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7 PASSOS PARA O FRACASSO GARANTIDO!

Como há muito não posto um texto no blog, vale uma nota de advertência: este texto contém humor e ironia!

Muito se escreveu e escreve sobre o sucesso, a felicidade, a plenitude. Existem livros, vídeos, podcasts, Ted talks, narrando experimentos com animais e observações com seres humanos, chegando a conclusões “reveladoras” de qual o caminho para o sucesso.

Não vi nada escrito sobre o fracasso e achei que poderia ser importante alguém se curvar sobre esse tema. O fracasso, assim como o sucesso, é algo muito amplo e vou me limitar a escrever sobre como ajudar seus filhos a serem um fracasso na vida. Como todo bom texto de autoajuda, este não foge à regra e tem um número de passos que, se bem cumpridos, garantirão o fracasso de seus filhos. Vamos então aos 7 passos para o fracasso!

1- Seja rigoroso com tudo, sempre. Não me refiro ao rigor com valores morais não negociáveis, tais como, ética, moral, compaixão, humanidade. Não me refiro ao rigor com os valores de cada família. Me refiro a um rigor que engesse a criança dentro de uma moldura desenhada a priori pelos pais. Uma moldura onde a singularidade não possa existir e o que vai surgir é o “nós sabemos o que é o melhor para ele”. Afinal de contas, pais bem-sucedidos e amorosos, podem abreviar o caminho dos filhos, porque sabem o que é melhor.

Esse engessamento pode começar desde que o bebê nasça, quando eu recomendo que coloquem um rótulo na criança o quanto antes. Qualquer rótulo serve: ele é genioso, tem uma personalidade muito forte, esse sabe o que quer, não gosta de ficar sentado, só come se a colher vier da direita para a esquerda. Estou falando de rótulos colocados realmente cedo na vida. O rótulo é um gesso sutil, ainda não totalmente enrijecido, mas que vai “moldando” aquela criança ao ponto de confirmar que ela é, de fato, o que o rótulo previa. Bebês aprendem, muito rapidamente, a atender às nossas expectativas, abrindo mão da sua individualidade.  Dependendo do ambiente, se moldam ao desejos e expectativas dos pais.

Evitem olhar para o bebê com um enorme ponto de interrogação, perdidos, sem entender direito aquela outra pessoa. Não se deem ao trabalho de deixar que essa pessoa, por menor que seja, se expresse e possa ir, aos poucos, se revelando. Isso é muito aflitivo, leva muito tempo e, sinceramente, pouco eficiente. O rótulo funciona melhor!

Sempre que possível tratem o erro como algo inadmissível, impensável. Desenvolver o medo de errar é um engessamento formidável que se traduz em inércia, paralisia, ausência de riscos: a perfeição para o fracasso.

 

2- Impeça a criatividade plena. Alguma criatividade é impossível de evitarmos com as crianças. Elas são terríveis nesse quesito, tendo uma capacidade ilimitada de ter ideias as mais bizarras, estranhas, engraçadas e, principalmente, ilógicas e irracionais. Ora, em um mundo lógico e racional, o quanto antes evitarmos esses devaneios, sonhos, delírios ou o nome que quiserem dar, melhor.

Essa ação também pode começar cedo, com o bebê, desenvolvendo rotinas e protocolos para tudo. Não me refiro a um horário para as refeições ou banho, mas um horário ou regra para tudo. O bebê, muito rapidamente, vai entender que não tem espaço para sua criatividade.

Com a criança maior, aí sim é que podemos ser absolutamente firmes em impedir devaneios. Nada de acolher os medos imaginados, nada de contar histórias onde animais falam e, se for absolutamente uma narrativa lúdica, que sempre contenha uma moral relacionada ao fato de que o esforço sempre leva as pessoas ao sucesso ou de que o mérito será, em qualquer circunstância reconhecido e o erro jamais tolerado (como dito acima).

Na adolescência, procurem orientar, com rigor, a escolha de uma profissão. O que você quer ser quando for adulto é uma pergunta que deve ser martelada o tempo todo. Isso quando o gesso já não tiver decidido a profissão daquela pessoa. E, em hipótese alguma estimulem a ideia de que é possível mudar de profissão, ou,  em um mundo de rápidas transformações, ter mais de uma profissão, ao longo da vida. Isso é muito bom em teoria, mas, na prática, é escolher e encarar, para o resto da vida. Além disso, essas ações de inibição da criatividade natural, reforçam, em muito, as de engessamento. É uma sinergia formidável.

3- Introduza a criança, o quanto antes, no mundo adulto. A partir dos 2 anos, ofereça recompensas por tarefas bem feitas e restrições por falhas. Não me refiro a coisas como guardar brinquedos, tomar banho e começar a se vestir sozinho. Me refiro a iniciar o desfralde antes da criança mostrar que está preparada, apenas porque tem 2 anos. Ou, a identificar o nome de vários objetos em várias línguas, só para o deleite dos adultos. Ao invés de educar, adestrar.

À medida que a criança cresça, introduza, cedo, a noção de uma remuneração e de um orçamento. Todo desejo da criança deve estar atrelado à sua capacidade de poupar para atingir seu objetivo ou adquirir o objeto do seu desejo. Sempre que possível, reforce a noção de que não é possível se ter tudo, o que, por ser uma realidade, deve ser apresentada o quanto antes aos filhos. Mas, não apresente esta realidade de forma progressiva, gradual, acompanhando o processo de maturação da criança. Apresente de forma absoluta, intensa e rígida.

4- Seja flexível com questões de disciplina. Evite frustrar seu filho com algumas regras que devem ser obedecidas ou comportamentos desejáveis. Em caso de birra ou pirraça, atenda o quanto antes o desejo do seu filho. Permita que possua um celular ou tablet, ainda no primeiro ano de vida, ligando-o sempre que os pais precisarem de um momento de calma. Talvez fosse melhor ligar sempre, para que a criança aprenda a usar o equipamento e, desta forma, não demandar nada dos pais.

Há um modismo que deve ser abraçado com todo fervor: educar sem frustrar. Uma educação onde não cabem críticas, onde a criança fica protegida de entrar em contato com a realidade que é muito dura para seres tão pequenos.

Pode parecer um paradoxo que eu esteja sugerindo engessamento máximo e, ao mesmo tempo, flexibilidade total. Não é. Sejam rígidos com o que deve ter flexibilidade e flexíveis com o que deve ter alguma rigidez.

5- Terceirize ao máximo a educação dos seus filhos. Contrate babás e folguistas, não para ajudar nas tarefas da casa e nas que não envolvem muita ligação afetiva. Contrate babás e foguistas para evitar que as crianças atrapalhem a vida dos pais. Escolham creches e escolas com projetos pedagógicos modernos, avançados, que prometam transformar seus filhos em maravilhas do futuro. Deixem que a escola se encarregue da educação plena de seus filhos. Uma escola com horário integral, associado à babás e folguistas, é uma fórmula perfeita. Tente associar ambas as estratégias.

6- Mine a autoestima do seu filho. Todos sabemos que elogios, reforço positivo, estragam as pessoas. Com elogios, as pessoas tendem a ficar mais moles. A crítica permanente é o caminho mais adequado para a formação de um caráter sólido. Afinal de contas, quem tirou 9,5 em uma prova, obviamente poderia ter tirado 10. Nunca uma criança deve ser elogiada pelos nove pontos e meio e sim criticada pelo meio ponto que faltou para a nota máxima.

7- Seja muito impaciente e pouco afetivo. A impaciência contribui para o engessamento, do qual já falei. Além disso a impaciência é uma ótima ferramenta para minar autoestima da criança. O afeto, essa coisa que não tem muita explicação, que é sentimento puro, não ajuda em nada o desenvolvimento de um raciocínio lógico e um pensamento crítico. Ficar enroscado nos filhos, sem motivo algum é um perigo porque pode sinalizar que existe mais na vida do que produzir resultados, atingir e, idealmente, bater metas. Pode dar a ideia de que seres humanos são animais sociais e que essa conexão com o outro é constitutiva e não uma distração ou uma fraqueza, uma vulnerabilidade.

Garanto que os sete passos para o fracasso, acima descritos, funcionam. De bônus, formará adultos infelizes, ainda que, em alguns casos, extremamente produtivos.

Mas, se você é desses pais que deseja a felicidade e o sucesso dos seus filhos. Não só não faça nada do que descrevi acima, como faça o extremo oposto!

QUE FILHOS QUEREMOS: GLADIADORES OU GOLFINHOS?

Nossa visão do mundo, em muito, define como vamos ou queremos criar nossos filhos. Esta visão do mundo é fortemente influenciada pela cultura, que são os valores e hábitos de que nos cercam. Nos dias de hoje, há uma invasão da cultura empresarial para dentro da vida privada das famílias. Numa empresa, temos o objetivo de criar e manter clientes lucrativos. Isso se obtém através da excelência dos produtos e serviços, com o claro e explícito objetivo de superar a concorrência. Estou sendo gentil quando digo superar a concorrência. Em geral, a linguagem é mais bélica e a ideia e derrubar, destruir, acabar, com a concorrência. Esse é o jogo. Para obter isso, é preciso que os empregados de todos os níveis estejam motivados, focados, comprometidos, com os objetivos de negócio da empresa. Como o objetivo final é lucro, uma empresa deve pensar, o tempo todo, em minimizar custos e maximizar receitas. Eficiência é uma palavra chave e metas são fundamentais para se poder medir o tamanho do sucesso. Se bati ou superei a meta, isso é uma evidência da minha competência. A visão empresarial do mundo é de que estamos em guerra, o tempo todo. Mesmo internamente, com alguns mecanismos de atenuação, há uma guerra surda, silenciosa, pelo avanço na carreira. Como, em uma empresa, só se tem um presidente e meia dúzia de diretores, é óbvio que os empregados (motivacionalmente chamados de colaboradores, associados etc.) disputam entre si a sua entrada nesse funil, rumo ao topo. Existe uma concorrência interna, entre as pessoas e a empresa usa isso, para obter o máximo de cada um.

Claro que essa descrição é simplista, superficial e, talvez, exagerada. Serve apenas para nos colocar no contexto do que seria uma cultura empresarial. Certamente, para uma empresa, esta cultura funciona muito bem. É desejável que empresas prosperem e que haja uma continuada melhoria de produtos e serviços. O problema é quando não percebemos que essa cultura (bélica, competitiva, baseada em entregar (deliver) e bater metas), se instala na nossa vida pessoal e das nossas famílias. Pessoas e famílias não são empresas. São pessoas!

Além desse aspecto em que a cultura das empresas entra em nossas vidas, há um equívoco na avaliação da natureza humana. Muitas pessoas acreditam que Darwin (aquele da evolução das espécies) disse que os mais fortes sobrevivem. Não foi isso que ele disse, mas, que os mais aptos sobrevivem. É uma diferença fundamental e muito grande entre ser forte e ser apto.

Se a nossa visão de mundo for a de que tudo é uma empresa e o mais forte triunfará, certamente educaremos nossos filhos para serem gladiadores implacáveis. Desde cedo lhes daremos tarefas, metas (sem dar esse nome) e vamos oferecer um bônus (que se chama presente) se cumprir com o combinado (bater as metas). Seremos generosos com as críticas porque estas fortalecem e preparam a criança para um mundo cruel e competitivo. Seremos econômicos com elogios porque estes amolecem o espírito e levam à acomodação e inércia.

No entanto, se conseguirmos perceber que a vida pessoal não é feita de metas, nem tarefas (ainda que tenhamos as do dia a dia), mas de emoções, sensações, prazeres (e desprazeres), alegrias (e tristezas), veremos que somos dependentes de relacionamentos. Nossa existência, sem vínculos, sem o outro, que não seja um inimigo, perde o sentido. Somo seres gregários, vivemos em grupo, dependemos uns dos outros, portanto há um enorme espaço para solidariedade, compaixão e afeto. Nesse contexto, triunfarão os mais aptos e a aptidão necessária é a do encontro, da empatia, com o outro. Não é a força com que eu domino o outro, mas o afeto com que eu o acolho que pode determinar a felicidade e bem estar, coisa que todos desejam.

Se nossa visão de mundo for a de que a cooperação, o altruísmo, uma boa dose de ócio (não fazer compulsivamente algo, apenas pensar, refletir, ser criativo), são importantes, certamente educaremos nossos filhos para serem golfinhos. Golfinhos são inteligentes, brincam, se divertem, vivem em grupo, colaboram entre si para a alimentação e contra o ataque de predadores. Desde cedo lhes mostraremos que ser alguém não se mede (apenas) pelo que ela faz. Não seremos pais “operários”, sempre à procura do que fazer algo com nossos filhos, mas pais que querem estar com com eles. Fazer algo e estar junto não é exatamente a mesma coisa. Uma agenda sobrecarregada de atividades pode eliminar um tempo precioso de estar junto, literalmente sem fazer nada. O que, em um mundo de tarefeiros, fabris, é quase um crime.

Mas, o mundo não é tão simples. Ou isso, ou aquilo. O mundo é complexo e, geralmente, é isso e aquilo, ao mesmo tempo. Assim, temos que pensar em nossos filhos como gladiadores, quando estiverem na arena das empresas, do mercado, da vida profissional e como golfinhos, na vida, no convívio e nos relacionamentos. Precisamos lhes dar as aptidões  para que possam viver bem, em todas as situações, de forma integrada e feliz. O perigo é quando só lhes damos um modo de ver e estar no mundo. E, hoje, este modo é o do gladiador. Precisamos adicionar, na formação dos nossos filhos, afeto, vínculo, confiança mútua, solidariedade, empatia, compaixão e altruísmo. Só faremos isso, se pudermos ser assim. Não há curso para essas aptidões onde possamos inscrever nossos filhos, muito menos comprar algo que os ensine a ser gente. É preciso que sejamos pais amorosos, afetivos, solidários, para que nossos filhos cresçam e se tornem adultos que não vejam o mundo, exclusivamente, pelas lentes da competição e da vitória sobre o outro.

 

A IMPORTÂNCIA DO SIM

Quando se trata de educar filhos, uma das primeiras coisas que aprendemos é que limites devem ser impostos pelos pais. O não, passa a ser a palavra mais importante no estabelecimento de limites. Esse assunto é conhecido de todos, assim como suas dificuldades práticas e as conseqüências que falta de limite podem gerar no comportamento de futuros adultos.

Como pai de uma jovem hoje de 23 anos, penei muito para aplicar todos os nãos necessários. Certamente não apliquei todos que devia, mas suponho que não deixei passar nenhum não importante. Alguns doíam muito,outros nem tanto.  Mas todos foram necessários! Estou convencido da importância de limites bem definidos, desde o início da vida de nossos filhos. Se não fizermos isso cedo, não faremos mais tarde e conviveremos com tiranos implacáveis dentro de casa. Pior, no afã de dobrar o déspota que habita conosco, concedemos cada vez mais, apenas para descobrir que a tirania piora a cada concessão. O pedido desesperado de limites, feito através de confrontações, desafios, provocações, nem sempre é entendido pelos pais que ouvem o oposto ou então se sentem culpados (com ou sem razão) e não confrontam seus filhos.

Impor limites significa aceitar serenamente que seremos “odiados” por nossos filhos. Dirão coisas horrorosas para nós, numa tentativa desesperada de que caiamos na armadilha de respondermos na mesma moeda! Há que se fazer um exercício de surdez seletiva e paciência tibetana, a cada não dito e implementado.

Mas, pouco se fala do sim! Na nossa cultura, o sim,  o elogio, o reconhecimento, o mérito, são considerados como potencialmente prejudiciais ao desenvolvimento da criança ou do adolescente. Elogiar estraga! Viu, foi só elogiar que aprontou! Expressões que todos nós já ouvimos ou até dissemos. No entanto, o poder de um sim bem dito é tão grande quanto o de um não bem colocado. Mais, no processo de desenvolvimento, há que haver um equilíbrio entre nãos e sims.  Uma educação sem nãos gera adultos com potenciais problemas de integração social, respeito ao próximo, paciência e tolerância. Uma educação sem sims gera adultos inseguros, com baixa auto estima, desconfiados.

Quais os efeitos de um sim bem aplicado? Não falo da posição de uma acadêmico ou pesquisador, não tenho estatísticas para fundamentar o que digo, não fiz estudos com grupos controle, mas olhando para os adultos jovens que receberam sims adequados,  percebo que são mais seguros, inclusive correndo mais riscos com sua criatividade e iniciativa. Sua auto estima é bem desenvolvida e em  muito se forjou no reconhecimento que tiveram das boas coisas que fizeram.  Não falo de coisas extraordinárias, falo das coisas ordinárias, corriqueiras que, ao serem reconhecidas, produzem um efeito de reforço positivo em comportamentos desejáveis. Falo de celebrar as coisas simples do dia a dia, com uma palavra de estímulo, uma olhar de aprovação ou um abraço carinhoso. Esperar o momento especial, raro, do feito fora do comum, é desperdiçar as inúmeras oportunidades que temos para fortalecer a auto estima e confiança de nossos filhos. Mais do que isso, perdemos nós, adultos, momentos de genuína alegria e orgulho, simplesmente pela crença, ao meu ver equivocada, de que elogio estraga.

Agora, tanto os nãos, quanto os sims, só funcionam se forem sinceros. O radar das crianças é diabólico para detectar falta de sinceridade. Como seu equipamento lógico, racional, ainda não se desenvolveu plenamente, dependem muito mais do que sentem (mesmo sem entender).  Cada um de nós tem uma história para contar de quando foi  imprensado por filho pequeno em momento de falta de sinceridade. Assim, um não ou um sim dito mecanicamente será percebido por nossos filhos e poderá ter um efeito muito ruim sobre eles.

Digamos mais sims sinceros para nossos filhos e vamos assistir ao crescimento de uma geração que vai se tornar um grupo de adultos menos culpados, mais relaxados, felizes consigo e com a vida.