PAPAI NOEL EXISTE?

Ora, até uma criança sabe a resposta a essa pergunta: claro que existe! Existe porque somos seres simbólicos e adoramos uma fábula. E não sãosanta só nossos filhos que adoram uma historinha. Nós adultos, mantemos esse fascínio por fábulas. Claro que não são mais histórias de princesas, dragões, porquinhos e bruxas. Mas, adoramos ouvir fábulas de suplementos, vitaminas, cremes, alimentos que fazem isso ou aquilo, novos exercícios que fazem perder milhares de calorias em poucos minutos, métodos para mantermos a memória ou aumentarmos a libido, livros que garantem a felicidade plena em 10 passos, sem esquecer a quantidade de pessoas que devolvem a pessoa amada em três dias! A lista de fábulas que nós adultos nos contamos mutuamente é interminável. E ainda temos a ousadia de questionarmos se Papai Noel existe!

A fábula tem uma função importante no desenvolvimento das crianças ao estimular a criatividade e contribuir para que elas lidem com as questões da vida, inicialmente de forma lúdica. Nesse contexto, não há nenhuma discussão a respeito da existência do Papai Noel. Só nos resta definir que Papai Noel vai existir. Como assim, existe mais de um Papai Noel? Sendo uma narrativa, existirão tantos Papais Noel quantas narrativas existirem. Mas, basicamente, existem dois Papais Noel e devemos escolher qual deles será o que vamos apresentar aos nossos filhos.

Existe o Papai Noel que representa a sociedade de consumo, trazendo presentes, se tornando o destinatário de listas intermináveis de pedidos. De alguma forma, esse Papai Noel existirá em todas as narrativas porque vivemos em uma sociedade onde o consumo é algo hipertrofiado e que, muitas vezes, preenche vazios existenciais das pessoas. Esse vazio não é só dos adultos que acabam confundindo ser com ter. Para muitos, o que eu tenho define quem eu sou. Como a possibilidade de ter é sempre infinita, a sensação de ser é frágil e sujeita aos modismos de consumo. Assim que eu acabo de comprar o tablet de última geração, me tornando alguém, lançam outro e passo a me sentir vulnerável, inseguro, por não TER o último modelo. Se os pais são consumistas ou mesmo que não sejam, mas por vários motivos se sintam “devedores” dos filhos (trabalham muito, por exemplo), podem tentar “compensar” com a compra de presentes. Esse Papai Noel é o do comércio que tenta nos confundir com mensagens que embaralham objetos, coisas, com afeto e emoção. Esse Papai Noel de listas enormes e pouco ou nenhum limite, é uma narrativa que ensinará nossos filhos a se tornarem consumidores vorazes, muitas vezes na tentativa de preencher uma lacuna que não é de coisas materiais. Esse é o Papai Noel que incentiva o egocentrismo porque a minha felicidade está em ter o que o outro não tem.

Existe um outro Papai Noel que representa a bondade, solidariedade e generosidade. Um Papai Noel que fala sobre quem somos, antes de falar sobre o que temos. Um Papai Noel que recebe uma cartinha onde eu conto o que eu fiz no ano que passou e não só uma lista do que eu quero. Quando pedimos a nossos filhos que escrevam contando o que fizeram, estamos dando a oportunidade (e o aprendizado) de que parem um minuto para pensar nas suas realizações e não só nos seus desejos de possuir algo.  Um Papai Noel que tem limites nas possibilidades de presentear, que associa presentes a algum mérito e que coloca cada criança como fazendo parte de um universo de outras crianças (ele tem muito trabalho, precisa visitar todas as crianças), fazendo com que cada uma se sinta especial, mas não única. Esse Papai Noel é o do afeto e do carinho. É o que ensinará nossos filhos que as coisas (objetos) fazem parte das nossas vidas e nos dão muito prazer, mas que nossa felicidade não pode ser definida pelo que temos e sim por quem somos. Somos humanos e como tal, seres carregados de emoção e empatia, além de, também, sermos racionais. Somos, originalmente, gregários, dependendo uns dos outros. Podemos (e somos) diferentes em muitas coisas, mas, nem melhores, nem piores do que ninguém. Esse é o Papai Noel que incentiva a solidariedade porque, diferente do que ocorre com objetos, quanto mais dividimos emoções e sentimentos, mais se multiplicam.

Cada família vai escolher qual narrativa de Papai Noel quer para si e, consequentemente, para seus filhos.

Um Natal alegre e afetivo para todos!

QUANDO A MAMÃE É CHEF DE COZINHA!

Lucia é uma chef de cozinha que tem um canal no youtube (https://www.youtube.com/channel/UCYLysnuwNGfRc5y6QyLtyLQ) onde ensina a fazer deliciosos pratos. O desafio que propus à Lucia foi o de fazer um filme com alguma receita básica para bebês,  que pudesse servir de orientação para as mães. Luisa, sua filha é quem testou as receitas para o blog.

Como quem lê o blog sabe, a alimentação de bebês e crianças não pertence ao campo da ciência ou do conhecimento específico do pediatra. Pelo contrário, a alimentação de bebês e crianças é algo cultural e econômico. Como somos um país tropical, iniciamos a introdução de alimentos com frutas. Mas imaginem se uma mãe sueca vai ter bananas a um preço razoável para oferecer a seu filho? Ou uma mãe japonesa? Em cada país, os bebês começam sua alimentação sólida,  em função dos alimentos mais disponíveis, o que acaba produzindo hábitos culturais. Portanto, não ha porque se fazer um grande mistério a respeito deste momento que deve ser o mais natural e desprovido de “ciência e saber”. Aliás, como quase tudo relacionado a nossos filhos!

Mas, uma ajudinha, sem ser um roteiro rígido, pode ser interessante. Espero que vejam o vídeo e leiam as receitas abaixo como uma fonte de inspiração à criatividade culinária de vocês e não como um “manual da boa alimentação do bebê”.

Obrigado à Lucia pelas receitas e à Luisa por tê-las provado e aprovado. Divirtam-se na cozinha e, mais ainda, vendo seus filhotes se deliciarem.

Leia também: QUANDO PAPAI É CHEFE DE COZINHA!   OLIVIA APROVA NOVOS PRATOS!  INTRODUZINDO COMIDA PARA O BEBÊ

Papinhas para bebês – 1ª fase: iniciando os sabores

Base das preparações:

Caldo de frango

Ingredientes:

– 600g de peito de frango;

– 1 cebola grande ou 2 pequenas;

– 3 dentes de alho;

– 3 cenouras;

– 1/2 maço de salsinha;

– 3 galhinhos de tomilho fresco;

– 2 l de água.

 

Modo de preparo:

 

– Lave bem o peito do frango em água corrente;

– Coloque-o na panela de pressão com 2 l de água, juntamente com os outros ingredientes picados grosseiramente;

– Assim que a panela começar a chiar, abaixe o fogo e deixe cozinhar por 40 minutos;

– Coe o caldo e use somente o líquido no preparo das papinhas.

 

Caldo de carne

Ingredientes:

– 600g de músculo, acém ou patinho;

– 1 cebola grande ou 2 pequenas;

– 3 dentes de alho;

– 3 cenouras;

– 1/2 maço de salsinha;

– 3 galhinhos de tomilho fresco;

– 2 l de água;

 

Modo de preparo:

 

– Corte o músculo em cubos grandes;

– Coloque-os na panela de pressão (de preferência antiaderente) bem quente e deixe-os refogando até ficarem bem dourados;

– Acrescente os outros ingredientes picados grosseiramente e, em seguida, a água.

– Assim que a panela começar a chiar, abaixe o fogo e deixe cozinhar por 40 minutos.

– Coe o caldo e use somente o líquido no preparo das papinhas.

 

Papinha de batata doce, abobrinha, ora-pro-nóbis e caldo natural de frango (rende aproximadamente 7 porções de 150g)

 

Ingredientes:

 

– 400g de batata doce;

– 1 unidade de abobrinha italiana (200g);

– 30g de ora-pro-nóbis (aproximadamente 30 folhas);

– 500 ml de caldo de frango;

– sal marinho (pouco).

 

Modo de preparo:

 

– Em uma panela de pressão junte as batatas doce descascadas e cortadas grosseiramente;

– Junte a abobrinha cortadas com casca e as folhas de ora-pro-nóbis;

– Acrescente o caldo de frango e o sal;

– Tampe a panela e, assim que começar a chiar, cozinhe por 20 minutos em fogo baixo;

– Bata a papinha em um mixer ou no liquidificador até atingir a consistência desejada;

– Porcione as papinhas, deixe-as esfriar e leve ao congelador;

– As papinhas duram por até 6 meses no congelador e até 3 dias na geladeira;

– Ao servir coloque um fiozinho de azeite extra-virgem.

 

Papinha de mandioca, chuchu, couve e caldo natural de carne (rende aproximadamente 7 porções de 150g)

Ingredientes:

– 200g de mandioca;

– 4 folhas grandes de couve;

– 2 unidades de chuchu (350g aproximadamente);

– Sal marinho (pouco);

– 500 ml de caldo de carne.

 

Modo de preparo:

– Em uma panela de pressão junte as mandiocas descascadas e cortadas em pedaços não muito grandes;

– Junte a couve e o chuchu cortados grosseiramente;

– Acrescente o caldo de carne e o sal;

– Tampe a panela e, assim que começar a chiar, cozinhe por 20 minutos em fogo baixo;

– Depois de cozida, retire da mandioca o fio duro que fica no meio dela;

– Bata a papinha em um mixer ou no liquidificador até atingir a consistência desejada;

– Porcione as papinhas, deixe-as esfriar e leve ao congelador;

– As papinhas duram por até 6 meses no congelador e até 3 dias na geladeira;

– Ao servir coloque um fiozinho de azeite extra-virgem.

 

Leia também: QUANDO PAPAI É CHEFE DE COZINHA!   OLIVIA APROVA NOVOS PRATOS!  INTRODUZINDO COMIDA PARA O BEBÊ

AQUI NINGUÉM TOCA!

aqui-ninguem-toca2Não dispomos de estatísticas confiáveis a respeito da violência ou abuso sexual em crianças. Mas, a estimativa feita pelo Conselho da Europa é que aproximadamente uma criança em cinco sofreu ou sofrerá alguma forma de abuso sexual. Vou repetir o número- uma em cinco, estimado pelos países da comunidade europeia.  Uma em cinco é o mesmo que 20% ou ainda, numa turminha de 20 crianças, estatisticamente, 4 poderão ter sofrido ou sofrerão alguma forma de violência sexual. 

Este problema é tão grave que, além de todas as ações locais e recomendações internacionais feitas pela OMS e UNICEF, o Conselho da Europa desenvolveu um “pacote” para a divulgação de uma regra simples a ser ensinada às crianças: AQUI NINGUÉM TOCA.  A criança deve aprender que ninguém a toca por debaixo da fralda, calcinha ou cueca. Em inglês o nome da regra é The Underwear Rule. A regra foi criada para ajudar os pais e os educadores a começarem a falar sobre este tema com as crianças e pode ser uma ferramenta muito eficaz para prevenir o abuso sexual. 

A regra “Aqui ninguém toca” possui cinco princípios importantes:

1- O seu corpo é só seu. As crianças precisam ser ensinadas de que o seu corpo lhes pertence e que ninguém pode tocá-lo sem a sua autorização. Os pais devem falar com as crianças, desde pequenas, a respeito do corpo e do que é um contato permitido e o que não é. As crianças precisam aprender a dizer não de forma enérgica e serem incentivadas a comunicar qualquer situação à mãe ou ao pai. 

2- Contato físico próprio e impróprio. Para facilitar o entendimento das crianças do que seja um contato proibido, a regra delimitou a área do corpo coberta pelas roupas íntimas ou fraldas. Crianças devem ter muito claro que nessa parte do corpo, ninguém toca. Também devemos ensinar a nossos filhos que as partes do corpo de outra pessoa, coberta pelas peças íntimas (cueca e calcinha) não devem ser tocadas por eles. Isto é, a regra “Aqui ninguém toca” vale tanto para impedir que alguém toque nas crianças, quanto esta tocar um adulto. 

3- Bons e maus segredos. Um agressor de crianças é, em geral, alguém conhecido desta e que goza de certa confiança. O adulto agressor é, em geral, sedutor e uma das suas táticas é a de combinar segredos com a criança- isso é segredo só nosso, não vamos contar para ninguém! Combinado? Nossos filhos devem ser orientados a jamais guardarem nenhum tipo de segredo a respeito de alguém que tenha desejado ou conseguido tocar no corpo ou pedir que toquem no dele. Esse é um mau segredo e a crianças nem sempre vai entender isto. Devemos reforçar, dando exemplos de bons segredos, como uma festa surpresa para um irmão ou parente. Ou ainda onde determinado presente ou objeto foi escondido para que outra pessoa o procure. Crianças adoram segredos e os abusadores se utilizam desta vulnerabilidade. Portanto, nunca é demais incentivar a criança a contar tudo, sem guardar segredos a respeito de adultos que sugerem isso para tocar ou serem tocados. 

4- Comunicação aberta e sem julgamentos. Crianças abusadas podem sentir vergonha e medo. Por esse motivo não contam o que ocorreu aos pais. Eventualmente sentem medo da reação que os pais possam ter. É importante que estes mantenham uma postura de não julgamento ou repreensão da criança, acolhendo-a com carinho, estimulando que conte, sem medo, o que teria ocorrido. Os pais também devem controlar sua ansiedade ou raiva, para não tornar a conversa em um interrogatório que intimide a criança.  Se uma criança se sentiu desconfortável com algo, provavelmente merece ser conversado com os pais. Valorizem o desconforto dos filhos porque estes não ocorrem “por nada”. 

5- Quem é de confiança?  Entre desconfiar de todos e não desconfiar de ninguém, existe um enorme espaço. Com relação a estranhos é mais fácil se fazer essa diferenciação. As regras “clássicas” continuam valendo: não converse com estranhos, não aceite presentes, não entre no carro etc. A questão fica mais complexa com conhecidos, principalmente porque, não raro, o abusador é conhecido da criança, quando não da mesma família. A criança deve compreender que seus pais são de confiança, mas, deve saber que tem algum familiar fora do núcleo da casa com quem também possa falar e confiar. Pode ser um dos avós, um tio ou até uma madrinha ou padrinho. Isso porque, infelizmente, em alguns casos de abuso, o abusador vive na mesma casa da criança (pai, mãe, madrasta ou padrasto). 

O importante é que não façamos de conta que violência e abuso sexual não existem. Ou, se existem, estão limitados a determinados grupos sociais (longe do nosso).  Infelizmente, o abuso ou violência sexual é um desvio humano que atinge a todas as classes sociais e todas as culturas. É produzida por seres humanos com alto grau de conhecimento e sofisticação cultural, tanto quanto por pessoas sem escolaridade ou acesso à informação. Pior, os abusadores de bom nível educacional tendem a ser mais “sofisticados” na sua abordagem e os pais da criança abusada mais incrédulos de que isso possa ocorrer com seu filho.

Este é um post que não me dá prazer em escrever porque aborda um tema que preferíamos, todos, que não existisse. Mas, como existe, o pior que podemos fazer para nossos filhos é fingir que não existe ou que com os nossos, não ocorrerá. É preciso darmos um ambiente de grande segurança emocional para que nossos filhos falem conosco, se for necessário, sobre este assunto e meios para que se defendam. A regra “Aqui ninguém toca” pela sua simplicidade e objetividade pode ser um destes meios.

Para saber mais visite o site em http://www.underwearrule.org/default_pt.asp. Baixe o livro Kiko e a mão e leia-o com o seu filho. 

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MÃE COM M DE MULHER!

maternité Chagall 2Dias das mães! O que escrever de forma original, interessante tocando a emoção (e a razão) de quem lê este blog? Diante de tudo que já foi escrito e dito, o melhor seria passar batido pela data, deixando para os Drummond e Quintana da vida (para citar dois poetas que escreveram sobre a mãe), a função de homenagear a todas.  Também não dá para competir com o comércio em mensagens piegas e emotivas, cujo objetivo final é o de emocionar para vender mais. Ou ainda, enveredar pelo caminho da erudição, falando sobre a mãe através dos tempos, no pensamento filosófico ou psicanalítico. Afinal de contas, sou um pediatra e desses temas não entendo nada. Mas aí é que reside o meu dilema. Como pode um pediatra não enfrentar o desafio de escrever algo original, interessante e que possa tocar a emoção (e a razão) de quem lê este blog?  Me ocorre relatar um pouco do que vejo no meu dia a dia com mães, pais e filhos, tentando fugir do lugar comum.  Veremos no que isso vai dar!

Atualmente, a dinâmica familiar pode ter diversas configurações como por exemplo: mães e pais, avós ou outros familiares que substituem os pais, pais adotivos, mães solteiras, casais homoafetivos, relacionamentos poliafetivos e, eventualmente, outras que ainda se formarão. A maternidade não é exclusiva da descendência biológica, nem do gênero feminino, sendo, antes de tudo, uma atitude diante do filho e um processo no dia a dia da vida. Apenas para facilitar meu trabalho de escrever e o do leitor de ler, vou utilizar as palavras mulher e homem, deixando claro que me refiro a funções que podem ser exercidas por qualquer pessoa, de qualquer gênero, que tenha o vínculo afetivo e amoroso que caracteriza esta relação especial.

No princípio, era uma mulher. Certo dia, esta mulher conhece um homem e desse encontro, em algum momento, acontece uma gravidez. Agora, temos uma mulher com um bebê que cresce na sua barriga. E assim seguem os meses, com a mulher carregando o seu bebê. Um dia, a mulher se vira para o homem e diz- é hoje (esta história se passa no tempo em que não havia data marcada para o nascimento)!  E, no exato dia em que nasce o filho, a mulher se transforma em mãe. Sei que os leitores radicais me dirão que esta mulher já era mãe durante a gravidez. Peço a estes que sejam generosos e me deem o direito a uma certa licença literária, sem entrar na polêmica de quando uma mulher vira mãe. Mas, todos concordamos que, no princípio era uma mulher.

Aqui a história toma um novo rumo. Ao invés de percorrer o clássico conto onde a mãe embevecida acolhe com um amor inédito seu bebê (o que é absolutamente verdadeiro), a notícia é de um sequestro! A manchete nos jornais informa:

“FILHO SEQUESTRA MULHER E A TRANSFORMA EM MÃE!”

Aquela mulher que com seu companheiro levava uma vida “normal”, trabalhando, se divertindo, fazendo suas coisas, saindo com amigos, namorando, viajando, se vê, subitamente, em “cárcere privado”! Sua vida passou a ser definida pela necessidade do bebê. Aquela mulher dormia à noite e agora, já mãe, aprende a dormir fragmentadamente, duas horinhas à tarde, uma hora de madrugada e assim, todos os dias. Aquela mulher que tinha ânimo para fazer ginástica, ir ao cinema, sair para tomar um chope, agora, já mãe, se vê num ciclo interminável de peito, fralda, colo, choro, peito, fralda, colo, choro…. e olheiras!  E, quando vai ao pediatra, acompanhada pelo pai (sim, aquele que era o companheiro, agora é pai!), silenciosamente suplica com o olhar: doutor, isto vai acabar um dia?

O que é mais curioso nesse sequestro é que ele é celebrado por todos. Apavorada, percebe que ninguém se deu conta do sequestro da mulher e só falam, com alegria e orgulho da mãe! E a mãe, em geral, está encantada, sentindo uma forma única de amor por seu filho, um afeto ímpar e inédito. Mais, pode ter muito prazer em amamentar, trocar fraldas, acalentar e consolar o choro, descobrindo uma vitalidade que desconhecia ter (o termo moderninho seria resiliência)!  É uma variante da Síndrome de Estocolmo, onde a vítima passa a nutrir grande simpatia por seu sequestrador! A mãe acaba por convencer à mulher que ela nunca existiu, era uma fase passageira ou ainda uma ilusão.  Nesse sentido, a celebração do dia das Mães, corre o risco de reforçar essa noção de que quando uma entra em cena (a mãe) a outra, obrigatoriamente tem que sair (a mulher).

Meu ponto com essa ficção que espero seja lida como bem-humorada é que no princípio era uma mulher e que esta será sempre uma mulher. Ser mãe se soma ao ser mulher, sem nenhuma necessidade de exclusão. É claro que nos primeiros meses, o bebê precisa da mãe e a mulher, entendendo isso, cede o palco para esta. Mas, mesmos nesse período, a mulher não deve se recolher ao camarim.  Pode e deve entrar em cena, de tal forma que a plateia nunca esqueça da mulher que deu origem a tudo. Não deve competir com a mãe que nela habita, porque sabe que nos atos seguintes, voltará a brilhar e ter destaque. Não precisa “brigar” com a mãe que se tornou, no ato em que esta é a figura mais marcante em cena. Equilíbrio difícil, mas importante.

Ao pai ou quem desempenha essa função, cabe um papel importantíssimo nesse enredo. Quando a mãe entre em cena, o pai surge como um guardião daquela dupla (mãe-bebê). Cuida do em torno, da proteção, física e psíquica. Garante que a nova dupla tenha as condições necessárias para que tudo corra bem nesses primeiros meses de vida. Nesse sentido, não é apenas um ator coadjuvante, aquele que, nos programas de humor, chamam de “escada”. Mas, passado esse momento inaugural ou inicial, que não tem uma data precisa, mas que estou “didaticamente” colocando em torno do sexto ou sétimo mês de vida do bebê, esse pai deve reassumir mais intensamente seu papel de marido, companheiro, homem.

Caberá ao homem um papel importante, ajudando, ao mesmo tempo à mãe recuperar plenamente sua condição de mulher e à criança as condições para se desenvolver de forma plena. Sem a transformação da relação de dupla (mãe-filho) em trinca (mulher-homem-criança), podem não se dar as condições para que a criança desenvolva sua capacidade de tolerar a frustração, se auto consolar ou em linguagem mais simples e direta, se virar sozinha. É colocando limites ou usando uma expressão um pouco mais forte, estabelecendo a interdição da mãe e de espaços (reais e metafóricos) que o pai ajuda tanto à criança, quanto à mulher. É desse movimento de adaptação dinâmica de todos, que se resolve o sequestro e se restitui à mãe a condição de mulher, sem a perda da maternidade. À criança, se dá o espaço para que desenvolva sua identidade, sem a perda do pertencimento à família.

Em nada, esta história diminui a beleza e intensidade da maternidade. De forma alguma minimiza a importância vital do amor maternal que dura a vida toda e persevera nos filhos, mesmo depois que a mãe se foi. Afinal de contas, eu poderia também dizer que, para cada um de nós, no princípio era a mãe!

 Meu carinhoso abraço a todas as mães, mulheres generosas que tecem nossas vidas com fios de amor.

A MALA DE CADA UM!

mala

Em um dos meus posts  comentei sobre o fato de que cada bebê chega com o seu manual. Na entrevista que dei para o Roberto D’Ávila ele me perguntou se bebês vinham com bula e eu respondi que sim, para surpresa do meu entrevistador. Tanto a metáfora do manual quanto a da bula significam que não existe conhecimento maior sobre aquele bebê específico do que o que aqueles pais já têm e vão ampliar. O Google, pediatras, avós, grupos de mães do facebook, não sabem nada a respeito daquele bebê, único. O que todos sabemos são generalidades que nos ajudam, orientam e norteiam, mas, que não dão conta das especificidades daquele bebê.

Do mesmo modo que todos os bebês chegam com um manual, me ocorreu que também trazem, desde o nascimento, uma mala. De início, é uma mala que vem com a etiqueta de identificação do bebê- seu genoma. A mala, por enquanto está vazia e leve. Mas, muito rapidamente, os pais começam, sem se dar conta, colocar coisas nessa mala.

Que coisas? Em geral, as definições, descrições, de quem é o bebê. Começa um longo período onde os pais literalmente fabulam a respeito dos seus filhos. Estes, ainda na impossibilidade de se comunicarem na linguagem dos adultos, vão tendo a sua mala preenchida com pequenas declarações como: ele tem uma personalidade muito forte, ela só gosta de dormir em cima do braço esquerdo, ela é muito inteligente, ele é exatamente como eu, até prisão de ventre tem! A lista poderia continuar, mas é sempre uma criação do adulto, a partir da percepção do bebê. E a mala desse ser humano vai sendo recheada. Nem sempre o recheio é o de “rótulos” de como aquela pessoa é percebida pelos seus pais. Pode estar sendo recheada de advertências, cautelas, proteções e restrições. Muitas, essenciais e importantes. Outras, nem tanto. As fundamentais, não pesam, mas, os excessos de zelo podem se tornar um peso adicional. O recheio também pode ser de admiração, orgulho, carinho e amor. Eu diria que esses sentimentos nem seriam um recheio, funcionando  mais como rodinhas que facilitarão o transporte dessa mala, pela vida afora.

Com o crescimento, não só as percepções a respeito da criança vão sendo revistas, atualizadas, como acontecem as comparações com irmãos, primos, outras crianças. Não raro, a comparação é feita com os pais, quando estes eram pequenos. Essa é a contribuição dos avós para a mala dos netos: ela é igualzinha a você quando tinha essa idade, não sei de onde vem esse gênio- tão diferente de você!

Já viram que a mala vai ficando mais pesada, à medida que a criança cresce! O mais curioso é que, numa família, não raro, cada membro passa a representar um “tipo” de mala. Tem o primo que é meio esquisito, caladão, antissocial. Na mala dele a família coloca esses traços, de todos. Tem a tia maluquinha, e lá vão todas as loucurinhas da família para dentro da mala da tia. Tem o talentoso, bem-sucedido, tem o que não presta para nada, tem a de saúde fraca e a egoísta. Cada um com a sua mala “principal” onde o restante da família exclui da sua mala aquele traço, transferindo-o  para um só membro.

Claro que estou exagerando nas tintas, apenas para que o quadro chame a atenção. O que eu gostaria de compartilhar com vocês é o fato de que, pertencendo a famílias, não somos unidades autônomas, independentes, exclusivamente moldados por nosso genoma.  Do mesmo modo que um povo, uma etnia, uma nação, tem seu comportamento moldado por sua cultura- uma séria de crenças e valores compartilhados- também na família somos fortemente influenciados por uma dinâmica que não é tão visível assim.

Qual a aplicação prática deste conhecimento? Diria que pouco importa uma aplicação prática. O que importa é termos a consciência de que, o comportamento humano, normal, inclui fabular sobre nossos filhos, criar uma história para cada um deles e, à medida que crescem e, sem nos darmos contas, transferir para outros membros da família, aspectos que são de todos. Em geral, são os aspectos que nos incomodam e que preferimos ver atribuído a outro do que a mim.

Acredito que parte do trabalho do pediatra deva ser o de ajudar os pais a deixarem a mala dos seus filhos a mais leve possível, pontuando, quando for o caso, o risco de uma transferência de conteúdo que leve excesso de peso na bagagem da criança. Diferentemente de uma viagem aérea onde se paga um valor e a mala segue viagem no bagageiro, na vida, uma mala com excesso de peso pode significar a diferença entre caminhar e se arrastar. Pode tornar a vida um esforço permanente, com uma sensação mal definida de algo que puxa a pessoa para baixo, como se a gravidade fosse muito maior. Antes mesmo de ajudar os pais a não colocar excesso de peso na mala dos filhos, o pediatra pode estimular a instalação das rodinhas de carinho e afeto que contribuem tanto para a auto estima e segurança do bebê.

O manual, como a mala, é invisível. Mas, só porque não podem ser vistos, não significa que não existam. Alguém já viu uma onda de rádio ou tv? Alguma dúvida de que exista?  Negar a existência do manual é perder a chance de ousar, errar, aprender, mas, amar, criar e educar o seu filho e não o filho médio dos livros. Negar a existência da mala pode significar deixar para seu filho um peso que não lhe pertence.  Podemos fazer com que a viagem dos nossos filhos, pela vida, seja bem mais leve. Basta lhe dar as rodinhas e  não colocar na mala dele, o que não lhe pertence!

PÁSCOA!

Easter-Eggs

Hoje, o mundo cristão celebra a sua Páscoa. Em menos de um mês, no dia 22 de abril, o mundo judaico celebra a sua Pesach.  É uma festa alegre, para ambas as religiões porque evoca a renovação e a libertação.  Portanto, o simbolismo da Páscoa, mesmo para as pessoas que não professam nenhuma fé religiosa é muito bonito e nos toca, diretamente. Nos toca porque fala de uma esperança, não aquela mágica ou milagrosa, mas uma que podemos incorporar no nosso cotidiano. Todos nós podemos almejar e agir, no sentido de vermos nossas vidas renovadas. Talvez um dos nossos equívocos, humanos, seja o de só fazer o registro do grande evento, do acontecimento surpreendente, sem notar as pequenas, porém significativos pequenos eventos do nosso dia a dia. Assim, a renovação só seria percebida quando uma mega sena batesse à nossa porta, mudando, radicalmente, nossas vidas. Mas, a pergunta que fica no ar, com a celebração das páscoas (cristã e judaica) é se não há uma renovação possível no nosso cotidiano?  Uma que não seja espetacular, feérica, retumbante, simplesmente aconteça, pequena e discreta?  Do mesmo modo, nos queixamos de rotinas que mais parecem nos escravizar e, novamente, as páscoas nos provocam a buscar, não uma fuga do Egito com o mar se abrindo (isso sim seria algo realmente espetacular!), mas uma libertação cotidiana. Tanto a renovação e a libertação de que fala o simbolismo das páscoas, depende mais de nós do que de uma intervenção externa, maior, divina.

Como então fazer acontecer essa renovação e libertação cotidiana? Se eu soubesse a resposta já teria escrito um best seller de autoajuda e estaria milionário! Como não tenho respostas, me propus, hoje, a olhar para minha inspiração profissional e grande prazer da vida- a criança. Estou convencido de que nós adultos perdemos oportunidades incríveis por não olharmos para as crianças como mentoras, tutoras, mestras, na arte do viver de forma renovada e livre. Claro que temos nossas responsabilidades como educadores, apresentadores do mundo, introdutores dos limites, necessários ao bom desenvolvimento de nossos filhos. Mas, hoje, apenas como exercício lúdico, como uma brincadeira de páscoa, vamos olhar para nossos filhos como professores de vida. O que podemos aprender com eles? Sem ser por ordem de prioridade ou até relacionando tudo que podemos aprender, proponho, a seguir, algumas coisas que poderíamos aprender (ou rememorar) com as crianças.

1- Tempo- Em um mundo veloz, eletronicamente conectado, instantâneo, tempo é um bem que se torna escasso. Falta tempo, sempre. Se eu tivesse mais tempo é um sonho de muitos. Tempo é dinheiro e este se tornou medida de eficiência. Se você é bom no que faz isso se reflete no quanto você ganha.  Os versos de Pessoa se tornam uma realidade (cruel?):

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:  

“Navegar é preciso; viver não é preciso”.  

Crianças não precisam navegar, só viver. Viver para o prazer das descobertas, do afeto, do jogo. Crianças não precisam chegar ao cais, bater metas, cumprir objetivos. Crianças vivem e ponto.

Não sou ingênuo a ponto de propor que deixemos de lado nossas obrigações e compromissos. Apenas sugiro que, como movimento de renovação e libertação, nos demos conta da importância que é viver (ainda que navegar seja preciso), hoje. Com frequência nos iludimos com o “depois”. Primeiro farei isso, para depois então usufruir e viver. Que tal pensarmos em trazer esse depois para hoje?

2- Certezas e convicções- para muitos de nós, a vida adulta se caracteriza por certezas e convicções bem estabelecidas. Temos um senso de estética bem definido, valores morais desenhados, sabemos como o mundo “deveria ser” para que fosse um lugar melhor. Esse “deveria ser” é exatamente o nosso conjunto de certezas e convicções. Não raro, nos tornamos prisioneiros de nossas convicções. Como olhar para algo que acreditei por tanto tempo, com um olhar crítico?  Crianças não possuem sistemas de crenças estabelecidos. São, por definição, a curiosidade ambulante. Não raro, suas perguntas nos deixam impactados e sem respostas, apesar de todas nossas convicções. Papai, porque você passou pelo sinal vermelho? Mamãe porque você disse para aquele moço que você não tinha um trocado? Crianças estão livres para a descoberta do mundo, sua imensidão, contradições e paradoxos, sem uma moldura rígida que a vida adulta nos dará (e muitos vamos sentir orgulho de andar para lá e para cá com nossas molduras, ainda que barrocas!). Certezas e convicções nos afastam de pensar de forma diferente, de ampliar nossos horizontes e, em última análise, de poder interagir de forma respeitosa com um ser humano que não pense como eu.

Claro que não estou propondo um viver sem norte, sem rumo, sem valores pessoais. Seria tolice ou imaturidade minha. Mas, frequentemente, existe um rigor nas nossas convicções que podemos tornar mais maleáveis, aprendendo com as crianças a manter um olhar de curiosidade e espanto, sem juízo de valores, para a imensidão do mundo.

3- Ser e ter- Muito se falou e escreveu sobre sociedade de consumo e a forma como ter algo passou a substituir o ser alguém. Sou reconhecido pelo que tenho (carro, bolsa, casa, caneta etc.) e não pelo que sou (simpático, chato, ranzinza, bem-humorado, culto etc.).  Ser, aparentemente, perdeu seu valor para o ter. Plagiando o Pessoa do início deste blog:  ter é preciso; ser não é preciso não!  Crianças adoram ter, dirão alguns dos leitores deste blog. Sem dúvida que adoram ter, mas, antes desse gostar (que é estimulado por nós, adultos), crianças são. Sua existência não é dada por uma posse, mas por um afeto existencial. O colo, o peito, o acolhimento, fazem o bebê poder formar uma identidade (se tornar um ser), antes que qualquer noção de posse ou propriedade se instale (sei que os psi me dirão que existe posse que não é de objetos e coisas, mas, peço uma trégua teórica para o pediatra!). A noção de ter algo e mais, desejar ter esse algo, só se instala em uma criança maior, estimulada por nós adultos. Tanto isso é um fato que, não raro, crianças se divertem mais abrindo os presentes, rasgando os papéis, brincando com as fitas, do que com o objeto em si.

Evidentemente que, vivendo numa sociedade de consumo, não poderia advogar em favor de um desprendimento total e absoluto. Mas, o que podemos aprender com nossos filhos é que ser precede o ter. Mais do que aprender, buscar reviver essa memória porque já fomos bebês e nos formamos em seres, antes de termos tudo que temos hoje. Ser, neste caso significaria olhar para si, para seus desejos que não exclusivamente materiais e buscar a realização através destes também. O vazio existencial não pode ser preenchido por pela compra de objetos. Nos tornamos adictos de objetos e a cada “soluço existencial” temos que ir às compras! Quem sabe, um mergulho nas águas dos nossos desejos imateriais como os afetivos, amorosos ou mesmo de realização através de novos conhecimentos e aptidões, não diretamente relacionados a uma profissão ou produtividade, nos façam sentir mais tranquilos. Talvez, desta forma, possamos ser quem somos para nossos filhos, sem a necessidade de darmos, continuadamente, coisas para eles.

Paro por aqui, na expectativa de que cada leitor continue esta relação de aprendizados que podemos ter com nossas crianças. Elas são a representação viva da Páscoa: livres e em constante renovação.

FELIZ PÁSCOA (todos os dias)!

 

POR QUE MULHERES NOS ASSUSTAM?

mulher chagallComo ser original no dia Internacional da Mulher? Me ocorreu escrever algo sobre nós homens, diante das mulheres. Escolhi começar por uma pergunta muito provocadora que, provavelmente, vai gerar um certo olhar crítico, um levantar de sobrancelhas e uma cara de  desdém por parte dos meus pares masculinos. Para estes, começo por dizer que não sou filósofo, psicanalista, sociólogo ou antropólogo. Sou apenas um pediatra que está escrevendo sobre um assunto que me diz respeito na medida em que nós cuidamos da saúde das crianças visando também a sua vida adulta. E me alinho com aqueles que consideram uma vida saudável não apenas a ausência de doença, mas, a capacidade de se relacionar, interagir, respeitar diferenças, defender a liberdade e a dignidade humana. Uma sociedade saudável, essa que aparentemente todos nós desejamos, não acontece por um pensamento mágico. Ela é construída a partir de indivíduos que se comprometam com determinados valores como os que acabei de citar. 

Para começar, quem disse que mulheres nos assustam? Ninguém disse, mas eu fico pensando que se um ser humano como eu, é tratado de forma violenta, agredido, assassinado, de um modo tão intensivo quanto as mulheres são, deve haver algum sentimento muito forte que motive essa atitude bárbara. Se uma pessoa como eu, fazendo o mesmo trabalho do que eu, recebe menos do que eu, deve haver alguma percepção de desvalor que justifique essa desigualdade. Se a minha sexualidade pode ser explícita, minhas conquistas amorosas expostas com orgulho, minha roupa ser a que eu escolher, mas se exigir da mulher, recato, pudor, passividade e constrangimento com o erótico, deve haver alguma ameaça muito grande que explique esse comportamento. 

Eu poderia continuar com outros exemplos de como a mulher é desrespeitada, discriminada, desvalorizada. Basta olhar em torno para vermos, em toda parte, uma sociedade que é organizada em torno do homem, apesar de hoje, mais da metade dos domicílios brasileiros terem uma mulher como “chefe de família”.  Só para brincar com ideias, imaginem um diretor de empresa que, às 16h pede desculpas por não poder participar da reunião porque tem que buscar seus filhos na escola. Muito provavelmente será percebido como um pai participativo, amoroso, atuante. Agora, imaginemos a diretora que faz o mesmo. Muito provavelmente será vista como pouco comprometida com o trabalho ou empresa (e nós homens, na discrição da fofoca diremos- é o que dá colocar uma mulher na diretoria!). 

Mas, que sentimento é esse que nos faz tratar da mulher dessa forma? Claro que não é um só. Nunca é. Quero pensar a respeito de um que, salvo melhor juízo, aparece de forma disfarçada sob nomes mais “técnicos”: preconceito, machismo etc. Quero sugerir que nós homens temos medo das mulheres! O medo explicaria muito desse nosso comportamento. Medo de um ser mais frágil, menor do que nós? Que medo é esse?  

Temos medo do que na mulher é muito mais forte do que nós. E não são poucas coisas! Vamos começar pelo começo. O começo é a gravidez. É onde tudo e todos nós começamos. Quem tem essa capacidade, competência e sabedoria, é a mulher. A força de levar a vida adiante. Temos nossa contribuição, é óbvio. Mas, uma vez que a vida se instalou, só a mulher tem essa capacidade de leva-la adiante, até o momento em que esteja pronta (essa criança) a nos ser apresentada. Portanto, não só a mulher sustenta e suporta a nova vida, como a conhece muito antes de nós! A conhece em um nível que nós homens nem somos capazes de imaginar. Temos medo dessa força enorme! E mais, toda gravidez, em tese, nos coloca diante da insegurança da infidelidade. Nós os conquistadores gabolas, os sedutores irresistíveis, podemos não ser o pai daquela criança. Mas ela, mulher, tem a certeza de que é a mãe (ainda que ela mesmo não tenha de quem seja o pai). Certeza absoluta versus insegurança relativa, quem detém a força? Quem fica com medo?

Não satisfeita em assegurar que o bebê se desenvolva, a mulher, num ato de injustiça complementar da natureza, produz leite! Se ao menos ela ficasse grávida e nós produzíssemos leite, ainda daria para equilibrar um pouco essa história. Mas, não! Ela fica grávida e ela amamenta. Tudo ela! E tudo para o bebê, nada para mim. Nunca vou confessar isso em público, mas olha o medo de perder a minha mulher se instalando em mim! Ser pai vai incluir reconquistar essa mulher, separando-a do bebê, deixando bem claro que esta mulher é minha. Pais que fazem isso, entendem o que é a paternidade e aliviam seus filhos de um sentimento de disputa. Mas, até para se fazer esse gesto fundamental de interditar o filho à sua mãe, dá medo. Muitos não o fazem e as consequências para todos, mas, principalmente para os filhos podem ser terríveis.

Vamos dar um pulo no tempo, até a adolescência. Lá estamos nós, meninos e meninas, com uma overdose de hormônios circulando. Sexo passa a ser algo interessante. Misterioso, desconhecido, mas muito desejado. Ouvimos histórias dos mais velhos, todos “pescadores” contando lorotas. Lorotas que estabelecem um nível de excelência e performance que somente atletas sexuais olímpicos atingem. E lá estamos nós, diante da mulher. Se ela toma a iniciativa, ouso dizer que, na adolescência sairíamos correndo. Se ela não toma que seja dócil e passiva porque eu já estou assustado demais comigo mesmo. O medo do “fiasco” me obriga a desqualificar minha cúmplice.

Crescemos, a adolescência ficou para trás. Com ela, o medo. Certo? Errado! Millôr Fernandes dizia que a mulher tem uma enorme vantagem sobre o homem: “pode animar no meio”. Nós, temos que “largar animados”. Nesse cenário, quem tem mais medo?

Mudemos de prosa, uma vez mais. A mulher pensa diferente de nós. Ela é “complicada” demais. Mulher pensa diferente de nós porque usa mais recursos do que nós. Somos fortes e lógicos. Uma combinação que nos impede de pedir instruções, nem quando perdidos em uma estrada em país estrangeiro. Mulheres podem ser lógicas, como podem não o ser. Mulheres podem ser intuitivas, irracionais, ouvindo outros recantos da cabeça e do corpo. Ora, se a minha caixa de ferramentas só tem um martelo e a da mulher tem uma coleção completa, quem tem mais “força” para resolver problemas? Força assusta, mete medo!

E, para concluir, se com toda essa força, a mulher ainda é capaz de aninhar no nosso colo e dizer: me abraça com vontade porque eu adoro quando você faz isso, demonstrando uma aparente fragilidade que apenas reflete o entendimento que elas têm de nós (eles precisam se sentir os protetores!), não nos resta outra coisa a não ser ter muito medo.

Ou então, abrir mão desse lugar tão árido onde nos colocamos e passar a olhar a mulher com a admiração, respeito e consideração que ela, legitimamente merece. Não é um favor ou concessão que faremos. É o reconhecimento pleno dessa beleza diferente da nossa (sim, temos a nossa!)  e que não precisamos sufocar, excluir, denegrir porque não é uma ameaça, mas uma solução para a vida.

E o pediatra? O pediatra dirá que para que tenhamos uma sociedade saudável é preciso cuidar para que nossos meninos não herdem o que herdamos (nem nossas meninas). É preciso construir uma imagem da mulher que seja mais real e verdadeira do que essa que nos assusta e nos faz dizer e agir de forma bárbara. É preciso que libertemos nossos filhos e filhas de paradigmas falsos dando a eles a chance de uma vida mais harmônica e amorosa. Uma vida que as mulheres sabem nos ensinar. Basta querer aprender.

 

Para Carolina, filha, hoje mulher adulta, que muito me ensinou e ensina. Que ela persevere na sua busca por um sociedade mais respeitosa e acolhedora para as mulheres.