Arquivos

AQUI NINGUÉM TOCA!

aqui-ninguem-toca2Não dispomos de estatísticas confiáveis a respeito da violência ou abuso sexual em crianças. Mas, a estimativa feita pelo Conselho da Europa é que aproximadamente uma criança em cinco sofreu ou sofrerá alguma forma de abuso sexual. Vou repetir o número- uma em cinco, estimado pelos países da comunidade europeia.  Uma em cinco é o mesmo que 20% ou ainda, numa turminha de 20 crianças, estatisticamente, 4 poderão ter sofrido ou sofrerão alguma forma de violência sexual. 

Este problema é tão grave que, além de todas as ações locais e recomendações internacionais feitas pela OMS e UNICEF, o Conselho da Europa desenvolveu um “pacote” para a divulgação de uma regra simples a ser ensinada às crianças: AQUI NINGUÉM TOCA.  A criança deve aprender que ninguém a toca por debaixo da fralda, calcinha ou cueca. Em inglês o nome da regra é The Underwear Rule. A regra foi criada para ajudar os pais e os educadores a começarem a falar sobre este tema com as crianças e pode ser uma ferramenta muito eficaz para prevenir o abuso sexual. 

A regra “Aqui ninguém toca” possui cinco princípios importantes:

1- O seu corpo é só seu. As crianças precisam ser ensinadas de que o seu corpo lhes pertence e que ninguém pode tocá-lo sem a sua autorização. Os pais devem falar com as crianças, desde pequenas, a respeito do corpo e do que é um contato permitido e o que não é. As crianças precisam aprender a dizer não de forma enérgica e serem incentivadas a comunicar qualquer situação à mãe ou ao pai. 

2- Contato físico próprio e impróprio. Para facilitar o entendimento das crianças do que seja um contato proibido, a regra delimitou a área do corpo coberta pelas roupas íntimas ou fraldas. Crianças devem ter muito claro que nessa parte do corpo, ninguém toca. Também devemos ensinar a nossos filhos que as partes do corpo de outra pessoa, coberta pelas peças íntimas (cueca e calcinha) não devem ser tocadas por eles. Isto é, a regra “Aqui ninguém toca” vale tanto para impedir que alguém toque nas crianças, quanto esta tocar um adulto. 

3- Bons e maus segredos. Um agressor de crianças é, em geral, alguém conhecido desta e que goza de certa confiança. O adulto agressor é, em geral, sedutor e uma das suas táticas é a de combinar segredos com a criança- isso é segredo só nosso, não vamos contar para ninguém! Combinado? Nossos filhos devem ser orientados a jamais guardarem nenhum tipo de segredo a respeito de alguém que tenha desejado ou conseguido tocar no corpo ou pedir que toquem no dele. Esse é um mau segredo e a crianças nem sempre vai entender isto. Devemos reforçar, dando exemplos de bons segredos, como uma festa surpresa para um irmão ou parente. Ou ainda onde determinado presente ou objeto foi escondido para que outra pessoa o procure. Crianças adoram segredos e os abusadores se utilizam desta vulnerabilidade. Portanto, nunca é demais incentivar a criança a contar tudo, sem guardar segredos a respeito de adultos que sugerem isso para tocar ou serem tocados. 

4- Comunicação aberta e sem julgamentos. Crianças abusadas podem sentir vergonha e medo. Por esse motivo não contam o que ocorreu aos pais. Eventualmente sentem medo da reação que os pais possam ter. É importante que estes mantenham uma postura de não julgamento ou repreensão da criança, acolhendo-a com carinho, estimulando que conte, sem medo, o que teria ocorrido. Os pais também devem controlar sua ansiedade ou raiva, para não tornar a conversa em um interrogatório que intimide a criança.  Se uma criança se sentiu desconfortável com algo, provavelmente merece ser conversado com os pais. Valorizem o desconforto dos filhos porque estes não ocorrem “por nada”. 

5- Quem é de confiança?  Entre desconfiar de todos e não desconfiar de ninguém, existe um enorme espaço. Com relação a estranhos é mais fácil se fazer essa diferenciação. As regras “clássicas” continuam valendo: não converse com estranhos, não aceite presentes, não entre no carro etc. A questão fica mais complexa com conhecidos, principalmente porque, não raro, o abusador é conhecido da criança, quando não da mesma família. A criança deve compreender que seus pais são de confiança, mas, deve saber que tem algum familiar fora do núcleo da casa com quem também possa falar e confiar. Pode ser um dos avós, um tio ou até uma madrinha ou padrinho. Isso porque, infelizmente, em alguns casos de abuso, o abusador vive na mesma casa da criança (pai, mãe, madrasta ou padrasto). 

O importante é que não façamos de conta que violência e abuso sexual não existem. Ou, se existem, estão limitados a determinados grupos sociais (longe do nosso).  Infelizmente, o abuso ou violência sexual é um desvio humano que atinge a todas as classes sociais e todas as culturas. É produzida por seres humanos com alto grau de conhecimento e sofisticação cultural, tanto quanto por pessoas sem escolaridade ou acesso à informação. Pior, os abusadores de bom nível educacional tendem a ser mais “sofisticados” na sua abordagem e os pais da criança abusada mais incrédulos de que isso possa ocorrer com seu filho.

Este é um post que não me dá prazer em escrever porque aborda um tema que preferíamos, todos, que não existisse. Mas, como existe, o pior que podemos fazer para nossos filhos é fingir que não existe ou que com os nossos, não ocorrerá. É preciso darmos um ambiente de grande segurança emocional para que nossos filhos falem conosco, se for necessário, sobre este assunto e meios para que se defendam. A regra “Aqui ninguém toca” pela sua simplicidade e objetividade pode ser um destes meios.

Para saber mais visite o site em http://www.underwearrule.org/default_pt.asp. Baixe o livro Kiko e a mão e leia-o com o seu filho. 

logo-contra-pedofilia-2

ZIKA- QUANDO O DESAFIO É SERMOS RACIONAIS!

thinkingman-rodinO assunto do momento é o Zika vírus porque estamos vivendo uma situação de aumento do número de casos e a revelação, diária, de novos aspectos relacionados à esta infecção. Mas, a dura realidade é que ainda sabemos muito pouco a respeito deste vírus e do seu comportamento em seres humanos. Hesitei em escrever este blog exatamente porque não sabemos muito. O que eu teria a contribuir? O que eu poderia dizer que ainda não foi dito e repetido pela imprensa e artigos científicos? Portanto, se você, meu leitor, veio até esta página em busca de novidades ou “revelações” a respeito de formas de evitarmos ou tratarmos esta doença, poupo seu tempo, dizendo que não tenho nada de novo a dizer, sobre esses aspectos da doença. Mas, pensei em falar sobre o que podemos fazer, diante de uma situação de desconhecimento e ameaça. Minha proposta é que, nesse cenário, o desafio é utilizarmos algo que é exclusivo da nossa espécie: a racionalidade. A racionalidade não será capaz de eliminar o medo que sentimos. Sentir medo é bom porque nos mantém alertas e cuidadosos. O que a racionalidade pode evitar é o pânico. O pânico nos leva a comportamentos irracionais, não justificados, muitas vezes mais perigosos do que o perigo que estamos enfrentando. Diante de uma situação ainda não clara e definida, sejamos racionais, fazendo jus ao nome da nossa espécie- Homo sapiens. 

A seguir, algumas sugestões do que podemos fazer, racionalmente:

1- diante de um cenário de pouca ou nenhuma informação científica confirmada, sejamos ainda mais rigorosos com as fontes que vamos consultar. Isto é, só devemos ler a respeito de Zika em sites oficiais do Ministério da Saúde, Organização Mundial da Saúde, Secretarias de Saúde, Sociedades Médicas, nacionais ou internacionais. Não devemos consultar aleatoriamente sites ou blogs sem que tenhamos referências sólidas destes. Fóruns de debate, grupos de pacientes, testemunhos e relatos de casos, não são boas fontes de consulta, numa situação como esta. É preciso limitarmos nossas fontes às que são realmente confiáveis.

2- definir o que já se sabe e, a partir deste conhecimento, traçar um plano de conduta individual e para a família. E o que sabemos?

Sabemos que 80% dos casos são ou assintomáticos (a pessoa nem sabe que foi infectada), ou a manifestação clínica não tem gravidade. Alguns casos podem apresentar uma síndrome neurológica chamada Guillain- Barré, com paralisia muscular que, geralmente, é transitória e reversível. Estes casos não são a regra da infecção pelo Zika, mas, um número muito pequeno. Acabam sendo conhecidos e se tornam motivo de pânico (irracional). No caso das gestantes, há o risco da microcefalia, motivo real de apreensão, considerando que ainda não sabemos muito a respeito. Circula, pela internet um áudio que fala dos riscos para crianças até 7 anos. Este áudio não tem fundamento e é um bom exemplo de fonte não confiável que se torna viral (sem trocadilho), disseminando desinformação e insegurança. 

Também sabemos que o Zika vírus é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti. Essa informação é fundamental porque, se não formos picados pelo inseto, bye bye Zika. Como não ser picado pelo inseto? 

No âmbito comunitário, cuidando para que não haja nenhum local na casa, prédio, condomínio, onde água limpa possa ficar parada. É nessa água limpa que o Aedes vai colocar seus ovos e reproduzir. Claro que o Estado tem suas obrigações com relação à erradicação do mosquito, mas, cada um de nós também pode e deve evitar que novos mosquitos surjam. Jogar lixo no chão (onde a água de chuva poderá se acumular), deixar plantas com água dentro de casa ou no jardim, cultivar plantas em cujas folhas se acumule água limpa (bromélias), são alguns exemplos de ações que nem sempre pensamos que possam estar associadas à eliminação do Zika. Ficamos focados em vacinas e remédios e esquecemos da prevenção ambiental!

No âmbito individual, evitarmos as picadas, utilizando proteção mecânica: roupas, mosquiteiros, telas, e química- repelentes e inseticidas. 

Com relação aos repelentes, existem 3 princípios ativos que são aprovados para uso humano:

IR3535: o uso tópico de repelentes a base de Ethyl butylacetylaminopropionate (EBAAP) é tido como seguro para gestantes, sendo indicado, inclusive, para crianças de seis meses a dois anos, mediante orientação de um pediatra. A duração da ação dos repelentes que usam esse princípio ativo, como a loção antimosquito Johnson’s, entretanto, é curta e precisa ser reaplicado a cada duas horas.

DEET: apesar do uso tópico de repelentes a base de dietiltoluamida ser considerado seguro em gestantes, o produto, segundo a recomendação da ANVISA, não deve ser utilizado em crianças menores de 2 anos. Já o EPA e a Academia Americana de Pediatria consideram o seu uso (em concentrações até 30%), seguro para crianças a partir de 2 meses.  O tempo de ação dos repelentes a base de DEET recomendado para adultos, como os produtos OFF, Autan, Repelex, é de cerca de 6h. 

Icaridin: por oferecer o período de ação mais prolongado, os repelentes a base de Icaridin, como o produto Exposis, estão sendo os mais procurados por adultos e gestantes. Com duração de proteção de até 10 horas e, potencialmente, menos irritante para a pele, segundo a ANVISA também pode ser usado por crianças a partir de 2 anos, mas as autoridades americanas e a Academia Americana de Pediatria consideram o seu uso seguro, a partir de 2 meses.

Algumas dicas para o uso de repelentes:

– sempre leia o rótulo e instruções de uso do produto;

– nunca deixe que crianças pequenas apliquem o produto sozinhas;

–  se o produto é apresentado em aerossol ou spray, aplique um pouco na sua mão e passe na criança. Não faça um jato direto sobre a criança;

– não use repelente em área do corpo coberta por roupa;

– aplique o repelente nas áreas descobertas: braços, pernas, atrás das orelhas e no pescoço. Reaplique até 3 vezes no dia;

– use uma quantidade suficiente para cobrir a pele. Colocar mais repelente não aumenta sua potência ou tempo de ação:

– não use repelente em área onde a pele esteja irritada, com algum ferimento ou corte;

– não passe o repelente nas mãos das crianças menores para evitar que esfreguem repelente nos olhos ou coloquem na boca;

Além dos princípios ativos, temos as medidas citadas de proteção mecânica:

– uso de redes ou mosquiteiros nos berços e carrinhos;

– uso de roupas que cubram mais o corpo da criança (mangas e calças compridas). O problema é o calor que, na maioria das vezes, impede o uso destas roupas. Mas, dentro do possível, quanto mais coberto ficar o corpo, menos área de exposição, menos chance de ser picado;

– evitar roupas com cores vivas ou padrões florais. Alguns estudos mostram uma maior atração dos mosquitos por cores vivas e padrões florais;

– evitar perfumes, colônias, sabonetes e xampus muito cheirosos ou que deixem seu perfume por longo tempo. Aparentemente, o odor de perfumes, colônias, sabonetes e xampus podem atrair os mosquitos.

Sabemos que o complexo B não funciona para afastar mosquitos. Sabemos que os produtos “naturais” não aprovados pela ANVISA, não funcionam para afastar mosquitos. 

Não quero, com este post, minimizar a gravidade da situação. Quero sugerir que a racionalidade humana pode ser uma aliada que nos permita tomar medidas e estabelecer comportamentos (coletivos e individuais) que estejam alinhados com o melhor conhecimento disponível hoje. Embarcar em soluções “mágicas” seria abrir mão do que nos fez enfrentar várias situações desconhecidas (a última mais famosa foi a AIDS) de forma estruturada, organizada e com sucesso.  Nosso desafio, neste momento, é sermos racionais ou vivermos no pânico irracional. 

BLOG AO VIVO!

Recebi um convite (ou desafio) para conversar com um grupo de pais. A ideia surgiu de um papo  com Rubens Kignel, psicoterapeuta de S.P. Falávamos sobre como a medicina estava invadindo a vida das pessoas, fazendo com que estas perdessem um pouco a segurança no conhecimento que vem da experiência de vida, sensibilidade, intuição etc., sem desdenhar ou renunciar ao que a medicina tem de bom para nos oferecer. Falamos também sobre como as pessoas podem se sentir constrangidas de fazer perguntas ao médico, seja porque sentem que o tempo é escasso, seja porque ficam inseguras em compartilhar suas dúvidas.question mark

Desse papo, animado, surgiu a ideia de convidarmos pais para conversarem com um pediatra, fora do ambiente do consultório, sem ser para uma consulta médica e sim para uma troca de ideias e experiências. Assim surgiu o Perguntem ao Pediatra o que Jamais perguntaram, cuja divulgação diz:

Nesse encontro a proposta é conversar com um pediatra fora de uma consulta e em grupo, isto é, mães e pais terão a oportunidade de bater um papo que será determinado pela riqueza da experiência de maternidade e paternidade de vários casais.

Durante uma consulta com o pediatra, os pais podem se sentir pressionados pelo tempo ou até inibidos pela figura do médico. Não raro, saem com dúvidas e perguntas que gostariam de ter feito.

Por outro lado, será que estas dúvidas deveriam ser respondidas pelo pediatra ou os pais possuem o conhecimento necessário para respondê-las? Se possuem, porque não utilizam este conhecimento?

Este encontro vai acontecer na segunda feira, dia 16/03/2015, das 20:30 as 22:30h . Local: Clinica de Psicoterapia Rubens Kignel Endereço: Rua Faisão, 55 -Vila Madalena Reservas: rkignel@terra.com.br ou (11) 38193221, – apoio: R$ 50,00 por pessoa

Até hoje o blog só foi escrito. Agora, temos a chance de fazermos, juntos, um blog ao vivo! Espero vocês lá.

 

 

 

 

 

 

 

MANUAL DE INSTRUÇÕES PARA CUIDAR DOS NOSSOS FILHOS.

Puzzle-question-markVivemos em um mundo onde a informação (e desinformação) circulam na velocidade da internet. À menor dúvida, consultamos o oráculo contemporâneo, a esfinge do Google! Nada ficará sem resposta, ainda que a qualidade das mesmas possa ser duvidosa ou até enganosa.

Sejamos honestos. Esta busca por certezas não é algo novo, não surgiu com a internet e a Wikipedia. O ser humano, desde seus primórdios, faz perguntas e cria respostas. Precisamos das respostas para aplacar a insegurança que a incerteza e dúvida gera em todos nós. Não somos como computadores onde, ao digitarmos algo em um banco de dados, é possível surgir uma mensagem que diz: não há registro para o que você pesquisou. Nós, quando não sabemos, criamos uma explicação. Criamos a melhor explicação possível, mas, não deixa de ser uma criação. Graças a estas fabulações o homem progrediu. De pergunta em pergunta, foi aprimorando o método de respondê-las. Hoje, somos capazes de rir de muitas explicações que nossos antepassados davam para os fenômenos e acontecimentos. Do que rirão de nós, os que virão no futuro?

Desde que voltei a escrever no blog, começo  meus posts de uma forma que não parece ter nenhuma relação com o título!  Vamos lá, tentar juntar o título com essa introdução.

Nasce um bebê. Novidade total, sem metáforas. Uma tempestade emocional nunca vivida antes e o compromisso biológico, social e afetivo de cuidar desse novo ser. Mas, se tudo é novidade, como cuidar do bebê? Em um mundo cheio de informações, basta digitar no google ” cuidados com o bebê” e surgem 830.000 referências (acabei de digitar e esse foi o número para esta pesquisa). Portanto, não será por falta de informação que os pais não saberão como cuidar do seu filho. Será mesmo?

Não vivemos  em um mundo onde apenas circula informação. Vivemos em um mundo onde existe, sempre, mais de um expert, entendido, professor, guru, no assunto para o qual temos dúvidas. Como cuidar dos filhos é um destes assuntos onde centenas de grandes entendidos proliferam. São livros,  grupos de discussão, cursos, enfermeiras de recém-nascidos, gurus alternativos, vizinhos, amigos, avós e pediatras,  com opiniões categóricas sobre como cuidar de uma criança, da forma correta. Uma coleção de regras a serem obedecidas para garantir que nossos filhos se desenvolvam de forma saudável.

Na prática, este universo de normas produz dois efeitos. O primeiro é que confirma que nada sabemos, aumentando a insegurança normal, humana, diante do novo, inusitado. Segundo, se eu realmente nada sei, preciso muito de alguém que me diga o que devo fazer. Se alguém diz o que eu, inseguro, devo fazer, me sinto mais confortável e , se por acaso, as coisas não saírem tão bem quanto esperado, pelo menos não tenho culpa alguma. Segui o que me disseram para fazer.

Não é por outro motivo que o pediatra passou a desempenhar esse papel de detentor de um saber a respeito de tudo que diz respeito à criança. Mas, posso lhe assegurar, que não há curso de medicina que fale sobre com que idade uma criança pode ir à piscina ou como escolher entre ar condicionado e ventilador. A faculdade de medicina nos ensinou muito sobre doenças e pouco ou nada sobre saúde. Portanto, aquele conhecimento todo que achamos que o pediatra tem, não vem da sua formação médica. Em geral, respondemos de acordo com nossas crenças e valores, associado à experiência de termos visto muitas crianças. Mas, como cada uma é diferente, pertencendo a uma família diferente, tudo deve ser relativizado. Ao relativizar, a certeza desaparece e o seu efeito (falso) de tranquilidade também se vai.

Então, não tem jeito? Ser pai e mãe não tem um guia ou referencial por onde podemos nos orientar? Tem jeito e tem manual ou guia, sim! Só que este não está nos cursinhos para pais, livros, no pediatra ou na internet. Toda criança, ao nascer, traz junto o seu manual. Cabe aos pais encontrar o manual e consultá-lo. As crianças nos dão as pistas, cabe a nós segui-las. Para segui-las precisamos usar algo que todos temos (e tememos) que é a intuição, o instinto ou o bom senso. Durantes milhares de anos vivemos sem regras médicas, sem livros escritos, só com a tradição oral, passada de geração em geração. Sobrevivemos até os dias de hoje porque nossos antepassados ousaram e inovaram, seguindo seus sentimentos, experiência e inteligência, nessa ordem.

A questão é que o manual nem sempre está ali disponível. É preciso procurar. Procurar significa olhar, sentir, perceber o filho. Como não somos máquinas, o manual muda! O que valia hoje, não necessariamente vale amanhã. Para bebês pequenos, recém nascidos, isso é uma verdade absoluta. Cada dia, um manual diferente. Mas, sempre tem um manual ali, disponível para os pais. Basta olhar e confiar no que está vendo. Para crianças maiores o manual muda mais lentamente, mas, muda.

Não sigam regras. Não há regras prontas, quando o assunto é cuidar dos filhos. Criem suas próprias regras, respeitando o manual que vem com o filho e, gradativamente, apresentando-o ao que vocês pais acreditam.  Sejam mais ousados e criativos, se libertando das regras feitas pelos outros. Pode ser que se sintam, em alguns momentos, inseguros. Não se assustem com isso. É um sentimento humano e normal. O lado bom é que a criação do filhos será feito pelo único manual realmente verdadeiro, o deles.

Divirtam-se!

ps- só para confirmar que não precisam de um manual “externo”, o que me dizem destas duas “instruções?

Como amamentar                                                                                                                                                                                                  Como levantar o bebê

nursing

lifting baby

DIABETES

diabetic-child450x300No dia 14 de novembro, foi celebrado o Dia Mundial do Diabetes. Este dia, tem como objetivo, chamar a atenção para uma doença que é,  no início, silenciosa, mas que produz danos irreversíveis para a saúde quando não diagnosticada  a tempo. Todo ano, no mundo inteiro, um tema específico sobre o Diabetes é enfocado. Este ano o tema foi “Diabetes: Proteja nosso Futuro”, dando ênfase à informação, educação e prevenção. Como o tema fala de futuro e como o diabetes também afeta crianças, me pareceu mais do que justificada a escolha do tema, para este post.

Sem entrar em muita “ciência”, existem dois tipos de Diabetes:

  • Diabetes tipo 1 – onde, por razões que não são completamente conhecidas, o pâncreas deixa de produzir insulina. A insulina é um hormônio diretamente relacionado com o metabolismo do açúcar.
  • Diabetes tipo 2- onde, apesar do pâncreas produzir a insulina, as células não respondem à sua presença. É como se as células do nosso corpo “resistissem”à ação da insulina. Por isso, também é chamado de diabetes insulino-resistente.

Em ambos os casos, a consequência é um aumento da taxa de açúcar no sangue (glicemia).

Crianças são acometidas pelo Diabetes tipo 1, principalmente entre os 4 e 6  e 10 a 14 anos de idade. Infelizmente, o diagnóstico muitas vezes só é feito em um atendimento de emergência com a criança apresentando um quadro de mal estar, prostração (caído, sem ânimo) e vômitos. Nesta situações, muitas vezes a criança já está com um quadro mais grave, chamado de cetoacidose diabética. Por esse motivo é muito importante que os pais fiquem atentos aos seguintes sintomas que podem estar relacionados com o Diabetes tipo 1:

  • Sede excessiva. No verão, fica mais difícil se perceber o que seria uma sede excessiva, mas se o seu filho bebe água ou líquidos frequentemente, em razoáveia quantidades, fique atento e veja se ele apresenta um dos próximos sintmas;
  • Fazer xixi toda hora. Se a criança vai ao banheiro toda hora, acorda várias vezes à noite para fazer xixi ou, se volta a fazer xixi na cama, é um sinal de alerta. O que pode confundir os pais é que, como o filho está bebendo muito líquido, é “normal” que faça muito xixi. O importante é constatar que mudou o padrão ou frequência. Uma criança que não acordava à noite e passa a acordar para fazer xixi, deve chamar a atenção dos pais;
  • Emagrecimento. Se uma criança está bebendo muito líquido, fazendo muito xixi e emagrecendo sem outra causa conhecida, é fundamental levá-lo ao pediatra e comentar esses sintomas. No caso do Diabetes, é melhor pecar por excesso, do que deixar a doença evoluir, silenciosamente. Algumas crianças, na fase inicial do Diabetes, comem mais do que comiam e, mesmo assim, emagrecem.

Portanto, polidipsia (beber muito), poliúria (fazer muito xixi) e emagrecimento, são três sintomas que, juntos, justificam uma consulta médica.

O Diabetes tipo 1 tem controle, com o uso de insulina. Quando não controlado, produz efeitos muito ruins sobre o corpo: doença renal, doença nos olhos, podendo chegar à cegueira, perda de sensibilidade das extremidades, doenças das artérias, algumas dessas levando a amputações. Por outro lado, quando diagnosticado na fase inicial e o tratamento é seguido de forma rigorosas, a criança e, depois, o adulto, poderão viver uma vida sem nenhuma dessas consequências. Não é fácil conviver com o Diabetes e a família tem um papel fundamental no apoio, estímulo e suporte à criança que tenha essa doença crônica. É preciso ser carinhoso e firme, ao mesmo tempo, o que nem sempre é fácil. Relaxar e deixar a criança fazer ou comer o que quiser pode ser o passaporte para uma vida adulta de péssima qualidade. Por outro lado, o rigor que não acolhe a revolta da criança e do adolescente, só aumenta o sentimento de “injustiça” e estimula um comportamento de burlar a prescrição médica e nutricional.

Já o Diabetes tipo 2 não acomete crianças, O que se está verificando é que , cada vez mais, o diagnóstico de Diabetes tipo 2 está sendo feito mais cedo, em adolescentes. Mas, se o Diabetes tipo 2 não é uma doença da infância, sua prevenção é mais eficaz quando feita na infância.

Como prevenir o Diabetes tipo 2 já a partir da infância? Com uma alimentação type-2-diabetes-childrensaudável, não industrializada, sem açúcar refinado acrescentado à dieta do dia a dia. O açúcar refinado está nos sucos, bebidas achocolatadas, iogurtes, refrigerantes, balas, doces, biscoitos, sorvetes etc. Mas, não é só nas comidas doces que o açúcar refinado está presente. Muitos salgadinhos ou comidas industrializadas levam açúcar na sua formulação. Portanto, se os pais não se convencerem de que, ao dar a comida rápida, fácil, dentro da embalagem mais atraente que possa existir, contendo um brinde, estarão definindo um vida adulta com sobrepeso e Diabetes tipo 2 para seus filhos, não haverá prevenção possível. Muitas vezes, os pais já  comem de forma menos saudável e e este modo de se alimentar passou a ser o “normal” da família. Se a família inteira não se envolver em um mudança de hábitos, o futuro dos filhos é certo e não é bom. Hoje, no Brasil, já somos 52% da população com sobrepeso. De onde vieram esses quilos a mais? Dos nossos hábitos “modernos” de comer. Precisamos voltar ao prato de comida do tempo de nossos avós!

Não existe solução mágica. Saúde, como educação, é um processo contínuo, trabalhoso, diário. Saúde como educação, exige o exemplo dos pais, mais do que um belo discurso. E, sempre,  com muito carinho e brincadeira.

obs- na foto de cima, vemos um menino, com diabetes, medindo o açucar no seu sangue, com uma “caneta” específica para esse fim.

A SAÚDE DOS PAIS

outubro rosaQuando escrevo um post , tento me colocar no lugar de alguém que está lendo. Me pergunto sempre sobre que tema deve interessar mais às pessoas? Tento evitar escrever só sobre doenças e, quando o faço, busco uma abordagem que seja clara e objetiva. Acho um horror essa coisa de complicar os assuntos para parecer que “entende muito”. A simplicidade tem uma beleza ímpar e, nem sempre, é fácil transformar em simples um tema complexo.

Mas, invariavelmente, escrevo sobre as crianças ou as relações dos pais com seus filhos. Muito raramente faço um comentário sobre a saúde dos pais. Hoje, pensando no outubro rosa (mês da prevenção do câncer de mama) e no novembro azul (prevenção do câncer de próstata), me perguntei se, como profissional da saúde, eu não deveria fazer um comentário, por menor que fosse, sobre esses dois temas? Aí, me dei conta de que o comentário poderia ser mais amplo, falando sobre a saúde dos pais.

O que queremos para nossos filhos? Para sintetizar , o melhor possível! Quando pensamos nesse melhor, muito provavelmente nos vêm à cabeça coisas como: saúde (sempre!), uma boa educação, que escape dos riscos da nossa época (violência, drogas etc.), que saiba fazer boas escolhas na vida (nem sempre as mesmas que faríamos!) e, finalmente, que seja uma pessoa feliz . Para podermos oferecer o melhor possível para nossos filhos, nos esforçamos, trabalhamos (com o risco de nos ausentarmos mais do que o desejável, deixando o carinho para um segundo plano), damos duro para conquistarmos o que pode ser comprável e fazemos o melhor que conseguimos para dar afeto e fortalecer a sua auto-estima. Mas, quantos de nós pensa que a nossa presença na vida dos nossos filhos talvez seja o “melhor de todos os melhores”, para eles?  Quantos de nós, aproveitamos o fato de sermos pais, para cuidarmos um pouco mais de nossa saúde, por amor aos nossos filhos?

Não raro, atendo pais que vivem adiando suas questões de saúde. A falta de tempo, mãe de todas as desculpas, justifica o descuidado que temos com a nossa saúde. Em um mundo super objetivo, quantificado, medido, fortemente influenciado por uma lógica de mercado, será que não há investimento mais rentável do o tempo dedicado à nossa saúde? De que adianta trabalhar todos os dias até tarde, chegar em casa cansado, mal ver os filhos acordados, pensando em poder pagar a boa escola, o plano de saúde e, talvez, umas férias no verão, se nos expomos ao risco de enfartarmos jovens?  Vamos supor uma situação fictícia. Enfartamos, morremos e voltamos para perguntar aos nossos filhos se preferiam que estivessemos vivos ou se estavam felizes por poder continuar a estudar na boa escola, fazer o curso de inglês e viajar uma vez por ano, usando o dinheiro do seguro de vida que fizemos? Não tenho a menor dúvida de que nossos filhos sempre prefeririam a nossa presença! Então, por que não aproveitamos para cuidarmos melhor da nossa saúde? Não tenho a resposta. Deixo a pergunta no ar.

Para ajudar a sair do teórico e irmos para a prática, deixarei uma sugestão, divida em cinco grandes capítulos, onde poderemos mudar nossas vidas, contribuindo fortemente para a melhoria da nossa saúde:

  1. Alimentação– cuidar da alimentação contribui para prevenirmos várias doenças como: hipertensão, enfarte, diabetes tipo 2, vários tipos de câncer, obesidade, doenças das articulações. Comer menos gorduras animais, açúcar refinado e mais legumes, verduras e frutas, é um bom começo. Evitar comida industrializada e preferir os alimentos que não possuem embalagens atraentes e rótulos explicativos. Comida, como nossos avós chamavam: um prato com alimentos de várias cores.
  2. Exercícios físicos- fazer ao menos 150 minutos de exercício aeróbico e duas sessões de musculação, por semana, ajudam no controle do peso, no fortalecimento da auto estima, reduzindo também  a necessidade de medicamentos para hipertensão e diabetes do tipo 2. Além dos benefícios físicos visíveis, os exercícios contribuem para o bem estar emocional das pessoas, dissipando o estresse e dando mais ânimo e vigor para o viver.
  3. Vida afetiva- estabelecer vínculos afetivos com a família e amigos, tem uma influência direta na saúde das pessoas. A troca de afeto contribui para a redução da ansiedade e colabora na prevenção da depressão. O isolamento (ou blindagem) que uma vida quase que exclusivamente  profissional (trabalho-cama-trabalho) produz, cobra um preço caro na saúde emocional e física das pessoas. Pessoas que vivem de forma afetiva, sem pudor de sentir emoções, em geral, são mais felizes.
  4. Vida “interior”- para uma saúde equilibrada, é preciso um tempo sem fazer nada. Um tempo que pode ser curto, onde os pensamentos ficam mais soltos. É o que os gregos chamavam de ócio. Dessa palavra veio a palavra escola! Os gregos estavam convencidos (e, provavelmente certos) de que uma cabeça cheia não pode pensar coisas novas. Portanto, é preciso “desligar” um pouco, “esvaziar” a cabeça, para podermos ser mais criativos e lúdicos. Sem criatividade a vida fica muito chata, repetitiva, mecânica. Esse momento de ócio pode ser conseguido de várias maneiras: ficar quieto uns minutos, olhar um nascer ou pôr do sol, meditar, fazer yoga, ter alguma religiosidade etc. Não há uma fórmula, roteiro ou regras para se conseguir esses momentos de serenidade. Cada um encontrará o modo que mais lhe agrada.
  5. Sono- em um mundo onde tempo é dinheiro, dormir vira um desperdício! Pois bem, o sono é uma das atividades humanas mais importantes e, ao mesmo tempo, mais desprezadas. Sono de qualidade produz equilíbrio hormonal, regeneração celular, relaxamento, bom humor, capacidade de concentração e aprendizagem, entre outras coisas. Pensem que, toda vez que “economizarmos” uma hora do nosso sono, estaremos impondo um “custo” à nossa saúde que poderá nos levar à “falência”.

Claro que, no meio destas ações, será importante cuidar da prevenção também através de uma consulta médica periódica, vacinação (adulto também precisa de vacinas!) e alguns exames. Como saímos do outubro rosa, nunca é tarde para que as mulheres façam uma visita ao ginecologista para um exame clínico das mamas. Para os homens, novembro azul novembro azulnos lembra da importância da prevenção do câncer de próstata, através de uma visita ao urologista para a realização do toque retal.

Acabou ficando um post longo! Para resumir, diria: se queremos o melhor para nossos filhos, devemos cuidar de nossa saúde como um ato de amor por eles. Quanto mais tempo estivermos vivos e saudáveis com eles e menos trabalho dermos, na nossa velhice, melhor será a vida de nossos filhos. Saúde!

MEU DIA DA CRIANÇA

guilhermedealmeida-toribaPensei muito sobre o que escrever no dia da criança. Pensei tanto, que acabei não escrevendo nada, no dia. Como estou convencido de que as crianças, espontaneamente, sabem que todos os dias é dia delas e, por outro lado, os pais também percebem isso pelo cuidar diário que elas precisam, acredito ser  pouco importante não ter escrito um post exatamente no dia 12 de outubro.

Mas, há um segundo motivo pelo qual não escrevi no dia 12. Apesar de ser um sábado, foi um dia bastante movimentado. Fui ao consultório pela manhã, cedo, ver crianças que não poderiam esperar. De lá, fui a uma festa para celebrar a Lina, uma linda menina de 6 meses. Deste almoço fui direto para um plantão e, assim, lá se foi o dia 12, sem post!

Essa  introdução, cheia de justificativas, é para chegar onde eu queria. Ou melhor, onde eu ainda hesitei um pouco. Me deu vontade de escrever um post mais pessoal e me perguntei se quem lê o blog de um pediatra que escreve sobre crianças teria algum interesse nas suas memórias e lembranças. Decidi, ainda que sem consultar os leitores, escrever sobre emoções da minha juventude.

Domingo, dia 13, chego ao Hotel Toriba, em Campos do Jordão. Aqui passei férias de julho dos 12 aos 17 anos, com meus pais e irmãos.  Guardava, desse tempo, lembranças deliciosas. A viagem começava a ficar boa, quando chegávamos em Pindamonhangaba, para colocar o carro em cima de um trem, chamado gôndola. Na estação de Pinda, pintada numa das paredes, uma frase que me marcaria para a vida: antes da hora, não é hora; depois da hora, não é hora. Hora é hora!  E lá íamos nós, meus pais e seus cinco filhos, do lado de fora do carro, sentindo o vento no rosto, subindo a serra. Mas, nossa primeira vinda a Campos do Jordão foi muito menos traquila. Vinhamos de São Paulo e meu pai errou a entrada em S. J. dos Campos. Entramos por Pinda e, a bordo de um Simca  Jangada, meu pai pegou a estrada de terra que subia para Campos. Não era uma estrada usada e tivemos que saltar do carro, algumas vezes, para ajudar a empurrá-lo. Imagino o “sufoco” dos meus pais com cinco crianças pequenas a bordo. Finalmente chegamos em algo civilizado e meu pai perguntou a uma pessoa que estava na porteira: “onde é o Toriba?”. Aqui, foi a resposta. Alívio geral. Depois, ninguém acreditava quando meus contavam que tinham subido pela estrada de Pinda. Mas, a lembrança  mais intensa, talvez, era a da liberdade. Pode andar “solto”, correndo com os amigos recém feitos e outros já conhecidos de outras férias, era uma sensação incrível. Andávamos a cavalo, uns pangarés alugados pelo Sr. Simplício, sempre com a emocionante galopada que todo pangaré dá, quando volta para casa.  Minha mãe, uma mulher muito rígida para algumas coisas, era flexível para outras. Assim, ainda sem carteira de habilitação, me deixava dirigir. Qual adolescente não acha o máximo dirigir? De início, acompanhado por ela, depois sozinho! Ia e vinha do Toriba a Capivari, várias vezes ao dia. Outros tempos, menos carros, nenhum trânsito. Mas, de toda forma, uma certa irresponsabilidade da minha mãe, que eu até hoje agradeço que tenha tido! Perto do Toriba, uma colônia de férias chamada Pumas. Lá tive um alumbramento  por uma das monitoras. Como não lembrar de um encantamento juvenil? No Toriba, um esocorrega de madeira levava do térreo a um subsolo que servia de sala de jogos para as crianças, em dias de chuva ou à noite. Uma farra descer nesse escorrega que, como posso constatar no livro de ouro dos 70 anos do Toriba, faz parte das lembranças de todos que por aqui passaram.  No Toriba, no que hoje é uma lojinha de souvenirs, era a sala de TV, onde assisti a chegada do homem à lua, em julho de 69. A televisão era mínima (comparada com as de hoje), em preto e branco, com uma imagem de péssima qualidade. Mas ali estávamos, fixados na tela, vendo o homem fazer algo impensável, pisar na lua. Um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade, disse o comandante Neil Armstrong. Não sei o tamanho do passo, só sei que as imagens da chegada à lua e daquela noite de inverno no Toriba, passaram a fazer parte da minha história. Mas, nem só de momentos “‘épicos” se faz uma história de vida. No Toriba aprendi a jogar canastra ou baralho, achando muito estranho que se marcassem os pontos,  em duas colunas: ELES e NÓS. Uma besteira, mas que ficou gravada na memória. No Toriba aprendi a jogar poquer de dados e, o mais importante, conseguia (e consigo até hoje!), puxar os dados da mesa para dentro do copo, com um movimento rápido , arrastando o copo até a beira da mesa e girando a mão. Não é nada, mas fazer isso com 15 ou 16 anos me dava uma sensação de competência e habilidade que me faziam sentir “mais velho”. Nessa idade, quem não gosta de se sentir “mais velho”!

Ao entrar no Toriba, depois de tantos anos, meu olhos se encheram de lágrimas. Sem um motivo específico, mas com todos os inespecíficos. Pude reencontrar tantas coisas exatamente como sempre estiveram e um turbilhão de lembranças me envolveu e eu me deixei levar. Logo na entrada, a placa com um poema de Guilhereme de Almeida que eu sei recitar de cor:

Quem vem lá? É de paz! Entra! À vontade! Sente o que a vida às vezes significa!Depois, parte, ficando… que a saudade é bênção de quem parte e de quem fica.

E assim, passei o meu dia da criança. Me emocionando, com memórias e lembranças. Nenhuma delas ligada a um objeto ou brinquedo. Todas, carregadas de emoção e afeto. Para que o post não fique sendo só uma crônica do passado, me ocorreu reforçar que os verdadeiros presentes que podemos dar aos nossos filhos não são aqueles comprados, mas os vividos juntos.  Mais, há um ditado que diz: “recordar é viver”. Sugiro subverter o ditado: “viver é recordar, no futuro”. Portanto, vivam intensamente os momentos de lazer com seus filhos.  Será um presente para hoje e amanhã. Hoje, produzindo a alegria que contribui para formar um adulto feliz. Amanhã, produzindo a emoção de poder perceber que essa alegria (de ser criança) continua viva!

Não há idade para descermos pelo escorrega da memória afetiva!

Toriba