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QUE FILHOS QUEREMOS: GLADIADORES OU GOLFINHOS?

Nossa visão do mundo, em muito, define como vamos ou queremos criar nossos filhos. Esta visão do mundo é fortemente influenciada pela cultura, que são os valores e hábitos de que nos cercam. Nos dias de hoje, há uma invasão da cultura empresarial para dentro da vida privada das famílias. Numa empresa, temos o objetivo de criar e manter clientes lucrativos. Isso se obtém através da excelência dos produtos e serviços, com o claro e explícito objetivo de superar a concorrência. Estou sendo gentil quando digo superar a concorrência. Em geral, a linguagem é mais bélica e a ideia e derrubar, destruir, acabar, com a concorrência. Esse é o jogo. Para obter isso, é preciso que os empregados de todos os níveis estejam motivados, focados, comprometidos, com os objetivos de negócio da empresa. Como o objetivo final é lucro, uma empresa deve pensar, o tempo todo, em minimizar custos e maximizar receitas. Eficiência é uma palavra chave e metas são fundamentais para se poder medir o tamanho do sucesso. Se bati ou superei a meta, isso é uma evidência da minha competência. A visão empresarial do mundo é de que estamos em guerra, o tempo todo. Mesmo internamente, com alguns mecanismos de atenuação, há uma guerra surda, silenciosa, pelo avanço na carreira. Como, em uma empresa, só se tem um presidente e meia dúzia de diretores, é óbvio que os empregados (motivacionalmente chamados de colaboradores, associados etc.) disputam entre si a sua entrada nesse funil, rumo ao topo. Existe uma concorrência interna, entre as pessoas e a empresa usa isso, para obter o máximo de cada um.

Claro que essa descrição é simplista, superficial e, talvez, exagerada. Serve apenas para nos colocar no contexto do que seria uma cultura empresarial. Certamente, para uma empresa, esta cultura funciona muito bem. É desejável que empresas prosperem e que haja uma continuada melhoria de produtos e serviços. O problema é quando não percebemos que essa cultura (bélica, competitiva, baseada em entregar (deliver) e bater metas), se instala na nossa vida pessoal e das nossas famílias. Pessoas e famílias não são empresas. São pessoas!

Além desse aspecto em que a cultura das empresas entra em nossas vidas, há um equívoco na avaliação da natureza humana. Muitas pessoas acreditam que Darwin (aquele da evolução das espécies) disse que os mais fortes sobrevivem. Não foi isso que ele disse, mas, que os mais aptos sobrevivem. É uma diferença fundamental e muito grande entre ser forte e ser apto.

Se a nossa visão de mundo for a de que tudo é uma empresa e o mais forte triunfará, certamente educaremos nossos filhos para serem gladiadores implacáveis. Desde cedo lhes daremos tarefas, metas (sem dar esse nome) e vamos oferecer um bônus (que se chama presente) se cumprir com o combinado (bater as metas). Seremos generosos com as críticas porque estas fortalecem e preparam a criança para um mundo cruel e competitivo. Seremos econômicos com elogios porque estes amolecem o espírito e levam à acomodação e inércia.

No entanto, se conseguirmos perceber que a vida pessoal não é feita de metas, nem tarefas (ainda que tenhamos as do dia a dia), mas de emoções, sensações, prazeres (e desprazeres), alegrias (e tristezas), veremos que somos dependentes de relacionamentos. Nossa existência, sem vínculos, sem o outro, que não seja um inimigo, perde o sentido. Somo seres gregários, vivemos em grupo, dependemos uns dos outros, portanto há um enorme espaço para solidariedade, compaixão e afeto. Nesse contexto, triunfarão os mais aptos e a aptidão necessária é a do encontro, da empatia, com o outro. Não é a força com que eu domino o outro, mas o afeto com que eu o acolho que pode determinar a felicidade e bem estar, coisa que todos desejam.

Se nossa visão de mundo for a de que a cooperação, o altruísmo, uma boa dose de ócio (não fazer compulsivamente algo, apenas pensar, refletir, ser criativo), são importantes, certamente educaremos nossos filhos para serem golfinhos. Golfinhos são inteligentes, brincam, se divertem, vivem em grupo, colaboram entre si para a alimentação e contra o ataque de predadores. Desde cedo lhes mostraremos que ser alguém não se mede (apenas) pelo que ela faz. Não seremos pais “operários”, sempre à procura do que fazer algo com nossos filhos, mas pais que querem estar com com eles. Fazer algo e estar junto não é exatamente a mesma coisa. Uma agenda sobrecarregada de atividades pode eliminar um tempo precioso de estar junto, literalmente sem fazer nada. O que, em um mundo de tarefeiros, fabris, é quase um crime.

Mas, o mundo não é tão simples. Ou isso, ou aquilo. O mundo é complexo e, geralmente, é isso e aquilo, ao mesmo tempo. Assim, temos que pensar em nossos filhos como gladiadores, quando estiverem na arena das empresas, do mercado, da vida profissional e como golfinhos, na vida, no convívio e nos relacionamentos. Precisamos lhes dar as aptidões  para que possam viver bem, em todas as situações, de forma integrada e feliz. O perigo é quando só lhes damos um modo de ver e estar no mundo. E, hoje, este modo é o do gladiador. Precisamos adicionar, na formação dos nossos filhos, afeto, vínculo, confiança mútua, solidariedade, empatia, compaixão e altruísmo. Só faremos isso, se pudermos ser assim. Não há curso para essas aptidões onde possamos inscrever nossos filhos, muito menos comprar algo que os ensine a ser gente. É preciso que sejamos pais amorosos, afetivos, solidários, para que nossos filhos cresçam e se tornem adultos que não vejam o mundo, exclusivamente, pelas lentes da competição e da vitória sobre o outro.

 

A IMPORTÂNCIA DO SIM

Quando se trata de educar filhos, uma das primeiras coisas que aprendemos é que limites devem ser impostos pelos pais. O não, passa a ser a palavra mais importante no estabelecimento de limites. Esse assunto é conhecido de todos, assim como suas dificuldades práticas e as conseqüências que falta de limite podem gerar no comportamento de futuros adultos.

Como pai de uma jovem hoje de 23 anos, penei muito para aplicar todos os nãos necessários. Certamente não apliquei todos que devia, mas suponho que não deixei passar nenhum não importante. Alguns doíam muito,outros nem tanto.  Mas todos foram necessários! Estou convencido da importância de limites bem definidos, desde o início da vida de nossos filhos. Se não fizermos isso cedo, não faremos mais tarde e conviveremos com tiranos implacáveis dentro de casa. Pior, no afã de dobrar o déspota que habita conosco, concedemos cada vez mais, apenas para descobrir que a tirania piora a cada concessão. O pedido desesperado de limites, feito através de confrontações, desafios, provocações, nem sempre é entendido pelos pais que ouvem o oposto ou então se sentem culpados (com ou sem razão) e não confrontam seus filhos.

Impor limites significa aceitar serenamente que seremos “odiados” por nossos filhos. Dirão coisas horrorosas para nós, numa tentativa desesperada de que caiamos na armadilha de respondermos na mesma moeda! Há que se fazer um exercício de surdez seletiva e paciência tibetana, a cada não dito e implementado.

Mas, pouco se fala do sim! Na nossa cultura, o sim,  o elogio, o reconhecimento, o mérito, são considerados como potencialmente prejudiciais ao desenvolvimento da criança ou do adolescente. Elogiar estraga! Viu, foi só elogiar que aprontou! Expressões que todos nós já ouvimos ou até dissemos. No entanto, o poder de um sim bem dito é tão grande quanto o de um não bem colocado. Mais, no processo de desenvolvimento, há que haver um equilíbrio entre nãos e sims.  Uma educação sem nãos gera adultos com potenciais problemas de integração social, respeito ao próximo, paciência e tolerância. Uma educação sem sims gera adultos inseguros, com baixa auto estima, desconfiados.

Quais os efeitos de um sim bem aplicado? Não falo da posição de uma acadêmico ou pesquisador, não tenho estatísticas para fundamentar o que digo, não fiz estudos com grupos controle, mas olhando para os adultos jovens que receberam sims adequados,  percebo que são mais seguros, inclusive correndo mais riscos com sua criatividade e iniciativa. Sua auto estima é bem desenvolvida e em  muito se forjou no reconhecimento que tiveram das boas coisas que fizeram.  Não falo de coisas extraordinárias, falo das coisas ordinárias, corriqueiras que, ao serem reconhecidas, produzem um efeito de reforço positivo em comportamentos desejáveis. Falo de celebrar as coisas simples do dia a dia, com uma palavra de estímulo, uma olhar de aprovação ou um abraço carinhoso. Esperar o momento especial, raro, do feito fora do comum, é desperdiçar as inúmeras oportunidades que temos para fortalecer a auto estima e confiança de nossos filhos. Mais do que isso, perdemos nós, adultos, momentos de genuína alegria e orgulho, simplesmente pela crença, ao meu ver equivocada, de que elogio estraga.

Agora, tanto os nãos, quanto os sims, só funcionam se forem sinceros. O radar das crianças é diabólico para detectar falta de sinceridade. Como seu equipamento lógico, racional, ainda não se desenvolveu plenamente, dependem muito mais do que sentem (mesmo sem entender).  Cada um de nós tem uma história para contar de quando foi  imprensado por filho pequeno em momento de falta de sinceridade. Assim, um não ou um sim dito mecanicamente será percebido por nossos filhos e poderá ter um efeito muito ruim sobre eles.

Digamos mais sims sinceros para nossos filhos e vamos assistir ao crescimento de uma geração que vai se tornar um grupo de adultos menos culpados, mais relaxados, felizes consigo e com a vida.