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7 PASSOS PARA O FRACASSO GARANTIDO!

Como há muito não posto um texto no blog, vale uma nota de advertência: este texto contém humor e ironia!

Muito se escreveu e escreve sobre o sucesso, a felicidade, a plenitude. Existem livros, vídeos, podcasts, Ted talks, narrando experimentos com animais e observações com seres humanos, chegando a conclusões “reveladoras” de qual o caminho para o sucesso.

Não vi nada escrito sobre o fracasso e achei que poderia ser importante alguém se curvar sobre esse tema. O fracasso, assim como o sucesso, é algo muito amplo e vou me limitar a escrever sobre como ajudar seus filhos a serem um fracasso na vida. Como todo bom texto de autoajuda, este não foge à regra e tem um número de passos que, se bem cumpridos, garantirão o fracasso de seus filhos. Vamos então aos 7 passos para o fracasso!

1- Seja rigoroso com tudo, sempre. Não me refiro ao rigor com valores morais não negociáveis, tais como, ética, moral, compaixão, humanidade. Não me refiro ao rigor com os valores de cada família. Me refiro a um rigor que engesse a criança dentro de uma moldura desenhada a priori pelos pais. Uma moldura onde a singularidade não possa existir e o que vai surgir é o “nós sabemos o que é o melhor para ele”. Afinal de contas, pais bem-sucedidos e amorosos, podem abreviar o caminho dos filhos, porque sabem o que é melhor.

Esse engessamento pode começar desde que o bebê nasça, quando eu recomendo que coloquem um rótulo na criança o quanto antes. Qualquer rótulo serve: ele é genioso, tem uma personalidade muito forte, esse sabe o que quer, não gosta de ficar sentado, só come se a colher vier da direita para a esquerda. Estou falando de rótulos colocados realmente cedo na vida. O rótulo é um gesso sutil, ainda não totalmente enrijecido, mas que vai “moldando” aquela criança ao ponto de confirmar que ela é, de fato, o que o rótulo previa. Bebês aprendem, muito rapidamente, a atender às nossas expectativas, abrindo mão da sua individualidade.  Dependendo do ambiente, se moldam ao desejos e expectativas dos pais.

Evitem olhar para o bebê com um enorme ponto de interrogação, perdidos, sem entender direito aquela outra pessoa. Não se deem ao trabalho de deixar que essa pessoa, por menor que seja, se expresse e possa ir, aos poucos, se revelando. Isso é muito aflitivo, leva muito tempo e, sinceramente, pouco eficiente. O rótulo funciona melhor!

Sempre que possível tratem o erro como algo inadmissível, impensável. Desenvolver o medo de errar é um engessamento formidável que se traduz em inércia, paralisia, ausência de riscos: a perfeição para o fracasso.

 

2- Impeça a criatividade plena. Alguma criatividade é impossível de evitarmos com as crianças. Elas são terríveis nesse quesito, tendo uma capacidade ilimitada de ter ideias as mais bizarras, estranhas, engraçadas e, principalmente, ilógicas e irracionais. Ora, em um mundo lógico e racional, o quanto antes evitarmos esses devaneios, sonhos, delírios ou o nome que quiserem dar, melhor.

Essa ação também pode começar cedo, com o bebê, desenvolvendo rotinas e protocolos para tudo. Não me refiro a um horário para as refeições ou banho, mas um horário ou regra para tudo. O bebê, muito rapidamente, vai entender que não tem espaço para sua criatividade.

Com a criança maior, aí sim é que podemos ser absolutamente firmes em impedir devaneios. Nada de acolher os medos imaginados, nada de contar histórias onde animais falam e, se for absolutamente uma narrativa lúdica, que sempre contenha uma moral relacionada ao fato de que o esforço sempre leva as pessoas ao sucesso ou de que o mérito será, em qualquer circunstância reconhecido e o erro jamais tolerado (como dito acima).

Na adolescência, procurem orientar, com rigor, a escolha de uma profissão. O que você quer ser quando for adulto é uma pergunta que deve ser martelada o tempo todo. Isso quando o gesso já não tiver decidido a profissão daquela pessoa. E, em hipótese alguma estimulem a ideia de que é possível mudar de profissão, ou,  em um mundo de rápidas transformações, ter mais de uma profissão, ao longo da vida. Isso é muito bom em teoria, mas, na prática, é escolher e encarar, para o resto da vida. Além disso, essas ações de inibição da criatividade natural, reforçam, em muito, as de engessamento. É uma sinergia formidável.

3- Introduza a criança, o quanto antes, no mundo adulto. A partir dos 2 anos, ofereça recompensas por tarefas bem feitas e restrições por falhas. Não me refiro a coisas como guardar brinquedos, tomar banho e começar a se vestir sozinho. Me refiro a iniciar o desfralde antes da criança mostrar que está preparada, apenas porque tem 2 anos. Ou, a identificar o nome de vários objetos em várias línguas, só para o deleite dos adultos. Ao invés de educar, adestrar.

À medida que a criança cresça, introduza, cedo, a noção de uma remuneração e de um orçamento. Todo desejo da criança deve estar atrelado à sua capacidade de poupar para atingir seu objetivo ou adquirir o objeto do seu desejo. Sempre que possível, reforce a noção de que não é possível se ter tudo, o que, por ser uma realidade, deve ser apresentada o quanto antes aos filhos. Mas, não apresente esta realidade de forma progressiva, gradual, acompanhando o processo de maturação da criança. Apresente de forma absoluta, intensa e rígida.

4- Seja flexível com questões de disciplina. Evite frustrar seu filho com algumas regras que devem ser obedecidas ou comportamentos desejáveis. Em caso de birra ou pirraça, atenda o quanto antes o desejo do seu filho. Permita que possua um celular ou tablet, ainda no primeiro ano de vida, ligando-o sempre que os pais precisarem de um momento de calma. Talvez fosse melhor ligar sempre, para que a criança aprenda a usar o equipamento e, desta forma, não demandar nada dos pais.

Há um modismo que deve ser abraçado com todo fervor: educar sem frustrar. Uma educação onde não cabem críticas, onde a criança fica protegida de entrar em contato com a realidade que é muito dura para seres tão pequenos.

Pode parecer um paradoxo que eu esteja sugerindo engessamento máximo e, ao mesmo tempo, flexibilidade total. Não é. Sejam rígidos com o que deve ter flexibilidade e flexíveis com o que deve ter alguma rigidez.

5- Terceirize ao máximo a educação dos seus filhos. Contrate babás e folguistas, não para ajudar nas tarefas da casa e nas que não envolvem muita ligação afetiva. Contrate babás e foguistas para evitar que as crianças atrapalhem a vida dos pais. Escolham creches e escolas com projetos pedagógicos modernos, avançados, que prometam transformar seus filhos em maravilhas do futuro. Deixem que a escola se encarregue da educação plena de seus filhos. Uma escola com horário integral, associado à babás e folguistas, é uma fórmula perfeita. Tente associar ambas as estratégias.

6- Mine a autoestima do seu filho. Todos sabemos que elogios, reforço positivo, estragam as pessoas. Com elogios, as pessoas tendem a ficar mais moles. A crítica permanente é o caminho mais adequado para a formação de um caráter sólido. Afinal de contas, quem tirou 9,5 em uma prova, obviamente poderia ter tirado 10. Nunca uma criança deve ser elogiada pelos nove pontos e meio e sim criticada pelo meio ponto que faltou para a nota máxima.

7- Seja muito impaciente e pouco afetivo. A impaciência contribui para o engessamento, do qual já falei. Além disso a impaciência é uma ótima ferramenta para minar autoestima da criança. O afeto, essa coisa que não tem muita explicação, que é sentimento puro, não ajuda em nada o desenvolvimento de um raciocínio lógico e um pensamento crítico. Ficar enroscado nos filhos, sem motivo algum é um perigo porque pode sinalizar que existe mais na vida do que produzir resultados, atingir e, idealmente, bater metas. Pode dar a ideia de que seres humanos são animais sociais e que essa conexão com o outro é constitutiva e não uma distração ou uma fraqueza, uma vulnerabilidade.

Garanto que os sete passos para o fracasso, acima descritos, funcionam. De bônus, formará adultos infelizes, ainda que, em alguns casos, extremamente produtivos.

Mas, se você é desses pais que deseja a felicidade e o sucesso dos seus filhos. Não só não faça nada do que descrevi acima, como faça o extremo oposto!

EXISTE VACINA CONTRA A CORRUPÇÃO?

Stop corrupçãoSabem como é cabeça de pediatra, tudo é virose e só pensam em vacinas! Além disso, pediatras, em geral, são brincalhões ou espontâneos, rindo, inclusive desse modo curioso de pensar e ver o mundo: viroses e vacinas. E se a corrupção fosse uma virose, haveria uma vacina para prevenir esta doença? Estou convencido de que exista essa vacina e ela se chama educação.

Não me refiro à palavra esvaziada e desgastada, utilizada como uma espécie de elixir para todas as nossas mazelas. O que falta ao Brasil, é educação, repetimos todos, quase que em coro. Mas, dificilmente, paramos para nos perguntar que educação falta ao Brasil? Ou, melhor, que educação falta aos brasileiros  porque um país é feito de gente e não é um ser em si. Quando repetimos que o problema do Brasil é a falta de educação, o colocamos (o problema), longe de  cada um de nós. O Brasil é essa coisa grande, vaga, impessoal. Quando penso em educação para os brasileiros, já me sinto incluído na pergunta e, portanto, com algum compromisso com a resposta. Voltando à pergunta, que educação nos falta?

Fui buscar uma das possíveis respostas  em um pensador (sim, houve uma época em que pensar era muito valorizado pela sociedade) que dizia o seguinte: “E é observando as escolhas que os homens fazem, antes que seus atos, que nós os louvamos ou censuramos.”- Aristóteles. 

Mas, o que tem essa resposta com a pergunta- que educação está nos faltando? E, mais ainda, com pergunta sobre a vacina contra a corrupção? A corrupção é um ato que envolve, no mínimo, duas partes. De um lado quem corrompe, o corruptor e, do outro quem é corrompido. Portanto, fica fácil responder à pergunta de que educação precisamos? Uma que ensine a todos, começando pelas crianças, que é errado corromper e ser corrompido. Certo? Errado!

Essa educação que ensina o que é certo ou errado está fadada ao fracasso porque é superficial. Envolve noções de premiação e punição, que produzem comportamentos atraídos pelos prêmios ou repelidos pelos castigos. E que mal há nisso, perguntarão muitos dos (poucos) leitores do blog? De fato, para muitos comportamentos condicionados, esta é uma forma de se ensinar uma criança. Ensinar não é o mesmo que educar e nem todo comportamento é ou deveria ser condicionado. Não respondemos a tudo de forma pavloviana!

Vamos reler a frase de Aristóteles? E é observando as escolhas….. antes que seus atos….”. Aqui, uma sutil porém relevante diferenciação. A escolha precede o ato. A cada ato, corresponde uma escolha. Talvez, a educação que precisemos seja exatamente uma que contribua para que façamos escolhas desejáveis. Feita a escolha, se segue o ato, com uma naturalidade absoluta. No ato, não há investimento maior. Todo o investimento emocional e racional está na escolha. Meio confuso? Acho que sim. Vou tentar esclarecer.

Vamos considerar que lhe façam uma proposta de matar uma pessoa. Calma, é apenas um exemplo! Pois bem, a proposta completa é a de que você mate uma determinada pessoa e, para isso, você receberá uma soma impensável de dinheiro. Você mataria alguém que você nunca viu, não conhece, que não lhe fez nada, em troca de uma quantia irrecusável de dinheiro?  Vamos supor que você responda não. Agora, a proposta fica mais interessante. Além do dinheiro, você receber a garantia de que jamais será pego, julgado ou punido. Se você respondeu não à proposta só envolvendo dinheiro, mudaria sua resposta, respondendo sim, pelo fato de que, além do dinheiro, não sofrerá consequências legais? Pouco importa o que cada um respondeu. Mas, é razoável supor que um grupo de pessoas dirá não à proposta de matar um estranho, independente do pagamento e da impunidade. Por que alguém diria não a uma proposta que poderia mudar a vida material dela, sem risco de punição? É porque, para este grupo, a escolha que antecede o ato, é inaceitável. Assim, não há possibilidade desta pessoa considerar uma tal proposta. Esta pessoa, faz uma escolha moral, baseada nos seus valores. É na escolha de matar (ou não) que está todo o investimento emocional e racional.

A educação do premiar  e  punir, excelente para comportamentos condicionados, essenciais para a sobrevivência (não debruçar sobre a janela, enfiar o dedo em tomada ou chegar perto de fogo, pular ao ouvir uma freada do seu lado etc.) atua sobre os atos e não sobre as escolhas. A educação que atua sobre as escolhas é aquela em que se estimula a análise, reflexão, contemplação, compaixão e empatia. Enquanto nossas creches e escolas se limitarem a oferecer conhecimento e comportamento, teremos uma educação incompleta e, certamente, não estaremos vacinando nossos filhos contra o vírus da corrupção. Conhecimento e comportamento são fundamentais, mas, falta, para uma educação mais completa o entendimento ou compreensão. Compreender não é apenas conhecer e agir. Compreender implica em utilizar ferramentas humanas (enferrujadas?) como o o questionamento crítico (e auto-crítico), o aprendizado que é algo mais profundo e complexo do que o conhecimento. Compreender significa problematizar, algo do qual fugimos, correndo o risco da simplificação (que não é sinônimo de simplicidade) que torna nossa capacidade analítica em algo superficial, contribuindo para a banalização da vida cotidiana, incluindo a corrupção! A síntese da simplificação acrítica está contida na frase: “Isso é assim mesmo. Sempre foi e vai continuar sendo”. Que sociedade queremos para nossos filhos? Se for uma diferente desta em que estamos vivendo, teremos que enfrentar a pergunta- que educação precisamos oferecer para que nossos filhos?

Mas, que educação é esta? Não sou pedagogo, sou apenas um pediatra que vê viroses e pensa vacinas. Além disso, escrevo um blog com o intuito de informar e provocar reflexões. Como vamos introduzir filosofia moral nas nossas creches, é um tema a ser discutido. Mas, tenho a certeza de que sem, modificarmos o nosso modelo educacional, hoje baseado na avaliação como finalidade e não meio, destituído de uma provocação reflexiva a respeito das escolhas de cada um e seu impacto em todos, continuaremos repetindo, que o que falta ao Brasil é educação! Por outro lado, se os pais que leem o blog se sentirem mobilizados e, ao visitar as creches e escolas, não se preocuparem só com o cardápio (importante), segurança (muito importante), espaço físico (importante), limpeza (importante), número de funcionários (importante), mas fizerem uma pergunta desconcertante como: como vocês abordam as questões de filosofia moral com as crianças?  e prestarem atenção nas reações e respostas, talvez possamos almejar mudar algo.

Finalmente, uma nota de advertência. As escolas ou creches são apenas um prolongamento auxiliar do processo educativo que a acontece em casa, na família. A pergunta portanto, volta para nós. Mais do que uma bela resposta, ou dos nossos atos, vale a análise de como fazemos nossas escolhas. Crianças aprendem por imitação e admiração e, os primeiros a serem imitados e admirados, somos nós, os pais.

Se você é uma mãe ou um pai que não mataria por dinheiro e impunidade, ufa, esse post é para você! Dedique seu tempo na educação das escolhas, nos valores morais que preza e os atos, coerentes com estes, se seguirão. Ao participar das reuniões na creche ou escola, aborde o tema das escolhas antecedendo atos. Os pedagogos conhecem algumas formas de trabalhar o tema. Vamos provocá-los!

 

TREINAMENTO, APRENDIZADO E EDUCAÇÃO

pai_filhoRecentemente, conversando com meu cunhado, Rubens, falávamos sobre a confusão que acreditamos existir entre treinamento, aprendizado e educação. Nosso papo não tinha nenhuma pretensão intelectual ou acadêmica. Chamava-nos a atenção para o valor que pais e a sociedade em geral estão dando ao desempenho em provas e concursos. E, a primeira prova, para muitos era um “vestibulinho” para poder entrar na primeira série de uma escola privada. Concluímos que, começando com aquele vestibulinho, se inaugurava uma substituição da educação por treinamento, sem que nos dessemos conta da enorme diferença que existe entre ambos. Esse papo me estimulou a escrever um post sobre educação. Pensei que  poderia ser interessante ou, no mínimo, provocar quem lê este blog a pensar junto comigo sobre este assunto.

Mas, acabei não escrevendo o post imediatamente. Esta semana, conversando com Luciana Borges, minha orientadora no mestrado, falávamos da formação dos futuros médicos. Uma conversa também sem pretensões intelectuais, apenas nos perguntando o que diferenciava alguns alunos de outros, no que diz respeito à sua postura diante do aprendizado e, mais importante, dos pacientes. Por que alguns alunos tinham mais compromisso com o aprender do que outros? Por que alguns alunos conseguiam olhar para o ser humano que se apresentava como paciente, enquanto outros viam apenas sinais e sintomas que procuravam decodificar em doenças, valorizando mais um diagnóstico do que a pessoa que estava na sua frente? Claro que esta é uma conversa que não terminou. A continuação desta conversa foi um e-mail da Luciana, sem sequer uma palavra escrita, apenas com o quadrinho da Mafalda anexado. Me pareceu ser um “sinal” para, finalmente, escrever um post sobre educação (e aproveitar o quadrinho!).

Treinamento é algo que implica em repetição, sob orientação ou supervisão, de atos, gestos ou práticas. Existem muitas coisas nas nossas vidas para as quais o treinamento é fundamental. Em geral, as aptidões físicas podem ser melhor desenvolvidas com treinamento. Fazemos isso intuitivamente, quando os filhos começam a andar, comer, beber do copo, tomar banho, se vestir, amarrar os sapatos etc. É a repetição, com orientação que produz o resultado desejado que, em geral, é o de tornar automático o que foi treinado. Não só as aptidões físicas podem ser treinadas, mas o uso de tecnologias ou de ferramentas, podem se beneficiar de treinamento. As condições para que um treinamento tenha sucesso, sem entrar em nenhuma teoria sofisticada, seriam: paciência, perseverança e criatividade, por parte tanto de quem orienta o treinamento, quanto de quem o recebe. No caso de crianças pequenas, devemos estar atentos ao tempo que estas “suportam” ficar focadas em algo. Em geral é muito curto e, nós adultos, na tentativa de acelerar ou antecipar os resultados, podemos submeter a criança a um esforço que torne o treinamento chato ou sofrido. Portanto, todo treinamento, deve ser prazeroso, o que não significa fácil ou sem esforço. Finalmente, elogiar quando um acerto ou objetivo é alcançado, por menor que seja, é muito mais eficiente do que criticar um erro.

Aprendizado é quando alguma informação é transmitida de uma pessoa para a outra. Em geral, é o que as escolas fazem- ensinam. Não raro, as escolas misturam ensinar com treinar. Ensinam um conteúdo e treinam a criança para fazer uma prova. Escolas que conseguem melhores índices de aprovação em vestibulares e concursos, são consideradas ótimas escolas apesar de praticarem o que poderia ser chamado de “ensino bulímico”. “Entopem” a criança de informação e pedem para que ela a “vomite” na prova. No final, não sobra nada!

E, francamente, qual a aplicação prática do que as escolas nos ensinam? Quantas vezes, na sua vida, você usou o conhecimento de que a soma dos ângulos internos de um triângulo qualquer vale 180º? Ou então, quando que saber os principais afluentes da margem direita do rio Amazonas (Juruá, Purus, Madeira, Tapajós e Xingu), foi de alguma utilidade prática ou teórica para você? Talvez esses exemplos e centenas de outros que foram decorados por nós, sirvam para jogos e desafios de memória e nada mais.

Treinamento e aprendizado são muito importantes. No entanto, o mundo em que nossos filhos serão adultos, não é este que conhecemos hoje. Será um mundo radicalmente diferente. Portanto, o treinamento e aprendizado que lhes damos hoje, não servirão (ao menos parcialmente) para este mundo futuro. Mas, a educação, essa terá valor, sempre. Um pouco antes, no texto, perguntei qual era a aplicação prática do que nos ensinaram na escola. Agora pergunto, se volta e meia, não estamos dizendo algo como: “minha mãe sempre me dizia…” ou “numa situação como essa, meu pai tinha uma frase ótima” ou ainda “vovô, que nunca tinha ido para a universidade, mas era um sábio, nessas horas diria….”. O que ouvimos de nossos pais a respeito de situações e comportamentos vale até hoje, mais do que a escola nos ensinou.

O que seria então, educação?  Sem grandes preocupações com definições teóricas (e existem muitas!), diria que educação é o que nos prepara para compreendermos o mundo em que vivemos, participando ou contribuindo para sua modificação. Educação seria, portanto, uma construção permanente. Uma obra inacabada, em contínuo movimento. Paulo Freire, um educador fabuloso, entre outras coisas, disse: “Educar é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante!”

mafaldaValores, moral, senso de justiça, respeito pelos outros, cordialidade, isso é educação. Educação não se terceiriza, contrata ou compra. Educação só acontece quando a transmissão se dá com afeto ou emoção e, acima de tudo, credibilidade. Educação não é uma palestra ou discurso. Não é uma “lição de moral”. É uma atitude, uma forma de existir no mundo, que nossos filhos absorvem, dão o seu toque pessoal e incorporam como sendo suas verdades na e para a vida. Educação não é para sermos mais produtivos ou eficientes. É o que permitirá aos nossos filhos serem sujeitos (donos) das suas vidas, buscando o que todo mundo busca, ser feliz.

Aproveitem o domingo para sair com seus filhos, educando-os a ler o mundo, antes de ensiná-los as letras e numeros.  Divirtam-se!

PS1- o blog ficou longo, devem perceber o quanto eu gosto do assunto.

PS2- Prof. Luciana e eu achamos que o que diferencia alguns alunos de outro é a educação. Principalmente porque muitos vieram das mesmas escolas e aprenderam as mesmas coisas!

O FUTURO COMEÇA HOJE!

feminismo5Se você é um ou uma corredora e resolveu que vai correr uma maratona (42,195km) e nunca correu mais do que 100m, vai precisar de uns 10 meses de treino. Para uma maratona, o futuro começa hoje e leva esse tempo para acontecer. Correr uma maratona depende de disciplina e perseverança. Praticamente não depende de mais ninguém. Agora, o que dizer de situações onde o comportamento coletivo influi e muito? Por exemplo,a forma como as mulheres são percebidas na nossa sociedade. Mudar essa percepção preconceituosa é como uma maratona. Exige disciplina e perseverança. E  esse futuro, de um mundo mais equânime, também começa hoje. Aliás, já começou faz algum tempo e poucos de nós nos damos conta do papel fundamental que é o de educar nossos filhos de uma forma diferente daquela com que fomos educados. Se não fizermos nada, nossos filhos serão como muitos de nós, com uma visão preconceituosa ou discriminadora da mulher.

Apesar dos enormes avanços que as mulheres conquistaram nos últimos anos, com relação à igualdade entre os gêneros, ainda estamos longe de uma sociedade que trate mulheres e homens de forma igual. As mulheres, na sua maioria, se veem envolvidas em duplas jornadas de trabalho. Trabalham durante o dia e ainda são as responsáveis por deixar a casa arrumada com comida na mesa. As mulheres ainda não recebem o mesmo que os homens, mesmo trabalhando em empregos equivalentes. A mulher ainda é desrespeitada por muitos homens em função das escolhas que faz no vestir, se arrumar e comportamento sexual. A mulher é vitima de violência física como espancamento doméstico e etupros. Para se impor profissionalmente, muitas vezes deve abrir mão de sua feminilidade, se equiparando a um homem. Não gostaria de listar tudo que acontece com as mulheres hoje, mas perguntar se é isso que queremos para nossas filhas e filhos? Se não é, precisamos mudar radicalmente a forma com que educamos nossas crianças. Precisamos olhar para pequenos detalhes, do dia a dia,  que reforçam o machismo da sociedade.

Os exemplos começam dentro de casa. Se na casa, os homens ajudam as mulheres, a mensagem é de que a tarefa pertence à mulher e a ajuda é um favor ou concessão. Ajudar é bem diferente de dividir tarefas. Se todos que moram na casa, independentemente do gênero, têm suas tarefas bem definidas, avançamos um passo!

Se o quarto do menino pode ser uma bagunça porque meninos são assim mesmo e, para complicar um pouco, mamãe arruma o quarto, este menino aprenderá duas coisas: não preciso arrumar nada e cabe a uma mulher arrumar. Se houver uma irmã e o quarto dela for arrumado pela própria, porque meninas são mais arrumadas ou gostam de arrumar, mais um reforço para que os meninos aprendam que cabe às mulheres arrumar.

Se meninos são incentivados a perceber as meninas como um objeto a ser conquistado e quanto mais melhor, estamos ensinando uma forma de desrespeito com outro ser humano. Tanto mais se, na mesma casa, houver uma menina e esta for ensinada o oposto!

Essa visão preconceituosa também cobra um preço aos meninos. Menino é durão, não chora. Menino brinca de coisa de menino e a família é capaz de ficar muito aflita se o filho brincar de boneca ou aparecer calçando os sapatos de salto alto da mãe. Na infância seria perfeitamente aceitável essa brincadeira, mas o preconceito nos impede de permitir aos meninos esse momento lúdico. Menino aprende algo muito doloroso: não exiba  a  sua emoção (engole o choro, menino)!

Se o mundo futuro que queremos para os nossos filhos é diferente deste, cabe a nós mudar nossos comportamentos, hoje. Mais importante do que o que dizemos aos nossos filhos, são as nossas ações. Não é fácil mudar nosso comportamento. Não é fácil perceber nossos próprios preconceitos. Mas, se estamos genuinamente interessados em filhos que crescam de forma saudável, vamos ter que encarar esse desafio. Saudável não é só estar sem doença, forte. Saudável é integrado, feliz, com capacidade plena de estabelecer relacionamentos e respeitar a diversidade. Saudável é ser produtivo e criativo. Saudável é se emocionar, se apaixonar, amar.

Começou hoje o treino para a maratona de amanhã! Todos estão convidados e bem vindos.