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OS CINCO VETORES DA SAÚDE

Para quem me conhece ou lê estvetor1e blog com alguma regularidade, o título deste post deve ter soado estranho! Não costumo quantificar meus comentários, muito menos “ensinar regras”! Mas, algumas pessoas já devem me ter ouvido dizer que, se eu tivesse a falta de caráter necessária para escrever um desses livros de fórmulas de sucesso, receitas de saúde, segredos da longevidade, caminhos da felicidade, obrigatoriamente teria um número no título. Sempre achei que esse tipo de livro, com um número na capa, venderia muito mais! Pois bem, resolvi brincar com essa ideia e, ao mesmo tempo, matar o meu desejo de publicar algo com um número na capa (ou título).

Portanto, aviso aos navegantes deste post que o título é uma brincadeira e que não pretendo “revelar” cinco segredos guardados há milênios por monges tibetanos, guerreiros africanos ou índios da América Central! O que pretendo é abordar cinco grupos de ações que podemos implementar nas nossas vidas e, mais importante, ensinar aos nossos filhos, deixando um potencial caminho de saúde para que eles trilhem pela vida. 

Um segundo aviso é de que nada do que lerão aqui é novidade. Ora bolas, se não é novidade por que estaria eu usando meu tempo e o de vocês para escrever o que já é sabido? Porque existem conhecimentos importantes que vão sendo empurrados para o esquecimento, por uma sociedade de consumo onde a novidade é sempre melhor do que o que veio antes. Isso, que  pode ser válido para produtos e serviços, não é, necessariamente, para os valores e conhecimentos dos seres humanos. Não falo de novos equipamentos diagnósticos, mecanismos de doenças e vacinas. Estes progressos substituem conhecimentos prévios, mas, são baseados em tecnologias de produtos onde novos equipamentos nos permitem olhar a natureza de uma nova forma ou desenvolver novas drogas. Falo de um conhecimento a respeito de quem somos e o que estamos fazendo por aqui. Essa é uma conversa que tem mais de dois mil anos de registros e, se escolhermos qualquer texto, de qualquer época, quase que certamente terá alguma atualidade ou aplicabilidade, nos dias de hoje. O ser humano, ou a essência do ser humano é a mesma desde que surgimos como espécie falante, há cerca de 60 mil anos ! Este post é sobre cinco aspectos da nossa natureza que podem contribuir para nossa saúde e que, muito provavelmente, se beneficiam com o progresso tecnológico, mas, não são alterados por este.

  1. AFETO  Começo por este vetor porque costuma ser um relegado a um segundo plano. Como se o ser humano fosse uma máquina pensante e não um ser relacional, simbólico. Todo ser humano precisa de carinho, reconhecimento, cuidado, para se desenvolver e viver bem. O afeto começa antes do nascimento e continua pela vida afora. Carinho não é deixar a criança ou adolescente fazer tudo. Pelo contrário, significa cuidar e inclui colocar limites, forma importante de expressarmos nosso amor. O afeto é o que nos une aos amigos, à família e aos amores. A saúde está diretamente associada à nossa capacidade de relacionamento e esta, em grande parte, vem do modelo que recebemos quando crianças. Assim, os pais têm uma função importante no desenvolvimento da capacidade afetiva dos filhos. Não existem métodos para desenvolver essa capacidade. Pais afetuosos, carinhosos, respeitadores dos ritmos dos filhos, produzem um ambiente favorável a que estes sejam pessoas com boa capacidade de relacionamento. Pais que se permitem sentir mais e pensar menos (no quesito afeto), darão a seus filhos o que estes precisam para uma vida emocional saudável.
  2. ALIMENTAÇÃO –  Nossa saúde está diretamente relacionada à alimentação. Doenças como a hipertensão arterial, alguns tipos de câncer, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, a obesidade com suas consequências, são alguns exemplos conhecidos por todos, associados a uma alimentação inadequada ou incorreta. Alimentação é aprendizado. Ninguém nasce gostando de cheeseburguer ou brócolis! É preciso que sejamos apresentados a estes alimentos para podermos desenvolver um paladar e, consequentemente, um hábito alimentar. Se os pais possuem o hábito de comer cheeseburguer, dificilmente conseguirão que seus filhos comam brócolis! Uma boa alimentação não é nada sofisticado, nem precisa de pediatra ou nutricionista para orientar. Nossas avós sabiam exatamente o que era uma boa alimentação e  não incluía barrinhas, suplementos ou polivitamínicos. Se quiserem um pouco mais de informação a respeito de uma alimentação saudável, vejam o post Prato Saudável.
  3. ATIVIDADE FÍSICA- A atividade física é inerente ao ser humano. A criança corre, brinca, pula, sobe em árvore, revira as coisas, em constante atividade. A tecnologia e o progresso, contribuem para nossa inércia. A cultura também, com menos espaços livres, apartamentos menores e ambos os pais trabalhando, fazendo com que tudo que “distraia” a criança seja bem-vindo. Assim como a alimentação, se os pais são sedentários, será muito difícil introduzir hábitos de atividade física nos filhos. Atividade física também tem um aspecto secundário importante, ao contribuir para o vínculo entre pais e filhos. Andar de bicicleta, passear, soltar pipa, jogar um jogo ou esporte, são atividades que envolvem o corpo e o afeto. Tanto isso é verdade que muitos de nós temos vivo na memória momentos de atividade com nossos pais. A lembrança, em geral, é da parte afetiva, mais do que da física.
  4. SONO- Raramente nos lembramos que o sono é um elemento vital para a nossa saúde. Isso nunca foi um problema para os seres humanos, até a criação da iluminação artificial. Até esse momento, o que tinha que ser feito se fazia durante o dia e a noite era dedicada ao sono. Dormíamos mais e, assim, estávamos, mais bem dispostos para as atividades do dia. Hoje, vivemos em uma sociedade 24/7, 24 horas, sete dias na semana. Dormir é um desperdício de tempo e a tentação de produzir ou consumir (dois lados da mesma moeda) é enorme. Mas, nossa saúde física e mental depende de um sono quantitativa e qualitativamente bom. O sono exige uma certa rotina ou ritual que os pais devem introduzir na vida de seus filhos.
  5. TEMPO PARA SI- O ser humano tem necessidade de um tempo que eu chamaria de tempo da espécie. O calendário e o relógio são medidas de tempo que não se encontram na natureza. São criações artificiais do homem, importantíssimas para organizar nossas vidas, mas, que não dão conta de todas nossas necessidades. O ser humano saudável precisa de um tempo que é só seu. Podemos chamar esse tempo de reflexão, contemplação, meditação, oração ou qualquer outro nome que nos ocorra. É um momento onde a mente se esvazia ou se deixa preencher pelas sensações ao redor, sem análise, juízo ou tentativa de classificar e controlar. Nossa saúde precisa desses momentos que são diferentes do relaxamento produzido pelo sono. Como pais, podemos ajudar nossos filhos a desenvolverem a capacidade de ficarem sozinhos, ainda que estejamos por perto. Não estimulá-los 24h. por dia, não sentir necessidade de oferecer uma programação seguida da outra. Deixar a criança brincando, lendo, desenhando, sem estímulos externos, sem perguntas que interrompam aquele momento da criança, é uma forma de ajudá-las a desenvolver essa habilidade. Podemos ajudar com nosso exemplo ao termos nossos momentos de reflexão ou até de compartilhar um pôr do sol em silêncio. Tempo da espécie é um tempo que também está sendo empurrado para o esquecimento, substituído pelo tempo da eficiência máxima, do fazer constante. Podemos ensinar aos nossos filhos como ser eficientes e, preservar um tempo para si. Uma coisa não elimina a outra.

Chego ao final do blog e me dou conta de algo que não tinha pensado, ao começar a escrevê-lo. Juntei os cinco vetores e o que eu obtive foi algo como: a saúde de nossos filhos depende de uma família (afeto) que jante junto (mais afeto), comendo de forma saudável (alimentação). Depois do jantar, um pouco de conversa (mais afeto) e um rotina para colocar as crianças na cama (mais afeto e a preparação para um sono reparador). Quando tiver uma oportunidade, a família vai passear ao ar livre ou fazer algum esporte (mais afeto e atividade física). O silêncio vai ser praticado ocasionalmente e se as pessoas quiserem ficar sozinhas, serão respeitadas (mais afeto e tempo para si).

Nenhuma novidade! Ou, talvez, a novidade seja exatamente essa. Vamos parar de procurar novidades, onde o que somos (seres humanos) é a resposta para a pergunta- como posso ajudar meu filho a ser mais saudável? Sejamos o que sempre fomos, sem medo de sermos considerados ultrapassados ou antiquados!

ESTRESSE EM CRIANÇAS

stressDiante de um perigo ou situação crítica, o ser humano tem uma reação chamade de fuga ou luta. Esta reação ocorre quando, por algum estímulo, o organismo produz uma descarga de adrenalina. A partir desta descarga algumas reações acontecem. As pupilas se dilatam, há uma redução da circulação periférica, a frequência cardíaca aumenta. Tudo isto para nos deixar em uma situação onde ou vamos fugir (correr) ou vamos lutar. Passado o perigo ou situação crítica, o corpo volta à normalidade e, não raro, ocorre uma sonolência cuja finalidade é o repouso regenerador. Este é um resumo ultra simplificado de uma reação normal e necessária que temos. Quando a situação crítica ou sensação de perigo não cessa, a produção de adrenalina é constante e não há momento de sono reparador. Essa situação de estado contínuo de descarga de adrenalina é conhecido como estresse e tem consequências muito sérias para a saúde do ser humano. Habitualmente, quando falamos em estresse, pensamos em um adulto, sobrecarregado com trabalho, ansioso e angustiado. Dificilmente associamos a palavra estresse às crianças.

No entanto, por inúmeras razões que vão desde a deprivação emocional, abandono, carências básicas como alimentação e manutenção da temperatura corporal, até um ambiente familiar violento, incluindo maus tratos, a criança pode estar ou ficar estressada. Certamente os exemplos que dei, extremos, devem fazer com que imaginem que, nestas circunstâncias, faz todo sentido uma criança ficar estressada. Mas, quero chamar a atenção para um produtor de estresse infantil, muito mais sutil, porém não menos perigoso. Falo do tempo, ou melhor, da falta de tempo.

Apesar da natureza nos dar lições diárias sobre o tempo adequado, através das estações do ano, ou mesmo da duração de uma gravidez, insistimos com a ideia de que há sempre um “tempo para ser ganho”. Isto é verdade em todas as atividades onde a tecnologia pode nos ajudar, como nas viagens de avião, na transmissão de dados por computadores, nos cartões de crédito ou débito. O perigo é acharmos que o tempo pode ser ganho em todas as atividades humanas. Ou, que precisa ser ganho em todas as atividades humanas. Curiosamente, na época em conseguimos “ganhar mais tempo”, também é quando mais nos queixamos de falta da tempo. Algo parece muito errado nessa equação – quanto mais tempo eu ganho, menos tempo eu tenho. Chegamos ao extremo de declararmos que não temos tempo para nada!  Esse quadro, por si só, seria dramatico. Para piorar, na nossa cultura vigente, não ter tempo para nada é sinônimo de status. Quem tem tempo para algo, geralmente para si, seu lazer e prazer, para os relacionamentos com a família e amigos, ou é um sortudo que ganhou na mega sena ou um preguiçoso irresponsável. Vejam aqui, uma nova contradição. Enchemos o peito para dizermos que não temos tempo para nada, buscando a admiração e reconhecimento de quem nos ouve, mas, se ganhássemos na mega sena, muito provavelmente não usaríamos nosso tempo da mesma forma como usamos hoje.

A questão é que passamos a educar nossos filhos da mesma forma com que vivemos: sem tempo para nada.  Uma criança tem necessidade, para seu pleno desenvolvimento físico e mental, de brincar. Brincar, não necessariamente com brinquedos sofisticados, eletrônicos. Brincar como uma ato de criatividade, onde uma caixa se transforma em casa e uma tampa de garrafa em um animal que está sendo perseguido por uma lata que, na verdade é um leão. Esse brincar só tem uma necessidade: tempo. Tempo para nada, só para brincar. Não é um tempo cuja produtividade vá ser medida no momento da brincadeira, mas, cujo reflexo se pereceberá na vida adulta. Uma criança que tem tempo para brincar, sem que seja na aula disso ou no curso daquilo, desenvolve capacidades fundamentais para uma vida adulta saudável. A criança que cria brincando, se torna mais tolerante com a frustração. Aprende a criar alternativas, com o pouco material que tem. A criança que cria brincando, se torna mais analítica, conseguindo avaliar as variáveis que tem em mãos e gerar soluções (criativas). A criança que tem tempo para brincar, não está submetida a uma agenda rígida, com compromissos e exigências que geram uma descarga contínua de adrenalina (estresse). O brincar com tempo, sem exigências de performance ou metas, em um ambiente acolhedor e carinhoso, é a melhor prevenção para o estresse infantil.

Para os pais, selecionei um trecho do clássico Winnie the Pooh:edward bear

Aqui vem Eduardo Urso descendo as escadas –  bong, bong,bong, batendo a cabeça nos degraus, logo atrás de Cristopher Robin. É, até onde sabe, a única maneira de se descer escadas. Mas, às vezes, ele suspeita que possa haver uma outra maneira de descer. Se ele pudesse ao menos parar de bater a cabeça por um instante e pensar em uma alternativa…

Certamente está na hora de pararmos um pouco para pensarmos em alternativas para o uso do nosso tempo e do tempo de nossos filhos. Não é razoável sentirmos orgulho de não termos tempo. Não é aceitável impormos um estresse desnecessário para nossos filhos.

Os comentários, sugestões e dúvidas são sempre bem-vindos (se tiverem tempo!).

O PEQUENO EXECUTIVO

A lógica empresarial é a do crescimento e lucro. Para isso, precisa de profissionais qualificados. Por qualificados, entenda-se eficientes, eficazes, auto-motivados, competitivos, ambiciosos, que perseguem os resultados. No jargão das empresas, essas pessoas “entregam”. Isso é perfeito para empresas, negócios, que têm donos ou acionistas preocupados com o retorno dos seus investimentos. O problema é quando essa lógica ultrapassa os limites das empresas e passa a fazer parte da vida, como um todo.

O que vemos, no entanto, é que essa lógica foi se instalando e, sem nos darmos conta, está presente na nosso dia a dia. A cultura da gestão eficaz passou a fazer parte do dia a dia das famílias. Uma viagem de lazer é encarada como um desafio à otimização do tempo e minimização de custos, com maximização de benefícios. Um jantar é considerado bom quando a relação custo/qualidade é satisfatória. Até aí poderíamos  considerar que querer ser organizado e não gastar mais do que o necessário é perfeitamente aceitável ou desejável. O problema (na minha opinião) é quando esse tipo de lógica passa a definir ou guiar a forma com que fazemos as escolhas para nossos filhos.

Vemos pais escolhendo escolas primárias usando critérios de bom investimento ou aprovação no vestibular, sem considerar que o desenvolvimento da criança passa por diferentes etapas. Crianças menores precisam de estímulos à criatividade, um ambiente acolhedor e pouca ou nenhum rigor pedagógico. Assim, poderão desenvoler melhor suas aptidões e, quando for  o momento adequado, performar academicamente de forma satisfatória.

Vemos crianças com agendas de fazer inveja a um executivo de multinacional! Essas crianças, como os bons executivos, se ressentem da falta de tempo. No caso das crianças, falta de tempo para ser criança. Simplesmente se divertir, brincar, sem obrigatoriamente estar fazendo algo produtivo, só sendo criança. Se criança também significa descansar, tirar uma soneca. Não só bebês precisam dormir, crianças até uns 5 ou 6 anos também. Quando não dormem ou descansam, ficam excitadas ou irritadas e os adultos interpretam como sendo falta de atividades e ainda acham mais coisa para a criança fazer!

Nos preocupamos com o futuro de nosss filhos, o que é humano e normal, mas, frequentemente, nos descuidamos do presente. Porque o mundo é competitivo e duro, não significa que as crianças devam competir e viver as durezas da vida, desde pequenas. É preciso que respeitemos as etapas de cada criança. Um bom exemplo é o da educação sexual. Quando seu filho lhe pergunta de onde ele veio ou de onde vêm os bebês, sua resposta será curta, objetiva, na medida do que ele pode entender e assimilar, neste momento. Jamais lhe dará uma explicação completa da anatomia, fisiologia e psicologia sexual do ser humano. Não fará isso porque ele ainda não está pronto para isso. O mesmo acontece com a realidade da vida adulta. Esta existe e temos a obrigação de educar nossos filhos para que possam ser pessoas adaptadas e felizes, nessa realidade. Para isso, precisamos respeitar os tempos e desenvolvimento de cada criança. Precisamos lembrar do que uma criança precisa ser criança e para isso:

  1. precisa de carinho. Não só o carinho da preocupação com as escolhas, mas o carinho físico. O embolar junto, beijar e abraçar muito.
  2. precisa de tempo com a família. Jantar ou almoçar com os pais e irmãos. Sairem todos juntos para um passeio ou programa.
  3. precisa brincar. Brinquedos criativos, brincadeiras ao ar livre, muita risada e gargalhada.
  4. precisam ler. Menos tempo de TV e computador e mais livros. Desde os 6 meses os pais podem e devem ler para seus filhos.
  5. precisam de elogio, reconhecimento. Claro que, a partir de uma certa idade, toda criança precisa aprender que existem limites. Cabe aos pais essa dura tarefa. Mas, na nossa cultura, elogio “estraga”. Isso é um mito. Falta de elogio mina a segurança e a auto estima. Elogiar, celebrar as pequenas conquistas, é fundamental.
  6. precisam de poucas regras vindas de manuais ou “experts”. O sentimento dos pais e os valores familiares devem prevalecer sobre regras externas. Ouvir opiniões e se aconselhar com pessoas em quem confiam é importante. Mas, isso é bem diferente de considerar que as regras externas são leis a serem obedecidas, mesmo que não façam o menor sentido para vocês, pais. Se não faz sentido, ignore!

Este é um tema polêmico. Como em todos meus posts, gostaria de ouvir (ler) os seus comentários.