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MANIFESTO MARXISTA!

groucho-marx2Calma, leitores! Resolvi escrever um manifesto marxista. Mas, é um manifesto Groucho Marxista! Nada a ver com ou outro Marx, Karl, filósofo alemão. Groucho foi um humorista americano, do século passado, dono de um humor demolidor, iconoclasta, capaz de rir de si próprio com a mesma causticidade com que tratava dos outros, dos costumes e da cultura. Dentre suas sacadas geniais, escolhi  duas, para que os leitores que nunca tiveram a oportunidade de conhecer o Groucho, entendam um pouco, como era o seu humor. “Não posso ser sócio de um clube que me aceite” é uma frase clássica dele. Ao mesmo tempo em que ri de si, critica clubes com rígidos critérios de admissão. “Pretendo viver para sempre, ou, pelo menos, morrer tentando” mostra bem o seu humor inteligente e criativo.

Estava pensando em como abordar alguns temas com os quais tenho tido contato no consultório e acabei imaginando usar uma fórmula onde coisas sérias poderiam ser abordadas com humor. Para começar, me veio a imagem do Groucho e pensei logo em escrever um Manifesto Marxista. Como todo manifesto, começa com uma exortação. Espero que se divirtam lendo.

MÃES E PAIS DO MUNDO, UNI-VOS!

Uni-vos contra:

  • Os cursinhos que ensinam o que já sabemos!  Há uma onda de cursos para tudo que se possa imaginar, ou quase. Curso para grávidas, para pais, para os cuidados com os bebês, para a amamentação. Cursos que ensinam como tornar seu bebê mais relaxado, sem cólicas, mais feliz. Cursos que lembram aqueles anúncios de cartomantes que trazem a pessoa amada, em três dias: ensine seu bebê de um mês a dormir, em três dias! Enfim, a lista de cursos é interminável e a criatividade para oferecer novos, me impressiona. Eu só fico pensando em como é que a humanidade chegou até este ponto, atravessando mais de 170 mil anos, sem fazer um cursinho sequer? De duas, uma. Ou, a partir do momento em que alguém resolveu ganhar dinheiro com esses cursos, nós tivemos um ataque de amnésia completo. Ou, nosso software de seres humanos continua operando muito bem obrigado e temos um conhecimento intuitivo, natural, inerente à nossa espécie e à capacidade de nos perpetuarmos que dispensa cursos, aplicativos, livros, que tentem nos ensinar o que já sabemos.
  • A medicalização da vida. Vivemos tempos curiosos onde, quase tudo que acontece, merece uma opinião ou comentário médico. A medicina deixou de ser uma profissão da privacidade das pessoas, para se tornar uma palpiteira pública sobre nossas vidas. O que não percebemos é que o que parece ser informação (e muita vezes é), se torna um saber exclusivo do médico. Ele detém um conhecimento especial ao qual os demais não têm acesso. Se só o médico tem esses saber, dependo dele para tomar minhas decisões. Ora, um sem número de decisões a respeito da saúde, não depende de um saber médico. Mesmo porque o conhecimento sobre a saúde é muito mais amplo do que está incluído no curso de medicina (que, por sinal, ensina muito sobre doenças e pouco sobre saúde). Portanto, perguntar ao pediatra se ar condicionado é melhor do que ventilador, é uma dessas perguntas que  não estavam incluídas no curso do médico. Mas, ele vai responder, com ar de ciência! Poderia listar centenas de perguntas que o médico não deveria responder ou, se respondesse, deveria dizer: “não sei isso, melhor você experimentar e ver o que acontece”. Medicalizar a vida retira de cada um de nós a autonomia necessária para ousar e aprender.
  • A tirania da farmacologia. Se tudo na vida depender da opinião médica e se este profissional aprendeu muito mais sobre doenças do que saúde, as chances de que um medicamento seja prescrito para tudo e qualquer coisa, aumenta muito. Pior, nós mesmos, diante da ansiedade natural que o adoecer pode produzir, desejamos, ansiamos, por um medicamento que cure e resolva, rapidamente. Claro que não sou favorável a que as pessoas fiquem doentes e sofram. Óbvio que não. Meu ponto é que a farmácia, muito mais do que ser uma loja de saúde em cápsulas, é um espaço de ilusão. Que queiramos nos iludir com soluções mágicas, é humano. Que nos apeguemos à crença de que para tudo que sentimos deve existir um medicamento para resolver o problema, é natural. Agora, que o médico que, em tese, deveria conhecer bem os medicamentos, faça um pacto conosco e nos prescreva o que não é necessário, isso não é humano. Isso é desonesto. Nem tudo, infelizmente, tem um remédio à venda que resolva. Resfriado é um bom exemplo!  E, só porque não tem um medicamento, não significa que não exista um cuidar. Cuidar, é muito mais do que dar um remédio. Sempre podemos cuidar de alguém doente. Nem sempre teremos um medicamento para oferecer.
  • As regras que escravizam. Muitas vezes regras são necessárias e nos ajudam. No entanto, corremos o risco de nos tornarmos escravos de regras. Se o médico detém o saber, o que ele diz, tem o peso de uma regra. Romper a regra pode envolver um risco enorme. Logo, sou obrigado a obedecer. Se sou obrigado, me tornei escravo! Não falo de diretrizes baseadas em evidências e com alguma comprovação epidemiológica, como: não fumar, se exercitar, comer de forma balanceada, manter o peso dentro de certos limites, aplicar vacinas etc. Falo de “regrinhas”, sem nenhum fundamento ou evidência. E, neste tópico, o médico não é o único vilão. O internet, grupos e fóruns, vivem alardeando regras. Não coma isso, não passe aquilo, evite tal coisa. Ou, o oposto, ofereça isso a seu filho, toque Mozart para desenvolver a inteligência etc. Algumas regras passam a ter uma força tão grande que, ir contra, gera culpa! Três grandes áreas das nossas vidas são povoadas de regras: alimentação, educação e desenvolvimento infantil. O que me chama a atenção é o fato de  podermos encontrar regras radicalmente opostas, para o mesma assunto ou questão. Isso nos faz pensar que, se tem tanta regra e muitas são conflitantes entre si, é porque não deve ter regra. Desconfiem de regras, sempre! Inclusive desta! (em homenagem ao Groucho). O antídoto para as regras é confiar no seu conhecimento, intuição e bom senso.
  • O modelo de gestão eficaz. As ferramentas e métodos do mundo dos negócios, ótimas para se ter sucesso nestes, acabou atravessando as paredes das fábricas e escritórios, se instalando nas nossas casas, lazer e vida em geral. Ficamos condicionados a pensar em otimização do tempo, eficiência, entrega, metas, objetivos e resultados. Nossas viagens levam em conta a relação custo/benefício e escolhemos as escolas dos nossos filhos de 3 anos, analisando a taxa de aprovação no vestibular (daquele ano! quem garante que vai se manter em 14 anos?) e um fluxo de caixa, concluindo que sim, aquela escola é um bom investimento. Pausa. Lembrem-se que este é um manifesto Groucho marxista, portanto, exagerado, caricato, histriônico. Retomando. Ora, estas ferramentas que são fundamentais na gestão de uma empresa, podem ser úteis em alguns aspectos das nossas vidas. Mas, nossas famílias e vidas, são bem mais do que uma empresa. Empresas devem captar e manter clientes lucrativos. Até onde sei, nenhuma família tem essa missão ou visão. Aliás, famílias não têm nem visão nem missão!  Felizmente, nunca entrei  em uma  casa   onde estivesse, pendurado na parede, um poster com os seguintes dizeres: a nossa missão é sermos considerados a família mais bem sucedida da cidade, de forma sustentável e ecologicamente correta. Famílias são redes de afeto onde a vida acontece. Famílias são vínculos de amor, onde a emoção flui. Bem diferente de uma empresa, suponho.

O que ganhamos se nos libertarmos dessas pequenas “prisões” que eu pintei com as cores do humor? Independência, autonomia, segurança para sermos criativos e ousados. Conquistamos o direito de sermos sujeitos de nossas vidas e de estimularmos nossos filhos a fazerem o mesmo.

 

 

SER PAI

É quase impossível escrever algo sobre ser pai que ainda não tenha sido escrito ou dito. Mais difícil ainda é não descambar para um sentimentalismo comercial, aquele que produz “lágrimas que vendem”! Por outro lado, não dá para não aproveitar a ocasião do dia dos pais e expressar algumas de minhas ideias e sentimentos sobre o que é ser pai. Dos vários aspectos que formam um pai, me ocorreu falar sobre um em especial, a coragem de ousar.

O primeiríssimo momento de coragem de ousar é quando um homem assume que vai compartilhar sua vida e afeto com uma outra pessoa, seu filho. A ousadia de romper com uma forma individual de existir para ousar existir também para e em outro ser. A natureza é sábia e nos faz passar batido por esse ato de ousadia corajosa.

Quando nossos filhos nascem, precisamos ter a coragem de quebrar paradigmas machistas e assumirmos alguns papeis habitualmente atribuídos às mulheres. Para que as mães possam melhor amamentar e acarinhar o filho, ajudamos nas tarefas da casa, seja arrumando, cozinhando, fazendo as compras. Também podemos e devemos assumir algumas tarefas com os filhos, como o banho, a troca da fralda de madrugada, o tempo no colo para o arroto depois da mamada e a colocada para dormir. Tudo isso, liberando tempo e algum descanso (mínimo), para a mãe.

Depois, devemos ter a coragem de ousar no trabalho, informando que a família é importante e que não vai ficar sempre em último lugar. Ousar sair quando o expediente termina, estar em casa para ver o filho acordado, participando do jantar e ler um livrinho junto com o filho. Chegar mais tarde ou sair mais cedo no dia em que houver uma reunião ou apresentação na escola ou ainda uma ida ao pediatra.  Coragem que pai deve ter para quebrar paradigmas.

Há uma coragem que para muitos de nós é muito difícil de encontrarmos. A coragem e ousadia de colocar limites. Essa é uma função amorosa de pai, por mais dura que seja. Colocar limites não significa abusar da autoridade, muito menos deixar de elogiar. Colocar limites é dar aos nossos filhos a possibilidade de se tornarem adultos ajustados à vida em coletividade. É desenvolver neles a capacidade de conviverem e superarem frustrações. Acima de tudo, é o entendimento que o mundo não gira em torno deles, para satisfazer, exclusivamente, seus desejos. Colocar limites é amar seu filho.

Ser pai exige a coragem de dizer não sei. A ousadia de não ser perfeito e, a partir dessa sinceridade, construir uma relação verdadeira com nossos filhos.

Chega um momento em que ser pai exige a coragem de soltar os filhos no mundo. Um pouco como quando os ensinamos a andar de bicicleta. No começo, com rodinhas. Depois, segurando no selim e correndo atrás da bicicleta, com palavras de incentivo e segurança. Finalmente, soltando o selim e ficando com o coração na boca, vendo aquela bicicleta bamboleando com nossos filhos em cima dela e nada que possamos fazer para evitar o tombo. Assim é soltar os filhos na vida!

A coragem ou ousadia que atravessa todas as etapas da vida de um pai talvez seja a de se emocionar, sem se conter. De vibrar com as pequenas conquistas, se orgulhar dos progressos e não ter preocupações com razões para sentir isso ou aquilo. Basta desligar a razão e deixar fluir a emoção do amor.

Por isso, no dia do pais, sugiro que todos nós que somos pais, agradeçamos aos nossos filhos por nos permitir viver de uma forma mais emocionada. Isso também exige uma dose de coragem e ousadia!