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QUANDO TIRAR AS RODINHAS DA BICICLETA?

Como quase todas as boas perguntas, não há uma resposta certa. No entanto, neste caso, há uma resposta “universal”, que fere o senso comum do cuidar dos filhos ou crianças. Devemos tirar as rodinhas ANTES que a criança se sinta pronta para tal. Atenção à “pegadinha” na resposta. Antes que a criança SE SINTA pronta. Isto é, os pais deverão fazer um juízo de aptidão ou habilidade do seu filho, antes que este esteja seguro ou certo de que está pronto. Os pais terão que correr o risco de que o filho caia e, com toda certeza cairá. Não porque não esteja pronto. Pronto está, tanto que vai dar três ou quatro pedaladas e, somente quando perceber que não tem ninguém o segurando, vai bambolear e cair!

Em geral, crianças em torno dos três anos possuem a coordenação motora e força para pedalar. Nesta idade, a criança, depois de várias tentativas e erros, conseguirá “pilotar” um triciclo. Com o desenvolvimento motor, incluindo coordenação e força, passarão do triciclo para uma bicicleta com rodinhas. A mudança é radical para a criança. A bicicleta é mais alta e o equilíbrio, apesar das rodinhas, é instável. Em geral, a criança precisa de pouco ou nenhum apoio de um adulto para dominar a bicicleta com rodinhas. Quando a criança está absolutamente confortável pilotando sua bicicleta com rodinhas, demonstrando destreza, equilíbrio, coordenação que se manifestam por curvas bem feitas, nenhuma colisão com árvores, postes ou muros, nem o reflexo de colocar os pés no chão diante de qualquer risco, suposto ou real, é chegada a hora de tirar as rodinhas! 

A criança vive um misto de excitação e ansiedade. Por um lado, é tudo que deseja, por outro, sente certa insegurança normal e natural. Os pais por sua vez, ficam com o coração apertado porque sabem que seus filhos, obrigatoriamente cairão. Pais inseguros ou que não suportam a ideia de que os filhos cairão, terão grande dificuldade em ensina-los  a andar de bicicleta, eventualmente, privando-os de uma opção de  lazer ou esporte. 

O grande dia chega. A retirada das rodinhas se torna, praticamente, um ritual. Primeiro uma, depois a outra e ali no chão fica um momento da infância. Na bicicleta sustentada por um dos pais, o sinal de crescimento, o futuro. A criança se senta, desnecessário dizer que está usando capacete porque já o faz desde a época em que andava de triciclo. Em geral o pai ou a mãe seguram no selim e diz algo como: “estou te segurando, você não vai cair. está pronto?” Invariavelmente a criança diz algo como: “não vai me largar”. E lá vai a dupla… O pai ou a mãe do lado da bicicleta, correndo numa posição que não há coluna que resista, bufando e ainda tendo que dizer palavras de incentivo: “muito bem, está indo bem, continua, pedala!”. A criança, excitada, animada, bamboleia, olha para trás a cada 5 segundos, para se certificar que alguém está lá, segurando a bicicleta e dizendo: “olha para frente, não olha para mim, você está indo muito bem”. De repente, o pai ou a mãe solta o selim, para de correr e fica olhando aquele ser indefeso, seu filho, pedalando. Impossível resistir e um grito sai, involuntário e espontâneo: “isso meu filho, continua, continua”. A criança se dá conta de que a voz não está mais ali do seu lado, olha para trás e… cai! Lá vem um dos pais correndo, a vontade é de parar com aquilo de uma vez por todas, pegar o filho no colo e abandonar a bicicleta. Mas, o que faz essa mãe ou pai? Finge a maior serenidade do mundo e diz: “você estava ótimo, se não olhasse para trás não teria caído. Mas, não tem problema, vamos de novo” A criança pode resistir dar uma chorada e caberá a esse pai ou mãe não se deixar levar pela emoção de proteger seu filho e sim pela convicção de que esse é o caminho para se aprender a andar de bicicleta. Os pais também não devem temer um certo olhar furioso ou até uma acusação: “você me deixou cair”. A criança está no direito dela de reclamar e o que pais devem fazer não é vestir a carapuça da culpa e sim acolher essa “ira”, levantar a bicicleta e o filho do chão (verificando que está tudo bem) e dizer: “Vamos de novo. Agora vai ser melhor ainda”. Não tem como  se aprender a andar de bicicleta com uma mãe ou um pai, permanentemente segurando o selim. Para aprender, é preciso que os pais soltem o selim!

Tirar as rodinhas é algo que os pais decidem quando fazer e devem estar preparados para os tombos (choros e raivas) que se sucederão. Tirar as rodinhas não é só quando ensinamos nossos filhos a andar de bicicleta. Quando colocamos o bebê no seu quarto, não mais dormindo no dos pais, tiramos as rodinhas. Quando não atendemos a todas as demandas dos nossos filhos com um ano, deixando que se vire um pouco sozinho, tiramos as rodinhas. Quando dizemos não para o que deve ser negado, tiramos as rodinhas, deixando que os filhos desenvolvam mecanismos de auto consolo. Quando usamos nossa autoridade, sem medo de sermos autoritários, estabelecendo regras, horários, obrigações, de acordo com os valores da família, tiramos as rodinhas. Quando não protegemos nossos filhos diante de riscos calculados, deixando que encontrem a destreza e equilíbrio para superar os obstáculos, tiramos as rodinhas. 

Em todos esses momentos, tiramos as rodinhas quando o bebê, a criança ou o adolescente estão prontos, mas não sabem que estão. Se dependesse deles, continuariam usando rodinhas, para sempre! Por isso que nosso instinto de proteção, nossa dificuldade de lidar com os tombos que o crescimento impõe, em última análise, nossa dificuldade de perceber que filhos crescem, devem ser constantemente questionados.

Como pais, temos a obrigação de tirar as rodinhas e soltar o selim, se quisermos que nossos filhos sejam adultos seguros e felizes que saibam pedalar pela vida afora. 

MÃE COM M DE MULHER!

maternité Chagall 2Dias das mães! O que escrever de forma original, interessante tocando a emoção (e a razão) de quem lê este blog? Diante de tudo que já foi escrito e dito, o melhor seria passar batido pela data, deixando para os Drummond e Quintana da vida (para citar dois poetas que escreveram sobre a mãe), a função de homenagear a todas.  Também não dá para competir com o comércio em mensagens piegas e emotivas, cujo objetivo final é o de emocionar para vender mais. Ou ainda, enveredar pelo caminho da erudição, falando sobre a mãe através dos tempos, no pensamento filosófico ou psicanalítico. Afinal de contas, sou um pediatra e desses temas não entendo nada. Mas aí é que reside o meu dilema. Como pode um pediatra não enfrentar o desafio de escrever algo original, interessante e que possa tocar a emoção (e a razão) de quem lê este blog?  Me ocorre relatar um pouco do que vejo no meu dia a dia com mães, pais e filhos, tentando fugir do lugar comum.  Veremos no que isso vai dar!

Atualmente, a dinâmica familiar pode ter diversas configurações como por exemplo: mães e pais, avós ou outros familiares que substituem os pais, pais adotivos, mães solteiras, casais homoafetivos, relacionamentos poliafetivos e, eventualmente, outras que ainda se formarão. A maternidade não é exclusiva da descendência biológica, nem do gênero feminino, sendo, antes de tudo, uma atitude diante do filho e um processo no dia a dia da vida. Apenas para facilitar meu trabalho de escrever e o do leitor de ler, vou utilizar as palavras mulher e homem, deixando claro que me refiro a funções que podem ser exercidas por qualquer pessoa, de qualquer gênero, que tenha o vínculo afetivo e amoroso que caracteriza esta relação especial.

No princípio, era uma mulher. Certo dia, esta mulher conhece um homem e desse encontro, em algum momento, acontece uma gravidez. Agora, temos uma mulher com um bebê que cresce na sua barriga. E assim seguem os meses, com a mulher carregando o seu bebê. Um dia, a mulher se vira para o homem e diz- é hoje (esta história se passa no tempo em que não havia data marcada para o nascimento)!  E, no exato dia em que nasce o filho, a mulher se transforma em mãe. Sei que os leitores radicais me dirão que esta mulher já era mãe durante a gravidez. Peço a estes que sejam generosos e me deem o direito a uma certa licença literária, sem entrar na polêmica de quando uma mulher vira mãe. Mas, todos concordamos que, no princípio era uma mulher.

Aqui a história toma um novo rumo. Ao invés de percorrer o clássico conto onde a mãe embevecida acolhe com um amor inédito seu bebê (o que é absolutamente verdadeiro), a notícia é de um sequestro! A manchete nos jornais informa:

“FILHO SEQUESTRA MULHER E A TRANSFORMA EM MÃE!”

Aquela mulher que com seu companheiro levava uma vida “normal”, trabalhando, se divertindo, fazendo suas coisas, saindo com amigos, namorando, viajando, se vê, subitamente, em “cárcere privado”! Sua vida passou a ser definida pela necessidade do bebê. Aquela mulher dormia à noite e agora, já mãe, aprende a dormir fragmentadamente, duas horinhas à tarde, uma hora de madrugada e assim, todos os dias. Aquela mulher que tinha ânimo para fazer ginástica, ir ao cinema, sair para tomar um chope, agora, já mãe, se vê num ciclo interminável de peito, fralda, colo, choro, peito, fralda, colo, choro…. e olheiras!  E, quando vai ao pediatra, acompanhada pelo pai (sim, aquele que era o companheiro, agora é pai!), silenciosamente suplica com o olhar: doutor, isto vai acabar um dia?

O que é mais curioso nesse sequestro é que ele é celebrado por todos. Apavorada, percebe que ninguém se deu conta do sequestro da mulher e só falam, com alegria e orgulho da mãe! E a mãe, em geral, está encantada, sentindo uma forma única de amor por seu filho, um afeto ímpar e inédito. Mais, pode ter muito prazer em amamentar, trocar fraldas, acalentar e consolar o choro, descobrindo uma vitalidade que desconhecia ter (o termo moderninho seria resiliência)!  É uma variante da Síndrome de Estocolmo, onde a vítima passa a nutrir grande simpatia por seu sequestrador! A mãe acaba por convencer à mulher que ela nunca existiu, era uma fase passageira ou ainda uma ilusão.  Nesse sentido, a celebração do dia das Mães, corre o risco de reforçar essa noção de que quando uma entra em cena (a mãe) a outra, obrigatoriamente tem que sair (a mulher).

Meu ponto com essa ficção que espero seja lida como bem-humorada é que no princípio era uma mulher e que esta será sempre uma mulher. Ser mãe se soma ao ser mulher, sem nenhuma necessidade de exclusão. É claro que nos primeiros meses, o bebê precisa da mãe e a mulher, entendendo isso, cede o palco para esta. Mas, mesmos nesse período, a mulher não deve se recolher ao camarim.  Pode e deve entrar em cena, de tal forma que a plateia nunca esqueça da mulher que deu origem a tudo. Não deve competir com a mãe que nela habita, porque sabe que nos atos seguintes, voltará a brilhar e ter destaque. Não precisa “brigar” com a mãe que se tornou, no ato em que esta é a figura mais marcante em cena. Equilíbrio difícil, mas importante.

Ao pai ou quem desempenha essa função, cabe um papel importantíssimo nesse enredo. Quando a mãe entre em cena, o pai surge como um guardião daquela dupla (mãe-bebê). Cuida do em torno, da proteção, física e psíquica. Garante que a nova dupla tenha as condições necessárias para que tudo corra bem nesses primeiros meses de vida. Nesse sentido, não é apenas um ator coadjuvante, aquele que, nos programas de humor, chamam de “escada”. Mas, passado esse momento inaugural ou inicial, que não tem uma data precisa, mas que estou “didaticamente” colocando em torno do sexto ou sétimo mês de vida do bebê, esse pai deve reassumir mais intensamente seu papel de marido, companheiro, homem.

Caberá ao homem um papel importante, ajudando, ao mesmo tempo à mãe recuperar plenamente sua condição de mulher e à criança as condições para se desenvolver de forma plena. Sem a transformação da relação de dupla (mãe-filho) em trinca (mulher-homem-criança), podem não se dar as condições para que a criança desenvolva sua capacidade de tolerar a frustração, se auto consolar ou em linguagem mais simples e direta, se virar sozinha. É colocando limites ou usando uma expressão um pouco mais forte, estabelecendo a interdição da mãe e de espaços (reais e metafóricos) que o pai ajuda tanto à criança, quanto à mulher. É desse movimento de adaptação dinâmica de todos, que se resolve o sequestro e se restitui à mãe a condição de mulher, sem a perda da maternidade. À criança, se dá o espaço para que desenvolva sua identidade, sem a perda do pertencimento à família.

Em nada, esta história diminui a beleza e intensidade da maternidade. De forma alguma minimiza a importância vital do amor maternal que dura a vida toda e persevera nos filhos, mesmo depois que a mãe se foi. Afinal de contas, eu poderia também dizer que, para cada um de nós, no princípio era a mãe!

 Meu carinhoso abraço a todas as mães, mulheres generosas que tecem nossas vidas com fios de amor.

SE EU SOU O ESPECIALISTA, QUEM É VOCÊ?

Muitas vezes sequer nos damos conta do poder das palavras.  Palavras em si não passam de um amontoado de letrinhas. Só fazem sentido quandobomb_hidr se transformam em um símbolo (imagem, conceito etc.). Quando escrevo as letras asac você certamente vai parar um minuto porque nada lhe veio à mente. No entanto, tecnicamente, é uma palavra. É uma palavra inexistente porque a ela não temos nenhum significado atrelado, amarrado. Agora, quando eu escrevo casa, você imediatamente fez uma imagem mental e “entendeu” a palavra. Esta é uma palavra existente porque ela faz sentido, ao menos para nós que usamos a língua portuguesa.

O poder das palavras, por ser simbólico, faz um curto-circuito na nossa racionalidade. Veja, por exemplo, se você se sentiria igualmente confortável comprando um carro usado ou um seminovo? Racionalmente, concordamos que ambas as palavras se referem a carros que já tiveram algum uso ou que não são zero km. Nenhuma das duas palavras define claramente, quanto uso o carro teve. No entanto, seminovo parece melhor do que usado!

Um outro exemplo, este no campo da saúde, é aquele lugar onde realizamos exames complementares. Aqui, já introduzi uma palavra que é conhecida dos médicos, mas, pouco ou nada usada pela população. Me refiro à palavra complementares. Complementar a o quê? Essa seria a pergunta a ser feita. Ora, os exames são complementares a uma consulta médica que inclua uma boa entrevista (anamnese) e exame físico. Isso, hoje em dia, é raro. Frequentemente o próprio paciente já chega no médico com exames que ele fez, “para ganhar tempo”. Um dos motivos está no uso das palavras e os botões que elas apertam no nosso pensamento. O lugar onde realizamos exames complementares se chamavam laboratório de análises clínicas ou simplesmente, laboratório. A imagem que nos vêm à cabeça é de um lugar cheio de vidros e reagentes. Hoje, o mesmo lugar se chama centro de medicina diagnóstica! O que nos vêm à mente? Que é neste lugar que terei meu diagnóstico feito, bastando levar ao médico para que este prescreva o tratamento mais adequado, ganhando, assim, tempo. O que mudou? Apenas o nome do lugar, mas o impacto em nós é radicalmente diferente. Impacto, neste caso que nos leva a um erro de entendimento do seja a consulta médica e um exame complementar.

Espero que, com esses dois exemplos, tenhamos entendido que palavras são poderosas porque transportam símbolos que significam algo para nós. Essa é a lógica de uma marca. Quando determinada marca é dita ou escrita, já “entendemos tudo”. Não há necessidade de explicarmos o que seja uma Bic. Tudo já está dito com a marca. Se eu escrevo Shell, ninguém pensa em sorvete (claro que um detalhista me dirá- mas, tem a loja de conveniências…). Assim, posso chegar na palavra que é o objeto deste post (finalmente!): ESPECIALISTA.

O que essa palavra nos faz pensar? Em alguém que tem um conhecimento profundo de algo especial ou específico. Alguém que dedicou anos da sua vida estudando e/ou praticando determinada atividade que o torne detentor de um saber, conhecimento ou prática muito acima daquela que nós possuímos. Um especialista sabe algo que eu não sei. Ou sabe muito mais sobre algo que eu conheço um pouco. Nesse sentido, se eu sou um especialista em algo, quem é você? Essa a pergunta do post! Não sei o que vocês responderiam, mas eu sei o que eu diria se me fizessem essa pergunta. Eu responderia que eu sou um ignorante (total ou parcial) no assunto e que o conhecimento do especialista poderá, dependendo da situação, resolver algo para o qual eu não tenho competência. Exemplos: um pintor de paredes, um eletricista, um encanador, são especialistas que sabem o que eu não sei e resolverão um problema que eu tenho o virei a ter nessas áreas do conhecimento. E, se eu tiver um problema nessas áreas, eu dependo de um especialista para me tirar daquela situação problemática.

Vou tentar resumir, em palavras isoladas, o que é um especialista e o que ele pode representar para as pessoas: conhecimento maior do que o meu; sabe o que eu não sei; dependência desse conhecimento para resolução de problemas.

Se estivermos de acordo até aqui, podemos dizer que especialistas são pessoas muito necessárias para resolver situações especiais, para as quais não temos competência, conhecimento ou habilidades. Portanto, para utilizarmos um especialista, é preciso que haja um problema ou situação para a qual não nos sentimos capazes de resolver. Ocorre que, com a valorização da tecnologia e o acesso global à informação, houve uma hiper valorização do conhecimento “científico”, como se este fosse a única forma de saber válida. O conhecimento científico é algo que um especialista domina. Portanto, se só o conhecimento científico é válido, eliminando-se a tradição, o bom senso, a intuição e a experiência, praticamente tudo que fizermos na vida vai precisar de um especialista. Sem um especialista eu posso errar porque eu não sei o que ele sabe. Passo, não só a desvalorizar qualquer forma de conhecimento que eu possa ter, como sentir insegurança e paralisia diante das situações habituais da vida cotidiana.

Vamos deixar bem claro que o conhecimento científico é uma conquista da evolução intelectual do ser humano. O método científico nos ajuda a superar nossas ignorâncias e até a reduzir mitos e crendices. Mas, não pode, nem se propõe a ser um novo mito, ainda que muitos a entendam assim. No século XVIII, William Cowper, um poeta inglês disse: ” A ciência é orgulhosa por tanto saber; a sabedoria é humilde por não saber mais.” Existe, portanto, algo que vai além do conhecimento científico que é, para usarmos uma só palavra, a sabedoria. A sabedoria é composta do conhecimento científico, mas bebe nas outras fontes que eu citei:  tradição, o bom senso, a intuição e a experiência.

Sabedoria não é exclusividade de quem estudou algo. Sabedoria não depende de nível social ou econômico. Todos nós temos alguma forma de sabedoria. E, quando o assunto é viver ou sobreviver, todos nós temos muita sabedoria acumulada. A questão é que em um mundo tecnológico, com uma mistificação da ciência e, pior, da pseudociência, nossa sabedoria ficou escondida, acanhada, envergonhada. Pior, toda vez que eu penso em usá-la, o meu entorno, o facebook e o google, me dizem que estou errado! Só um louco furioso para enfrentar esse tsunami de especialistas em tudo!

Por quê escrevi esse post? Porque eu garanto que todos nós temos sabedoria suficiente para:

– Engravidar. Quando há um problema e o casal deseja engravidar, aí sim faz sentido ouvir um especialista. Não é preciso ler no google como se engravida!

-Ter filhos. Há uma sabedoria da espécie para se ter filhos. A obstetrícia não tem 400 anos de idade e nascemos há cerca de 160 mil anos. Claro que o conhecimento obstétrico tornou o parto mais seguro e confortável. Mas, daí a se precisar fazer um curso, com alguém que sabe o que eu não sei, vai uma certa distância. Todas as mulheres sabem, ao menos o mínimo necessário, como ter um filho. De novo, se há um problema no parto, é altamente desejável que um especialista esteja presente.

-Amamentar. A simples ideia de que haja um especialista que vá ensinar a uma mãe como amamentar é muito estranha. Aquela mãe e aquele bebê são únicos. Precisam de um tempinho para se entenderem. Um conselho, fruto da experiência ou tradição, podem ajudar. Uma palavra de reconhecimento dessa dificuldade inicial, também. Mas, ensinar “técnicas” é alienar a mãe da sabedoria intrínseca dela. Em algumas situações especiais e pouco frequente, pode haver um problema pontual onde um especialista pode e deve ajudar.

– Dar banho no bebê. Que tal um curso de banho para o bebê? Alguém com grande experiência, um especialista, vai lhe mostrar como é o melhor modo de dar banho em um bebê. Você terá aulas de simulação com um boneco e vai dominar a técnica. Nasce seu filho e você vai dar o primeiro banho. Ele chora! Surpresa máxima, isto não estava previsto. O boneco do curso não chorava! Ou, apesar de você fazer tudo “certo”, seu bebê não gosta desse banho. Claro que você vai demorar uns dias até desconfiar que o errado é o método, não você, nem o bebê. Aí, você vai usar a sua sabedoria (que será a de tentativa e erro), até descobrir como é o melhor banho, para o seu filho.

– Introduzir alimentos sólidos. Cada cultura tem uma tradição (escrevi um post sobre isso). Não há regras fixas, nem grandes conhecimentos científicos envolvidos. Mas, quem sabe, não seria melhor ouvirmos um nutricionista? Afinal de contas, deve haver algo que eu não sei, fundamental, definitivo, importantíssimo, a respeito de frutas e sopa de legumes com músculo!

-Engatinhar/andar. Não seria melhor contratarmos uma nova técnica de estimulação fisioterápica que “ensinasse” nossos filhos a andarem, de preferência com um nome ou vinda de um lugar remoto (técnica Walfrid de deambulação balanceada ou técnica sueca de estimulação motora)? De novo vemos o poder simbólico das palavras. Imaginem a técnica Severino de deambulação precoce ou a técnica paraguaia de estimulação motora!

A lista de exemplos de situações cotidianas onde NÃO PRECISAMOS DE ESPECIALISTAS   poderia continuar. Poderia incluir o pediatra como sendo um detentor de um conhecimento específico, melhor do que a sabedoria dos pais. Um exemplo rápido: doutor, o que é melhor para o bebê- ar condicionado ou ventilador? Ora, nenhum pediatra teve essa aula no curso de medicina! Essa é uma resposta que deve vir da sabedoria dos pais em, uma vez mais, usarem o melhor método que existe para se cuidar dos filhos: tentativa-erro-aprendizado. Mas, para isso, é preciso três coisas:

  • que estejamos convencidos de que temos sabedoria;
  • que confiemos na nossa sabedoria;
  • que saibamos que especialistas são fundamentais para resolver problemas. Onde não há problema não precisamos de especialista

Se continuarmos a confiar cegamente em especialistas ou não confiar na nossa sabedoria, breve estarei contratando um bombeiro para abrir as torneiras de casa. Como especialista, ele deve saber fazer isso melhor do que eu!

 

NOVO MÉTODO PARA ESTIMULAR A CAPACIDADE INTELECTUAL DAS CRIANÇAS

mobile kids

Pesquisadores da Universidade de Uppsala, na Suécia chegaram à conclusão que, de fato, existe um método que é capaz de estimular a capacidade intelectual de crianças, desde a idade de alguns meses.  O mais interessante é que o método, utiliza uma plataforma realmente amigável e intuitiva, de baixo custo e fácil acesso para a grande maioria das pessoas.

A pesquisa demonstrou que crianças ou até mesmo bebês, desenvolvem não só sua parte intelectual, cognitiva, mas, também sua capacidade criativa, além de constatarem o estabelecimento de vínculos afetivos mais sólidos, dentre os que foram submetidos à essa nova metodologia.

Em geral, pais demonstram uma certa preocupação em como desenvolver de forma mais plena, o potencial dos seus filhos. Nesse afã, se tornam, em alguns casos, vulneráveis a alguns modismos ou tecnologias sem nenhuma comprovação de eficácia. Desde tocar música clássica enquanto o bebê ainda está na barriga da mãe, até a aquisição de móbiles que se propõem a desenvolver aptidões matemáticas nas crianças. O que os pesquisadores suecos nos apresentaram prova que bebês e crianças podem ser estimulados, no entanto a tecnologia envolvida é mais simples do que se supunha.

Mas, nem tudo é perfeito. Este método exige, ao menos, a aquisição da plataforma e um adulto com tempo e desejo de utilizá-la com a criança. A partir de uma certa idade, a própria crianças será capaz de manusear a plataforma, mas, mesmo nessa fase, a presença de um adulto, participativo, interagindo, potencializa os benefícios da metodologia. Somente a partir de 7 a 8 anos é que a plataforma apresenta modelos nos quais a criança será capaz de fazer todas as etapas do método, de forma autônoma.

A esta altura, a curiosidade de alguns deve estar suficientemente aguçada, enquanto que outros já estão no limite de perder a paciência- mas, afinal que metodologia é essa, eficaz, barata, acessível e que roda em plataforma intuitiva e amigável.

Os suecos comprovaram que Lições Interativas de Visualização e Relacionamento de Ordem afetiva, de fato constitui um método, até hoje inigualável de estimulação intelectual e emocional da criança. Mas que método é esse, afinal de contas? Peguemos as primeiras letras de cada palavra e teremos:

LIVRO!

Daqui, ouço um óhhh de decepção, vindo de um grupo de pais mais high-tech, ligados em novidades, para quem o progresso terá sempre uma book-bondingsolução melhor do que o passado. Também vejo um sorriso amarelo de alguns pais que, esperavam algo mais do que um livro! Meu lado otimista (que não é muito desenvolvido) consegue supor alguns sorrisos de pais que, por experiência própria (são leitores) conhecem o poder que livros possuem no desenvolvimento do ser humano.

Brincadeira à parte, há um consenso entre diferentes profissionais de saúde que, se fossemos escolher um método de desenvolver a capacidade cognitiva das crianças este seria a leitura de livros, já a partir dos 6 meses de idade. Claro que não é o único e todos são complementares. O brincar criativo, com sucata doméstica, argila, tintas, pinceis, colagens, seria outro. As brincadeiras ao ar livre como saltar, girar, pedalar, nadar, desenvolvendo, de forma lúdica as capacidades motoras, seria outro. Lembrando que nenhum método, sem o carinho dos adultos, funciona!

Vejam que as telas e monitores não constam no topo da lista. Isso porque, em princípio,  sugerem mais passividade e menos criatividade, no máximo, reatividade, reflexos. E, vamos nos lembrar que programas muito rápidos, agitados, podem desenvolver nas crianças pequenas uma “necessidade” de hiperestimulação. Se não forem hiperestimuladas, sentirão tédio o que pode gerar dificuldades no momento da alfabetização, que é, obrigatoriamente, lenta.

Retornando ao LIVRO, este é um estimulador da criatividade, na medida em que o leitor (ou, no caso da criança- ouvinte), cria a história na sua cabeça. Serão sempre 3 porquinhos e um lobo, mas cada um cria os seus 3 porquinhos e o seu lobo! Além desse aspecto, a proximidade física com quem conta a história, cria um momento de vínculo afetivo, com contato corporal. Não se trata apenas do carinho de quem provê, mas do afeto de quem toca (e se deixa tocar). A leitura pode contribuir para a implantação de determinadas rotinas, como dormir ou jantar. Sinalizam mudanças de ritmo (da brincadeira mais agitada, para um momento mais calmo). Um aspecto pouco lembrado é o de que  nós, adoramos contar histórias! Falamos há aproximadamente 70 mil anos e escrevemos há uns 10 ou 12 mil anos. Portanto, passamos 60 mil anos da nossa existência dependendo exclusivamente de contarmos histórias, para crianças e adultos, assegurando que o conhecimento e a experiência fossem transmitidos, garantindo que chegássemos até aqui. Por esse motivo, ler não é intuitivo, como conversar. Ao contarmos histórias, usando livros, unimos a fala com a escrita e podemos desenvolver nos nossos filhos o hábito da leitura. Um hábito que, por não ser natural, precisa ser desenvolvido de forma gradual e prazerosa. Afinal de contas, hoje, a informação de qualidade, se encontra publicada, impressa. A capacidade analítica, crítica, o entendimento de complexidades como a vida em sociedade, economia, medicina, engenharia, astronomia, cultura, arte etc. vai depender da capacidade de leitura da pessoa. Em um mundo competitivo essa competência pode fazer a diferença, além de ser um hábito que produz prazer a quem o desenvolveu. Vejam quantas razões (e emoções) justificam o desenvolvimento do hábito de ler.

Se alguém ficou chateado com a brincadeira dos pesquisadores de Uppsala, peço desculpas. Só queria chamar a atenção, de forma provocadora, para a importância do livro. E boa leitura com seus filhos!

 

 

E NÃO É QUE CRESCEM?

Carolina e SylvioA crônica a seguir é uma ficção. Ou, como aparece nas embalagens de alimentos- meramente ilustrativa.

Planejada ou não, há uma gravidez. A vida muda radicalmente. Até o minuto antes de ver o resultado do exame, havia uma mulher com alguma expectativa. Positivo! A mulher continua ali, perplexa, alegre, triste,  preocupada, realizada, quando se aproxima uma mãe e fica ali do lado olhando. A mulher se movimenta e a mãe vai junto, como uma sombra, ainda externa. O corpo vai se modificando e a mãe, que era apenas uma sombra,  vai ocupando o lugar daquela mulher. Por um tempo, há uma enorme confusão de identidade: mulher ou mãe? Ambas? A gravidez avança e não dá mais para esconder, lá vai uma mãe, com a sombra de uma mulher a acompanhá-la. O pai fica meio que esperando para saber se, naquele dia, ou momento, está com a mulher ou a mãe do filho.

O bebê é um projeto, onde cabem todos os desejos e sonhos. Será educado de uma maneira ímpar, muito melhor do que os futuros pais foram, com muito mais tolerância, paciência e até sabedoria. Hoje somos mais bem informados, menos engessados, cabeça mais aberta. Nosso filho vai ser uma pessoa realizada e feliz que vai nos amar profundamente. Junto com esses sonhos, as providências de roupas, fraldas, arrumar um quarto, escolher um berço, tudo sempre visando o melhor para o filho. Nesse ponto o mercado faz a festa, inventando móbiles que desenvolvem o hemisfério esquerdo do cérebro e chocalhos para o direito. Chupetas orto-anatômicas e uma coleção de músicas que estimulam a capacidade matemática do bebê. Enfim, o mercado se aproveita desse momento de sonhos e idealizações para vender tudo que é tralha que pareça contribuir para um ser humano fabuloso. Fora os cuidados com a saúde, outro capítulo onde o mercado faz a festa. Travesseiros anti- isso, gotas anti-aquilo, bolsas térmicas para evitar aquilo outro e pomadas mágicas.

Nasce o bebê. Uma pessoa passa a ter existência real. Essa pessoa nunca é a mesma que foi planejada. Esta chora à  noite e quer mamar o tempo todo. Ou, dorme demais, preguiçosa para mamar. Ou, fica vermelha, se espremendo toda como se algo muito ruim estivesse acontecendo. Onde está aquele bebê do nosso plano? Foi substituído pela pessoa real!

Nessa fase, os amigos dizem: “calma, passa rápido”. Só pode ser ironia, pensam os pais. Nada passa. O tempo congelou e só existem mamadas, fraldas, cocôs, pomadas em ciclos intermináveis, não necessariamente na mesma ordem. Vida própria, vontades? Esqueçam! Isso nunca vai acabar,  pensam todos os pais. Mas, acaba. E não é que crescem?

Viram bebês que sorriem, sentam, engatinham e andam. Começam a comer sozinhos  e ter vontades próprias. A pirraça se instala e, na sequência a argumentação, pautada por intermináveis por quês! Nesse momento os pais se dão conta que aquele plano de ser melhor do que os avós meio que perdeu o sentido. Já ficaram irritados, chateados, perderam a cabeça e disseram coisas que haviam prometido nunca dizer. Pelo menos, ficaram mais humanos e, em algum momento, reconhecerão que seus pais até que foram bem legais.

Vem a escola, os amigos, o dormir fora, a vontade mais estruturada e um poder de negociação sedutora incrível. Que delícia! Mas, não é que crescem? Certa manhã os pais se dão conta que há um adolescente na casa. Se dão conta porque não acordou para tomar o café, dormindo até depois do meio dia e quando acorda, exige um determinado café da manhã. À noite quer sair e bate portas quando não lhe é dada a autorização. Informam aos pais, com todos os requintes de crueldade possível que os pais dos amigos são muito melhores do que eles. Sabem o que dizer para ferir, mortalmente seus pais. Nessa época, começam a pensar: ” quando eu tiver filhos, vou ser muito mais legal com eles do que esses meus pais”!

Os pais, em geral, só percebem o crescimento dos filhos, depois deste ocorrer. Namorar? Não é cedo demais? Vestibular? Mas, já? Ontem era um bebê! Pois é, o tempo congelado, imóvel quando tinham um bebê, virou um cachoeira, fluído, rápido e incontrolável. Os pais passam a correr atrás do tempo dos filhos, como corriam atrás dos mesmos quando aprenderam a andar.

Formatura, trabalho, ideias próprias! Escolhas! E não é que crescem?

E chega um dia onde apresentam um namorado ou namorada, mais “sério”. Os pais ficam ali olhando, sem saber se acham bom, acham ruim ou não acham nada. Mas, no íntimo, se perguntam: não é cedo, acabou de se formar, não seria melhor esperar um pouco mais?  Há um conflito na cabeça dos pais entre a alegria de ver uma pessoa feliz, independente, se realizando e a constatação de que a filha ou filho ganhou mundo. É um pouco a maldição da prece atendida. Tudo que os pais querem é filhos independentes, mas, precisava ser agora? Isso, porque eles crescem!

Até que um dia comunicam que vão se casar. Um ciclo que se inicia, repetindo um ciclo que os pais já viveram, assim como os pais dos pais,  ainda que novo e , único. A formação de uma nova família, ampliando a dos pais que aprendem  a conviver com noras e genros.  A perspectiva de se tornarem avós se aproxima desses pais, como uma sombra, ainda externa, aguardando o momento de dar o bote e transformá-los em vovó e vovô.

Qualquer semelhança desta crônica com realidade é mera coincidência. Não tem nada a ver com o fato da minha filha Carolina se casar, amanhã, com o Sylvio. Nenhuma relação com o espanto que é perceber o ciclo da vida acontecer de forma rápida (demais)! Mero acaso perceber que a minha família aumentou.

Sinto novas emoções e, curiosamente, uma renovação. Vejo na alegria da Carolina e do Sylvio, motivos para minha alegria. Vejo no amor deles, um toque de suavidade, necessário na vida. Vejo no sorriso cúmplice de ambos,  a eternidade do momento presente. E me vejo muito feliz em poder ver tudo isso, constatando – e não é que crescem?

Na foto que ilustra o post, Sylvio, Carolina, Saquê(gato) e Panda(cachorro), a família que se forma enquanto eu vou saindo, discretamente do palco e me sento na platéia. O palco, agora, é deles. E eu, sentado, aplaudo, feliz. Não contenho a emoção (nem quero).  Uma lágrima escorre pelo meu rosto.  Sorrio. Cresceram!

NATAL É EMOÇÃO ( E NÃO RAZÃO)!

santa-claus3Se fossemos  só racionais, não poderíamos celebrar o Natal, no dia 25 de dezembro. Nesta data, os cristãos celebram o nascimento de Jesus e, com ele,todo o simbolismo da renovação e esperança. Mas, Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro. Não sabemos exatamente quando ele nasceu, mas, esta data, 25 de dezembro, foi definida pela Igreja em meados do século IV. Mas, isso não importa.

Se fossemos só racionais, não poderíamos celebrar o Natal utilizando a figura do Papai Noel, simplesmente porque ele não existe. E, como sabemos, racionais, se atém aos fatos demonstráveis. Mas, isso não importa.

Ainda, se fossemos só racionais, não utilizaríamos, no Brasil, um pinheiro conífero para ser o símbolo da árvore de Natal . Mas, isso não importa.

Com tanta propaganda (enganosa) de que o ser humano é racional, como é que celebramos o Natal, no dia 25 de dezembro? A resposta é simples: seres humanos, ainda que sejam capazes de utilizar a razão, são seres simbólicos. A emoção precede a razão. Olhamos para uma pessoa e antes que ela diga qualquer coisa, já fizemos uma avaliação. Seja pela roupa, asseio pessoal, adereços (todos símbolos), na nossa cabeça, formamos uma opinião prévia (e irracional) a respeito dessa pessoa. Quando vemos uma obra de arte ou ouvimos uma música, não precisamos conhecer nada sobre teorias, técnicas, escolas, história, para dizermos se gostamos ou não do que estamos vendo ou ouvindo. Esse gostar vem da emoção que é despertada em nós pela visão ou audição. E isso é o que importa!

O Natal é uma emoção! Emoção, do latim, significa um movimento para fora (ex- para fora; movere- movimento). E o que se move para fora? Aquilo que normalmente fica trancado (pela razão?)  que é a nossa essência, nosso eu (sem tecnicalidades psi). Ao se mover para fora, pode encontrar o outro, o semelhante (ou diferente) humano. É nesse movimento para fora que se dá o nosso encontro. O encontro dos seres humanos não se dá na razão. Até nesta, há emoção. Ao ouvirmos um brilhante palestrante, ficamos encantados (emoção) com sua ideias (razão). Matemáticos, que conversam nessa língua universal que são os números, costumam falar em beleza de equações. Isto é, se emocionam ao ver o belo, nos números, tanto quanto nós, nas artes.

Muitas pessoas, extremamente racionais, entre as quais eu me incluo, podem sentir algum desconforto com um momento como este, emotivo e afetivo. Em geral se prendem aos aspectos racionais “brigando” contra o Natal, como o personagem Grinch, que odiava o Natal. Ficamos, suponho, muito assustados com a impossibilidade de controlarmos nossos sentimentos, enquanto a racionalidade nos dá uma sensação (ilusória?) de controle e segurança. Minha contribuição, “anti-Grinch” é este post!

Pouco importam as datas e os fatos objetivos relacionados ao Natal. Pouco importa a febre consumista que nos faz ficar obcecados com a compra de presentes e emoções Chagall2irritados com ruas e lojas lotadas. Pouco importa uma certa hipocrisia em que votos são repetidos como uma fórmula de boas maneiras. Há no Natal, uma anistia para a ditadura da razão e podemos, por alguns momentos, olhar para o outro, abraça-lo, beijá-lo e nos  sentirmos humanos, solidários, juntos.

Meu abraço carinhoso em cada leitor, na expectativa que o Natal, nos mostre que ser afetivo é gostoso para os adultos e fundamental para o desenvolvimento saudável dos nossos filhos. Nesse Natal, além dos presentes, sempre divertidos e bons de recebermos,  que tal darmos um abraço bem apertado em amigos queridos, companheiras e companheiros, pais, irmãos e filhos? Um abraço, sem dizer nada, dizendo tudo!

 

 

de: CRIANÇA@VIVERSEDIVERTINDO.ORG para: PAIS@PREOCUPADOS.COM

criança computador2Mamãe e Papai,

No dia da criança, queria aproveitar para lhes dizer algumas coisas que considero importantes e, talvez, vocês não tiveram a chance de ouvir antes.  O autor deste blog, que gosta muito de crianças, me ofereceu o espaço para escrever. Achei uma ótima ideia e aceitei.

A primeira coisa que eu quero lhes dizer é que vocês se pré-ocupam demais. Isto é, adoecem de futuro. Parece que essa é uma doença de adultos que se ocupam, antes da hora, com o futuro. Eu, como criança, só consigo viver a vida no presente. E ainda desconfio que se existe esse tal futuro, o melhor jeito de eu poder vive-lo vai ser tendo vivido de forma intensa e adequada todos os presentes que existem antes de chegar nele (futuro). Pode parecer um pouco confuso para vocês, mas o sapo da lagoa, aquele que não lava o pé, me disse para dizer isso para vocês de um jeito que vocês entendessem. Ele disse uma frase que eu não entendi bem, mas, me garantiu que vocês entenderiam: cada coisa no seu tempo, na sua hora!  Claro que eu confio em vocês e se pensam nesse tal futuro, devem ter seus motivos (ou não). Mas, gostaria que pensassem um pouco no que eu disse e, ao invés de antecipar as coisas, aproveitem, comigo, o presente.

Outra coisas que eu não sei se vocês sabem, mas, quando eu era bebê, eu chorava sem motivo. Nem eu mesmo sabia porque eu estava chorando. Claro que eu chorei de fome, de frio, de calor e porque a fralda estava suja e achava o máximo como vocês adivinhavam rápido o que estava me incomodando. Ponto para vocês! Mas, tinha momentos em que eu chorava porque levava um susto com o barulho do leite sendo engolido, ou não entendia bem um trum que acontecia na minha barriga. Teve dias em que eu chorei muito e forte, só porque estava achando divertido e relaxante. Afinal de contas, eu não tinha muita coisa para fazer, além de mamar, dormir e fazer cocô. Chorar era um momento bem animado. Mas, confesso que ficava preocupado, tenso, com vocês, desesperados, tentando entender o meu choro que não era nem de calor, frio, fome ou fralda suja. Também não era de cólica ou dor. Era só choro. E vocês indo e vindo, olhando, apertando, virando, mexendo, eventualmente chorando junto comigo, ligando para parentes, amigos e pediatra. E eu ali, querendo dizer que estava tudo bem, ia ficando nervoso e fazia o que eu sabia fazer de melhor: chorava mais forte! Se, vocês decidirem que eu vou ter uma irmãzinha ou irmãozinho (coisa que eu definitivamente não quero, apesar de, às vezes, dizer que quero), lembrem-se que bebês choram sem motivo também!

Tenho um pedido para lhes fazer, leiam mais comigo. Vocês não imaginam o prazer que me dá sentar no colo e ouvir a voz de vocês, apontando para as figuras no livro. Fico fascinado e gostaria de repetir isso mais vezes. Claro que tem horas que eu não estou tão a fim e vou querer brincar de outras coisa. Não interpretem isso como sendo um não gostar. É só que, como criança, naquela hora, não quero. Mas, se vocês tiverem paciência e, de algum modo, criarem uma rotina de leitura, vou adorar. Depois, já andei pensando, aquele celular e i-pad são bem divertidos também, mas, algo me diz, que estes me hipnotizam enquanto aqueles (os livros) me fazem criar imagens e histórias.

Sei que vocês não fazem por mal, pelo contrário, mas, não gosto de mentirinhas. Por exemplo, quando me dizem que vacina não dói nada, fico uma fera. Dói e muito! Se vocês não querem me assustar, digam que é uma picada que dói mas passa. Ou, não digam nada sobre a dor e comentem que é normal não querer tomar ou ter medo da vacina. E, na hora de aplicar a vacina, não fiquem horas me explicando a sua importância da. Expliquem uma vez, me segurem com força e vamos acabar logo com isso! Vocês não sabem o que é um sofrimento adiado por uma negociação interminável. É muito maior do que a picada que acaba logo. Isso vale não só para vacinas, mas para qualquer coisa desagradável pela qual eu tenha que passar.

E, por falar nisso, nunca entendi porque chamam o pediatra de tio! Nunca vi ele em nenhuma festa da família, nem no Natal! Que tio estranho esse que nunca aparece, só eu que apareço num lugar que nem é a casa dele. Um lugar que tem um nome esquisito: vamos lá no consultório do tio fulano, para ele te examinar. Desconfio que esse tio não é tio. Acho que ele é um médico e aí eu não sei porque vocês não chamam ele pelo que ele é. Adultos tem cada uma!

Talvez vocês imaginem que precisem ser perfeitos, excelentes, maravilhosos, o tempo todo, todos os tempos. Pois bem, outro dia, na consulta com o meu médico, eu ouvi ele contando para vocês o que uma pessoa com um nome muito diferente, Winnicott?, dizia: bebês e crianças não precisam de mães (e pais) perfeitos. Basta que sejam suficientemente bons. Na hora, eu estava brincando com um dos palitinhos que eu ganhei e pensei: por favor escutem porque se vocês forem perfeitos, a minha vida vai virar um inferno! O que o filho de perfeitos pode ser na vida? Perfeito! E, dado que a perfeição não existe, vou passar o resto da minha vida perseguindo algo inalcançável. Relaxem, errem sem medo e cuidem um pouco de vocês, deixando que eu me vire sozinho também.

Quando eu ficar doente, com um resfriado, por exemplo, cuidem de mim, mas, não me sufoquem com cuidados. Fiquem perto, porque isso me faz sentir bem. Não precisam ficar medindo a minha temperatura de meia em meia hora, nem me empurrando comido pela boca adentro, repetindo que é importante comer e que eu não estou comendo nada. Também não fiquem me oferecendo infinitas opções de comidas. Me deixem ficar um pouco quieto, um pouco só, acompanhado  por vocês. Nunca fui adulto para saber, mas, suponho que quando ficam doentes, com febrão, enfiados na cama, também não querem ninguém oferecendo algo ou dizendo o que devem fazer, de 10 em 10 minutos! Se essa minha suposição estiver correta, lembrem-se disso, no meu próximo resfriado.

Aliás, não é só quando eu ficar doente, mesmo saudável,  eu gostaria que me deixassem um pouco em paz. Eu não preciso fazer algo, o tempo todo. Aliás, preciso de um tempinho para não fazer nada para descansar, relaxar e até me tornar mais criativo. Como vocês devem saber, os gregos, sempre eles, perceberam que era preciso um momento de ócio para que se pudesse aprender algo. O ócio é tão importante para o aprendizado que é a origem da palavra escola! Portanto, não precisam encher minha agenda com atividades. Muitas vezes vocês imaginam que se eu fizer muitas coisas durante o dia, dormirei melhor, à noite. Às vezes eu fico tão excitado por causa das atividades que acabo dormindo mal e aí escuto vocês conversando que talvez eu não esteja fazendo atividades suficientes para me cansar! Além disso, quando vocês enchem meu dia com atividades programadas, eu fico sem tempo para inventar as minhas atividades e isso (criar minhas atividades) parece que pode ser importante para aquele tal futuro com o qual vocês pensam.

Um assunto difícil para mim é o dos limites. Eu odeio limites. Simples assim. Mas, fico tão aliviado quando vocês os impõem a mim. Eu brigo, choro, deito no chão, mas, no meu íntimo, fico aliviado por saber que cuidam de mim e que eu posso explorar o mundo sem medo porque estarão atentos e não permitirão que eu quebre a cara (muito). Portanto, peço, imploro, que usem a autoridade de vocês, sempre. Não estou pedindo para que sejam autoritários e até desconfio que, muitas vezes deixam de usar a autoridade porque confundem com autoritarismo. Não é isso. Peço que exerçam o papel de pais, colocando limites, sem se sentirem culpados. Eu vou saber que isso também é amor.

E assim chegamos no assunto mais importante da minha vida: amor. Me sentir amado por vocês é uma delícia. E olha que eu sinto isso desde bebezinho. Cada vez que eu percebo o quanto me amam, seja cuidando de mim, seja lendo e brincando comigo, seja me apresentando o mundo, seja simplesmente me segurando, abraçando e beijando, seja colocando limites como eu já disse, é como uma epifania, um sentido para a vida. Ser amado, que não é mesma coisa que ser paparicado ou ganhar muitas coisas, é o maior presente que vocês podem me dar, no presente. Portanto, no dia da criança, adoraria um abraço apertado e um beijo carinhoso. Claro que um presentinho, como a tal sucata doméstica que o Dr. Roberto descreveu aqui no blog, ou o que vocês quiserem dar, cai bem. Afinal, ninguém é de ferro!

Obrigado por me deixarem ser quem eu sou, amo vocês,

um beijo bem gostoso,

seu filho.