SE EU SOU O ESPECIALISTA, QUEM É VOCÊ?

Muitas vezes sequer nos damos conta do poder das palavras.  Palavras em si não passam de um amontoado de letrinhas. Só fazem sentido quandobomb_hidr se transformam em um símbolo (imagem, conceito etc.). Quando escrevo as letras asac você certamente vai parar um minuto porque nada lhe veio à mente. No entanto, tecnicamente, é uma palavra. É uma palavra inexistente porque a ela não temos nenhum significado atrelado, amarrado. Agora, quando eu escrevo casa, você imediatamente fez uma imagem mental e “entendeu” a palavra. Esta é uma palavra existente porque ela faz sentido, ao menos para nós que usamos a língua portuguesa.

O poder das palavras, por ser simbólico, faz um curto-circuito na nossa racionalidade. Veja, por exemplo, se você se sentiria igualmente confortável comprando um carro usado ou um seminovo? Racionalmente, concordamos que ambas as palavras se referem a carros que já tiveram algum uso ou que não são zero km. Nenhuma das duas palavras define claramente, quanto uso o carro teve. No entanto, seminovo parece melhor do que usado!

Um outro exemplo, este no campo da saúde, é aquele lugar onde realizamos exames complementares. Aqui, já introduzi uma palavra que é conhecida dos médicos, mas, pouco ou nada usada pela população. Me refiro à palavra complementares. Complementar a o quê? Essa seria a pergunta a ser feita. Ora, os exames são complementares a uma consulta médica que inclua uma boa entrevista (anamnese) e exame físico. Isso, hoje em dia, é raro. Frequentemente o próprio paciente já chega no médico com exames que ele fez, “para ganhar tempo”. Um dos motivos está no uso das palavras e os botões que elas apertam no nosso pensamento. O lugar onde realizamos exames complementares se chamavam laboratório de análises clínicas ou simplesmente, laboratório. A imagem que nos vêm à cabeça é de um lugar cheio de vidros e reagentes. Hoje, o mesmo lugar se chama centro de medicina diagnóstica! O que nos vêm à mente? Que é neste lugar que terei meu diagnóstico feito, bastando levar ao médico para que este prescreva o tratamento mais adequado, ganhando, assim, tempo. O que mudou? Apenas o nome do lugar, mas o impacto em nós é radicalmente diferente. Impacto, neste caso que nos leva a um erro de entendimento do seja a consulta médica e um exame complementar.

Espero que, com esses dois exemplos, tenhamos entendido que palavras são poderosas porque transportam símbolos que significam algo para nós. Essa é a lógica de uma marca. Quando determinada marca é dita ou escrita, já “entendemos tudo”. Não há necessidade de explicarmos o que seja uma Bic. Tudo já está dito com a marca. Se eu escrevo Shell, ninguém pensa em sorvete (claro que um detalhista me dirá- mas, tem a loja de conveniências…). Assim, posso chegar na palavra que é o objeto deste post (finalmente!): ESPECIALISTA.

O que essa palavra nos faz pensar? Em alguém que tem um conhecimento profundo de algo especial ou específico. Alguém que dedicou anos da sua vida estudando e/ou praticando determinada atividade que o torne detentor de um saber, conhecimento ou prática muito acima daquela que nós possuímos. Um especialista sabe algo que eu não sei. Ou sabe muito mais sobre algo que eu conheço um pouco. Nesse sentido, se eu sou um especialista em algo, quem é você? Essa a pergunta do post! Não sei o que vocês responderiam, mas eu sei o que eu diria se me fizessem essa pergunta. Eu responderia que eu sou um ignorante (total ou parcial) no assunto e que o conhecimento do especialista poderá, dependendo da situação, resolver algo para o qual eu não tenho competência. Exemplos: um pintor de paredes, um eletricista, um encanador, são especialistas que sabem o que eu não sei e resolverão um problema que eu tenho o virei a ter nessas áreas do conhecimento. E, se eu tiver um problema nessas áreas, eu dependo de um especialista para me tirar daquela situação problemática.

Vou tentar resumir, em palavras isoladas, o que é um especialista e o que ele pode representar para as pessoas: conhecimento maior do que o meu; sabe o que eu não sei; dependência desse conhecimento para resolução de problemas.

Se estivermos de acordo até aqui, podemos dizer que especialistas são pessoas muito necessárias para resolver situações especiais, para as quais não temos competência, conhecimento ou habilidades. Portanto, para utilizarmos um especialista, é preciso que haja um problema ou situação para a qual não nos sentimos capazes de resolver. Ocorre que, com a valorização da tecnologia e o acesso global à informação, houve uma hiper valorização do conhecimento “científico”, como se este fosse a única forma de saber válida. O conhecimento científico é algo que um especialista domina. Portanto, se só o conhecimento científico é válido, eliminando-se a tradição, o bom senso, a intuição e a experiência, praticamente tudo que fizermos na vida vai precisar de um especialista. Sem um especialista eu posso errar porque eu não sei o que ele sabe. Passo, não só a desvalorizar qualquer forma de conhecimento que eu possa ter, como sentir insegurança e paralisia diante das situações habituais da vida cotidiana.

Vamos deixar bem claro que o conhecimento científico é uma conquista da evolução intelectual do ser humano. O método científico nos ajuda a superar nossas ignorâncias e até a reduzir mitos e crendices. Mas, não pode, nem se propõe a ser um novo mito, ainda que muitos a entendam assim. No século XVIII, William Cowper, um poeta inglês disse: ” A ciência é orgulhosa por tanto saber; a sabedoria é humilde por não saber mais.” Existe, portanto, algo que vai além do conhecimento científico que é, para usarmos uma só palavra, a sabedoria. A sabedoria é composta do conhecimento científico, mas bebe nas outras fontes que eu citei:  tradição, o bom senso, a intuição e a experiência.

Sabedoria não é exclusividade de quem estudou algo. Sabedoria não depende de nível social ou econômico. Todos nós temos alguma forma de sabedoria. E, quando o assunto é viver ou sobreviver, todos nós temos muita sabedoria acumulada. A questão é que em um mundo tecnológico, com uma mistificação da ciência e, pior, da pseudociência, nossa sabedoria ficou escondida, acanhada, envergonhada. Pior, toda vez que eu penso em usá-la, o meu entorno, o facebook e o google, me dizem que estou errado! Só um louco furioso para enfrentar esse tsunami de especialistas em tudo!

Por quê escrevi esse post? Porque eu garanto que todos nós temos sabedoria suficiente para:

– Engravidar. Quando há um problema e o casal deseja engravidar, aí sim faz sentido ouvir um especialista. Não é preciso ler no google como se engravida!

-Ter filhos. Há uma sabedoria da espécie para se ter filhos. A obstetrícia não tem 400 anos de idade e nascemos há cerca de 160 mil anos. Claro que o conhecimento obstétrico tornou o parto mais seguro e confortável. Mas, daí a se precisar fazer um curso, com alguém que sabe o que eu não sei, vai uma certa distância. Todas as mulheres sabem, ao menos o mínimo necessário, como ter um filho. De novo, se há um problema no parto, é altamente desejável que um especialista esteja presente.

-Amamentar. A simples ideia de que haja um especialista que vá ensinar a uma mãe como amamentar é muito estranha. Aquela mãe e aquele bebê são únicos. Precisam de um tempinho para se entenderem. Um conselho, fruto da experiência ou tradição, podem ajudar. Uma palavra de reconhecimento dessa dificuldade inicial, também. Mas, ensinar “técnicas” é alienar a mãe da sabedoria intrínseca dela. Em algumas situações especiais e pouco frequente, pode haver um problema pontual onde um especialista pode e deve ajudar.

– Dar banho no bebê. Que tal um curso de banho para o bebê? Alguém com grande experiência, um especialista, vai lhe mostrar como é o melhor modo de dar banho em um bebê. Você terá aulas de simulação com um boneco e vai dominar a técnica. Nasce seu filho e você vai dar o primeiro banho. Ele chora! Surpresa máxima, isto não estava previsto. O boneco do curso não chorava! Ou, apesar de você fazer tudo “certo”, seu bebê não gosta desse banho. Claro que você vai demorar uns dias até desconfiar que o errado é o método, não você, nem o bebê. Aí, você vai usar a sua sabedoria (que será a de tentativa e erro), até descobrir como é o melhor banho, para o seu filho.

– Introduzir alimentos sólidos. Cada cultura tem uma tradição (escrevi um post sobre isso). Não há regras fixas, nem grandes conhecimentos científicos envolvidos. Mas, quem sabe, não seria melhor ouvirmos um nutricionista? Afinal de contas, deve haver algo que eu não sei, fundamental, definitivo, importantíssimo, a respeito de frutas e sopa de legumes com músculo!

-Engatinhar/andar. Não seria melhor contratarmos uma nova técnica de estimulação fisioterápica que “ensinasse” nossos filhos a andarem, de preferência com um nome ou vinda de um lugar remoto (técnica Walfrid de deambulação balanceada ou técnica sueca de estimulação motora)? De novo vemos o poder simbólico das palavras. Imaginem a técnica Severino de deambulação precoce ou a técnica paraguaia de estimulação motora!

A lista de exemplos de situações cotidianas onde NÃO PRECISAMOS DE ESPECIALISTAS   poderia continuar. Poderia incluir o pediatra como sendo um detentor de um conhecimento específico, melhor do que a sabedoria dos pais. Um exemplo rápido: doutor, o que é melhor para o bebê- ar condicionado ou ventilador? Ora, nenhum pediatra teve essa aula no curso de medicina! Essa é uma resposta que deve vir da sabedoria dos pais em, uma vez mais, usarem o melhor método que existe para se cuidar dos filhos: tentativa-erro-aprendizado. Mas, para isso, é preciso três coisas:

  • que estejamos convencidos de que temos sabedoria;
  • que confiemos na nossa sabedoria;
  • que saibamos que especialistas são fundamentais para resolver problemas. Onde não há problema não precisamos de especialista

Se continuarmos a confiar cegamente em especialistas ou não confiar na nossa sabedoria, breve estarei contratando um bombeiro para abrir as torneiras de casa. Como especialista, ele deve saber fazer isso melhor do que eu!

 

12 pensamentos sobre “SE EU SOU O ESPECIALISTA, QUEM É VOCÊ?

    • Cristina,
      Provocar, como você bem sabe, é uma forma de tentar produzir uma parada para pensar. Em tempos onde tudo é eficiência, resultados, metas, parar para pensar é um “desperdício”. A provocação é como um cachorro atravessando na frente do carro. Tem que dar uma freada!

  1. Raramente se encontra bom senso com possibilidade de sustentação científica , comunicação simples e abertura para novas propostas de aprendizagem.
    Sou avó de seis netos, profissional da saúde (psicanalista), muitos anos de estudo, mas tenho muito a aprender com seus posts e isto me deixa muito feliz!

  2. Dr. Roberto excelente artigo.
    A sabedoria é uma qualidade pura que vem da intuição que se manifesta em nossa vida inspirando a ação correta.
    É possível ter muito conhecimento e não ter sabedoria.
    Parabéns

    • Liliana,
      Obrigado por seu comentário. Sintetizou, em uma frase, o post. Pais e mães devem compreender e sentir que são “sábios” para educar seus filhos. Quando for necessário um conhecimento (doenças por exemplo), devem recorrer a quem pode lhes orientar. Mas, nunca devem delegar a sua sabedoria.

  3. Muito bom! Fora que “errar com amor” é uma parte importante não só de pais e filhos se conhecerem e aprenderem seus limites mas do importante aprendizado dos filhos de que eles também vão saber se virar!

  4. Dr. Roberto, excelente post. Nós mães temos que confiar no nosso taco e fazermos do nosso jeito, em coisas que só uma mãe ou um pai, que conhece profundamente seu filho, pode determinar o que é melhor, em se tratando de educação e situações cotidianas. Vc mesmo disse: “faça do seu jeito”. Obrigada pelo toque 😉

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