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MÃE COM M DE MULHER!

maternité Chagall 2Dias das mães! O que escrever de forma original, interessante tocando a emoção (e a razão) de quem lê este blog? Diante de tudo que já foi escrito e dito, o melhor seria passar batido pela data, deixando para os Drummond e Quintana da vida (para citar dois poetas que escreveram sobre a mãe), a função de homenagear a todas.  Também não dá para competir com o comércio em mensagens piegas e emotivas, cujo objetivo final é o de emocionar para vender mais. Ou ainda, enveredar pelo caminho da erudição, falando sobre a mãe através dos tempos, no pensamento filosófico ou psicanalítico. Afinal de contas, sou um pediatra e desses temas não entendo nada. Mas aí é que reside o meu dilema. Como pode um pediatra não enfrentar o desafio de escrever algo original, interessante e que possa tocar a emoção (e a razão) de quem lê este blog?  Me ocorre relatar um pouco do que vejo no meu dia a dia com mães, pais e filhos, tentando fugir do lugar comum.  Veremos no que isso vai dar!

Atualmente, a dinâmica familiar pode ter diversas configurações como por exemplo: mães e pais, avós ou outros familiares que substituem os pais, pais adotivos, mães solteiras, casais homoafetivos, relacionamentos poliafetivos e, eventualmente, outras que ainda se formarão. A maternidade não é exclusiva da descendência biológica, nem do gênero feminino, sendo, antes de tudo, uma atitude diante do filho e um processo no dia a dia da vida. Apenas para facilitar meu trabalho de escrever e o do leitor de ler, vou utilizar as palavras mulher e homem, deixando claro que me refiro a funções que podem ser exercidas por qualquer pessoa, de qualquer gênero, que tenha o vínculo afetivo e amoroso que caracteriza esta relação especial.

No princípio, era uma mulher. Certo dia, esta mulher conhece um homem e desse encontro, em algum momento, acontece uma gravidez. Agora, temos uma mulher com um bebê que cresce na sua barriga. E assim seguem os meses, com a mulher carregando o seu bebê. Um dia, a mulher se vira para o homem e diz- é hoje (esta história se passa no tempo em que não havia data marcada para o nascimento)!  E, no exato dia em que nasce o filho, a mulher se transforma em mãe. Sei que os leitores radicais me dirão que esta mulher já era mãe durante a gravidez. Peço a estes que sejam generosos e me deem o direito a uma certa licença literária, sem entrar na polêmica de quando uma mulher vira mãe. Mas, todos concordamos que, no princípio era uma mulher.

Aqui a história toma um novo rumo. Ao invés de percorrer o clássico conto onde a mãe embevecida acolhe com um amor inédito seu bebê (o que é absolutamente verdadeiro), a notícia é de um sequestro! A manchete nos jornais informa:

“FILHO SEQUESTRA MULHER E A TRANSFORMA EM MÃE!”

Aquela mulher que com seu companheiro levava uma vida “normal”, trabalhando, se divertindo, fazendo suas coisas, saindo com amigos, namorando, viajando, se vê, subitamente, em “cárcere privado”! Sua vida passou a ser definida pela necessidade do bebê. Aquela mulher dormia à noite e agora, já mãe, aprende a dormir fragmentadamente, duas horinhas à tarde, uma hora de madrugada e assim, todos os dias. Aquela mulher que tinha ânimo para fazer ginástica, ir ao cinema, sair para tomar um chope, agora, já mãe, se vê num ciclo interminável de peito, fralda, colo, choro, peito, fralda, colo, choro…. e olheiras!  E, quando vai ao pediatra, acompanhada pelo pai (sim, aquele que era o companheiro, agora é pai!), silenciosamente suplica com o olhar: doutor, isto vai acabar um dia?

O que é mais curioso nesse sequestro é que ele é celebrado por todos. Apavorada, percebe que ninguém se deu conta do sequestro da mulher e só falam, com alegria e orgulho da mãe! E a mãe, em geral, está encantada, sentindo uma forma única de amor por seu filho, um afeto ímpar e inédito. Mais, pode ter muito prazer em amamentar, trocar fraldas, acalentar e consolar o choro, descobrindo uma vitalidade que desconhecia ter (o termo moderninho seria resiliência)!  É uma variante da Síndrome de Estocolmo, onde a vítima passa a nutrir grande simpatia por seu sequestrador! A mãe acaba por convencer à mulher que ela nunca existiu, era uma fase passageira ou ainda uma ilusão.  Nesse sentido, a celebração do dia das Mães, corre o risco de reforçar essa noção de que quando uma entra em cena (a mãe) a outra, obrigatoriamente tem que sair (a mulher).

Meu ponto com essa ficção que espero seja lida como bem-humorada é que no princípio era uma mulher e que esta será sempre uma mulher. Ser mãe se soma ao ser mulher, sem nenhuma necessidade de exclusão. É claro que nos primeiros meses, o bebê precisa da mãe e a mulher, entendendo isso, cede o palco para esta. Mas, mesmos nesse período, a mulher não deve se recolher ao camarim.  Pode e deve entrar em cena, de tal forma que a plateia nunca esqueça da mulher que deu origem a tudo. Não deve competir com a mãe que nela habita, porque sabe que nos atos seguintes, voltará a brilhar e ter destaque. Não precisa “brigar” com a mãe que se tornou, no ato em que esta é a figura mais marcante em cena. Equilíbrio difícil, mas importante.

Ao pai ou quem desempenha essa função, cabe um papel importantíssimo nesse enredo. Quando a mãe entre em cena, o pai surge como um guardião daquela dupla (mãe-bebê). Cuida do em torno, da proteção, física e psíquica. Garante que a nova dupla tenha as condições necessárias para que tudo corra bem nesses primeiros meses de vida. Nesse sentido, não é apenas um ator coadjuvante, aquele que, nos programas de humor, chamam de “escada”. Mas, passado esse momento inaugural ou inicial, que não tem uma data precisa, mas que estou “didaticamente” colocando em torno do sexto ou sétimo mês de vida do bebê, esse pai deve reassumir mais intensamente seu papel de marido, companheiro, homem.

Caberá ao homem um papel importante, ajudando, ao mesmo tempo à mãe recuperar plenamente sua condição de mulher e à criança as condições para se desenvolver de forma plena. Sem a transformação da relação de dupla (mãe-filho) em trinca (mulher-homem-criança), podem não se dar as condições para que a criança desenvolva sua capacidade de tolerar a frustração, se auto consolar ou em linguagem mais simples e direta, se virar sozinha. É colocando limites ou usando uma expressão um pouco mais forte, estabelecendo a interdição da mãe e de espaços (reais e metafóricos) que o pai ajuda tanto à criança, quanto à mulher. É desse movimento de adaptação dinâmica de todos, que se resolve o sequestro e se restitui à mãe a condição de mulher, sem a perda da maternidade. À criança, se dá o espaço para que desenvolva sua identidade, sem a perda do pertencimento à família.

Em nada, esta história diminui a beleza e intensidade da maternidade. De forma alguma minimiza a importância vital do amor maternal que dura a vida toda e persevera nos filhos, mesmo depois que a mãe se foi. Afinal de contas, eu poderia também dizer que, para cada um de nós, no princípio era a mãe!

 Meu carinhoso abraço a todas as mães, mulheres generosas que tecem nossas vidas com fios de amor.

RECEITA DE MÃE

cooking love3Tudo começa com uma mulher. Uma primeira que, antes de ser mãe, é mulher. Para a receita da mãe, falta algo. Os homens que porventura estiverem lendo o blog, já se animaram. Lá vamos nós entrar em cena, pensarão. Tenho uma má notícia para meus companheiros de gênero. Uma mulher não precisa de um homem, para ser mãe. Basta um espermatozoide! E, convenhamos, nós homens somos um pouco mais do que isso! Curiosamente, nós, para sermos pais, precisamos de uma mulher! Nosso narcisismo masculino se vê obrigado a se curvar diante dessa simples evidência biológica da potência que é ser mulher. Da mulher nasce um filho. Do homem, a contribuição de uma semente. Temos então os ingredientes para a receita de mãe. Uma mulher e uma semente!

Essa é a base da receita. Faltam, ainda, alguns ingredientes fundamentais. Vamos começar acrescentando uma enorme dose de paciência e resistência física. Ambas fundamentais para a gravidez e, depois, os cuidados com o bebê pequeno. Desafio um homem a ir amarrando um peso na sua cintura, aumentando progressivamente, semana a semana, e carregar esse peso (e volume), por nove meses. No final desse período estará carregando algo como 13kg a mais, e uma circunferência abdominal muito aumentada. Acrescente um período de enjoo, na fase inicial e muitas dúvidas relacionadas ao momento do parto, saúde do bebê e com o próprio corpo (vai voltar ao que era?). Para completar a cena, sinta seus peitos inchados e doloridos. Agora, levante-se todo dia e sorria, como se fosse um anúncio de margarina. Alguma dúvida sobre a paciência e resistência da mulher-mãe?

Já temos uma mulher, a semente, paciência e resistência. Mas, a receita não está pronta. Faltam alguns temperos. Um deles é a sensibilidade. Outro componente que nos falta, a nós homens. Não falo da sensibilidade boboca de chorar em sessão da tarde. Falo da capacidade de processar o que se passa ao seu redor, sem utilizar, exclusivamente a lógica. Uma percepção sem explicação. Nesse tempero, não há nada de místico ou esotérico. Mulheres-mães são assim e ponto final. Olham para seus filhos e dizem: algo não vai bem. Não sabem o que é, mas, o alarme soa. O nosso, masculino, tende a negar: exagero seu, essa criança está ótima!

Temos a mulher, semente, paciência, resistência e sensibilidade. Essa receita está ficando cada vez melhor. Mas, ainda faltam ingredientes. Agora, vamos acrescentar doçura. Não falo daquela coisa xaroposa, melosa. Me refiro a uma forma de olhar o mundo e as pessoas por um viés mais leve, ameno, alegre. A isso estou chamando de doçura. Quantas guerras foram iniciadas por mulheres? Quantos homens são voluntários em asilos e orfanatos? Diremos que não temos tempo (e os finais de semana?). O fato é, que as coisas doces da vida, são feitas por mulheres.

A receita está melhorando. Vamos acrescentar um tempero mediterrâneo: a estética. Este tempero, importado da Grécia não se limita a saber nomes de cores que nós homens nunca conseguimos identificar. A estética, ou a capacidade de perceber o belo, nos dá, por um caminho, as noções e valores morais e, por outro, a capacidade criativa, artística.

Se falamos em criatividade e arte, temos que aceitar que um dos temperos que faltavam na receita é a emoção. Envolvendo os demais ingredientes, a mulher-mãe não tem o pudor da emoção. Emoção que contempla, admira, mas, também, defende e protege. Emoção que transmite, para os filhos, a essência da vida, a capacidade de se relacionar e afetar com os demais seres humanos.

Pronto! Está aí a minha receita de Mãe, para celebrar o dia delas, que é nosso também. Mas, um minuto por favor. Não falta nada nessa receita? Ouço alguém dizendo:  como falou de mães e não citou a palavra amor, nem uma vez? Respondo brincando que deixo essa palavra para ser citada nos anúncios que vão homenagear as mães. E, respondo sério, o amor, não é um ingrediente da receita, é o resultado da receita pronta. Tudo isso que citei, nos é servido, como amor.

A todas as mães, meu abraço carinhoso. Sou testemunha do que vocês fazem, silenciosamente, todos os dias, para que possamos ter um mundo melhor.

TERRORISMO NA PRAÇINHA

Hoje, me ligou uma mãe de um bebê de 17 dias. Até o passeio matinal na praçinha tudo ia bem. Na praçinha, uma outra mãe, mais experiente, ao perceber que os olhinhos do bebê estivessem um pouco amarelos disse: você precisa ver isso logo. Vai precisar internar e fazer banho de luz. Um filho de uma vizinha minha morreu disso. Foi o suficiente para que esta mãe, até aqui tranquila e amorosa, ficasse insegura .

Essa história se repete de forma sistemática, mudando apenas os personagens e as doenças. O que existe de constante é que alguém com alguma pose de maior experiência, quer porque seja mais velha, tenha filhos mais velhos ou netos, faz uma afirmação categórica de perigo iminente. Cuidado com esse vento, o resfriado pode virar pneumonia! Está com roupa demais, pode ficar desidratado e você nem perceber. Geralmente essas afirmações vêm acompanhadas de um “fato real”. O vizinho, primo ou conhecido que passaram por um episódio gravíssimo e que o seu filho, que dorme um soninho delicioso, sem que você suspeitasse, corre o risco de passar por algo parecido. Instala-se a dúvida e esta corrói. Você chega em casa e consulta o Dr. Google. Para seu desespero, vai encontrar mais de uma referência assustadora.

Por quê existe essse terrorismo na praçinha? Francamente, não sei. Posso imaginar algumas hipóteses:

  • Interesse genuíno em ajudar- algumas pessoas são, naturalmente, apavoradas com os riscos que a vida nos impõe. Veem perigo em toda parte e acreditam que é o dever delas avisar a todos desses riscos.
  • Inveja- um sentimento humano que não pode ser explicitado abertamente. Algumas pessoas não suportam a ideia de verem outras felizes e contentes. De uma forma consciente ou inconsciente precisam acabar com a felicidade alheia.
  • Sentimento de exclusão- existem pessoas que querem e precisam se sentir úteis. Para estas, a independência ou autonomia dos outros é uma ameaça. Os riscos revelados por esta pessoa, bem como seus conselhos, podem torná-la importante ou fundamental.
  • Não reconhecimento do outro- é uma variação do sentimento de exclusão, sem ser exatamente a mesma coisa. Reconhecer o crescimento de alguém, sua independência, pode ser doloroso. Nesse caso, gerar insegurança, infantilizar através do medo irracional, é uma forma de “neutralizar” esse outro indpendente (e diferente).

Pouco importam os  motivos que levam as pessoas a serem terroristas na praçinha. O que os pais precisam é criar mecanismos de “blindagem” contra essas ações. Algumas sugestões:

  1. Informação precisa- contra a dúvida de alguém “mais experiente”, nada melhor do que a informação correta, precisa. Esta pode vir de fontes confiáveis de livros ou da própria internet, como do seu pediatra ou de familiares que sejam carinhosos e acolhedores.
  2. Acreditar na sua própria capacidade- mães e pais podem e devem confiar mais nos seus sentimentos. Basta pensar que a humanidade chegou até aqui, vivendo milênios sem médicos e pediatras. Contava apenas com o sentimento intuitivo e a tradição familiar. Claro que houve enorme progresso em termos de  saúde, mas o exemplo serve para nos lembrar de que somos capazes de tomar boas decisões baseados em nossos sentimentos. (Ver Mãe de Primeira Viagem  e Um Bebê Chegou. O que o pai pode fazer?
  3. Estabelecer uma relação de confiança com o seu pediatra- os pais devem sentir confiança e acolhimento no seu pediatra para poderem consultá-lo sobre o que acharem necessário, sem medo de parecerem inseguros ou ridículos.
  4. Olhar para seu filho ou filha- toda vez que um terrorista de praçinha lhe contar uma história assustadora, olhe para seu bebê ou criança e se pergunte se algo parece estar errado. Não estou sugerindo que sempre tudo vai estar bem, nem que não possam existir situações que não se revelem de forma muito intensa ou clara. Apenas gostaria de devolver algum equilíbrio entre o que é ouvido (dito pelo terrorista) e o que vocês pais percebem.

Se tiverem histórias de terrorismo na praçinha que gostariam de compartilhar com outros pais e comigo, pode ser muito interessante. Quem sabe se conseguirmos rir um pouco dessas histórias, afastamos os fantasmas que os terroristas gostam de nos fazer crer que existem

8 BONS MOTIVOS PARA LIGAR PARA O SEU PEDIATRA

Crianças adoecem e pais ficam inseguros. Crianças crescem , mudam de comportamento e pais ficam sem saber o que é “normal”. Pais ficam com receio de incomodar seu pediatra ou de parecerem ansiosos ou preocupados em excesso. Nunca deixe de ligar para seu pediatra por estes motivos- receio de incomodar ou parecer inseguro demais. Ligue e ligue logo. Não espere até sexta à noite para dizer que estão preocupados desde terça, mas que não queriam incomodar!

A seguir, 8 bons motivos para ligar para o seu pediatra:

1- Achar que criança está diferente ou estranha. Sua sensibilidade é muito importante. Mesmo que não haja nada objetivo, se achar que seu filho está “esquisito”,  ou “diferente”, não espere, ligue.

2- Febre em bebês com menos de 3 meses. Todo bebê, com menos de 3 meses que apresentar uma temperatura acima de 37,5º deve ser examinada pelo pediatra. Ligue.

3- Vômitos que não param. Se o seu filho vomitar uma ou duas vezes, conseguindo beber um pouco de líquido, você pode aguardar e ver a evolução, antes de ligar. Agora, se os vômitos forem constantes e/ou em jato, ligue para seu pediatra ou procure atendimento de urgência.

4- Febre alta por mais de 48/72 hs. Habitualmente os resfriados comuns começam com coriza e um pouco de tosse. A seguir aparece a febre. Caso a febre persista alta (acima de 38,5º) por mais de 2 ou 3 dias, vale a pena ligar para o seu médico.

5- Choro inconsolável.  Se o seu filho ou filha apresentar um choro que não passa, inconsolável, ligue para o seu pediatra. Antes, tente acalmá-lo e veja se consegue descobrir se o choro está relacionado com algum tipo de dor (ouvido, barriga, cabeça) ou se está com febre (coloque um termômetro). Muito provavelmente o pediatra vai lhe perguntar sobre dor e febre e o telefonema pode ser mais eficiente se já tiver essas informações.

6- Respiração rápida, cansaço. Se perceber que seu filho está respirando mais rápido, com esforço, cansado, ligue ou procure atendimento de emergência.

7- Trauma importante. No caso de quedas, com pancada na cabeça ou quando não consegue mexer um membro (braço, perna), procure atendimento de emergência e ligue para seu pediatra. Também deve fazer o mesmo em casos de cortes ou ferimentos grandes ou que não consiga estancar o sangramento com uma boa compressão (apertar forte, com uma gaze, por alguns minutos).

8- Finalmente, um motivo que muitas mães e pais se esquecem- dar retorno. Se você falou com seu pediatra ou se saiu do seu consultório com uma situação que tem uma evolução, ligue também para dizer que melhorou. Se não quiser interromper seu pediatra, deixe um recado com sua secretária, informando que ligou para dizer que melhorou. Pediatras ficam com os casos vistos na cabeça, preocupados. Ligar para dizer que está melhor é importante.

Claro que existem motivos onde uma ligação não é absolutamente necessária. Vou dar 3 exemplos:

1- Consulta de rotina, por telefone. Não ligue para falar de crescimento, alimentação, sono, escola, vitaminas etc. Isso merece uma consulta ao vivo.

2- Dúvidas que podem esperar a consulta de rotina. Não esto encontrando a pomada para assadura, qual seria o melhor substituto? Será que já posso colocá-lo na aula de natação?

3- Comentar matérias que saem na mídia ou que leu na internet. Aguarde a sua próxima consulta para, aí sim, falar sobre tudo que leu e como isso lhe impactou.

É óbvio que uma lista de motivos para se ligar (ou não ligar) sempre será incompleta. Lembre-se o primeiro motivo desta relação, talvez o mais importante. Não é preciso ter um “bom motivo”, objetivo, se a sua sensibilidade diz que algo importante não vai bem. Ligue.

Se quiser, me mande situações específicas para que eu opine sobre ligar ou não para o pediatra.

 

MÃE

Hoje se comemora o dia das Mães. É uma festa para todos os gostos. O comércio celebra um Natal no meio do ano, com suas vendas impulsionadas pelos sentimentos que todos temos com relação às nossas mães. A imprensa publica depoimentos de filhos ilustres e anônimos. Textos são escritos, alguns de qualidade duvidosa apenas explorando a maternidade de forma piegas. Famílias se reunem em torno das mães, homenageando-as e cobrindo-as do merecido carinho e reconhecimento. Não raro, alguns almoços de família descambam para discussões e desentendimentos, o que os tornam mais reais e humanos. No final, salvam-se todos! Quem não tem mais mãe, dedica alguns momentos do dia para se lembrar dela, mantendo-a a viva com suas memórias e emoções.  Uma festa para todos os gostos!

Como pediatra gostaria de homenagear as mães dizendo como as percebo. Quero homenagear a todas as mães falando de alguns aspectos que nem sempre são ditos, talvez porque não sejam tão valorizados quanto o amor e a dedicação que todas as mães têm por seus filhos. Mas, para mim, são características  que tornam as mães seres muito especiais:

  • Solidão– a alegria da maternidade é algo compartilhado por todos ao redor da mãe. No entanto, é na solidão que a mulher se vê diante de suas dúvidas e inseguranças. A sociedade e a família, cobram da mulher uma postura de certezas e firmezas que não corresponde à realidade da maternidade. Pressionada, a mulher cala e vive, sozinha, suas aflições. Às vezes, o pediatra tem o privilégio de poder compartilhar alguns desses pensamentos e emoções solitárias.
  • Coragem– talvez não exista situação humana onde todo mundo tem alguma opinião, dica, sugestão a dar como a da maternidade. Todos querem opinar sobre o que é melhor para o bebê e para a mãe. Não raro, tratam a mãe como uma pessoa incapaz, necessitando do conhecimento de quem já passou pela experiência da maternidade, para sobreviver. Claro que a tradição oral, os valores sociais e familiares, o conhecimento adquirido pela experiência têm grande valor. No entanto, é preciso que a mãe tenha muita coragem para ser mãe do jeito dela, descobrindo com o seu bebê, o que fazer, como fazer, quando fazer. Escrever a sua própria história é um ato de coragem.
  • Emoções “erradas”– Mãe é amor. Isso, todo mundo sabe, propaga e divulga. Mas, mãe também é irritação, ódio, impaciência e descontrole. Essa mãe, humana e normal, é reprimida pela sociedade. Se compartilhar esses sentimentos e pensamentos ouvirá- que é isso, você está louca?  Claro que não está e é para esta mãe que  tem esses sentimentos conflitantes e contraditórios que eu rendo minha homenagem. Ouso dizer que essas são as mães que vivem no mundo real, por isso mesmo, menos confortável, mas onde poder ser, sem fingir, dá uma tranquilidade enorme.

A todas as mães gostaria de dizer que é um privilégio poder percebê-las nas sua plenitude, incluindo as contradições naturais e humanas.

Neste dia, recebem meu abraço carinhoso.

 

DEVO DEIXAR MEU BEBÊ CHORAR?

Uma pergunta frequente que os pais se fazem é se devem deixar o bebê chorando ou se devem pegá-lo no colo? Existem mitos a respeito de se pegar um bebê que chora, no colo. Se pegar no colo, ele só vai querer o colo. Vai ficar mimado. O bebê precisa aprender, desde cedo, que não pode ter tudo que quer. Pior do que os mitos são algumas publicações que estimulam categoricamente os pais a deixarem seus filhos chorando, principalmente à noite, para que aprendam a dormir. Pessoalmente considero essa orientação absurda e prejudicial ao bom desenvolvimento da criança. Bebês que choram querem e precisam do colo. Nenhum colo dado com carinho e amor será prejudicial, tornará a criança uma tirana ou a transformará em mimada.

Para responder à pergunta se devo deixar meu bebê chorar, pedi à Dra. Eliane Volchan, professora no  Laboratório de Neurobiologia do Instituto de Biofisica Carlos Chagas Filho daUniversidade Federal do Rio de Janeiro que escrevesse um pequeno texto. A seguir, o texto da Dra. Eliane, que dá embasamento científico ao que nós humanos já sabíamos através da emoção.

O Choro do bebê- Dra. Eliane Volchan

Existe uma EXTENSA literatura científica sobre a vocalização de filhotes de várias espécies de mamíferos quando separados de suas mães ou de seu grupo, incluindo as regiões cerebrais envolvidas nesse comportamento (veja lista abaixo). Os filhotes tem um sistema de alarme não-aprendido que se manifesta bem cedo e sinaliza sempre que eles se separam dos adultos, enquanto que os adultos do grupo são extremamente sensíveis a esses sinais. Se assim não fosse, nossa espécie (e a de outros mamíferos) não teria sobrevivido, pois o maior risco à nossa sobrevivência é ficarmos sozinhos (particularmente as crianças)!

Recentemente, estudos mostraram em HUMANOS, que a dor da separação ativa as mesmas áreas cerebrais da dor física. Esses resultados levaram os autores a especular que a separação social equivale à dor física na sinalização de alarme para uma situação premente de perigo. Ou seja, os achados CIENTÍFICOS corroboram o bom senso demonstrando que, quando um bebê chora ao perceber sinais de separação (ausência de contato visual, auditivo e principalmente somático: contato físico corpo a corpo), seu cérebro está acionando o recurso máximo de alarme para uma ameaça à sua sobrevivência. Do mesmo modo, os adultos mais próximos são sensíveis a essa vocalização que provoca atitudes de socorrer e confortar bebê trazendo-o para perto de si e embalando-o.  A proposta de reprimir o impulso de pegar a criança no colo é, assim, absurda, pois viola umas das nossas reações mais básicas e fundamentais da nossa herança evolutiva.

Referencias:

– Eisenberger NI, Lieberman MD. (2004) Why rejection hurts: a common neural alarm system for physical and social pain. Trends Cogn Sci., 8: 294-300

– Eisenberger, N.I. et al. (2003) Does rejection hurt: an fMRI study of social exclusion. Science 302, 290-292

– Kirzinger, A. and Jurgens, U. (1982) Cortical lesion effects and vocalization in the squirrel monkey. Brain Res. 233, 299-315

– Krossa et al (2011). Social rejection shares somatosensory representations with physical pain. Proceedings of the National Academy of Sciences 108 : 6270–6275

– Lorberbaum, J.P. et al. (1999) Feasibility of using fMRI to study mothers responding to infant cries. Depress. Anxiety 10, 99-104

– MacLean, P.D. and Newman, J.D. (1988) Role of midline frontolimbic cortex in production of the isolation call of squirrel monkeys. Brain Res. 45, 111-123

– Robinson, B.W. (1967) Vocalization evoked from forebrain in Macaca mulatta. Physiol. Behav. 2, 345-354

– Stamm, J.S. (1955) The function of the medial cerebral cortex in maternal behavior of rats. J. Comp. Physiol. Psychol. 47: 21-27

Na próxima vez que o seu bebê chorar, pegue-o no colo e sinta que ambos estão felizes. Se alguém lhe disser alguma das barbaridades que são ditas por aí, repasse o texto da Dra. Eliane Volchan.

Gostaria de ouvir comentários dos pais a respeito de coisas que já ouviram com relação ao choro dos bebês. Se tiverem alguma dúvida, enviem que eu tentarei respondê-la.

PRECISO TRABALHAR, QUEM VAI CUIDAR DO MEU BEBE?

A licença maternidade dura 120 dias. Quando podem, as mulheres preferem trabalhar até bem perto do dia do parto para poder passar mais tempo com o seu bebê. No entanto, tem um momento, entre os 3 e 4 meses do bebê que a licença maternidade termina , a mãe precisa voltar a trabalhar e alguém tem que cuidar do bebê. Quem? Não há uma resposta única ou certa. Abaixo, algumas dicas para ajudar os pais a decidirem quem deve cuidar do bebê

 

  1. Se a mãe está amamentando, o ideal é que continue até os 6 meses. Assim, se o seu trabalho oferece uma creche, esse seria o      melhor lugar para o seu bebê ficar e poder continuar a ser amamentado. No entanto, são raras as empresas que oferecem creches no próprio local de trabalho.
  2. Não havendo creche, a melhor alternativa para cuidar do bebê seria um adulto da própria família que tivesse disponibilidade de tempo (e paciência com bebês). Uma pessoa da família, em geral é de confiança e possui algum vínculo afetivo com a criança,fazendo com que cuide com atenção e carinho. Habitualmente essa pessoa é uma avó que, se estiver em condições físicas e não ficar sobrecarregada,     será uma excelente cuidadora do neto ou neta.
  3. Não havendo ninguém na família que possa cuidar, verifique se existe alguma creche perto da sua casa. Visite a creche e observe alguns pontos importantes: espaço, iluminação, ventilação, limpeza, arrumação, aspecto geral. Veja  também como as atendentes lidam com os bebês. Observe se conversam com as crianças, trocam as fraldas com delicadeza, colocam no berço com cuidado, sorriem para os bebês. Veja se o número de atendentes parece adequado ou se estão sobrecarregadas.  Qualquer sinal de impaciência ou irritação com os bebês deve acender um alerta vermelho. Não coloque seu bebê nessa creche. O risco é alto. Olhe também para os bebês e veja se estão limpos, com espaço fora dos berços para ficarem e fraldas secas. Além de todas essas observações objetivas, se  pergunte como sentiu o ambiente. Você gostou? Inspirou confiança? Se não, mesmo sem motivo, não deixe seu bebê nessa creche.
  4. Contratar uma pessoa pode ser uma outra  alternativa. Se optar por contratar alguém, peça referências específicas  de como essa pessoa se comporta com bebês. Pergunte se é uma pessoa carinhosa e cuidadosa com crianças. Melhor do que uma pessoa que seja “enfemeira” com grande experiência escolha uma pessoa carinhosa e alegre. Seu bebê já tem mãe (você) e você precisa de alguém que a ajude, cuidando com muito carinho do seu filho ou filha.  Na entrevista, procure avaliar se é uma pessoa tranqüila ou nervosa. Pergunte se ela tem filhos e qual a idade deles. Pergunte se é fumante. Se for, não contrate. Muito provavelmente vai fumar na sua ausência e isso seria ruim para o bebê. Se gostar da pessoa e as referências forem boas, contrate-a um mês antes de retornar ao      trabalho para poder observar, de perto, como essa pessoa se comporta com o seu bebê.
  5. Faça uma lista, por escrito, de telefones e endereços importantes para que a pessoa que vai cuidar do seu bebê saiba onde lhe achar ou ao pai ou ainda saiba para onde deve ir, em caso de emergência.
  6. Nunca deixe seu bebê sob os cuidados de outra criança ou adolescente, mesmo sendo da família.