Arquivos

RISCOS DA VACINAÇÃO

“Para todo problema complexo, existe uma solução simples, elegante e completamente errada” Henry Louis Mencken.

Após a publicação do post da semana passada, recebi alguns comentários, relacionados à segurança da vacina contra a Febre Amarela. Algumas pessoas acreditam que as autoridades sanitárias omitam os casos onde ocorra algum efeito indesejável, após a vacinação. Não tenho nenhum envolvimento, direto ou indireto, com o setor público. Portanto, não posso afirmar nada em nome destes agentes. Mas, sei que o nosso sistema de vigilância epidemiológica é muito eficaz e, como parte desse sistema, temos um sistema de vigilância epidemiológica para efeitos adversos pós vacinação. Nem todas pessoas sabem desse sistema que é o responsável por coletar dados, de forma regular, através de procedimentos padronizados e, assim, acompanhar a incidência de efeitos colaterais que possam ocorrer com todas as vacinas administradas pelo Programa Nacional de Imunizações. Os profissionais de saúde envolvidos em vacinação recebem treinamento e/ou têm acesso aos manuais do Ministério da Saúde que tratam, especificamente, de efeitos adversos de vacinas e a forma de notificá-los. Estou detalhando um pouco mais esse sistema porque acho relevante a informação de que, no Brasil, acompanhamos, de forma sistemática, quaisquer efeitos colaterais de vacinas (não só a de Febre Amarela). Acredito que é pouco provável, nos dias de hoje, com a circulação eletrônica da informação que uma autoridade possa omitir ou ocultar dados, por um longo período de tempo.
Com relação à segurança das vacinas em geral, gostaria de citar alguns fatos:

1- Não sabemos tudo, nunca. O conhecimento é um processo contínuo e o conhecimento científico pressupõe que não se consiga chegar a uma Verdade (com V maiúsculo). O conhecimento científico é, na melhor das hipóteses, a melhor informação disponível, naquele momento. Por esse motivo algumas verdades (com v minúsculo), frequentemente são substituídas por outras (também com v minúsculo). Um exemplo caricato é a história do ovo. Ovo faz bem ou faz mal? Pode comer ovo ou precisamos parar de comer ovo? A cada momento, em função de novos conhecimentos embasados no método científico (que é algo bem complexo e não somente a apresentação de estatísticas), teremos uma verdade.

2- O impacto da vacinação no crescimento da expectativa de vida foi imenso e esta realidade só foi possível através da vacinação sistemática da população exposta. Este é um fato praticamente incontestável. Digo praticamente porque ainda existem pessoas ou grupos que se opõe à vacinação. Não há nenhuma evidência científica que embase esta resistência que, habitualmente, está baseada em argumentos relacionados com crenças (eu acho isso ou eu acho aquilo), crendices (mitos) ou ainda informações já demonstradas como falsas (vacina contra Sarampo produz autismo).

3-As vacinas não são 100% efetivas, e também não estão isentas de oferecerem possíveis riscos para a população. O senso comum é o oposto desta afirmação. Talvez porque seja o mais desejável, pensamos que, uma vez vacinados, estaremos 100% protegidos contra uma determinada doença e que a vacina não pode fazer mal algum (exceto um pouco de dor no local e, talvez, um pouco de febre). Nossa cabeça tem mais facilidade de pensar de forma binária onde ou algo faz bem ou faz mal. Ou protege, ou não protege. No mundo real, as coisas vivas não funcionam de modo binário (exceto computadores). Seres vivos são, por definição, variáveis. Vacinas aplicadas em seres vivos podem proteger a maioria, mas não todos. Podem ter pouquíssimos efeitos colaterais para a maioria, mas não para todos.

4- Nenhuma vacina está totalmente livre de provocar eventos adversos, porém, os riscos de complicações graves causadas pelas vacinas do calendário de imunizações são muito menores do que os das doenças contra as quais elas protegem. Esta é a chave que justifica (ou não) o uso de determinada vacina. É preciso que fique cientificamente demonstrado (usando métodos rigorosos e complexos) que, comparando os riscos da vacinação, com os da doença natural, aqueles (os riscos da vacinação) sejam significativamente menores do que estes (os riscos da doença natural).

Especificamente com relação à vacina contra a Febre Amarela:

1- Mesmo com a possibilidade de eventos adversos graves, incluindo o óbito, a vacina contra a Febre Amarela é o melhor meio de se evitar esta doença que apresenta uma alta taxa de mortalidade (em torno de 50% dos casos morrem) e deve ser utilizada de forma rotineira em áreas endêmicas (onde a Febre Amarela existe de forma contínua) e nas pessoas de áreas não endêmicas que poderiam estar expostas. Essa é a lógica pelo qual, até muito recentemente, pessoas de algumas áreas do Brasil recebiam a vacina contra a Febre Amarela como parte do calendário regular e outras não. Em uma área onde não há o risco de se contrair a doença, o risco de reações adversas da vacina não justifica o seu uso. No entanto, quando uma área ou região que não era de risco de se contrair a doença passa a ser de risco, justifica-se a vacinação porque a equação muda (a doença passa a ser mais “perigosa” do que os efeitos colaterais da vacina).

2- As estatísticas disponíveis para o risco de efeitos colaterais da vacina contra a Febre Amarela não são homogêneas porque dependem de estudos feitos em condições epidemiológicas e metodologias diferentes. Cito alguns números para que tenham uma ideia da frequência com que complicações podem ocorrer.
A pior consequência adversa que pode ocorrer é o óbito provocado pela vacina. As estimativas são de que 0,043 a 2,31 pessoas por um milhão de doses de vacinas, poderão falecer. Traduzindo em porcentagem seria 0,0000043% a 0,00023% das pessoas vacinadas que poderiam vir a falecer. É um número muito baixo, mas não é zero. Portanto, quando comparamos esta porcentagem com a taxa de mortalidade da doença (50% das pessoas podem morrer), verificamos que o risco de óbito pela doença é muito maior do que pela vacinação. Mas, para nós humanos, números são abstrações, e quando temos a notícia de um óbito provocado pela vacina, essa notícia “apaga” a nossa capacidade de pensar de forma abstrata, conceitual ou racional e o medo ou pânico se instalam.
Com relação aos possíveis efeitos colaterais no sistema nervoso central, estima-se que estes podem ocorrer em 1 em 125.000 vacinas aplicadas. O que corresponderia a 0,001 %. As alergias graves (não uma simples urticária ou edema de lábios e olhos), podem ocorrer em 1 em 55.000 vacinas aplicadas, correspondendo a 0,002%.

3- Alergia a ovo e outros componentes da vacina. A vacinação de pessoas com alergia a ovo ou outros componentes da vacina (gelatina, proteína de frango e outros possíveis componentes) deve ser avaliada caso a caso. Não há consenso em como lidar com esses casos, mesmo porque a expressão “alergia a ovo” pode significar desde uma urticária, até um choque anafilático. As pessoas que tenham alergia a ovo devem procurar um médico para que possam ser orientadas e, em função tanto da intensidade da sua reação alérgica, quanto do risco de contrair a doença (uma epidemia, por exemplo), definir qual a melhor estratégia. Do ponto de vista acadêmico, mas com imensa dificuldade de se fazer na prática, um teste com uma dose de vacina diluída poderia ser feito ao mesmo tempo que se faria um controle  (geralmente com histamina). Se o teste der negativo a pessoa poderia ser vacinada. Se der positivo, não deveria ser vacinada e poderia tentar um tratamento de dessensibilização. Como podem ver, na prática não é possível se implementar estas ações, principalmente em grande escala.

A mensagem, uma vez mais, é que a vacina contra a Febre Amarela, em uma situação de risco epidêmico, é o melhor meio para se proteger contra esta doença que mata metade das pessoas que adoecem. A vacina não é isenta de riscos (nenhuma vacina ou, por extensão medicamento é isento de riscos), mas, em uma situação epidemiológica como estamos vivendo em várias áreas do Brasil, estes riscos são muito menores do que os da doença natural.

Boa vacinação para todos!

DR. É PARA DAR A VACINA DE FEBRE AMARELA NO MEU FILHO?

SIM! Se o seu filho tem 9 meses ou mais e nunca foi vacinado contra a Febre Amarela, a resposta é um sonoro sim. A Febre Amarela é uma doença que tem uma taxa de mortalidade de aproximadamente 50%. Isto é, de cada 100 pessoas que adoecem de Febre Amarela, 50 devem morrer. É muito alta esta taxa para se adiar, postergar ou se negar a vacinar os filhos (e os adultos não vacinados).

Circula pela internet um áudio contendo informações completamente falsas, incentivando as pessoas a não se vacinarem. Trata-se de um crime porque expõe as pessoas a uma desinformação, cujas consequências podem ser fatais caso alguém siga a recomendação de não tomar a vacina.

A seguir alguns fatos sobre a vacina contra a Febre Amarela:

1- A vacina é feita com vírus vivo atenuado. Isto significa que o vírus foi processado de forma a perder a sua capacidade de produzir a doença, mas ainda estimular o sistema imunológico da pessoa. A gotinha da Pólio, que erradicou a doença no nosso país, também é feita de vírus vivo atenuado. As vacinas contra Sarampo, Rubéola, Caxumba e Varicela (Catapora), também são feitas de vírus vivo atenuado. Assim, o uso de vírus vivo atenuado em vacinas não é uma “exclusividade da vacina contra a Febre Amarela.

2- A vacina existe desde 1930. Portanto, é uma vacina com um longo histórico de uso, com eventuais e pequenos efeitos colaterais (dor no local, eventualmente febre). No entanto, raros casos de efeitos colaterais mais graves podem ocorrer. Estes ocorrem na proporção de 0,4 a 0,8 por 100.000 pessoas vacinadas. Como todas as vacinas o que se avalia é o risco que a doença natural impõe, versus o risco de um efeito colateral mais grave. Para uma doença com uma taxa de mortalidade de 50%, fica claro que o risco de não tomar a vacina é muito maior do que o de uma complicação mais grave da vacina.

3- É preciso, no mínimo, dez dias entre a vacinação e o início da proteção. Assim, quem vai viajar para uma área de risco deve levar em conta esse prazo. Quem pretende viajar na sexta-feira de carnaval para algum lugar onde há o potencial risco de Febre Amarela, já deveria ter se vacinado ao ler este post!

4- A vacina fracionada não é mais fraca. O fracionamento da vacina foi uma estratégia adotada pelo Ministério da Saúde, com o endosso da Organização Mundial da Saúde, visando a aumentar a cobertura vacinal (número de pessoas protegidas) em um curto período de tempo. Esta estratégia está baseada em estudos, um dos quais feito na Fundação Oswaldo Cruz com um grupo de voluntários que tomou a vacina fracionada há oito anos atrás. Até o presente momento, foi possível demonstrar, neste grupo, anticorpos em níveis suficientes para proteger contra a doença. Assim, sabemos que por, pelo menos, oito anos, a vacina fracionada é eficaz. Com a continuação do estudo poderemos descobrir que a vacina fracionada protege por mais tempo.

5- Crianças de 9 meses a 2 anos de idade serão vacinadas com a dose plena, não fracionada porque não foram feitos estudos nessa faixa etária.

6- Quem tomou uma dose da vacina contra a Febre Amarela não precisa mais tomar outra dose. Desde 2013 que a Organização Mundial da Saúde eliminou a necessidade de um reforço a cada dez anos. Apenas em caso de viagem internacional para país que ainda exija um reforço, deverá a pessoa procurar a unidade de saúde e trocar o seu certificado por um em que esteja claramente redigido que não há necessidade de reforço.

7- Somente quem teve reação anafilática (choque) a ovo, não deverá tomar a vacina contra a Febre Amarela. Reações como urticária, vômitos, após a ingestão de ovos não contraindicam formalmente a vacina. Mas, pessoas com alergia a ovos devem procurar orientação individualizada junto ao médico e informar sua condição, no momento da vacinação.

8- Até o presente momento não há nenhum caso de Febre Amarela urbana. Isto é, febre amarela contraída em área urbana. Esta é transmitida pelo mosquito Aedes. O que existe são casos de Febre Amarela silvestre, em região de mata ou floresta, transmitidas pelos mosquitos Haemagogus e Sabethes.

9- Crianças menores de 6 meses não podem ser vacinadas. Crianças entre 6 e 9 meses somente devem ser vacinadas se o risco de contrair a doença for muito alto. Siga as orientações da sua Secretaria Municipal de Saúde.

10- Grávidas e mães amamentando, em princípio não deveriam tomar a vacina. No entanto, dependendo do risco de contrair a doença, a autoridade sanitária (Secretaria Municipal ou Estadual de Saúde ou o próprio Ministério da Saúde) poderá autorizar que este grupo seja vacinado.

Para saber mais, não leia informações divulgadas por grupos ou mensagens no WhatsApp. Acesse fontes confiáveis como o Ministério da Saúde: http://portalms.saude.gov.br/saude-de-a-z/febre-amarela-sintomas-transmissao-e-prevencao; Organização Mundial da Saúde: http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs100/pt/ e o CDC de Atlanta (em inglês): https://www.cdc.gov/yellowfever/index.html

Caso leia uma notícia ou ouça um áudio que destoe do que está escrito neste blog ou nos sites recomendados, não o passe adiante. Não participe da rede de notícias falsas e mentirosas que colocam em risco a saúde de outras pessoas.

Boa vacinação para todos!

 

 

 

NOVA VACINA PENTAVALENTE

habitos-saudaveis-alimentaresNotícia divulgada na ilha-reino de Utopia revela que uma nova vacina pentavalente foi aprovada para uso em humanos. A vacina protege contra a obesidade, diabetes tipo 2, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e algumas formas de câncer. Os pesquisadores ainda acreditam que esta vacina possa ter um efeito protetor contra a hipertensão arterial, mas o órgão regulador de vacinas ainda não aprovou sua comercialização como sendo uma vacina hexavalente. O ministro da Saúde de Utopia, Dr. Otimissimus, declarou: “caminhamos rumo a uma vida sem doenças”.

Utopia é o nome de uma ilha-reino, que dá nome a um romance escrito em 1516, por Thomas More. Esta ilha, teria sido inspirada nas descrições feitas por Américo Vespúcio, do que hoje conhecemos por Fernando de Noronha. Utopia foi um neologismo criado pelo autor, significando lugar nenhum. Era uma ilha-reino onde havia igualdade e justiça, portanto só encontrável em lugar nenhum. Somente nesta Utopia, poderíamos ter uma vacina pentavalente como a que descrevi no primeiro parágrafo.

O leitor do blog deve estar confuso, com razão. Afinal de contas, existe essa tal vacina? Se não existe, por quê essa história toda sobre Utopia? Onde esse pediatra quer chegar?

Respondo, por partes. A vacina não existe, como vacina. Mas, se existisse, você a daria a seu filho? Não tenho a menor dúvida de que a resposta será sim. Quem não gostaria de proteger seu filho contra essas cinco ou seis doenças, tão frequentes? Mas, se não existe a vacina, existe o equivalente a uma vacina que pode proteger os nossos filhos destas doenças. O equivalente à vacina são bons hábitos de vida: alimentação, atividades física, sono regular, vida afetiva e um tempo para ficar quieto, pensando em nada. Simples, barato e eficiente. Por quê então não vemos mais gente aderindo e ensinando aos filhos uma forma de viver com prazer e que os proteja de doenças muito comuns e frequentes? Por que somente em um lugar idealizado, como Utopia, as pessoas se comportariam de forma a obter vantagens no longo prazo, ao invés de facilidades no curto prazo. Isso responde à segunda pergunta de porque usei Utopia para começar o post.

Onde eu quero chegar com esse post? Gostaria de propor que pensássemos em porque não hesitaríamos em dar a tal nova vacina pentavalente e não aderimos, nem ensinamos aos nossos filhos, hábitos saudáveis de vida. A seguir, algumas ideias que eu tenho a respeito e que poderiam explicar nosso comportamento.

1- Vacinas representam bem a nossa cultura de hoje. Uma aplicação rápida, eficiência comprovada, um custo aceitável (seja pagando via impostos, seja na clínica privada)  e, o mais importante- assunto resolvido! Em uma cultura do rápido, eficiente e ticar checklists, nada como uma vacina.

2- Vacinas encarnam o mito do moderno, fruto da pesquisa científica e tudo que é moderno e científico é o melhor que se pode oferecer.

3- Vacinas  são práticas, exigindo pouco ou nenhum envolvimento dos pais. Qualquer pessoa pode levar a criança para ser vacinada. Os pais se sentem cumpridores de um cuidado, sem ter que se dedicar muito tempo a ele.

4- Nenhuma criança gosta de tomar vacina, mas, o tempo que os pais precisam usar sua autoridade e impor que a vacina será dada, não passa de 3 a 5 minutos, no máximo.

Hábitos de vida saudável são o oposto desses atributos que descrevi para as vacinas. Exigem um reforço (para ficar na linguagem das vacinas), diário. Portanto, é uma atitude trabalhosa, árdua, contínua. O assunto nunca está completamente resolvido e não pode ser ticado da checklist. Ou melhor, é ticado todos os dias e, no dia seguinte, está na lista de pendências, novamente. Nada mais frustrante para quem, como nós, vive em uma cultura de eficácia gerencial, extrapolada para a vida. Algo que precisa ser cuidado todos os dias, denuncia alguma incapacidade de resolver, de uma vez, o “problema”. Mas, hábitos de vida não são um problema a ser resolvido, mas, uma solução!

Hábitos saudáveis de vida não apresentam o glamour da modernidade, nem o mito do conhecimento científico como sendo a única forma de saber.  O antigo é confundido com o ultrapassado.  Nem tudo que é do passado, deve ser considerado ultrapassado. Mas, francamente, não pensamos assim. Veja o exemplo da alimentação. Quanto mais se estuda, mais damos razão ao conhecimento dos nossos avós que diziam que um prato saudável era um prato colorido. Mas, ao nosso redor, o que mais se vê são modismos e “modernidades” alimentares.

Hábitos saudáveis exigem um envolvimento enorme dos pais. Exigem uma realocação do que seria o meu tempo, para o nosso tempo. Nosso sendo o tempo com a família, os filhos. Exigem que os pais também modifiquem comportamentos para serem exemplo e aí reside uma das maiores barreiras para que nosso filhos possam aderir a um estilo de vida que funcione como  uma vacina contra as doenças citadas. Hábitos saudáveis dão mais trabalho porque a alimentação industrializada, de fácil acesso e preparo, nem sempre é a mais adequada ou melhor. A lei da gravidade é infinitamente mais forte no sofá em frente à televisão, nos prendendo lá ao invés de uma vida ao ar livre, com atividade física.  E, finalmente, exige que os pais se valham da sua autoridade de forma mais contínua e não só por alguns minutos. Limites bem colocados são fundamentais para que a “vacina” funcione. Não só é importante seIsola_di_Utopia_Moro estimular o que deve ser feito, como traçar limites claros e rígidos com relação ao que não deve.

Dito desta forma, parece uma tarefa impossível, utópica. Mas, não ensinamos nossos filhos a escovarem os dentes,
todos os dias? Não os educamos para usarem cinto de segurança, quando andam de carro? Aos poucos, não vamos criando o hábito do uso diário do protetor solar? Temos exemplos de bons hábitos que conseguiram ser introduzidos na nossa vida rotineira. Nem nos damos conta de que se tratam de ações de prevenção.

Cabe a você leitor decidir se vai “vacinar” ou não seu filho com a nova pentavalente. Como não estamos em Utopia, ela, por aqui, se chama de bons hábitos de vida. Quem ensinar seus filhos a adota-los, vai lhes dar  não só mais anos de vida, como mais vida nesses anos.

CAXUMBA- 13 PERGUNTAS E RESPOSTAS.

gland salivO QUE É A CAXUMBA?  É uma virose que produz uma inflamação nas glândulas salivares (vide figura). A glândula mais comumente comprometida é a Parótida, próximo à orelha. A Caxumba pode afetar uma ou ambas as glândulas, deixando a criança com o rosto inchado, redondo. Um dos nomes populares da Caxumba é “papeira” exatamente porque a criança fica “papuda”.

QUAIS OS SINTOMAS DA CAXUMBA? Como toda virose, os sintomas iniciais podem ser de febre, mal estar, dor muscular. Nada muito específico. Somente quando as glândulas salivares ficam inchadas que o diagnóstico  clínico é feito. Nem todos os casos de Caxumba acometem as glândulas salivares. Assim, é possível que uma pessoa já tenha tido Caxumba, sem saber.

A CAXUMBA É UMA DOENÇA GRAVE OU APRESENTA RISCOS? A Caxumba NÃO É UMA DOENÇA GRAVE. A maioria dos casos evoluiu sem nenhuma complicação. Dentre as complicações mais frequentes, está a orquite (inflamação dos testículos). Mas, mesmos quando ocorre a orquite, a esterilidade é uma complicação rara. Ao contrário do que se divulga, nem todo caso de orquite vai ter como consequência a esterilidade.  Apenas um percentual pequeno dos meninos com orquite poderá se tornar estéril.

QUAL O PERÍODO DE INCUBAÇÃO DA CAXUMBA? Período de incubação é o tempo que leva entre o contato com o vírus e a manifestação da doença. Na Caxumba esse período é longo, podendo se estender entre 12 e 25 dias. Na média, o período de incubação é de 16 a 18 dias. Isto é, se uma pessoa susceptível (sem imunidade específica para a Caxumba), entrar em contato com o vírus da Caxumba, a doença só vai se manifestar entre 12 e 25 dias depois. Portanto, não é imediatamente ou em poucos dias, que a doença se manifesta.

QUAL O PERÍODO DE CONTÁGIO DA CAXUMBA? Período de contágio é o tempo em que uma pessoa infectada com o vírus da Caxumba é capaz de transmitir a doença para outra pessoa. Na Caxumba, esse período pode ir de 7 dias antes até 9 dias depois do aparecimento da Parotidite (inflamação da Parótida). O período de maior infectividade (risco de contágio) é entre 1 dia antes e 5 dias após o aparecimento da Parotidite.

COMO É TRANSMITIDA A CAXUMBA? A transmissão do vírus da Caxumba se dá através do contato com a secreção respiratória de uma pessoa infectada. É importante lembrar que a transmissão pelas mãos é muito importante. Quando falamos em secreção respiratória pensamos logo em ar, ambiente fechado, tosse e espirro. O que não nos lembramos é que uma pessoa infectada pode coçar o nariz, cobrir a boca para tossir etc. transferindo o vírus pelas mãos. Por esse motivo, a lavagem das mãos (em qualquer virose) é muito importante.

COMO PREVENIR A CAXUMBA? Através da vacinação, com duas doses da vacina tríplice viral (Sarampo, Rubéola e Caxumba). A primeira dose da vacina deve ser dada aos 12 meses de idade e a segunda, aos 15 meses, segundo o calendário vacinal brasileiro. A segunda dose não pode ser dada antes de 3o dias após a primeira. MULHERES GRÁVIDAS NÃO PODEM TOMAR ESTA VACINA e as mulheres em idade fértil devem esperar, ao menos, 30 dias após a vacinação para engravidar. O motivo é que a vacina tríplice viral contém o vírus atenuado da Rubéola.

QUEM DEVE RECEBER A VACINA? Todas as crianças de 12 meses devem receber as duas doses da vacina. Crianças que só tomaram uma dose, devem receber a segunda dose. Não há necessidade de recomeçar a vacinação. Basta dar a segunda dose. Adolescentes e adultos nascidos após 1957 que não foram vacinados e/ou não tiveram a Caxumba, devem ser vacinados também.

NO CASO DE UM SURTO, EXISTE A INDICAÇÃO DE UMA TERCEIRA DOSE DA VACINA? Um surto é um aumento do número de casos, sem caracterizar um epidemia. Com relação à terceira dose da vacina, não há nenhuma evidência de sua efetividade. No entanto, como a Caxumba vem produzindo surtos em vários lugares do mundo, estudos estão sendo realizados, com relação a esta terceira dose. O que se sabe é que uma terceira dose, em adolescentes, não produz efeitos colaterais significativos e, em um surto ocorrido em Nova York, há 5 anos, aparentemente reduziu o número de casos entre os que receberam este reforço adicional. Assim, as recomendações do Ministério da Saúde, do CDC de Atlanta e da OMS, ainda não recomendam, de forma sistemática a aplicação de uma terceira dose de vacina tríplice viral. Esta decisão ainda é individual, sob a orientação do pediatra. Crianças antes da adolescência, que receberam duas doses da vacina, não têm indicação de uma terceira dose. 

POR QUE UMA PESSOA VACINADA PODE CONTRAIR A CAXUMBA? O que se sabe é que nenhuma vacina possui 100% de efetividade. A efetividade da vacina contra a Caxumba é estimada em 95%, mas, diante de surtos, em diversos lugares do mundo, estão sendo realizados estudos para identificar se há uma perda da imunidade, com os anos. Isso explicaria porque os surtos acometem adolescentes. Pode ser que, após estes estudos, surja a recomendação de um reforço da vacina, na adolescência.  Por enquanto a recomendação é de duas doses.

QUAL O TRATAMENTO PARA A CAXUMBA? Como se trata de uma virose, não há tratamento específico para esta doença. O tratamento será sintomático, prescrito pelo pediatra ou médico. Como em toda virose, a criança deve ficar em repouso, até sua melhora.

QUANTO TEMPO UMA CRIANÇA COM CAXUMBA DEVE FICAR AFASTADA DA ESCOLA? O tempo mínimo recomendado é de, pelo menos, 5 dias após o início da parotidite (glândula salivar inchada). Em alguns casos, este prazo pode ser maior. A recomendação é que a criança só volte para a escola quando o pediatra a considerar apta.

NO CASO DE UM SURTO, HÁ MOTIVO PARA PÂNICO? NÃO!   O pânico, em geral, produz comportamentos irracionais e contraproducentes. O pânico costuma se instalar quando não temos informações seguras e confiáveis sobre o que está ocorrendo. Por esse motivo, boatos tendem a produzir pânico. Por outro lado, em uma situação crítica ou de ameaça, é razoável e até esperado que tenhamos uma reação de apreensão e atenção. Nosso organismos está preparado para isso e esta reação se chama de luta ou fuga. Nesse momento, ter informações ajuda muito a que possamos buscar o controle para que as nossas atitudes sejam racionais e efetivas. Como a Caxumba é uma doença benigna, com raríssimas complicações, não há motivo para alarme ou pânico. Saber que duas doses de vacina protegem a grande maioria das crianças e que, na eventualidade de uma criança contrair a doença, praticamente todas se recuperarão sem maiores consequências, deve nos ajudar a não entrar em pânico. Lembre-se que o seu pediatra é a melhor pessoa para lhe orientar. Converse com ele ou ela.

 

 

 

ERA UMA VEZ UM NARIZ…

common-cold-childEra uma vez um nariz que vivia feliz. Ele e seu dono (cada um é dono do seu nariz!), andavam para lá e para cá. O nariz avisava a seu dono dos cheiros que iam passando. Cheiros gostosos de flores, de chuva, de mamãe e papai, de comidas. Também avisava quando o cheiro não era tão bom, como cheiro de pum, de fumaça ou de coisas estragadas. Claro que, de vez em quando, o nariz aparecia com uma melequinha que o dedo do dono rapidamente se encarregava de futucar e catar. Outros dias, dava um sinal sonoro de vida, espirrando. E assim a vida corria tranquila.

Até que um dia, um belo dia, um vírus, entrou no nariz. Para quem não sabe, o vírus não é um ser vivo, como outro personagem do bando dos agentes infecciosos, as bactérias. Mas, outro dia eu conto a história das bactérias. Os vírus são pedacinhos de material genético (DNA ou RNA), guardados dentro de uma camada de proteína e com um envelope de gordura. O que o vírus mais gosta de fazer é entrar dentro de uma célula, qualquer célula e bagunçar a vida dela, misturando o seu material genético com o da célula. Por isso que o corpo se defende quando percebe que um vírus chegou.

Pois bem, na nossa história  o tal vírus, do bando dos agentes infecciosos, se instalou no nariz (e seu dono). Muita gente acha que o vírus gosta de viajar de avião, pelo ar, sentado na primeira classe das minúsculas partículas que saem das nossas bocas quando falamos ou dos nossos narizes quando espirramos. Vírus até viaja de avião, mas, vou contar um segredo para vocês- eles têm medo de avião! Preferem viajar nas mãos das pessoas, onde se sentem muito mais seguros. Uma mão com vírus, diz bom dia para outra e o vírus pula para esta. A pessoa então coça o nariz e ….. olha o vírus entrando. Foi o que aconteceu com nosso nariz. Por isso que uma das maneiras de se prevenir que os vírus circulem é lavando as mãos.

Quando o vírus entrou no nariz da nossa história, o seu dono nem percebeu. Mas, seu corpo, esperto, rapidamente começou a se organizar para evitar que o vírus fizesse a bagunça que gosta de fazer. O nome dessa organização que o corpo faz, para se defender desses invasores é reação inflamatória. Vamos ver o que aconteceu então com o nariz (e seu dono).

Assim que as células perceberam a chegada e tentativa de entrada do vírus, dispararam o alarme, liberando substâncias químicas como as citocinas. Citocinas são histéricas! Sei que eu não deveria falar assim delas, afinal de contas, tão importantes. Mas, o fato é que saem correndo, gritando, avisando, cutucando as células que são as responsáveis pelas defesa contra a invasão do inimigo. Abaixo da primeira camada de células do nariz, ficam os Mastócitos. Estão ali, meio que de bobeira, só dando uma olhada no ambiente. Quando soa o alarme que um inimigo está invadindo, o Mastócito solta uma substância chamada Histamina. Talvez, alguns leitores deste conto do resfriado comum, já tenham ouvido falar em um tipo de remédio chamado de anti-histamínico ( que tenta neutralizar a Histamina). Pois bem, a Histamina, o que faz? Ela corre para os pequenos vasos (por onde passa o sangue) e faz com que aumentem de tamanho. Isso, os médicos e cientistas, que adoram nomes complicados, chamam de vasodilatação. E, talvez, alguns já tenham ouvido falar em outro tipo de remédio, os vasoconstritores, cuja função seria devolver os vasos sanguíneos para seu tamanho normal. A vasodilatação faz com que algum líquido e células, que estavam dentro do vaso sanguíneo, extravasem, transbordem, produzindo edema (inchaço). Isso tudo está acontecendo no mundo microscópico das células do nariz da nossa história.

E o que sente o dono do nariz?  Como houve vasodilatação e edema, sente seu nariz entupido. A seguir, o seu corpo vai produzir secreção, para tentar eliminar o vírus. Essa secreção pode ser clarinha e escorrer pelo nariz, quando ganha o nome de coriza, ou pode ficar mais espessa e ser produzida em todo o aparelho respiratório, já merecendo ser chamada de catarro.

Tudo isso que está acontecendo com o nariz da nossa história e seu dono, é a tal reação inflamatória, cujo objetivo é organizar o “campo de batalha” para oferecer as melhores condições de vitória para o corpo do nariz e seu dono. Como o vírus da nossa história era bem mau, ele não deu muita bola para essas primeiras reações. Aí o corpo resolveu pegar mais pesado. Decidiu esquentar a briga e…. produziu a febre. A febre, animou os soldados de defesa (as células envolvidas como linfócitos, monócitos, neutrófilos, eosinófilos, basófilos etc.) e derrubou o dono do nariz. Era importante, nesta hora, que o corpo pudesse se dedicar a organizar a defesa ao invés de ficar correndo, brincando ou indo para a escola. Como o vírus, esse bandido resistente, ainda não tivesse sido vencido pelo exército (sistema imunológico), o corpo já estava produzindo catarro, para dificultar a vida do nosso inimigo. Mas, como tirar o catarro do corpo? Tossindo e espirrando!

Vejam a confusão em que o nariz e seu dono se meteram, só por causa de um vírus que veio, muito provavelmente, trazido pela mão do próprio dono do nariz! O nariz está entupido, sem sentir cheiro de nada. Gosto então, nem pensar. Comer não é algo que esse corpo deseje. No máximo, beber uma água ou um suco. Além de entupido, escorre e espirra. O dono, com febre, só quer ficar deitado. Mas, quando deita, tosse! E aí, dói a cabeça. E, não raro, o nariz e seu dono, têm mãe e pai para ajudar a cuidar. Na nossa história, que é uma fábula, portanto, em nada se parece com a realidade, a mãe do dono era uma mãe amorosa e cuidadosa. A cada cinco minutos ou verificava a temperatura, ou oferecia algo para beber ou perguntava se não queria comer nada. Não satisfeita, se aproximava do nariz, para desespero do dono, com uma coisa que ela dizia- é para o seu bem – metia um jato de uma água salgada pelo nariz adentro. O dono, ficava cada vez mais irritado e, quanto mais se irritava, mais a mãe se preocupava e imaginava novos e criativos meios de cuidar do nariz e do seu dono.

Tudo que o nariz e seu dono precisavam era de uma mãe amorosa e cuidadosa que estivesse sempre por perto, mas, não por cima, pelo lado, embaixo, por toda parte, o tempo todo. O nariz e seu dono precisavam dar um tempo para que o exército do sistema imunológico, travando a batalha da inflamação, vencesse o vírus inimigo. Essas batalhas, duram, em geral, uma semana. Algumas um pouco mais, outras um pouco menos. E assim foi com o nariz da nossa história e seu dono. Uma semana depois de tudo começar, já estavam correndo e brincando juntos e, felizes. Voltaram para a creche, quando… (ao fundo o suspiro de uma mãe desesperada, dizendo- resfriado, de novo? Não!).

Moral da história: os sintomas que nosso filhos (e nós) apresentamos quando ficamos resfriados, fazem parte dos mecanismos de defesa do nosso corpo. Visam a vencer a infecção. O problema é que a resposta inflamatória é quase perfeita. Só esqueceu de fazer isso tudo, sem nos incomodar. O mal estar, mau humor, irritação que a, tosse, nariz entupido, dor de cabeça e às vezes no corpo produzem, são muito desagradáveis. Por esse motivo, não digo que devemos deixar nossos filhos passarem por esses momentos sem nenhuma medicação, cuja finalidade é dar algum conforto (porque não existe remédio específico para os vírus). Mas, não adianta exagerarmos, dando remédios demais, a grande maioria deles ineficazes e com efeitos colaterais, para um resfriado comum que passará em uma semana. Mais importante é lembrar que ficar em cima dos nossos filhos, a cada cinco minutos tomando uma iniciativa, também pode irritá-los. Imagine-se  na cama, resfriado e com febre e uma pessoa muito querida lhe pergunta, a cada cinco minutos: quer comer? quer algo da rua? quer uma revista? quer que prepare um suco? você precisa beber água! vamos medir essa temperatura? já tomou o remédio? não é melhor ligar para o médico?  Tudo que queremos, quando estamos nesta situação é paz, sossego, um copo de água do nosso lado e uma pessoa querida e carinhosa, bem perto, mas, esperando que a chamemos. Lembremos disso ao cuidarmos de nossos filhos. Claro que crianças são diferentes e os menores não expressam com clareza seus desejos, exigindo uma atenção mais ativa e atuante. Mas, não é common-cold-girlnecessário uma vigilância que gere irritação.

Finalmente, um aviso. Até hoje, não existem remédios para se tratar de resfriados comuns. Um resfriado comum leva sete dias para ficar bom sem remédios e  uma semana, com remédios!

UMA CARONA NO  ERA UMA VEZ UM NARIZ- VACINA CONTRA A GRIPE:

Aproveito o post para lembrar que estamos na época de vacinação contra a gripe. A vacina contra a gripe protege contra as infecções causadas pelo virus influenza que não é o vírus que produz o resfriado comum, vilão da historinha que acabei de contar. O resfriado comum pode ser produzido por mais de duzentos rinovírus e alguns outros tipos de vírus. A vacina contra a gripe não protege contra o resfriado comum. Muitas pessoas alegam que não tomarão a vacina contra a gripe ou a darão para seus filhos porque no ano passado o fizeram e “não adiantou nada”, tendo tido resfriados, como sempre. A vacina contra a gripe protege contra uma doença mais grave que pode causar internação e até a morte.Não protege contra o resfriado comum que, no Brasil, também é chamado de gripe (só para confundir).

O Ministério da Saúde oferece, na rede pública, vacinas para crianças menores de cinco anos, gestantes, idosos, índios e profissionais de saúde, porque são os grupos de maior risco. Mas, todos que puderem, deveriam ser vacinados contra a gripe.

EXISTE VACINA CONTRA A CORRUPÇÃO?

Stop corrupçãoSabem como é cabeça de pediatra, tudo é virose e só pensam em vacinas! Além disso, pediatras, em geral, são brincalhões ou espontâneos, rindo, inclusive desse modo curioso de pensar e ver o mundo: viroses e vacinas. E se a corrupção fosse uma virose, haveria uma vacina para prevenir esta doença? Estou convencido de que exista essa vacina e ela se chama educação.

Não me refiro à palavra esvaziada e desgastada, utilizada como uma espécie de elixir para todas as nossas mazelas. O que falta ao Brasil, é educação, repetimos todos, quase que em coro. Mas, dificilmente, paramos para nos perguntar que educação falta ao Brasil? Ou, melhor, que educação falta aos brasileiros  porque um país é feito de gente e não é um ser em si. Quando repetimos que o problema do Brasil é a falta de educação, o colocamos (o problema), longe de  cada um de nós. O Brasil é essa coisa grande, vaga, impessoal. Quando penso em educação para os brasileiros, já me sinto incluído na pergunta e, portanto, com algum compromisso com a resposta. Voltando à pergunta, que educação nos falta?

Fui buscar uma das possíveis respostas  em um pensador (sim, houve uma época em que pensar era muito valorizado pela sociedade) que dizia o seguinte: “E é observando as escolhas que os homens fazem, antes que seus atos, que nós os louvamos ou censuramos.”- Aristóteles. 

Mas, o que tem essa resposta com a pergunta- que educação está nos faltando? E, mais ainda, com pergunta sobre a vacina contra a corrupção? A corrupção é um ato que envolve, no mínimo, duas partes. De um lado quem corrompe, o corruptor e, do outro quem é corrompido. Portanto, fica fácil responder à pergunta de que educação precisamos? Uma que ensine a todos, começando pelas crianças, que é errado corromper e ser corrompido. Certo? Errado!

Essa educação que ensina o que é certo ou errado está fadada ao fracasso porque é superficial. Envolve noções de premiação e punição, que produzem comportamentos atraídos pelos prêmios ou repelidos pelos castigos. E que mal há nisso, perguntarão muitos dos (poucos) leitores do blog? De fato, para muitos comportamentos condicionados, esta é uma forma de se ensinar uma criança. Ensinar não é o mesmo que educar e nem todo comportamento é ou deveria ser condicionado. Não respondemos a tudo de forma pavloviana!

Vamos reler a frase de Aristóteles? E é observando as escolhas….. antes que seus atos….”. Aqui, uma sutil porém relevante diferenciação. A escolha precede o ato. A cada ato, corresponde uma escolha. Talvez, a educação que precisemos seja exatamente uma que contribua para que façamos escolhas desejáveis. Feita a escolha, se segue o ato, com uma naturalidade absoluta. No ato, não há investimento maior. Todo o investimento emocional e racional está na escolha. Meio confuso? Acho que sim. Vou tentar esclarecer.

Vamos considerar que lhe façam uma proposta de matar uma pessoa. Calma, é apenas um exemplo! Pois bem, a proposta completa é a de que você mate uma determinada pessoa e, para isso, você receberá uma soma impensável de dinheiro. Você mataria alguém que você nunca viu, não conhece, que não lhe fez nada, em troca de uma quantia irrecusável de dinheiro?  Vamos supor que você responda não. Agora, a proposta fica mais interessante. Além do dinheiro, você receber a garantia de que jamais será pego, julgado ou punido. Se você respondeu não à proposta só envolvendo dinheiro, mudaria sua resposta, respondendo sim, pelo fato de que, além do dinheiro, não sofrerá consequências legais? Pouco importa o que cada um respondeu. Mas, é razoável supor que um grupo de pessoas dirá não à proposta de matar um estranho, independente do pagamento e da impunidade. Por que alguém diria não a uma proposta que poderia mudar a vida material dela, sem risco de punição? É porque, para este grupo, a escolha que antecede o ato, é inaceitável. Assim, não há possibilidade desta pessoa considerar uma tal proposta. Esta pessoa, faz uma escolha moral, baseada nos seus valores. É na escolha de matar (ou não) que está todo o investimento emocional e racional.

A educação do premiar  e  punir, excelente para comportamentos condicionados, essenciais para a sobrevivência (não debruçar sobre a janela, enfiar o dedo em tomada ou chegar perto de fogo, pular ao ouvir uma freada do seu lado etc.) atua sobre os atos e não sobre as escolhas. A educação que atua sobre as escolhas é aquela em que se estimula a análise, reflexão, contemplação, compaixão e empatia. Enquanto nossas creches e escolas se limitarem a oferecer conhecimento e comportamento, teremos uma educação incompleta e, certamente, não estaremos vacinando nossos filhos contra o vírus da corrupção. Conhecimento e comportamento são fundamentais, mas, falta, para uma educação mais completa o entendimento ou compreensão. Compreender não é apenas conhecer e agir. Compreender implica em utilizar ferramentas humanas (enferrujadas?) como o o questionamento crítico (e auto-crítico), o aprendizado que é algo mais profundo e complexo do que o conhecimento. Compreender significa problematizar, algo do qual fugimos, correndo o risco da simplificação (que não é sinônimo de simplicidade) que torna nossa capacidade analítica em algo superficial, contribuindo para a banalização da vida cotidiana, incluindo a corrupção! A síntese da simplificação acrítica está contida na frase: “Isso é assim mesmo. Sempre foi e vai continuar sendo”. Que sociedade queremos para nossos filhos? Se for uma diferente desta em que estamos vivendo, teremos que enfrentar a pergunta- que educação precisamos oferecer para que nossos filhos?

Mas, que educação é esta? Não sou pedagogo, sou apenas um pediatra que vê viroses e pensa vacinas. Além disso, escrevo um blog com o intuito de informar e provocar reflexões. Como vamos introduzir filosofia moral nas nossas creches, é um tema a ser discutido. Mas, tenho a certeza de que sem, modificarmos o nosso modelo educacional, hoje baseado na avaliação como finalidade e não meio, destituído de uma provocação reflexiva a respeito das escolhas de cada um e seu impacto em todos, continuaremos repetindo, que o que falta ao Brasil é educação! Por outro lado, se os pais que leem o blog se sentirem mobilizados e, ao visitar as creches e escolas, não se preocuparem só com o cardápio (importante), segurança (muito importante), espaço físico (importante), limpeza (importante), número de funcionários (importante), mas fizerem uma pergunta desconcertante como: como vocês abordam as questões de filosofia moral com as crianças?  e prestarem atenção nas reações e respostas, talvez possamos almejar mudar algo.

Finalmente, uma nota de advertência. As escolas ou creches são apenas um prolongamento auxiliar do processo educativo que a acontece em casa, na família. A pergunta portanto, volta para nós. Mais do que uma bela resposta, ou dos nossos atos, vale a análise de como fazemos nossas escolhas. Crianças aprendem por imitação e admiração e, os primeiros a serem imitados e admirados, somos nós, os pais.

Se você é uma mãe ou um pai que não mataria por dinheiro e impunidade, ufa, esse post é para você! Dedique seu tempo na educação das escolhas, nos valores morais que preza e os atos, coerentes com estes, se seguirão. Ao participar das reuniões na creche ou escola, aborde o tema das escolhas antecedendo atos. Os pedagogos conhecem algumas formas de trabalhar o tema. Vamos provocá-los!

 

VACINAS SÃO SEGURAS?

SIM! Vacinas se encontram entre os maiores avanços em saúde pública por sua capacidade de erradicar certas vacinas2doenças como a varíola, poliomielite e sarampo, além de diminuir o número de casos de meningites, pneumonias e otites, produzidas por bactérias para as quais dispomos de vacinas. Mais recentemente foi lançada uma vacina contra o Papilomavirus humano, provavelmente contribuindo para a redução do número de casos de câncer do colo do útero.

Apesar dos comprovados benefícios  e segurança das vacinas, de tempos em tempos surgem resistências de alguns pais, baseadas em informações incorretas. Quando pais resistem a vacinar seus filhos, a consequência é o surgimento de surtos da doença, como agora, com o Sarampo, nos Estados Unidos, que obrigou o presidente Barak Obama a fazer um apelo público para que os pais vacinassem seus filhos.

Mas, a pergunta é se vacinas são seguras e eu respondi que sim, de onde vem essa resistência? Dizer que algo é seguro não significa que não possa ter efeitos colaterais indesejáveis. Nada, absolutamente nada, que acontece nas nossas vidas é isento de efeitos colaterais. O ato de viver tem efeitos colaterais como o envelhecimento e, inevitavelmente, a morte. Isto é, se tudo der certo nas nossas vidas, se vivermos sem adoecermos, mesmo assim, notaremos os efeitos colaterais do tempo na nossa pele, capacidade física, flexibilidade, memória etc. Portanto, quando falamos em segurança de um produto, o que está sendo dito é que os efeitos colaterais (que sempre existem, insisto), são muitíssimo menores do que os benefícios que tal produto pode nos trazer. Por exemplo, o efeito colateral de veículos são a poluição e os acidentes com consequências as mais variada. Ninguém pensa em abandonar o uso de veículos por conta dos seus efeitos colaterais.  O que se faz, ou deveria fazer, é buscar reduzir ou minimizar esses efeitos. Poderia dar outros exemplos, bem humorados, para que os que leem este blog entendam esse conceito de risco x benefício. Mas, vou direto para as vacinas. Se alguém tiver dúvidas pode sempre deixar um comentário que eu tentarei responder.

Vacinas, podem produzir efeitos colaterais, mas seus benefícios são infinitamente maiores do que o risco envolvido. A primeira coisa importante a ser dita é que as doenças para as quais as vacinas protegem nossos filhos não são “inocentes” ou “bobas”. Sarampo, por exemplo, é uma doença que mata.  Como no Brasil, graças a um excelente programa nacional de imunização, não temos tido casos de Sarampo, poucos leitores do blog sequer viram um único caso. Mas, quando tínhamos epidemias de Sarampo, havia uma mortalidade significativa por esta doença. Mesmo sem matar, o Sarampo poderia produzir pneumonia e encefalite com consequências graves para o desenvolvimento da criança. A Poliomielite deixa a criança com paralisia, a meningite pode ser fatal ou deixar sequelas, o tétano não tem cura e a sua mortalidade é alta. Portanto, o argumento de que é melhor a criança contrair a doença do que vaciná-la, não é correto.

Em geral, os efeitos colaterais das vacinas são mínimos, incluindo: dor e vermelhidão no local da injeção, irritabilidade por conta deste desconforto e febre (ocasional e não obrigatória). Algumas injeções podem deixar a região com um endurecimento ou pequeno nódulo. A vacina BCG pode produzir um reação local mais intensa, com uma pequena ferida que cicatriza em até alguns meses (pode demorar, o que é normal). Tirando estes efeitos colaterais, raramente uma criança saudável apresenta sintomas mais graves. Crianças imunodeprimidas ou com alergias diagnosticadas a algum componente da vacina, podem apresentar reações raras, mais graves.

Uma das vacinas para as quais há uma certa desinformação é a  contra o Sarampo. Até hoje, circula pela internet a informação, errada, de que esta vacina produz autismo. Se esta informação está errada, de onde surgiu? A história é simples, as consequências nem tanto. Em 1998, a revista médica Lancet, uma das mais prestigiosas publicações científicas, publicou um artigo onde os autores descrevem uma “vaga associação entre a vacina contra o Sarampo e distúrbios do desenvolvimento”. Este trabalho foi baseado em um estudo com 12 crianças! O fato é que o trabalho se mostrou forjado, o Lancet se retratou da sua publicação e o Dr. Wakefield, autor principal do artigo, foi proibido de exercer a medicina na Inglaterra por lapso ético. Portanto, toda essa história de vacina e autismo surgiu a partir de um artigo sem validade alguma. Na sequência, algumas pessoas começaram a atribuir ao Timerosal, um preservante utilizado na indústria o potencial de toxicidade porque continha mercúrio. De fato, o Timerosal contém etilmercurio e não metilmercurio, este sim, tóxico. Desde 2001 que as vacinas não contém mais Timerosal (com a exceção da vacina contra a gripe). Portanto, o mito do autismo provocado pela vacina contra o Sarampo nasceu de um artigo sem valor científico (uma fraude) e da informação dos riscos do Timerosal, que não é mais utilizado em vacinas há 14 anos!

Em linguagem científica, sempre muito cautelosa, as revisões de centenas de estudos feitos com a vacina contra o Sarampo concluiram que “as evidências favorecem a rejeição de uma relação causal entre a vacina SRC (Sarampo, Rubéola e Caxumba- também conhecida como MMR) e o Autismo”.

Quando as convicções se baseiam em evidências científicas, a certeza é temporária, característica do pensamento científico. Quando estas se sustentam em crenças ou crendices, nada será capaz demover a “verdade absoluta”. Neste momento do nosso conhecimento científico, vacinar seus filhos é seguro e não vaciná-los significa um ato irresponsável de exposição a consequências potencialmente muito graves. Um adulto que opta de forma esclarecida, por não tomar uma vacina (ou parar de fumar, ou deixar de ser sedentário), está dentro do seu direito de livre arbítrio. É moralmente aceitável impor uma crença a um menor e, como consequência, colocar sua vida em risco?