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PAIS OU AMIGOS?

parents as friendaPais não são amigos dos filhos. Começo o post com uma afirmação categorica para deixar bem clara a minha posição neste tema e produzir reflexão ou até contestação.

Amigos ocupam um espaço nas nossas vidas (e dos nossos filhos), muito bem definido. São pessoas com quem temos alguma identificação, afeto e, principalmente, confiança. Ora, quem mais do que os pais não teriam esses atributos? Concordo. Mas, os pais, além desses atributos fundamentais, têm uma função que amigos não exercem. Pais são os responsáveis pelo  estabelecimento de limites para seus filhos. Cabe aos pais manifestar seu desagrado com certos comportamentos ou atitudes que não consideram adequados. Esse juízo feito pelos pais se baseia nos seus valores e crenças e os filhos devem aprender a conviver com estes, ainda que não concordem plenamente e, na vida adulta, incorporem novos ou outros.

Alguns poderão contestar dizendo que amigos também colocam limites, dão “toques”, advertem e aconselham. É verdade, mas, com toda franqueza, essa atitude, importante e carinhosa dos amigos, tem o mesmo peso que a dos pais? Acredito que não. Além disso, esse papel de amigo que adverte e avisa quando percebe que o outro pode estar se colocando em situação de vulnerabilidade (de qualquer natureza), só acontece, na melhor das hipóteses, em plena adolescência ou, mais provavelmente, só na vida adulta.

Amizade é uma relação bi-lateral, que flui, de forma simétrica, para ambos os lados. Entre amigos, não há hierarquia. Pode haver respeito e admiração por algum atributo ou capacidade que o amigo tenha, mas, ambos são e se sentem iguais na relação. Tanto que é uma relação onde não há assunto para um só abordar e o outro ouvir e aconselhar. Amigos se alternam no papel de ouvintes, sem uma regra pré-definida, de acordo com a necessidade de cada um. Pais, por outro lado, não possuem essa simetria com seus filhos. Há um hierarquia e é importante que esta exista. Abrir mão dessa posição é, potencialmente, não dar aos filhos os limites necessários para seu bom desenvolvimento.

Pais que seduzem seus filhos com o argumento da amizade, buscando acessar a privacidade dos filhos, cometem um grave engano e podem se ver em uma situação hipotética constrangedora. Imagine um filho ou filha que, aceitando o argumento da amizade, se vira para o pai ou mãe e diga: “agora me conta você o que te angustia”? Ou, qualquer outra pergunta perfeitamente normal, entre amigos, mas que pais jamais responderiam, se perguntados pelos filhos! Talvez a resposta seria: “o que é isso? isso é lá pergunta que se faça a seus pais? ” Resposta perfeita que demonstra que pais não são amigos dos seus filhos.

Pais podem e devem estimular a confiança dos filhos neles, para que se sintam confortáveis de procurá-los diante de qualquer dificuldade, seja da natureza que for. Isso não é ser amigo. É ser pai ou mãe. É uma postura de respeito à privacidade e, ao mesmo tempo, de abertura e acolhimento para o que for que os filhos precisem. Do mesmo modo, pais podem e devem ser companheiros dos filhos. Estar juntos, em ambiente de camaradagem, é perfeitamente compatível com o papel bem definido dos pais e não é uma exclusividade da amizade. Brincar, se divertir, é algo que pais devem fazer, sempre. Isso não os transforma em amigos, mas, em pais carinhosos.

Mas, afinal, qual o problema dos pais serem amigos dos filhos? De um modo superficial, nenhum. Mas, como amigos não têm a função de colocar limites, exercer a autoridade sobre o outro, ao se colocarem nesta posição os pais podem abrir mão destas funções fundamentais na formação de uma adulto seguro,  com capacidade de, mantendo sua autonomia, ser socialmente integrado. Confundir autoridade com autoritarismo, amor com ausência de limites, pode ser um equívoco que cobre um preço caro ao bem estar de nossos filhos, na vida adulta.  O fato da vida obrigar os pais a longos períodos longe de seus filhos, por conta do trabalho, não deveria ser motivo para que estes “compensassem” essa distância ou ausência com uma postura mais “boazinha”, de amigo.

Sejamos amorosos, carinhosos, afetivos, companheiros, camaradas de nossos filhos. Deixemos as portas sempre abertas para tratar de qualquer assunto que queiram, fazendo com que sintam segurança de nos procurarem. Mas, que fique bem claro, primeiro para nós e, depois, para nossos filhos que pais não são amigos. Nossa relação não é pior nem melhor do que uma de amizade. Ela é diferente e exclusiva. Somente nós podemos oferecer essa relação aos nossos filhos. Não vamos abrir mão desse lugar privilegiado  de pais, que permitirá o pleno desenvolvimento dos nossos filhos. E que tenham muitos amigos!