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DE REPENTE JÁ É NATAL!

Quando a gente menos espera, já é dezembro e, num piscar de olhos, o Natal chegou!  As lojas se enfeitam e ficam abertas até mais tarde, Papais Noel se multiplicam pelos shoppings e esquinas, listas de presentes são feitas e ainda compramos algo unissex para aquela pessoa que não sabemos quem é, mas que, certamente, teremos esquecido. Amigos ocultos e confraternizações ocupam nossos dias. Não há como esconder um Natal! Mas, o que escrever? Algo que seja original, divertido, sem ser bobo, lugar comum ou piegas. Difícil.

Reli meus últimos posts de natal: Papai Noel existe? e Natal é emoção, não razão e me deu vontade de misturar os dois e fazer o post desse ano, contando com a altíssima probabilidade de que ou não leram ou não lembram o que eu já tinha escrito. Seria um caminho fácil, mas pouco criativo. Resolvi então fazer um post para os adultos!

Natal é uma celebração da confraternização. Confraternizar significa estar junto do irmão (com= junto + frater= irmão). E quem é esse irmão? Ora, irmão é quem é filho da mesma mãe e/ou do mesmo pai. Podemos pensar nos nossos pais biológicos, genitores imediatos, como podemos pensar em Lucy, símbolo do primeiro homo sapiens.  Seguindo esse mesmo caminho, podemos retroceder, de forma Darwiniana e afirmar que todos os mamíferos são nossos irmãos. Por que parar nos mamíferos? Toda forma de vida animal é nossa irmã. Se você é uma pessoa religiosa, acredita que todos somos filhos de Deus. De um modo ou de outro, somos todos irmãos. Estar junto do irmão pode ser tanto aquele imediato, com quem me engalfinhei na infância, meu rival pelo amor dos meus pais e, ao mesmo tempo, meu companheiro solidário, na vida. Como também pode ser estar junto de outros humanos, tão parecidos e tão diferentes de mim. Pode ser ainda, estar junto de todas as formas de vida que conhecemos no nosso planeta.

Estar junto dos irmãos, celebrando a vida (Natal= nascimento= vida), exige que desenvolvamos a capacidade de respeitar o outro nas suas diferenças, não apenas com uma postura tolerante, mas de aprendizado. Exige que tenhamos uma abertura para o novo, eventualmente chocante ou conflitante com meus valores. Exige humildade e flexibilidade, competências que só adquirimos se as exercitarmos, já que retornar à infância onde ainda não tínhamos valores morais definidos pela nossa cultura e tudo era fascinante, é impossível. Forjados pela nossa cultura, olhamos para outras com desconfiança ou desdém. Mesmo dentro da nossa cultura, olhamos para as diferenças com desconfiança, partindo da premissa que meus valores são os “corretos”. Recusamos, pelo estranhamento que nos causa, as diferenças.

Confraternizar não é disparar centenas de WhatsApp com uma foto, música e mensagem açucarada. Não é apenas dar um presente por conta de obrigações sociais. Não é desejar um feliz natal repetido, mecanicamente, como um papagaio, sem emoção ou, pelo menos, sinceridade.

Confraternizar é exercitar o silêncio para que o outro possa ocupa-lo. É desenvolver a escuta, para que o outro possa se fazer presente e, com sua presença, me impressionar (ao invés de só me espantar). Confraternizar é negociar, ao invés de polarizar. Diferenças não significam, obrigatoriamente, inimizades, raiva e ódio. Confraternizar é resgatar a nossa essência de seres sociais por natureza, com a capacidade de utilizar a comunicação para nos expressarmos, trocar ideias e nos organizarmos. A cultura vigente, quer nos fazer crer que há uma competição permanente, fazendo com que meu irmão seja uma ameaça constante. Confraternizar é se colocar contra essa imposição cultural e nos inspirarmos nos nossos primos, os Bonobos. Confraternizar é deitar, sem medo, a cabeça no colo do outro e deixar que faça um cafuné, sem que se precise de um motivo, apenas pelo prazer de estarmos juntos.

Confraternizar é mais do que afeto, emoção. É uma posição política ou de cidadania. É se colocar contra as discriminações de raça, gênero ou credo, não como uma declaração genérica de boas intenções, mas como uma prática diária de atenção e combate às formas mais dissimuladas de racismo, sexismo e intolerância religiosa. Confraternizar é se expor, pelo outro.

Finalmente, para não deixar de falar nas crianças, confraternizar é respeitar a enorme criatividade dos nossos filhos, tomando o devido cuidado para que no processo de educa-los, não estejamos criando autômatos a serviço da economia (qualquer economia), mas seres humanos, emotivos, afetivos, inovadores, questionadores, respeitadores, integrados no mundo (e não destruindo o mundo e seus irmãos). Para isso, não bastam as palavras (de pais ou de um blog), é preciso o exemplo vivo, a ação, a prática da confraternização.

Para os que leem o blog, meu abraço fraterno, desejando a todos um Natal muito alegre.

PAPAI NOEL EXISTE?

Ora, até uma criança sabe a resposta a essa pergunta: claro que existe! Existe porque somos seres simbólicos e adoramos uma fábula. E não sãosanta só nossos filhos que adoram uma historinha. Nós adultos, mantemos esse fascínio por fábulas. Claro que não são mais histórias de princesas, dragões, porquinhos e bruxas. Mas, adoramos ouvir fábulas de suplementos, vitaminas, cremes, alimentos que fazem isso ou aquilo, novos exercícios que fazem perder milhares de calorias em poucos minutos, métodos para mantermos a memória ou aumentarmos a libido, livros que garantem a felicidade plena em 10 passos, sem esquecer a quantidade de pessoas que devolvem a pessoa amada em três dias! A lista de fábulas que nós adultos nos contamos mutuamente é interminável. E ainda temos a ousadia de questionarmos se Papai Noel existe!

A fábula tem uma função importante no desenvolvimento das crianças ao estimular a criatividade e contribuir para que elas lidem com as questões da vida, inicialmente de forma lúdica. Nesse contexto, não há nenhuma discussão a respeito da existência do Papai Noel. Só nos resta definir que Papai Noel vai existir. Como assim, existe mais de um Papai Noel? Sendo uma narrativa, existirão tantos Papais Noel quantas narrativas existirem. Mas, basicamente, existem dois Papais Noel e devemos escolher qual deles será o que vamos apresentar aos nossos filhos.

Existe o Papai Noel que representa a sociedade de consumo, trazendo presentes, se tornando o destinatário de listas intermináveis de pedidos. De alguma forma, esse Papai Noel existirá em todas as narrativas porque vivemos em uma sociedade onde o consumo é algo hipertrofiado e que, muitas vezes, preenche vazios existenciais das pessoas. Esse vazio não é só dos adultos que acabam confundindo ser com ter. Para muitos, o que eu tenho define quem eu sou. Como a possibilidade de ter é sempre infinita, a sensação de ser é frágil e sujeita aos modismos de consumo. Assim que eu acabo de comprar o tablet de última geração, me tornando alguém, lançam outro e passo a me sentir vulnerável, inseguro, por não TER o último modelo. Se os pais são consumistas ou mesmo que não sejam, mas por vários motivos se sintam “devedores” dos filhos (trabalham muito, por exemplo), podem tentar “compensar” com a compra de presentes. Esse Papai Noel é o do comércio que tenta nos confundir com mensagens que embaralham objetos, coisas, com afeto e emoção. Esse Papai Noel de listas enormes e pouco ou nenhum limite, é uma narrativa que ensinará nossos filhos a se tornarem consumidores vorazes, muitas vezes na tentativa de preencher uma lacuna que não é de coisas materiais. Esse é o Papai Noel que incentiva o egocentrismo porque a minha felicidade está em ter o que o outro não tem.

Existe um outro Papai Noel que representa a bondade, solidariedade e generosidade. Um Papai Noel que fala sobre quem somos, antes de falar sobre o que temos. Um Papai Noel que recebe uma cartinha onde eu conto o que eu fiz no ano que passou e não só uma lista do que eu quero. Quando pedimos a nossos filhos que escrevam contando o que fizeram, estamos dando a oportunidade (e o aprendizado) de que parem um minuto para pensar nas suas realizações e não só nos seus desejos de possuir algo.  Um Papai Noel que tem limites nas possibilidades de presentear, que associa presentes a algum mérito e que coloca cada criança como fazendo parte de um universo de outras crianças (ele tem muito trabalho, precisa visitar todas as crianças), fazendo com que cada uma se sinta especial, mas não única. Esse Papai Noel é o do afeto e do carinho. É o que ensinará nossos filhos que as coisas (objetos) fazem parte das nossas vidas e nos dão muito prazer, mas que nossa felicidade não pode ser definida pelo que temos e sim por quem somos. Somos humanos e como tal, seres carregados de emoção e empatia, além de, também, sermos racionais. Somos, originalmente, gregários, dependendo uns dos outros. Podemos (e somos) diferentes em muitas coisas, mas, nem melhores, nem piores do que ninguém. Esse é o Papai Noel que incentiva a solidariedade porque, diferente do que ocorre com objetos, quanto mais dividimos emoções e sentimentos, mais se multiplicam.

Cada família vai escolher qual narrativa de Papai Noel quer para si e, consequentemente, para seus filhos.

Um Natal alegre e afetivo para todos!

NATAL É EMOÇÃO ( E NÃO RAZÃO)!

santa-claus3Se fossemos  só racionais, não poderíamos celebrar o Natal, no dia 25 de dezembro. Nesta data, os cristãos celebram o nascimento de Jesus e, com ele,todo o simbolismo da renovação e esperança. Mas, Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro. Não sabemos exatamente quando ele nasceu, mas, esta data, 25 de dezembro, foi definida pela Igreja em meados do século IV. Mas, isso não importa.

Se fossemos só racionais, não poderíamos celebrar o Natal utilizando a figura do Papai Noel, simplesmente porque ele não existe. E, como sabemos, racionais, se atém aos fatos demonstráveis. Mas, isso não importa.

Ainda, se fossemos só racionais, não utilizaríamos, no Brasil, um pinheiro conífero para ser o símbolo da árvore de Natal . Mas, isso não importa.

Com tanta propaganda (enganosa) de que o ser humano é racional, como é que celebramos o Natal, no dia 25 de dezembro? A resposta é simples: seres humanos, ainda que sejam capazes de utilizar a razão, são seres simbólicos. A emoção precede a razão. Olhamos para uma pessoa e antes que ela diga qualquer coisa, já fizemos uma avaliação. Seja pela roupa, asseio pessoal, adereços (todos símbolos), na nossa cabeça, formamos uma opinião prévia (e irracional) a respeito dessa pessoa. Quando vemos uma obra de arte ou ouvimos uma música, não precisamos conhecer nada sobre teorias, técnicas, escolas, história, para dizermos se gostamos ou não do que estamos vendo ou ouvindo. Esse gostar vem da emoção que é despertada em nós pela visão ou audição. E isso é o que importa!

O Natal é uma emoção! Emoção, do latim, significa um movimento para fora (ex- para fora; movere- movimento). E o que se move para fora? Aquilo que normalmente fica trancado (pela razão?)  que é a nossa essência, nosso eu (sem tecnicalidades psi). Ao se mover para fora, pode encontrar o outro, o semelhante (ou diferente) humano. É nesse movimento para fora que se dá o nosso encontro. O encontro dos seres humanos não se dá na razão. Até nesta, há emoção. Ao ouvirmos um brilhante palestrante, ficamos encantados (emoção) com sua ideias (razão). Matemáticos, que conversam nessa língua universal que são os números, costumam falar em beleza de equações. Isto é, se emocionam ao ver o belo, nos números, tanto quanto nós, nas artes.

Muitas pessoas, extremamente racionais, entre as quais eu me incluo, podem sentir algum desconforto com um momento como este, emotivo e afetivo. Em geral se prendem aos aspectos racionais “brigando” contra o Natal, como o personagem Grinch, que odiava o Natal. Ficamos, suponho, muito assustados com a impossibilidade de controlarmos nossos sentimentos, enquanto a racionalidade nos dá uma sensação (ilusória?) de controle e segurança. Minha contribuição, “anti-Grinch” é este post!

Pouco importam as datas e os fatos objetivos relacionados ao Natal. Pouco importa a febre consumista que nos faz ficar obcecados com a compra de presentes e emoções Chagall2irritados com ruas e lojas lotadas. Pouco importa uma certa hipocrisia em que votos são repetidos como uma fórmula de boas maneiras. Há no Natal, uma anistia para a ditadura da razão e podemos, por alguns momentos, olhar para o outro, abraça-lo, beijá-lo e nos  sentirmos humanos, solidários, juntos.

Meu abraço carinhoso em cada leitor, na expectativa que o Natal, nos mostre que ser afetivo é gostoso para os adultos e fundamental para o desenvolvimento saudável dos nossos filhos. Nesse Natal, além dos presentes, sempre divertidos e bons de recebermos,  que tal darmos um abraço bem apertado em amigos queridos, companheiras e companheiros, pais, irmãos e filhos? Um abraço, sem dizer nada, dizendo tudo!

 

 

COM QUANTOS NATAIS SE FAZ UM NATAL?

É natal. Como escrever algo diferente, interessante, criativo, sobre uma festa XmasTree2que milhares de pessoas escrevem matérias, crônicas, cartões, além de livros, filmes e teses? Talvez, não escrever fosse o mais inteligente! Simplesmente deixar passar o Natal e… pronto. Como dizem as crianças, aliviadas, ao final do exame físico: cabô! Mas, teimoso, resolvi arriscar  e me ocorreu que um Natal é feito de vários natais.

Existe o Natal comercial. Aquele do frenesi das compras, listas que prometemos serão mais curtas ano que vem, uma lembrança de última hora e um presente inesperado que precisamos retribuir. Esse é um Natal meio resmungado, tanto que a sensação, quando “fechamos a lista” é de alívio.

Existe o Natal social. Aquele dos grupos de amigos, confraternizações e amigos ocultos. Alguns divertidos, outros meio que obrigatórios (como deixar de ir no amigo oculto do trabalho, onde o chefe vai estar, fingindo que é um igual a nós?).

Existe o Natal solidário. Aquele onde contribuimos para tornar o Natal de pessoas conhecidas ou desconhecidas, um pouco melhor. É um Natal onde o espírito de inclusão, habitualmente ausente durante o ano, dá o ar da sua graça e nos faz sentir parte de um todo.

Existe o Natal religioso. Aquele onde, para os que têm uma fé cristã, se celebra um nascimento importante, simbolizando a esperança renovada e renovadora, na vida.

Existe o Natal em família. Aquele onde temos a oportunidade de revermos primos distantes e tias mais velhas, cada vez mais velhas. É um natal prazerosos, mas com potencial de risco muito grande. Ao mesmo tempo que afetos se expressam, desafetos se manifestam em alfinetadas durante a ceia. Em geral, sobrevivem todos, tanto que voltam o ano seguinte!

Existe o Natal afetivo. Aquele onde presenteamos as pessoas queridas. Mais do que o presente, este escolhido com cuidado e carinho, vale a proximidade, o olhar, o abraço. O Natal afetivo pode e costuma fazer parte dos outros natais acima. Temos sempre alguém mais querido no grupo de amigos, no trabalho e na família. Temos as pessoas amadas, como os pais, filhos, companheiros e companheiras. Aqui, o Natal começa a ficar emocionante.

Existe o Natal surpresa. Aquele onde o inesperado acontece, como quando recebemos uma mensagem de um amigo há muito desaparecido ou de uma pessoa que nunca imaginamos que nos quisesse tão bem, sem maiores interesses. O Natal surpresa também pode acontecer em um gesto, um olhar ou uma frase, durante um dos vários natais acima. É um feliz natal dito com carinho, pela vendedora da loja, ou um “oi tio” dito com imensa alegria, por um sobrinho distante.

Existe o Natal “de dentro”. Aquele onde moram as memórias e as expectativas. É o Natal que cada um vive, silenciosamente. É o Natal que nos leva para o passado, revivendo natais da infância, com a saudade de quem já partiu e faz falta nestas datas. É o Natal que nos leva para o futuro, onde projetamos sonhos para nós e nossos filhos. É o Natal que acontece quando entramos, à noite no quarto dos filhos e ficamos olhando para aquela pessoa adormecida, sem pensar muita coisa, só eternecido pela sua existência em nossas vidas. É o Natal da lágrima inexplicada, da vontade do abraço dado e recebido. É o Natal que fura as convenções e nos aproxima do amor. Amor próprio (com os projetos de se cuidar mais, ter mais tempo para o prazer ) e amor ao outro ( estar mais presente, ter mais tempo para o ócio acompanhado, rir e se divertir com as pessoas queridas).

Assim, para mim, são vários natais que fazem um Natal. Desejo a todos os leitores deste blog que todos seus natais sejam muito alegres e transformem o seu Natal em uma festa de carinho, emoção e felicidade.