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ESTIMULAÇÃO PRECOCE

Estimulação precoceSempre fiquei pensando a respeito do termo estimulação precoce. Precoce, segundo o dicionário, é algo prematuro, antecipado, antes do tempo. Aí me dei conta, uma vez mais, que estamos vivendo um momento de encurtamento do tempo. Tudo precisa ser rápido. Rapidez traduz uma noção de eficiência, de performance e, numa sociedade onde a cultura de gerenciamento de empresas ” transbordou” para nossas vidas pessoais, nada mais desejável do que a velocidade.

Ninguém ainda ousou revelar, mas deve ter muita gente imaginando se não seria possível um curso de línguas intra uterino! Quem sabe colocar uns fones de barriga para o bebê ouvir uma outra língua? Claro que, em todas as nossas fantasias relacionadas com a qualificação dos filhos, existe o desejo, mais do que legítimo, de que sejam pessoas competentes e, portanto, com maiores chances de aproveitarem as melhores oportunidades que a vida tem para oferecer. Acredito que todos nós desejamos o melhor para nossos filhos. Mas, é preciso ter cuidado para não confundirmos o que é melhor para uma empresa ou organização, com o que desejamos para nossas crianças. Crianças não são funcionários da família.

Crianças são seres onde nem tudo pode, nem deve, ser acelerado. Qual um dos temores de toda grávida? Que o bebê  nasça antes da hora! Nascer antes da hora, um parto precoce ou prematuro, pode significar que o bebê corra risco de vida. Só porque chegou antes. Esse é um exemplo onde as consequências da precocidade ficam muito evidentes. Por que não imaginar que outras precocidades também possam trazer riscos sérios?

No afã de vermos nossos filhos se desenvolvendo plenamente, além de acharmos que dominar aptidões mais cedo é, sempre, melhor, também acreditamos, sem crítica, que a tecnologia será uma aliada fundamental nesse desenvolvimento antecipado. O que a industria está sendo capaz de oferecer em termos de bugigangas e geringonças que são “cientificamente” testadas e aprovadas para estimular o QI de um bebê de meses, ou até de uma criança de anos, é impressionante. Além de prometerem uma ilusão, a de anteciparem o que tem um tempo próprio para acontecer (como a gravidez tem), acabam podendo ter o efeito inverso, de criar crianças passivas diante de uma tecnologia que fascine. Fascina, sem estimular a imaginação.

Todo desenvolvimento intelectual e emocional vem da capacidade de termos nossa imaginação estimulada. E a imaginação se estimula a partir de um objeto ou situação,  vago, pouco específico, deixando para a criança a tarefa de criar suas especificidades. É assim que uma caixa de ovos pode virar tanto um caminhão, quanto uma ferramenta para modelar massinha, ou ainda, um bicho muito assustador que morde a perna dos adultos! Mas, não é só a presença de um objeto, desenho ou situação que produz, na criança a fantástica capacidade de criar. É preciso um ambiente de amor, acolhimento e profundo respeito pela criação infantil. Só assim, esta se sentirá segura para ousar e criar mais ainda. Nenhuma tecnologia sente carinho pelos nossos filhos!

Colocar o filho no colo, a partir de 6 meses de idade, para ler um livro, é um dos melhores estímulos à criatividade dos nossos filhos. Claro que, aos 6 meses não entendem nada do que lhes é dito. Mas, compreendem muito bem, o calor do corpo que os abraça e o tom da voz (sempre diferente, quando contamos histórias). Sentar com o filho no colo é esquecer do tempo (que pode ser de apenas 5 minutos) e entrar em um território mágico onde coisas fantásticas acontecem. Ler, com os filhos, é ensiná-los a não ter pressa. A sentir prazeres que não sejam imediatos, instantâneos. Além de ler, brincar com os filhos, se possível, usando sucata doméstica. Fios e fitas que deslizam pelo chão ou voam pelos ares, assumindo os mais diversos personagens. Caixas de diversos tamanhos, garrafas plásticas, copos de iogurte (lavados!), se transformam em cidades, carros e pessoas. E você ali, brincando junto, é o reforço positivo que seu filho precisa para ousar imaginar. Além de ser um reforço positivo para seu filho, sentirá prazer. Quanto mais prazer sentir, mais sua presença será percebida como um integrante do brincar e não como aquele que está ali, tomando conta.

Finalmente, a pergunta que deixo no ar- para que ter pressa? Pressa de andar, falar, desfraldar, ler, fazer contas. Cada criança tem seu ritmo, seu tempo. A vida tem um tempo e quem tem muita pressa, passa sem ver a paisagem! O bonito, numa estrada, não é a velocidade e sim a paisagem. O gostoso numa viagem é ter tempo… tempo para parar, olhar, tomar um café. Por que temos essa sabedoria quando viajamos e passamos o resto do tempo correndo?

Ao encerrar o post, gostaria de dizer que tenho profundo respeito pelo trabalho dos profissionais envolvidos em Estimulação Precoce. Estes profissionais trabalham com crianças que apresentam necessidades específicas e contribuem enormemente para o bom desenvolvimento destas crianças. Peguei o termo Estimulação Precoce emprestado, apenas para tentar provocar a reflexão se vale a pena termos pressa com quem precisa de tempo para se desenvolver?

 

BRINCAR (É COISA SÉRIA!)

children-playingImagine algo que seja universal e natural, sem ser uma função de sobrevivência  (respirar, comer, dormir etc.). Se essa atividade, que todo ser humano faz ou fez, existir, sem necessariamente precisar que lhe ensinem, deve ser algo muito importante nas nossas vidas e na história do desenvolvimento da nossa espécie. Se isso não é sério, o que será?

Todo ser humano saudável ou sem limitações extremas, brincou ou brinca! Ninguém precisou nos ensinar a brincar. É algo que começamos a fazer, espontaneamente. Certamente que, em algum momento, um adulto introduziu em nossas vidas, brincadeiras ou jogos organizados, com algumas regras. Mas quando bebês, ninguém nos ensinou como brincar, e brincamos!  Portanto, o brincar é uma parte essencial da vida que permite o crescimento e o desenvolvimento de algumas aptidões humanas importantes. Se é parte essencial do crescimento, o brincar faz parte da saúde das crianças. Se isso não é sério, o que será?

No começo, é a mãe  que brinca com o bebê. Ela usa um tom de voz especial, sorri ou muda sua expressão facial, se aproxima e se afasta do rosto da criança, pega no seu pé e balança, cheira, sopra na barriga, finge que desaparece e reaparece. Provoca no bebê pequeno um sorriso e à medida que este vai crescendo, surge uma certa agitação com os braços e pernas, acompanhado ou não de sons, que fazem a mãe brincar ainda mais. O bebê parece antecipar e, eventualmente, provocar a mãe para que esta repita um jogo estabelecido entre ambos. Nesta fase, o bebê está brincando também. Portanto, o brincar não é algo que começa somente quando a criança é maior e já se senta ou pega objetos, por exemplo. O brincar é uma atividade que pode ser identificada no bebê pequeno. Para adultos racionais (leia-se homens em geral), isso pode parecer uma peça de ficção. Mas, perguntemos às mães se elas não estão convencidas de que seus bebês brincam com elas? A grande maioria dirá que sim.

Certamente, o brincar fica mais evidente quando a criança já está um pouco maior. Talvez a primeira brincadeira que tenha alguma “sofisticação” seja a de jogar objetos no chão ou para longe, esperando que alguém (um adulto) o pegue de volta. Crianças adoram essa brincadeira de fazer sumir e reaparecer um objeto. É uma experiência mágica para a criança. Ela joga o objeto fora (no chão) e ele volta! Se os pais tiverem uma boa dose de paciência, essa brincadeira pode levar um bom tempo. Mas, ela é fundamental para o desenvolvimento do sentimento de confiança. Este sentimento é fundamental para a estruturação de uma identidade.

O brincar é importante  para o desenvolvimento de atributos físicos, cognitivos (do pensamento racional) e emocionais das crianças. Ao brincar, as crianças desenvolvem, entre outros :

  • cooperação e relacionamento em grupo
  • capacidade de superar desafios
  • capacidade de negociação
  • tolerância à frustração

No entanto, a maior e mais importante consequência que o brincar produz é o desenvolvimento da criatividade. É através da criatividade que o brincar estimula que se constói a personalidade de uma pessoa. A criança, ao ser criativa brincando, está buscando entender o mundo que a rodeia e, mais importante, como ela vai viver nesse mundo. Não raro, a brincadeira é o melhor caminho que a criança tem para se adaptar a situações complexas e ameaçadoras, como a viagem de um dos pais, a chegada de um irmão ou os primeiros dias de creche ou escola. Assim,  o brincar também permite que os pais percebam o mundo do ponto de vista de seus filhos. Ver uma criança brincar nos mostra como ela capta o mundo e como se insere neste. Nesse sentido, o brincar é, também, uma forma de comunicação. Ao brincar, nossos filhos nos contam histórias deliciosas ou nos revelam suas aflições e como estão lidando com elas.

Esse brincar que estou comentando é um “livre brincar”. Não é uma atividade programada, com um objetivo definido. O livre brincar é um momento em que a criança tem liberdade de ficar só. Ainda que adultos devam estar por perto, nem sempre devem estar dentro da brincadeira (em algumas sim, claro!). Tanto quanto o brincar, este estar só, acompanhado, é importante para a criança. A criança desenvolve segurança e auto-confiança quando sabe que a pessoa que ama está ali, mesmo que esquecida.  Portanto, esse brincar não obedece à lógica de eficácia empresarial que os pais, muitas vezes, trazem para dentro de casa, ainda que de forma involuntária. Não é um brincar “profissionalizante” da infância, onde todo o tempo deve ser aproveitado para a criança fazer coisas “úteis”. Muitos pais comentam sobre a pré-escola: mas lá não ensinam nada, só brincam!. Como ensinar algo “útil”, antes de se desenvolver uma pessoa? Por isso, precisamos, ao menos para nossos filhos menores, subverter a lógica vigente e dizer: menino, vai brincar! depois você faz algo útil! brincando2

Esse brincar, deve ser, preferncialmente,  com “brinquedos verdadeiros”. Brinquedos verdadeiros é um nome fantasia, uma brincadeira, para aqueles que estimulam mais a criatividade da criança, como blocos, cubos, caixas, fitas, bonecos, carrinhos, baldes, massa, areia,  “sucata” doméstica etc. Não é preciso um brinquedo caro, eletrônico, na moda, para estimular a criatividade da criança. Muitas vezes, os pais fazem um esforço para dar esse tipo de brinquedo e ficam frustrados ao ver a criança deixar o brinquedo de lado e brincar com a caixa, fita e o papel da embalagem!

A ideia deste post é estimular os pais a verem a livre brincadeira dos seus filhos, aquela espontanea e criativa, não como uma perda de tempo , mas como uma parte vital do desenvolvimento dos seus filho.  E, sem brincadeira, adoraria que o post estimulasse os pais a brincarem mais, na vida. Brincar não é tudo na vida. Mas, uma vida sem brincar, não é nada!

Vou adorar receber comentários brincalhões, ou não!