DIA INTERNACIONAL DA MULHER, DE NOVO!

Hoje se comemora o Dia Internacional da Mulher. Fiquei pensando no que eu gostaria de escrever a respeito e me perguntei o que teria mudado do ano passado para este, no que diz respeito à condição da mulher, na sociedade? Os indicadores não revelam mudanças e, por esse motivo, meu post do ano passado, relido criticamente por mim, me pareceu continuar atual. Repetir um post? Achei que seria mais honesto, com as mulheres (e comigo). Se a condição da mulher não muda, meu post não muda. Claro que sempre existe um ponto novo a ser comentado ou mesmo aprofundado. Mas, deixo ao leitor do blog a críticas se reler o post (e refletir) valeu a pena ou não.dia internacional da mulher

Apensas como curiosidade, fui pesquisar quantas mulheres foram eleitas para o Congresso Nacional, nas últimas eleições. As mulheres constituem 51% da população brasileira e temos 51 deputadas eleitas. Esse número representa 9,9% dos deputados (513). No Senado, temos, hoje, 11 mulheres, representando 13,6% do total de senadores (81). Definitivamente a representação das mulheres no poder legislativo não espelha, nem de longe, o percentual de mulheres na nossa população. Os deputados certamente dirão que não é preciso ser uma mulher para defender seus interesses. Como declaração conceitual, perfeita. Mas, francamente, em uma sociedade onde ainda há discriminação por gênero, evidenciada nas ofertas de emprego e salário por funções iguais, dá para acreditar que um homem vai defender os interesses da mulher tão bem quanto ela própria? Em uma sociedade machista, conservadora, como a nossa, uma deputada para dez deputados, parece razoável? Isso, sem entrar no mérito da violência contra a mulher, capítulo trágico que não queremos enxergar e enfrentar.

Para não repetir tudo do blog do ano passado, acrescentei uma foto da campanha produzida pelo Exército da Salvação da África do Sul que chama a atenção para a violência contra a mulher, usando o famoso vestido que ninguém sabe exatamente qual é a cor. A chamada é Why is it so hard to see black and blue? Em inglês, black and blue, além de se referir às cores propriamente, é o nome dado aos roxos (hematomas), decorrentes de pancadas ou traumas. Portanto, a peça da campanha, nos provoca com a pergunta (brincando com o famoso vestido)- por quê é tão difícil ver os roxos? É uma imagem forte, que coloquei no final do post , que segue abaixo.

Post de 8/3/14

O que um pediatra teria a falar sobre o Dia Internacional da Mulher? Em primeiro lugar, acredito que todos nós, independentemente de nossas escolhas profissionais, temos compromissos sociais. Isto é, vivemos em comunidade e o que fazemos (ou deixamos de fazer) influi, de alguma forma, em todos.  Desta forma, acredito que falar sobre o Dia  Internacional da Mulher é uma maneira que tenho para tentar contribuir por um mundo onde os seres humanos sejam igualmente respeitados, independentemente de seu gênero, cor, religião, opção sexual e nível sócio-econômico. Além desse aspecto mais amplo, como pediatra, lido com mães e, muitas vezes, percebo no seu dia a dia, o que significa ser mulher em um mundo onde a igualdade entre os gêneros ainda está  muito distante.

Portanto, não escrevo sobre o Dia Internacional da Mulher com o enfoque romântico de como as mulheres são importantes e como devemos admirá-las e amá-las. As mulheres de nossas vidas ( mães, filhas, avós, irmãs, namoradas, esposas, companheiras e amigas), merecem nosso carinho todos os dias. Carinho, com as pessoas que gostamos, não é algo que tem dia certo para ser feito.

O Dia Internacional da Mulher é um dia para nos lembrarmos do que acontece, hoje, com a mulher. Não falo da mulher distante, da que vive em uma cultura com valores diferentes dos nossos e é visivelmente segregada e oprimida. Falo da mulher que está do nosso lado, brasileira como nós. Falo da mulher que está nas nossas vidas, todos os dias. Este dia é para que não nos esqueçamos que essa mulher é, ainda hoje, aqui do nosso lado, discriminada pelo simples fato de ser mulher.

Mulheres brasileiras,  com a mesma formação e competência que homens, recebem salários menores do que estes. Isso é uma forma de discriminação.

Mulheres brasileiras sofrem violência doméstica, a maioria ainda calada, porque impor vergonha à vítima é uma forma de discriminação.

Mulheres brasileiras sofrem abusos sexuais  e, muitas, são julgadas culpadas ou parcialmente responsáveis pelo abuso porque “não estavam vestidas adequadamente” ou estavam no “lugar errado”. Isso é uma forma de discriminação.

Mulheres brasileiras, na sua maioria, fazem uma dupla jornanda de trabalho. Uma profissional e, outra, doméstica porque o trabalho de casa é “coisa de mulher”. Nesse aspecto vemos homens que são altos executivos nos seus trabalhos, tomando decisões complexas, todos os dias, muito bem formados e informados que, ao chegarem em casa, se tornam incapazes de fazer o que quer que seja, sob o argumento- “isso eu não sei fazer”. Um caso interessante de competência diurna seletiva ou incompetência domiciliar!  O brilhante profissional é incapaz de lavar louça, colocar termômetro no filho ou dar um remédio! O resultado dessa postura é a sobrecarga da mulher. Alguns homens, atentos, ainda dirão: deixa que eu te ajudo. Ajudar é um ato de participação na tarefa do outro. É o mesmo que dizer: esse trabalho é seu e eu vou te ajudar. Significa que o trabalho pertence à mulher e que posso não ajudar, quando não puder ou quiser. Bem diferente é a postura de dividir o trabalho. Quem divide trabalho, assume sua parte. Não é uma  ajuda,. É fazer o que lhe cabe. Isso seria uma forma de não discriminar. Mas, em casa, ainda discrminamos.

Se você é mãe ou pai de uma menina, com certeza não desja que sua filha seja discriminada. O dia de hoje é para que pense em como pode fazer para lhe dar os meios de ser uma pessoa que se desenvolva plenamente, segura de si, independente, sem se sentir menos ou obrigada a fazer coisas só porque é mulher.

Se você é mãe ou pai de um menino, com certeza não deseja que seu filho seja um discriminador. O dia de hoje é para que pense em como pode fazer para lhe dar os meios de ser uma pessoa que respeite as diferenças e não veja, numa mulher, um ser com menos direitos  ou mais obrigações do que ele, só porque é do sexo feminino.

O que podemos fazer? Como sempre, não tenho respostas prontas ou  fórmulas mágicas. Mas, acredito que o exemplo dos adultos, em casa, nos pequenos gestos e atitudes, terão um impacto muito maior na formação dos filhos do que belos discursos. Começemos por nossas casas, olhando para nossas mulheres como iguais a nós e nos perguntando onde existe alguma forma de discriminação por gênero e fazendo o que for possível para reduzir essa desigualdade. Olhemos para como educamos nossas meninas e meninos e nos perguntemos se estamos repetindo padrões que levem à manutenção das desigualdades. Se a menina arruma seu quarto e mamãe arruma o do menino, já temos algo para pensar em mudar.

Todos os dias são dias das mulheres (e dos homens, das crianças e dos velhos). Todos os dias são nossos dias. Mas, um dia como o de hoje, Dia Internacional da Mulher, é um dia para se pensar um pouco e se perguntar: o que posso fazer para que as mulheres sejam menos discriminadas?

black and blue

 

 

 

 

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