EXISTE VACINA CONTRA A CORRUPÇÃO?

Stop corrupçãoSabem como é cabeça de pediatra, tudo é virose e só pensam em vacinas! Além disso, pediatras, em geral, são brincalhões ou espontâneos, rindo, inclusive desse modo curioso de pensar e ver o mundo: viroses e vacinas. E se a corrupção fosse uma virose, haveria uma vacina para prevenir esta doença? Estou convencido de que exista essa vacina e ela se chama educação.

Não me refiro à palavra esvaziada e desgastada, utilizada como uma espécie de elixir para todas as nossas mazelas. O que falta ao Brasil, é educação, repetimos todos, quase que em coro. Mas, dificilmente, paramos para nos perguntar que educação falta ao Brasil? Ou, melhor, que educação falta aos brasileiros  porque um país é feito de gente e não é um ser em si. Quando repetimos que o problema do Brasil é a falta de educação, o colocamos (o problema), longe de  cada um de nós. O Brasil é essa coisa grande, vaga, impessoal. Quando penso em educação para os brasileiros, já me sinto incluído na pergunta e, portanto, com algum compromisso com a resposta. Voltando à pergunta, que educação nos falta?

Fui buscar uma das possíveis respostas  em um pensador (sim, houve uma época em que pensar era muito valorizado pela sociedade) que dizia o seguinte: “E é observando as escolhas que os homens fazem, antes que seus atos, que nós os louvamos ou censuramos.”- Aristóteles. 

Mas, o que tem essa resposta com a pergunta- que educação está nos faltando? E, mais ainda, com pergunta sobre a vacina contra a corrupção? A corrupção é um ato que envolve, no mínimo, duas partes. De um lado quem corrompe, o corruptor e, do outro quem é corrompido. Portanto, fica fácil responder à pergunta de que educação precisamos? Uma que ensine a todos, começando pelas crianças, que é errado corromper e ser corrompido. Certo? Errado!

Essa educação que ensina o que é certo ou errado está fadada ao fracasso porque é superficial. Envolve noções de premiação e punição, que produzem comportamentos atraídos pelos prêmios ou repelidos pelos castigos. E que mal há nisso, perguntarão muitos dos (poucos) leitores do blog? De fato, para muitos comportamentos condicionados, esta é uma forma de se ensinar uma criança. Ensinar não é o mesmo que educar e nem todo comportamento é ou deveria ser condicionado. Não respondemos a tudo de forma pavloviana!

Vamos reler a frase de Aristóteles? E é observando as escolhas….. antes que seus atos….”. Aqui, uma sutil porém relevante diferenciação. A escolha precede o ato. A cada ato, corresponde uma escolha. Talvez, a educação que precisemos seja exatamente uma que contribua para que façamos escolhas desejáveis. Feita a escolha, se segue o ato, com uma naturalidade absoluta. No ato, não há investimento maior. Todo o investimento emocional e racional está na escolha. Meio confuso? Acho que sim. Vou tentar esclarecer.

Vamos considerar que lhe façam uma proposta de matar uma pessoa. Calma, é apenas um exemplo! Pois bem, a proposta completa é a de que você mate uma determinada pessoa e, para isso, você receberá uma soma impensável de dinheiro. Você mataria alguém que você nunca viu, não conhece, que não lhe fez nada, em troca de uma quantia irrecusável de dinheiro?  Vamos supor que você responda não. Agora, a proposta fica mais interessante. Além do dinheiro, você receber a garantia de que jamais será pego, julgado ou punido. Se você respondeu não à proposta só envolvendo dinheiro, mudaria sua resposta, respondendo sim, pelo fato de que, além do dinheiro, não sofrerá consequências legais? Pouco importa o que cada um respondeu. Mas, é razoável supor que um grupo de pessoas dirá não à proposta de matar um estranho, independente do pagamento e da impunidade. Por que alguém diria não a uma proposta que poderia mudar a vida material dela, sem risco de punição? É porque, para este grupo, a escolha que antecede o ato, é inaceitável. Assim, não há possibilidade desta pessoa considerar uma tal proposta. Esta pessoa, faz uma escolha moral, baseada nos seus valores. É na escolha de matar (ou não) que está todo o investimento emocional e racional.

A educação do premiar  e  punir, excelente para comportamentos condicionados, essenciais para a sobrevivência (não debruçar sobre a janela, enfiar o dedo em tomada ou chegar perto de fogo, pular ao ouvir uma freada do seu lado etc.) atua sobre os atos e não sobre as escolhas. A educação que atua sobre as escolhas é aquela em que se estimula a análise, reflexão, contemplação, compaixão e empatia. Enquanto nossas creches e escolas se limitarem a oferecer conhecimento e comportamento, teremos uma educação incompleta e, certamente, não estaremos vacinando nossos filhos contra o vírus da corrupção. Conhecimento e comportamento são fundamentais, mas, falta, para uma educação mais completa o entendimento ou compreensão. Compreender não é apenas conhecer e agir. Compreender implica em utilizar ferramentas humanas (enferrujadas?) como o o questionamento crítico (e auto-crítico), o aprendizado que é algo mais profundo e complexo do que o conhecimento. Compreender significa problematizar, algo do qual fugimos, correndo o risco da simplificação (que não é sinônimo de simplicidade) que torna nossa capacidade analítica em algo superficial, contribuindo para a banalização da vida cotidiana, incluindo a corrupção! A síntese da simplificação acrítica está contida na frase: “Isso é assim mesmo. Sempre foi e vai continuar sendo”. Que sociedade queremos para nossos filhos? Se for uma diferente desta em que estamos vivendo, teremos que enfrentar a pergunta- que educação precisamos oferecer para que nossos filhos?

Mas, que educação é esta? Não sou pedagogo, sou apenas um pediatra que vê viroses e pensa vacinas. Além disso, escrevo um blog com o intuito de informar e provocar reflexões. Como vamos introduzir filosofia moral nas nossas creches, é um tema a ser discutido. Mas, tenho a certeza de que sem, modificarmos o nosso modelo educacional, hoje baseado na avaliação como finalidade e não meio, destituído de uma provocação reflexiva a respeito das escolhas de cada um e seu impacto em todos, continuaremos repetindo, que o que falta ao Brasil é educação! Por outro lado, se os pais que leem o blog se sentirem mobilizados e, ao visitar as creches e escolas, não se preocuparem só com o cardápio (importante), segurança (muito importante), espaço físico (importante), limpeza (importante), número de funcionários (importante), mas fizerem uma pergunta desconcertante como: como vocês abordam as questões de filosofia moral com as crianças?  e prestarem atenção nas reações e respostas, talvez possamos almejar mudar algo.

Finalmente, uma nota de advertência. As escolas ou creches são apenas um prolongamento auxiliar do processo educativo que a acontece em casa, na família. A pergunta portanto, volta para nós. Mais do que uma bela resposta, ou dos nossos atos, vale a análise de como fazemos nossas escolhas. Crianças aprendem por imitação e admiração e, os primeiros a serem imitados e admirados, somos nós, os pais.

Se você é uma mãe ou um pai que não mataria por dinheiro e impunidade, ufa, esse post é para você! Dedique seu tempo na educação das escolhas, nos valores morais que preza e os atos, coerentes com estes, se seguirão. Ao participar das reuniões na creche ou escola, aborde o tema das escolhas antecedendo atos. Os pedagogos conhecem algumas formas de trabalhar o tema. Vamos provocá-los!

 

6 pensamentos sobre “EXISTE VACINA CONTRA A CORRUPÇÃO?

  1. existe um provérbio dos antigos, que diz mais ou menos assim: ” tenho dentro de mim dois cachorros, um mau e outro bom, sempre devo optar em alimentar o bom”. Pois é, escolhas…..obrigada por compartilhar esse seu belíssimo texto….

  2. Dr. ,meu filho tem me deixado muito preocupada. Hoje ele esta com 3 meses e 5 dias, quando estava com 2 meses presencieieu meu bebe ficar duro e vermelho do nada, nao se mexe. ja aconteceu 4 vezes…sempre ele esta na posição de sentar .o que devo fazer.? O que é isso ?

    • Prezada Viviane,
      Sugiro que converse com o seu pediatra e veja se seria o caso de ouvir a opinião de um neuropediatra. Como o blog não substitui uma consulta, seria irresponsabilidade minha opinar sobre o seu filho, além de ser ilegal, pelo Conselho Federal de Medicina.

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