Arquivos

A MÃE SUFICIENTEMENTE BOA.

Hoje é o dia das mães e sinto um certo bloqueio criativo para escrever algo que seja, ao mesmo tempo, original, interessante e carinhoso. Não deveria ter relido posts que escrevi em dia das mães passados! Gostei de alguns, o que só aumentou meu bloqueio porque me convenci de que já tinha escrito o que eu poderia escrever a respeito da mães, no seu dia. Se algum leitor do blog desejar visitar esses posts, seguem os links: MÃE COM M DE MULHER!    RECEITA DE MÃE  MÃE OU MULHER?  MÃE

Em um mundo onde fazer, realizar, agir, bater metas, atingir objetivos, se tornou praticamente a única forma de se obter reconhecimento, sucesso e realização, é razoável que tentemos transformar todos os aspectos das nossas vidas em desafios, onde essa lógica (da ação e metas) funciona muito bem. Essa lógica é perfeita para uma empresa ou empreendimento, para atividades físicas, para o planejamento de vários aspectos da vida como viagens, cursos, orçamento familiar, mas, definitivamente, não dá conta de todos os aspectos das nossas vidas. A complexidade da vida não se deixa reduzir a uma planilha Excel, nem a um ou dois aplicativos que tudo registram, controlam e calculam. Mas, na cultura vigente, é como se fosse possível traduzir a nossa complexidade a uma só linguagem, a da eficiência. Toda vez que tentamos reduzir algo complexo a uma única “fórmula”, nos comportamos como uma sapataria que só vende calçados no tamanho 36! Muitos pés caberão nos sapatos vendidos, mas um número grande, permanecerá descalço.

Quando falo da complexidade da vida humana, não me refiro a nenhuma teoria de difícil compreensão. Falo do nosso dia a dia. Por que um dia acordamos de bom humor e outro nem tanto? Por que olhamos para um nascer do sol e temos um sentimento gostoso, difícil de descrever? Por que me nos emocionamos ao ouvir uma música (e não outra)?  Por que, mesmo com toda a informação disponível, existem fumantes? Por que instalamos um aplicativo para saber onde tem lei seca ao invés de ir e vir de taxi? Por que sentimos atração por uma pessoa e não por outra? Por que, com tantas publicações, blogs, programas de TV, falando de alimentação saudável, só aumenta o percentual de pessoas com sobrepeso? Por que existem guerras?  Claro que um pragmático radical terá uma resposta simples e convincente para todas estas perguntas. Mas, o fato é que não existem repostas únicas, muito menos simples.

Nesse contexto, as mulheres se tornam mães e a maternidade passa a ser vista como um “empreendimento”. A cobrança explícita ou velada é uma só: performar para ser uma mãe maravilhosa (leia-se, uma mãe perfeita).  Amamentar deixa de ser um meio, para ser um fim. É como uma maratona a ser corrida, amamentar até os 6 meses de idade. E lá vai a mãe, ofegante, atravessando o terceiro mês e a torcida (grupos de mães no WhatsApp) gritando: não para não! Continua! Só faltam 3 meses, não vai parar agora, vai? O que deveria ser prazeroso para o bebê e para a mãe, virou meta a ser cumprida (em tempo- óbvio que sou defensor do aleitamento materno exclusivo até os 6 meses. Só não sou um fundamentalista que acha que é isso ou nada! Leiam MAMADEIRA: ASSUNTO PROIBIDO!). Além de amamentar, a mãe não pode falhar em nada! Ao seu redor, todos os bebês dormem a noite inteira, nunca golfam, choram pouco e os que já estão comendo, comem tudo! A cobrança é total e o desespero, idem. Essa mãe passa o dia correndo atrás de uma meta imaginária e inexistente de perfeição que só a exaure física e emocionalmente.

Essa exigência da perfeição explica, em parte, a proliferação de cursos sobre tudo que se possa imaginar. Desde o curso geral, como ser uma ótima mãe, até os mais específicos: como dar o banho no bebê, como amamentar, como trocar fraldas, como estimular o seu bebê, como fazer o bebê dormir, o cardápio saudável etc.  As pessoas entram em tal frenesi que sequer param para pensar como a humanidade chegou até aqui. Foram 70 mil anos de percurso (homo sapiens falante) até os dias de hoje. Durante aproximadamente, 60 mil anos, fomos caçadores coletores, andando pelo mundo. Só começamos a escrever há uns 12 mil anos, a prensa só tem 570 anos, a pediatria uns 300 anos e o Google, 19 anos. O ponto é que a espécie sabe cuidar da espécie! Esse saber é intrínseco, não dependendo de cursos, pediatras, grupos de WhatsApp etc.  Claro que o progresso e a tecnologia tornaram nossas vidas muito mais seguras e confortáveis. Mas, posso garantir que Michelangelo e Einstein não tinham tapetinhos estimuladores, nem suas mães lhes deram comida utilizando o método BLW (ou qualquer método)!

Em torno de 1950, Donald Winnicott, um pediatra que se tornou psicanalista, cunhou a expressão- mãe suficientemente boa (good enough mother). O que Winnicott queria dizer é que as mães, ao olharem para seu bebês, são capazes de identificar suas necessidades (no bebê pequeno, a necessidade essencial é viver) e estar lá para atendê-los. Simples assim, ainda que muito cansativo. O segredo (acho eu) está no olhar para o seu bebê e não para o mundo de livros, sites e conselhos que existem. Estes, ainda que possam conter algumas informações úteis e interessantes, sempre falam de um bebê médio, de um bebê estatístico. O bebê individual é único só é conhecido por seus pais. Estes são os verdadeiros “especialistas” no filho ou filha. (MANUAL DE INSTRUÇÕES PARA CUIDAR DOS NOSSOS FILHOS. UMA AULA PRÁTICA DE COMO LER O MANUAL DA CRIANÇA.)

O olhar a que Winnicott se refere não é apenas o olhar objetivo, mas, sobre este, o olhar afetivo. É no olhar afetivo que mães e bebês trocam informações que, sem que se deem conta, farão com que se entendam e o bebê possa se desenvolver bem, tanto objetivamente (peso, tamanho, conquistas motoras etc.) como subjetivamente (identidade pessoal, autoestima, capacidade de tolerar frustrações, afeto, agressividade etc.). O afeto é um sentimento onde a lógica da performance não se aplica. Não se quantifica afeto, não se traduz o afeto em metas e objetivos. O afeto se vive e esse viver afetivo é fundamental para todos nós os seres humanos.

Se eu pudesse desejar algo para todas as mães no seu dia, seria que confiassem na sua emoção ao olhar para o seu bebê ou criança, desconfiando de todas as regras e métodos que lhe tentarem empurrar.

Que todas as mães possam se sentir excelentes mães por serem apenas suficientemente boas, sem buscarem a perfeição. E, uma vez livres desse peso (da perfeição) possam deixar fluir o amor que nos torna humanos.

 

 

 

 

 

SER MÃE E PAI É PARA AMADORES!

Ser mãe e pai é para amadores, no sentido de quem ama. Não é para profissionais, no sentido de quem faz as coisas certas, na hora certa, visando, exclusivamente, atingir metas e resultados. Eu não tenho a menor dúvida de que todos os pais amam seus filhos. O que eu não tenho tanta certeza é se todos conseguem acreditar na importância de exibir esse amor. Assim, esse post é uma mistura de registros que venho colhendo, cujo objetivo é provocar os pais atuais e futuros a refletirem sobre a sua importância no desenvolvimento dos filhos.

1- Um recém-nascido precisa do amor dos seus pais. Um recém-nascido é um ser que depende, absolutamente dos seus pais. Diferentemente de outros mamíferos, os seres humanos permanecem com essa dependência absoluta, por um longo período. Assim, precisam de cuidados absolutos e imediatos. Esse cuidado se chama amor e é expresso pelo colo e um certo cuidado com o ambiente (está gostoso, confortável?). No colo, o bebê precisa do olhar e da voz dos pais. Não há o menor risco de bebês ficarem mal-acostumados com o colo dado nessa fase em que dependem absolutamente de seus pais. Pelo contrário, é esse colo, com o olhar e a fala dos pais que vai compor a base de uma segurança e auto estima futura.

2- Bebês cansam, e como! Ter um filho não é uma tarefa simples. As futuras mães e pais deveriam conversar mais com os amigos que já tiveram filhos. Não é algo que deve ser ticado de uma lista de tarefas a serem feitas. Casar, ticado. Ter filho, ticado. Não é assim. Filhos choram, e muito. São noites e noites mal dormidas. Isso faz parte da vida de ser mãe e pai. Não é o seu filho que não dorme, são todos (ou quase) que passam por sucessivas fases, todas muito cansativas. Ter filho significa ter disposição para passar por estas fases, sabendo que não há outro jeito que não seja passando. Não tem remédio para o que é normal!

3- Bebês nos tiram do sério. Bebês choram e, muitas vezes, não identificamos o motivo. Não é fome, frio, calor, fralda suja. Não parece ser cólica. Tentamos o que sempre funcionou, andar, balançar, cantar, massagear, ninar, virar de bruços e nada funciona. Isso, às 3 da manhã, depois de noites mal dormidas. Não tem como bebês não nos tirarem do sério. Sentimentos contraditórios e até ideias bizarras passam pela nossa cabeça. Ninguém fala disso com os pais que acabam se sentindo culpados por terem pensamentos “horríveis”. Pensamentos não são atos ou ações e é normal que ideias nem sempre de amor, paciência, tolerância, atravessem nossa cabeça. Humanos são assim.

4- Bebês crescem e os pais querem dar o melhor para eles. A sociedade de consumo se aproveita deste desejo legítimo dos pais e vende produtos e serviços que estimulam o bebê, de preferência com alguma explicação “científica”. O melhor estímulo para os bebês e crianças é o que vida oferece. Um tapete no chão, sucata doméstica e utensílios da casa (colher, panela, vassoura) ou brinquedos simples: um cubo, uma bola.  O que se deve ter em casa e introduzir muito cedo (6 meses), são livros. Zero necessidade de tecnologia ou sofisticação.  Zero necessidade de “aulas” disso ou daquilo, para bebês!

5- Nem todo desconforto é anormal. Um bom exemplo é a chegada dos dentes. Incomoda, irrita, mas é normal. É um incômodo que o ser humano pode suportar. Muitos pais não conseguem diferenciar o que seria um desconforto normal, de um sofrimento que precisa de atenção e cuidado. Querer tratar todo desconforto como sendo algo anormal, não permite a criança aprender a lidar com situações onde nem tudo está 100%. Muitas vezes os pais se colocam na posição de serem obrigados a eliminar todo e qualquer desconforto da vida de seus filhos. Pais que amam e estão preocupados com o desenvolvimento de um ser que se torne um adulto com capacidade de enfrentar dificuldades, saberão que, em alguns casos, não intervir é um ato de amor. Em outros, aceitam que nem tudo que se apresenta para nós, tem uma solução eficiente que elimine o desconforto, como um resfriado, por exemplo. Conviver com o desconforto por uma semana, será o modo dos pais cuidarem deste resfriado, sem perseguirem uma “solução mágica”, inexistente.

6- A vida não é fácil para ninguém. Um pouco na linha do desconforto que descrevi no item anterior, muitos pais não conseguem ver seus filhos chorarem porque foram frustrados em alguma demanda. Se sentem na obrigação de não deixar o filho “traumatizado” com uma frustração. Atendem a todos os pedidos e desejos da criança, rapidamente. Claro que estou falando de uma criança que não é mais um bebê que tenha uma dependência absoluta. Falo de bebês maiores e crianças. Ora, sem frustração, ninguém desenvolve a capacidade de autoconsolo e tolerância a um não atendimento de um desejo. A frustração é necessária para o desenvolvimento de um ser humano que consiga viver, harmonicamente, em sociedade. Bebês maiores, não precisam mais de cuidados absolutos e imediatos. Pelo contrário, precisam receber pequenas doses de frustração para que “se virem” sozinhos. Bebês e crianças a quem não lhes é oferecida a frustração, podem se tornar adolescentes e adultos onde tudo deve gerar prazer, sempre e de forma imediata. Isso é um desastre para o indivíduo e para a sociedade.

7- Autoridade é fundamental. Na sequência do tópico frustração, vem a questão da autoridade. Um bebê maior e, sobretudo, uma criança, precisa saber quem manda na casa. Mandar não significa abusar da autoridade. Mandar significa colocar ordem no ambiente. Cada família deve definir que valores deseja implementar e, a partir destes, uma autoridade clara (dos pais), assume a responsabilidade de colocar em prática o que acham importante. A criança deve sentir, sem dúvida alguma, que ela faz parte de uma família e não que ela tem uma família para atendê-la. Fazer parte de uma família significa que algumas coisas serão atendidas, outras, não. Significa que a criança terá algumas responsabilidades e obrigações, bem como benefícios e premiações. A ausência de uma autoridade que dê limites claros à criança pode gerar nesta, uma sensação de estar “solta”. Ainda que reclame quando lhe é imposto um limite, por dentro, sente-se segura e pode explorar o mundo sem receios, porque sabe que o limite a conterá. Colocar limites, dizer não, é uma forma de amor.

8- Amor não se terceiriza. Por mais atividades em que se coloquem os filhos, por mais que tenham “tudo”, só a presença do pais, seu olhar, suporte e estímulo, promoverá o melhor e mais completo desenvolvimento dos filhos. O amor, nos primeiros anos de vida, é o vetor mais poderoso para que os filhos possam explorar todo seu potencial. Pais preocupados em oferecer o melhor aos seus filhos, não devem procurar fora o que existe dentro de cada um de nós, o amor. Mais, não devemos ter vergonha ou pudor de exibir esse amor de forma clara para nossos filhos, através do contato físico, do abraço do beijo e da palavra- eu te amo! Crianças que se sentem amadas, se tornam adultos confiantes, seguros, criativos e felizes.

Este post é uma mistura de assuntos em que cada um daria, por si só, um tema. Revela uma inquietude com o que tenho visto na minha prática clínica: propostas externas (cursos, serviços) mais valorizadas do que o amor dos pais, dificuldade em lidar com situações normais de desconforto, impossibilidade de ver filhos frustrados e bebês ou crianças, sendo a “autoridade da casa”. Nada que não se possa reverter ou modificar. O que nos falta é abandonar as teorias sofisticadas e aplicar mais o que as avós faziam: muito carinho, alguma explicação e pouca negociação.

 

MÃE COM M DE MULHER!

maternité Chagall 2Dias das mães! O que escrever de forma original, interessante tocando a emoção (e a razão) de quem lê este blog? Diante de tudo que já foi escrito e dito, o melhor seria passar batido pela data, deixando para os Drummond e Quintana da vida (para citar dois poetas que escreveram sobre a mãe), a função de homenagear a todas.  Também não dá para competir com o comércio em mensagens piegas e emotivas, cujo objetivo final é o de emocionar para vender mais. Ou ainda, enveredar pelo caminho da erudição, falando sobre a mãe através dos tempos, no pensamento filosófico ou psicanalítico. Afinal de contas, sou um pediatra e desses temas não entendo nada. Mas aí é que reside o meu dilema. Como pode um pediatra não enfrentar o desafio de escrever algo original, interessante e que possa tocar a emoção (e a razão) de quem lê este blog?  Me ocorre relatar um pouco do que vejo no meu dia a dia com mães, pais e filhos, tentando fugir do lugar comum.  Veremos no que isso vai dar!

Atualmente, a dinâmica familiar pode ter diversas configurações como por exemplo: mães e pais, avós ou outros familiares que substituem os pais, pais adotivos, mães solteiras, casais homoafetivos, relacionamentos poliafetivos e, eventualmente, outras que ainda se formarão. A maternidade não é exclusiva da descendência biológica, nem do gênero feminino, sendo, antes de tudo, uma atitude diante do filho e um processo no dia a dia da vida. Apenas para facilitar meu trabalho de escrever e o do leitor de ler, vou utilizar as palavras mulher e homem, deixando claro que me refiro a funções que podem ser exercidas por qualquer pessoa, de qualquer gênero, que tenha o vínculo afetivo e amoroso que caracteriza esta relação especial.

No princípio, era uma mulher. Certo dia, esta mulher conhece um homem e desse encontro, em algum momento, acontece uma gravidez. Agora, temos uma mulher com um bebê que cresce na sua barriga. E assim seguem os meses, com a mulher carregando o seu bebê. Um dia, a mulher se vira para o homem e diz- é hoje (esta história se passa no tempo em que não havia data marcada para o nascimento)!  E, no exato dia em que nasce o filho, a mulher se transforma em mãe. Sei que os leitores radicais me dirão que esta mulher já era mãe durante a gravidez. Peço a estes que sejam generosos e me deem o direito a uma certa licença literária, sem entrar na polêmica de quando uma mulher vira mãe. Mas, todos concordamos que, no princípio era uma mulher.

Aqui a história toma um novo rumo. Ao invés de percorrer o clássico conto onde a mãe embevecida acolhe com um amor inédito seu bebê (o que é absolutamente verdadeiro), a notícia é de um sequestro! A manchete nos jornais informa:

“FILHO SEQUESTRA MULHER E A TRANSFORMA EM MÃE!”

Aquela mulher que com seu companheiro levava uma vida “normal”, trabalhando, se divertindo, fazendo suas coisas, saindo com amigos, namorando, viajando, se vê, subitamente, em “cárcere privado”! Sua vida passou a ser definida pela necessidade do bebê. Aquela mulher dormia à noite e agora, já mãe, aprende a dormir fragmentadamente, duas horinhas à tarde, uma hora de madrugada e assim, todos os dias. Aquela mulher que tinha ânimo para fazer ginástica, ir ao cinema, sair para tomar um chope, agora, já mãe, se vê num ciclo interminável de peito, fralda, colo, choro, peito, fralda, colo, choro…. e olheiras!  E, quando vai ao pediatra, acompanhada pelo pai (sim, aquele que era o companheiro, agora é pai!), silenciosamente suplica com o olhar: doutor, isto vai acabar um dia?

O que é mais curioso nesse sequestro é que ele é celebrado por todos. Apavorada, percebe que ninguém se deu conta do sequestro da mulher e só falam, com alegria e orgulho da mãe! E a mãe, em geral, está encantada, sentindo uma forma única de amor por seu filho, um afeto ímpar e inédito. Mais, pode ter muito prazer em amamentar, trocar fraldas, acalentar e consolar o choro, descobrindo uma vitalidade que desconhecia ter (o termo moderninho seria resiliência)!  É uma variante da Síndrome de Estocolmo, onde a vítima passa a nutrir grande simpatia por seu sequestrador! A mãe acaba por convencer à mulher que ela nunca existiu, era uma fase passageira ou ainda uma ilusão.  Nesse sentido, a celebração do dia das Mães, corre o risco de reforçar essa noção de que quando uma entra em cena (a mãe) a outra, obrigatoriamente tem que sair (a mulher).

Meu ponto com essa ficção que espero seja lida como bem-humorada é que no princípio era uma mulher e que esta será sempre uma mulher. Ser mãe se soma ao ser mulher, sem nenhuma necessidade de exclusão. É claro que nos primeiros meses, o bebê precisa da mãe e a mulher, entendendo isso, cede o palco para esta. Mas, mesmos nesse período, a mulher não deve se recolher ao camarim.  Pode e deve entrar em cena, de tal forma que a plateia nunca esqueça da mulher que deu origem a tudo. Não deve competir com a mãe que nela habita, porque sabe que nos atos seguintes, voltará a brilhar e ter destaque. Não precisa “brigar” com a mãe que se tornou, no ato em que esta é a figura mais marcante em cena. Equilíbrio difícil, mas importante.

Ao pai ou quem desempenha essa função, cabe um papel importantíssimo nesse enredo. Quando a mãe entre em cena, o pai surge como um guardião daquela dupla (mãe-bebê). Cuida do em torno, da proteção, física e psíquica. Garante que a nova dupla tenha as condições necessárias para que tudo corra bem nesses primeiros meses de vida. Nesse sentido, não é apenas um ator coadjuvante, aquele que, nos programas de humor, chamam de “escada”. Mas, passado esse momento inaugural ou inicial, que não tem uma data precisa, mas que estou “didaticamente” colocando em torno do sexto ou sétimo mês de vida do bebê, esse pai deve reassumir mais intensamente seu papel de marido, companheiro, homem.

Caberá ao homem um papel importante, ajudando, ao mesmo tempo à mãe recuperar plenamente sua condição de mulher e à criança as condições para se desenvolver de forma plena. Sem a transformação da relação de dupla (mãe-filho) em trinca (mulher-homem-criança), podem não se dar as condições para que a criança desenvolva sua capacidade de tolerar a frustração, se auto consolar ou em linguagem mais simples e direta, se virar sozinha. É colocando limites ou usando uma expressão um pouco mais forte, estabelecendo a interdição da mãe e de espaços (reais e metafóricos) que o pai ajuda tanto à criança, quanto à mulher. É desse movimento de adaptação dinâmica de todos, que se resolve o sequestro e se restitui à mãe a condição de mulher, sem a perda da maternidade. À criança, se dá o espaço para que desenvolva sua identidade, sem a perda do pertencimento à família.

Em nada, esta história diminui a beleza e intensidade da maternidade. De forma alguma minimiza a importância vital do amor maternal que dura a vida toda e persevera nos filhos, mesmo depois que a mãe se foi. Afinal de contas, eu poderia também dizer que, para cada um de nós, no princípio era a mãe!

 Meu carinhoso abraço a todas as mães, mulheres generosas que tecem nossas vidas com fios de amor.

RECEITA DE MÃE

cooking love3Tudo começa com uma mulher. Uma primeira que, antes de ser mãe, é mulher. Para a receita da mãe, falta algo. Os homens que porventura estiverem lendo o blog, já se animaram. Lá vamos nós entrar em cena, pensarão. Tenho uma má notícia para meus companheiros de gênero. Uma mulher não precisa de um homem, para ser mãe. Basta um espermatozoide! E, convenhamos, nós homens somos um pouco mais do que isso! Curiosamente, nós, para sermos pais, precisamos de uma mulher! Nosso narcisismo masculino se vê obrigado a se curvar diante dessa simples evidência biológica da potência que é ser mulher. Da mulher nasce um filho. Do homem, a contribuição de uma semente. Temos então os ingredientes para a receita de mãe. Uma mulher e uma semente!

Essa é a base da receita. Faltam, ainda, alguns ingredientes fundamentais. Vamos começar acrescentando uma enorme dose de paciência e resistência física. Ambas fundamentais para a gravidez e, depois, os cuidados com o bebê pequeno. Desafio um homem a ir amarrando um peso na sua cintura, aumentando progressivamente, semana a semana, e carregar esse peso (e volume), por nove meses. No final desse período estará carregando algo como 13kg a mais, e uma circunferência abdominal muito aumentada. Acrescente um período de enjoo, na fase inicial e muitas dúvidas relacionadas ao momento do parto, saúde do bebê e com o próprio corpo (vai voltar ao que era?). Para completar a cena, sinta seus peitos inchados e doloridos. Agora, levante-se todo dia e sorria, como se fosse um anúncio de margarina. Alguma dúvida sobre a paciência e resistência da mulher-mãe?

Já temos uma mulher, a semente, paciência e resistência. Mas, a receita não está pronta. Faltam alguns temperos. Um deles é a sensibilidade. Outro componente que nos falta, a nós homens. Não falo da sensibilidade boboca de chorar em sessão da tarde. Falo da capacidade de processar o que se passa ao seu redor, sem utilizar, exclusivamente a lógica. Uma percepção sem explicação. Nesse tempero, não há nada de místico ou esotérico. Mulheres-mães são assim e ponto final. Olham para seus filhos e dizem: algo não vai bem. Não sabem o que é, mas, o alarme soa. O nosso, masculino, tende a negar: exagero seu, essa criança está ótima!

Temos a mulher, semente, paciência, resistência e sensibilidade. Essa receita está ficando cada vez melhor. Mas, ainda faltam ingredientes. Agora, vamos acrescentar doçura. Não falo daquela coisa xaroposa, melosa. Me refiro a uma forma de olhar o mundo e as pessoas por um viés mais leve, ameno, alegre. A isso estou chamando de doçura. Quantas guerras foram iniciadas por mulheres? Quantos homens são voluntários em asilos e orfanatos? Diremos que não temos tempo (e os finais de semana?). O fato é, que as coisas doces da vida, são feitas por mulheres.

A receita está melhorando. Vamos acrescentar um tempero mediterrâneo: a estética. Este tempero, importado da Grécia não se limita a saber nomes de cores que nós homens nunca conseguimos identificar. A estética, ou a capacidade de perceber o belo, nos dá, por um caminho, as noções e valores morais e, por outro, a capacidade criativa, artística.

Se falamos em criatividade e arte, temos que aceitar que um dos temperos que faltavam na receita é a emoção. Envolvendo os demais ingredientes, a mulher-mãe não tem o pudor da emoção. Emoção que contempla, admira, mas, também, defende e protege. Emoção que transmite, para os filhos, a essência da vida, a capacidade de se relacionar e afetar com os demais seres humanos.

Pronto! Está aí a minha receita de Mãe, para celebrar o dia delas, que é nosso também. Mas, um minuto por favor. Não falta nada nessa receita? Ouço alguém dizendo:  como falou de mães e não citou a palavra amor, nem uma vez? Respondo brincando que deixo essa palavra para ser citada nos anúncios que vão homenagear as mães. E, respondo sério, o amor, não é um ingrediente da receita, é o resultado da receita pronta. Tudo isso que citei, nos é servido, como amor.

A todas as mães, meu abraço carinhoso. Sou testemunha do que vocês fazem, silenciosamente, todos os dias, para que possamos ter um mundo melhor.

TERRORISMO NA PRAÇINHA

Hoje, me ligou uma mãe de um bebê de 17 dias. Até o passeio matinal na praçinha tudo ia bem. Na praçinha, uma outra mãe, mais experiente, ao perceber que os olhinhos do bebê estivessem um pouco amarelos disse: você precisa ver isso logo. Vai precisar internar e fazer banho de luz. Um filho de uma vizinha minha morreu disso. Foi o suficiente para que esta mãe, até aqui tranquila e amorosa, ficasse insegura .

Essa história se repete de forma sistemática, mudando apenas os personagens e as doenças. O que existe de constante é que alguém com alguma pose de maior experiência, quer porque seja mais velha, tenha filhos mais velhos ou netos, faz uma afirmação categórica de perigo iminente. Cuidado com esse vento, o resfriado pode virar pneumonia! Está com roupa demais, pode ficar desidratado e você nem perceber. Geralmente essas afirmações vêm acompanhadas de um “fato real”. O vizinho, primo ou conhecido que passaram por um episódio gravíssimo e que o seu filho, que dorme um soninho delicioso, sem que você suspeitasse, corre o risco de passar por algo parecido. Instala-se a dúvida e esta corrói. Você chega em casa e consulta o Dr. Google. Para seu desespero, vai encontrar mais de uma referência assustadora.

Por quê existe essse terrorismo na praçinha? Francamente, não sei. Posso imaginar algumas hipóteses:

  • Interesse genuíno em ajudar- algumas pessoas são, naturalmente, apavoradas com os riscos que a vida nos impõe. Veem perigo em toda parte e acreditam que é o dever delas avisar a todos desses riscos.
  • Inveja- um sentimento humano que não pode ser explicitado abertamente. Algumas pessoas não suportam a ideia de verem outras felizes e contentes. De uma forma consciente ou inconsciente precisam acabar com a felicidade alheia.
  • Sentimento de exclusão- existem pessoas que querem e precisam se sentir úteis. Para estas, a independência ou autonomia dos outros é uma ameaça. Os riscos revelados por esta pessoa, bem como seus conselhos, podem torná-la importante ou fundamental.
  • Não reconhecimento do outro- é uma variação do sentimento de exclusão, sem ser exatamente a mesma coisa. Reconhecer o crescimento de alguém, sua independência, pode ser doloroso. Nesse caso, gerar insegurança, infantilizar através do medo irracional, é uma forma de “neutralizar” esse outro indpendente (e diferente).

Pouco importam os  motivos que levam as pessoas a serem terroristas na praçinha. O que os pais precisam é criar mecanismos de “blindagem” contra essas ações. Algumas sugestões:

  1. Informação precisa- contra a dúvida de alguém “mais experiente”, nada melhor do que a informação correta, precisa. Esta pode vir de fontes confiáveis de livros ou da própria internet, como do seu pediatra ou de familiares que sejam carinhosos e acolhedores.
  2. Acreditar na sua própria capacidade- mães e pais podem e devem confiar mais nos seus sentimentos. Basta pensar que a humanidade chegou até aqui, vivendo milênios sem médicos e pediatras. Contava apenas com o sentimento intuitivo e a tradição familiar. Claro que houve enorme progresso em termos de  saúde, mas o exemplo serve para nos lembrar de que somos capazes de tomar boas decisões baseados em nossos sentimentos. (Ver Mãe de Primeira Viagem  e Um Bebê Chegou. O que o pai pode fazer?
  3. Estabelecer uma relação de confiança com o seu pediatra- os pais devem sentir confiança e acolhimento no seu pediatra para poderem consultá-lo sobre o que acharem necessário, sem medo de parecerem inseguros ou ridículos.
  4. Olhar para seu filho ou filha- toda vez que um terrorista de praçinha lhe contar uma história assustadora, olhe para seu bebê ou criança e se pergunte se algo parece estar errado. Não estou sugerindo que sempre tudo vai estar bem, nem que não possam existir situações que não se revelem de forma muito intensa ou clara. Apenas gostaria de devolver algum equilíbrio entre o que é ouvido (dito pelo terrorista) e o que vocês pais percebem.

Se tiverem histórias de terrorismo na praçinha que gostariam de compartilhar com outros pais e comigo, pode ser muito interessante. Quem sabe se conseguirmos rir um pouco dessas histórias, afastamos os fantasmas que os terroristas gostam de nos fazer crer que existem

8 BONS MOTIVOS PARA LIGAR PARA O SEU PEDIATRA

Crianças adoecem e pais ficam inseguros. Crianças crescem , mudam de comportamento e pais ficam sem saber o que é “normal”. Pais ficam com receio de incomodar seu pediatra ou de parecerem ansiosos ou preocupados em excesso. Nunca deixe de ligar para seu pediatra por estes motivos- receio de incomodar ou parecer inseguro demais. Ligue e ligue logo. Não espere até sexta à noite para dizer que estão preocupados desde terça, mas que não queriam incomodar!

A seguir, 8 bons motivos para ligar para o seu pediatra:

1- Achar que criança está diferente ou estranha. Sua sensibilidade é muito importante. Mesmo que não haja nada objetivo, se achar que seu filho está “esquisito”,  ou “diferente”, não espere, ligue.

2- Febre em bebês com menos de 3 meses. Todo bebê, com menos de 3 meses que apresentar uma temperatura acima de 37,5º deve ser examinada pelo pediatra. Ligue.

3- Vômitos que não param. Se o seu filho vomitar uma ou duas vezes, conseguindo beber um pouco de líquido, você pode aguardar e ver a evolução, antes de ligar. Agora, se os vômitos forem constantes e/ou em jato, ligue para seu pediatra ou procure atendimento de urgência.

4- Febre alta por mais de 48/72 hs. Habitualmente os resfriados comuns começam com coriza e um pouco de tosse. A seguir aparece a febre. Caso a febre persista alta (acima de 38,5º) por mais de 2 ou 3 dias, vale a pena ligar para o seu médico.

5- Choro inconsolável.  Se o seu filho ou filha apresentar um choro que não passa, inconsolável, ligue para o seu pediatra. Antes, tente acalmá-lo e veja se consegue descobrir se o choro está relacionado com algum tipo de dor (ouvido, barriga, cabeça) ou se está com febre (coloque um termômetro). Muito provavelmente o pediatra vai lhe perguntar sobre dor e febre e o telefonema pode ser mais eficiente se já tiver essas informações.

6- Respiração rápida, cansaço. Se perceber que seu filho está respirando mais rápido, com esforço, cansado, ligue ou procure atendimento de emergência.

7- Trauma importante. No caso de quedas, com pancada na cabeça ou quando não consegue mexer um membro (braço, perna), procure atendimento de emergência e ligue para seu pediatra. Também deve fazer o mesmo em casos de cortes ou ferimentos grandes ou que não consiga estancar o sangramento com uma boa compressão (apertar forte, com uma gaze, por alguns minutos).

8- Finalmente, um motivo que muitas mães e pais se esquecem- dar retorno. Se você falou com seu pediatra ou se saiu do seu consultório com uma situação que tem uma evolução, ligue também para dizer que melhorou. Se não quiser interromper seu pediatra, deixe um recado com sua secretária, informando que ligou para dizer que melhorou. Pediatras ficam com os casos vistos na cabeça, preocupados. Ligar para dizer que está melhor é importante.

Claro que existem motivos onde uma ligação não é absolutamente necessária. Vou dar 3 exemplos:

1- Consulta de rotina, por telefone. Não ligue para falar de crescimento, alimentação, sono, escola, vitaminas etc. Isso merece uma consulta ao vivo.

2- Dúvidas que podem esperar a consulta de rotina. Não esto encontrando a pomada para assadura, qual seria o melhor substituto? Será que já posso colocá-lo na aula de natação?

3- Comentar matérias que saem na mídia ou que leu na internet. Aguarde a sua próxima consulta para, aí sim, falar sobre tudo que leu e como isso lhe impactou.

É óbvio que uma lista de motivos para se ligar (ou não ligar) sempre será incompleta. Lembre-se o primeiro motivo desta relação, talvez o mais importante. Não é preciso ter um “bom motivo”, objetivo, se a sua sensibilidade diz que algo importante não vai bem. Ligue.

Se quiser, me mande situações específicas para que eu opine sobre ligar ou não para o pediatra.

 

MÃE

Hoje se comemora o dia das Mães. É uma festa para todos os gostos. O comércio celebra um Natal no meio do ano, com suas vendas impulsionadas pelos sentimentos que todos temos com relação às nossas mães. A imprensa publica depoimentos de filhos ilustres e anônimos. Textos são escritos, alguns de qualidade duvidosa apenas explorando a maternidade de forma piegas. Famílias se reunem em torno das mães, homenageando-as e cobrindo-as do merecido carinho e reconhecimento. Não raro, alguns almoços de família descambam para discussões e desentendimentos, o que os tornam mais reais e humanos. No final, salvam-se todos! Quem não tem mais mãe, dedica alguns momentos do dia para se lembrar dela, mantendo-a a viva com suas memórias e emoções.  Uma festa para todos os gostos!

Como pediatra gostaria de homenagear as mães dizendo como as percebo. Quero homenagear a todas as mães falando de alguns aspectos que nem sempre são ditos, talvez porque não sejam tão valorizados quanto o amor e a dedicação que todas as mães têm por seus filhos. Mas, para mim, são características  que tornam as mães seres muito especiais:

  • Solidão– a alegria da maternidade é algo compartilhado por todos ao redor da mãe. No entanto, é na solidão que a mulher se vê diante de suas dúvidas e inseguranças. A sociedade e a família, cobram da mulher uma postura de certezas e firmezas que não corresponde à realidade da maternidade. Pressionada, a mulher cala e vive, sozinha, suas aflições. Às vezes, o pediatra tem o privilégio de poder compartilhar alguns desses pensamentos e emoções solitárias.
  • Coragem– talvez não exista situação humana onde todo mundo tem alguma opinião, dica, sugestão a dar como a da maternidade. Todos querem opinar sobre o que é melhor para o bebê e para a mãe. Não raro, tratam a mãe como uma pessoa incapaz, necessitando do conhecimento de quem já passou pela experiência da maternidade, para sobreviver. Claro que a tradição oral, os valores sociais e familiares, o conhecimento adquirido pela experiência têm grande valor. No entanto, é preciso que a mãe tenha muita coragem para ser mãe do jeito dela, descobrindo com o seu bebê, o que fazer, como fazer, quando fazer. Escrever a sua própria história é um ato de coragem.
  • Emoções “erradas”– Mãe é amor. Isso, todo mundo sabe, propaga e divulga. Mas, mãe também é irritação, ódio, impaciência e descontrole. Essa mãe, humana e normal, é reprimida pela sociedade. Se compartilhar esses sentimentos e pensamentos ouvirá- que é isso, você está louca?  Claro que não está e é para esta mãe que  tem esses sentimentos conflitantes e contraditórios que eu rendo minha homenagem. Ouso dizer que essas são as mães que vivem no mundo real, por isso mesmo, menos confortável, mas onde poder ser, sem fingir, dá uma tranquilidade enorme.

A todas as mães gostaria de dizer que é um privilégio poder percebê-las nas sua plenitude, incluindo as contradições naturais e humanas.

Neste dia, recebem meu abraço carinhoso.