E O PAI?

Há um movimento crescente em torno da figura do pai, dentro de uma família. Volta e meia surgem matérias sobre a licença-paternidade em outros pai1países, mostrando diferenças importantes na forma com que a sociedade encara a importância do papel do pai na formação dos filhos e até a importância dos filhos no afeto dos pais. Os pais, no Brasil, com frequência assistem ao nascimento dos seus filhos. Muitos acompanham as mulheres nas consultas de pré-natal e nas primeiras idas ao pediatra. Pais são bem-vindos em cursos que pretendem ensinar o que já sabemos, não sendo mais  exclusivos para a mulher. Assim, a figura do pai, de alguma forma, está presente quando se fala em filhos. Existe até uma frase – não basta ser pai, é preciso participar – que sintetiza bem o que vem ocorrendo. Não gosto dessa frase porque o pai não é um participante (tomar parte em), mas, um protagonista (papel de destaque num acontecimento). É uma sutil, porem importante diferença. Voltarei a ela mais adiante.

Uma das características do ser humano é considerar que o mundo sempre foi como nós o percebemos. Para sermos justos, não exatamente igual, porque, afinal de contas, somos capazes de reconhecer o progresso tecnológico e algumas mudanças culturais. Mas, não faz parte do nosso “chip mental” recuar muito mais do que 500, 600 anos. Eventualmente, alguns que gostam de história, são capazes de imaginar o mundo dos gregos, em torno de 2500 anos atrás. Um tempão! Considerando que estamos por aqui há algo como 170 mil anos,  vamos convir que 2500 anos é muito pouco.

Por que fiz esse desvio, se o post é para ser sobre o pai? O que uma coisa (perspectiva histórica) tem a ver com o papel do pai? Tudo! O que entendemos como papel do pai é fruto de um modelo de organização social baseado no trabalho, na noção de propriedade privada, na instituição do casamento etc. O que pensamos como modelo do pai é o que nossos bisavôs eram, seguidos dos avôs e dos nossos pais. Homens que trabalhavam, gerando o sustento da família, enquanto as mulheres se incumbiam de toda a administração da casa e dos filhos. Esse é provavelmente o modelo que sempre existiu, desde que o homem passou a viver em cidades. A ruína mais antiga do que seria uma cidade, é de aproximadamente 9 mil anos atrás. E antes disso, como vivemos durante 160mil anos? Muito provavelmente em pequenas comunidades, tribos ou bandos.

Agora, vamos fazer um exercício de ficção no passado. Como seria o papel do pai em uma cenário como este?  A primeira pergunta é se haveria um pai! Pode ser que sim, pode ser que não. Mas, provavelmente, esse bebê era cuidado pelo grupo. Mulheres e homens se envolveriam com o cuidar das crianças. No mínimo, porque haveria uma proximidade física, uma intimidade e uma ausência completa de compromissos profissionais, reuniões e viagens de negócios. Os homens deveriam prover o grupo com a caça e a defesa da comunidade. O restante do tempo era de convívio. Isso é uma ficção porque não sou nem historiador, nem antropólogo. Mas, pensar que algo assim, ou próximo a isso, aconteceu por uns 160 mil anos e nós nem conseguimos imaginar, é espantoso. Pensamos que o relógio, o compromisso profissional, o salário e as contas a pagar, sempre fizeram parte da nossa história, chegando a se confundir com a nossa natureza. Ser pai era algo que não exigia nenhuma reflexão, nenhum auxílio ou benefício social, nenhum curso, nenhuma teoria psicanalítica ou filosófica. Ser pai era algo que acontecia com a naturalidade da natureza (não resisti ao pleonasmo!).

Mas, vivemos em um mundo que não é e nunca mais será aquele. Nesse cenário de hoje, o que é ser pai ou, o que queremos para o nosso papel de pais. Vivemos em cidades, nos organizamos socialmente em torno da família e  a caça contemporânea não é a de voltar para casa com um animal nas costas, mas com dinheiro no bolso, fruto do nosso trabalho. Como conciliar essas necessidades reais com o desenvolvimento de nossos filhos?

De uma maneira superficial e simplista eu vejo dois cenários onde podemos atuar. O primeiro, é o cenário social. Ao invés de nos afastarmos das discussões sobre licença paternidade, ofertas de creches  e  todas as questões relacionadas à rede de amparo social que pode ser estabelecida, nos aprofundarmos para além de preconceitos ou visões dogmáticas. Não estou aqui defendendo que se ofereça isto ou aquilo como benefício ou serviço. Apenas, que temos ou podemos ter a responsabilidade de discutirmos que sociedade queremos para nós. O que consideramos moralmente aceitável e o que é viável de ser feito. Sem nos aprofundarmos nisso, delegamos para outros que pensem e tomem as iniciativas que, não necessariamente, serão as que preferimos. Portanto, se vivemos em uma polis, não há como não ser um ser político. Ser político não significa ter um partido ou uma convicção filosófica (liberal, capitalista, socialista, anarquista, monarquista, parlamentarista etc.). Significa compreender a importância de investir parte do seu tempo individual para pensar  o coletivo, agindo coerentemente.

O segundo cenário é o individual.  Retomo a brincadeira do início do post. Não basta participar, é preciso protagonizar. Quem participa é alguém que está ali enquanto as coisas acontecem. É alguém que se coloca na posição de ajudar, contribuir, colaborar. Ora, quem ajuda, ajuda o outro a fazer o que é, de obrigação deste outro. Eu ajudo com os filhos, levando na escola. Eu ajudo, trocando as fraldas. Quem protagoniza é alguém a quem cabe fazer.  O pai protagonista é um pai que tem plena consciência de sua relevância e não delega para ninguém o que é função dele. É um pai que usa o “chip” histórico que temos, ainda que meio desligado. Mesmo que o ato seja parecido (levar na escola, trocar as fraldas etc.), a postura é diferente. O pai protagonista quer fazer essas funções porque lhe pertencem e não as faz para “ajudar” ou “aliviar” a mãe. Isso não impede que um protagonista também possa ser um participante e ajude, em determinados momentos, à mãe. Alguns pais que eventualmente lerem o post poderão dizer: mas se eu levo na escola, troco as fraldas ou dou de comer, não faz a menor diferença se sou protagonista ou participante. A diferença é enorme. É a diferença de você estar na platéia ou no palco de um show. Na plateia, você participa, aplaude, pula, dança, canta etc. No palco, você faz o show. O show é seu!

Mas, tenho uma suspeita que vou revelar aqui. Nós homens (não todos), temos alguma dificuldade com o que não é racional e lógico. Ficamos embaraçados com o que é emocional e simbólico. Participar nos deixa suficientemente perto do afeto para sentirmos o seu gostinho, mas, ao mesmo tempo, o tanto de longe que precisamos para não ficarmos sem jeito ou sem graça. Protagonizar é correr o risco de se deixar afetar. Talvez por isso, nós sejamos bons participantes. Está na hora de percebermos que estamos de fora do melhor da festa: o afeto! Filhos dão muito trabalho, sem dúvida alguma. Dão muito prazer também. Mas, se formos protagonistas, nos darão algo indescritível. Algo que mães conseguem viver sem ficarem confusas ou enroladas- amor. Está na hora de não ficarmos de fora dessa festa!

8 pensamentos sobre “E O PAI?

  1. Olha só: gostei muito do pleonasmo… Rsrsrs. Aliás, gostei muito de todo o texto.
    Continue com suas ótimas reflexões.
    Abraços
    Lorelai Schneider

  2. Dr, peço desculpas, pois sei que minha pergunta não tem nada a ver com o tema do texto, mas se puder respondê-la ficarei grata. Quantos gramas por dia deve ganhar, em média, um bebê de 3 meses? Sei que a questão do peso depende de muitas variáveis, mas gostaria de saber uma média aproximada mesmo. Obrigada!

    • Prezada Patricia,
      Um bebê saudável, que nasceu a termo, ganha entre 25 a 30 gramas, por dia. Mas, como você mesma disse, existem variáveis que devem ser consideradas. Como o blog não substitui uma consulta, fale com seu pediatra. Ele é a melhor pessoa para lhe orientar.

  3. Que isso hein… Então quer dizer q posso ganhar o Oscar! De melhor protagonista! Fomos ensinados a ajudar.. e achamos q isso eh ser um bom pai e um bom marido, mas lendo o texto podemos ver que temos a oportunidade de gerar uma sociedade melhor.. com cidadãos moralmente curados.

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