MÃE COM M DE MULHER!

maternité Chagall 2Dias das mães! O que escrever de forma original, interessante tocando a emoção (e a razão) de quem lê este blog? Diante de tudo que já foi escrito e dito, o melhor seria passar batido pela data, deixando para os Drummond e Quintana da vida (para citar dois poetas que escreveram sobre a mãe), a função de homenagear a todas.  Também não dá para competir com o comércio em mensagens piegas e emotivas, cujo objetivo final é o de emocionar para vender mais. Ou ainda, enveredar pelo caminho da erudição, falando sobre a mãe através dos tempos, no pensamento filosófico ou psicanalítico. Afinal de contas, sou um pediatra e desses temas não entendo nada. Mas aí é que reside o meu dilema. Como pode um pediatra não enfrentar o desafio de escrever algo original, interessante e que possa tocar a emoção (e a razão) de quem lê este blog?  Me ocorre relatar um pouco do que vejo no meu dia a dia com mães, pais e filhos, tentando fugir do lugar comum.  Veremos no que isso vai dar!

Atualmente, a dinâmica familiar pode ter diversas configurações como por exemplo: mães e pais, avós ou outros familiares que substituem os pais, pais adotivos, mães solteiras, casais homoafetivos, relacionamentos poliafetivos e, eventualmente, outras que ainda se formarão. A maternidade não é exclusiva da descendência biológica, nem do gênero feminino, sendo, antes de tudo, uma atitude diante do filho e um processo no dia a dia da vida. Apenas para facilitar meu trabalho de escrever e o do leitor de ler, vou utilizar as palavras mulher e homem, deixando claro que me refiro a funções que podem ser exercidas por qualquer pessoa, de qualquer gênero, que tenha o vínculo afetivo e amoroso que caracteriza esta relação especial.

No princípio, era uma mulher. Certo dia, esta mulher conhece um homem e desse encontro, em algum momento, acontece uma gravidez. Agora, temos uma mulher com um bebê que cresce na sua barriga. E assim seguem os meses, com a mulher carregando o seu bebê. Um dia, a mulher se vira para o homem e diz- é hoje (esta história se passa no tempo em que não havia data marcada para o nascimento)!  E, no exato dia em que nasce o filho, a mulher se transforma em mãe. Sei que os leitores radicais me dirão que esta mulher já era mãe durante a gravidez. Peço a estes que sejam generosos e me deem o direito a uma certa licença literária, sem entrar na polêmica de quando uma mulher vira mãe. Mas, todos concordamos que, no princípio era uma mulher.

Aqui a história toma um novo rumo. Ao invés de percorrer o clássico conto onde a mãe embevecida acolhe com um amor inédito seu bebê (o que é absolutamente verdadeiro), a notícia é de um sequestro! A manchete nos jornais informa:

“FILHO SEQUESTRA MULHER E A TRANSFORMA EM MÃE!”

Aquela mulher que com seu companheiro levava uma vida “normal”, trabalhando, se divertindo, fazendo suas coisas, saindo com amigos, namorando, viajando, se vê, subitamente, em “cárcere privado”! Sua vida passou a ser definida pela necessidade do bebê. Aquela mulher dormia à noite e agora, já mãe, aprende a dormir fragmentadamente, duas horinhas à tarde, uma hora de madrugada e assim, todos os dias. Aquela mulher que tinha ânimo para fazer ginástica, ir ao cinema, sair para tomar um chope, agora, já mãe, se vê num ciclo interminável de peito, fralda, colo, choro, peito, fralda, colo, choro…. e olheiras!  E, quando vai ao pediatra, acompanhada pelo pai (sim, aquele que era o companheiro, agora é pai!), silenciosamente suplica com o olhar: doutor, isto vai acabar um dia?

O que é mais curioso nesse sequestro é que ele é celebrado por todos. Apavorada, percebe que ninguém se deu conta do sequestro da mulher e só falam, com alegria e orgulho da mãe! E a mãe, em geral, está encantada, sentindo uma forma única de amor por seu filho, um afeto ímpar e inédito. Mais, pode ter muito prazer em amamentar, trocar fraldas, acalentar e consolar o choro, descobrindo uma vitalidade que desconhecia ter (o termo moderninho seria resiliência)!  É uma variante da Síndrome de Estocolmo, onde a vítima passa a nutrir grande simpatia por seu sequestrador! A mãe acaba por convencer à mulher que ela nunca existiu, era uma fase passageira ou ainda uma ilusão.  Nesse sentido, a celebração do dia das Mães, corre o risco de reforçar essa noção de que quando uma entra em cena (a mãe) a outra, obrigatoriamente tem que sair (a mulher).

Meu ponto com essa ficção que espero seja lida como bem-humorada é que no princípio era uma mulher e que esta será sempre uma mulher. Ser mãe se soma ao ser mulher, sem nenhuma necessidade de exclusão. É claro que nos primeiros meses, o bebê precisa da mãe e a mulher, entendendo isso, cede o palco para esta. Mas, mesmos nesse período, a mulher não deve se recolher ao camarim.  Pode e deve entrar em cena, de tal forma que a plateia nunca esqueça da mulher que deu origem a tudo. Não deve competir com a mãe que nela habita, porque sabe que nos atos seguintes, voltará a brilhar e ter destaque. Não precisa “brigar” com a mãe que se tornou, no ato em que esta é a figura mais marcante em cena. Equilíbrio difícil, mas importante.

Ao pai ou quem desempenha essa função, cabe um papel importantíssimo nesse enredo. Quando a mãe entre em cena, o pai surge como um guardião daquela dupla (mãe-bebê). Cuida do em torno, da proteção, física e psíquica. Garante que a nova dupla tenha as condições necessárias para que tudo corra bem nesses primeiros meses de vida. Nesse sentido, não é apenas um ator coadjuvante, aquele que, nos programas de humor, chamam de “escada”. Mas, passado esse momento inaugural ou inicial, que não tem uma data precisa, mas que estou “didaticamente” colocando em torno do sexto ou sétimo mês de vida do bebê, esse pai deve reassumir mais intensamente seu papel de marido, companheiro, homem.

Caberá ao homem um papel importante, ajudando, ao mesmo tempo à mãe recuperar plenamente sua condição de mulher e à criança as condições para se desenvolver de forma plena. Sem a transformação da relação de dupla (mãe-filho) em trinca (mulher-homem-criança), podem não se dar as condições para que a criança desenvolva sua capacidade de tolerar a frustração, se auto consolar ou em linguagem mais simples e direta, se virar sozinha. É colocando limites ou usando uma expressão um pouco mais forte, estabelecendo a interdição da mãe e de espaços (reais e metafóricos) que o pai ajuda tanto à criança, quanto à mulher. É desse movimento de adaptação dinâmica de todos, que se resolve o sequestro e se restitui à mãe a condição de mulher, sem a perda da maternidade. À criança, se dá o espaço para que desenvolva sua identidade, sem a perda do pertencimento à família.

Em nada, esta história diminui a beleza e intensidade da maternidade. De forma alguma minimiza a importância vital do amor maternal que dura a vida toda e persevera nos filhos, mesmo depois que a mãe se foi. Afinal de contas, eu poderia também dizer que, para cada um de nós, no princípio era a mãe!

 Meu carinhoso abraço a todas as mães, mulheres generosas que tecem nossas vidas com fios de amor.

A MALA DE CADA UM!

mala

Em um dos meus posts  comentei sobre o fato de que cada bebê chega com o seu manual. Na entrevista que dei para o Roberto D’Ávila ele me perguntou se bebês vinham com bula e eu respondi que sim, para surpresa do meu entrevistador. Tanto a metáfora do manual quanto a da bula significam que não existe conhecimento maior sobre aquele bebê específico do que o que aqueles pais já têm e vão ampliar. O Google, pediatras, avós, grupos de mães do facebook, não sabem nada a respeito daquele bebê, único. O que todos sabemos são generalidades que nos ajudam, orientam e norteiam, mas, que não dão conta das especificidades daquele bebê.

Do mesmo modo que todos os bebês chegam com um manual, me ocorreu que também trazem, desde o nascimento, uma mala. De início, é uma mala que vem com a etiqueta de identificação do bebê- seu genoma. A mala, por enquanto está vazia e leve. Mas, muito rapidamente, os pais começam, sem se dar conta, colocar coisas nessa mala.

Que coisas? Em geral, as definições, descrições, de quem é o bebê. Começa um longo período onde os pais literalmente fabulam a respeito dos seus filhos. Estes, ainda na impossibilidade de se comunicarem na linguagem dos adultos, vão tendo a sua mala preenchida com pequenas declarações como: ele tem uma personalidade muito forte, ela só gosta de dormir em cima do braço esquerdo, ela é muito inteligente, ele é exatamente como eu, até prisão de ventre tem! A lista poderia continuar, mas é sempre uma criação do adulto, a partir da percepção do bebê. E a mala desse ser humano vai sendo recheada. Nem sempre o recheio é o de “rótulos” de como aquela pessoa é percebida pelos seus pais. Pode estar sendo recheada de advertências, cautelas, proteções e restrições. Muitas, essenciais e importantes. Outras, nem tanto. As fundamentais, não pesam, mas, os excessos de zelo podem se tornar um peso adicional. O recheio também pode ser de admiração, orgulho, carinho e amor. Eu diria que esses sentimentos nem seriam um recheio, funcionando  mais como rodinhas que facilitarão o transporte dessa mala, pela vida afora.

Com o crescimento, não só as percepções a respeito da criança vão sendo revistas, atualizadas, como acontecem as comparações com irmãos, primos, outras crianças. Não raro, a comparação é feita com os pais, quando estes eram pequenos. Essa é a contribuição dos avós para a mala dos netos: ela é igualzinha a você quando tinha essa idade, não sei de onde vem esse gênio- tão diferente de você!

Já viram que a mala vai ficando mais pesada, à medida que a criança cresce! O mais curioso é que, numa família, não raro, cada membro passa a representar um “tipo” de mala. Tem o primo que é meio esquisito, caladão, antissocial. Na mala dele a família coloca esses traços, de todos. Tem a tia maluquinha, e lá vão todas as loucurinhas da família para dentro da mala da tia. Tem o talentoso, bem-sucedido, tem o que não presta para nada, tem a de saúde fraca e a egoísta. Cada um com a sua mala “principal” onde o restante da família exclui da sua mala aquele traço, transferindo-o  para um só membro.

Claro que estou exagerando nas tintas, apenas para que o quadro chame a atenção. O que eu gostaria de compartilhar com vocês é o fato de que, pertencendo a famílias, não somos unidades autônomas, independentes, exclusivamente moldados por nosso genoma.  Do mesmo modo que um povo, uma etnia, uma nação, tem seu comportamento moldado por sua cultura- uma séria de crenças e valores compartilhados- também na família somos fortemente influenciados por uma dinâmica que não é tão visível assim.

Qual a aplicação prática deste conhecimento? Diria que pouco importa uma aplicação prática. O que importa é termos a consciência de que, o comportamento humano, normal, inclui fabular sobre nossos filhos, criar uma história para cada um deles e, à medida que crescem e, sem nos darmos contas, transferir para outros membros da família, aspectos que são de todos. Em geral, são os aspectos que nos incomodam e que preferimos ver atribuído a outro do que a mim.

Acredito que parte do trabalho do pediatra deva ser o de ajudar os pais a deixarem a mala dos seus filhos a mais leve possível, pontuando, quando for o caso, o risco de uma transferência de conteúdo que leve excesso de peso na bagagem da criança. Diferentemente de uma viagem aérea onde se paga um valor e a mala segue viagem no bagageiro, na vida, uma mala com excesso de peso pode significar a diferença entre caminhar e se arrastar. Pode tornar a vida um esforço permanente, com uma sensação mal definida de algo que puxa a pessoa para baixo, como se a gravidade fosse muito maior. Antes mesmo de ajudar os pais a não colocar excesso de peso na mala dos filhos, o pediatra pode estimular a instalação das rodinhas de carinho e afeto que contribuem tanto para a auto estima e segurança do bebê.

O manual, como a mala, é invisível. Mas, só porque não podem ser vistos, não significa que não existam. Alguém já viu uma onda de rádio ou tv? Alguma dúvida de que exista?  Negar a existência do manual é perder a chance de ousar, errar, aprender, mas, amar, criar e educar o seu filho e não o filho médio dos livros. Negar a existência da mala pode significar deixar para seu filho um peso que não lhe pertence.  Podemos fazer com que a viagem dos nossos filhos, pela vida, seja bem mais leve. Basta lhe dar as rodinhas e  não colocar na mala dele, o que não lhe pertence!

PÁSCOA!

Easter-Eggs

Hoje, o mundo cristão celebra a sua Páscoa. Em menos de um mês, no dia 22 de abril, o mundo judaico celebra a sua Pesach.  É uma festa alegre, para ambas as religiões porque evoca a renovação e a libertação.  Portanto, o simbolismo da Páscoa, mesmo para as pessoas que não professam nenhuma fé religiosa é muito bonito e nos toca, diretamente. Nos toca porque fala de uma esperança, não aquela mágica ou milagrosa, mas uma que podemos incorporar no nosso cotidiano. Todos nós podemos almejar e agir, no sentido de vermos nossas vidas renovadas. Talvez um dos nossos equívocos, humanos, seja o de só fazer o registro do grande evento, do acontecimento surpreendente, sem notar as pequenas, porém significativos pequenos eventos do nosso dia a dia. Assim, a renovação só seria percebida quando uma mega sena batesse à nossa porta, mudando, radicalmente, nossas vidas. Mas, a pergunta que fica no ar, com a celebração das páscoas (cristã e judaica) é se não há uma renovação possível no nosso cotidiano?  Uma que não seja espetacular, feérica, retumbante, simplesmente aconteça, pequena e discreta?  Do mesmo modo, nos queixamos de rotinas que mais parecem nos escravizar e, novamente, as páscoas nos provocam a buscar, não uma fuga do Egito com o mar se abrindo (isso sim seria algo realmente espetacular!), mas uma libertação cotidiana. Tanto a renovação e a libertação de que fala o simbolismo das páscoas, depende mais de nós do que de uma intervenção externa, maior, divina.

Como então fazer acontecer essa renovação e libertação cotidiana? Se eu soubesse a resposta já teria escrito um best seller de autoajuda e estaria milionário! Como não tenho respostas, me propus, hoje, a olhar para minha inspiração profissional e grande prazer da vida- a criança. Estou convencido de que nós adultos perdemos oportunidades incríveis por não olharmos para as crianças como mentoras, tutoras, mestras, na arte do viver de forma renovada e livre. Claro que temos nossas responsabilidades como educadores, apresentadores do mundo, introdutores dos limites, necessários ao bom desenvolvimento de nossos filhos. Mas, hoje, apenas como exercício lúdico, como uma brincadeira de páscoa, vamos olhar para nossos filhos como professores de vida. O que podemos aprender com eles? Sem ser por ordem de prioridade ou até relacionando tudo que podemos aprender, proponho, a seguir, algumas coisas que poderíamos aprender (ou rememorar) com as crianças.

1- Tempo- Em um mundo veloz, eletronicamente conectado, instantâneo, tempo é um bem que se torna escasso. Falta tempo, sempre. Se eu tivesse mais tempo é um sonho de muitos. Tempo é dinheiro e este se tornou medida de eficiência. Se você é bom no que faz isso se reflete no quanto você ganha.  Os versos de Pessoa se tornam uma realidade (cruel?):

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:  

“Navegar é preciso; viver não é preciso”.  

Crianças não precisam navegar, só viver. Viver para o prazer das descobertas, do afeto, do jogo. Crianças não precisam chegar ao cais, bater metas, cumprir objetivos. Crianças vivem e ponto.

Não sou ingênuo a ponto de propor que deixemos de lado nossas obrigações e compromissos. Apenas sugiro que, como movimento de renovação e libertação, nos demos conta da importância que é viver (ainda que navegar seja preciso), hoje. Com frequência nos iludimos com o “depois”. Primeiro farei isso, para depois então usufruir e viver. Que tal pensarmos em trazer esse depois para hoje?

2- Certezas e convicções- para muitos de nós, a vida adulta se caracteriza por certezas e convicções bem estabelecidas. Temos um senso de estética bem definido, valores morais desenhados, sabemos como o mundo “deveria ser” para que fosse um lugar melhor. Esse “deveria ser” é exatamente o nosso conjunto de certezas e convicções. Não raro, nos tornamos prisioneiros de nossas convicções. Como olhar para algo que acreditei por tanto tempo, com um olhar crítico?  Crianças não possuem sistemas de crenças estabelecidos. São, por definição, a curiosidade ambulante. Não raro, suas perguntas nos deixam impactados e sem respostas, apesar de todas nossas convicções. Papai, porque você passou pelo sinal vermelho? Mamãe porque você disse para aquele moço que você não tinha um trocado? Crianças estão livres para a descoberta do mundo, sua imensidão, contradições e paradoxos, sem uma moldura rígida que a vida adulta nos dará (e muitos vamos sentir orgulho de andar para lá e para cá com nossas molduras, ainda que barrocas!). Certezas e convicções nos afastam de pensar de forma diferente, de ampliar nossos horizontes e, em última análise, de poder interagir de forma respeitosa com um ser humano que não pense como eu.

Claro que não estou propondo um viver sem norte, sem rumo, sem valores pessoais. Seria tolice ou imaturidade minha. Mas, frequentemente, existe um rigor nas nossas convicções que podemos tornar mais maleáveis, aprendendo com as crianças a manter um olhar de curiosidade e espanto, sem juízo de valores, para a imensidão do mundo.

3- Ser e ter- Muito se falou e escreveu sobre sociedade de consumo e a forma como ter algo passou a substituir o ser alguém. Sou reconhecido pelo que tenho (carro, bolsa, casa, caneta etc.) e não pelo que sou (simpático, chato, ranzinza, bem-humorado, culto etc.).  Ser, aparentemente, perdeu seu valor para o ter. Plagiando o Pessoa do início deste blog:  ter é preciso; ser não é preciso não!  Crianças adoram ter, dirão alguns dos leitores deste blog. Sem dúvida que adoram ter, mas, antes desse gostar (que é estimulado por nós, adultos), crianças são. Sua existência não é dada por uma posse, mas por um afeto existencial. O colo, o peito, o acolhimento, fazem o bebê poder formar uma identidade (se tornar um ser), antes que qualquer noção de posse ou propriedade se instale (sei que os psi me dirão que existe posse que não é de objetos e coisas, mas, peço uma trégua teórica para o pediatra!). A noção de ter algo e mais, desejar ter esse algo, só se instala em uma criança maior, estimulada por nós adultos. Tanto isso é um fato que, não raro, crianças se divertem mais abrindo os presentes, rasgando os papéis, brincando com as fitas, do que com o objeto em si.

Evidentemente que, vivendo numa sociedade de consumo, não poderia advogar em favor de um desprendimento total e absoluto. Mas, o que podemos aprender com nossos filhos é que ser precede o ter. Mais do que aprender, buscar reviver essa memória porque já fomos bebês e nos formamos em seres, antes de termos tudo que temos hoje. Ser, neste caso significaria olhar para si, para seus desejos que não exclusivamente materiais e buscar a realização através destes também. O vazio existencial não pode ser preenchido por pela compra de objetos. Nos tornamos adictos de objetos e a cada “soluço existencial” temos que ir às compras! Quem sabe, um mergulho nas águas dos nossos desejos imateriais como os afetivos, amorosos ou mesmo de realização através de novos conhecimentos e aptidões, não diretamente relacionados a uma profissão ou produtividade, nos façam sentir mais tranquilos. Talvez, desta forma, possamos ser quem somos para nossos filhos, sem a necessidade de darmos, continuadamente, coisas para eles.

Paro por aqui, na expectativa de que cada leitor continue esta relação de aprendizados que podemos ter com nossas crianças. Elas são a representação viva da Páscoa: livres e em constante renovação.

FELIZ PÁSCOA (todos os dias)!

 

POR QUE MULHERES NOS ASSUSTAM?

mulher chagallComo ser original no dia Internacional da Mulher? Me ocorreu escrever algo sobre nós homens, diante das mulheres. Escolhi começar por uma pergunta muito provocadora que, provavelmente, vai gerar um certo olhar crítico, um levantar de sobrancelhas e uma cara de  desdém por parte dos meus pares masculinos. Para estes, começo por dizer que não sou filósofo, psicanalista, sociólogo ou antropólogo. Sou apenas um pediatra que está escrevendo sobre um assunto que me diz respeito na medida em que nós cuidamos da saúde das crianças visando também a sua vida adulta. E me alinho com aqueles que consideram uma vida saudável não apenas a ausência de doença, mas, a capacidade de se relacionar, interagir, respeitar diferenças, defender a liberdade e a dignidade humana. Uma sociedade saudável, essa que aparentemente todos nós desejamos, não acontece por um pensamento mágico. Ela é construída a partir de indivíduos que se comprometam com determinados valores como os que acabei de citar. 

Para começar, quem disse que mulheres nos assustam? Ninguém disse, mas eu fico pensando que se um ser humano como eu, é tratado de forma violenta, agredido, assassinado, de um modo tão intensivo quanto as mulheres são, deve haver algum sentimento muito forte que motive essa atitude bárbara. Se uma pessoa como eu, fazendo o mesmo trabalho do que eu, recebe menos do que eu, deve haver alguma percepção de desvalor que justifique essa desigualdade. Se a minha sexualidade pode ser explícita, minhas conquistas amorosas expostas com orgulho, minha roupa ser a que eu escolher, mas se exigir da mulher, recato, pudor, passividade e constrangimento com o erótico, deve haver alguma ameaça muito grande que explique esse comportamento. 

Eu poderia continuar com outros exemplos de como a mulher é desrespeitada, discriminada, desvalorizada. Basta olhar em torno para vermos, em toda parte, uma sociedade que é organizada em torno do homem, apesar de hoje, mais da metade dos domicílios brasileiros terem uma mulher como “chefe de família”.  Só para brincar com ideias, imaginem um diretor de empresa que, às 16h pede desculpas por não poder participar da reunião porque tem que buscar seus filhos na escola. Muito provavelmente será percebido como um pai participativo, amoroso, atuante. Agora, imaginemos a diretora que faz o mesmo. Muito provavelmente será vista como pouco comprometida com o trabalho ou empresa (e nós homens, na discrição da fofoca diremos- é o que dá colocar uma mulher na diretoria!). 

Mas, que sentimento é esse que nos faz tratar da mulher dessa forma? Claro que não é um só. Nunca é. Quero pensar a respeito de um que, salvo melhor juízo, aparece de forma disfarçada sob nomes mais “técnicos”: preconceito, machismo etc. Quero sugerir que nós homens temos medo das mulheres! O medo explicaria muito desse nosso comportamento. Medo de um ser mais frágil, menor do que nós? Que medo é esse?  

Temos medo do que na mulher é muito mais forte do que nós. E não são poucas coisas! Vamos começar pelo começo. O começo é a gravidez. É onde tudo e todos nós começamos. Quem tem essa capacidade, competência e sabedoria, é a mulher. A força de levar a vida adiante. Temos nossa contribuição, é óbvio. Mas, uma vez que a vida se instalou, só a mulher tem essa capacidade de leva-la adiante, até o momento em que esteja pronta (essa criança) a nos ser apresentada. Portanto, não só a mulher sustenta e suporta a nova vida, como a conhece muito antes de nós! A conhece em um nível que nós homens nem somos capazes de imaginar. Temos medo dessa força enorme! E mais, toda gravidez, em tese, nos coloca diante da insegurança da infidelidade. Nós os conquistadores gabolas, os sedutores irresistíveis, podemos não ser o pai daquela criança. Mas ela, mulher, tem a certeza de que é a mãe (ainda que ela mesmo não tenha de quem seja o pai). Certeza absoluta versus insegurança relativa, quem detém a força? Quem fica com medo?

Não satisfeita em assegurar que o bebê se desenvolva, a mulher, num ato de injustiça complementar da natureza, produz leite! Se ao menos ela ficasse grávida e nós produzíssemos leite, ainda daria para equilibrar um pouco essa história. Mas, não! Ela fica grávida e ela amamenta. Tudo ela! E tudo para o bebê, nada para mim. Nunca vou confessar isso em público, mas olha o medo de perder a minha mulher se instalando em mim! Ser pai vai incluir reconquistar essa mulher, separando-a do bebê, deixando bem claro que esta mulher é minha. Pais que fazem isso, entendem o que é a paternidade e aliviam seus filhos de um sentimento de disputa. Mas, até para se fazer esse gesto fundamental de interditar o filho à sua mãe, dá medo. Muitos não o fazem e as consequências para todos, mas, principalmente para os filhos podem ser terríveis.

Vamos dar um pulo no tempo, até a adolescência. Lá estamos nós, meninos e meninas, com uma overdose de hormônios circulando. Sexo passa a ser algo interessante. Misterioso, desconhecido, mas muito desejado. Ouvimos histórias dos mais velhos, todos “pescadores” contando lorotas. Lorotas que estabelecem um nível de excelência e performance que somente atletas sexuais olímpicos atingem. E lá estamos nós, diante da mulher. Se ela toma a iniciativa, ouso dizer que, na adolescência sairíamos correndo. Se ela não toma que seja dócil e passiva porque eu já estou assustado demais comigo mesmo. O medo do “fiasco” me obriga a desqualificar minha cúmplice.

Crescemos, a adolescência ficou para trás. Com ela, o medo. Certo? Errado! Millôr Fernandes dizia que a mulher tem uma enorme vantagem sobre o homem: “pode animar no meio”. Nós, temos que “largar animados”. Nesse cenário, quem tem mais medo?

Mudemos de prosa, uma vez mais. A mulher pensa diferente de nós. Ela é “complicada” demais. Mulher pensa diferente de nós porque usa mais recursos do que nós. Somos fortes e lógicos. Uma combinação que nos impede de pedir instruções, nem quando perdidos em uma estrada em país estrangeiro. Mulheres podem ser lógicas, como podem não o ser. Mulheres podem ser intuitivas, irracionais, ouvindo outros recantos da cabeça e do corpo. Ora, se a minha caixa de ferramentas só tem um martelo e a da mulher tem uma coleção completa, quem tem mais “força” para resolver problemas? Força assusta, mete medo!

E, para concluir, se com toda essa força, a mulher ainda é capaz de aninhar no nosso colo e dizer: me abraça com vontade porque eu adoro quando você faz isso, demonstrando uma aparente fragilidade que apenas reflete o entendimento que elas têm de nós (eles precisam se sentir os protetores!), não nos resta outra coisa a não ser ter muito medo.

Ou então, abrir mão desse lugar tão árido onde nos colocamos e passar a olhar a mulher com a admiração, respeito e consideração que ela, legitimamente merece. Não é um favor ou concessão que faremos. É o reconhecimento pleno dessa beleza diferente da nossa (sim, temos a nossa!)  e que não precisamos sufocar, excluir, denegrir porque não é uma ameaça, mas uma solução para a vida.

E o pediatra? O pediatra dirá que para que tenhamos uma sociedade saudável é preciso cuidar para que nossos meninos não herdem o que herdamos (nem nossas meninas). É preciso construir uma imagem da mulher que seja mais real e verdadeira do que essa que nos assusta e nos faz dizer e agir de forma bárbara. É preciso que libertemos nossos filhos e filhas de paradigmas falsos dando a eles a chance de uma vida mais harmônica e amorosa. Uma vida que as mulheres sabem nos ensinar. Basta querer aprender.

 

Para Carolina, filha, hoje mulher adulta, que muito me ensinou e ensina. Que ela persevere na sua busca por um sociedade mais respeitosa e acolhedora para as mulheres. 

SE EU SOU O ESPECIALISTA, QUEM É VOCÊ?

Muitas vezes sequer nos damos conta do poder das palavras.  Palavras em si não passam de um amontoado de letrinhas. Só fazem sentido quandobomb_hidr se transformam em um símbolo (imagem, conceito etc.). Quando escrevo as letras asac você certamente vai parar um minuto porque nada lhe veio à mente. No entanto, tecnicamente, é uma palavra. É uma palavra inexistente porque a ela não temos nenhum significado atrelado, amarrado. Agora, quando eu escrevo casa, você imediatamente fez uma imagem mental e “entendeu” a palavra. Esta é uma palavra existente porque ela faz sentido, ao menos para nós que usamos a língua portuguesa.

O poder das palavras, por ser simbólico, faz um curto-circuito na nossa racionalidade. Veja, por exemplo, se você se sentiria igualmente confortável comprando um carro usado ou um seminovo? Racionalmente, concordamos que ambas as palavras se referem a carros que já tiveram algum uso ou que não são zero km. Nenhuma das duas palavras define claramente, quanto uso o carro teve. No entanto, seminovo parece melhor do que usado!

Um outro exemplo, este no campo da saúde, é aquele lugar onde realizamos exames complementares. Aqui, já introduzi uma palavra que é conhecida dos médicos, mas, pouco ou nada usada pela população. Me refiro à palavra complementares. Complementar a o quê? Essa seria a pergunta a ser feita. Ora, os exames são complementares a uma consulta médica que inclua uma boa entrevista (anamnese) e exame físico. Isso, hoje em dia, é raro. Frequentemente o próprio paciente já chega no médico com exames que ele fez, “para ganhar tempo”. Um dos motivos está no uso das palavras e os botões que elas apertam no nosso pensamento. O lugar onde realizamos exames complementares se chamavam laboratório de análises clínicas ou simplesmente, laboratório. A imagem que nos vêm à cabeça é de um lugar cheio de vidros e reagentes. Hoje, o mesmo lugar se chama centro de medicina diagnóstica! O que nos vêm à mente? Que é neste lugar que terei meu diagnóstico feito, bastando levar ao médico para que este prescreva o tratamento mais adequado, ganhando, assim, tempo. O que mudou? Apenas o nome do lugar, mas o impacto em nós é radicalmente diferente. Impacto, neste caso que nos leva a um erro de entendimento do seja a consulta médica e um exame complementar.

Espero que, com esses dois exemplos, tenhamos entendido que palavras são poderosas porque transportam símbolos que significam algo para nós. Essa é a lógica de uma marca. Quando determinada marca é dita ou escrita, já “entendemos tudo”. Não há necessidade de explicarmos o que seja uma Bic. Tudo já está dito com a marca. Se eu escrevo Shell, ninguém pensa em sorvete (claro que um detalhista me dirá- mas, tem a loja de conveniências…). Assim, posso chegar na palavra que é o objeto deste post (finalmente!): ESPECIALISTA.

O que essa palavra nos faz pensar? Em alguém que tem um conhecimento profundo de algo especial ou específico. Alguém que dedicou anos da sua vida estudando e/ou praticando determinada atividade que o torne detentor de um saber, conhecimento ou prática muito acima daquela que nós possuímos. Um especialista sabe algo que eu não sei. Ou sabe muito mais sobre algo que eu conheço um pouco. Nesse sentido, se eu sou um especialista em algo, quem é você? Essa a pergunta do post! Não sei o que vocês responderiam, mas eu sei o que eu diria se me fizessem essa pergunta. Eu responderia que eu sou um ignorante (total ou parcial) no assunto e que o conhecimento do especialista poderá, dependendo da situação, resolver algo para o qual eu não tenho competência. Exemplos: um pintor de paredes, um eletricista, um encanador, são especialistas que sabem o que eu não sei e resolverão um problema que eu tenho o virei a ter nessas áreas do conhecimento. E, se eu tiver um problema nessas áreas, eu dependo de um especialista para me tirar daquela situação problemática.

Vou tentar resumir, em palavras isoladas, o que é um especialista e o que ele pode representar para as pessoas: conhecimento maior do que o meu; sabe o que eu não sei; dependência desse conhecimento para resolução de problemas.

Se estivermos de acordo até aqui, podemos dizer que especialistas são pessoas muito necessárias para resolver situações especiais, para as quais não temos competência, conhecimento ou habilidades. Portanto, para utilizarmos um especialista, é preciso que haja um problema ou situação para a qual não nos sentimos capazes de resolver. Ocorre que, com a valorização da tecnologia e o acesso global à informação, houve uma hiper valorização do conhecimento “científico”, como se este fosse a única forma de saber válida. O conhecimento científico é algo que um especialista domina. Portanto, se só o conhecimento científico é válido, eliminando-se a tradição, o bom senso, a intuição e a experiência, praticamente tudo que fizermos na vida vai precisar de um especialista. Sem um especialista eu posso errar porque eu não sei o que ele sabe. Passo, não só a desvalorizar qualquer forma de conhecimento que eu possa ter, como sentir insegurança e paralisia diante das situações habituais da vida cotidiana.

Vamos deixar bem claro que o conhecimento científico é uma conquista da evolução intelectual do ser humano. O método científico nos ajuda a superar nossas ignorâncias e até a reduzir mitos e crendices. Mas, não pode, nem se propõe a ser um novo mito, ainda que muitos a entendam assim. No século XVIII, William Cowper, um poeta inglês disse: ” A ciência é orgulhosa por tanto saber; a sabedoria é humilde por não saber mais.” Existe, portanto, algo que vai além do conhecimento científico que é, para usarmos uma só palavra, a sabedoria. A sabedoria é composta do conhecimento científico, mas bebe nas outras fontes que eu citei:  tradição, o bom senso, a intuição e a experiência.

Sabedoria não é exclusividade de quem estudou algo. Sabedoria não depende de nível social ou econômico. Todos nós temos alguma forma de sabedoria. E, quando o assunto é viver ou sobreviver, todos nós temos muita sabedoria acumulada. A questão é que em um mundo tecnológico, com uma mistificação da ciência e, pior, da pseudociência, nossa sabedoria ficou escondida, acanhada, envergonhada. Pior, toda vez que eu penso em usá-la, o meu entorno, o facebook e o google, me dizem que estou errado! Só um louco furioso para enfrentar esse tsunami de especialistas em tudo!

Por quê escrevi esse post? Porque eu garanto que todos nós temos sabedoria suficiente para:

– Engravidar. Quando há um problema e o casal deseja engravidar, aí sim faz sentido ouvir um especialista. Não é preciso ler no google como se engravida!

-Ter filhos. Há uma sabedoria da espécie para se ter filhos. A obstetrícia não tem 400 anos de idade e nascemos há cerca de 160 mil anos. Claro que o conhecimento obstétrico tornou o parto mais seguro e confortável. Mas, daí a se precisar fazer um curso, com alguém que sabe o que eu não sei, vai uma certa distância. Todas as mulheres sabem, ao menos o mínimo necessário, como ter um filho. De novo, se há um problema no parto, é altamente desejável que um especialista esteja presente.

-Amamentar. A simples ideia de que haja um especialista que vá ensinar a uma mãe como amamentar é muito estranha. Aquela mãe e aquele bebê são únicos. Precisam de um tempinho para se entenderem. Um conselho, fruto da experiência ou tradição, podem ajudar. Uma palavra de reconhecimento dessa dificuldade inicial, também. Mas, ensinar “técnicas” é alienar a mãe da sabedoria intrínseca dela. Em algumas situações especiais e pouco frequente, pode haver um problema pontual onde um especialista pode e deve ajudar.

– Dar banho no bebê. Que tal um curso de banho para o bebê? Alguém com grande experiência, um especialista, vai lhe mostrar como é o melhor modo de dar banho em um bebê. Você terá aulas de simulação com um boneco e vai dominar a técnica. Nasce seu filho e você vai dar o primeiro banho. Ele chora! Surpresa máxima, isto não estava previsto. O boneco do curso não chorava! Ou, apesar de você fazer tudo “certo”, seu bebê não gosta desse banho. Claro que você vai demorar uns dias até desconfiar que o errado é o método, não você, nem o bebê. Aí, você vai usar a sua sabedoria (que será a de tentativa e erro), até descobrir como é o melhor banho, para o seu filho.

– Introduzir alimentos sólidos. Cada cultura tem uma tradição (escrevi um post sobre isso). Não há regras fixas, nem grandes conhecimentos científicos envolvidos. Mas, quem sabe, não seria melhor ouvirmos um nutricionista? Afinal de contas, deve haver algo que eu não sei, fundamental, definitivo, importantíssimo, a respeito de frutas e sopa de legumes com músculo!

-Engatinhar/andar. Não seria melhor contratarmos uma nova técnica de estimulação fisioterápica que “ensinasse” nossos filhos a andarem, de preferência com um nome ou vinda de um lugar remoto (técnica Walfrid de deambulação balanceada ou técnica sueca de estimulação motora)? De novo vemos o poder simbólico das palavras. Imaginem a técnica Severino de deambulação precoce ou a técnica paraguaia de estimulação motora!

A lista de exemplos de situações cotidianas onde NÃO PRECISAMOS DE ESPECIALISTAS   poderia continuar. Poderia incluir o pediatra como sendo um detentor de um conhecimento específico, melhor do que a sabedoria dos pais. Um exemplo rápido: doutor, o que é melhor para o bebê- ar condicionado ou ventilador? Ora, nenhum pediatra teve essa aula no curso de medicina! Essa é uma resposta que deve vir da sabedoria dos pais em, uma vez mais, usarem o melhor método que existe para se cuidar dos filhos: tentativa-erro-aprendizado. Mas, para isso, é preciso três coisas:

  • que estejamos convencidos de que temos sabedoria;
  • que confiemos na nossa sabedoria;
  • que saibamos que especialistas são fundamentais para resolver problemas. Onde não há problema não precisamos de especialista

Se continuarmos a confiar cegamente em especialistas ou não confiar na nossa sabedoria, breve estarei contratando um bombeiro para abrir as torneiras de casa. Como especialista, ele deve saber fazer isso melhor do que eu!

 

NOVO MÉTODO PARA ESTIMULAR A CAPACIDADE INTELECTUAL DAS CRIANÇAS

mobile kids

Pesquisadores da Universidade de Uppsala, na Suécia chegaram à conclusão que, de fato, existe um método que é capaz de estimular a capacidade intelectual de crianças, desde a idade de alguns meses.  O mais interessante é que o método, utiliza uma plataforma realmente amigável e intuitiva, de baixo custo e fácil acesso para a grande maioria das pessoas.

A pesquisa demonstrou que crianças ou até mesmo bebês, desenvolvem não só sua parte intelectual, cognitiva, mas, também sua capacidade criativa, além de constatarem o estabelecimento de vínculos afetivos mais sólidos, dentre os que foram submetidos à essa nova metodologia.

Em geral, pais demonstram uma certa preocupação em como desenvolver de forma mais plena, o potencial dos seus filhos. Nesse afã, se tornam, em alguns casos, vulneráveis a alguns modismos ou tecnologias sem nenhuma comprovação de eficácia. Desde tocar música clássica enquanto o bebê ainda está na barriga da mãe, até a aquisição de móbiles que se propõem a desenvolver aptidões matemáticas nas crianças. O que os pesquisadores suecos nos apresentaram prova que bebês e crianças podem ser estimulados, no entanto a tecnologia envolvida é mais simples do que se supunha.

Mas, nem tudo é perfeito. Este método exige, ao menos, a aquisição da plataforma e um adulto com tempo e desejo de utilizá-la com a criança. A partir de uma certa idade, a própria crianças será capaz de manusear a plataforma, mas, mesmo nessa fase, a presença de um adulto, participativo, interagindo, potencializa os benefícios da metodologia. Somente a partir de 7 a 8 anos é que a plataforma apresenta modelos nos quais a criança será capaz de fazer todas as etapas do método, de forma autônoma.

A esta altura, a curiosidade de alguns deve estar suficientemente aguçada, enquanto que outros já estão no limite de perder a paciência- mas, afinal que metodologia é essa, eficaz, barata, acessível e que roda em plataforma intuitiva e amigável.

Os suecos comprovaram que Lições Interativas de Visualização e Relacionamento de Ordem afetiva, de fato constitui um método, até hoje inigualável de estimulação intelectual e emocional da criança. Mas que método é esse, afinal de contas? Peguemos as primeiras letras de cada palavra e teremos:

LIVRO!

Daqui, ouço um óhhh de decepção, vindo de um grupo de pais mais high-tech, ligados em novidades, para quem o progresso terá sempre uma book-bondingsolução melhor do que o passado. Também vejo um sorriso amarelo de alguns pais que, esperavam algo mais do que um livro! Meu lado otimista (que não é muito desenvolvido) consegue supor alguns sorrisos de pais que, por experiência própria (são leitores) conhecem o poder que livros possuem no desenvolvimento do ser humano.

Brincadeira à parte, há um consenso entre diferentes profissionais de saúde que, se fossemos escolher um método de desenvolver a capacidade cognitiva das crianças este seria a leitura de livros, já a partir dos 6 meses de idade. Claro que não é o único e todos são complementares. O brincar criativo, com sucata doméstica, argila, tintas, pinceis, colagens, seria outro. As brincadeiras ao ar livre como saltar, girar, pedalar, nadar, desenvolvendo, de forma lúdica as capacidades motoras, seria outro. Lembrando que nenhum método, sem o carinho dos adultos, funciona!

Vejam que as telas e monitores não constam no topo da lista. Isso porque, em princípio,  sugerem mais passividade e menos criatividade, no máximo, reatividade, reflexos. E, vamos nos lembrar que programas muito rápidos, agitados, podem desenvolver nas crianças pequenas uma “necessidade” de hiperestimulação. Se não forem hiperestimuladas, sentirão tédio o que pode gerar dificuldades no momento da alfabetização, que é, obrigatoriamente, lenta.

Retornando ao LIVRO, este é um estimulador da criatividade, na medida em que o leitor (ou, no caso da criança- ouvinte), cria a história na sua cabeça. Serão sempre 3 porquinhos e um lobo, mas cada um cria os seus 3 porquinhos e o seu lobo! Além desse aspecto, a proximidade física com quem conta a história, cria um momento de vínculo afetivo, com contato corporal. Não se trata apenas do carinho de quem provê, mas do afeto de quem toca (e se deixa tocar). A leitura pode contribuir para a implantação de determinadas rotinas, como dormir ou jantar. Sinalizam mudanças de ritmo (da brincadeira mais agitada, para um momento mais calmo). Um aspecto pouco lembrado é o de que  nós, adoramos contar histórias! Falamos há aproximadamente 70 mil anos e escrevemos há uns 10 ou 12 mil anos. Portanto, passamos 60 mil anos da nossa existência dependendo exclusivamente de contarmos histórias, para crianças e adultos, assegurando que o conhecimento e a experiência fossem transmitidos, garantindo que chegássemos até aqui. Por esse motivo, ler não é intuitivo, como conversar. Ao contarmos histórias, usando livros, unimos a fala com a escrita e podemos desenvolver nos nossos filhos o hábito da leitura. Um hábito que, por não ser natural, precisa ser desenvolvido de forma gradual e prazerosa. Afinal de contas, hoje, a informação de qualidade, se encontra publicada, impressa. A capacidade analítica, crítica, o entendimento de complexidades como a vida em sociedade, economia, medicina, engenharia, astronomia, cultura, arte etc. vai depender da capacidade de leitura da pessoa. Em um mundo competitivo essa competência pode fazer a diferença, além de ser um hábito que produz prazer a quem o desenvolveu. Vejam quantas razões (e emoções) justificam o desenvolvimento do hábito de ler.

Se alguém ficou chateado com a brincadeira dos pesquisadores de Uppsala, peço desculpas. Só queria chamar a atenção, de forma provocadora, para a importância do livro. E boa leitura com seus filhos!

 

 

POR QUÊ LIMITES SÃO IMPORTANTES?

limites

Por onde se leia ou ouça algo a respeito de crianças, vai surgir a afirmação de que limites são importantes para as crianças. Aqui mesmo no blog eu já fiz esse comentário, sob diversas formas, várias vezes. Me ocorreu que essa afirmação pode ser algo que repetimos, sem realmente pararmos para pensar no que possa significar e qual a razão para se afirmar que limites são importantes. De forma mais prática, vou tentar responder à pergunta deste post. Para quem me conhece e sabe da brincadeira que faço a respeito de escrever um livro que tivesse um número na capa (As 7 regras da alimentação infantil; As 11 lições do Himalaia para a felicidade das crianças; As 9 formas de colocar o seu bebê para dormir; Domine as 3 técnicas infalíveis para a amamentar etc.), este post quase se chamou As 5 razões pelas quais limites são importantes! Vamos a elas.

1- LIMITES OFERECEM SEGURANÇA E PREVINEM ACIDENTES:

  • não pode ficar na janela
  • sai de perto do fogão
  • tira a mão da tomada
  • solta a faca agora
  • coloca o capacete ou não vai andar de bicicleta
  • segura com as duas mãos
  • desce daí já
  • coloca a boia

A lista de “comandos” poderia continuar. Mas, me parece que são autoexplicativos de como limites são importantes para garantir a segurança e prevenir acidentes. Este é um tipo de limite que os pais nunca têm dificuldade em impor, sem nenhuma negociação ou, dependendo da situação, conversa explicativa. A urgência impõe que o limite seja dado de forma rápida e enérgica, sem rodeios e, óbvio, sem a menor culpa por parte dos pais. Voltarei a esta situação quando falar de outros limites.

2- LIMITES PROMOVEM A SAÚDE:

  • coma um pouco dos legumes
  • hoje a sobremesa é fruta
  • não coma mais biscoitos
  • escovou os dentes?
  • vamos passar o protetor solar
  • coloque o chapéu
  • está na hora de dormir
  • chega de brincar com o celular
  • dói um pouco, mas, precisa tomar (vacina)

Novamente, a lista poderia ser mais longa e fica claro que todos os limites descritos acima têm relação com a saúde. Seja para produzir um benefício imediato, seja para prevenir doenças no longo prazo. Estes limites, diferente daqueles relacionados com a segurança da criança, nem sempre são implementados da mesma forma. Claro que nas questões de segurança não existe negociação e nas de saúde pode (e deve) haver uma conversa, explicação etc. Mas, o objetivo deste post é dar aos pais uma explicação de por que limites são importantes.  Neste tópico, mostrei que limites têm ou podem ter impacto direto na saúde dos filhos. A pergunta então poderia ser: se você pudesse fazer algo para tentar evitar que seu filho ou filha infartasse ou tivesse um derrame aos 50 anos, você faria? Se e resposta for sim, já entendeu porque limites relacionados à saúde são importantes e merecem o trabalho que dá para implanta-los.

3- LIMITES CONTRIBUEM PARA DESENVOLVER UMA PERSONALIDADE AJUSTADA:

  • levanta do chão, assim você não vai conseguir nada
  • estou aqui perto, pode ir dormir
  • chorando eu não te entendo, fala sem chorar
  • não vou dar na sua boca, você já sabe comer
  • é o que temos em casa
  • senta para fazer o dever de casa
  • não vai jantar no quarto vendo TV, vem sentar à mesa com seus pais

Crianças são economistas ortodoxos intuitivos. Tendem a buscar otimizar os benefícios, minimizando os custos. Como o seu horizonte de tempo é o presente, sua lógica é a do benefício e custo instantâneos. Não há consequência futura, nunca. Depois, é uma palavra sem o menor sentido para uma criança. Diga para ela comer um doce, depois. Ou, guardar o brinquedo para depois. Cabe a nós, adultos, modular esse imediatismo via limites. É através dos limites que vamos oferecer aos nossos filhos a oportunidade de se defrontarem e resolverem a frustração que estes geram. Se não houver o limite, não haverá a frustração e, sem esta, é impossível que uma criança desenvolva os meios de se autoconsolar e desenvolver os mecanismos que a permitirão conviver com as limitações que o dia a dia nos impõe, sem permanecer em um estado de irritação ou agressividade permanente. Nesse sentido, limites contribuem para o desenvolvimento de uma personalidade ajustada.

 

4-LIMITES PROMOVEM A CIDADANIA:

  • não jogue o lixo na rua, jogue na lixeira
  • não pode morder seus pais ou coleguinhas
  • não pode pegar a borracha do colega
  • se pegar esse biscoito, temos que pagar
  • o caixa deu mais  troco do que devia, vai lá e devolve
  • espera o sinal verde para atravessar a rua
  • agradece o presente que recebeu
  • a fila começa aqui, temos que esperar
  • se apresse, temos hora e não podemos atrasar

Viver e coletividade, de forma cidadã, nos impõe limites. São as regras do convívio social, incluindo nossas leis. Não podemos fazer o que quisermos, quando quisermos, do jeito que acharmos melhor. Em geral, sabemos reclamar quando alguém tem uma atitude menos respeitosa com os demais (fura uma fila, joga lixo no chão, estaciona em fila dupla, anda pelo acostamento de estrada com engarrafamento etc.), mas, costumamos ser tolerantes quando “precisamos” fazer uma destas coisas!  Não raro, afirmamos que o Brasil ou os brasileiros são assim mesmo, num misto de desolação pela realidade geral e justificativa para o comportamento individual. Mas, se de algum modo, desejamos que nossos filhos vivam em um país diferente, é preciso que eles aprendam a ser diferentes e isso se consegue, em parte, com limites e, muito, com exemplos. Temos aqui mais uma razão ou motivo pelo qual limites são importantes e necessários.

5- IMPOR LIMITES É UM ATO DE AMOR

Se eu fosse realmente ousado ou corajoso, este post teria apenas a frase acima! Mas, em um mundo onde precisamos de evidências tangíveis, achei melhor descrever as 4 razões objetivas, antes de chegar nesta.

Ao impor limites à criança, esta, habitualmente, reage de forma enérgica. O limite é um obstáculo real à realização de um desejo ou vontade e, nesse sentido, a reação da criança faz todo sentido. Cabe aos pais não se deixar sensibilizar ou, pior, se culpabilizar por esta reação. Aqui, volto com os exemplos dos limites que garantem a segurança dos nossos filhos. Alguém se sentirá culpado por puxar uma criança sentada na janela que começa a chorar e dizer “mas eu quero sentar lá, você é feia”? A criança poderá fazer o escândalo que quiser, dizer as atrocidades que desejar que os pais permanecerão absolutamente tranquilos e seguros com a decisão tomada e a ação enérgica que empreenderam. Guardadas as devidas proporções e adaptando às demais situações, os pais nunca deveriam se sentir culpados por impor limites cujo objetivo é o bem estar da criança, seja imediato (segurança), seja futuro (saúde, ajuste emocional, cidadania). Se o objetivo é o bem, esses limites, esses “nãos”, são um ato de amor. Para nós, entender que um não seja um ato de amor, nem sempre é fácil. Por isso eu uso a comparação (exagerada), com a criança sentada na janela do oitavo andar, balançando as perninhas para fora. Assim, para que se consiga impor limites aos filhos, é importante compreender que existe uma razão (buscar alguma forma de bem) e uma emoção (amor) envolvidas. Uma vez plenamente embebidos destes dois vetores que justificam os limites impostos, os pais poderão enfrentar, com mais tranquilidade, a reação que sempre vai ocorrer, até a adolescência (fase onde limites são fundamentais, pelos motivos expostos acima, de forma ainda mais dramática no que diz respeito à segurança e saúde).

Mas, além desta reação contrária, enérgica, crianças e adolescentes adoram limites! Ele escreveu adoram? Deixa eu ler de novo. Sim, ele escreveu adoram! Explico. Além dos objetivos lógicos pelos quais impomos limites (tópicos acima), estes (limites) dão à criança e ao adolescente a certeza (inconsciente) de que alguém cuida, se preocupa, olha, tem cuidados, com eles. O limite é como um abraço amoroso bem apertado. Ao mesmo tempo em que estamos contidos fisicamente pelo abraço, nos sentimos envolvidos por afeto e a sensação é prazerosa. O limite funciona como esse abraço, em um nível que as crianças não acessam, mas sentem. Se tem alguém que vai colocar limites, posso explorar o mundo sem medo porque, se houver alguma ameaça, o limite vai surgir. Essa frase, seria o inconsciente dos nossos filhos falando, se pudéssemos ouvi-lo. Por isso que, curiosamente, crianças que reagem de forma exagerada aos limites, podem estar pedindo mais! Sentem que o abraço está frouxo e, sem saber direito de onde vem aquele mal estar, se queixam do (pouco) limite como se fosse muito. Claro que isto não é uma regra, muito menos uma receita de bolo, mas, uma sugestão de reflexão para os pais.

Finalmente, uma recomendação e uma exceção. A recomendação é que escolham os “nãos” relevantes. Se tudo for não, ou se banaliza o limite e ele perde a função ou se massacra a criança, inibindo sua criatividade e, ao invés de reforçar sua autoestima, acabamos por reduzi-la.

A exceção são os bebês pequenos. Para estes, nem pensar em impor limites. Estes precisam, para que o seu pleno desenvolvimento físico e psíquico, que nos primeiros meses de vida, seus “desejos” sejam todos acolhidos. Bebês devem mamar quando quiserem, dormir quando conseguirem, ser pegos no colo o tempo que isso lhes der calma e prazer. Sem limites. Depois, a história muda e os pais de bebês pequenos que leram até aqui podem reler o blog quando seus filhos estiverem um pouco maiores!

Independentemente da idade, do recém-nascido ao adolescente, ou diria até filhos adultos e casados, mudam as razões pelas quais fazemos isso ou aquilo para e com nossos filhos. O que nunca muda é o afeto, o amor.