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QUEM “DIPLOMA” O PAI?

Hoje, dia dos pais, acordei pensando nessa data. Claro que eu sei que é uma data comercial, cujo objetivo é ajudar o comércio, tão sofrido, a vender um pouco mais. Nesse sentido, é uma data que nos afasta do afeto e da emoção, na medida em que transforma um objeto (o presente) em símbolo do carinho. Reforça o paradigma da sociedade de consumo de que ter algo é o que nos faz ser alguém. Ou, que nossas emoções precisam de um objeto para se manifestar. Tudo precisa ter uma concretude, uma forma, um tamanho, para existir. Carinho é um vento, sem forma, sem peso, sem visibilidade, mas com muita presença. Mas isso é outra conversa, e não é por aí que eu gostaria de ir, ao menos hoje.

O que me ocorreu foi que eu não sou pai sozinho. Isto é, só sou pai porque a Carolina é minha filha. Isso é uma obviedade, mas que nos faz pensar, uma vez mais, que o ser humano só tem existência a partir do outro. Claro que não falo da existência biológica pura. Esta, a rigor, poderia existir, no isolamento total, ainda que poderíamos questionar se há isolamento total possível e, em havendo, se seria compatível com a vida. Na vida cotidiana, para o nosso dia a dia, temos inúmeros estímulos que nos remetem a um individualismo de performance. A ideia do indivíduo campeão. A vida não é assim e quando temos a oportunidade de nos lembrarmos disso, é bom pararmos para refletir um pouco. Lembrar que só sou pai porque a Carolina existe é uma dessas oportunidades. Como, para todos os pais que porventura lerem o blog, só o são, por conta dos filhos. Portanto, quem nos dá o “diploma” de pais, são os nossos filhos.

Talvez estejam se perguntando qual a importância disso? Onde esse pediatra e pai quer chegar? Quero chegar no ponto onde, se fomos diplomados por nossos filhos, estes, se formos atentos, certamente seguem nos ensinando, como em um processo de educação continuada. Carolina me ensinou e continua ensinando coisas maravilhosas que, talvez, façam parte do ensino que seus filhos ainda lhes oferecem.

Começo pelo afeto e amor. O nascimento de um filho dispara, de forma incontrolável, uma emoção inédita, ímpar. Para homens, criados em uma cultura com alguma restrição quanto à manifestação de emoções, o nascimento de um filho é uma janela que se abre em nossas vidas. Não dá para fingir que não está acontecendo nada. A emoção está ali, pulsando. É uma libertação de um preconceito tolo (qual preconceito não seria tolo?) que nos é dado, pelos nossos filhos.

Estabelecer contato físico. Alguns homens foram criados em famílias onde o contato físico era o normal. Outros, cresceram com um limite bem definido para o corpo. Um filho rompe essas barreiras. Desde bebê, ao pegar no colo, embalar, colocar próximo, até embolar em brincadeiras, agarrar na hora de dormir, fazer cócegas e gargalhar junto, filhos nos tornam menos assustados com o contato físico. Filhos nos ensinam que temos uma psiquê onde as emoções flutuam, mas é no corpo que elas se expressam e se realizam.

Desenvolver a criatividade. Filhos querem ouvir histórias, narrativas que, quanto mais fantásticas, mais encantam. Com nossos filhos, nos desligamos de uma lógica cartesiana, racional, e entramos no mundo do fantástico. Viajamos junto com nossos filhos, revivendo o prazer da fantasia. Aprendemos que a vida não é só uma trilha coerente, exata, precisa, demonstrável.

Aprofundar a curiosidade.  O que é um trovão? Por quê chove? De onde vem o sal do mar? Filhos fazem perguntas simples, impossíveis de serem respondidas sem que voltemos aos livros (ou google) para responder. Exigem um exercício de voltarmos a aprender.  Com nossos filhos, exercitamos a humildade do não saber e sentimos o prazer de aprender.

Manter viva a criança em nós.  Aprendemos, com nossos filhos, que temos todas as idades, ao mesmo tempo e podemos nos deliciar com isso. Rastejar de quatro pronunciando palavras incompreensíveis (adabadu, blu blau) ou ainda fazendo perguntas de forma bem lenta: quem é a queridinha do papai? Cadê a gostosura do papai? Podemos nos fantasiar, usar peruca, maquilagem. Ficamos escondidos atrás de árvores e corremos até o pique. Brincamos de amarelinha, jogo da memória e casinha. Assistimos filmes infanto-juvenis e secamos as lágrimas no escurinho do cinema. Filhos nos lembram que ser criança é muito bom.

Respeitar as diferenças. Filhos não seguem o plano que traçamos para eles. Começam a se “rebelar” contra o plano quando nascem e demonstram que possuem uma existência própria. Não se comportam como os livros diziam, muito menos os cursos de como ser pais. Choram de madrugada, mamam demais, mamam de menos. Um dia de um jeito, outro de outro. Crescem, revelando seus desejos e vontades. Sempre em busca da sua identidade, se rebelam aqui e acolá. Aderem a modas que não entendemos ou aprovamos. Escolhem profissão, amigos, parceiros. O aprendizado, contínuo é o do respeito às diferenças. Mais do que isso, a celebração da individualidade.

Mais do que tudo, filhos nos ensinam, desde pequenos, que pai não é o que fazemos e sim o que somos. Nosso amor, contato físico, criatividade, curiosidade e repeito pela individualidade, é que nos faz pais.  E, foram eles que nos ensinaram isso tudo!

No dia do pais, celebremos  o quanto nossa vida ficou mais afetiva, amorosa, alegre e divertida, com o “diploma ” que nossos filhos nos deram.

PS- na foto, Carolina, minha professora e eu.

 

 

SER PAI DA CAROLINA

Image (51) (2)Filhota,
Hoje, dia dos pais, fiquei pensando em o que eu gostaria de postar no blog. Primeiro, pensei em uma receita de pai. Pegar alguns ingredientes importantes e muitas vezes esquecidos no armário da cozinha da vida (afeto, ócio, escuta, contato físico, leitura conjunta, respeito à individualidade, reconhecimento de diferenças, limites)  e misturar com outros  (presentear, praticar esportes, viajar, ir ao cinema, comer sorvete), colocar tudo isso no forno do amor e tirar um pai maravilhoso, quentinho e prontinho para o dia de hoje! Pensei que  seria um contrassenso para alguém como eu que vive dizendo para os pais olharem para seus filhos que são únicos, sem dar bola para regras gerais, escrever sobre um pai genérico, ideal! Além do mais, esse pai não existe.

Recentemente você me mostrou uma carta que eu lhe escrevi quando você tinha três anos. Era uma carta onde eu contava algumas das coisas que você fazia e, de forma bem contida, descrevia meus sentimentos com relação a você e à paternidade. Então eu resolvi, para comemorar o dia de hoje, lhe escrever uma nova carta, 23 anos mais tarde, falando sobre como tem sido ser seu pai. Pode ser que muitas coisas do que eu escreva façam sentido para outros pais, outras não. Pode ser que algumas coisas inspirem os pais, outras não. O mais importante é que todos os pais celebrem, ao seu modo, o dia de hoje. Essa foi a forma que escolhi.

Ser pai de um bebê não é das coisas mais fáceis do mundo. No início eu não tinha função nenhuma, ficava ali rondando sua mãe, para ver se sobrava alguma coisa para fazer. É uma sensação esquisita, mas real. Tinha sempre uma troca de fralda, um colo para você arrotar, empurrar o carrinho e coisas assim. Dessa fase, me lembro de ser um pai mais ousado do que a média, fazendo coisas que espantavam um pouco as pessoas. Com 5 dias de vida saímos para almoçar com você! Com menos de um mês, descobri que o melhor lugar para limpar o seu bumbum era no tanque da área. Como você nasceu em fevereiro, pleno verão, a água saía morna e era o lugar onde mais facilmente eu conseguia te limpar. Eu andava com você literalmente pendurada no meu ombro. Isto é, seus braços ficavam para trás, suas axilas encaixadas no ombro e eu andava sem segurar você! Era um espanto. Você teve, nessa época, um pai que era bem abusadinho com as “regras” de como se deve fazer isto ou aquilo.

Com o crescimento, começa uma interação deliciosa. Você sempre foi tagarela, curiosa e muito alegre. Cedo, começamos a andar de bicicleta (naquela época ainda sem capacete, coisa que jamais faria hoje!). E lá íamos nós pela orla com as pessoas gritando: olha o pescoço dela! É que você dormia e sua cabeça pendia para um lado ou para ou outro, para desespero dos pedestres!  Depois, vem a fase da escola, com seus espetáculos de fim de ano. Ver você, mínima, declamando e dando uns pulinhos, me levou às lágrimas. E assim se inaugurou uma novidade na minha vida: chorar em espetáculos de encerramento de ano. Até na sua adolescência, naqueles intermináveis espetáculos de encerramento do ballet com 537 turmas (e você, invariavelmente era uma das últimas), lágrimas escorriam pelo meu rosto.

Faço aqui parêntese e um registro para algum  pai que esteja lendo este post. Valeu a pena estar presente em cada um desses momentos, como valeu aImage (54) (2)pena ter ido à maioria das reuniões de pais, na escola, independentemente do horário. Não só pelo lado objetivo de saber o que estava acontecendo, do progresso da filha, mas, principalmente, pela emoção que gerava em mim. Não me pergunte porque gerava emoção. Emoção, por definição, não é racional! Só sei que ouvir de uma professora um relato sobra a minha filha, produzia em mim uma emoção deliciosa. Por isso recomendo fortemente a todos os pais que se esforcem por comparecer no máximo que puderem. De brinde, ganham uma emoção!

Me lembro que dentre as minhas preocupações de pai estava a de que eu queria muito que você fosse uma pessoa analítica e crítica. Tínhamos conversas curiosas, com você pequena. Destas, nasceu um mote ou mantra: paciência e criatividade, nessa ordem! Foi uma fórmula que surgiu de conversas sobre problemas que enfrentávamos (você tinha uns 5 anos!) e concluímos que se tivéssemos paciência e criatividade, poderíamos resolver muitas coisas. Um dia, viajando, você me disse algo como: quando as pessoas morrem paciência e criatividade não resolvem. Eu fiquei quieto, sem saber o que dizer. Aí você emendou- resolve sim, é só dizer que a pessoa virou uma estrela! Certamente você tinha ouvido isso de alguém, em algum momento, mas, juntou com o nosso mantra e, para aquele momento, resolveu a angústia da finitude humana! Um segundo mantra, mais ou menos da mesma época, foi: quem disse que a vida é justa? Isso surgiu porque, parte dos seus argumentos era: mas isso não é justo! Quase sempre invocado por você quando lhe dávamos um limite ou negávamos algo que queria.

Outra preocupação da sua mãe e minha é que fosse independente. Ambos temos a independência,liberdade e autonomia como valores fundamentais e  sempre pensamos em como te dar as condições para ser assim. Ler, foi um dos caminhos. Na leitura encontramos não só o estímulo para o pensamento, como intermináveis situações humanas. Seus pais gostam de ler e sequer tinham um aparelho de TV na casa, quando você nasceu! Você não teve muita opção e se tornou uma leitora desde pequena. Um dos nossos programas era ir na Malasartes, no Shopping da Gávea ler e comprar livros. Lá, D. Yaci, com a sua interminável paciência, nos orientava. Outro caminho para lhe ajudar a construir sua autonomia foi deixar que fizesse coisas sozinha, cedo. Você ia em festa de criança, sem babá ou adulto que ficasse com você. Te deixávamos e perguntávamos a que horas era para pegar. Isso me rendeu o rótulo de um pai descuidado que abandona a filha em festas! Também permitimos que viajasse sozinha, cedo. Aos 7 anos você você foi para uma colônia de férias, no Canadá, acompanhada por seus responsáveis primos de 12 ou 13 anos!  Aos 15 anos, passou 6 meses na França, morando na casa de uma família. Um outro caminho foi a escolha da sua escola. Queríamos que você pudesse ser, se quisesse, uma cidadã de qualquer lugar do mundo, não só do Brasil. Mas, na minha opinião, o que mais contou e conta no desenvolvimento da sua autonomia e independência foi o modelo ou exemplo da sua mãe.

Outro momento marcante foi o seu ingresso na universidade. Você foi aceita para Yale, uma das melhores universidades americanas.Na sua”formatura” do segundo grau, fui surpreendido com a notícia de que você tinha sido a melhor aluna da escola. Foram momentos de grande alegria e emoção. Algo que, na cabeça de um pai funciona mais ou menos assim: o mundo é duro e é preciso ter aptidões para sobreviver bem. Boa performance escolar não garante isso, mas, pode ajudar. Dá um certo alívio ver um filho progredir no mundo acadêmico. Seus 4 anos na universidade como que fecharam um ciclo de querer que fosse independente, autônoma, livre, cidadã do mundo. Acho que sentimos algo como se uma  das missões dos pais estivesse  cumprida.

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Até aqui, fiz uma crônica, curtíssima, desses meus 26 anos de ser seu pai. Quero te contar um pouco da emoção que isso representa para mim. Primeiro, quero te dizer que nem sempre fui o pai que eu gostaria ou idealizei e imagino que não fui o que você queria ou precisava,em todos os momentos. Mas, também acredito que, take or give, o saldo é positivo! Dito isso, a maior revelação que você me traz é com o sentimento do amor. É algo inédito, diferente, único e indescritível. É um amor especial, não digo incondicional, mas, diferente de tudo. Um sentimento delicioso de ligação com alguém. Te amar, além de delicioso, mexe comigo. Como sabe, sou duro na queda para afetos. Sou um racional convicto que briga com suas emoções. Você sempre teve a capacidade de burlar todos meus mecanismos de proteção. Sei que você ainda reclama, achando que sou pouco afetivo, mas, da minha perspectiva, que progresso! Junto com o amor ou como parte dele, a imposição de aceitar as diferenças. Digo imposição porque, ao menos para mim, nem sempre é fácil admitir que a minha filha pense assim ou assado. Como pode? Mas, como a tela é feita de amor, a pintura pode aparecer e, nesta, percebo, olho, brigo e aprendo a respeitar diferenças. Outra emoção que você sempre despertou em mim foi a de sentir orgulho. Ver você ser você, sempre me deixou muito orgulhoso. Isso, eu tenho a certeza absoluta que eu sempre te disse!  Tenho um orgulho enorme em ser seu pai.

Como a vida segue, estou sentindo novas e deliciosas emoções com você e Sylvio morando juntos. Me pego pensando carinhosamente nos dois, querendo muito que sejam felizes e que se divirtam na vida, juntos. Até consigo ver que, nesses 26 anos você fez o seu trabalho de educar seu pai, direitinho. Não ligo muito, não vou na sua casa sem convite, estou quieto no meu canto e sei que você sabe que pode contar comigo, sempre. Me sinto feliz nessa posição de espectador de um casal se formando. É como um bastão que é passado e cabe a vocês seguir o destino darwiniano que temos (sem pressa, por favor!). Haverá um dia em que escreverão para um filho e, talvez, dirão algo como- quando eu tinha sua idade, seu avô me escreveu…

O post está longo e eu poderia continuar e continuar. Mas, preciso me lembrar que escrevo em um blog, público e que, ao menos em princípio, devo tratar de algo que seja do interesse de todos.  Para os pais que celebram o dia de hoje, a única mensagem que eu tenho a dar, depois desta carta para a minha filha é: pelo menos hoje, deixem de ser racionais e se entreguem à emoção! Se isso significar rolar no chão agarrado a um bebê, ótimo. Se for colocar no colo um filho e uma filha e, silenciosamente, ficar abraçados, ótimo. Se for deitar no colo de uma filha ou filho e deixar que um cafuné seja feito, ótimo. Hoje é o dia da emoção irracional. Hoje é como um carnaval ao contrário. Hoje é dia de rasgar a fantasia, mostrar quem somos e cairmos na folia!

Bom dia amoroso dos pais para todos!

Obrigado filhota por me fazer mais amoroso !

 

 

 

E O PAI?

Há um movimento crescente em torno da figura do pai, dentro de uma família. Volta e meia surgem matérias sobre a licença-paternidade em outros pai1países, mostrando diferenças importantes na forma com que a sociedade encara a importância do papel do pai na formação dos filhos e até a importância dos filhos no afeto dos pais. Os pais, no Brasil, com frequência assistem ao nascimento dos seus filhos. Muitos acompanham as mulheres nas consultas de pré-natal e nas primeiras idas ao pediatra. Pais são bem-vindos em cursos que pretendem ensinar o que já sabemos, não sendo mais  exclusivos para a mulher. Assim, a figura do pai, de alguma forma, está presente quando se fala em filhos. Existe até uma frase – não basta ser pai, é preciso participar – que sintetiza bem o que vem ocorrendo. Não gosto dessa frase porque o pai não é um participante (tomar parte em), mas, um protagonista (papel de destaque num acontecimento). É uma sutil, porem importante diferença. Voltarei a ela mais adiante.

Uma das características do ser humano é considerar que o mundo sempre foi como nós o percebemos. Para sermos justos, não exatamente igual, porque, afinal de contas, somos capazes de reconhecer o progresso tecnológico e algumas mudanças culturais. Mas, não faz parte do nosso “chip mental” recuar muito mais do que 500, 600 anos. Eventualmente, alguns que gostam de história, são capazes de imaginar o mundo dos gregos, em torno de 2500 anos atrás. Um tempão! Considerando que estamos por aqui há algo como 170 mil anos,  vamos convir que 2500 anos é muito pouco.

Por que fiz esse desvio, se o post é para ser sobre o pai? O que uma coisa (perspectiva histórica) tem a ver com o papel do pai? Tudo! O que entendemos como papel do pai é fruto de um modelo de organização social baseado no trabalho, na noção de propriedade privada, na instituição do casamento etc. O que pensamos como modelo do pai é o que nossos bisavôs eram, seguidos dos avôs e dos nossos pais. Homens que trabalhavam, gerando o sustento da família, enquanto as mulheres se incumbiam de toda a administração da casa e dos filhos. Esse é provavelmente o modelo que sempre existiu, desde que o homem passou a viver em cidades. A ruína mais antiga do que seria uma cidade, é de aproximadamente 9 mil anos atrás. E antes disso, como vivemos durante 160mil anos? Muito provavelmente em pequenas comunidades, tribos ou bandos.

Agora, vamos fazer um exercício de ficção no passado. Como seria o papel do pai em uma cenário como este?  A primeira pergunta é se haveria um pai! Pode ser que sim, pode ser que não. Mas, provavelmente, esse bebê era cuidado pelo grupo. Mulheres e homens se envolveriam com o cuidar das crianças. No mínimo, porque haveria uma proximidade física, uma intimidade e uma ausência completa de compromissos profissionais, reuniões e viagens de negócios. Os homens deveriam prover o grupo com a caça e a defesa da comunidade. O restante do tempo era de convívio. Isso é uma ficção porque não sou nem historiador, nem antropólogo. Mas, pensar que algo assim, ou próximo a isso, aconteceu por uns 160 mil anos e nós nem conseguimos imaginar, é espantoso. Pensamos que o relógio, o compromisso profissional, o salário e as contas a pagar, sempre fizeram parte da nossa história, chegando a se confundir com a nossa natureza. Ser pai era algo que não exigia nenhuma reflexão, nenhum auxílio ou benefício social, nenhum curso, nenhuma teoria psicanalítica ou filosófica. Ser pai era algo que acontecia com a naturalidade da natureza (não resisti ao pleonasmo!).

Mas, vivemos em um mundo que não é e nunca mais será aquele. Nesse cenário de hoje, o que é ser pai ou, o que queremos para o nosso papel de pais. Vivemos em cidades, nos organizamos socialmente em torno da família e  a caça contemporânea não é a de voltar para casa com um animal nas costas, mas com dinheiro no bolso, fruto do nosso trabalho. Como conciliar essas necessidades reais com o desenvolvimento de nossos filhos?

De uma maneira superficial e simplista eu vejo dois cenários onde podemos atuar. O primeiro, é o cenário social. Ao invés de nos afastarmos das discussões sobre licença paternidade, ofertas de creches  e  todas as questões relacionadas à rede de amparo social que pode ser estabelecida, nos aprofundarmos para além de preconceitos ou visões dogmáticas. Não estou aqui defendendo que se ofereça isto ou aquilo como benefício ou serviço. Apenas, que temos ou podemos ter a responsabilidade de discutirmos que sociedade queremos para nós. O que consideramos moralmente aceitável e o que é viável de ser feito. Sem nos aprofundarmos nisso, delegamos para outros que pensem e tomem as iniciativas que, não necessariamente, serão as que preferimos. Portanto, se vivemos em uma polis, não há como não ser um ser político. Ser político não significa ter um partido ou uma convicção filosófica (liberal, capitalista, socialista, anarquista, monarquista, parlamentarista etc.). Significa compreender a importância de investir parte do seu tempo individual para pensar  o coletivo, agindo coerentemente.

O segundo cenário é o individual.  Retomo a brincadeira do início do post. Não basta participar, é preciso protagonizar. Quem participa é alguém que está ali enquanto as coisas acontecem. É alguém que se coloca na posição de ajudar, contribuir, colaborar. Ora, quem ajuda, ajuda o outro a fazer o que é, de obrigação deste outro. Eu ajudo com os filhos, levando na escola. Eu ajudo, trocando as fraldas. Quem protagoniza é alguém a quem cabe fazer.  O pai protagonista é um pai que tem plena consciência de sua relevância e não delega para ninguém o que é função dele. É um pai que usa o “chip” histórico que temos, ainda que meio desligado. Mesmo que o ato seja parecido (levar na escola, trocar as fraldas etc.), a postura é diferente. O pai protagonista quer fazer essas funções porque lhe pertencem e não as faz para “ajudar” ou “aliviar” a mãe. Isso não impede que um protagonista também possa ser um participante e ajude, em determinados momentos, à mãe. Alguns pais que eventualmente lerem o post poderão dizer: mas se eu levo na escola, troco as fraldas ou dou de comer, não faz a menor diferença se sou protagonista ou participante. A diferença é enorme. É a diferença de você estar na platéia ou no palco de um show. Na plateia, você participa, aplaude, pula, dança, canta etc. No palco, você faz o show. O show é seu!

Mas, tenho uma suspeita que vou revelar aqui. Nós homens (não todos), temos alguma dificuldade com o que não é racional e lógico. Ficamos embaraçados com o que é emocional e simbólico. Participar nos deixa suficientemente perto do afeto para sentirmos o seu gostinho, mas, ao mesmo tempo, o tanto de longe que precisamos para não ficarmos sem jeito ou sem graça. Protagonizar é correr o risco de se deixar afetar. Talvez por isso, nós sejamos bons participantes. Está na hora de percebermos que estamos de fora do melhor da festa: o afeto! Filhos dão muito trabalho, sem dúvida alguma. Dão muito prazer também. Mas, se formos protagonistas, nos darão algo indescritível. Algo que mães conseguem viver sem ficarem confusas ou enroladas- amor. Está na hora de não ficarmos de fora dessa festa!

NÃO BASTA PARTICIPAR, É PRECISO SER PAI!

Image (15)A frase do título está correta? Não era o oposto- não basta ser pai, é preciso participar? Talvez, mas, resolvi brincar um pouco com as palavras e, consequentemente, com as ideias e sentimentos.

Participar é fundamental. Participar é um verbo, verbo é ação e ação é algo que nós homens entendemos muito bem. Ação é fazer algo e nisso, nos consideramos bons. Existem muitas coisas que podemos (e devemos fazer), sem dúvida alguma.

Quando o bebê chega, podemos fazer todas as funções que aliviem a mãe para que esta possa ficar dedicada ao recém nascido. Podemos cuidar do bebê na hora de trocar uma fralda, dar um banho ou colocar para arrotar. Tudo que permita à mãe um momento de repouso é uma enorme contribuição e participação. Podemos segurar o bebê no colo em momentos de choro intenso, permitindo que a mãe saia de perto e não fique exposta a uma tensão enorme. Se existem outros filhos, podemos ficar mais próximos destes, dando-lhes atenção, conversando, brincando, saindo com eles,  e ajudando-os a se sentirem queridos e importantes, assim se adaptando à chegada do um novo irmão. Podemos ser os “leões de chácara” do ambiente, procurando assegurar o conforto e segurança da mãe e do bebê. Devemos ser  incentivadores do aleitamento materno, bloquendo as ações “terroristas” que tentarão minar a amamentação (esse bebê chora demais, só pode ser o leite que está fraco. Dá logo uma mamadeira!). Não existe leite fraco e é da natureza dos bebês chorarem.

Podemos abraçar e acarinhar a mulher, fazendo com que se sinta querida. Se nós homens nos sentimos excluídos nos primeiros meses, as mulheres se sentem ameaçadas pela dúvida de serem capazes de retomar a vida, voltando a ser o que eram, mulheres por inteiro e não apenas mães.

Temos também uma ação fundamental no desenvolvimento dos filhos que é a introdução do limite. Claro que isso não acontece nos primeríssimos meses, mas o primeiro limite que devemos introduzir é o de que a mãe não tem dedicação exclusiva e tempo integral para o bebê. Isso acontece mais em torno do sexto mês, mas é uma função importantíssima. O bebê aprenderá, por nosso intermédio que a mãe que era só dele, não é mais. Passará a ser uma mãe compartilhada, com os demais da família. Outros limites se seguirão ao longo da vida da crianças e o homem é, em geral, o que detém a responsabilidade  de interditar o que não é para ser feito. Claro que a mãe também tem essa função, mas há uma força na interdição masculina que é muito importante.

Poderia continuar listando uma série de ações que nós, pais, podemos fazer para participarmos do desenvolvimento de nossos filhos. Mas, o que dizer do ser pai?

Ser pai é nos permitirmos ter acesso a um aspecto que, na nossa cultura, é “surrupiado” de nós homens, o afeto, a emoção. Ser pai é contribuir para que nossos filhos sejam pessoas felizes. Não há a menor dúvida de que todas as ações descritas acima, estão relacionadas com a felicidade dos filhos. Algumas, por serem vitais (agasalhar, alimentar, proteger) antecedem a própria ideia de felicidade porque falam da sobrevivência. Mas, existem momentos, muitos, onde não devemos fazer nada. Momentos onde a nossa presença, nosso exemplo, o que somos, é mais importante do que nossa capacidade de organizar, planejar, comprar, levar, trazer etc. Esses são os momentos onde estamos sendo pais, sem estaramos fazendo nenhuma ação. Um olhar de carinho e admiração, um abraço afetuoso, uma palavra de reconhecimento, são momentos que contribuem para a felicidade dos filhos e nossa, pais. O brincar, sem estar focado no brinquedo e sim no encontro que proporciona, na criatividade que gera, no afeto que circula, é um momento onde podemos ser pais. Ainda que estejamos fazendo algo, ao mesmo tempo, estamos simplesmente Image (17)presentes, envolvidos, conectados, aos nossos filhos.

Neste dia dos pais, meu desejo é que todos nós consigamos fazer menos e sentir mais. Desejo que possamos ignorar convenções, preconceitos, regras, dicas, e sentirmos a emoção que é ser pai. Ao sentirmos essa emoção, sugiro que agradeçamos aos nossos filhos. Afinal, são eles que nos tornam pais!

Nas fotos, Carolina, a que me fez e faz ser pai. Obrigado, filhota!