MEDICINA ALTERNATIVA

O dicionário Houaiss, dá como uma das possíveis definições  para a palavra alternativa: “uma de duas ou mais possibilidades pelas quais sedoctor pode optar”. Esta me parece ser a definição que mais se aplica à expressão medicina alternativa ou terapias alternativas. Portanto, a medicina alternativa, seria uma opção. Me pergunto então, que opção é esta? Entre quais alternativas alguém opta, quando se trata de saúde?  Eu não vejo opção possível. Vejo apenas uma possibilidade que é a da medicina que funciona. Isto é, oferece o melhor resultado possível, com menos efeitos colaterais e menor custo, para o paciente. Ouso dizer que pouquíssimas pessoas não escolheriam essa medicina. A alternativa a esta, seria, obrigatoriamente,  uma medicina que não obtivesse o mesmo resultado, ou produzisse mais efeitos colaterais, ou ainda, a custo desproporcional ou descabido. Posto desta forma, quem escolheria  a alternativa?

Mas, como seres humanos, somos traídos por sutilizas da linguagem. Uma medicina alternativa seria uma menos agressiva, menos química, mais natural. Claro que, se houver uma terapia ou abordagem médica que seja menos agressiva, com eficácia comprovada, esta não deveria ser a alternativa, mas, a primeira escolha. Ocorre que se criou uma falsa polarização entre o que é medicina tradicional e práticas ditas alternativas. Terapias alternativas vendem a ideia de que são mais poderosas e menos tóxicas do que as tradicionais ou ocidentais.

Uma palavra que costuma dar força ao argumento alternativo é “química”. As coisas “com química”, são percebidas como tóxicas, agressivas. No extremos oposto, as coisas naturais, só porque possuem esse atributo, são revestidas de uma aura de suavidade, delicadeza e ausência de efeitos colaterais. Tudo ao nosso redor é químico ou bioquímico, seja industrializado ou natural. Água, é química pura (H2O)! Veneno de cobra é natural e posso assegurar que não tem nada de suave e delicado. Mata! Do mesmo modo que cogumelos venenosos, inocentemente naturais, também são capazes de produzir graves consequências se ingeridos. Na linha natural, temos desde as picadas de inseto, até os acidentes com raios. Tudo naturalíssimo!

Mas por que essas terapias funcionam?  Somos contadores de histórias e buscamos padrões em tudo que nos cerca. Confundimos correlação com causalidade. Exemplifico: o índio dança e a chuva cai. Houve uma correlação, mas certamente não uma relação de causa-efeito. Neste aspecto somos, muitas vezes, traídos pelo senso comum ou até pelo que vemos.Olhando para o que acontece todos os dias, não lhe parece que de fato é o Sol que passeia ao redor da Terra? O que estou dizendo é que muitas vezes a pessoa toma um determinado produto e sente alívio do sintoma. Isso é um fato, mas, não demonstra que foi aquele produto que produziu o alívio do sintoma. Uma grande maioria de sintomas desapareceria por si só. É o que se chama história natural da doença. É o que ocorre com a maioria dos bichos. É só deixar o cachorro ou o gato doentes,  quietinhos por uns dias que, na maioria dos casos, ficam bons. Seríamos nós humanos tão mais frágeis que precisaríamos sempre de um remédio? Uma outra razão para as pessoas se sentirem melhor é o conhecido efeito placebo. Em estudos científicos onde se administra uma droga para um grupo e um comprimido de açúcar para outro, um certo número de pessoas que ingeriram o comprimido de açúcar irá relatar melhora dos sintomas. Existem estudos muito curiosos que demonstram que a cor do comprimido de açúcar,  pode influenciar a melhora dos sintomas. Isso só confirma que somos seres complexos, racionais, sem dúvida, mas, extremamente simbólicos, ainda que tenhamos dificuldade em aceitar essa nossa característica.

Um grande número de pessoas que melhoram com terapias alternativas ou tradicionais ficaria boa se não tomasse nenhum remédio. Não defendo a alopatia. Defendo uma prática médica que produza o melhor resultado possível, com  menos efeitos colaterais e menor custo para o paciente. Isso, baseado em evidências suportadas por uma rigorosa metodologia científica. A divisão em científica e não-científica se aplica à medicina tradicional, do leste, oeste, antiga, nova, integral, holística ou com qualquer nome que se apresente. Pouco importa o seu nome, o que deveria nos interessar é se suas propostas diagnósticas e terapêuticas passaram pelo “portão da racionalidade” que, hoje, é método científico.

Talvez, o movimento na direção da chamada medicina alternativa se deva a um excesso de medicamentos que são prescritos e consumidos. Concordo plenamente. O número de remédios vendidos, cuja eficácia é duvidosa ou sabidamente inexistente é enorme. Há uma medicamentalização da vida, injustificável. Para tudo parece haver  um remédio, tradicional ou alternativo!  A indústria farmacêutica pressiona os médicos a prescreverem e as pessoas depositam nos medicamentos uma confiança que, nem sempre, se justifica. O desejo de algo mágico, a negação das probabilidades conhecidas, a substituição destas por esperanças milagrosas é fácil de se compreender e se manifesta tanto no consumo abusivo de remédios tradicionais, quanto nos ditos alternativos.

Insisto que não defendo a medicina dos remédios tradicionais, vendidos nas farmácias. Defendo a medicina baseada em evidências. Evidências estas, colhidas com o rigor do método científico, introduzido na nossa história há cerca de 400 anos. É um método novíssimo, que  compete com o obscurantismo da magia, fábula e criatividade de mais de 50 mil anos! Basta ver por quantos anos acreditamos que a terra não era o centro do universo e quantos foram queimados por duvidar dessa verdade! Até hoje outras bobagens continuam sendo  difundidas e, de um modo ou de outro, sobrevivem entre nós. Por ser um método tão novo e, além do mais, muitas vezes contra intuitivo, não é valorizado. O pior é quando se vende gato por lebre. Isto é, se embrulha uma farsa em números, estatísticas, dando a impressão de algo científico (se tem número, é ciência!), quando se trata de pseudociência.

Qual a mensagem que eu gostaria de passar com este post? Pais devem buscar para seus filhos a medicina que tenha o melhor resultado (cura ou controle da doença), com menos efeitos colaterais (nem sempre é possível escapar de efeitos colaterais para se conseguir o resultado desejado), ao menor custo possível. Para isso, os pais devem conversar com os pediatras a respeito  das evidências científicas que suportem os argumentos de eficácia e  menores efeitos colaterais do tratamento proposto. Aceitar a prática de terapias não-científicas, tradicionais ou alternativas é, além de manter acesa a chama da irracionalidade, um incentivo  à fraude, ao logro e ao charlatanismo. Sem falar no mais importante que é expor o paciente, no nosso caso a criança, ao risco!

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