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O DIA DA INDEPENDÊNCIA.

Para nações, estados, tribos, o dia da Independência é aquele em que se libertaram, através de uma revolução, negociação política ou até um grito à margem de um riacho, dos seus colonizadores. É um dia celebrado porque a Independência de um povo significa sua liberdade e autodeterminação e não a obediência (e pagamento com riquezas nacionais) aos desejos e ordens da nação colonizadora.

Para as crianças, qual o dia da sua Independência? Adolescentes fantasiam que é o dia em que completam 18 anos. Quase todo adolescente vê essa data como as nações que foram colonizadas enxergam a sua independência. Mas, todos acordam no dia seguinte, surpresos com o fato de que nada aconteceu! Terão que conviver com o que os pais lhes dizem: você só será independente no dia em que puder morar sozinho e pagar suas contas! Ficam enfurecidos, como sempre ficam, quando lhes dizemos algumas verdades.

Se, ao final de tudo, independência é a capacidade de cuidar de sua vida, assumindo responsabilidade morais e financeiras, qual seria o dia em que os jovens deveriam celebrar esta data? Para muitos, é o dia em saem de casa, quer para estudar em outra cidade, quer para morarem sozinhos ou ainda para se casarem. Mas, esta é a data que celebra o final de um processo, de uma construção que os pais iniciaram, em algum momento da vida do seu filho. A pergunta então é quando iniciar esse processo de independência?

O primeiro ponto importante é que esta pergunta exclui todo o período de um bebê recém-nascido. Isso porque o ser humano é o único mamífero que tem dependência absoluta do seus pais (ou de algum adulto) por um longo período da sua vida.  Bebês de gatos, cachorros, cavalos e baleias, “se viram” com poucas horas ou dias de vida. Um bebê humano não é capaz de fazer absolutamente nada, exceto chorar furiosamente (e funciona)! Assim, digamos que até uns 6 meses de vida, o bebê tem uma dependência absoluta dos seus pais. Falar em processo de independência, neste período, não faz o menor sentido. É uma fase onde os pais devem atender, absolutamente, as necessidades do seu bebê.

A partir do segundo semestre de vida , muito lentamente, os bebês vão transitar de uma dependência absoluta, para uma dependência relativa. É aqui que, pais atentos e cuidadosos, podem começar a construção da independência a autonomia dos seus filhos. É aqui que se inicia o caminho que vai levar os filhos a conseguirem resolver seus problemas e assumirem compromissos, inclusive financeiros. É aqui que os pais devem começar a atender, relativamente e não mais e forma absoluta, as necessidades de sua filha ou filho.

Independência parece ser algo que todo mundo deseja para seus filhos. Ora, para serem independentes, precisam de um espaço para isso. Se tudo que querem e precisam lhes é ofertado, imediatamente, não terão esse espaço para desenvolver capacidades e aptidões de se virarem. Se não sentirem a frustração de ver um desejo não realizado, não desenvolverão a capacidade de se auto consolarem e tolerarem, até um certo ponto, as frustrações que a vida cotidiana nos impõe. Portanto, um primeiro grande passo que podemos dar com nossos filhos, a partir do seu segundo semestre de vida, é introduzir alguma frustração e um espaço para que se virem, um pouco sozinho. Assim, os pais que eram rápidos, disponíveis, atentos, para atender imediatamente as necessidades do bebê recém-nascido, precisam mudar seu nível de atendimento e “piorar um pouco o serviço”. Isso não significa, em nada, menos amor ou carinho. Pelo contrário, é o amor de reconhecer novas necessidades e supri-las, ainda que o filho reaja com indignação insatisfação (e algum choro). Dito de outra forma, pais precisam falhar,aos olhos dos filhos, para que estes possam se desenvolver em adultos capazes de cuidar de si. A ideia de que meu filho vai ficar traumatizado se eu não atender a seus desejos é um equívoco. Atender a todos os desejos, imediatamente, poderá ser muito prejudicial para o desenvolvimento de uma adulto que saiba viver, feliz, em sociedade. Outra ideia que pode nos assustar  é a de que os filhos vão  deixar de gostar de nós, porque não atendemos aos seus desejos.  Na hora que não atendermos nossos filhos, é certo nos odiarão por isso. Cabe a nós simplesmente continuarmos serenos, tranquilos, resistindo e sobrevivendo a esse “ódio”. Sem retaliar, reprimir ou tentar “reconquistar o amor”, veremos que, passada a tempestade, os filhos seguirão nos amando. E mais, perceberão que seu ódio pode ser expresso, sem causar nenhum dano. Poder conviver com seus sentimentos “menos nobres”, sem culpa ou medo, também contribuirá para a formação de um adulto mais bem adaptado.

Um outro ponto importante é que com o crescimento dos filhos, pais devem estimular sua individualidade e criatividade. Isso pode ser feito através do jogo, principalmente utilizando brinquedos vindos da sucata doméstica e a leitura. Com os brinquedos feitos com sucata, a criança cria o brinquedo. Uma caixa de ovos vira um ônibus, por exemplo. Com a leitura, a história se forma na cabeça da criança e cada uma fará a sua. Com a tela do celular, tablet, computador ou televisão, a imagem vem pronta e a criança fica passiva. A criatividade implica em ousar e explorar, atributos que se tornarão em qualidades na vida adulta, se desejarmos que nossos filhos pensem por si só, construindo seus valores e princípios e não sendo passivos e seguindo “o rebanho”.

A independência depende de segurança e confiança. Esta pode ser construída por pais que reconhecem conquistas dos filhos, elogiando-os. Pais que enxergam o elogio como algo que “estrague” os filhos podem minar a sua auto confiança, conduzindo a adultos inseguros, com dificuldades de se posicionar, opinar e decidir. Elogiar, de forma sincera, nunca fez mal a ninguém. Elogiar as pequenas conquistas, os avanços obtidos, como um amarrar dos sapatos, um desenho, uma primeira leitura, cortar sua própria comida, uma gesto de carinho, produzem um poderoso efeito de fazer a criança ir adiante.

Finalmente, porque este post já está longo demais, um ponto fundamental da independência é permitir que, desde pequeno, nossos filhos sejam o que são e não o que os pais desejam que sejam. Pais que não dão espaço ou ainda que desejam que seus filhos sejam o que eles querem, podem criar uma situação onde a criança passa a “adivinhar” o que os pais desejam, abrindo mão de ser quem gostariam. Crianças, como adultos, precisam de reconhecimento e se percebem que responder tal coisa de uma forma ou ter um determinado comportamento, gera alegria e satisfação nos pais, podem passar a assumir estes padrões (desejos dos pais) como sendo seus. São crianças que chegarão à vida adulta sem uma identidade muito clara ou com uma identidade “falsa”. Algo como o poeta Fernando Pessoa descreveu no poema A Tabacaria:

O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.

A independência de nossos filhos passa, essencialmente por permitir que vistam o dominó escolhido por eles, para que não sejam conhecidos por quem não são, nem tenham máscaras para tirar.

 

FELICIDADE

Pense em três coisas que você deseja, para a sua vida. Muito provavelmente, ser feliz é uma das três. Pode ser que o título do post tenha feliz3influenciado a sua escolha, mas,  ser feliz é algo que todo mundo deseja. Dito isso, o que a felicidade está fazendo em um post escrito por um pediatra? Percebo a enorme e natural preocupação dos pais com aspectos mensuráveis do desenvolvimento dos seus filhos. Está ganhando peso, crescendo? Está tirando notas boas na escola? Junto com essas perguntas, surgem outras, como por exemplo: o que mais posso dar para meu filho comer? existe algo que possa aumentar seu peso? como fazer a minha filha estudar mais, está sempre tão distraída? com que idade uma criança pode começar a fazer musculação? Raramente, ao menos no atendimento pediátrico, os pais falam sobre a felicidade dos filhos. Claro que isso está implícito em tudo que falam. Mas, explicitamente, como falam de alimentação, sono,  computadores, escola, vacinas, agitação, timidez, é muito raro. Não me lembro de pais que tenham me perguntado: o que eu preciso fazer para meu filho ser feliz? Por esse motivo, resolvi escrever o post de hoje, com o objetivo de falarmos (e pensarmos) um pouco, sobre a felicidade dos filhos.

A conversa já fica difícil quando percebemos que não sabemos definir o que seja felicidade. Acabamos concluindo que o que é felicidade para uma pessoa, não é necessariamente para outra. Esta “descoberta” pode ser a mais importante para podermos contribuir para a felicidade de nossos filhos. Precisamos aceitar que a felicidade deles, vai ser definida por eles e não pelos pais ou quem quer que seja. Assim, o papel que nos cabe é o de criar as melhores condições para que os filhos possam fazer suas opções. Querer definir o que fará nossos filhos felizes é meio caminho andando para a infelicidade deles! Isso não significa que não iremos decidir muitas coisas por eles, por muito tempo. Não signfica que não vamos dar limites. Claro que sim. Mas, é muito diferente quando nossas escolhas e limites criam uma ambiente saudável e propício para que os filhos exerçam sua individualidade, do que quando são apenas uma expressão do nosso desejo e autoridade. E a linha que separa um modo de proceder, do outro, é muito tênue. Diria que, em algumas circunstâncias, nossas ações serão pautadas por nossos valores e autoridade. E assim é a vida, imperfeita e confusa! Não devemos nos sentir mal quando isso ocorrer. Apenas ficarmos atentos. É esse estado de alerta, de disposição íntima de se perceber impondo algo, que pode evitar que essa imposição (de um modo de ser feliz) se manifeste de forma continuada.

Uma das maneiras dos pais contribuirem para a que os filhos descubram a sua felicidade, além de respeitar a sua individualidade, é se perguntarem se seus filhos são/estão felizes? Se os pais não se perguntarem, a felicidade dos filhos que é algo que todos desejam, vai cair no terreno das coisas que acontecem naturalmente ou por acaso. Se não perguntarmos sobre peso e crescimento, como saber que estamos no bom caminho ou que é preciso algum ajuste? Se não olharmos para as notas, como saber que o aproveitamento escolar está bom? A questão, como mencionei acima, é que felicidade não vem com um número atrelado nela. Tanto isso é verdade que nunca ouviremos um pai dizendo para a mãe:  Querida, o Junior melhorou muito. Agora ele já está com 73% de felicidade! Mas, só porque não é quantificável, não significa que não possamos falar a respeito. Se não falarmos, aí mesmo é que não vai acontecer.

Felicidade não se mede, mas se percebe, se sente. Em um mundo objetivo ( que o Nelson Rodrigues criticava, chamando, com razão, de objetividade burra), o valor do que é percebido e sentido, é menor do que o que é medido, quantificado. A emoção que nos caracteriza como seres humanos é desvalorizada e, ao permitirmos que isso ocorra, nos deshumanizamos.  Portanto, se desejamos a felicidade de nossos filhos vamos ter que buscar na percepção, na escuta, no olhar, na emoção da interação com eles, os meios de avaliarmos e ajudarmos para que encontrem a sua felicidade.

feliz2O que os pais podem fazer é, partindo do respeito à individualidade dos filhos, introduzir a ideia ou desejo de felicidade no “cardápio de assuntos familiares”. As notas estão boas? Ótimo! Mas, além das notas boas, percebemos felicidade do filho em ir para a escola?  O progresso no ballet está espetacular? Maravilha! Mas, a filha está feliz dançando?  E, como saber se os filhos estão felizes? Olhando para eles com carinho e ouvindo respeitosamente o que eles têm a dizer. Ajudar os filhos a serem felizes é fortalecer a sua autoestima, permitindo que a criatividade se expresse livremente, oferecendo opções diversificadas de lazer e brincar. Ajudar os filhos a serem felizes é entender que eles não são nós, nem quem gostaríamos que fosssem. Ajudar os filhos a serem felizes não pode ser deixado para o acaso resolver. É um ato de amor.