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SER MÃE E PAI É PARA AMADORES!

Ser mãe e pai é para amadores, no sentido de quem ama. Não é para profissionais, no sentido de quem faz as coisas certas, na hora certa, visando, exclusivamente, atingir metas e resultados. Eu não tenho a menor dúvida de que todos os pais amam seus filhos. O que eu não tenho tanta certeza é se todos conseguem acreditar na importância de exibir esse amor. Assim, esse post é uma mistura de registros que venho colhendo, cujo objetivo é provocar os pais atuais e futuros a refletirem sobre a sua importância no desenvolvimento dos filhos.

1- Um recém-nascido precisa do amor dos seus pais. Um recém-nascido é um ser que depende, absolutamente dos seus pais. Diferentemente de outros mamíferos, os seres humanos permanecem com essa dependência absoluta, por um longo período. Assim, precisam de cuidados absolutos e imediatos. Esse cuidado se chama amor e é expresso pelo colo e um certo cuidado com o ambiente (está gostoso, confortável?). No colo, o bebê precisa do olhar e da voz dos pais. Não há o menor risco de bebês ficarem mal-acostumados com o colo dado nessa fase em que dependem absolutamente de seus pais. Pelo contrário, é esse colo, com o olhar e a fala dos pais que vai compor a base de uma segurança e auto estima futura.

2- Bebês cansam, e como! Ter um filho não é uma tarefa simples. As futuras mães e pais deveriam conversar mais com os amigos que já tiveram filhos. Não é algo que deve ser ticado de uma lista de tarefas a serem feitas. Casar, ticado. Ter filho, ticado. Não é assim. Filhos choram, e muito. São noites e noites mal dormidas. Isso faz parte da vida de ser mãe e pai. Não é o seu filho que não dorme, são todos (ou quase) que passam por sucessivas fases, todas muito cansativas. Ter filho significa ter disposição para passar por estas fases, sabendo que não há outro jeito que não seja passando. Não tem remédio para o que é normal!

3- Bebês nos tiram do sério. Bebês choram e, muitas vezes, não identificamos o motivo. Não é fome, frio, calor, fralda suja. Não parece ser cólica. Tentamos o que sempre funcionou, andar, balançar, cantar, massagear, ninar, virar de bruços e nada funciona. Isso, às 3 da manhã, depois de noites mal dormidas. Não tem como bebês não nos tirarem do sério. Sentimentos contraditórios e até ideias bizarras passam pela nossa cabeça. Ninguém fala disso com os pais que acabam se sentindo culpados por terem pensamentos “horríveis”. Pensamentos não são atos ou ações e é normal que ideias nem sempre de amor, paciência, tolerância, atravessem nossa cabeça. Humanos são assim.

4- Bebês crescem e os pais querem dar o melhor para eles. A sociedade de consumo se aproveita deste desejo legítimo dos pais e vende produtos e serviços que estimulam o bebê, de preferência com alguma explicação “científica”. O melhor estímulo para os bebês e crianças é o que vida oferece. Um tapete no chão, sucata doméstica e utensílios da casa (colher, panela, vassoura) ou brinquedos simples: um cubo, uma bola.  O que se deve ter em casa e introduzir muito cedo (6 meses), são livros. Zero necessidade de tecnologia ou sofisticação.  Zero necessidade de “aulas” disso ou daquilo, para bebês!

5- Nem todo desconforto é anormal. Um bom exemplo é a chegada dos dentes. Incomoda, irrita, mas é normal. É um incômodo que o ser humano pode suportar. Muitos pais não conseguem diferenciar o que seria um desconforto normal, de um sofrimento que precisa de atenção e cuidado. Querer tratar todo desconforto como sendo algo anormal, não permite a criança aprender a lidar com situações onde nem tudo está 100%. Muitas vezes os pais se colocam na posição de serem obrigados a eliminar todo e qualquer desconforto da vida de seus filhos. Pais que amam e estão preocupados com o desenvolvimento de um ser que se torne um adulto com capacidade de enfrentar dificuldades, saberão que, em alguns casos, não intervir é um ato de amor. Em outros, aceitam que nem tudo que se apresenta para nós, tem uma solução eficiente que elimine o desconforto, como um resfriado, por exemplo. Conviver com o desconforto por uma semana, será o modo dos pais cuidarem deste resfriado, sem perseguirem uma “solução mágica”, inexistente.

6- A vida não é fácil para ninguém. Um pouco na linha do desconforto que descrevi no item anterior, muitos pais não conseguem ver seus filhos chorarem porque foram frustrados em alguma demanda. Se sentem na obrigação de não deixar o filho “traumatizado” com uma frustração. Atendem a todos os pedidos e desejos da criança, rapidamente. Claro que estou falando de uma criança que não é mais um bebê que tenha uma dependência absoluta. Falo de bebês maiores e crianças. Ora, sem frustração, ninguém desenvolve a capacidade de autoconsolo e tolerância a um não atendimento de um desejo. A frustração é necessária para o desenvolvimento de um ser humano que consiga viver, harmonicamente, em sociedade. Bebês maiores, não precisam mais de cuidados absolutos e imediatos. Pelo contrário, precisam receber pequenas doses de frustração para que “se virem” sozinhos. Bebês e crianças a quem não lhes é oferecida a frustração, podem se tornar adolescentes e adultos onde tudo deve gerar prazer, sempre e de forma imediata. Isso é um desastre para o indivíduo e para a sociedade.

7- Autoridade é fundamental. Na sequência do tópico frustração, vem a questão da autoridade. Um bebê maior e, sobretudo, uma criança, precisa saber quem manda na casa. Mandar não significa abusar da autoridade. Mandar significa colocar ordem no ambiente. Cada família deve definir que valores deseja implementar e, a partir destes, uma autoridade clara (dos pais), assume a responsabilidade de colocar em prática o que acham importante. A criança deve sentir, sem dúvida alguma, que ela faz parte de uma família e não que ela tem uma família para atendê-la. Fazer parte de uma família significa que algumas coisas serão atendidas, outras, não. Significa que a criança terá algumas responsabilidades e obrigações, bem como benefícios e premiações. A ausência de uma autoridade que dê limites claros à criança pode gerar nesta, uma sensação de estar “solta”. Ainda que reclame quando lhe é imposto um limite, por dentro, sente-se segura e pode explorar o mundo sem receios, porque sabe que o limite a conterá. Colocar limites, dizer não, é uma forma de amor.

8- Amor não se terceiriza. Por mais atividades em que se coloquem os filhos, por mais que tenham “tudo”, só a presença do pais, seu olhar, suporte e estímulo, promoverá o melhor e mais completo desenvolvimento dos filhos. O amor, nos primeiros anos de vida, é o vetor mais poderoso para que os filhos possam explorar todo seu potencial. Pais preocupados em oferecer o melhor aos seus filhos, não devem procurar fora o que existe dentro de cada um de nós, o amor. Mais, não devemos ter vergonha ou pudor de exibir esse amor de forma clara para nossos filhos, através do contato físico, do abraço do beijo e da palavra- eu te amo! Crianças que se sentem amadas, se tornam adultos confiantes, seguros, criativos e felizes.

Este post é uma mistura de assuntos em que cada um daria, por si só, um tema. Revela uma inquietude com o que tenho visto na minha prática clínica: propostas externas (cursos, serviços) mais valorizadas do que o amor dos pais, dificuldade em lidar com situações normais de desconforto, impossibilidade de ver filhos frustrados e bebês ou crianças, sendo a “autoridade da casa”. Nada que não se possa reverter ou modificar. O que nos falta é abandonar as teorias sofisticadas e aplicar mais o que as avós faziam: muito carinho, alguma explicação e pouca negociação.

 

PAIS OU AMIGOS?

parents as friendaPais não são amigos dos filhos. Começo o post com uma afirmação categorica para deixar bem clara a minha posição neste tema e produzir reflexão ou até contestação.

Amigos ocupam um espaço nas nossas vidas (e dos nossos filhos), muito bem definido. São pessoas com quem temos alguma identificação, afeto e, principalmente, confiança. Ora, quem mais do que os pais não teriam esses atributos? Concordo. Mas, os pais, além desses atributos fundamentais, têm uma função que amigos não exercem. Pais são os responsáveis pelo  estabelecimento de limites para seus filhos. Cabe aos pais manifestar seu desagrado com certos comportamentos ou atitudes que não consideram adequados. Esse juízo feito pelos pais se baseia nos seus valores e crenças e os filhos devem aprender a conviver com estes, ainda que não concordem plenamente e, na vida adulta, incorporem novos ou outros.

Alguns poderão contestar dizendo que amigos também colocam limites, dão “toques”, advertem e aconselham. É verdade, mas, com toda franqueza, essa atitude, importante e carinhosa dos amigos, tem o mesmo peso que a dos pais? Acredito que não. Além disso, esse papel de amigo que adverte e avisa quando percebe que o outro pode estar se colocando em situação de vulnerabilidade (de qualquer natureza), só acontece, na melhor das hipóteses, em plena adolescência ou, mais provavelmente, só na vida adulta.

Amizade é uma relação bi-lateral, que flui, de forma simétrica, para ambos os lados. Entre amigos, não há hierarquia. Pode haver respeito e admiração por algum atributo ou capacidade que o amigo tenha, mas, ambos são e se sentem iguais na relação. Tanto que é uma relação onde não há assunto para um só abordar e o outro ouvir e aconselhar. Amigos se alternam no papel de ouvintes, sem uma regra pré-definida, de acordo com a necessidade de cada um. Pais, por outro lado, não possuem essa simetria com seus filhos. Há um hierarquia e é importante que esta exista. Abrir mão dessa posição é, potencialmente, não dar aos filhos os limites necessários para seu bom desenvolvimento.

Pais que seduzem seus filhos com o argumento da amizade, buscando acessar a privacidade dos filhos, cometem um grave engano e podem se ver em uma situação hipotética constrangedora. Imagine um filho ou filha que, aceitando o argumento da amizade, se vira para o pai ou mãe e diga: “agora me conta você o que te angustia”? Ou, qualquer outra pergunta perfeitamente normal, entre amigos, mas que pais jamais responderiam, se perguntados pelos filhos! Talvez a resposta seria: “o que é isso? isso é lá pergunta que se faça a seus pais? ” Resposta perfeita que demonstra que pais não são amigos dos seus filhos.

Pais podem e devem estimular a confiança dos filhos neles, para que se sintam confortáveis de procurá-los diante de qualquer dificuldade, seja da natureza que for. Isso não é ser amigo. É ser pai ou mãe. É uma postura de respeito à privacidade e, ao mesmo tempo, de abertura e acolhimento para o que for que os filhos precisem. Do mesmo modo, pais podem e devem ser companheiros dos filhos. Estar juntos, em ambiente de camaradagem, é perfeitamente compatível com o papel bem definido dos pais e não é uma exclusividade da amizade. Brincar, se divertir, é algo que pais devem fazer, sempre. Isso não os transforma em amigos, mas, em pais carinhosos.

Mas, afinal, qual o problema dos pais serem amigos dos filhos? De um modo superficial, nenhum. Mas, como amigos não têm a função de colocar limites, exercer a autoridade sobre o outro, ao se colocarem nesta posição os pais podem abrir mão destas funções fundamentais na formação de uma adulto seguro,  com capacidade de, mantendo sua autonomia, ser socialmente integrado. Confundir autoridade com autoritarismo, amor com ausência de limites, pode ser um equívoco que cobre um preço caro ao bem estar de nossos filhos, na vida adulta.  O fato da vida obrigar os pais a longos períodos longe de seus filhos, por conta do trabalho, não deveria ser motivo para que estes “compensassem” essa distância ou ausência com uma postura mais “boazinha”, de amigo.

Sejamos amorosos, carinhosos, afetivos, companheiros, camaradas de nossos filhos. Deixemos as portas sempre abertas para tratar de qualquer assunto que queiram, fazendo com que sintam segurança de nos procurarem. Mas, que fique bem claro, primeiro para nós e, depois, para nossos filhos que pais não são amigos. Nossa relação não é pior nem melhor do que uma de amizade. Ela é diferente e exclusiva. Somente nós podemos oferecer essa relação aos nossos filhos. Não vamos abrir mão desse lugar privilegiado  de pais, que permitirá o pleno desenvolvimento dos nossos filhos. E que tenham muitos amigos!