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PAIS NÃO SÃO CIENTISTAS, MAS ARTISTAS!

“A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação dá a volta ao mundo.” Albert Einstein ¹

Inicio o texto com uma citação de uma das mais brilhantes mentes científicas da humanidade. É uma afirmação de uma pessoa que passou sua vida envolvida em fórmulas matemáticas, desenvolvendo teorias que, algumas, só vieram a ser comprovadas muito recentemente. No entanto, quando perguntado se confiava mais na sua imaginação do que no seu conhecimento, deu a resposta acima, surpreendente para um físico brilhante. Talvez surpreendente para qualquer um de nós que viva neste planeta, neste século. Vivemos a era das certezas e convicções “científicas”. Coloquei aspas em científicas porque muitas das nossas convicções são baseadas em pseudociência, fraudes, farsas e manipulações. Mas isso é outro assunto. O fato é que o valor dado à racionalidade, lógica, precisão, previsão, modelos matemáticos, estatísticas, algoritmos, big data, é inequivocamente maior do que o dado à arte, intuição, sensações, imaginação, afeto e amor.

Nenhum de nós escapa ao tsunami da cultura, sendo esta o conjunto de valores que expressam uma época ou um grupo humano. Imersos em dados, números, estatísticas, gráficos que projetam eventos futuros, não poderíamos ser mães e pais sem estarmos “contaminados” por esta praga contemporânea.

Imagino que, a esta altura do texto, engenheiros, matemáticos, economistas e físicos já pararam de ler, irritados com minha irreverência com a ciência. Eventualmente, um grande número de leitores, sentiu desconforto ao ver um nossos oráculos atuais (a razão) ser provocado por um pediatra! Mas, antes que não tenha nenhum leitor que chegue ao final do texto, explico alguns pontos. A ciência é fundamental. O pensamento científico é um passo enorme da humanidade para sair do obscurantismo dos mitos e crendices. O pensamento científico é ainda muito jovem na nossa história, datando de aproximadamente 500 anos, o que é muito pouco para o confronto com 60 mil anos de fantasias e crenças, sem nenhuma fundamentação ou comprovação. Portanto, sou um ferrenho defensor do pensamento científico. A proposta deste texto é a de, preservando o pensamento científico, afirmar que é uma condição necessária, mas não suficiente, para a nossa vida, neste planeta. Dito de outra forma há uma característica humana chamada emoção, que não se opõe à razão, sendo, com esta, parte de um todo indivisível do ser humano. Não existe, no mundo real, a divisão ou polarização entre razão e emoção. Fomos induzidos a acreditar nisso por modelos culturais que nos precederam (Descartes sendo um dos mais conhecidos) e que se mantém até hoje. Para me “garantir”, comecei o post com uma declaração de Einstein, valorizando a imaginação, que nada tem de racional!

Como em vários outros posts, tem uma hora em que o leitor, se chegou até aqui, se pergunta- mas o que isso tem a ver com ser mãe e pai? Aonde esse pediatra quer chegar?

Uma mulher engravida. Ao mesmo tempo em que faz o seu pré-natal, baseado nos melhores conhecimentos científicos disponíveis, imagina seu filho. Pode até ver uma imagem de ultrassom do bebê, mas o que os pais imaginam não é aquela imagem, ainda que seja emocionante. Durante a gravidez, a mulher e o pai, imaginam o parto, o recém-nascido, como será, que personalidade terá, com quem se parecerá? As preocupações de todos nós também aparecem no imaginário de casais grávidos: será saudável, perfeito, inteligente?

Nasce o bebê e há um choque de realidade. O imaginado não é exatamente como o real. Seja o aspecto físico (a carinha amassada, a orelha assim ou assado, o nariz que não lembra o de ninguém), seja o comportamento do bebê. O bebê imaginado era doce, meigo, manso. Dormia a noite toda como um anjo e, de dia, mamava feliz. Pois bem, o bebê chora, e chora mais, e chora muito. Não dorme à noite, só quer ficar no peito, machuca o peito, é incomapecido, não poupando a mãe, sugando leite, energia e vitalidade (que mãe não sentiu um cansaço jamais sentido antes?).

Claro que estou exagerando, pintando com tintas fortes, um quadro onde também há um sentimento de amor jamais vivido anteriormente. Quero apenas preparar o clima para o próximo movimento.  Diante da insegurança (natural e normal) que esta “pororoca” entre o imaginado e o real  produz, qual a solução? Consultemos nossos oráculos contemporâneos: Google, grupos de mães e o pediatra. A pergunta, expressa de diferentes maneiras é sempre- isso é normal? E acreditamos que a resposta, técnica, está fora de nós, dos nossos sentidos, guardada a sete chaves por algum sábio que entende mais do que nós de bebês.

Proponho que ao invés de consultar os oráculos ou especialistas com supostos saberes, os pais se voltem para a sua intuição, sensibilidade, emoções, imaginação e criatividade. Claro que os conhecimentos científicos adquiridos serão úteis e servirão como um guia ou norte, mas nunca como uma norma ou regra. De que adianta dizer que um bebê “deve” dormir 16h por dia se o seu dorme 14h ou 18h? O que importa é saber se o bebê está saudável e não se “obedece” a uma regra! De onde vêm as “regras” da introdução alimentar (ou alguém acha que um bebê sueco, vai ser alimentado com banana)? Aliás, de onde vêm tantas regras que assegurem um desenvolvimento “normal” do ser humano. Suspeito que venham, entre outros fatores, de uma exploração da insegurança natural que temos diante de algo novo (filhos, frágeis e dependentes absolutos de nós), com o intuito de vender um serviço ou o simples “conhecimento”. Claro que obedecer a uma regra remove a responsabilidade do eventual erro, mas também tira o que há de mais rico na maternidade e paternidade que é a autoria do processo de criar esse novo ser humano.

A explicação para a necessidade dos pais serem mais artistas e menos cientistas é muito simples. Cada ser humano, bebê, criança, adolescente, adulto, idoso, é único. Não existem duas impressões digitais iguais, duas vozes idênticas, personalidades replicadas etc. Nenhum ser humano está plenamente representado em uma média ou estudo.  O fato de sermos únicos cria um desafio e um prazer na maternidade e paternidade. O desafio de olhar e perceber o filho como sendo outro, literalmente, e não uma edição revista e melhorada dos pais e o prazer  é o de um artista  quando cria uma obra. Para criar uma obra, o artista lança mão da sua imaginação, criatividade e ousadia. Se não fosse assim, não teríamos um Michelangelo, Da Vinci, Monet, Chagall, Picasso, Cervantes, Drummond, Bandeira, Beatles, Caetano, Gil e, nessa relação interminável de artistas que nos emocionam com sua criatividade, por que não incluir os cientistas que, antes de desenvolver uma tese, ousaram pensar de forma inédita. Mesmo a ciência começa com o simbólico, o imaginado, o fantástico.

Ser mãe e pai é um processo continuado de criação artística e o resultado final é o orgulho ao ver a obra viva, feliz e integrada ao mundo. Diferentemente de Michelangelo que, ao ver o seu Moisés terminado, teria batido com o martelo na escultura e perguntado por que não falas, nossa obra fala (e sente).

Sejamos todos mais ousados, imaginativos e emotivos. Sejamos artistas que exploram as infinitas possiblidades de criação na tela da vida. Os filhotes agradecem. A humanidade também!

 

1- Entrevista dada a  G. S. Viereck, “What life means to Einstein”, Saturday Evening Post, 26/October/1929, reimpresso em G. S. Viereck, Glimpses of the Great, new York: Macauley, 1930, p. 447.

O MEDO EM CRIANÇAS

O medo é uma resposta emocional que faz parte do desenvolvimento normal e é essencial para a sobrevivência humana. Antes de pensarmos no medo como uma coisa ruim, precisamos nos lembrar que é, ao mesmo tempo, adaptativo e protetor. Portanto, não ter medo é muito perigoso!

As crianças normalmente têm medos. Esse medos variam de acordo com a idade e mesmo de um dia para o outro. Um objeto ou situação que era indifirente um dia, pode se tornar assustador, no outro. Precisamos nos lembar que, como adultos, não temos a imaginação de nossos filhos. Crianças possuem uma imaginação extraordinária e nós adultos não somos capazes de entender o grau de terror que as crianças podem sentir, com coisas que, por mais que nos esforçemos, somos incapazes de ver como assustadoras.  Portanto, a primeira coisa que os pais podem (e devem) fazer é não desprezar ou desqualificar o medo de seus filhos.

Os medos podem se desenvolver como uma resposta a situações reais vividas, como um acidente, um tombo, um choque, uma queimadura ou como associações de dois eventos separados como assistir a um filme assustador em dia de chuva e passar a ter medo da chuva.

Os pais devem se lembrar que, muitas vezes, são eles que incutem medos nas crianças. Frase como: o médico vai te dar uma injeção se você não comer o espinafre; faz o que a mamãe está pedindo senão o bicho papão vem te pegar, são apenas dois exemplos de coisas ditas que podem gerar medos.

Um dos primeiros medos que surge é o medo da separação dos pais. Esse medo é claramente percebido entre 1 e 3 anos, quando a criança consegue se expressar. No entanto, o medo da separação pode acontecer em bebês maiores. Muitas vezes um bebê chora à noite simplesmente porque não vê a sua mãe. Nem sempre o choro noturno de um bebê maior é fome ou fralda molhada. Muitas vezes, a simples presença da mãe ou do pai, fazendo um carinho, sussurando, embalando no colo, tranquilizam a criança e esta volta a dormir. Quando a criança é maior, ela mesmo se levanta da sua cama e vai para o quarto dos pais.  O medo da separação é um temor de que algo ruim possa acontecer com os pais e costuma se dissipar até os 5 anos.

Só reforçando o que disse a respeito do lado bom do medo, quando um bebê ou uma criança tem medo de cachorros ou de estranhos, é nitidamente uma emoção de proteção. Esses medos de proteção são compreensíveis para os pais. No entanto, crianças, porque possuem uma imaginação maravilhosamente criativa, podem ter medo de quase qualquer coisa. Os medos mais comuns são os de abandono, percebido quando a criança começa a frequentar uma creche ou escola. Algumas crianças se agarram nas mães, chorando de forma inconsolável. No seu imaginário, as mães nunca mais voltarão. Isso não é um excelente motivo para sentir medo? Crianças podem sentir medo do escuro. No escuro tudo pode acontecer, sem que seja visto. O escuro permite à imaginação povoar o espaço com coisas terríveis (e invisíveis)! O medo de bichos é outro medo comum, como algumas crianças têm medo de ruído (liquidificador, aspirador de pó etc.). Monstros e bruxas são motivos de medos fantásticos, alguns com histórias extraordinárias. Conheci um menino de 5 anos que tinha medo da “loura do espelho”. Seria uma mulher loura que sairia do espelho do banheiro para pegá-lo, à noite. Esse é apenas um exemplo da capacidade imaginativa das crianças.

O que os pais precisam saber é que medos são comuns e se dissipam com o tempo e a experiência. Sugiro que vocês tentem se lembrar de alguma situação de medo que viveram na infância, apenas para sentirem o quão criativos já foram também.

Quando a criança expressa o seu medo, não basta dizer que tal coisa não existe. É importante reassegurar a criança de que, de fato, mamãe e papai estão no quarto ao lado, de que bruxas e monstros não existem etc. Em algumas situações de medo, os pais devem ir além e dizer algo como: mesmo que existisse a tal bruxa (ou monstro), eu daria um soco no nariz dela e um pontapé no bumbum que ela fugiria correndo e nunca mais voltaria.

Muitos livros infantis falam dos medos de uma forma lúdica. Ler esses livros com seus filhos permite que o assunto do medo surja em um momento lúdico e permita que a criança fale dos seus medos, sem estar sentindo medo.

Com crianças maiores, os pais devem evitar situações que  desencadeam situações de medo. As mais frequentes são filmes na TV ou alguns jogos que, quando vistos ou jogados, principalmente antes de dormir, estimulam a imaginação criativa da criança.

Espero que os pais que lerem este post se sintam mais tranquilos com os medos de seus filhos. Me escrevam contando ou narrando os medos de seus filhos. Se tiverem perguntas, façam-nas. Tentarei respondê-las, o melhor possível.