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COMO O BEBÊ NOS AFETA?

Há muito não escrevo no blog. Tive vontade, várias vezes, mas nunca consegui colocar por escrito o que eu pensava. Algumas vezes não achava que seria original o suficiente. Outras, que não despertaria interesse. Esta semana, a revista Primórdios- Narrativas Sensorias (v.5 n.5 2018) publicada pelo Círculo de Psicanalítico do Rio de Janeiro, trouxe um texto que escrevi, tentando colocar no papel o que tinha sido uma apresentação oral que havia feito. É preciso dizer que o Círculo, na pessoa da Maria de Fátima Junqueira, foi muito generoso comigo. Tanto me convidando para falar, quanto me permitindo escrever um texto livre, sem o rigor que um texto acadêmico impõe a seu autor. Sou grato ao Círculo e, em especial, à Maria de Fátima.

O texto é, certamente, longo demais para um blog. Mas, como eu fiquei tanto tempo sem escrever aqui e este texto passeia por vários temas que já abordei em diferentes posts, decidi correr o risco e publica-lo, sem cortes, sem resumo. Para quem achar o texto longo (e é mesmo), sugiro que leia aos poucos. Um ou dois parágrafos de cada vez. Assim, acho que ficará mais leve.

Vamos ao texto:

Palavras de um Pediatra: Como o bebê nos afeta

Para começar esta conversa, ainda que por escrito, vamos definir o que seja afetar. Sem muito aprofundamento etimológico, afetar significa, entre outras coisas, causar efeito em alguém. Nesse sentido, bebês nos afetam de várias formas.

Bebês apresentam comportamentos inatos que buscam a proximidade com a mãe (ou com quem estiver fazendo esse papel) e protestam quando são afastados. A simples busca pela proximidade e a queixa no afastamento afeta os pais e os humanos em torno do bebê tanto nos aspectos emocionais quanto físicos.

Comparativamente a outros mamíferos, nós humanos nascemos prematuros. Praticamente todos os mamíferos conseguem se movimentar em busca do alimento com uma semana de vida. Alguns, desde o primeiro momento, como cavalos, bezerros, cordeiros etc. Se nós já nascêssemos com a habilidade de nos locomovermos, deveríamos nascer nove meses mais tarde, e vocês podem imaginar o tamanho da bacia que as mulheres deveriam ter. Como as bacias seguem com o tamanho próximo ao dos primos primatas, nossa cabeça só consegue passar (com muito esforço) ao término de aproximadamente 40 semanas de gravidez. Os outros nove meses serão vividos fora do útero. Uma segunda gestação!

Seres humanos nascem, portanto, dependentes absolutos do cuidado de outro ser humano, adulto. Dependência absoluta significa que, se não houver cuidado 24 horas por dia, 7 dias na semana, o bebê não tem condições de sozinho, sobreviver. Bebês nos afetam por necessidade de sobrevivência. Os bebês são “interesseiros! ”. O amor se dá em termos de cuidados efetivos. O choro do bebê é algo que não nos deixa neutros, nunca. Pode ser o choro de um bebê no vizinho – aquele volume e timbre nos tocam. Algo se passa nas nossas cabeças (e corações), nem que seja: coitado desse bebê e desses pais. Se vemos um bebê chorando, nosso reflexo é o de pegá-lo. Não pensamos por que queremos fazer isso. Queremos porque o choro causou um efeito (afetar), e respondemos a esse efeito. O ser humano precisa de contato e comunicação, e o choro do bebê pode ser um pedido para que essa necessidade básica seja atendida. Como? Sem muita teoria, sem muito pensar e refletir. Colocando o bebê no colo, olhando e conversando com ele.

Do ponto de vista emocional, sem ser no exemplo acima, o de uma resposta imediata a um choro, o bebê produz sentimentos intensos e, não raro, paradoxais. O amor que um bebê provoca é único, ímpar, diferente de todas as outras formas de sentir amor que se possa ter experimentado. Não é igual ao amor pelos pais, irmãos, amigos, companheiro ou companheira. É uma onda de amor de intensidade e qualidade não descritível em palavras. Junto com o amor, o carinho, o desejo ou impulso de manter o bebê colado no corpo vêm o olhar de contemplação e, simultaneamente, um radar a antecipar dificuldades ou problemas. Ao mesmo tempo, o sentimento de insegurança se instala. Há dúvidas quanto ao cuidar adequado, à competência que oscila entre questões muito objetivas – meu leite é suficientemente forte para meu filho? – e outras mais subjetivas – o que mais posso fazer para ele ficar bem?

Como bebês são implacáveis com seus pais, à medida que os dias vão passando podem surgir a irritação e a raiva que, não raro, disparam um sentimento de culpa. Como pude sentir raiva ou perder a paciência com a criatura que eu mais amo na vida?

No campo físico, também somos afetados por bebês. Mães descobrem uma vitalidade que desconheciam possuir. Dormem poucas horas e em horários atípicos. Aprendem a dormir entre mamadas, cujo intervalo sequer é previsível. Mas também descobrem um cansaço jamais sentido. Isso sem comentar as mudanças corporais que a gravidez e amamentação produzem no corpo da mulher. “Nunca mais terei minha vida de volta” é um pensamento que poucas mães ousam verbalizar, mas que passa pela cabeça de muitas.

Há uma outra forma com que os bebês nos afetam diretamente. O bebê é um ser imprevisível, incontrolável, avesso a rotinas. O bebê esfrega na nossa cara a sua singularidade, o que nem sempre é facilmente entendido, assimilado e, mais importante, acolhido pelos pais. A resposta habitual é a de buscarmos padrões, regras para que possamos sentir um certo controle (ilusório) da situação. Queremos controlar e o bebê é incontrolável. Essa característica dos bebês abre o espaço para a “terceirização” do cuidar. Nomeamos “autoridades” que nos darão “soluções”. Compramos cursos, técnicas, manuais, regras de como bem cuidar do nosso bebê, esquecendo-nos de olhar o único manual onde as respostas podem ser razoáveis. Me refiro ao manual do bebê, daquele bebê. O manual ao qual só os pais têm acesso e que só eles podem decifrar. No entanto, diante da insegurança natural, reforçada pela pressão social, os pais não conseguem perceber que qualquer autoridade, protocolo ou regra não se refere ao seu bebê, mas a um bebê médio, estatístico. Portanto, inexistente. Não percebem ou não se sentem seguros com o fato de que quem mais entende do seu bebê são os pais. Ninguém mais conhece tão bem o bebê quanto seus pais. Se livrar das “regrinhas” externas e descobrir, dia a dia, as necessidades do seu bebê é uma tarefa difícil, trabalhosa e cansativa. Mas é a que garante o prazer da maternidade (e da paternidade) e, mais importante, que assegura ao bebê as bases para uma vida saudável (física e psíquica).

Entra em cena um outro tipo de afetar, não diretamente produzido pelo bebê, mas consequência da sua chegada. Trata-se da pressão social por padrões de maternidade desejáveis. De repente, a mãe se torna a ré de um tribunal onde está sendo julgada por tudo que fez ou deixou de fazer com e para o seu bebê. É um massacre silencioso e cruel, envolto em um belíssimo embrulho que faz supor preocupação e amor por parte de quem massacra. Os pais, naturalmente inseguros, agora terão a certeza da sua incompetência, e qualquer impulso de criatividade e ousadia que poderia haver desaparece, esmagado por regras, protocolos, formas corretas de se fazer. Nesse movimento de retirar dos pais sua autonomia, tornando-os reféns do saber alheio (pediatras, avós, grupos de mães no WhatsApp), a amamentação mereceria um artigo exclusivo. Sem me aprofundar, há um fundamentalismo associado à amamentação ao seio que torna um fim o que deveria ser um meio. Ou a mãe amamenta ao seio, exclusivamente, pouco importando sua história de vida, o contexto, as dificuldades, ou ela e seu bebê “arderão no fogo do inferno! ”.

O progresso tem inúmeros aspectos positivos, não há como duvidar. Mas cobra um preço também. Há 100 anos, a cena de um bebê chegando se daria em uma casa onde uma família provavelmente numerosa viveria. Nesse ambiente, com irmãos, cunhados, tios e sobrinhos próximos, o bebê seria acolhido pela família, facilitando em muito o trabalho dos pais. Hoje, com a predominância de famílias mononucleares, os bebês saem da maternidade para o apartamento dos pais, onde os três conviverão. Esse convívio intensivo e exclusivo só potencializa o afetar sobre as emoções e o corpo dos pais.

O progresso também molda a cultura e, nesse momento, os valores corporativos ou de empreendedorismo permeiam a vida pessoal. Valores como eficácia, entrega, mérito, custo/benefício são fundamentais em um negócio, mas famílias não são empresas! Mesmo assim, a ideia de performar, do que fazer, como fazer, fazer melhor etc. já ultrapassou os limites da vida profissional e invadiu nossas vidas pessoais. Bebês não querem pais que façam, mas que estejam e sintam. Essa dissonância entre o que pensamos ser bom e o que bebê nos diz que precisa é uma forma de afetar que, para os que puderem aproveitar, só trará benefícios.

Como pediatra, não poderia deixar de comentar que, quando um bebê ou uma criança adoece de algo corriqueiro e inerente ao crescimento como resfriado, febres, tosse, há uma natural amplificação da insegurança dos pais. A questão é que em um mundo pragmático, rápido, problem solving oriented (usei a expressão propositadamente em inglês para dar o peso da cultura), o desejo de soluções imediatas gera um abuso de medicamentos (ineficazes) e/ou de exames laboratoriais (desnecessários). O cuidar se perdeu com a expectativa de cura (para coisas simples e que ainda não temos cura). O remédio nos dá a falsa sensação de “estarmos fazendo algo”, quando o que o bebê ou a criança com esses tipos de doenças comuns precisa é de paciência e carinho. Novamente vemos nossos filhos nos afetando e, nesse caso, sinalizando que a vida de relações, vínculos e afeto nem sempre precisa de alguém, obrigatória ou prioritariamente, fazendo algo. Nossos filhos nos dão a oportunidade de reavaliarmos a forma com que estamos no mundo e nos relacionamos com as pessoas.

Falei do bebê afetando seus pais, mas é preciso dizer que ele afeta a todos em seu entorno. Aí incluo o pediatra que, ao examinar um bebê e ver os olhos fixos nos seus, um sorriso ou um choro durante o exame físico, não consegue passar incólume por esses momentos. Mais, quando o pediatra percebe a capacidade dos pais em cuidar do bebê ou acolhe suas inseguranças, saindo do campo meramente orgânico, biológico, da prática médica, acaba sendo invadido por emoções que mexem com a sua pessoa. Por isso, não raro, permanecemos na “zona de conforto” (improdutiva) para a qual a formação médica nos “doutrinou”, olhando apenas para o biológico, sem entrar em contato com as pessoas envolvidas no atendimento (o bebê e sua família).

Finalmente, há toda uma história que não contei aqui sobre como nós e o ambiente afetamos o bebê! Apenas como provocação, deixo no ar a ideia de que não há afetar sem ser afetado. Assim, bebês percebem o humor de quem cuida deles, bem como a harmonia e tensões do ambiente onde está inserido. Muitos pais (e pediatras) acreditam que o bebê é pequeno demais para perceber o que se passa ao seu redor. Estão considerando que a única forma de percepção é cognitiva, lógica, e esta, sem dúvida alguma, o bebê ainda não tem maturidade para ter. Mas as sensações são uma forma de percepção, poderosíssima, deixando seus registros, ainda que inacessíveis, para sempre.

O afetar dos bebês nos remete ao ser antes do fazer e pode nos permitir viver emoções, sentir e responder com um cuidar que seja aquele de que o bebê efetivamente precisa.

 

Na foto: Julia e Antonio (se afetando mutuamente).

A MÃE SUFICIENTEMENTE BOA.

Hoje é o dia das mães e sinto um certo bloqueio criativo para escrever algo que seja, ao mesmo tempo, original, interessante e carinhoso. Não deveria ter relido posts que escrevi em dia das mães passados! Gostei de alguns, o que só aumentou meu bloqueio porque me convenci de que já tinha escrito o que eu poderia escrever a respeito da mães, no seu dia. Se algum leitor do blog desejar visitar esses posts, seguem os links: MÃE COM M DE MULHER!    RECEITA DE MÃE  MÃE OU MULHER?  MÃE

Em um mundo onde fazer, realizar, agir, bater metas, atingir objetivos, se tornou praticamente a única forma de se obter reconhecimento, sucesso e realização, é razoável que tentemos transformar todos os aspectos das nossas vidas em desafios, onde essa lógica (da ação e metas) funciona muito bem. Essa lógica é perfeita para uma empresa ou empreendimento, para atividades físicas, para o planejamento de vários aspectos da vida como viagens, cursos, orçamento familiar, mas, definitivamente, não dá conta de todos os aspectos das nossas vidas. A complexidade da vida não se deixa reduzir a uma planilha Excel, nem a um ou dois aplicativos que tudo registram, controlam e calculam. Mas, na cultura vigente, é como se fosse possível traduzir a nossa complexidade a uma só linguagem, a da eficiência. Toda vez que tentamos reduzir algo complexo a uma única “fórmula”, nos comportamos como uma sapataria que só vende calçados no tamanho 36! Muitos pés caberão nos sapatos vendidos, mas um número grande, permanecerá descalço.

Quando falo da complexidade da vida humana, não me refiro a nenhuma teoria de difícil compreensão. Falo do nosso dia a dia. Por que um dia acordamos de bom humor e outro nem tanto? Por que olhamos para um nascer do sol e temos um sentimento gostoso, difícil de descrever? Por que me nos emocionamos ao ouvir uma música (e não outra)?  Por que, mesmo com toda a informação disponível, existem fumantes? Por que instalamos um aplicativo para saber onde tem lei seca ao invés de ir e vir de taxi? Por que sentimos atração por uma pessoa e não por outra? Por que, com tantas publicações, blogs, programas de TV, falando de alimentação saudável, só aumenta o percentual de pessoas com sobrepeso? Por que existem guerras?  Claro que um pragmático radical terá uma resposta simples e convincente para todas estas perguntas. Mas, o fato é que não existem repostas únicas, muito menos simples.

Nesse contexto, as mulheres se tornam mães e a maternidade passa a ser vista como um “empreendimento”. A cobrança explícita ou velada é uma só: performar para ser uma mãe maravilhosa (leia-se, uma mãe perfeita).  Amamentar deixa de ser um meio, para ser um fim. É como uma maratona a ser corrida, amamentar até os 6 meses de idade. E lá vai a mãe, ofegante, atravessando o terceiro mês e a torcida (grupos de mães no WhatsApp) gritando: não para não! Continua! Só faltam 3 meses, não vai parar agora, vai? O que deveria ser prazeroso para o bebê e para a mãe, virou meta a ser cumprida (em tempo- óbvio que sou defensor do aleitamento materno exclusivo até os 6 meses. Só não sou um fundamentalista que acha que é isso ou nada! Leiam MAMADEIRA: ASSUNTO PROIBIDO!). Além de amamentar, a mãe não pode falhar em nada! Ao seu redor, todos os bebês dormem a noite inteira, nunca golfam, choram pouco e os que já estão comendo, comem tudo! A cobrança é total e o desespero, idem. Essa mãe passa o dia correndo atrás de uma meta imaginária e inexistente de perfeição que só a exaure física e emocionalmente.

Essa exigência da perfeição explica, em parte, a proliferação de cursos sobre tudo que se possa imaginar. Desde o curso geral, como ser uma ótima mãe, até os mais específicos: como dar o banho no bebê, como amamentar, como trocar fraldas, como estimular o seu bebê, como fazer o bebê dormir, o cardápio saudável etc.  As pessoas entram em tal frenesi que sequer param para pensar como a humanidade chegou até aqui. Foram 70 mil anos de percurso (homo sapiens falante) até os dias de hoje. Durante aproximadamente, 60 mil anos, fomos caçadores coletores, andando pelo mundo. Só começamos a escrever há uns 12 mil anos, a prensa só tem 570 anos, a pediatria uns 300 anos e o Google, 19 anos. O ponto é que a espécie sabe cuidar da espécie! Esse saber é intrínseco, não dependendo de cursos, pediatras, grupos de WhatsApp etc.  Claro que o progresso e a tecnologia tornaram nossas vidas muito mais seguras e confortáveis. Mas, posso garantir que Michelangelo e Einstein não tinham tapetinhos estimuladores, nem suas mães lhes deram comida utilizando o método BLW (ou qualquer método)!

Em torno de 1950, Donald Winnicott, um pediatra que se tornou psicanalista, cunhou a expressão- mãe suficientemente boa (good enough mother). O que Winnicott queria dizer é que as mães, ao olharem para seu bebês, são capazes de identificar suas necessidades (no bebê pequeno, a necessidade essencial é viver) e estar lá para atendê-los. Simples assim, ainda que muito cansativo. O segredo (acho eu) está no olhar para o seu bebê e não para o mundo de livros, sites e conselhos que existem. Estes, ainda que possam conter algumas informações úteis e interessantes, sempre falam de um bebê médio, de um bebê estatístico. O bebê individual é único só é conhecido por seus pais. Estes são os verdadeiros “especialistas” no filho ou filha. (MANUAL DE INSTRUÇÕES PARA CUIDAR DOS NOSSOS FILHOS. UMA AULA PRÁTICA DE COMO LER O MANUAL DA CRIANÇA.)

O olhar a que Winnicott se refere não é apenas o olhar objetivo, mas, sobre este, o olhar afetivo. É no olhar afetivo que mães e bebês trocam informações que, sem que se deem conta, farão com que se entendam e o bebê possa se desenvolver bem, tanto objetivamente (peso, tamanho, conquistas motoras etc.) como subjetivamente (identidade pessoal, autoestima, capacidade de tolerar frustrações, afeto, agressividade etc.). O afeto é um sentimento onde a lógica da performance não se aplica. Não se quantifica afeto, não se traduz o afeto em metas e objetivos. O afeto se vive e esse viver afetivo é fundamental para todos nós os seres humanos.

Se eu pudesse desejar algo para todas as mães no seu dia, seria que confiassem na sua emoção ao olhar para o seu bebê ou criança, desconfiando de todas as regras e métodos que lhe tentarem empurrar.

Que todas as mães possam se sentir excelentes mães por serem apenas suficientemente boas, sem buscarem a perfeição. E, uma vez livres desse peso (da perfeição) possam deixar fluir o amor que nos torna humanos.

 

 

 

 

 

PAIS NÃO SÃO CIENTISTAS, MAS ARTISTAS!

“A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação dá a volta ao mundo.” Albert Einstein ¹

Inicio o texto com uma citação de uma das mais brilhantes mentes científicas da humanidade. É uma afirmação de uma pessoa que passou sua vida envolvida em fórmulas matemáticas, desenvolvendo teorias que, algumas, só vieram a ser comprovadas muito recentemente. No entanto, quando perguntado se confiava mais na sua imaginação do que no seu conhecimento, deu a resposta acima, surpreendente para um físico brilhante. Talvez surpreendente para qualquer um de nós que viva neste planeta, neste século. Vivemos a era das certezas e convicções “científicas”. Coloquei aspas em científicas porque muitas das nossas convicções são baseadas em pseudociência, fraudes, farsas e manipulações. Mas isso é outro assunto. O fato é que o valor dado à racionalidade, lógica, precisão, previsão, modelos matemáticos, estatísticas, algoritmos, big data, é inequivocamente maior do que o dado à arte, intuição, sensações, imaginação, afeto e amor.

Nenhum de nós escapa ao tsunami da cultura, sendo esta o conjunto de valores que expressam uma época ou um grupo humano. Imersos em dados, números, estatísticas, gráficos que projetam eventos futuros, não poderíamos ser mães e pais sem estarmos “contaminados” por esta praga contemporânea.

Imagino que, a esta altura do texto, engenheiros, matemáticos, economistas e físicos já pararam de ler, irritados com minha irreverência com a ciência. Eventualmente, um grande número de leitores, sentiu desconforto ao ver um nossos oráculos atuais (a razão) ser provocado por um pediatra! Mas, antes que não tenha nenhum leitor que chegue ao final do texto, explico alguns pontos. A ciência é fundamental. O pensamento científico é um passo enorme da humanidade para sair do obscurantismo dos mitos e crendices. O pensamento científico é ainda muito jovem na nossa história, datando de aproximadamente 500 anos, o que é muito pouco para o confronto com 60 mil anos de fantasias e crenças, sem nenhuma fundamentação ou comprovação. Portanto, sou um ferrenho defensor do pensamento científico. A proposta deste texto é a de, preservando o pensamento científico, afirmar que é uma condição necessária, mas não suficiente, para a nossa vida, neste planeta. Dito de outra forma há uma característica humana chamada emoção, que não se opõe à razão, sendo, com esta, parte de um todo indivisível do ser humano. Não existe, no mundo real, a divisão ou polarização entre razão e emoção. Fomos induzidos a acreditar nisso por modelos culturais que nos precederam (Descartes sendo um dos mais conhecidos) e que se mantém até hoje. Para me “garantir”, comecei o post com uma declaração de Einstein, valorizando a imaginação, que nada tem de racional!

Como em vários outros posts, tem uma hora em que o leitor, se chegou até aqui, se pergunta- mas o que isso tem a ver com ser mãe e pai? Aonde esse pediatra quer chegar?

Uma mulher engravida. Ao mesmo tempo em que faz o seu pré-natal, baseado nos melhores conhecimentos científicos disponíveis, imagina seu filho. Pode até ver uma imagem de ultrassom do bebê, mas o que os pais imaginam não é aquela imagem, ainda que seja emocionante. Durante a gravidez, a mulher e o pai, imaginam o parto, o recém-nascido, como será, que personalidade terá, com quem se parecerá? As preocupações de todos nós também aparecem no imaginário de casais grávidos: será saudável, perfeito, inteligente?

Nasce o bebê e há um choque de realidade. O imaginado não é exatamente como o real. Seja o aspecto físico (a carinha amassada, a orelha assim ou assado, o nariz que não lembra o de ninguém), seja o comportamento do bebê. O bebê imaginado era doce, meigo, manso. Dormia a noite toda como um anjo e, de dia, mamava feliz. Pois bem, o bebê chora, e chora mais, e chora muito. Não dorme à noite, só quer ficar no peito, machuca o peito, é incomapecido, não poupando a mãe, sugando leite, energia e vitalidade (que mãe não sentiu um cansaço jamais sentido antes?).

Claro que estou exagerando, pintando com tintas fortes, um quadro onde também há um sentimento de amor jamais vivido anteriormente. Quero apenas preparar o clima para o próximo movimento.  Diante da insegurança (natural e normal) que esta “pororoca” entre o imaginado e o real  produz, qual a solução? Consultemos nossos oráculos contemporâneos: Google, grupos de mães e o pediatra. A pergunta, expressa de diferentes maneiras é sempre- isso é normal? E acreditamos que a resposta, técnica, está fora de nós, dos nossos sentidos, guardada a sete chaves por algum sábio que entende mais do que nós de bebês.

Proponho que ao invés de consultar os oráculos ou especialistas com supostos saberes, os pais se voltem para a sua intuição, sensibilidade, emoções, imaginação e criatividade. Claro que os conhecimentos científicos adquiridos serão úteis e servirão como um guia ou norte, mas nunca como uma norma ou regra. De que adianta dizer que um bebê “deve” dormir 16h por dia se o seu dorme 14h ou 18h? O que importa é saber se o bebê está saudável e não se “obedece” a uma regra! De onde vêm as “regras” da introdução alimentar (ou alguém acha que um bebê sueco, vai ser alimentado com banana)? Aliás, de onde vêm tantas regras que assegurem um desenvolvimento “normal” do ser humano. Suspeito que venham, entre outros fatores, de uma exploração da insegurança natural que temos diante de algo novo (filhos, frágeis e dependentes absolutos de nós), com o intuito de vender um serviço ou o simples “conhecimento”. Claro que obedecer a uma regra remove a responsabilidade do eventual erro, mas também tira o que há de mais rico na maternidade e paternidade que é a autoria do processo de criar esse novo ser humano.

A explicação para a necessidade dos pais serem mais artistas e menos cientistas é muito simples. Cada ser humano, bebê, criança, adolescente, adulto, idoso, é único. Não existem duas impressões digitais iguais, duas vozes idênticas, personalidades replicadas etc. Nenhum ser humano está plenamente representado em uma média ou estudo.  O fato de sermos únicos cria um desafio e um prazer na maternidade e paternidade. O desafio de olhar e perceber o filho como sendo outro, literalmente, e não uma edição revista e melhorada dos pais e o prazer  é o de um artista  quando cria uma obra. Para criar uma obra, o artista lança mão da sua imaginação, criatividade e ousadia. Se não fosse assim, não teríamos um Michelangelo, Da Vinci, Monet, Chagall, Picasso, Cervantes, Drummond, Bandeira, Beatles, Caetano, Gil e, nessa relação interminável de artistas que nos emocionam com sua criatividade, por que não incluir os cientistas que, antes de desenvolver uma tese, ousaram pensar de forma inédita. Mesmo a ciência começa com o simbólico, o imaginado, o fantástico.

Ser mãe e pai é um processo continuado de criação artística e o resultado final é o orgulho ao ver a obra viva, feliz e integrada ao mundo. Diferentemente de Michelangelo que, ao ver o seu Moisés terminado, teria batido com o martelo na escultura e perguntado por que não falas, nossa obra fala (e sente).

Sejamos todos mais ousados, imaginativos e emotivos. Sejamos artistas que exploram as infinitas possiblidades de criação na tela da vida. Os filhotes agradecem. A humanidade também!

 

1- Entrevista dada a  G. S. Viereck, “What life means to Einstein”, Saturday Evening Post, 26/October/1929, reimpresso em G. S. Viereck, Glimpses of the Great, new York: Macauley, 1930, p. 447.

PAPAI NOEL EXISTE?

Ora, até uma criança sabe a resposta a essa pergunta: claro que existe! Existe porque somos seres simbólicos e adoramos uma fábula. E não sãosanta só nossos filhos que adoram uma historinha. Nós adultos, mantemos esse fascínio por fábulas. Claro que não são mais histórias de princesas, dragões, porquinhos e bruxas. Mas, adoramos ouvir fábulas de suplementos, vitaminas, cremes, alimentos que fazem isso ou aquilo, novos exercícios que fazem perder milhares de calorias em poucos minutos, métodos para mantermos a memória ou aumentarmos a libido, livros que garantem a felicidade plena em 10 passos, sem esquecer a quantidade de pessoas que devolvem a pessoa amada em três dias! A lista de fábulas que nós adultos nos contamos mutuamente é interminável. E ainda temos a ousadia de questionarmos se Papai Noel existe!

A fábula tem uma função importante no desenvolvimento das crianças ao estimular a criatividade e contribuir para que elas lidem com as questões da vida, inicialmente de forma lúdica. Nesse contexto, não há nenhuma discussão a respeito da existência do Papai Noel. Só nos resta definir que Papai Noel vai existir. Como assim, existe mais de um Papai Noel? Sendo uma narrativa, existirão tantos Papais Noel quantas narrativas existirem. Mas, basicamente, existem dois Papais Noel e devemos escolher qual deles será o que vamos apresentar aos nossos filhos.

Existe o Papai Noel que representa a sociedade de consumo, trazendo presentes, se tornando o destinatário de listas intermináveis de pedidos. De alguma forma, esse Papai Noel existirá em todas as narrativas porque vivemos em uma sociedade onde o consumo é algo hipertrofiado e que, muitas vezes, preenche vazios existenciais das pessoas. Esse vazio não é só dos adultos que acabam confundindo ser com ter. Para muitos, o que eu tenho define quem eu sou. Como a possibilidade de ter é sempre infinita, a sensação de ser é frágil e sujeita aos modismos de consumo. Assim que eu acabo de comprar o tablet de última geração, me tornando alguém, lançam outro e passo a me sentir vulnerável, inseguro, por não TER o último modelo. Se os pais são consumistas ou mesmo que não sejam, mas por vários motivos se sintam “devedores” dos filhos (trabalham muito, por exemplo), podem tentar “compensar” com a compra de presentes. Esse Papai Noel é o do comércio que tenta nos confundir com mensagens que embaralham objetos, coisas, com afeto e emoção. Esse Papai Noel de listas enormes e pouco ou nenhum limite, é uma narrativa que ensinará nossos filhos a se tornarem consumidores vorazes, muitas vezes na tentativa de preencher uma lacuna que não é de coisas materiais. Esse é o Papai Noel que incentiva o egocentrismo porque a minha felicidade está em ter o que o outro não tem.

Existe um outro Papai Noel que representa a bondade, solidariedade e generosidade. Um Papai Noel que fala sobre quem somos, antes de falar sobre o que temos. Um Papai Noel que recebe uma cartinha onde eu conto o que eu fiz no ano que passou e não só uma lista do que eu quero. Quando pedimos a nossos filhos que escrevam contando o que fizeram, estamos dando a oportunidade (e o aprendizado) de que parem um minuto para pensar nas suas realizações e não só nos seus desejos de possuir algo.  Um Papai Noel que tem limites nas possibilidades de presentear, que associa presentes a algum mérito e que coloca cada criança como fazendo parte de um universo de outras crianças (ele tem muito trabalho, precisa visitar todas as crianças), fazendo com que cada uma se sinta especial, mas não única. Esse Papai Noel é o do afeto e do carinho. É o que ensinará nossos filhos que as coisas (objetos) fazem parte das nossas vidas e nos dão muito prazer, mas que nossa felicidade não pode ser definida pelo que temos e sim por quem somos. Somos humanos e como tal, seres carregados de emoção e empatia, além de, também, sermos racionais. Somos, originalmente, gregários, dependendo uns dos outros. Podemos (e somos) diferentes em muitas coisas, mas, nem melhores, nem piores do que ninguém. Esse é o Papai Noel que incentiva a solidariedade porque, diferente do que ocorre com objetos, quanto mais dividimos emoções e sentimentos, mais se multiplicam.

Cada família vai escolher qual narrativa de Papai Noel quer para si e, consequentemente, para seus filhos.

Um Natal alegre e afetivo para todos!

NATAL É EMOÇÃO ( E NÃO RAZÃO)!

santa-claus3Se fossemos  só racionais, não poderíamos celebrar o Natal, no dia 25 de dezembro. Nesta data, os cristãos celebram o nascimento de Jesus e, com ele,todo o simbolismo da renovação e esperança. Mas, Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro. Não sabemos exatamente quando ele nasceu, mas, esta data, 25 de dezembro, foi definida pela Igreja em meados do século IV. Mas, isso não importa.

Se fossemos só racionais, não poderíamos celebrar o Natal utilizando a figura do Papai Noel, simplesmente porque ele não existe. E, como sabemos, racionais, se atém aos fatos demonstráveis. Mas, isso não importa.

Ainda, se fossemos só racionais, não utilizaríamos, no Brasil, um pinheiro conífero para ser o símbolo da árvore de Natal . Mas, isso não importa.

Com tanta propaganda (enganosa) de que o ser humano é racional, como é que celebramos o Natal, no dia 25 de dezembro? A resposta é simples: seres humanos, ainda que sejam capazes de utilizar a razão, são seres simbólicos. A emoção precede a razão. Olhamos para uma pessoa e antes que ela diga qualquer coisa, já fizemos uma avaliação. Seja pela roupa, asseio pessoal, adereços (todos símbolos), na nossa cabeça, formamos uma opinião prévia (e irracional) a respeito dessa pessoa. Quando vemos uma obra de arte ou ouvimos uma música, não precisamos conhecer nada sobre teorias, técnicas, escolas, história, para dizermos se gostamos ou não do que estamos vendo ou ouvindo. Esse gostar vem da emoção que é despertada em nós pela visão ou audição. E isso é o que importa!

O Natal é uma emoção! Emoção, do latim, significa um movimento para fora (ex- para fora; movere- movimento). E o que se move para fora? Aquilo que normalmente fica trancado (pela razão?)  que é a nossa essência, nosso eu (sem tecnicalidades psi). Ao se mover para fora, pode encontrar o outro, o semelhante (ou diferente) humano. É nesse movimento para fora que se dá o nosso encontro. O encontro dos seres humanos não se dá na razão. Até nesta, há emoção. Ao ouvirmos um brilhante palestrante, ficamos encantados (emoção) com sua ideias (razão). Matemáticos, que conversam nessa língua universal que são os números, costumam falar em beleza de equações. Isto é, se emocionam ao ver o belo, nos números, tanto quanto nós, nas artes.

Muitas pessoas, extremamente racionais, entre as quais eu me incluo, podem sentir algum desconforto com um momento como este, emotivo e afetivo. Em geral se prendem aos aspectos racionais “brigando” contra o Natal, como o personagem Grinch, que odiava o Natal. Ficamos, suponho, muito assustados com a impossibilidade de controlarmos nossos sentimentos, enquanto a racionalidade nos dá uma sensação (ilusória?) de controle e segurança. Minha contribuição, “anti-Grinch” é este post!

Pouco importam as datas e os fatos objetivos relacionados ao Natal. Pouco importa a febre consumista que nos faz ficar obcecados com a compra de presentes e emoções Chagall2irritados com ruas e lojas lotadas. Pouco importa uma certa hipocrisia em que votos são repetidos como uma fórmula de boas maneiras. Há no Natal, uma anistia para a ditadura da razão e podemos, por alguns momentos, olhar para o outro, abraça-lo, beijá-lo e nos  sentirmos humanos, solidários, juntos.

Meu abraço carinhoso em cada leitor, na expectativa que o Natal, nos mostre que ser afetivo é gostoso para os adultos e fundamental para o desenvolvimento saudável dos nossos filhos. Nesse Natal, além dos presentes, sempre divertidos e bons de recebermos,  que tal darmos um abraço bem apertado em amigos queridos, companheiras e companheiros, pais, irmãos e filhos? Um abraço, sem dizer nada, dizendo tudo!

 

 

FAMILIA S.A.

Cultura é o conjunto de comportamentos de uma determinada população, em uma época. Esta é uma definiçãoreuniao-domestica_2
simplista, portanto incompleta e superficial do que seja cultura. Mas, seu uso é apenas para este post, sem pretensões mais profundas ou complexas.

Em geral, pensamos em cultura como algo externo a nós. Seja algo que aconteceu no passado, seja uma manifestação artística ou até um padrão de comportamento de outro lugar que não o que vivemos. Dificilmente nos percebemos como participantes da cultura. Mas, se cultura é o conjunto de comportamentos, os meus, obrigatoriamente, estão inseridos ou influenciados pela cultura. Alguns exemplos de como a cultura, até certo ponto, nos modela: hoje se uma menos do que há alguns anos atrás. Não só houve uma divulgação maciça dos malefícios do fumo, como os não fumantes se tornaram mais intolerantes com os fumantes. Em contrapartida, comemos mais fast food do que nunca. A saúde virou item de consumo e há uma pressão para que nos exercitemos. Em alguns momentos, a tecnologia contribui para uma introdução de novos hábitos que, ao se tornarem rotineiros, se integram na cultura. A luz elétrica permitiu que nossos dias acordados fossem mais longos. Com isso, ganhamos lazer, diversão, trabalho e perdemos sono! A pílula anticoncepcional não mudou a libido das mulheres, apenas fez com que o medo da gravidez, que moderava o comportamento feminino, fosse superado. A informática nos conectou 24 horas por dia, 7 dias na semana. Compramos livros às 3 da manhã, como se sempre tivesse sido a coisa mais natural do planeta! Poderia encher o post de exemplos de como a cultura está dentro das nossas vidas, determinando comportamentos que consideramos naturais. Cultura não é aquela coisa de museu. Cultura é a vida que levamos, todos os dias.

Com a revolução industrial surgiu a necessidade de desenvolvermos mecanismos de controlar e garantir a qualidade, lucratividade e sustentabilidade das empresas. Nascia a administração de empresas com uma série de ferramentas indispensáveis. Estas foram se sofisticando à medida que a tecnologia permitia mais velocidade e complexidade (já houve uma época em que uma HP12C era a ferramenta do gestor!) no processo de coleta de dados e tomada de decisões. O mundo percebeu a enorme vantagem de negócios bem administrados: lucro, assegurando crescimento, inovação e mais empregos. Planilhas Excel e Powerpoint passaram a fazer parte da vida do gestor. Eficiência, eficácia e um mundo de palavras em inglês foram incorporadas à vida cotidiana: downsizing, outsourcing, P&L, EBITDA, team building, deliver, mission, vision, values e por aí vai.

Até aqui tudo bem. A questão é quando uma determinada prática, desenvolvida para um cenário, se esparrama e ocupa a vida, sem  nos darmos conta. Ou, pior, nos damos conta e achamos que isso é bom. Famílias passaram a responder à lógica dos negócios, se parecendo com empresas. Os pais fazem o equivalente a um business plan, definindo o momento ótimo de ter o primeiro filho. Este, nascerá de parto cesáreo numa sexta à tarde, o que permitirá ao pai estar lá, sem perder a reunião de diretoria. A mãe e o bebê terão alta no domingo. Logística perfeita. Quando o bebê nascer, mãe e pai já terão feito uma análise das diversas formas de se cuidar de um bebê e terão optado por um dos diversos métodos disponíveis em livros e, sobretudo na internet. Antes do nascimento, já terão escolhido escolas, baseado na melhor relação custo/benefício de aprovação no vestibular.

O bebê chega em casa e, infelizmente, não fez a Harvard School of  Business. Ele ainda não sabe desse mundo eficiente, competitivo, meritocrata, onde o empreendedorismo é premiado. Ele sabe  mamar, chorar e fazer cocô. Não necessariamente nesta ordem. Não necessariamente em ordem alguma. Por mais que os pais coloquem as mamadas e trocas de fralda em aplicativos de previsão, nada parece funcionar. Um recém nascido é um rebelde por natureza, se parecendo mais com a meteorologia (imprevisível) do que com o budget forecast! Os pais entram em pânico e resolvem terceirizar o cuidado para quem sabe. O princípio da expertise, da especialização, entra em cena. Uma babá experiente é o que precisam. Melhor ainda se a babá se apresentar com um cartão de visitas que diz – Enfermeira. Algo como você ser recebido pelo gerente do banco cujo título é Vice-Presidente de Relacionamento Pessoal! Os pais acreditam que aquela empresa (Enfermeira S.A.) tem o know-how necessário para cuidar do bebê. Coisa que, apesar das tentativas feitas, eles se mostraram incompetentes. Afinal, Enfermeira S.A. está no mercado há tantos anos, certamente sabe mais de bebês do que eles, pais de primeira viagem. Claro que ela sabe mais de bebês, no  plural, mas, não sabe nada sobre aquele bebê, singular.

Os finais de semana são planejados em função de melhor otimização do tempo. Não há tempo para se perder, nunca. Viagens são feitas de acordo com a melhor época para se fazer compras, rentabilizando cada centavo. Informática e eletrônica são oferecidos à criança para que se familiarize com o mundo e possa se tornar competitivo. Livros e sucata doméstica, são coisas ultrapassadas, uma perda de tempo.

À medida que a criança cresce, passa a ter uma agenda de executivo. Escola todas as manhãs, tênis às segundas e quartas, judô ou ballet terças e quintas, inglês quartas e sextas e, pelo menos uma atividade para o desenvolvimento das habilidades de mentais e de cálculo. O mundo é assim, gostemos ou não, suspiram os pais, orgulhosos.

E assim, segue a Familia S.A., sem se dar conta de quanto a cultura empresarial invadiu a vida privada de todos nós. É claro que planejar é preciso. Assim como controlar o orçamento doméstico e fazer escolhas a respeito de escolas e atividades. É óbvio que a tecnologia é um enorme avanço e faz parte da vida , incluindo a das crianças. Mas, Familia S.A. não tem algo fundamental para o desenvolvimento do ser humano: vínculo e afeto.

Vínculo e afeto acontecem quando a lógica não é a da preformance, das metas e resultados. A lógica é do relacionamento. Relacionamento é lento. Relacionamento é difícil, exigindo respeito à individualidade do outro. Relacionamento é colocar limites e elogiar. Relacionamento é emocionar-se, rir e chorar juntos. Relacionamento é ilógico e irracional, às vezes. Como sentar juntos, em silêncio, e ambos olharem na mesma direção.

Na vida em família significa aprender com o bebê, confiando no que sabemos como humanos. Se traduz em sentar para ler um livro, sem pressa, ou brincar deitado no chão com uma caixa de ovos vazia e um barbante. Jantar juntos, sem TV ligada, sem celular, conversando. Perguntar sobre a escola, cobrando performance, mas, querendo saber se está feliz. Mudar um plano porque algo mudou, inesperadamente.

Família não é meta a ser atingida, é prazer a ser vivido. Sejamos eficientérrimos nos nossos trabalhos. Na família, sejamos amorosos.

 

OS CINCO VETORES DA SAÚDE

Para quem me conhece ou lê estvetor1e blog com alguma regularidade, o título deste post deve ter soado estranho! Não costumo quantificar meus comentários, muito menos “ensinar regras”! Mas, algumas pessoas já devem me ter ouvido dizer que, se eu tivesse a falta de caráter necessária para escrever um desses livros de fórmulas de sucesso, receitas de saúde, segredos da longevidade, caminhos da felicidade, obrigatoriamente teria um número no título. Sempre achei que esse tipo de livro, com um número na capa, venderia muito mais! Pois bem, resolvi brincar com essa ideia e, ao mesmo tempo, matar o meu desejo de publicar algo com um número na capa (ou título).

Portanto, aviso aos navegantes deste post que o título é uma brincadeira e que não pretendo “revelar” cinco segredos guardados há milênios por monges tibetanos, guerreiros africanos ou índios da América Central! O que pretendo é abordar cinco grupos de ações que podemos implementar nas nossas vidas e, mais importante, ensinar aos nossos filhos, deixando um potencial caminho de saúde para que eles trilhem pela vida. 

Um segundo aviso é de que nada do que lerão aqui é novidade. Ora bolas, se não é novidade por que estaria eu usando meu tempo e o de vocês para escrever o que já é sabido? Porque existem conhecimentos importantes que vão sendo empurrados para o esquecimento, por uma sociedade de consumo onde a novidade é sempre melhor do que o que veio antes. Isso, que  pode ser válido para produtos e serviços, não é, necessariamente, para os valores e conhecimentos dos seres humanos. Não falo de novos equipamentos diagnósticos, mecanismos de doenças e vacinas. Estes progressos substituem conhecimentos prévios, mas, são baseados em tecnologias de produtos onde novos equipamentos nos permitem olhar a natureza de uma nova forma ou desenvolver novas drogas. Falo de um conhecimento a respeito de quem somos e o que estamos fazendo por aqui. Essa é uma conversa que tem mais de dois mil anos de registros e, se escolhermos qualquer texto, de qualquer época, quase que certamente terá alguma atualidade ou aplicabilidade, nos dias de hoje. O ser humano, ou a essência do ser humano é a mesma desde que surgimos como espécie falante, há cerca de 60 mil anos ! Este post é sobre cinco aspectos da nossa natureza que podem contribuir para nossa saúde e que, muito provavelmente, se beneficiam com o progresso tecnológico, mas, não são alterados por este.

  1. AFETO  Começo por este vetor porque costuma ser um relegado a um segundo plano. Como se o ser humano fosse uma máquina pensante e não um ser relacional, simbólico. Todo ser humano precisa de carinho, reconhecimento, cuidado, para se desenvolver e viver bem. O afeto começa antes do nascimento e continua pela vida afora. Carinho não é deixar a criança ou adolescente fazer tudo. Pelo contrário, significa cuidar e inclui colocar limites, forma importante de expressarmos nosso amor. O afeto é o que nos une aos amigos, à família e aos amores. A saúde está diretamente associada à nossa capacidade de relacionamento e esta, em grande parte, vem do modelo que recebemos quando crianças. Assim, os pais têm uma função importante no desenvolvimento da capacidade afetiva dos filhos. Não existem métodos para desenvolver essa capacidade. Pais afetuosos, carinhosos, respeitadores dos ritmos dos filhos, produzem um ambiente favorável a que estes sejam pessoas com boa capacidade de relacionamento. Pais que se permitem sentir mais e pensar menos (no quesito afeto), darão a seus filhos o que estes precisam para uma vida emocional saudável.
  2. ALIMENTAÇÃO –  Nossa saúde está diretamente relacionada à alimentação. Doenças como a hipertensão arterial, alguns tipos de câncer, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, a obesidade com suas consequências, são alguns exemplos conhecidos por todos, associados a uma alimentação inadequada ou incorreta. Alimentação é aprendizado. Ninguém nasce gostando de cheeseburguer ou brócolis! É preciso que sejamos apresentados a estes alimentos para podermos desenvolver um paladar e, consequentemente, um hábito alimentar. Se os pais possuem o hábito de comer cheeseburguer, dificilmente conseguirão que seus filhos comam brócolis! Uma boa alimentação não é nada sofisticado, nem precisa de pediatra ou nutricionista para orientar. Nossas avós sabiam exatamente o que era uma boa alimentação e  não incluía barrinhas, suplementos ou polivitamínicos. Se quiserem um pouco mais de informação a respeito de uma alimentação saudável, vejam o post Prato Saudável.
  3. ATIVIDADE FÍSICA- A atividade física é inerente ao ser humano. A criança corre, brinca, pula, sobe em árvore, revira as coisas, em constante atividade. A tecnologia e o progresso, contribuem para nossa inércia. A cultura também, com menos espaços livres, apartamentos menores e ambos os pais trabalhando, fazendo com que tudo que “distraia” a criança seja bem-vindo. Assim como a alimentação, se os pais são sedentários, será muito difícil introduzir hábitos de atividade física nos filhos. Atividade física também tem um aspecto secundário importante, ao contribuir para o vínculo entre pais e filhos. Andar de bicicleta, passear, soltar pipa, jogar um jogo ou esporte, são atividades que envolvem o corpo e o afeto. Tanto isso é verdade que muitos de nós temos vivo na memória momentos de atividade com nossos pais. A lembrança, em geral, é da parte afetiva, mais do que da física.
  4. SONO- Raramente nos lembramos que o sono é um elemento vital para a nossa saúde. Isso nunca foi um problema para os seres humanos, até a criação da iluminação artificial. Até esse momento, o que tinha que ser feito se fazia durante o dia e a noite era dedicada ao sono. Dormíamos mais e, assim, estávamos, mais bem dispostos para as atividades do dia. Hoje, vivemos em uma sociedade 24/7, 24 horas, sete dias na semana. Dormir é um desperdício de tempo e a tentação de produzir ou consumir (dois lados da mesma moeda) é enorme. Mas, nossa saúde física e mental depende de um sono quantitativa e qualitativamente bom. O sono exige uma certa rotina ou ritual que os pais devem introduzir na vida de seus filhos.
  5. TEMPO PARA SI- O ser humano tem necessidade de um tempo que eu chamaria de tempo da espécie. O calendário e o relógio são medidas de tempo que não se encontram na natureza. São criações artificiais do homem, importantíssimas para organizar nossas vidas, mas, que não dão conta de todas nossas necessidades. O ser humano saudável precisa de um tempo que é só seu. Podemos chamar esse tempo de reflexão, contemplação, meditação, oração ou qualquer outro nome que nos ocorra. É um momento onde a mente se esvazia ou se deixa preencher pelas sensações ao redor, sem análise, juízo ou tentativa de classificar e controlar. Nossa saúde precisa desses momentos que são diferentes do relaxamento produzido pelo sono. Como pais, podemos ajudar nossos filhos a desenvolverem a capacidade de ficarem sozinhos, ainda que estejamos por perto. Não estimulá-los 24h. por dia, não sentir necessidade de oferecer uma programação seguida da outra. Deixar a criança brincando, lendo, desenhando, sem estímulos externos, sem perguntas que interrompam aquele momento da criança, é uma forma de ajudá-las a desenvolver essa habilidade. Podemos ajudar com nosso exemplo ao termos nossos momentos de reflexão ou até de compartilhar um pôr do sol em silêncio. Tempo da espécie é um tempo que também está sendo empurrado para o esquecimento, substituído pelo tempo da eficiência máxima, do fazer constante. Podemos ensinar aos nossos filhos como ser eficientes e, preservar um tempo para si. Uma coisa não elimina a outra.

Chego ao final do blog e me dou conta de algo que não tinha pensado, ao começar a escrevê-lo. Juntei os cinco vetores e o que eu obtive foi algo como: a saúde de nossos filhos depende de uma família (afeto) que jante junto (mais afeto), comendo de forma saudável (alimentação). Depois do jantar, um pouco de conversa (mais afeto) e um rotina para colocar as crianças na cama (mais afeto e a preparação para um sono reparador). Quando tiver uma oportunidade, a família vai passear ao ar livre ou fazer algum esporte (mais afeto e atividade física). O silêncio vai ser praticado ocasionalmente e se as pessoas quiserem ficar sozinhas, serão respeitadas (mais afeto e tempo para si).

Nenhuma novidade! Ou, talvez, a novidade seja exatamente essa. Vamos parar de procurar novidades, onde o que somos (seres humanos) é a resposta para a pergunta- como posso ajudar meu filho a ser mais saudável? Sejamos o que sempre fomos, sem medo de sermos considerados ultrapassados ou antiquados!