras (também com v minúsculo). Um exemplo caricato é a história do ovo. Ovo faz bem ou faz mal? Pode comer ovo ou precisamos parar de comer ovo? A cada momento, em função de novos conhecimentos embasados no método científico (que é algo bem complexo e não somente a apresentação de estatísticas), teremos uma verdade.

2- O impacto da vacinação no crescimento da expectativa de vida foi imenso e esta realidade só foi possível através da vacinação sistemática da população exposta. Este é um fato praticamente incontestável. Digo praticamente porque ainda existem pessoas ou grupos que se opõe à vacinação. Não há nenhuma evidência científica que embase esta resistência que, habitualmente, está baseada em argumentos relacionados com crenças (eu acho isso ou eu acho aquilo), crendices (mitos) ou ainda informações já demonstradas como falsas (vacina contra Sarampo produz autismo).

3-As vacinas não são 100% efetivas, e também não estão isentas de oferecerem possíveis riscos para a população. O senso comum é o oposto desta afirmação. Talvez porque seja o mais desejável, pensamos que, uma vez vacinados, estaremos 100% protegidos contra uma determinada doença e que a vacina não pode fazer mal algum (exceto um pouco de dor no local e, talvez, um pouco de febre). Nossa cabeça tem mais facilidade de pensar de forma binária onde ou algo faz bem ou faz mal. Ou protege, ou não protege. No mundo real, as coisas vivas não funcionam de modo binário (exceto computadores). Seres vivos são, por definição, variáveis. Vacinas aplicadas em seres vivos podem proteger a maioria, mas não todos. Podem ter pouquíssimos efeitos colaterais para a maioria, mas não para todos.

4- Nenhuma vacina está totalmente livre de provocar eventos adversos, porém, os riscos de complicações graves causadas pelas vacinas do calendário de imunizações são muito menores do que os das doenças contra as quais elas protegem. Esta é a chave que justifica (ou não) o uso de determinada vacina. É preciso que fique cientificamente demonstrado (usando métodos rigorosos e complexos) que, comparando os riscos da vacinação, com os da doença natural, aqueles (os riscos da vacinação) sejam significativamente menores do que estes (os riscos da doença natural).

Especificamente com relação à vacina contra a Febre Amarela:

1- Mesmo com a possibilidade de eventos adversos graves, incluindo o óbito, a vacina contra a Febre Amarela é o melhor meio de se evitar esta doença que apresenta uma alta taxa de mortalidade (em torno de 50% dos casos morrem) e deve ser utilizada de forma rotineira em áreas endêmicas (onde a Febre Amarela existe de forma contínua) e nas pessoas de áreas não endêmicas que poderiam estar expostas. Essa é a lógica pelo qual, até muito recentemente, pessoas de algumas áreas do Brasil recebiam a vacina contra a Febre Amarela como parte do calendário regular e outras não. Em uma área onde não há o risco de se contrair a doença, o risco de reações adversas da vacina não justifica o seu uso. No entanto, quando uma área ou região que não era de risco de se contrair a doença passa a ser de risco, justifica-se a vacinação porque a equação muda (a doença passa a ser mais “perigosa” do que os efeitos colaterais da vacina).

2- As estatísticas disponíveis para o risco de efeitos colaterais da vacina contra a Febre Amarela não são homogêneas porque dependem de estudos feitos em condições epidemiológicas e metodologias diferentes. Cito alguns números para que tenham uma ideia da frequência com que complicações podem ocorrer.
A pior consequência adversa que pode ocorrer é o óbito provocado pela vacina. As estimativas são de que 0,043 a 2,31 pessoas por um milhão de doses de vacinas, poderão falecer. Traduzindo em porcentagem seria 0,0000043% a 0,00023% das pessoas vacinadas que poderiam vir a falecer. É um número muito baixo, mas não é zero. Portanto, quando comparamos esta porcentagem com a taxa de mortalidade da doença (50% das pessoas podem morrer), verificamos que o risco de óbito pela doença é muito maior do que pela vacinação. Mas, para nós humanos, números são abstrações, e quando temos a notícia de um óbito provocado pela vacina, essa notícia “apaga” a nossa capacidade de pensar de forma abstrata, conceitual ou racional e o medo ou pânico se instalam.
Com relação aos possíveis efeitos colaterais no sistema nervoso central, estima-se que estes podem ocorrer em 1 em 125.000 vacinas aplicadas. O que corresponderia a 0,001 %. As alergias graves (não uma simples urticária ou edema de lábios e olhos), podem ocorrer em 1 em 55.000 vacinas aplicadas, correspondendo a 0,002%.

3- Alergia a ovo e outros componentes da vacina. A vacinação de pessoas com alergia a ovo ou outros componentes da vacina (gelatina, proteína de frango e outros possíveis componentes) deve ser avaliada caso a caso. Não há consenso em como lidar com esses casos, mesmo porque a expressão “alergia a ovo” pode significar desde uma urticária, até um choque anafilático. As pessoas que tenham alergia a ovo devem procurar um médico para que possam ser orientadas e, em função tanto da intensidade da sua reação alérgica, quanto do risco de contrair a doença (uma epidemia, por exemplo), definir qual a melhor estratégia. Do ponto de vista acadêmico, mas com imensa dificuldade de se fazer na prática, um teste com uma dose de vacina diluída poderia ser feito ao mesmo tempo que se faria um controle  (geralmente com histamina). Se o teste der negativo a pessoa poderia ser vacinada. Se der positivo, não deveria ser vacinada e poderia tentar um tratamento de dessensibilização. Como podem ver, na prática não é possível se implementar estas ações, principalmente em grande escala.

A mensagem, uma vez mais, é que a vacina contra a Febre Amarela, em uma situação de risco epidêmico, é o melhor meio para se proteger contra esta doença que mata metade das pessoas que adoecem. A vacina não é isenta de riscos (nenhuma vacina ou, por extensão medicamento é isento de riscos), mas, em uma situação epidemiológica como estamos vivendo em várias áreas do Brasil, estes riscos são muito menores do que os da doença natural.

Boa vacinação para todos!

DR. É PARA DAR A VACINA DE FEBRE AMARELA NO MEU FILHO?

SIM! Se o seu filho tem 9 meses ou mais e nunca foi vacinado contra a Febre Amarela, a resposta é um sonoro sim. A Febre Amarela é uma doença que tem uma taxa de mortalidade de aproximadamente 50%. Isto é, de cada 100 pessoas que adoecem de Febre Amarela, 50 devem morrer. É muito alta esta taxa para se adiar, postergar ou se negar a vacinar os filhos (e os adultos não vacinados).

Circula pela internet um áudio contendo informações completamente falsas, incentivando as pessoas a não se vacinarem. Trata-se de um crime porque expõe as pessoas a uma desinformação, cujas consequências podem ser fatais caso alguém siga a recomendação de não tomar a vacina.

A seguir alguns fatos sobre a vacina contra a Febre Amarela:

1- A vacina é feita com vírus vivo atenuado. Isto significa que o vírus foi processado de forma a perder a sua capacidade de produzir a doença, mas ainda estimular o sistema imunológico da pessoa. A gotinha da Pólio, que erradicou a doença no nosso país, também é feita de vírus vivo atenuado. As vacinas contra Sarampo, Rubéola, Caxumba e Varicela (Catapora), também são feitas de vírus vivo atenuado. Assim, o uso de vírus vivo atenuado em vacinas não é uma “exclusividade da vacina contra a Febre Amarela.

2- A vacina existe desde 1930. Portanto, é uma vacina com um longo histórico de uso, com eventuais e pequenos efeitos colaterais (dor no local, eventualmente febre). No entanto, raros casos de efeitos colaterais mais graves podem ocorrer. Estes ocorrem na proporção de 0,4 a 0,8 por 100.000 pessoas vacinadas. Como todas as vacinas o que se avalia é o risco que a doença natural impõe, versus o risco de um efeito colateral mais grave. Para uma doença com uma taxa de mortalidade de 50%, fica claro que o risco de não tomar a vacina é muito maior do que o de uma complicação mais grave da vacina.

3- É preciso, no mínimo, dez dias entre a vacinação e o início da proteção. Assim, quem vai viajar para uma área de risco deve levar em conta esse prazo. Quem pretende viajar na sexta-feira de carnaval para algum lugar onde há o potencial risco de Febre Amarela, já deveria ter se vacinado ao ler este post!

4- A vacina fracionada não é mais fraca. O fracionamento da vacina foi uma estratégia adotada pelo Ministério da Saúde, com o endosso da Organização Mundial da Saúde, visando a aumentar a cobertura vacinal (número de pessoas protegidas) em um curto período de tempo. Esta estratégia está baseada em estudos, um dos quais feito na Fundação Oswaldo Cruz com um grupo de voluntários que tomou a vacina fracionada há oito anos atrás. Até o presente momento, foi possível demonstrar, neste grupo, anticorpos em níveis suficientes para proteger contra a doença. Assim, sabemos que por, pelo menos, oito anos, a vacina fracionada é eficaz. Com a continuação do estudo poderemos descobrir que a vacina fracionada protege por mais tempo.

5- Crianças de 9 meses a 2 anos de idade serão vacinadas com a dose plena, não fracionada porque não foram feitos estudos nessa faixa etária.

6- Quem tomou uma dose da vacina contra a Febre Amarela não precisa mais tomar outra dose. Desde 2013 que a Organização Mundial da Saúde eliminou a necessidade de um reforço a cada dez anos. Apenas em caso de viagem internacional para país que ainda exija um reforço, deverá a pessoa procurar a unidade de saúde e trocar o seu certificado por um em que esteja claramente redigido que não há necessidade de reforço.

7- Somente quem teve reação anafilática (choque) a ovo, não deverá tomar a vacina contra a Febre Amarela. Reações como urticária, vômitos, após a ingestão de ovos não contraindicam formalmente a vacina. Mas, pessoas com alergia a ovos devem procurar orientação individualizada junto ao médico e informar sua condição, no momento da vacinação.

8- Até o presente momento não há nenhum caso de Febre Amarela urbana. Isto é, febre amarela contraída em área urbana. Esta é transmitida pelo mosquito Aedes. O que existe são casos de Febre Amarela silvestre, em região de mata ou floresta, transmitidas pelos mosquitos Haemagogus e Sabethes.

9- Crianças menores de 6 meses não podem ser vacinadas. Crianças entre 6 e 9 meses somente devem ser vacinadas se o risco de contrair a doença for muito alto. Siga as orientações da sua Secretaria Municipal de Saúde.

10- Grávidas e mães amamentando, em princípio não deveriam tomar a vacina. No entanto, dependendo do risco de contrair a doença, a autoridade sanitária (Secretaria Municipal ou Estadual de Saúde ou o próprio Ministério da Saúde) poderá autorizar que este grupo seja vacinado.

Para saber mais, não leia informações divulgadas por grupos ou mensagens no WhatsApp. Acesse fontes confiáveis como o Ministério da Saúde: http://portalms.saude.gov.br/saude-de-a-z/febre-amarela-sintomas-transmissao-e-prevencao; Organização Mundial da Saúde: http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs100/pt/ e o CDC de Atlanta (em inglês): https://www.cdc.gov/yellowfever/index.html

Caso leia uma notícia ou ouça um áudio que destoe do que está escrito neste blog ou nos sites recomendados, não o passe adiante. Não participe da rede de notícias falsas e mentirosas que colocam em risco a saúde de outras pessoas.

Boa vacinação para todos!

 

 

 

2018 SEM LISTA DE DESEJOS!

Ano passado fiz uma lista de desejos para 2017. Talvez tenha desejado demais, mas o fato é que,  infelizmente, nenhum deles se realizou! Confiram clicando no link LISTA DESEJOS DE UM PEDIATRA PARA 2017!

Dizem que loucura é quando se faz tudo igual, esperando resultados diferentes. Portanto, neste ano, não vou fazer nenhuma lista, não vou desejar nada, criar metas, planejar o futuro, gerar expectativas a respeito do Trump, da desigualdade no mundo, da lava-jato, eleições e paz na terra para os homens de boa vontade!

Para 2018, proponho que se faça a abolição do futuro e consigamos viver no presente. Parece uma obviedade porque, afinal de contas, vivemos no presente. Mas, não raro, adoecemos de futuro. Isto é, os pés estão plantados no presente, mas a cabeça já voa longe, povoada por pensamentos, preocupada a respeito de algo que, supostamente, poderia ocorrer. A vida, no futuro, é um delírio. Nos permite tanto ganhar na mega sena, quanto sofrer por antecipação com pensamentos pessimistas. A vida no presente, é o que é. É o que temos de real, concreto. É a matéria prima com a qual podemos construir nossa felicidade, real. O presente é o que nos dá os elementos para que possamos enfrentar as dificuldades reais e não as imaginadas. É o fio que tece as nossas vidas.

Lidar com presente não é algo com o que estejamos habituados. Nossa cultura, sem crítica, apenas constatação, sempre nos empurra para o amanhã. Há sempre um amanhã, em geral ameaçador, que nos obriga a viver um presente tenso, preocupado, espartano. A frase: “nunca se sabe o dia de amanhã” resume bem esse tom ameaçador. Nunca é dita de forma a que se entenda que amanhã vai ser uma maravilha. É dita como um sinal luminoso, piscando: cuidado, perigo adiante!

Sem nos darmos conta (ou dando), a vida no presente vai sendo modelada por um futuro suposto ou imaginado. Talvez (não sou nem filósofo, nem psicanalista) a suposição de um futuro, ainda que ameaçador, nos faça afugentar a única certeza que temos a respeito do futuro- nossa finitude. Pensar, continuadamente, no futuro, pode nos trazer uma certa calma (ou ilusão) de um futuro continuado, interminável. Melhor não comer sorvete porque, lá na frente, pode ter diabetes. Melhor fazer exercício, para evitar que, lá na frente, esteja entrevado. Melhor trabalhar furiosamente, para, lá na frente, poder viver com mais conforto. E a lista de sacrifícios no presente, para um futuro melhor, é interminável. Não vou cansar vocês!

É evidente que não me oponho a hábitos saudáveis e atitudes responsáveis. Estou aproveitando este período onde todo mundo se permite alguns devaneios existenciais, para brincar um pouco com a ideia (meu devaneio) de uma resistência organizada contra a tirania do futuro! Afinal de contas, a vida não é binária. Ou nos submetemos à tirania do futuro, ou sucumbimos na esbórnia total. A vida é complexa, multifacetada, dinâmica, variável e, acima de tudo, imprevisível. Exatamente por ser imprevisível, devemos dar um pouco mais de atenção ao presente.

Sequer estou sendo original nessa sugestão. Horácio, poeta romano, escreveu há mais de 2000 anos uma frase que “viralizou”. A frase ficou conhecida por duas palavras: CARPE DIEM, que quer dizer aproveite o dia. O trecho mais completo seria: ” aproveite o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã”. Vários autores e pensadores se manifestaram a respeito do viver no presente. Cito mais dois, só para ilustrar o que estou dizendo. Albert Camus, escritor francês, prêmio Nobel de Literatura escreveu: ” A verdadeira generosidade para com o futuro, consiste em dar tudo ao presente.” Mas, o meu preferido, é o famoso filósofo Kung-Fu Panda: “O passado é história, o futuro é mistério, o agora é uma dádiva e por isso se chama presente”.

E assim, chegamos ao final deste post e de 2017 com uma contradição ou paradoxo (o que garante que este texto não foi escrito por um robô e sim um humano). Disse que não tinha lista de desejos, mas tenho um grande desejo. Desejo que todos possam, em suas vidas, viver um pouco mais intensamente o presente.

Viver o presente significa que o ser precede o ter. O existir se superpõe ao produzir. O sentir não fica inibido ou tolhido pela razão. Viver o presente significa esvaziar a cabeça de pensamentos do futuro, respirar fundo, apreciar o que nos cerca e dar vazão ao que nos une, o afeto.

Feliz hoje, todos os dias, em 2018!

 

DE REPENTE JÁ É NATAL!

Quando a gente menos espera, já é dezembro e, num piscar de olhos, o Natal chegou!  As lojas se enfeitam e ficam abertas até mais tarde, Papais Noel se multiplicam pelos shoppings e esquinas, listas de presentes são feitas e ainda compramos algo unissex para aquela pessoa que não sabemos quem é, mas que, certamente, teremos esquecido. Amigos ocultos e confraternizações ocupam nossos dias. Não há como esconder um Natal! Mas, o que escrever? Algo que seja original, divertido, sem ser bobo, lugar comum ou piegas. Difícil.

Reli meus últimos posts de natal: Papai Noel existe? e Natal é emoção, não razão e me deu vontade de misturar os dois e fazer o post desse ano, contando com a altíssima probabilidade de que ou não leram ou não lembram o que eu já tinha escrito. Seria um caminho fácil, mas pouco criativo. Resolvi então fazer um post para os adultos!

Natal é uma celebração da confraternização. Confraternizar significa estar junto do irmão (com= junto + frater= irmão). E quem é esse irmão? Ora, irmão é quem é filho da mesma mãe e/ou do mesmo pai. Podemos pensar nos nossos pais biológicos, genitores imediatos, como podemos pensar em Lucy, símbolo do primeiro homo sapiens.  Seguindo esse mesmo caminho, podemos retroceder, de forma Darwiniana e afirmar que todos os mamíferos são nossos irmãos. Por que parar nos mamíferos? Toda forma de vida animal é nossa irmã. Se você é uma pessoa religiosa, acredita que todos somos filhos de Deus. De um modo ou de outro, somos todos irmãos. Estar junto do irmão pode ser tanto aquele imediato, com quem me engalfinhei na infância, meu rival pelo amor dos meus pais e, ao mesmo tempo, meu companheiro solidário, na vida. Como também pode ser estar junto de outros humanos, tão parecidos e tão diferentes de mim. Pode ser ainda, estar junto de todas as formas de vida que conhecemos no nosso planeta.

Estar junto dos irmãos, celebrando a vida (Natal= nascimento= vida), exige que desenvolvamos a capacidade de respeitar o outro nas suas diferenças, não apenas com uma postura tolerante, mas de aprendizado. Exige que tenhamos uma abertura para o novo, eventualmente chocante ou conflitante com meus valores. Exige humildade e flexibilidade, competências que só adquirimos se as exercitarmos, já que retornar à infância onde ainda não tínhamos valores morais definidos pela nossa cultura e tudo era fascinante, é impossível. Forjados pela nossa cultura, olhamos para outras com desconfiança ou desdém. Mesmo dentro da nossa cultura, olhamos para as diferenças com desconfiança, partindo da premissa que meus valores são os “corretos”. Recusamos, pelo estranhamento que nos causa, as diferenças.

Confraternizar não é disparar centenas de WhatsApp com uma foto, música e mensagem açucarada. Não é apenas dar um presente por conta de obrigações sociais. Não é desejar um feliz natal repetido, mecanicamente, como um papagaio, sem emoção ou, pelo menos, sinceridade.

Confraternizar é exercitar o silêncio para que o outro possa ocupa-lo. É desenvolver a escuta, para que o outro possa se fazer presente e, com sua presença, me impressionar (ao invés de só me espantar). Confraternizar é negociar, ao invés de polarizar. Diferenças não significam, obrigatoriamente, inimizades, raiva e ódio. Confraternizar é resgatar a nossa essência de seres sociais por natureza, com a capacidade de utilizar a comunicação para nos expressarmos, trocar ideias e nos organizarmos. A cultura vigente, quer nos fazer crer que há uma competição permanente, fazendo com que meu irmão seja uma ameaça constante. Confraternizar é se colocar contra essa imposição cultural e nos inspirarmos nos nossos primos, os Bonobos. Confraternizar é deitar, sem medo, a cabeça no colo do outro e deixar que faça um cafuné, sem que se precise de um motivo, apenas pelo prazer de estarmos juntos.

Confraternizar é mais do que afeto, emoção. É uma posição política ou de cidadania. É se colocar contra as discriminações de raça, gênero ou credo, não como uma declaração genérica de boas intenções, mas como uma prática diária de atenção e combate às formas mais dissimuladas de racismo, sexismo e intolerância religiosa. Confraternizar é se expor, pelo outro.

Finalmente, para não deixar de falar nas crianças, confraternizar é respeitar a enorme criatividade dos nossos filhos, tomando o devido cuidado para que no processo de educa-los, não estejamos criando autômatos a serviço da economia (qualquer economia), mas seres humanos, emotivos, afetivos, inovadores, questionadores, respeitadores, integrados no mundo (e não destruindo o mundo e seus irmãos). Para isso, não bastam as palavras (de pais ou de um blog), é preciso o exemplo vivo, a ação, a prática da confraternização.

Para os que leem o blog, meu abraço fraterno, desejando a todos um Natal muito alegre.