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DIA DA CRIANÇA E O NOBEL DE ECONOMIA.

Hoje, dia 12 de outubro, se comemora o dia da criança. Praticamente como todas as datas que celebram alguém, há forte cunho comercial que as criou e sustenta. Datas (mães, pais, namorados e crianças) vendem! Nada contra, afinal de contas a economia precisa se movimentar, gerando riqueza, empregos e melhoria do nível de vida de todos. Por falar em economia, nesta semana foi anunciado o vencedor do Prêmio Nobel de Economia. O vencedor deste ano foi Richard Thaler, professor de Ciências Comportamentais e Economia, na Universidade de Chicago. O prof. Thaler é um dos acadêmicos que estuda e divulga uma linha chamada de Economia Comportamental. Trata-se de uma abordagem que incorpora ao conhecimento de economia, boas doses de psicologia. Em 2002, outro pesquisador que segue a mesma linha, Daniel Kahneman, também recebeu o Nobel de Economia. De forma simplória (a ser criticada pelos eventuais economistas que leiam este post), a economia comportamental incorpora nas suas análises uma faceta irracional do comportamento humano. Uma linha mais “clássica” ou ortodoxa, crê firmemente que o ser humano tomará as melhores decisões, baseadas em uma análise lógica e buscando otimizar seus ganhos e/ou minimizar perdas ou riscos. Para estes estudiosos, seríamos um homo economicus, ator racional, cujo comportamento (tomada de decisões) é previsível e redutível a modelos matemáticos. Ocorre que a nossa história pessoal (sejamos sinceros, quantas decisões sem um fundamento racional tomamos? Ou, quantas decisões envelopamos em racionalidade apenas para não revelar um desejo irracional?) e coletiva (guerras, intolerância de toda espécie, machismo, obesidade, uso de tabaco) nos mostram que não podemos ser reduzidos a um modelo mecânico de uma máquina que pensa. Somos seres, indivíduos, com uma alta complexidade e vetores (muitos desconhecidos de nós) que nos impulsionam no percurso das nossas vidas. Nesse contexto, agraciar um pesquisador que introduz a irracionalidade e relativa imprevisibilidade no comportamento humano deveria nos fazer repensar o modelo vigente de privilegiar a lógica e racionalidade.

Se você chegou até aqui na leitura deste post, já deve estar se perguntado se eu deixei de ser pediatra e resolvi estudar economia! O elo que farei (me acompanhem neste salto!) é o de que crianças não precisam de um Prêmio Nobel para lembrá-las de que a irracionalidade é um atributo fundamental e inerente ao ser humano. Não é um atributo do homo economicus idealizado por alguns, mas do homo (quase) sapiens que somos.

Para começar, observemos um bebê com poucos dias de vida. É um ser humano, sem a menor capacidade de cognição, sem processar pensamentos de forma lógica, ordenada, analítica ou sistemática. É apenas uma esponja de sensações! Tudo que se passa ao seu redor é captado e absorvido, sem o filtro da racionalidade. Portanto, sem nenhuma possibilidade de discussão, a existência, repleta de estímulos e registros, precede a lógica e a racionalidade.

O bebê cresce e, dadas as boas condições, vai amadurecendo.  Esse amadurecimento leva um bom tempo e durante esse tempo, somos capazes de observar como um pensamento pré-lógico ou mágico infantil domina o universo da criança. Ainda não há espaço para metáforas, tudo é muito concreto. As fábulas lidas ou contadas, representam algo que, de fato, aconteceu ou acontece em algum lugar. Vestir-se de princesa ou homem aranha, não é uma fantasia. É uma transformação! Naquele momento a crianças se percebe e se sente como se princesa ou homem aranha fosse. As histórias que nossos filhos “inventam” são absolutamente fascinantes e dignas de serem registradas para que possam ser recontadas a eles mesmos, uma vez mais crescidos ou adultos. Isso, sem falar na criatividade que as crianças têm para inventar brinquedos, a partir de sucata doméstica ou realizar pinturas, modelagens e colagens. O medo, tão natural em crianças, é outra manifestação explícita e observável da fase de “irracionalidade” que precede a introdução da lógica no pensamento infantil. De forma resumida, a imensa criatividade das crianças é uma homenagem à irracionalidade. Para aqueles que ficam incomodados com o termo irracionalidade (contaminados que estamos com o valor da racionalidade), podemos usar a palavra simbolismo ou simbólico. A imensa criatividade das crianças é uma homenagem ao ser simbólico que elas exibem (e que nós temos vergonha de mostrar).

Neste dia da criança, como em outros, vale a pena pegarmos carona no Prêmio Nobel de Economia, para justificarmos uma boa dose de irracionalidade nos nossos atos. Amor, carinho e afeto não são lógicos ou racionais. Estar perto, estar junto, sem uma justificativa ou sem estar fazendo algo, simplesmente estando, não é lógico ou racional (não raro ficamos aflitos por não estarmos fazendo nada!). Fabular, inventar, criar, encenar, não é lógico nem racional. Vejam que tudo que nossos filhos querem de nós é que também sejamos irracionais!

Para concluir, um segredinho: se formos irracionais, nós vamos nos divertir também, e muito! Bom dia das crianças (todos os dias)!

O DIA DA INDEPENDÊNCIA.

Para nações, estados, tribos, o dia da Independência é aquele em que se libertaram, através de uma revolução, negociação política ou até um grito à margem de um riacho, dos seus colonizadores. É um dia celebrado porque a Independência de um povo significa sua liberdade e autodeterminação e não a obediência (e pagamento com riquezas nacionais) aos desejos e ordens da nação colonizadora.

Para as crianças, qual o dia da sua Independência? Adolescentes fantasiam que é o dia em que completam 18 anos. Quase todo adolescente vê essa data como as nações que foram colonizadas enxergam a sua independência. Mas, todos acordam no dia seguinte, surpresos com o fato de que nada aconteceu! Terão que conviver com o que os pais lhes dizem: você só será independente no dia em que puder morar sozinho e pagar suas contas! Ficam enfurecidos, como sempre ficam, quando lhes dizemos algumas verdades.

Se, ao final de tudo, independência é a capacidade de cuidar de sua vida, assumindo responsabilidade morais e financeiras, qual seria o dia em que os jovens deveriam celebrar esta data? Para muitos, é o dia em saem de casa, quer para estudar em outra cidade, quer para morarem sozinhos ou ainda para se casarem. Mas, esta é a data que celebra o final de um processo, de uma construção que os pais iniciaram, em algum momento da vida do seu filho. A pergunta então é quando iniciar esse processo de independência?

O primeiro ponto importante é que esta pergunta exclui todo o período de um bebê recém-nascido. Isso porque o ser humano é o único mamífero que tem dependência absoluta do seus pais (ou de algum adulto) por um longo período da sua vida.  Bebês de gatos, cachorros, cavalos e baleias, “se viram” com poucas horas ou dias de vida. Um bebê humano não é capaz de fazer absolutamente nada, exceto chorar furiosamente (e funciona)! Assim, digamos que até uns 6 meses de vida, o bebê tem uma dependência absoluta dos seus pais. Falar em processo de independência, neste período, não faz o menor sentido. É uma fase onde os pais devem atender, absolutamente, as necessidades do seu bebê.

A partir do segundo semestre de vida , muito lentamente, os bebês vão transitar de uma dependência absoluta, para uma dependência relativa. É aqui que, pais atentos e cuidadosos, podem começar a construção da independência a autonomia dos seus filhos. É aqui que se inicia o caminho que vai levar os filhos a conseguirem resolver seus problemas e assumirem compromissos, inclusive financeiros. É aqui que os pais devem começar a atender, relativamente e não mais e forma absoluta, as necessidades de sua filha ou filho.

Independência parece ser algo que todo mundo deseja para seus filhos. Ora, para serem independentes, precisam de um espaço para isso. Se tudo que querem e precisam lhes é ofertado, imediatamente, não terão esse espaço para desenvolver capacidades e aptidões de se virarem. Se não sentirem a frustração de ver um desejo não realizado, não desenvolverão a capacidade de se auto consolarem e tolerarem, até um certo ponto, as frustrações que a vida cotidiana nos impõe. Portanto, um primeiro grande passo que podemos dar com nossos filhos, a partir do seu segundo semestre de vida, é introduzir alguma frustração e um espaço para que se virem, um pouco sozinho. Assim, os pais que eram rápidos, disponíveis, atentos, para atender imediatamente as necessidades do bebê recém-nascido, precisam mudar seu nível de atendimento e “piorar um pouco o serviço”. Isso não significa, em nada, menos amor ou carinho. Pelo contrário, é o amor de reconhecer novas necessidades e supri-las, ainda que o filho reaja com indignação insatisfação (e algum choro). Dito de outra forma, pais precisam falhar,aos olhos dos filhos, para que estes possam se desenvolver em adultos capazes de cuidar de si. A ideia de que meu filho vai ficar traumatizado se eu não atender a seus desejos é um equívoco. Atender a todos os desejos, imediatamente, poderá ser muito prejudicial para o desenvolvimento de uma adulto que saiba viver, feliz, em sociedade. Outra ideia que pode nos assustar  é a de que os filhos vão  deixar de gostar de nós, porque não atendemos aos seus desejos.  Na hora que não atendermos nossos filhos, é certo nos odiarão por isso. Cabe a nós simplesmente continuarmos serenos, tranquilos, resistindo e sobrevivendo a esse “ódio”. Sem retaliar, reprimir ou tentar “reconquistar o amor”, veremos que, passada a tempestade, os filhos seguirão nos amando. E mais, perceberão que seu ódio pode ser expresso, sem causar nenhum dano. Poder conviver com seus sentimentos “menos nobres”, sem culpa ou medo, também contribuirá para a formação de um adulto mais bem adaptado.

Um outro ponto importante é que com o crescimento dos filhos, pais devem estimular sua individualidade e criatividade. Isso pode ser feito através do jogo, principalmente utilizando brinquedos vindos da sucata doméstica e a leitura. Com os brinquedos feitos com sucata, a criança cria o brinquedo. Uma caixa de ovos vira um ônibus, por exemplo. Com a leitura, a história se forma na cabeça da criança e cada uma fará a sua. Com a tela do celular, tablet, computador ou televisão, a imagem vem pronta e a criança fica passiva. A criatividade implica em ousar e explorar, atributos que se tornarão em qualidades na vida adulta, se desejarmos que nossos filhos pensem por si só, construindo seus valores e princípios e não sendo passivos e seguindo “o rebanho”.

A independência depende de segurança e confiança. Esta pode ser construída por pais que reconhecem conquistas dos filhos, elogiando-os. Pais que enxergam o elogio como algo que “estrague” os filhos podem minar a sua auto confiança, conduzindo a adultos inseguros, com dificuldades de se posicionar, opinar e decidir. Elogiar, de forma sincera, nunca fez mal a ninguém. Elogiar as pequenas conquistas, os avanços obtidos, como um amarrar dos sapatos, um desenho, uma primeira leitura, cortar sua própria comida, uma gesto de carinho, produzem um poderoso efeito de fazer a criança ir adiante.

Finalmente, porque este post já está longo demais, um ponto fundamental da independência é permitir que, desde pequeno, nossos filhos sejam o que são e não o que os pais desejam que sejam. Pais que não dão espaço ou ainda que desejam que seus filhos sejam o que eles querem, podem criar uma situação onde a criança passa a “adivinhar” o que os pais desejam, abrindo mão de ser quem gostariam. Crianças, como adultos, precisam de reconhecimento e se percebem que responder tal coisa de uma forma ou ter um determinado comportamento, gera alegria e satisfação nos pais, podem passar a assumir estes padrões (desejos dos pais) como sendo seus. São crianças que chegarão à vida adulta sem uma identidade muito clara ou com uma identidade “falsa”. Algo como o poeta Fernando Pessoa descreveu no poema A Tabacaria:

O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.

A independência de nossos filhos passa, essencialmente por permitir que vistam o dominó escolhido por eles, para que não sejam conhecidos por quem não são, nem tenham máscaras para tirar.

 

QUEM “DIPLOMA” O PAI?

Hoje, dia dos pais, acordei pensando nessa data. Claro que eu sei que é uma data comercial, cujo objetivo é ajudar o comércio, tão sofrido, a vender um pouco mais. Nesse sentido, é uma data que nos afasta do afeto e da emoção, na medida em que transforma um objeto (o presente) em símbolo do carinho. Reforça o paradigma da sociedade de consumo de que ter algo é o que nos faz ser alguém. Ou, que nossas emoções precisam de um objeto para se manifestar. Tudo precisa ter uma concretude, uma forma, um tamanho, para existir. Carinho é um vento, sem forma, sem peso, sem visibilidade, mas com muita presença. Mas isso é outra conversa, e não é por aí que eu gostaria de ir, ao menos hoje.

O que me ocorreu foi que eu não sou pai sozinho. Isto é, só sou pai porque a Carolina é minha filha. Isso é uma obviedade, mas que nos faz pensar, uma vez mais, que o ser humano só tem existência a partir do outro. Claro que não falo da existência biológica pura. Esta, a rigor, poderia existir, no isolamento total, ainda que poderíamos questionar se há isolamento total possível e, em havendo, se seria compatível com a vida. Na vida cotidiana, para o nosso dia a dia, temos inúmeros estímulos que nos remetem a um individualismo de performance. A ideia do indivíduo campeão. A vida não é assim e quando temos a oportunidade de nos lembrarmos disso, é bom pararmos para refletir um pouco. Lembrar que só sou pai porque a Carolina existe é uma dessas oportunidades. Como, para todos os pais que porventura lerem o blog, só o são, por conta dos filhos. Portanto, quem nos dá o “diploma” de pais, são os nossos filhos.

Talvez estejam se perguntando qual a importância disso? Onde esse pediatra e pai quer chegar? Quero chegar no ponto onde, se fomos diplomados por nossos filhos, estes, se formos atentos, certamente seguem nos ensinando, como em um processo de educação continuada. Carolina me ensinou e continua ensinando coisas maravilhosas que, talvez, façam parte do ensino que seus filhos ainda lhes oferecem.

Começo pelo afeto e amor. O nascimento de um filho dispara, de forma incontrolável, uma emoção inédita, ímpar. Para homens, criados em uma cultura com alguma restrição quanto à manifestação de emoções, o nascimento de um filho é uma janela que se abre em nossas vidas. Não dá para fingir que não está acontecendo nada. A emoção está ali, pulsando. É uma libertação de um preconceito tolo (qual preconceito não seria tolo?) que nos é dado, pelos nossos filhos.

Estabelecer contato físico. Alguns homens foram criados em famílias onde o contato físico era o normal. Outros, cresceram com um limite bem definido para o corpo. Um filho rompe essas barreiras. Desde bebê, ao pegar no colo, embalar, colocar próximo, até embolar em brincadeiras, agarrar na hora de dormir, fazer cócegas e gargalhar junto, filhos nos tornam menos assustados com o contato físico. Filhos nos ensinam que temos uma psiquê onde as emoções flutuam, mas é no corpo que elas se expressam e se realizam.

Desenvolver a criatividade. Filhos querem ouvir histórias, narrativas que, quanto mais fantásticas, mais encantam. Com nossos filhos, nos desligamos de uma lógica cartesiana, racional, e entramos no mundo do fantástico. Viajamos junto com nossos filhos, revivendo o prazer da fantasia. Aprendemos que a vida não é só uma trilha coerente, exata, precisa, demonstrável.

Aprofundar a curiosidade.  O que é um trovão? Por quê chove? De onde vem o sal do mar? Filhos fazem perguntas simples, impossíveis de serem respondidas sem que voltemos aos livros (ou google) para responder. Exigem um exercício de voltarmos a aprender.  Com nossos filhos, exercitamos a humildade do não saber e sentimos o prazer de aprender.

Manter viva a criança em nós.  Aprendemos, com nossos filhos, que temos todas as idades, ao mesmo tempo e podemos nos deliciar com isso. Rastejar de quatro pronunciando palavras incompreensíveis (adabadu, blu blau) ou ainda fazendo perguntas de forma bem lenta: quem é a queridinha do papai? Cadê a gostosura do papai? Podemos nos fantasiar, usar peruca, maquilagem. Ficamos escondidos atrás de árvores e corremos até o pique. Brincamos de amarelinha, jogo da memória e casinha. Assistimos filmes infanto-juvenis e secamos as lágrimas no escurinho do cinema. Filhos nos lembram que ser criança é muito bom.

Respeitar as diferenças. Filhos não seguem o plano que traçamos para eles. Começam a se “rebelar” contra o plano quando nascem e demonstram que possuem uma existência própria. Não se comportam como os livros diziam, muito menos os cursos de como ser pais. Choram de madrugada, mamam demais, mamam de menos. Um dia de um jeito, outro de outro. Crescem, revelando seus desejos e vontades. Sempre em busca da sua identidade, se rebelam aqui e acolá. Aderem a modas que não entendemos ou aprovamos. Escolhem profissão, amigos, parceiros. O aprendizado, contínuo é o do respeito às diferenças. Mais do que isso, a celebração da individualidade.

Mais do que tudo, filhos nos ensinam, desde pequenos, que pai não é o que fazemos e sim o que somos. Nosso amor, contato físico, criatividade, curiosidade e repeito pela individualidade, é que nos faz pais.  E, foram eles que nos ensinaram isso tudo!

No dia do pais, celebremos  o quanto nossa vida ficou mais afetiva, amorosa, alegre e divertida, com o “diploma ” que nossos filhos nos deram.

PS- na foto, Carolina, minha professora e eu.

 

 

QUE FILHOS QUEREMOS: GLADIADORES OU GOLFINHOS?

Nossa visão do mundo, em muito, define como vamos ou queremos criar nossos filhos. Esta visão do mundo é fortemente influenciada pela cultura, que são os valores e hábitos de que nos cercam. Nos dias de hoje, há uma invasão da cultura empresarial para dentro da vida privada das famílias. Numa empresa, temos o objetivo de criar e manter clientes lucrativos. Isso se obtém através da excelência dos produtos e serviços, com o claro e explícito objetivo de superar a concorrência. Estou sendo gentil quando digo superar a concorrência. Em geral, a linguagem é mais bélica e a ideia e derrubar, destruir, acabar, com a concorrência. Esse é o jogo. Para obter isso, é preciso que os empregados de todos os níveis estejam motivados, focados, comprometidos, com os objetivos de negócio da empresa. Como o objetivo final é lucro, uma empresa deve pensar, o tempo todo, em minimizar custos e maximizar receitas. Eficiência é uma palavra chave e metas são fundamentais para se poder medir o tamanho do sucesso. Se bati ou superei a meta, isso é uma evidência da minha competência. A visão empresarial do mundo é de que estamos em guerra, o tempo todo. Mesmo internamente, com alguns mecanismos de atenuação, há uma guerra surda, silenciosa, pelo avanço na carreira. Como, em uma empresa, só se tem um presidente e meia dúzia de diretores, é óbvio que os empregados (motivacionalmente chamados de colaboradores, associados etc.) disputam entre si a sua entrada nesse funil, rumo ao topo. Existe uma concorrência interna, entre as pessoas e a empresa usa isso, para obter o máximo de cada um.

Claro que essa descrição é simplista, superficial e, talvez, exagerada. Serve apenas para nos colocar no contexto do que seria uma cultura empresarial. Certamente, para uma empresa, esta cultura funciona muito bem. É desejável que empresas prosperem e que haja uma continuada melhoria de produtos e serviços. O problema é quando não percebemos que essa cultura (bélica, competitiva, baseada em entregar (deliver) e bater metas), se instala na nossa vida pessoal e das nossas famílias. Pessoas e famílias não são empresas. São pessoas!

Além desse aspecto em que a cultura das empresas entra em nossas vidas, há um equívoco na avaliação da natureza humana. Muitas pessoas acreditam que Darwin (aquele da evolução das espécies) disse que os mais fortes sobrevivem. Não foi isso que ele disse, mas, que os mais aptos sobrevivem. É uma diferença fundamental e muito grande entre ser forte e ser apto.

Se a nossa visão de mundo for a de que tudo é uma empresa e o mais forte triunfará, certamente educaremos nossos filhos para serem gladiadores implacáveis. Desde cedo lhes daremos tarefas, metas (sem dar esse nome) e vamos oferecer um bônus (que se chama presente) se cumprir com o combinado (bater as metas). Seremos generosos com as críticas porque estas fortalecem e preparam a criança para um mundo cruel e competitivo. Seremos econômicos com elogios porque estes amolecem o espírito e levam à acomodação e inércia.

No entanto, se conseguirmos perceber que a vida pessoal não é feita de metas, nem tarefas (ainda que tenhamos as do dia a dia), mas de emoções, sensações, prazeres (e desprazeres), alegrias (e tristezas), veremos que somos dependentes de relacionamentos. Nossa existência, sem vínculos, sem o outro, que não seja um inimigo, perde o sentido. Somo seres gregários, vivemos em grupo, dependemos uns dos outros, portanto há um enorme espaço para solidariedade, compaixão e afeto. Nesse contexto, triunfarão os mais aptos e a aptidão necessária é a do encontro, da empatia, com o outro. Não é a força com que eu domino o outro, mas o afeto com que eu o acolho que pode determinar a felicidade e bem estar, coisa que todos desejam.

Se nossa visão de mundo for a de que a cooperação, o altruísmo, uma boa dose de ócio (não fazer compulsivamente algo, apenas pensar, refletir, ser criativo), são importantes, certamente educaremos nossos filhos para serem golfinhos. Golfinhos são inteligentes, brincam, se divertem, vivem em grupo, colaboram entre si para a alimentação e contra o ataque de predadores. Desde cedo lhes mostraremos que ser alguém não se mede (apenas) pelo que ela faz. Não seremos pais “operários”, sempre à procura do que fazer algo com nossos filhos, mas pais que querem estar com com eles. Fazer algo e estar junto não é exatamente a mesma coisa. Uma agenda sobrecarregada de atividades pode eliminar um tempo precioso de estar junto, literalmente sem fazer nada. O que, em um mundo de tarefeiros, fabris, é quase um crime.

Mas, o mundo não é tão simples. Ou isso, ou aquilo. O mundo é complexo e, geralmente, é isso e aquilo, ao mesmo tempo. Assim, temos que pensar em nossos filhos como gladiadores, quando estiverem na arena das empresas, do mercado, da vida profissional e como golfinhos, na vida, no convívio e nos relacionamentos. Precisamos lhes dar as aptidões  para que possam viver bem, em todas as situações, de forma integrada e feliz. O perigo é quando só lhes damos um modo de ver e estar no mundo. E, hoje, este modo é o do gladiador. Precisamos adicionar, na formação dos nossos filhos, afeto, vínculo, confiança mútua, solidariedade, empatia, compaixão e altruísmo. Só faremos isso, se pudermos ser assim. Não há curso para essas aptidões onde possamos inscrever nossos filhos, muito menos comprar algo que os ensine a ser gente. É preciso que sejamos pais amorosos, afetivos, solidários, para que nossos filhos cresçam e se tornem adultos que não vejam o mundo, exclusivamente, pelas lentes da competição e da vitória sobre o outro.

 

QUANDO TIRAR AS RODINHAS DA BICICLETA?

Como quase todas as boas perguntas, não há uma resposta certa. No entanto, neste caso, há uma resposta “universal”, que fere o senso comum do cuidar dos filhos ou crianças. Devemos tirar as rodinhas ANTES que a criança se sinta pronta para tal. Atenção à “pegadinha” na resposta. Antes que a criança SE SINTA pronta. Isto é, os pais deverão fazer um juízo de aptidão ou habilidade do seu filho, antes que este esteja seguro ou certo de que está pronto. Os pais terão que correr o risco de que o filho caia e, com toda certeza cairá. Não porque não esteja pronto. Pronto está, tanto que vai dar três ou quatro pedaladas e, somente quando perceber que não tem ninguém o segurando, vai bambolear e cair!

Em geral, crianças em torno dos três anos possuem a coordenação motora e força para pedalar. Nesta idade, a criança, depois de várias tentativas e erros, conseguirá “pilotar” um triciclo. Com o desenvolvimento motor, incluindo coordenação e força, passarão do triciclo para uma bicicleta com rodinhas. A mudança é radical para a criança. A bicicleta é mais alta e o equilíbrio, apesar das rodinhas, é instável. Em geral, a criança precisa de pouco ou nenhum apoio de um adulto para dominar a bicicleta com rodinhas. Quando a criança está absolutamente confortável pilotando sua bicicleta com rodinhas, demonstrando destreza, equilíbrio, coordenação que se manifestam por curvas bem feitas, nenhuma colisão com árvores, postes ou muros, nem o reflexo de colocar os pés no chão diante de qualquer risco, suposto ou real, é chegada a hora de tirar as rodinhas! 

A criança vive um misto de excitação e ansiedade. Por um lado, é tudo que deseja, por outro, sente certa insegurança normal e natural. Os pais por sua vez, ficam com o coração apertado porque sabem que seus filhos, obrigatoriamente cairão. Pais inseguros ou que não suportam a ideia de que os filhos cairão, terão grande dificuldade em ensina-los  a andar de bicicleta, eventualmente, privando-os de uma opção de  lazer ou esporte. 

O grande dia chega. A retirada das rodinhas se torna, praticamente, um ritual. Primeiro uma, depois a outra e ali no chão fica um momento da infância. Na bicicleta sustentada por um dos pais, o sinal de crescimento, o futuro. A criança se senta, desnecessário dizer que está usando capacete porque já o faz desde a época em que andava de triciclo. Em geral o pai ou a mãe seguram no selim e diz algo como: “estou te segurando, você não vai cair. está pronto?” Invariavelmente a criança diz algo como: “não vai me largar”. E lá vai a dupla… O pai ou a mãe do lado da bicicleta, correndo numa posição que não há coluna que resista, bufando e ainda tendo que dizer palavras de incentivo: “muito bem, está indo bem, continua, pedala!”. A criança, excitada, animada, bamboleia, olha para trás a cada 5 segundos, para se certificar que alguém está lá, segurando a bicicleta e dizendo: “olha para frente, não olha para mim, você está indo muito bem”. De repente, o pai ou a mãe solta o selim, para de correr e fica olhando aquele ser indefeso, seu filho, pedalando. Impossível resistir e um grito sai, involuntário e espontâneo: “isso meu filho, continua, continua”. A criança se dá conta de que a voz não está mais ali do seu lado, olha para trás e… cai! Lá vem um dos pais correndo, a vontade é de parar com aquilo de uma vez por todas, pegar o filho no colo e abandonar a bicicleta. Mas, o que faz essa mãe ou pai? Finge a maior serenidade do mundo e diz: “você estava ótimo, se não olhasse para trás não teria caído. Mas, não tem problema, vamos de novo” A criança pode resistir dar uma chorada e caberá a esse pai ou mãe não se deixar levar pela emoção de proteger seu filho e sim pela convicção de que esse é o caminho para se aprender a andar de bicicleta. Os pais também não devem temer um certo olhar furioso ou até uma acusação: “você me deixou cair”. A criança está no direito dela de reclamar e o que pais devem fazer não é vestir a carapuça da culpa e sim acolher essa “ira”, levantar a bicicleta e o filho do chão (verificando que está tudo bem) e dizer: “Vamos de novo. Agora vai ser melhor ainda”. Não tem como  se aprender a andar de bicicleta com uma mãe ou um pai, permanentemente segurando o selim. Para aprender, é preciso que os pais soltem o selim!

Tirar as rodinhas é algo que os pais decidem quando fazer e devem estar preparados para os tombos (choros e raivas) que se sucederão. Tirar as rodinhas não é só quando ensinamos nossos filhos a andar de bicicleta. Quando colocamos o bebê no seu quarto, não mais dormindo no dos pais, tiramos as rodinhas. Quando não atendemos a todas as demandas dos nossos filhos com um ano, deixando que se vire um pouco sozinho, tiramos as rodinhas. Quando dizemos não para o que deve ser negado, tiramos as rodinhas, deixando que os filhos desenvolvam mecanismos de auto consolo. Quando usamos nossa autoridade, sem medo de sermos autoritários, estabelecendo regras, horários, obrigações, de acordo com os valores da família, tiramos as rodinhas. Quando não protegemos nossos filhos diante de riscos calculados, deixando que encontrem a destreza e equilíbrio para superar os obstáculos, tiramos as rodinhas. 

Em todos esses momentos, tiramos as rodinhas quando o bebê, a criança ou o adolescente estão prontos, mas não sabem que estão. Se dependesse deles, continuariam usando rodinhas, para sempre! Por isso que nosso instinto de proteção, nossa dificuldade de lidar com os tombos que o crescimento impõe, em última análise, nossa dificuldade de perceber que filhos crescem, devem ser constantemente questionados.

Como pais, temos a obrigação de tirar as rodinhas e soltar o selim, se quisermos que nossos filhos sejam adultos seguros e felizes que saibam pedalar pela vida afora. 

MÃE COM M DE MULHER!

maternité Chagall 2Dias das mães! O que escrever de forma original, interessante tocando a emoção (e a razão) de quem lê este blog? Diante de tudo que já foi escrito e dito, o melhor seria passar batido pela data, deixando para os Drummond e Quintana da vida (para citar dois poetas que escreveram sobre a mãe), a função de homenagear a todas.  Também não dá para competir com o comércio em mensagens piegas e emotivas, cujo objetivo final é o de emocionar para vender mais. Ou ainda, enveredar pelo caminho da erudição, falando sobre a mãe através dos tempos, no pensamento filosófico ou psicanalítico. Afinal de contas, sou um pediatra e desses temas não entendo nada. Mas aí é que reside o meu dilema. Como pode um pediatra não enfrentar o desafio de escrever algo original, interessante e que possa tocar a emoção (e a razão) de quem lê este blog?  Me ocorre relatar um pouco do que vejo no meu dia a dia com mães, pais e filhos, tentando fugir do lugar comum.  Veremos no que isso vai dar!

Atualmente, a dinâmica familiar pode ter diversas configurações como por exemplo: mães e pais, avós ou outros familiares que substituem os pais, pais adotivos, mães solteiras, casais homoafetivos, relacionamentos poliafetivos e, eventualmente, outras que ainda se formarão. A maternidade não é exclusiva da descendência biológica, nem do gênero feminino, sendo, antes de tudo, uma atitude diante do filho e um processo no dia a dia da vida. Apenas para facilitar meu trabalho de escrever e o do leitor de ler, vou utilizar as palavras mulher e homem, deixando claro que me refiro a funções que podem ser exercidas por qualquer pessoa, de qualquer gênero, que tenha o vínculo afetivo e amoroso que caracteriza esta relação especial.

No princípio, era uma mulher. Certo dia, esta mulher conhece um homem e desse encontro, em algum momento, acontece uma gravidez. Agora, temos uma mulher com um bebê que cresce na sua barriga. E assim seguem os meses, com a mulher carregando o seu bebê. Um dia, a mulher se vira para o homem e diz- é hoje (esta história se passa no tempo em que não havia data marcada para o nascimento)!  E, no exato dia em que nasce o filho, a mulher se transforma em mãe. Sei que os leitores radicais me dirão que esta mulher já era mãe durante a gravidez. Peço a estes que sejam generosos e me deem o direito a uma certa licença literária, sem entrar na polêmica de quando uma mulher vira mãe. Mas, todos concordamos que, no princípio era uma mulher.

Aqui a história toma um novo rumo. Ao invés de percorrer o clássico conto onde a mãe embevecida acolhe com um amor inédito seu bebê (o que é absolutamente verdadeiro), a notícia é de um sequestro! A manchete nos jornais informa:

“FILHO SEQUESTRA MULHER E A TRANSFORMA EM MÃE!”

Aquela mulher que com seu companheiro levava uma vida “normal”, trabalhando, se divertindo, fazendo suas coisas, saindo com amigos, namorando, viajando, se vê, subitamente, em “cárcere privado”! Sua vida passou a ser definida pela necessidade do bebê. Aquela mulher dormia à noite e agora, já mãe, aprende a dormir fragmentadamente, duas horinhas à tarde, uma hora de madrugada e assim, todos os dias. Aquela mulher que tinha ânimo para fazer ginástica, ir ao cinema, sair para tomar um chope, agora, já mãe, se vê num ciclo interminável de peito, fralda, colo, choro, peito, fralda, colo, choro…. e olheiras!  E, quando vai ao pediatra, acompanhada pelo pai (sim, aquele que era o companheiro, agora é pai!), silenciosamente suplica com o olhar: doutor, isto vai acabar um dia?

O que é mais curioso nesse sequestro é que ele é celebrado por todos. Apavorada, percebe que ninguém se deu conta do sequestro da mulher e só falam, com alegria e orgulho da mãe! E a mãe, em geral, está encantada, sentindo uma forma única de amor por seu filho, um afeto ímpar e inédito. Mais, pode ter muito prazer em amamentar, trocar fraldas, acalentar e consolar o choro, descobrindo uma vitalidade que desconhecia ter (o termo moderninho seria resiliência)!  É uma variante da Síndrome de Estocolmo, onde a vítima passa a nutrir grande simpatia por seu sequestrador! A mãe acaba por convencer à mulher que ela nunca existiu, era uma fase passageira ou ainda uma ilusão.  Nesse sentido, a celebração do dia das Mães, corre o risco de reforçar essa noção de que quando uma entra em cena (a mãe) a outra, obrigatoriamente tem que sair (a mulher).

Meu ponto com essa ficção que espero seja lida como bem-humorada é que no princípio era uma mulher e que esta será sempre uma mulher. Ser mãe se soma ao ser mulher, sem nenhuma necessidade de exclusão. É claro que nos primeiros meses, o bebê precisa da mãe e a mulher, entendendo isso, cede o palco para esta. Mas, mesmos nesse período, a mulher não deve se recolher ao camarim.  Pode e deve entrar em cena, de tal forma que a plateia nunca esqueça da mulher que deu origem a tudo. Não deve competir com a mãe que nela habita, porque sabe que nos atos seguintes, voltará a brilhar e ter destaque. Não precisa “brigar” com a mãe que se tornou, no ato em que esta é a figura mais marcante em cena. Equilíbrio difícil, mas importante.

Ao pai ou quem desempenha essa função, cabe um papel importantíssimo nesse enredo. Quando a mãe entre em cena, o pai surge como um guardião daquela dupla (mãe-bebê). Cuida do em torno, da proteção, física e psíquica. Garante que a nova dupla tenha as condições necessárias para que tudo corra bem nesses primeiros meses de vida. Nesse sentido, não é apenas um ator coadjuvante, aquele que, nos programas de humor, chamam de “escada”. Mas, passado esse momento inaugural ou inicial, que não tem uma data precisa, mas que estou “didaticamente” colocando em torno do sexto ou sétimo mês de vida do bebê, esse pai deve reassumir mais intensamente seu papel de marido, companheiro, homem.

Caberá ao homem um papel importante, ajudando, ao mesmo tempo à mãe recuperar plenamente sua condição de mulher e à criança as condições para se desenvolver de forma plena. Sem a transformação da relação de dupla (mãe-filho) em trinca (mulher-homem-criança), podem não se dar as condições para que a criança desenvolva sua capacidade de tolerar a frustração, se auto consolar ou em linguagem mais simples e direta, se virar sozinha. É colocando limites ou usando uma expressão um pouco mais forte, estabelecendo a interdição da mãe e de espaços (reais e metafóricos) que o pai ajuda tanto à criança, quanto à mulher. É desse movimento de adaptação dinâmica de todos, que se resolve o sequestro e se restitui à mãe a condição de mulher, sem a perda da maternidade. À criança, se dá o espaço para que desenvolva sua identidade, sem a perda do pertencimento à família.

Em nada, esta história diminui a beleza e intensidade da maternidade. De forma alguma minimiza a importância vital do amor maternal que dura a vida toda e persevera nos filhos, mesmo depois que a mãe se foi. Afinal de contas, eu poderia também dizer que, para cada um de nós, no princípio era a mãe!

 Meu carinhoso abraço a todas as mães, mulheres generosas que tecem nossas vidas com fios de amor.

SE EU SOU O ESPECIALISTA, QUEM É VOCÊ?

Muitas vezes sequer nos damos conta do poder das palavras.  Palavras em si não passam de um amontoado de letrinhas. Só fazem sentido quandobomb_hidr se transformam em um símbolo (imagem, conceito etc.). Quando escrevo as letras asac você certamente vai parar um minuto porque nada lhe veio à mente. No entanto, tecnicamente, é uma palavra. É uma palavra inexistente porque a ela não temos nenhum significado atrelado, amarrado. Agora, quando eu escrevo casa, você imediatamente fez uma imagem mental e “entendeu” a palavra. Esta é uma palavra existente porque ela faz sentido, ao menos para nós que usamos a língua portuguesa.

O poder das palavras, por ser simbólico, faz um curto-circuito na nossa racionalidade. Veja, por exemplo, se você se sentiria igualmente confortável comprando um carro usado ou um seminovo? Racionalmente, concordamos que ambas as palavras se referem a carros que já tiveram algum uso ou que não são zero km. Nenhuma das duas palavras define claramente, quanto uso o carro teve. No entanto, seminovo parece melhor do que usado!

Um outro exemplo, este no campo da saúde, é aquele lugar onde realizamos exames complementares. Aqui, já introduzi uma palavra que é conhecida dos médicos, mas, pouco ou nada usada pela população. Me refiro à palavra complementares. Complementar a o quê? Essa seria a pergunta a ser feita. Ora, os exames são complementares a uma consulta médica que inclua uma boa entrevista (anamnese) e exame físico. Isso, hoje em dia, é raro. Frequentemente o próprio paciente já chega no médico com exames que ele fez, “para ganhar tempo”. Um dos motivos está no uso das palavras e os botões que elas apertam no nosso pensamento. O lugar onde realizamos exames complementares se chamavam laboratório de análises clínicas ou simplesmente, laboratório. A imagem que nos vêm à cabeça é de um lugar cheio de vidros e reagentes. Hoje, o mesmo lugar se chama centro de medicina diagnóstica! O que nos vêm à mente? Que é neste lugar que terei meu diagnóstico feito, bastando levar ao médico para que este prescreva o tratamento mais adequado, ganhando, assim, tempo. O que mudou? Apenas o nome do lugar, mas o impacto em nós é radicalmente diferente. Impacto, neste caso que nos leva a um erro de entendimento do seja a consulta médica e um exame complementar.

Espero que, com esses dois exemplos, tenhamos entendido que palavras são poderosas porque transportam símbolos que significam algo para nós. Essa é a lógica de uma marca. Quando determinada marca é dita ou escrita, já “entendemos tudo”. Não há necessidade de explicarmos o que seja uma Bic. Tudo já está dito com a marca. Se eu escrevo Shell, ninguém pensa em sorvete (claro que um detalhista me dirá- mas, tem a loja de conveniências…). Assim, posso chegar na palavra que é o objeto deste post (finalmente!): ESPECIALISTA.

O que essa palavra nos faz pensar? Em alguém que tem um conhecimento profundo de algo especial ou específico. Alguém que dedicou anos da sua vida estudando e/ou praticando determinada atividade que o torne detentor de um saber, conhecimento ou prática muito acima daquela que nós possuímos. Um especialista sabe algo que eu não sei. Ou sabe muito mais sobre algo que eu conheço um pouco. Nesse sentido, se eu sou um especialista em algo, quem é você? Essa a pergunta do post! Não sei o que vocês responderiam, mas eu sei o que eu diria se me fizessem essa pergunta. Eu responderia que eu sou um ignorante (total ou parcial) no assunto e que o conhecimento do especialista poderá, dependendo da situação, resolver algo para o qual eu não tenho competência. Exemplos: um pintor de paredes, um eletricista, um encanador, são especialistas que sabem o que eu não sei e resolverão um problema que eu tenho o virei a ter nessas áreas do conhecimento. E, se eu tiver um problema nessas áreas, eu dependo de um especialista para me tirar daquela situação problemática.

Vou tentar resumir, em palavras isoladas, o que é um especialista e o que ele pode representar para as pessoas: conhecimento maior do que o meu; sabe o que eu não sei; dependência desse conhecimento para resolução de problemas.

Se estivermos de acordo até aqui, podemos dizer que especialistas são pessoas muito necessárias para resolver situações especiais, para as quais não temos competência, conhecimento ou habilidades. Portanto, para utilizarmos um especialista, é preciso que haja um problema ou situação para a qual não nos sentimos capazes de resolver. Ocorre que, com a valorização da tecnologia e o acesso global à informação, houve uma hiper valorização do conhecimento “científico”, como se este fosse a única forma de saber válida. O conhecimento científico é algo que um especialista domina. Portanto, se só o conhecimento científico é válido, eliminando-se a tradição, o bom senso, a intuição e a experiência, praticamente tudo que fizermos na vida vai precisar de um especialista. Sem um especialista eu posso errar porque eu não sei o que ele sabe. Passo, não só a desvalorizar qualquer forma de conhecimento que eu possa ter, como sentir insegurança e paralisia diante das situações habituais da vida cotidiana.

Vamos deixar bem claro que o conhecimento científico é uma conquista da evolução intelectual do ser humano. O método científico nos ajuda a superar nossas ignorâncias e até a reduzir mitos e crendices. Mas, não pode, nem se propõe a ser um novo mito, ainda que muitos a entendam assim. No século XVIII, William Cowper, um poeta inglês disse: ” A ciência é orgulhosa por tanto saber; a sabedoria é humilde por não saber mais.” Existe, portanto, algo que vai além do conhecimento científico que é, para usarmos uma só palavra, a sabedoria. A sabedoria é composta do conhecimento científico, mas bebe nas outras fontes que eu citei:  tradição, o bom senso, a intuição e a experiência.

Sabedoria não é exclusividade de quem estudou algo. Sabedoria não depende de nível social ou econômico. Todos nós temos alguma forma de sabedoria. E, quando o assunto é viver ou sobreviver, todos nós temos muita sabedoria acumulada. A questão é que em um mundo tecnológico, com uma mistificação da ciência e, pior, da pseudociência, nossa sabedoria ficou escondida, acanhada, envergonhada. Pior, toda vez que eu penso em usá-la, o meu entorno, o facebook e o google, me dizem que estou errado! Só um louco furioso para enfrentar esse tsunami de especialistas em tudo!

Por quê escrevi esse post? Porque eu garanto que todos nós temos sabedoria suficiente para:

– Engravidar. Quando há um problema e o casal deseja engravidar, aí sim faz sentido ouvir um especialista. Não é preciso ler no google como se engravida!

-Ter filhos. Há uma sabedoria da espécie para se ter filhos. A obstetrícia não tem 400 anos de idade e nascemos há cerca de 160 mil anos. Claro que o conhecimento obstétrico tornou o parto mais seguro e confortável. Mas, daí a se precisar fazer um curso, com alguém que sabe o que eu não sei, vai uma certa distância. Todas as mulheres sabem, ao menos o mínimo necessário, como ter um filho. De novo, se há um problema no parto, é altamente desejável que um especialista esteja presente.

-Amamentar. A simples ideia de que haja um especialista que vá ensinar a uma mãe como amamentar é muito estranha. Aquela mãe e aquele bebê são únicos. Precisam de um tempinho para se entenderem. Um conselho, fruto da experiência ou tradição, podem ajudar. Uma palavra de reconhecimento dessa dificuldade inicial, também. Mas, ensinar “técnicas” é alienar a mãe da sabedoria intrínseca dela. Em algumas situações especiais e pouco frequente, pode haver um problema pontual onde um especialista pode e deve ajudar.

– Dar banho no bebê. Que tal um curso de banho para o bebê? Alguém com grande experiência, um especialista, vai lhe mostrar como é o melhor modo de dar banho em um bebê. Você terá aulas de simulação com um boneco e vai dominar a técnica. Nasce seu filho e você vai dar o primeiro banho. Ele chora! Surpresa máxima, isto não estava previsto. O boneco do curso não chorava! Ou, apesar de você fazer tudo “certo”, seu bebê não gosta desse banho. Claro que você vai demorar uns dias até desconfiar que o errado é o método, não você, nem o bebê. Aí, você vai usar a sua sabedoria (que será a de tentativa e erro), até descobrir como é o melhor banho, para o seu filho.

– Introduzir alimentos sólidos. Cada cultura tem uma tradição (escrevi um post sobre isso). Não há regras fixas, nem grandes conhecimentos científicos envolvidos. Mas, quem sabe, não seria melhor ouvirmos um nutricionista? Afinal de contas, deve haver algo que eu não sei, fundamental, definitivo, importantíssimo, a respeito de frutas e sopa de legumes com músculo!

-Engatinhar/andar. Não seria melhor contratarmos uma nova técnica de estimulação fisioterápica que “ensinasse” nossos filhos a andarem, de preferência com um nome ou vinda de um lugar remoto (técnica Walfrid de deambulação balanceada ou técnica sueca de estimulação motora)? De novo vemos o poder simbólico das palavras. Imaginem a técnica Severino de deambulação precoce ou a técnica paraguaia de estimulação motora!

A lista de exemplos de situações cotidianas onde NÃO PRECISAMOS DE ESPECIALISTAS   poderia continuar. Poderia incluir o pediatra como sendo um detentor de um conhecimento específico, melhor do que a sabedoria dos pais. Um exemplo rápido: doutor, o que é melhor para o bebê- ar condicionado ou ventilador? Ora, nenhum pediatra teve essa aula no curso de medicina! Essa é uma resposta que deve vir da sabedoria dos pais em, uma vez mais, usarem o melhor método que existe para se cuidar dos filhos: tentativa-erro-aprendizado. Mas, para isso, é preciso três coisas:

  • que estejamos convencidos de que temos sabedoria;
  • que confiemos na nossa sabedoria;
  • que saibamos que especialistas são fundamentais para resolver problemas. Onde não há problema não precisamos de especialista

Se continuarmos a confiar cegamente em especialistas ou não confiar na nossa sabedoria, breve estarei contratando um bombeiro para abrir as torneiras de casa. Como especialista, ele deve saber fazer isso melhor do que eu!