E NÃO É QUE CRESCEM?

Carolina e SylvioA crônica a seguir é uma ficção. Ou, como aparece nas embalagens de alimentos- meramente ilustrativa.

Planejada ou não, há uma gravidez. A vida muda radicalmente. Até o minuto antes de ver o resultado do exame, havia uma mulher com alguma expectativa. Positivo! A mulher continua ali, perplexa, alegre, triste,  preocupada, realizada, quando se aproxima uma mãe e fica ali do lado olhando. A mulher se movimenta e a mãe vai junto, como uma sombra, ainda externa. O corpo vai se modificando e a mãe, que era apenas uma sombra,  vai ocupando o lugar daquela mulher. Por um tempo, há uma enorme confusão de identidade: mulher ou mãe? Ambas? A gravidez avança e não dá mais para esconder, lá vai uma mãe, com a sombra de uma mulher a acompanhá-la. O pai fica meio que esperando para saber se, naquele dia, ou momento, está com a mulher ou a mãe do filho.

O bebê é um projeto, onde cabem todos os desejos e sonhos. Será educado de uma maneira ímpar, muito melhor do que os futuros pais foram, com muito mais tolerância, paciência e até sabedoria. Hoje somos mais bem informados, menos engessados, cabeça mais aberta. Nosso filho vai ser uma pessoa realizada e feliz que vai nos amar profundamente. Junto com esses sonhos, as providências de roupas, fraldas, arrumar um quarto, escolher um berço, tudo sempre visando o melhor para o filho. Nesse ponto o mercado faz a festa, inventando móbiles que desenvolvem o hemisfério esquerdo do cérebro e chocalhos para o direito. Chupetas orto-anatômicas e uma coleção de músicas que estimulam a capacidade matemática do bebê. Enfim, o mercado se aproveita desse momento de sonhos e idealizações para vender tudo que é tralha que pareça contribuir para um ser humano fabuloso. Fora os cuidados com a saúde, outro capítulo onde o mercado faz a festa. Travesseiros anti- isso, gotas anti-aquilo, bolsas térmicas para evitar aquilo outro e pomadas mágicas.

Nasce o bebê. Uma pessoa passa a ter existência real. Essa pessoa nunca é a mesma que foi planejada. Esta chora à  noite e quer mamar o tempo todo. Ou, dorme demais, preguiçosa para mamar. Ou, fica vermelha, se espremendo toda como se algo muito ruim estivesse acontecendo. Onde está aquele bebê do nosso plano? Foi substituído pela pessoa real!

Nessa fase, os amigos dizem: “calma, passa rápido”. Só pode ser ironia, pensam os pais. Nada passa. O tempo congelou e só existem mamadas, fraldas, cocôs, pomadas em ciclos intermináveis, não necessariamente na mesma ordem. Vida própria, vontades? Esqueçam! Isso nunca vai acabar,  pensam todos os pais. Mas, acaba. E não é que crescem?

Viram bebês que sorriem, sentam, engatinham e andam. Começam a comer sozinhos  e ter vontades próprias. A pirraça se instala e, na sequência a argumentação, pautada por intermináveis por quês! Nesse momento os pais se dão conta que aquele plano de ser melhor do que os avós meio que perdeu o sentido. Já ficaram irritados, chateados, perderam a cabeça e disseram coisas que haviam prometido nunca dizer. Pelo menos, ficaram mais humanos e, em algum momento, reconhecerão que seus pais até que foram bem legais.

Vem a escola, os amigos, o dormir fora, a vontade mais estruturada e um poder de negociação sedutora incrível. Que delícia! Mas, não é que crescem? Certa manhã os pais se dão conta que há um adolescente na casa. Se dão conta porque não acordou para tomar o café, dormindo até depois do meio dia e quando acorda, exige um determinado café da manhã. À noite quer sair e bate portas quando não lhe é dada a autorização. Informam aos pais, com todos os requintes de crueldade possível que os pais dos amigos são muito melhores do que eles. Sabem o que dizer para ferir, mortalmente seus pais. Nessa época, começam a pensar: ” quando eu tiver filhos, vou ser muito mais legal com eles do que esses meus pais”!

Os pais, em geral, só percebem o crescimento dos filhos, depois deste ocorrer. Namorar? Não é cedo demais? Vestibular? Mas, já? Ontem era um bebê! Pois é, o tempo congelado, imóvel quando tinham um bebê, virou um cachoeira, fluído, rápido e incontrolável. Os pais passam a correr atrás do tempo dos filhos, como corriam atrás dos mesmos quando aprenderam a andar.

Formatura, trabalho, ideias próprias! Escolhas! E não é que crescem?

E chega um dia onde apresentam um namorado ou namorada, mais “sério”. Os pais ficam ali olhando, sem saber se acham bom, acham ruim ou não acham nada. Mas, no íntimo, se perguntam: não é cedo, acabou de se formar, não seria melhor esperar um pouco mais?  Há um conflito na cabeça dos pais entre a alegria de ver uma pessoa feliz, independente, se realizando e a constatação de que a filha ou filho ganhou mundo. É um pouco a maldição da prece atendida. Tudo que os pais querem é filhos independentes, mas, precisava ser agora? Isso, porque eles crescem!

Até que um dia comunicam que vão se casar. Um ciclo que se inicia, repetindo um ciclo que os pais já viveram, assim como os pais dos pais,  ainda que novo e , único. A formação de uma nova família, ampliando a dos pais que aprendem  a conviver com noras e genros.  A perspectiva de se tornarem avós se aproxima desses pais, como uma sombra, ainda externa, aguardando o momento de dar o bote e transformá-los em vovó e vovô.

Qualquer semelhança desta crônica com realidade é mera coincidência. Não tem nada a ver com o fato da minha filha Carolina se casar, amanhã, com o Sylvio. Nenhuma relação com o espanto que é perceber o ciclo da vida acontecer de forma rápida (demais)! Mero acaso perceber que a minha família aumentou.

Sinto novas emoções e, curiosamente, uma renovação. Vejo na alegria da Carolina e do Sylvio, motivos para minha alegria. Vejo no amor deles, um toque de suavidade, necessário na vida. Vejo no sorriso cúmplice de ambos,  a eternidade do momento presente. E me vejo muito feliz em poder ver tudo isso, constatando – e não é que crescem?

Na foto que ilustra o post, Sylvio, Carolina, Saquê(gato) e Panda(cachorro), a família que se forma enquanto eu vou saindo, discretamente do palco e me sento na platéia. O palco, agora, é deles. E eu, sentado, aplaudo, feliz. Não contenho a emoção (nem quero).  Uma lágrima escorre pelo meu rosto.  Sorrio. Cresceram!

20 pensamentos sobre “E NÃO É QUE CRESCEM?

  1. Crescem tão rápido e agora o ninho vazio so nos resta pedir Deus guarda os e livre dos perigos mil e os façam ser feliz com dignidade e amor a Deus e ao proximo

  2. Caro Roberto,
    Brilhante o seu texto.
    Após a leitura vivi a emoção que todo pai sente ao ver seus filhos no palco e também senti uma lágrima escorrer pelo meu rosto…
    Abraço forte e muita felicidade para a Carolina.

  3. Que lindo Roberto! Me identifiquei totalmente. A minha ainda não casou, mas acabou de deixar o ninho. Acho muito difícil descrever essa mistura de sentimentos. Orgulho, alegria, saudades… Imagina então com um casamento no meio… Fortes emoções! Um beijo carinhoso pra vcs desejando toda felicidade do mundo pra Carol e pro Sylvio.

  4. Muitas felicidades para a sua pequena Carolina, digo pequena porque para nós, pais, eles sempre serão nossas crianças, mesmo já sendo país de outras crianças. E como ficamos felizes de vê-los felizes, né? Um dia muito especial e feliz para todos vocês é o que desejo. Luci Mary , vovó do Bernardo Gullo Fernandes

  5. Gostei do post, acho bacana como você relata as coisas de um jeito bem descontraído e alegre… O que você acha de começar o ano fazendo o bem? Adote um cachorrinho ou gatinho ou simplesmente doe uma quantia para alguma ONG de proteção animal ou algo que tenha impacto positivo na humanidade! 😉 se quiser, pode fazer doações para a MSF (Médicos Sem Fronteiras), que ajuda pessoas (incluindo crianças) em lugares que não há acesso a tratamento médico gratuito. Acho tão lindo o trabalho deles!!! Minha família doa dinheiro para eles, e seria uma honra se o senhor doasse determinada quantia para ajudá-los a ajudar aqueles que mais precisam 🙂 eu decidi que esse ano irei ter (mais) um cachorrinho. Mas, ao contrario da Cleo, minha yorkshire, o próximo camarada não será de raça alguma, mas sim um autêntico vira-latas, de preferência fêmea, adulta de pequeno/médio porte. O que você acha sobre doar dinheiro para alguma ONG (qualquer uma, desde que tenha impacto positivo na humanidade) e adotar/apadrinhar um cachorrinho ou gatinho? 😉

    • Há anos faço doações a MSF. Penso que devemos sempre ajudar a quem necessita, principalmente a ONGs que atuam de forma séria e comprometida.

      • Vc tá certa, Liliana. Devemos fazer o bem sem olhar a quem, e, com certeza tens um bom karma e Deus irá te recompensar por isso 😀

  6. Que achado feliz: cheguei teu blog quando digitei a busca por piolhos e me deparo com um texto tão maravilhoso: parabéns pela lucidez e sensibilidade.
    Mas voltando para o assunto prosaico: Piolhos. peço até desculpas por usar o espaço para comentar sobre o assunto que não tem nada a ver com o texto, mas preciso muito de ajuda. Eu peguei piolho da minha sobrinha de 10 anos. Ontem encontrei um piolho e após verificação minha irmã achou mais dois. Minha dermatologista prescreveu revectina para tomar duas doses no intervalo de uma semana e shampoo escabin para usar por quatro dias consecutivos e repetir o tratamento apos uma semana, mais o uso de vinagre+ pente fino para retirar as lêndeas. Fiz isso ontem e quase morro de desespero quando passei o pente fino após shampoo: tirei uns 15 piolhos grandes e pela descrição que o senhor fez várias ninfas. A minha duvida é a seguinte: a dermatologista pediu para repetir o tratamento em uma semana, mas de acordo com tua informações sobre o ciclo de vida dos piolhos eu não conseguirei pegar elas no momento oportuno, é quando são ninfas, por isso pergunto: comecei o tratamento dia 03/02, quando devo repeti-lo? é nove dia após o inicio (03/02) ou 9 dias após o término (09/02/). Outra dúvida que traz a parte mais desesperadora: eu tenho o cabelo crespo, fino, volumoso e comprido, igual da Tais Araujo, sou super zelosa com ele, nem usa pente para não quebrar, mas o uso continuo do pente fino vai estragar todo meu cabelo, estou arrasada com isso. Existe alguma outra forma de eliminar as lendeas sem uso do pente fino? a catação manual é uma alternativa? Se essa ( catação manual sem uso do pente) for uma alternativa estou disposta a pagar uma vizinha para olhar a minha cabeça. Estou em pânico. Desde já agradeço a atenção. Abraços

    • Prezada Maria,
      Obrigado por seu comentário gentil. Catação manual é uma alternativa sim e quando a pessoa que cata tem paciência e alguma habilidade, é melhor do que o pente fino. Quanto ao período para repetir a medicação, com o blog não substitui uma consulta médica, seria irresponsabilidade minha (e antiético), comentar a prescrição que a dermatologista lhe fez.Sugiro conversar com ela e confirmar quando seria para repetir a medicação.

  7. Muito obrigada doutor. Então irei recorrer à minha vizinha, pagá-la para inspecionar minha cabeça diariamente durante um mês, assim nao quebro meu amado cabelo. Vou entrar em contato novamente com a dermatologista. Muito obrigada pela gentileza da resposta. Abraços.

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