EM DEFESA DAS BACTÉRIAS

bacteriaVocê achou o título do post estranho? Como pode um pediatra escrever algo a favor de bactérias? Afinal de contas, bactérias são muito perigosas e produzem doenças. Algumas delas, sérias e graves. Como em quase tudo que nos cerca, uma minoria de “maus elementos”, acaba contaminando (sem trocadilho) uma maioria pacífica, ordeira, competente e de boa índole. Assim é com as bactérias também. Uma meia duzia de bactérias “más”, cria uma imagem deformada de milhares de outras que convivem conosco, nos ajudando a viver melhor.

Temos, no nosso corpo, algo como 10 vezes mais bactérias do que células humanas! Claro que ninguém contou esse número, mas é uma ordem de grandeza, fruto de estudos que estão sendo feitos a respeito das bactérias que convivem conosco. Para que se tenha uma ideia da importância do tema, desde 2007 o Instituto Nacional de Saúde dos EUA (NIH), já investiu US$157 milhões no Projeto do Microbioma Humano. Este projeto envolve mais de 200 pesquisadores, de 80 universidades ou instituições científicas. Ninguém gasta tempo e dinheiro para estudar algo que não tenha interesse ou relevância. Portanto, esse microbioma (nome complicado para falar das bactérias que moram conosco) parece ser importante para a nossa saúde. Desconhecíamos que temos trilhões de amiguinhos trabalhando para nosso bem estar e, ao se ouvir o nome bactéria,  só pensávamos em lavar as mãos e passar um “desinfetante” em tudo, para acabar com esse perigo invisível e garantir a nossa segurança!

Nascemos sem bactérias e, já no parto, tomamos nossa primeira grande “dose” de bactérias. Quando o parto é cesáreo, a quantidade e qualidade das bactérias desse primeiro momento é diferente e alguns pesquisadores acreditam que, por este motivo, estas crianças (nascidas de parto cesáreo) podem ter uma chance maior de desenvolver alergias e/ou obesidade. Nossa colonização por bactérias continua através do contato com a pele e leite de nossas mães, bem como o contato com outras pessoas.  Em torno dos 3 anos de idade já fizemos todos os amiguinhos microscópicos que se pode fazer.

Essas bactérias amigas, fazem coisas muito importantes para nós. Elas (as bactérias), nos ajudam na digestão de vários alimentos, através da produção de enzimas que não produzimos. Contribuem para que retiremos energia (calorias) de forma mais eficiente dos alimentos.  Bactérias amigas produzem vitaminas e participam do desenvolvimento e manutenção do nosso sistema imunológico (o que nos protege contra doenças).  Existe mais de um mecanismo pelo qual as bactérias, principalmente as intestinais, ajudam a manter nosso sistema de defesas saudável.

Estudos comparando crianças criadas em fazendas, com outras da cidade, mostraram menos asma, rinite e eczemas nas do campo. Uma das hipóteses levantadas é a de que, por entrarem em contato com uma diversidade maior de bactérias, haveria um estímulo positivo do sistema imunológico. Alguns autores passaram a chamar a explicar o número maior de casos de alergia em crianças como sendo uma obsessão cultural pela limpeza e desinfecção. É o que chamam de “Teoria da Higiene”.

Mas, não é só no campo da nutrição e  da defesa que as bactérias têm importância para nós. O famoso projeto genoma, que estuda nossos genes, identificou que as bactérias também deram uma contribuição para a nossa evolução. Hoje, há um consenso entre os pesquisadores, que em torno de 40 de nossos genes são de origem bacteriana! A pergunta que ainda não foi respondida é: como que esses genes de origem bacteriana foram transferidos para nós, humanos?

Espero que tenham, ao final do post, entendido porque escolhi este tema. O  que o eu gostaria de dizer para os pais foi: limpeza é importante, mas não há necessidade de se “desinfetar” tudo em volta de um bebê ou criança. Bactérias amigas existem e são importantes para nossa saúde!

Como sempre, enviem seus comentários. São muito bem-vindos.

4 pensamentos sobre “EM DEFESA DAS BACTÉRIAS

  1. Oi Roberto,

    Eu já tinha escutado falar sobre as bactérias que desenvolvemos quando crianças. Fiquei pensando, será que a fase oral, Freudiana, da criança não é instintivamente o corpo buscando “carregar-se” de bactérias? Afinal, não é no estômago que ficam a maioria destas bactérias benignas?

    • Filipe,
      Que prazer em vê-lo participar do blog! Achei interssante você associar a fase oral a uma forma do corpo ganhar novas bactérias benignas. De fato, é no tubo digestivo, mais especificamente que temos um grande número de bactérias benignas. Será que a fase oral deveria se chamar de fase de carga bacteriana?

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