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2018 SEM LISTA DE DESEJOS!

Ano passado fiz uma lista de desejos para 2017. Talvez tenha desejado demais, mas o fato é que,  infelizmente, nenhum deles se realizou! Confiram clicando no link LISTA DESEJOS DE UM PEDIATRA PARA 2017!

Dizem que loucura é quando se faz tudo igual, esperando resultados diferentes. Portanto, neste ano, não vou fazer nenhuma lista, não vou desejar nada, criar metas, planejar o futuro, gerar expectativas a respeito do Trump, da desigualdade no mundo, da lava-jato, eleições e paz na terra para os homens de boa vontade!

Para 2018, proponho que se faça a abolição do futuro e consigamos viver no presente. Parece uma obviedade porque, afinal de contas, vivemos no presente. Mas, não raro, adoecemos de futuro. Isto é, os pés estão plantados no presente, mas a cabeça já voa longe, povoada por pensamentos, preocupada a respeito de algo que, supostamente, poderia ocorrer. A vida, no futuro, é um delírio. Nos permite tanto ganhar na mega sena, quanto sofrer por antecipação com pensamentos pessimistas. A vida no presente, é o que é. É o que temos de real, concreto. É a matéria prima com a qual podemos construir nossa felicidade, real. O presente é o que nos dá os elementos para que possamos enfrentar as dificuldades reais e não as imaginadas. É o fio que tece as nossas vidas.

Lidar com presente não é algo com o que estejamos habituados. Nossa cultura, sem crítica, apenas constatação, sempre nos empurra para o amanhã. Há sempre um amanhã, em geral ameaçador, que nos obriga a viver um presente tenso, preocupado, espartano. A frase: “nunca se sabe o dia de amanhã” resume bem esse tom ameaçador. Nunca é dita de forma a que se entenda que amanhã vai ser uma maravilha. É dita como um sinal luminoso, piscando: cuidado, perigo adiante!

Sem nos darmos conta (ou dando), a vida no presente vai sendo modelada por um futuro suposto ou imaginado. Talvez (não sou nem filósofo, nem psicanalista) a suposição de um futuro, ainda que ameaçador, nos faça afugentar a única certeza que temos a respeito do futuro- nossa finitude. Pensar, continuadamente, no futuro, pode nos trazer uma certa calma (ou ilusão) de um futuro continuado, interminável. Melhor não comer sorvete porque, lá na frente, pode ter diabetes. Melhor fazer exercício, para evitar que, lá na frente, esteja entrevado. Melhor trabalhar furiosamente, para, lá na frente, poder viver com mais conforto. E a lista de sacrifícios no presente, para um futuro melhor, é interminável. Não vou cansar vocês!

É evidente que não me oponho a hábitos saudáveis e atitudes responsáveis. Estou aproveitando este período onde todo mundo se permite alguns devaneios existenciais, para brincar um pouco com a ideia (meu devaneio) de uma resistência organizada contra a tirania do futuro! Afinal de contas, a vida não é binária. Ou nos submetemos à tirania do futuro, ou sucumbimos na esbórnia total. A vida é complexa, multifacetada, dinâmica, variável e, acima de tudo, imprevisível. Exatamente por ser imprevisível, devemos dar um pouco mais de atenção ao presente.

Sequer estou sendo original nessa sugestão. Horácio, poeta romano, escreveu há mais de 2000 anos uma frase que “viralizou”. A frase ficou conhecida por duas palavras: CARPE DIEM, que quer dizer aproveite o dia. O trecho mais completo seria: ” aproveite o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã”. Vários autores e pensadores se manifestaram a respeito do viver no presente. Cito mais dois, só para ilustrar o que estou dizendo. Albert Camus, escritor francês, prêmio Nobel de Literatura escreveu: ” A verdadeira generosidade para com o futuro, consiste em dar tudo ao presente.” Mas, o meu preferido, é o famoso filósofo Kung-Fu Panda: “O passado é história, o futuro é mistério, o agora é uma dádiva e por isso se chama presente”.

E assim, chegamos ao final deste post e de 2017 com uma contradição ou paradoxo (o que garante que este texto não foi escrito por um robô e sim um humano). Disse que não tinha lista de desejos, mas tenho um grande desejo. Desejo que todos possam, em suas vidas, viver um pouco mais intensamente o presente.

Viver o presente significa que o ser precede o ter. O existir se superpõe ao produzir. O sentir não fica inibido ou tolhido pela razão. Viver o presente significa esvaziar a cabeça de pensamentos do futuro, respirar fundo, apreciar o que nos cerca e dar vazão ao que nos une, o afeto.

Feliz hoje, todos os dias, em 2018!