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A MALA DE CADA UM!

mala

Em um dos meus posts  comentei sobre o fato de que cada bebê chega com o seu manual. Na entrevista que dei para o Roberto D’Ávila ele me perguntou se bebês vinham com bula e eu respondi que sim, para surpresa do meu entrevistador. Tanto a metáfora do manual quanto a da bula significam que não existe conhecimento maior sobre aquele bebê específico do que o que aqueles pais já têm e vão ampliar. O Google, pediatras, avós, grupos de mães do facebook, não sabem nada a respeito daquele bebê, único. O que todos sabemos são generalidades que nos ajudam, orientam e norteiam, mas, que não dão conta das especificidades daquele bebê.

Do mesmo modo que todos os bebês chegam com um manual, me ocorreu que também trazem, desde o nascimento, uma mala. De início, é uma mala que vem com a etiqueta de identificação do bebê- seu genoma. A mala, por enquanto está vazia e leve. Mas, muito rapidamente, os pais começam, sem se dar conta, colocar coisas nessa mala.

Que coisas? Em geral, as definições, descrições, de quem é o bebê. Começa um longo período onde os pais literalmente fabulam a respeito dos seus filhos. Estes, ainda na impossibilidade de se comunicarem na linguagem dos adultos, vão tendo a sua mala preenchida com pequenas declarações como: ele tem uma personalidade muito forte, ela só gosta de dormir em cima do braço esquerdo, ela é muito inteligente, ele é exatamente como eu, até prisão de ventre tem! A lista poderia continuar, mas é sempre uma criação do adulto, a partir da percepção do bebê. E a mala desse ser humano vai sendo recheada. Nem sempre o recheio é o de “rótulos” de como aquela pessoa é percebida pelos seus pais. Pode estar sendo recheada de advertências, cautelas, proteções e restrições. Muitas, essenciais e importantes. Outras, nem tanto. As fundamentais, não pesam, mas, os excessos de zelo podem se tornar um peso adicional. O recheio também pode ser de admiração, orgulho, carinho e amor. Eu diria que esses sentimentos nem seriam um recheio, funcionando  mais como rodinhas que facilitarão o transporte dessa mala, pela vida afora.

Com o crescimento, não só as percepções a respeito da criança vão sendo revistas, atualizadas, como acontecem as comparações com irmãos, primos, outras crianças. Não raro, a comparação é feita com os pais, quando estes eram pequenos. Essa é a contribuição dos avós para a mala dos netos: ela é igualzinha a você quando tinha essa idade, não sei de onde vem esse gênio- tão diferente de você!

Já viram que a mala vai ficando mais pesada, à medida que a criança cresce! O mais curioso é que, numa família, não raro, cada membro passa a representar um “tipo” de mala. Tem o primo que é meio esquisito, caladão, antissocial. Na mala dele a família coloca esses traços, de todos. Tem a tia maluquinha, e lá vão todas as loucurinhas da família para dentro da mala da tia. Tem o talentoso, bem-sucedido, tem o que não presta para nada, tem a de saúde fraca e a egoísta. Cada um com a sua mala “principal” onde o restante da família exclui da sua mala aquele traço, transferindo-o  para um só membro.

Claro que estou exagerando nas tintas, apenas para que o quadro chame a atenção. O que eu gostaria de compartilhar com vocês é o fato de que, pertencendo a famílias, não somos unidades autônomas, independentes, exclusivamente moldados por nosso genoma.  Do mesmo modo que um povo, uma etnia, uma nação, tem seu comportamento moldado por sua cultura- uma séria de crenças e valores compartilhados- também na família somos fortemente influenciados por uma dinâmica que não é tão visível assim.

Qual a aplicação prática deste conhecimento? Diria que pouco importa uma aplicação prática. O que importa é termos a consciência de que, o comportamento humano, normal, inclui fabular sobre nossos filhos, criar uma história para cada um deles e, à medida que crescem e, sem nos darmos contas, transferir para outros membros da família, aspectos que são de todos. Em geral, são os aspectos que nos incomodam e que preferimos ver atribuído a outro do que a mim.

Acredito que parte do trabalho do pediatra deva ser o de ajudar os pais a deixarem a mala dos seus filhos a mais leve possível, pontuando, quando for o caso, o risco de uma transferência de conteúdo que leve excesso de peso na bagagem da criança. Diferentemente de uma viagem aérea onde se paga um valor e a mala segue viagem no bagageiro, na vida, uma mala com excesso de peso pode significar a diferença entre caminhar e se arrastar. Pode tornar a vida um esforço permanente, com uma sensação mal definida de algo que puxa a pessoa para baixo, como se a gravidade fosse muito maior. Antes mesmo de ajudar os pais a não colocar excesso de peso na mala dos filhos, o pediatra pode estimular a instalação das rodinhas de carinho e afeto que contribuem tanto para a auto estima e segurança do bebê.

O manual, como a mala, é invisível. Mas, só porque não podem ser vistos, não significa que não existam. Alguém já viu uma onda de rádio ou tv? Alguma dúvida de que exista?  Negar a existência do manual é perder a chance de ousar, errar, aprender, mas, amar, criar e educar o seu filho e não o filho médio dos livros. Negar a existência da mala pode significar deixar para seu filho um peso que não lhe pertence.  Podemos fazer com que a viagem dos nossos filhos, pela vida, seja bem mais leve. Basta lhe dar as rodinhas e  não colocar na mala dele, o que não lhe pertence!