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A MALA DE CADA UM!

mala

Em um dos meus posts  comentei sobre o fato de que cada bebê chega com o seu manual. Na entrevista que dei para o Roberto D’Ávila ele me perguntou se bebês vinham com bula e eu respondi que sim, para surpresa do meu entrevistador. Tanto a metáfora do manual quanto a da bula significam que não existe conhecimento maior sobre aquele bebê específico do que o que aqueles pais já têm e vão ampliar. O Google, pediatras, avós, grupos de mães do facebook, não sabem nada a respeito daquele bebê, único. O que todos sabemos são generalidades que nos ajudam, orientam e norteiam, mas, que não dão conta das especificidades daquele bebê.

Do mesmo modo que todos os bebês chegam com um manual, me ocorreu que também trazem, desde o nascimento, uma mala. De início, é uma mala que vem com a etiqueta de identificação do bebê- seu genoma. A mala, por enquanto está vazia e leve. Mas, muito rapidamente, os pais começam, sem se dar conta, colocar coisas nessa mala.

Que coisas? Em geral, as definições, descrições, de quem é o bebê. Começa um longo período onde os pais literalmente fabulam a respeito dos seus filhos. Estes, ainda na impossibilidade de se comunicarem na linguagem dos adultos, vão tendo a sua mala preenchida com pequenas declarações como: ele tem uma personalidade muito forte, ela só gosta de dormir em cima do braço esquerdo, ela é muito inteligente, ele é exatamente como eu, até prisão de ventre tem! A lista poderia continuar, mas é sempre uma criação do adulto, a partir da percepção do bebê. E a mala desse ser humano vai sendo recheada. Nem sempre o recheio é o de “rótulos” de como aquela pessoa é percebida pelos seus pais. Pode estar sendo recheada de advertências, cautelas, proteções e restrições. Muitas, essenciais e importantes. Outras, nem tanto. As fundamentais, não pesam, mas, os excessos de zelo podem se tornar um peso adicional. O recheio também pode ser de admiração, orgulho, carinho e amor. Eu diria que esses sentimentos nem seriam um recheio, funcionando  mais como rodinhas que facilitarão o transporte dessa mala, pela vida afora.

Com o crescimento, não só as percepções a respeito da criança vão sendo revistas, atualizadas, como acontecem as comparações com irmãos, primos, outras crianças. Não raro, a comparação é feita com os pais, quando estes eram pequenos. Essa é a contribuição dos avós para a mala dos netos: ela é igualzinha a você quando tinha essa idade, não sei de onde vem esse gênio- tão diferente de você!

Já viram que a mala vai ficando mais pesada, à medida que a criança cresce! O mais curioso é que, numa família, não raro, cada membro passa a representar um “tipo” de mala. Tem o primo que é meio esquisito, caladão, antissocial. Na mala dele a família coloca esses traços, de todos. Tem a tia maluquinha, e lá vão todas as loucurinhas da família para dentro da mala da tia. Tem o talentoso, bem-sucedido, tem o que não presta para nada, tem a de saúde fraca e a egoísta. Cada um com a sua mala “principal” onde o restante da família exclui da sua mala aquele traço, transferindo-o  para um só membro.

Claro que estou exagerando nas tintas, apenas para que o quadro chame a atenção. O que eu gostaria de compartilhar com vocês é o fato de que, pertencendo a famílias, não somos unidades autônomas, independentes, exclusivamente moldados por nosso genoma.  Do mesmo modo que um povo, uma etnia, uma nação, tem seu comportamento moldado por sua cultura- uma séria de crenças e valores compartilhados- também na família somos fortemente influenciados por uma dinâmica que não é tão visível assim.

Qual a aplicação prática deste conhecimento? Diria que pouco importa uma aplicação prática. O que importa é termos a consciência de que, o comportamento humano, normal, inclui fabular sobre nossos filhos, criar uma história para cada um deles e, à medida que crescem e, sem nos darmos contas, transferir para outros membros da família, aspectos que são de todos. Em geral, são os aspectos que nos incomodam e que preferimos ver atribuído a outro do que a mim.

Acredito que parte do trabalho do pediatra deva ser o de ajudar os pais a deixarem a mala dos seus filhos a mais leve possível, pontuando, quando for o caso, o risco de uma transferência de conteúdo que leve excesso de peso na bagagem da criança. Diferentemente de uma viagem aérea onde se paga um valor e a mala segue viagem no bagageiro, na vida, uma mala com excesso de peso pode significar a diferença entre caminhar e se arrastar. Pode tornar a vida um esforço permanente, com uma sensação mal definida de algo que puxa a pessoa para baixo, como se a gravidade fosse muito maior. Antes mesmo de ajudar os pais a não colocar excesso de peso na mala dos filhos, o pediatra pode estimular a instalação das rodinhas de carinho e afeto que contribuem tanto para a auto estima e segurança do bebê.

O manual, como a mala, é invisível. Mas, só porque não podem ser vistos, não significa que não existam. Alguém já viu uma onda de rádio ou tv? Alguma dúvida de que exista?  Negar a existência do manual é perder a chance de ousar, errar, aprender, mas, amar, criar e educar o seu filho e não o filho médio dos livros. Negar a existência da mala pode significar deixar para seu filho um peso que não lhe pertence.  Podemos fazer com que a viagem dos nossos filhos, pela vida, seja bem mais leve. Basta lhe dar as rodinhas e  não colocar na mala dele, o que não lhe pertence!

POR QUÊ LIMITES SÃO IMPORTANTES?

limites

Por onde se leia ou ouça algo a respeito de crianças, vai surgir a afirmação de que limites são importantes para as crianças. Aqui mesmo no blog eu já fiz esse comentário, sob diversas formas, várias vezes. Me ocorreu que essa afirmação pode ser algo que repetimos, sem realmente pararmos para pensar no que possa significar e qual a razão para se afirmar que limites são importantes. De forma mais prática, vou tentar responder à pergunta deste post. Para quem me conhece e sabe da brincadeira que faço a respeito de escrever um livro que tivesse um número na capa (As 7 regras da alimentação infantil; As 11 lições do Himalaia para a felicidade das crianças; As 9 formas de colocar o seu bebê para dormir; Domine as 3 técnicas infalíveis para a amamentar etc.), este post quase se chamou As 5 razões pelas quais limites são importantes! Vamos a elas.

1- LIMITES OFERECEM SEGURANÇA E PREVINEM ACIDENTES:

  • não pode ficar na janela
  • sai de perto do fogão
  • tira a mão da tomada
  • solta a faca agora
  • coloca o capacete ou não vai andar de bicicleta
  • segura com as duas mãos
  • desce daí já
  • coloca a boia

A lista de “comandos” poderia continuar. Mas, me parece que são autoexplicativos de como limites são importantes para garantir a segurança e prevenir acidentes. Este é um tipo de limite que os pais nunca têm dificuldade em impor, sem nenhuma negociação ou, dependendo da situação, conversa explicativa. A urgência impõe que o limite seja dado de forma rápida e enérgica, sem rodeios e, óbvio, sem a menor culpa por parte dos pais. Voltarei a esta situação quando falar de outros limites.

2- LIMITES PROMOVEM A SAÚDE:

  • coma um pouco dos legumes
  • hoje a sobremesa é fruta
  • não coma mais biscoitos
  • escovou os dentes?
  • vamos passar o protetor solar
  • coloque o chapéu
  • está na hora de dormir
  • chega de brincar com o celular
  • dói um pouco, mas, precisa tomar (vacina)

Novamente, a lista poderia ser mais longa e fica claro que todos os limites descritos acima têm relação com a saúde. Seja para produzir um benefício imediato, seja para prevenir doenças no longo prazo. Estes limites, diferente daqueles relacionados com a segurança da criança, nem sempre são implementados da mesma forma. Claro que nas questões de segurança não existe negociação e nas de saúde pode (e deve) haver uma conversa, explicação etc. Mas, o objetivo deste post é dar aos pais uma explicação de por que limites são importantes.  Neste tópico, mostrei que limites têm ou podem ter impacto direto na saúde dos filhos. A pergunta então poderia ser: se você pudesse fazer algo para tentar evitar que seu filho ou filha infartasse ou tivesse um derrame aos 50 anos, você faria? Se e resposta for sim, já entendeu porque limites relacionados à saúde são importantes e merecem o trabalho que dá para implanta-los.

3- LIMITES CONTRIBUEM PARA DESENVOLVER UMA PERSONALIDADE AJUSTADA:

  • levanta do chão, assim você não vai conseguir nada
  • estou aqui perto, pode ir dormir
  • chorando eu não te entendo, fala sem chorar
  • não vou dar na sua boca, você já sabe comer
  • é o que temos em casa
  • senta para fazer o dever de casa
  • não vai jantar no quarto vendo TV, vem sentar à mesa com seus pais

Crianças são economistas ortodoxos intuitivos. Tendem a buscar otimizar os benefícios, minimizando os custos. Como o seu horizonte de tempo é o presente, sua lógica é a do benefício e custo instantâneos. Não há consequência futura, nunca. Depois, é uma palavra sem o menor sentido para uma criança. Diga para ela comer um doce, depois. Ou, guardar o brinquedo para depois. Cabe a nós, adultos, modular esse imediatismo via limites. É através dos limites que vamos oferecer aos nossos filhos a oportunidade de se defrontarem e resolverem a frustração que estes geram. Se não houver o limite, não haverá a frustração e, sem esta, é impossível que uma criança desenvolva os meios de se autoconsolar e desenvolver os mecanismos que a permitirão conviver com as limitações que o dia a dia nos impõe, sem permanecer em um estado de irritação ou agressividade permanente. Nesse sentido, limites contribuem para o desenvolvimento de uma personalidade ajustada.

 

4-LIMITES PROMOVEM A CIDADANIA:

  • não jogue o lixo na rua, jogue na lixeira
  • não pode morder seus pais ou coleguinhas
  • não pode pegar a borracha do colega
  • se pegar esse biscoito, temos que pagar
  • o caixa deu mais  troco do que devia, vai lá e devolve
  • espera o sinal verde para atravessar a rua
  • agradece o presente que recebeu
  • a fila começa aqui, temos que esperar
  • se apresse, temos hora e não podemos atrasar

Viver e coletividade, de forma cidadã, nos impõe limites. São as regras do convívio social, incluindo nossas leis. Não podemos fazer o que quisermos, quando quisermos, do jeito que acharmos melhor. Em geral, sabemos reclamar quando alguém tem uma atitude menos respeitosa com os demais (fura uma fila, joga lixo no chão, estaciona em fila dupla, anda pelo acostamento de estrada com engarrafamento etc.), mas, costumamos ser tolerantes quando “precisamos” fazer uma destas coisas!  Não raro, afirmamos que o Brasil ou os brasileiros são assim mesmo, num misto de desolação pela realidade geral e justificativa para o comportamento individual. Mas, se de algum modo, desejamos que nossos filhos vivam em um país diferente, é preciso que eles aprendam a ser diferentes e isso se consegue, em parte, com limites e, muito, com exemplos. Temos aqui mais uma razão ou motivo pelo qual limites são importantes e necessários.

5- IMPOR LIMITES É UM ATO DE AMOR

Se eu fosse realmente ousado ou corajoso, este post teria apenas a frase acima! Mas, em um mundo onde precisamos de evidências tangíveis, achei melhor descrever as 4 razões objetivas, antes de chegar nesta.

Ao impor limites à criança, esta, habitualmente, reage de forma enérgica. O limite é um obstáculo real à realização de um desejo ou vontade e, nesse sentido, a reação da criança faz todo sentido. Cabe aos pais não se deixar sensibilizar ou, pior, se culpabilizar por esta reação. Aqui, volto com os exemplos dos limites que garantem a segurança dos nossos filhos. Alguém se sentirá culpado por puxar uma criança sentada na janela que começa a chorar e dizer “mas eu quero sentar lá, você é feia”? A criança poderá fazer o escândalo que quiser, dizer as atrocidades que desejar que os pais permanecerão absolutamente tranquilos e seguros com a decisão tomada e a ação enérgica que empreenderam. Guardadas as devidas proporções e adaptando às demais situações, os pais nunca deveriam se sentir culpados por impor limites cujo objetivo é o bem estar da criança, seja imediato (segurança), seja futuro (saúde, ajuste emocional, cidadania). Se o objetivo é o bem, esses limites, esses “nãos”, são um ato de amor. Para nós, entender que um não seja um ato de amor, nem sempre é fácil. Por isso eu uso a comparação (exagerada), com a criança sentada na janela do oitavo andar, balançando as perninhas para fora. Assim, para que se consiga impor limites aos filhos, é importante compreender que existe uma razão (buscar alguma forma de bem) e uma emoção (amor) envolvidas. Uma vez plenamente embebidos destes dois vetores que justificam os limites impostos, os pais poderão enfrentar, com mais tranquilidade, a reação que sempre vai ocorrer, até a adolescência (fase onde limites são fundamentais, pelos motivos expostos acima, de forma ainda mais dramática no que diz respeito à segurança e saúde).

Mas, além desta reação contrária, enérgica, crianças e adolescentes adoram limites! Ele escreveu adoram? Deixa eu ler de novo. Sim, ele escreveu adoram! Explico. Além dos objetivos lógicos pelos quais impomos limites (tópicos acima), estes (limites) dão à criança e ao adolescente a certeza (inconsciente) de que alguém cuida, se preocupa, olha, tem cuidados, com eles. O limite é como um abraço amoroso bem apertado. Ao mesmo tempo em que estamos contidos fisicamente pelo abraço, nos sentimos envolvidos por afeto e a sensação é prazerosa. O limite funciona como esse abraço, em um nível que as crianças não acessam, mas sentem. Se tem alguém que vai colocar limites, posso explorar o mundo sem medo porque, se houver alguma ameaça, o limite vai surgir. Essa frase, seria o inconsciente dos nossos filhos falando, se pudéssemos ouvi-lo. Por isso que, curiosamente, crianças que reagem de forma exagerada aos limites, podem estar pedindo mais! Sentem que o abraço está frouxo e, sem saber direito de onde vem aquele mal estar, se queixam do (pouco) limite como se fosse muito. Claro que isto não é uma regra, muito menos uma receita de bolo, mas, uma sugestão de reflexão para os pais.

Finalmente, uma recomendação e uma exceção. A recomendação é que escolham os “nãos” relevantes. Se tudo for não, ou se banaliza o limite e ele perde a função ou se massacra a criança, inibindo sua criatividade e, ao invés de reforçar sua autoestima, acabamos por reduzi-la.

A exceção são os bebês pequenos. Para estes, nem pensar em impor limites. Estes precisam, para que o seu pleno desenvolvimento físico e psíquico, que nos primeiros meses de vida, seus “desejos” sejam todos acolhidos. Bebês devem mamar quando quiserem, dormir quando conseguirem, ser pegos no colo o tempo que isso lhes der calma e prazer. Sem limites. Depois, a história muda e os pais de bebês pequenos que leram até aqui podem reler o blog quando seus filhos estiverem um pouco maiores!

Independentemente da idade, do recém-nascido ao adolescente, ou diria até filhos adultos e casados, mudam as razões pelas quais fazemos isso ou aquilo para e com nossos filhos. O que nunca muda é o afeto, o amor.

 

de: CRIANÇA@VIVERSEDIVERTINDO.ORG para: PAIS@PREOCUPADOS.COM

criança computador2Mamãe e Papai,

No dia da criança, queria aproveitar para lhes dizer algumas coisas que considero importantes e, talvez, vocês não tiveram a chance de ouvir antes.  O autor deste blog, que gosta muito de crianças, me ofereceu o espaço para escrever. Achei uma ótima ideia e aceitei.

A primeira coisa que eu quero lhes dizer é que vocês se pré-ocupam demais. Isto é, adoecem de futuro. Parece que essa é uma doença de adultos que se ocupam, antes da hora, com o futuro. Eu, como criança, só consigo viver a vida no presente. E ainda desconfio que se existe esse tal futuro, o melhor jeito de eu poder vive-lo vai ser tendo vivido de forma intensa e adequada todos os presentes que existem antes de chegar nele (futuro). Pode parecer um pouco confuso para vocês, mas o sapo da lagoa, aquele que não lava o pé, me disse para dizer isso para vocês de um jeito que vocês entendessem. Ele disse uma frase que eu não entendi bem, mas, me garantiu que vocês entenderiam: cada coisa no seu tempo, na sua hora!  Claro que eu confio em vocês e se pensam nesse tal futuro, devem ter seus motivos (ou não). Mas, gostaria que pensassem um pouco no que eu disse e, ao invés de antecipar as coisas, aproveitem, comigo, o presente.

Outra coisas que eu não sei se vocês sabem, mas, quando eu era bebê, eu chorava sem motivo. Nem eu mesmo sabia porque eu estava chorando. Claro que eu chorei de fome, de frio, de calor e porque a fralda estava suja e achava o máximo como vocês adivinhavam rápido o que estava me incomodando. Ponto para vocês! Mas, tinha momentos em que eu chorava porque levava um susto com o barulho do leite sendo engolido, ou não entendia bem um trum que acontecia na minha barriga. Teve dias em que eu chorei muito e forte, só porque estava achando divertido e relaxante. Afinal de contas, eu não tinha muita coisa para fazer, além de mamar, dormir e fazer cocô. Chorar era um momento bem animado. Mas, confesso que ficava preocupado, tenso, com vocês, desesperados, tentando entender o meu choro que não era nem de calor, frio, fome ou fralda suja. Também não era de cólica ou dor. Era só choro. E vocês indo e vindo, olhando, apertando, virando, mexendo, eventualmente chorando junto comigo, ligando para parentes, amigos e pediatra. E eu ali, querendo dizer que estava tudo bem, ia ficando nervoso e fazia o que eu sabia fazer de melhor: chorava mais forte! Se, vocês decidirem que eu vou ter uma irmãzinha ou irmãozinho (coisa que eu definitivamente não quero, apesar de, às vezes, dizer que quero), lembrem-se que bebês choram sem motivo também!

Tenho um pedido para lhes fazer, leiam mais comigo. Vocês não imaginam o prazer que me dá sentar no colo e ouvir a voz de vocês, apontando para as figuras no livro. Fico fascinado e gostaria de repetir isso mais vezes. Claro que tem horas que eu não estou tão a fim e vou querer brincar de outras coisa. Não interpretem isso como sendo um não gostar. É só que, como criança, naquela hora, não quero. Mas, se vocês tiverem paciência e, de algum modo, criarem uma rotina de leitura, vou adorar. Depois, já andei pensando, aquele celular e i-pad são bem divertidos também, mas, algo me diz, que estes me hipnotizam enquanto aqueles (os livros) me fazem criar imagens e histórias.

Sei que vocês não fazem por mal, pelo contrário, mas, não gosto de mentirinhas. Por exemplo, quando me dizem que vacina não dói nada, fico uma fera. Dói e muito! Se vocês não querem me assustar, digam que é uma picada que dói mas passa. Ou, não digam nada sobre a dor e comentem que é normal não querer tomar ou ter medo da vacina. E, na hora de aplicar a vacina, não fiquem horas me explicando a sua importância da. Expliquem uma vez, me segurem com força e vamos acabar logo com isso! Vocês não sabem o que é um sofrimento adiado por uma negociação interminável. É muito maior do que a picada que acaba logo. Isso vale não só para vacinas, mas para qualquer coisa desagradável pela qual eu tenha que passar.

E, por falar nisso, nunca entendi porque chamam o pediatra de tio! Nunca vi ele em nenhuma festa da família, nem no Natal! Que tio estranho esse que nunca aparece, só eu que apareço num lugar que nem é a casa dele. Um lugar que tem um nome esquisito: vamos lá no consultório do tio fulano, para ele te examinar. Desconfio que esse tio não é tio. Acho que ele é um médico e aí eu não sei porque vocês não chamam ele pelo que ele é. Adultos tem cada uma!

Talvez vocês imaginem que precisem ser perfeitos, excelentes, maravilhosos, o tempo todo, todos os tempos. Pois bem, outro dia, na consulta com o meu médico, eu ouvi ele contando para vocês o que uma pessoa com um nome muito diferente, Winnicott?, dizia: bebês e crianças não precisam de mães (e pais) perfeitos. Basta que sejam suficientemente bons. Na hora, eu estava brincando com um dos palitinhos que eu ganhei e pensei: por favor escutem porque se vocês forem perfeitos, a minha vida vai virar um inferno! O que o filho de perfeitos pode ser na vida? Perfeito! E, dado que a perfeição não existe, vou passar o resto da minha vida perseguindo algo inalcançável. Relaxem, errem sem medo e cuidem um pouco de vocês, deixando que eu me vire sozinho também.

Quando eu ficar doente, com um resfriado, por exemplo, cuidem de mim, mas, não me sufoquem com cuidados. Fiquem perto, porque isso me faz sentir bem. Não precisam ficar medindo a minha temperatura de meia em meia hora, nem me empurrando comido pela boca adentro, repetindo que é importante comer e que eu não estou comendo nada. Também não fiquem me oferecendo infinitas opções de comidas. Me deixem ficar um pouco quieto, um pouco só, acompanhado  por vocês. Nunca fui adulto para saber, mas, suponho que quando ficam doentes, com febrão, enfiados na cama, também não querem ninguém oferecendo algo ou dizendo o que devem fazer, de 10 em 10 minutos! Se essa minha suposição estiver correta, lembrem-se disso, no meu próximo resfriado.

Aliás, não é só quando eu ficar doente, mesmo saudável,  eu gostaria que me deixassem um pouco em paz. Eu não preciso fazer algo, o tempo todo. Aliás, preciso de um tempinho para não fazer nada para descansar, relaxar e até me tornar mais criativo. Como vocês devem saber, os gregos, sempre eles, perceberam que era preciso um momento de ócio para que se pudesse aprender algo. O ócio é tão importante para o aprendizado que é a origem da palavra escola! Portanto, não precisam encher minha agenda com atividades. Muitas vezes vocês imaginam que se eu fizer muitas coisas durante o dia, dormirei melhor, à noite. Às vezes eu fico tão excitado por causa das atividades que acabo dormindo mal e aí escuto vocês conversando que talvez eu não esteja fazendo atividades suficientes para me cansar! Além disso, quando vocês enchem meu dia com atividades programadas, eu fico sem tempo para inventar as minhas atividades e isso (criar minhas atividades) parece que pode ser importante para aquele tal futuro com o qual vocês pensam.

Um assunto difícil para mim é o dos limites. Eu odeio limites. Simples assim. Mas, fico tão aliviado quando vocês os impõem a mim. Eu brigo, choro, deito no chão, mas, no meu íntimo, fico aliviado por saber que cuidam de mim e que eu posso explorar o mundo sem medo porque estarão atentos e não permitirão que eu quebre a cara (muito). Portanto, peço, imploro, que usem a autoridade de vocês, sempre. Não estou pedindo para que sejam autoritários e até desconfio que, muitas vezes deixam de usar a autoridade porque confundem com autoritarismo. Não é isso. Peço que exerçam o papel de pais, colocando limites, sem se sentirem culpados. Eu vou saber que isso também é amor.

E assim chegamos no assunto mais importante da minha vida: amor. Me sentir amado por vocês é uma delícia. E olha que eu sinto isso desde bebezinho. Cada vez que eu percebo o quanto me amam, seja cuidando de mim, seja lendo e brincando comigo, seja me apresentando o mundo, seja simplesmente me segurando, abraçando e beijando, seja colocando limites como eu já disse, é como uma epifania, um sentido para a vida. Ser amado, que não é mesma coisa que ser paparicado ou ganhar muitas coisas, é o maior presente que vocês podem me dar, no presente. Portanto, no dia da criança, adoraria um abraço apertado e um beijo carinhoso. Claro que um presentinho, como a tal sucata doméstica que o Dr. Roberto descreveu aqui no blog, ou o que vocês quiserem dar, cai bem. Afinal, ninguém é de ferro!

Obrigado por me deixarem ser quem eu sou, amo vocês,

um beijo bem gostoso,

seu filho.

 

SER PAI DA CAROLINA

Image (51) (2)Filhota,
Hoje, dia dos pais, fiquei pensando em o que eu gostaria de postar no blog. Primeiro, pensei em uma receita de pai. Pegar alguns ingredientes importantes e muitas vezes esquecidos no armário da cozinha da vida (afeto, ócio, escuta, contato físico, leitura conjunta, respeito à individualidade, reconhecimento de diferenças, limites)  e misturar com outros  (presentear, praticar esportes, viajar, ir ao cinema, comer sorvete), colocar tudo isso no forno do amor e tirar um pai maravilhoso, quentinho e prontinho para o dia de hoje! Pensei que  seria um contrassenso para alguém como eu que vive dizendo para os pais olharem para seus filhos que são únicos, sem dar bola para regras gerais, escrever sobre um pai genérico, ideal! Além do mais, esse pai não existe.

Recentemente você me mostrou uma carta que eu lhe escrevi quando você tinha três anos. Era uma carta onde eu contava algumas das coisas que você fazia e, de forma bem contida, descrevia meus sentimentos com relação a você e à paternidade. Então eu resolvi, para comemorar o dia de hoje, lhe escrever uma nova carta, 23 anos mais tarde, falando sobre como tem sido ser seu pai. Pode ser que muitas coisas do que eu escreva façam sentido para outros pais, outras não. Pode ser que algumas coisas inspirem os pais, outras não. O mais importante é que todos os pais celebrem, ao seu modo, o dia de hoje. Essa foi a forma que escolhi.

Ser pai de um bebê não é das coisas mais fáceis do mundo. No início eu não tinha função nenhuma, ficava ali rondando sua mãe, para ver se sobrava alguma coisa para fazer. É uma sensação esquisita, mas real. Tinha sempre uma troca de fralda, um colo para você arrotar, empurrar o carrinho e coisas assim. Dessa fase, me lembro de ser um pai mais ousado do que a média, fazendo coisas que espantavam um pouco as pessoas. Com 5 dias de vida saímos para almoçar com você! Com menos de um mês, descobri que o melhor lugar para limpar o seu bumbum era no tanque da área. Como você nasceu em fevereiro, pleno verão, a água saía morna e era o lugar onde mais facilmente eu conseguia te limpar. Eu andava com você literalmente pendurada no meu ombro. Isto é, seus braços ficavam para trás, suas axilas encaixadas no ombro e eu andava sem segurar você! Era um espanto. Você teve, nessa época, um pai que era bem abusadinho com as “regras” de como se deve fazer isto ou aquilo.

Com o crescimento, começa uma interação deliciosa. Você sempre foi tagarela, curiosa e muito alegre. Cedo, começamos a andar de bicicleta (naquela época ainda sem capacete, coisa que jamais faria hoje!). E lá íamos nós pela orla com as pessoas gritando: olha o pescoço dela! É que você dormia e sua cabeça pendia para um lado ou para ou outro, para desespero dos pedestres!  Depois, vem a fase da escola, com seus espetáculos de fim de ano. Ver você, mínima, declamando e dando uns pulinhos, me levou às lágrimas. E assim se inaugurou uma novidade na minha vida: chorar em espetáculos de encerramento de ano. Até na sua adolescência, naqueles intermináveis espetáculos de encerramento do ballet com 537 turmas (e você, invariavelmente era uma das últimas), lágrimas escorriam pelo meu rosto.

Faço aqui parêntese e um registro para algum  pai que esteja lendo este post. Valeu a pena estar presente em cada um desses momentos, como valeu aImage (54) (2)pena ter ido à maioria das reuniões de pais, na escola, independentemente do horário. Não só pelo lado objetivo de saber o que estava acontecendo, do progresso da filha, mas, principalmente, pela emoção que gerava em mim. Não me pergunte porque gerava emoção. Emoção, por definição, não é racional! Só sei que ouvir de uma professora um relato sobra a minha filha, produzia em mim uma emoção deliciosa. Por isso recomendo fortemente a todos os pais que se esforcem por comparecer no máximo que puderem. De brinde, ganham uma emoção!

Me lembro que dentre as minhas preocupações de pai estava a de que eu queria muito que você fosse uma pessoa analítica e crítica. Tínhamos conversas curiosas, com você pequena. Destas, nasceu um mote ou mantra: paciência e criatividade, nessa ordem! Foi uma fórmula que surgiu de conversas sobre problemas que enfrentávamos (você tinha uns 5 anos!) e concluímos que se tivéssemos paciência e criatividade, poderíamos resolver muitas coisas. Um dia, viajando, você me disse algo como: quando as pessoas morrem paciência e criatividade não resolvem. Eu fiquei quieto, sem saber o que dizer. Aí você emendou- resolve sim, é só dizer que a pessoa virou uma estrela! Certamente você tinha ouvido isso de alguém, em algum momento, mas, juntou com o nosso mantra e, para aquele momento, resolveu a angústia da finitude humana! Um segundo mantra, mais ou menos da mesma época, foi: quem disse que a vida é justa? Isso surgiu porque, parte dos seus argumentos era: mas isso não é justo! Quase sempre invocado por você quando lhe dávamos um limite ou negávamos algo que queria.

Outra preocupação da sua mãe e minha é que fosse independente. Ambos temos a independência,liberdade e autonomia como valores fundamentais e  sempre pensamos em como te dar as condições para ser assim. Ler, foi um dos caminhos. Na leitura encontramos não só o estímulo para o pensamento, como intermináveis situações humanas. Seus pais gostam de ler e sequer tinham um aparelho de TV na casa, quando você nasceu! Você não teve muita opção e se tornou uma leitora desde pequena. Um dos nossos programas era ir na Malasartes, no Shopping da Gávea ler e comprar livros. Lá, D. Yaci, com a sua interminável paciência, nos orientava. Outro caminho para lhe ajudar a construir sua autonomia foi deixar que fizesse coisas sozinha, cedo. Você ia em festa de criança, sem babá ou adulto que ficasse com você. Te deixávamos e perguntávamos a que horas era para pegar. Isso me rendeu o rótulo de um pai descuidado que abandona a filha em festas! Também permitimos que viajasse sozinha, cedo. Aos 7 anos você você foi para uma colônia de férias, no Canadá, acompanhada por seus responsáveis primos de 12 ou 13 anos!  Aos 15 anos, passou 6 meses na França, morando na casa de uma família. Um outro caminho foi a escolha da sua escola. Queríamos que você pudesse ser, se quisesse, uma cidadã de qualquer lugar do mundo, não só do Brasil. Mas, na minha opinião, o que mais contou e conta no desenvolvimento da sua autonomia e independência foi o modelo ou exemplo da sua mãe.

Outro momento marcante foi o seu ingresso na universidade. Você foi aceita para Yale, uma das melhores universidades americanas.Na sua”formatura” do segundo grau, fui surpreendido com a notícia de que você tinha sido a melhor aluna da escola. Foram momentos de grande alegria e emoção. Algo que, na cabeça de um pai funciona mais ou menos assim: o mundo é duro e é preciso ter aptidões para sobreviver bem. Boa performance escolar não garante isso, mas, pode ajudar. Dá um certo alívio ver um filho progredir no mundo acadêmico. Seus 4 anos na universidade como que fecharam um ciclo de querer que fosse independente, autônoma, livre, cidadã do mundo. Acho que sentimos algo como se uma  das missões dos pais estivesse  cumprida.

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Até aqui, fiz uma crônica, curtíssima, desses meus 26 anos de ser seu pai. Quero te contar um pouco da emoção que isso representa para mim. Primeiro, quero te dizer que nem sempre fui o pai que eu gostaria ou idealizei e imagino que não fui o que você queria ou precisava,em todos os momentos. Mas, também acredito que, take or give, o saldo é positivo! Dito isso, a maior revelação que você me traz é com o sentimento do amor. É algo inédito, diferente, único e indescritível. É um amor especial, não digo incondicional, mas, diferente de tudo. Um sentimento delicioso de ligação com alguém. Te amar, além de delicioso, mexe comigo. Como sabe, sou duro na queda para afetos. Sou um racional convicto que briga com suas emoções. Você sempre teve a capacidade de burlar todos meus mecanismos de proteção. Sei que você ainda reclama, achando que sou pouco afetivo, mas, da minha perspectiva, que progresso! Junto com o amor ou como parte dele, a imposição de aceitar as diferenças. Digo imposição porque, ao menos para mim, nem sempre é fácil admitir que a minha filha pense assim ou assado. Como pode? Mas, como a tela é feita de amor, a pintura pode aparecer e, nesta, percebo, olho, brigo e aprendo a respeitar diferenças. Outra emoção que você sempre despertou em mim foi a de sentir orgulho. Ver você ser você, sempre me deixou muito orgulhoso. Isso, eu tenho a certeza absoluta que eu sempre te disse!  Tenho um orgulho enorme em ser seu pai.

Como a vida segue, estou sentindo novas e deliciosas emoções com você e Sylvio morando juntos. Me pego pensando carinhosamente nos dois, querendo muito que sejam felizes e que se divirtam na vida, juntos. Até consigo ver que, nesses 26 anos você fez o seu trabalho de educar seu pai, direitinho. Não ligo muito, não vou na sua casa sem convite, estou quieto no meu canto e sei que você sabe que pode contar comigo, sempre. Me sinto feliz nessa posição de espectador de um casal se formando. É como um bastão que é passado e cabe a vocês seguir o destino darwiniano que temos (sem pressa, por favor!). Haverá um dia em que escreverão para um filho e, talvez, dirão algo como- quando eu tinha sua idade, seu avô me escreveu…

O post está longo e eu poderia continuar e continuar. Mas, preciso me lembrar que escrevo em um blog, público e que, ao menos em princípio, devo tratar de algo que seja do interesse de todos.  Para os pais que celebram o dia de hoje, a única mensagem que eu tenho a dar, depois desta carta para a minha filha é: pelo menos hoje, deixem de ser racionais e se entreguem à emoção! Se isso significar rolar no chão agarrado a um bebê, ótimo. Se for colocar no colo um filho e uma filha e, silenciosamente, ficar abraçados, ótimo. Se for deitar no colo de uma filha ou filho e deixar que um cafuné seja feito, ótimo. Hoje é o dia da emoção irracional. Hoje é como um carnaval ao contrário. Hoje é dia de rasgar a fantasia, mostrar quem somos e cairmos na folia!

Bom dia amoroso dos pais para todos!

Obrigado filhota por me fazer mais amoroso !

 

 

 

HE FOR SHE DESDE CRIANÇA.

heforsheExistem temas que retornam ao blog. Alguns porque apresentam diferentes aspectos que merecem mais de um post, outros, porque o assunto está em evidência naquele momento, como no caso de uma doença ou lançamento de vacina. Mas, existem alguns temas que voltam porque são assuntos que não se esgotam em si, muito menos em um post. Hoje, vou retomar a questão da (des) igualdade de gêneros, aproveitando o movimento He for She, das Nações Unidas. Trata-se de um movimento que convoca os homens e meninos a participarem ativamente do que era uma assunto exclusivo das mulheres e, mais especificamente, das feministas. O óbvio foi percebido: acabar com a desigualdade de gêneros é bom para todos nós, não só as mulheres. Se é bom para todos, exige a participação, envolvimento e comprometimento dos homens e meninos e não só das mulheres.

Vou tentar escrever sobre este tema, pela ótica do pediatra. E faço isto porque estou convencido de que as desigualdades de gênero somente serão reduzidas se os meninos de hoje, se tornarem homens diferentes do que nós, adultos. Talvez alguns homens adultos reajam, dizendo que já tratam as mulheres como iguais. Mas, o fato é que para qualquer indicador que se use (exceto longevidade), as mulheres aparecem em situação pior do que os homens. As mulheres recebem salários menores do que os homens, por trabalho igual ao nosso. Homens sofrem violências cometidas por mulheres, mas, não se compara com a que os homens produzem nelas. Seja violência física, sexual, moral ou psicológica. As estatísticas mundiais comprovam diferenças significativas nestes dois pontos fundamentais: remuneração e segurança. Ao mesmo tempo que a nossa sociedade valoriza a maternidade, não discutimos, em profundidade, o modelo de amparo que, como coletividade, desejamos dar à família de um recém-nascido. A licença maternidade dura quatro meses, findos os quais a mulher volta ao trabalho. Na prática o empregador percebe a mulher com um potencial custo e, não raro, entre um homem e uma mulher a ser contratado, opta pelo homem, por uma razão de gênero (homens não engravidam). E, em casa, a mulher tem a sua segunda jornada de trabalho, como dona de casa. Não raro para servir a um homem que chega em casa cansadíssimo da sua jornada de trabalho, se atirando em uma cadeira e querendo ser servido (e ela?).

Mas o que isso tem a ver com a pediatria ou as crianças? Nenhum de nós nasce com uma noção preconceituosa do que quer que seja. Nascemos  sem discriminarmos gênero, cor, orientação sexual ou religião. Com o crescimento, tomamos conhecimento dos valores dos nossos pais, nossas família, nosso bairro, nossa cidade e país. Esse conjunto de valores forma nossa cultura. Somos modelados por essas sucessivas camadas de valores/cultura. Quando pensamos o que pensamos, não o fazemos de forma isenta ou neutra. Sequer temos consciência de quanto do que pensamos e acreditamos é fruto de desse empilhado de valores. Só nos damos conta, talvez, quando viajamos para outra cidade ou país. Nesse momento, nos deparamos com seres humanos exatamente como nós, mas, com hábitos e crenças muito diferentes dos nossos. Muitas vezes é uma revelação perturbadora essa de descobrirmos que não há uma verdade única, um único modo certo de se agir e proceder.

Portanto, é exatamente com as crianças que  reforçamos esterótipos, rótulos, estigmas, ou não. Se repetirmos as afirmações preconceituosas que circulam pelo nosso meio, com relação às mulheres, estamos contribuindo para que nossos filhos (homens e mulheres) passem a construir um modelo onde as afirmações ganham contorno de verdade. Se, além de falarmos, nos comportarmos de forma discriminatória, preconceituosa, por sermos modelos para nossos filhos, estes tenderão a reproduzir o que lhes foi mostrado por nossa forma de agir.

Vamos sair da teoria e da filosofia? Vamos para um teste rápido, tipo revista de futilidades? Responda às seguintes afirmações como sendo falsas ou verdadeiras:

Não fica bem um bebê menino usar roupa rosa.

Meninos não devem brincar com bonecas.

Meninos não podem calçar os sapatos de salto alto da mãe, nem usar suas bijuterias. Os que fazem isso, demonstram um tendência para ser gay.

Meninos não devem aprender a servir uma mesa ou ajudar na cozinha. Isso é coisa para as meninas.

Imagine-se comentando sobre o pênis do seu filho, ainda pequeno. Seria capaz de dizer: esse vai ser macho, vai pegar todas!

Agora, imagine-se comentando sobre a vulva da sua filha. Seria capaz de dizer: essa vai ser um mulherão, vai pegar todos!

Você olha para as roupas das adolescentes com o mesmo nível de crítica que para a dos meninos.

Mulher de mini-saia e blusa decotada, está pedindo para ser cantada.

Você sabe que não é machista porque ajuda sua mulher nas tarefas da casa (Já pensou que ajudar significa que a tarefa é dela? Dividir tarefas transforma algumas em nossas!).

Meninos e meninas deveriam iniciar sua vida sexual na mesma idade.

Você iria a um urologista mulher com o mesmo conforto que iria a um homem.

Você fica constrangido de ser visto por um amigo, fazendo as unhas.  Se a reposta for falso, vamos sofisticar a pergunta- e se for no salão da sua mulher?

Você acha biquini bonito, mas, tem um limite para o tamanho. Pequeno demais é vulgar.

Gorda não deveria usar bikini (e gordo pode usar sunga?).

Mulher mal humorada ou irritada é sinônimo de mal amada (e nós, irritados e mal humorados?).

E a última afirmação do teste:

Mulher é assim mesmo!

Eu poderia continuar com a brincadeira, mas, só queria provocar o leitor a pensar um pouco. Se você, homem que leu isto, é como eu, pertence a esta cultura, sendo absolutamente sincero, respondeu a várias destas perguntas com o viés de quem tem algum preconceito ou discrimina o gênero feminino. Não é algo para nos sentirmos culpados. Como eu disse, não nascemos assim. Fomos modelados por uma cultura que nos faz ver a mulher desta forma. E, nos comportamos coerentemente com a forma com que vemos a mulher. O primeiro passo é reconhecer esta situação. Nem sempre vamos poder mudar, mas, podemos todos ficarmos mais atentos e percebermos quando o preconceito entra em cena.

Mais importante, podemos e devemos oferecer aos nossos filhos a possibilidade de perceber a mulher de um modo menos preconceituoso. Se conseguirmos isso, certamente será um homem feliz, tendo ao seu lado uma mulher com quem poderá dividir tarefas, funções, afetos e emoções. Um mundo onde não se discrimine a mulher será um mundo melhor, para todos.

He for She começa no berçário!

http://www.heforshe.org/

 

 

 

 

QUANDO VOU DORMIR DE NOVO?

maecsonoUma leitora do blog sugeriu o tema- quando vou dormir de novo?-, que achei extremamente interessante. No mínimo, é um tema que interessa a todos os pais de bebês e crianças pequenas. Resolvi escrever a respeito e me vejo diante de uma dúvida imensa: o que escrever? Imaginei escrever o post mais curto da história:

NUNCA!

O argumento para o post mais curto seria o de que, em cada etapa da vida de nossos filhos, sobrarão motivos para tirar nosso sono. Da demanda absoluta do bebê, passando pelas pirraças, os medos infantis de madrugada, as febres e tosses,  a preocupação com o comportamento, a rebeldia juvenil, as notas na escola, os namoros e festas da adolescência, a escolha da profissão, o vestibular, o emprego, a escolha de uma companheira ou companheiro, o padrão de vida e, até,finalmente, os netos deixados na nossa casa para que os pais possam ter uma noite de sono- tudo conspira contra dormir de novo!

Mas, este não é um post carregado de pessimismo amargo, mas de uma pitada de humor. Somente com algum humor é que poderemos encarar a realidade em que se tornou nossas vidas, depois dos filhos. Mais especificamente a noite, quando tudo o que queremos é dormir direto, sem que um bebê lindo resolva, às 3h20minutos, gargalhar, fazer barulhos e, finalmente, chorar de fome!

Para quem é leitor do blog, já sabe que, aqui,  não vai encontrar fórmulas mágicas. Nesse capítulo (das fórmulas mágicas para dormir de novo), já conversei com o pai de um paciente, ele humorista, a respeito da escolha entre vodca e Stilnox  (para os pais)! Como ele é humorista, não passou de uma piada feita por um pai com profundas olheiras!  Para quem nunca leu o meu blog e chegou até aqui pelo Google, com a expectativa de encontrar uma receita infalível que lhe devolva o sono, sugiro que nem continue a ler porque vou frustrá-lo. Não tenho essa receita.

Não ter fórmulas ou receitas não significa que não possamos pensar, juntos, a respeito. Começando pelo bebê, precisamos entender que suas necessidades são específicas e especiais. Somos a única espécie de mamíferos que nascemos sem a capacidade de nos locomovermos nas primeiras horas ou dias de vida. Um cavalinho quando nasce, se levanta, trôpego, mas fica ali, de pé, ao lado da sua mãe. Se ela anda, ele anda atrás. Isso, no momento do nascimento. O mesmo acontece com gatos, cachorros e baleias. Nenhum mamífero fica parado, imóvel ou apenas com movimentos dos membros, sem capacidade de sair um centímetro do lugar, exceto nós, humanos. Isso acontece porque a nossa cabeça é proporcionalmente maior do que as dos demais mamíferos e a bacia da mulher tem proporções semelhantes às de nossos ancestrais comuns. Se fôssemos nascer com as mesma aptidões motoras que os demais mamíferos, deveríamos nascer como uma criança de nove meses, que já começa a engatinhar. Uma criança de nove meses jamais passaria pela bacia de uma mulher. Por esse motivo, nascemos antes. Somos, relativamente aos demais mamíferos, prematuros. Isso tem consequências imediatas no cuidar de um bebê que tem dependência absoluta de um adulto, para sobreviver. É como se, após uma gravidez dentro da barriga da mãe, existisse outra, fora, , de aproximadamente mais nove meses, onde é preciso dar carinho, alimentação e proteção, 24h por dia. Dentro da barriga já cansa muito, fora então, acabam-se as noites dormidas por inteiro.

Algumas pessoas acreditam que um bebê seja uma folha em branco, sem genética, sem emoções, sem estar construindo uma identidade. Para estes, tudo não passa de uma questão de condicionamento. Se fizer isso, o bebê responde desta forma. Se fizer aquilo, de outra. De fato, bebês e seres humanos respondem de acordo com estímulos. Um bom número de prisioneiros políticos, sob tortura, confessam o que for. Bebês, submetidos à tortura do condicionamento, deixados sozinhos, chorando, “aprendem” a dormir. Não dormem por aprendizado, mas, por desesperança, desistência. É o que demonstram os estudos que medem os níveis de cortisol (hormônio associado ao estresse) em bebês chorando e os que “aprenderam” a dormir. Em ambos, o nível é elevado, demonstrando que, mesmo dormindo, continuam estressados. A pergunta é: como será a construção da identidade de um ser humano exposto ao que percebe como abandono, ainda sem ter como dar conta desse sentimento? Não é de surpreender a quantidade de adultos com personalidade psicótica convivendo conosco. Portanto, nesse período, não dormir a noite toda é consequência de características humanas e do reflexo primitivo de não deixar um bebê chorando. Não digo com isso que tenhamos prazer ou alegria em acordar de madrugada para segurar um bebê no colo. Pelo contrário, podemos ter sentimentos impublicáveis, mas, o reflexo não é o de virar de lado e tentar dormir, como faríamos com o barulho de uma festa acontecendo no vizinho. Levantamos, nem que seja para ver se está tudo bem.

Dito isso, talvez nesta fase o que poderíamos fazer, na tentativa de voltar a dormir quando a criança for um pouco maior é a de deixar o bebê dormir no seu próprio berço e, o quanto antes (e se possível), no seu próprio quarto. Assim, quando chegar o momento de criar uma rotina para a criança dormir, ao redor de um ano, ela já terá a noção do seu berço e quarto.

Outra atitude que pode nos ajudar a ter uma noite de sono, é a implantação de uma rotina da hora de dormir. Desde os oito ou nove meses, já se pode instituir uma rotina ou um esboço do que virá a ser uma. Definir e anunciar para a criança a hora para apagar as luzes ou deixar apenas uma pequena luz, ler ou cantar, evitando fazer outras atividades neste momento (que pode demorar!).  Também ajuda compreender que, nesta idade, a criança vai acordar, mais porque quer ter certeza de onde estão seus pais e não por fome ou outra necessidade. Nesta idade, não há mais a urgência de atender a criança, como quando era bebê. Podemos esperar um pouco, apenas falar para que ouçam nossa voz, entrar no quarto, sem pegar a criança, fazer um carinho com a criança no berço. Bem diferente de um bebê! Aqui, não se trata de condicionamento para dormir, mas, de aprendizado a lidar com pequenas frustrações e o desenvolvimento da capacidade de se auto-consolar. Nem sempre isso é fácil para os pais, habituados que estão a atender às necessidades de um bebê. Não só a questão do hábito, mas, para nós, amor é dar. Difícil compreender que demorar um pouco, retardar o atendimento à demanda da criança ou mesmo não atendê-la, é uma forma de amor fundamental para o seu desenvolvimento. Mas, é uma fase que ainda dá trabalho e, talvez as noites não sejam de sono completo e reparador!

Em torno dos dois anos, os pais podem (e devem) ser muito mais claros com os limites. Se passamos pelas etapas anteriores, é a hora de respeitar a rotina da hora de dormir e, sempre de forma carinhosa, dar à criança o espaço para “se virar sozinha”. Isso pode significar ouvir um choro e não atender, excluindo quando suspeitarmos de que a criança possa estar passando mal ou com algum desconforto físico.paidormindo

Talvez, o mais importante seja os pais se darem conta de que a perfeição não existe. Se conseguirmos, passado o período da gravidez fora da barriga,
aquele da dependência absoluta, retomarmos nossas vidas, estaremos ensinando a nossos filhos duas coisas importantes para o seu bem estar: eles têm a vida deles, devendo cuidar dela e não precisam ser perfeitos (o que dá um enorme alívio a qualquer um). Ser perfeito exclui o bom humor porque a perfeição, sendo inatingível, transforma qualquer possibilidade de sorriso em cobrança e culpa. Cobrança e culpa, dificilmente têm graça. Por outro lado, pais humanos, limitados, imperfeitos, ganham como bônus o relaxamento do riso e o prazer do afeto.

E, durma-se com um barulho destes!

E O PAI?

Há um movimento crescente em torno da figura do pai, dentro de uma família. Volta e meia surgem matérias sobre a licença-paternidade em outros pai1países, mostrando diferenças importantes na forma com que a sociedade encara a importância do papel do pai na formação dos filhos e até a importância dos filhos no afeto dos pais. Os pais, no Brasil, com frequência assistem ao nascimento dos seus filhos. Muitos acompanham as mulheres nas consultas de pré-natal e nas primeiras idas ao pediatra. Pais são bem-vindos em cursos que pretendem ensinar o que já sabemos, não sendo mais  exclusivos para a mulher. Assim, a figura do pai, de alguma forma, está presente quando se fala em filhos. Existe até uma frase – não basta ser pai, é preciso participar – que sintetiza bem o que vem ocorrendo. Não gosto dessa frase porque o pai não é um participante (tomar parte em), mas, um protagonista (papel de destaque num acontecimento). É uma sutil, porem importante diferença. Voltarei a ela mais adiante.

Uma das características do ser humano é considerar que o mundo sempre foi como nós o percebemos. Para sermos justos, não exatamente igual, porque, afinal de contas, somos capazes de reconhecer o progresso tecnológico e algumas mudanças culturais. Mas, não faz parte do nosso “chip mental” recuar muito mais do que 500, 600 anos. Eventualmente, alguns que gostam de história, são capazes de imaginar o mundo dos gregos, em torno de 2500 anos atrás. Um tempão! Considerando que estamos por aqui há algo como 170 mil anos,  vamos convir que 2500 anos é muito pouco.

Por que fiz esse desvio, se o post é para ser sobre o pai? O que uma coisa (perspectiva histórica) tem a ver com o papel do pai? Tudo! O que entendemos como papel do pai é fruto de um modelo de organização social baseado no trabalho, na noção de propriedade privada, na instituição do casamento etc. O que pensamos como modelo do pai é o que nossos bisavôs eram, seguidos dos avôs e dos nossos pais. Homens que trabalhavam, gerando o sustento da família, enquanto as mulheres se incumbiam de toda a administração da casa e dos filhos. Esse é provavelmente o modelo que sempre existiu, desde que o homem passou a viver em cidades. A ruína mais antiga do que seria uma cidade, é de aproximadamente 9 mil anos atrás. E antes disso, como vivemos durante 160mil anos? Muito provavelmente em pequenas comunidades, tribos ou bandos.

Agora, vamos fazer um exercício de ficção no passado. Como seria o papel do pai em uma cenário como este?  A primeira pergunta é se haveria um pai! Pode ser que sim, pode ser que não. Mas, provavelmente, esse bebê era cuidado pelo grupo. Mulheres e homens se envolveriam com o cuidar das crianças. No mínimo, porque haveria uma proximidade física, uma intimidade e uma ausência completa de compromissos profissionais, reuniões e viagens de negócios. Os homens deveriam prover o grupo com a caça e a defesa da comunidade. O restante do tempo era de convívio. Isso é uma ficção porque não sou nem historiador, nem antropólogo. Mas, pensar que algo assim, ou próximo a isso, aconteceu por uns 160 mil anos e nós nem conseguimos imaginar, é espantoso. Pensamos que o relógio, o compromisso profissional, o salário e as contas a pagar, sempre fizeram parte da nossa história, chegando a se confundir com a nossa natureza. Ser pai era algo que não exigia nenhuma reflexão, nenhum auxílio ou benefício social, nenhum curso, nenhuma teoria psicanalítica ou filosófica. Ser pai era algo que acontecia com a naturalidade da natureza (não resisti ao pleonasmo!).

Mas, vivemos em um mundo que não é e nunca mais será aquele. Nesse cenário de hoje, o que é ser pai ou, o que queremos para o nosso papel de pais. Vivemos em cidades, nos organizamos socialmente em torno da família e  a caça contemporânea não é a de voltar para casa com um animal nas costas, mas com dinheiro no bolso, fruto do nosso trabalho. Como conciliar essas necessidades reais com o desenvolvimento de nossos filhos?

De uma maneira superficial e simplista eu vejo dois cenários onde podemos atuar. O primeiro, é o cenário social. Ao invés de nos afastarmos das discussões sobre licença paternidade, ofertas de creches  e  todas as questões relacionadas à rede de amparo social que pode ser estabelecida, nos aprofundarmos para além de preconceitos ou visões dogmáticas. Não estou aqui defendendo que se ofereça isto ou aquilo como benefício ou serviço. Apenas, que temos ou podemos ter a responsabilidade de discutirmos que sociedade queremos para nós. O que consideramos moralmente aceitável e o que é viável de ser feito. Sem nos aprofundarmos nisso, delegamos para outros que pensem e tomem as iniciativas que, não necessariamente, serão as que preferimos. Portanto, se vivemos em uma polis, não há como não ser um ser político. Ser político não significa ter um partido ou uma convicção filosófica (liberal, capitalista, socialista, anarquista, monarquista, parlamentarista etc.). Significa compreender a importância de investir parte do seu tempo individual para pensar  o coletivo, agindo coerentemente.

O segundo cenário é o individual.  Retomo a brincadeira do início do post. Não basta participar, é preciso protagonizar. Quem participa é alguém que está ali enquanto as coisas acontecem. É alguém que se coloca na posição de ajudar, contribuir, colaborar. Ora, quem ajuda, ajuda o outro a fazer o que é, de obrigação deste outro. Eu ajudo com os filhos, levando na escola. Eu ajudo, trocando as fraldas. Quem protagoniza é alguém a quem cabe fazer.  O pai protagonista é um pai que tem plena consciência de sua relevância e não delega para ninguém o que é função dele. É um pai que usa o “chip” histórico que temos, ainda que meio desligado. Mesmo que o ato seja parecido (levar na escola, trocar as fraldas etc.), a postura é diferente. O pai protagonista quer fazer essas funções porque lhe pertencem e não as faz para “ajudar” ou “aliviar” a mãe. Isso não impede que um protagonista também possa ser um participante e ajude, em determinados momentos, à mãe. Alguns pais que eventualmente lerem o post poderão dizer: mas se eu levo na escola, troco as fraldas ou dou de comer, não faz a menor diferença se sou protagonista ou participante. A diferença é enorme. É a diferença de você estar na platéia ou no palco de um show. Na plateia, você participa, aplaude, pula, dança, canta etc. No palco, você faz o show. O show é seu!

Mas, tenho uma suspeita que vou revelar aqui. Nós homens (não todos), temos alguma dificuldade com o que não é racional e lógico. Ficamos embaraçados com o que é emocional e simbólico. Participar nos deixa suficientemente perto do afeto para sentirmos o seu gostinho, mas, ao mesmo tempo, o tanto de longe que precisamos para não ficarmos sem jeito ou sem graça. Protagonizar é correr o risco de se deixar afetar. Talvez por isso, nós sejamos bons participantes. Está na hora de percebermos que estamos de fora do melhor da festa: o afeto! Filhos dão muito trabalho, sem dúvida alguma. Dão muito prazer também. Mas, se formos protagonistas, nos darão algo indescritível. Algo que mães conseguem viver sem ficarem confusas ou enroladas- amor. Está na hora de não ficarmos de fora dessa festa!