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A MÃE SUFICIENTEMENTE BOA.

Hoje é o dia das mães e sinto um certo bloqueio criativo para escrever algo que seja, ao mesmo tempo, original, interessante e carinhoso. Não deveria ter relido posts que escrevi em dia das mães passados! Gostei de alguns, o que só aumentou meu bloqueio porque me convenci de que já tinha escrito o que eu poderia escrever a respeito da mães, no seu dia. Se algum leitor do blog desejar visitar esses posts, seguem os links: MÃE COM M DE MULHER!    RECEITA DE MÃE  MÃE OU MULHER?  MÃE

Em um mundo onde fazer, realizar, agir, bater metas, atingir objetivos, se tornou praticamente a única forma de se obter reconhecimento, sucesso e realização, é razoável que tentemos transformar todos os aspectos das nossas vidas em desafios, onde essa lógica (da ação e metas) funciona muito bem. Essa lógica é perfeita para uma empresa ou empreendimento, para atividades físicas, para o planejamento de vários aspectos da vida como viagens, cursos, orçamento familiar, mas, definitivamente, não dá conta de todos os aspectos das nossas vidas. A complexidade da vida não se deixa reduzir a uma planilha Excel, nem a um ou dois aplicativos que tudo registram, controlam e calculam. Mas, na cultura vigente, é como se fosse possível traduzir a nossa complexidade a uma só linguagem, a da eficiência. Toda vez que tentamos reduzir algo complexo a uma única “fórmula”, nos comportamos como uma sapataria que só vende calçados no tamanho 36! Muitos pés caberão nos sapatos vendidos, mas um número grande, permanecerá descalço.

Quando falo da complexidade da vida humana, não me refiro a nenhuma teoria de difícil compreensão. Falo do nosso dia a dia. Por que um dia acordamos de bom humor e outro nem tanto? Por que olhamos para um nascer do sol e temos um sentimento gostoso, difícil de descrever? Por que me nos emocionamos ao ouvir uma música (e não outra)?  Por que, mesmo com toda a informação disponível, existem fumantes? Por que instalamos um aplicativo para saber onde tem lei seca ao invés de ir e vir de taxi? Por que sentimos atração por uma pessoa e não por outra? Por que, com tantas publicações, blogs, programas de TV, falando de alimentação saudável, só aumenta o percentual de pessoas com sobrepeso? Por que existem guerras?  Claro que um pragmático radical terá uma resposta simples e convincente para todas estas perguntas. Mas, o fato é que não existem repostas únicas, muito menos simples.

Nesse contexto, as mulheres se tornam mães e a maternidade passa a ser vista como um “empreendimento”. A cobrança explícita ou velada é uma só: performar para ser uma mãe maravilhosa (leia-se, uma mãe perfeita).  Amamentar deixa de ser um meio, para ser um fim. É como uma maratona a ser corrida, amamentar até os 6 meses de idade. E lá vai a mãe, ofegante, atravessando o terceiro mês e a torcida (grupos de mães no WhatsApp) gritando: não para não! Continua! Só faltam 3 meses, não vai parar agora, vai? O que deveria ser prazeroso para o bebê e para a mãe, virou meta a ser cumprida (em tempo- óbvio que sou defensor do aleitamento materno exclusivo até os 6 meses. Só não sou um fundamentalista que acha que é isso ou nada! Leiam MAMADEIRA: ASSUNTO PROIBIDO!). Além de amamentar, a mãe não pode falhar em nada! Ao seu redor, todos os bebês dormem a noite inteira, nunca golfam, choram pouco e os que já estão comendo, comem tudo! A cobrança é total e o desespero, idem. Essa mãe passa o dia correndo atrás de uma meta imaginária e inexistente de perfeição que só a exaure física e emocionalmente.

Essa exigência da perfeição explica, em parte, a proliferação de cursos sobre tudo que se possa imaginar. Desde o curso geral, como ser uma ótima mãe, até os mais específicos: como dar o banho no bebê, como amamentar, como trocar fraldas, como estimular o seu bebê, como fazer o bebê dormir, o cardápio saudável etc.  As pessoas entram em tal frenesi que sequer param para pensar como a humanidade chegou até aqui. Foram 70 mil anos de percurso (homo sapiens falante) até os dias de hoje. Durante aproximadamente, 60 mil anos, fomos caçadores coletores, andando pelo mundo. Só começamos a escrever há uns 12 mil anos, a prensa só tem 570 anos, a pediatria uns 300 anos e o Google, 19 anos. O ponto é que a espécie sabe cuidar da espécie! Esse saber é intrínseco, não dependendo de cursos, pediatras, grupos de WhatsApp etc.  Claro que o progresso e a tecnologia tornaram nossas vidas muito mais seguras e confortáveis. Mas, posso garantir que Michelangelo e Einstein não tinham tapetinhos estimuladores, nem suas mães lhes deram comida utilizando o método BLW (ou qualquer método)!

Em torno de 1950, Donald Winnicott, um pediatra que se tornou psicanalista, cunhou a expressão- mãe suficientemente boa (good enough mother). O que Winnicott queria dizer é que as mães, ao olharem para seu bebês, são capazes de identificar suas necessidades (no bebê pequeno, a necessidade essencial é viver) e estar lá para atendê-los. Simples assim, ainda que muito cansativo. O segredo (acho eu) está no olhar para o seu bebê e não para o mundo de livros, sites e conselhos que existem. Estes, ainda que possam conter algumas informações úteis e interessantes, sempre falam de um bebê médio, de um bebê estatístico. O bebê individual é único só é conhecido por seus pais. Estes são os verdadeiros “especialistas” no filho ou filha. (MANUAL DE INSTRUÇÕES PARA CUIDAR DOS NOSSOS FILHOS. UMA AULA PRÁTICA DE COMO LER O MANUAL DA CRIANÇA.)

O olhar a que Winnicott se refere não é apenas o olhar objetivo, mas, sobre este, o olhar afetivo. É no olhar afetivo que mães e bebês trocam informações que, sem que se deem conta, farão com que se entendam e o bebê possa se desenvolver bem, tanto objetivamente (peso, tamanho, conquistas motoras etc.) como subjetivamente (identidade pessoal, autoestima, capacidade de tolerar frustrações, afeto, agressividade etc.). O afeto é um sentimento onde a lógica da performance não se aplica. Não se quantifica afeto, não se traduz o afeto em metas e objetivos. O afeto se vive e esse viver afetivo é fundamental para todos nós os seres humanos.

Se eu pudesse desejar algo para todas as mães no seu dia, seria que confiassem na sua emoção ao olhar para o seu bebê ou criança, desconfiando de todas as regras e métodos que lhe tentarem empurrar.

Que todas as mães possam se sentir excelentes mães por serem apenas suficientemente boas, sem buscarem a perfeição. E, uma vez livres desse peso (da perfeição) possam deixar fluir o amor que nos torna humanos.

 

 

 

 

 

PAIS NÃO SÃO CIENTISTAS, MAS ARTISTAS!

“A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação dá a volta ao mundo.” Albert Einstein ¹

Inicio o texto com uma citação de uma das mais brilhantes mentes científicas da humanidade. É uma afirmação de uma pessoa que passou sua vida envolvida em fórmulas matemáticas, desenvolvendo teorias que, algumas, só vieram a ser comprovadas muito recentemente. No entanto, quando perguntado se confiava mais na sua imaginação do que no seu conhecimento, deu a resposta acima, surpreendente para um físico brilhante. Talvez surpreendente para qualquer um de nós que viva neste planeta, neste século. Vivemos a era das certezas e convicções “científicas”. Coloquei aspas em científicas porque muitas das nossas convicções são baseadas em pseudociência, fraudes, farsas e manipulações. Mas isso é outro assunto. O fato é que o valor dado à racionalidade, lógica, precisão, previsão, modelos matemáticos, estatísticas, algoritmos, big data, é inequivocamente maior do que o dado à arte, intuição, sensações, imaginação, afeto e amor.

Nenhum de nós escapa ao tsunami da cultura, sendo esta o conjunto de valores que expressam uma época ou um grupo humano. Imersos em dados, números, estatísticas, gráficos que projetam eventos futuros, não poderíamos ser mães e pais sem estarmos “contaminados” por esta praga contemporânea.

Imagino que, a esta altura do texto, engenheiros, matemáticos, economistas e físicos já pararam de ler, irritados com minha irreverência com a ciência. Eventualmente, um grande número de leitores, sentiu desconforto ao ver um nossos oráculos atuais (a razão) ser provocado por um pediatra! Mas, antes que não tenha nenhum leitor que chegue ao final do texto, explico alguns pontos. A ciência é fundamental. O pensamento científico é um passo enorme da humanidade para sair do obscurantismo dos mitos e crendices. O pensamento científico é ainda muito jovem na nossa história, datando de aproximadamente 500 anos, o que é muito pouco para o confronto com 60 mil anos de fantasias e crenças, sem nenhuma fundamentação ou comprovação. Portanto, sou um ferrenho defensor do pensamento científico. A proposta deste texto é a de, preservando o pensamento científico, afirmar que é uma condição necessária, mas não suficiente, para a nossa vida, neste planeta. Dito de outra forma há uma característica humana chamada emoção, que não se opõe à razão, sendo, com esta, parte de um todo indivisível do ser humano. Não existe, no mundo real, a divisão ou polarização entre razão e emoção. Fomos induzidos a acreditar nisso por modelos culturais que nos precederam (Descartes sendo um dos mais conhecidos) e que se mantém até hoje. Para me “garantir”, comecei o post com uma declaração de Einstein, valorizando a imaginação, que nada tem de racional!

Como em vários outros posts, tem uma hora em que o leitor, se chegou até aqui, se pergunta- mas o que isso tem a ver com ser mãe e pai? Aonde esse pediatra quer chegar?

Uma mulher engravida. Ao mesmo tempo em que faz o seu pré-natal, baseado nos melhores conhecimentos científicos disponíveis, imagina seu filho. Pode até ver uma imagem de ultrassom do bebê, mas o que os pais imaginam não é aquela imagem, ainda que seja emocionante. Durante a gravidez, a mulher e o pai, imaginam o parto, o recém-nascido, como será, que personalidade terá, com quem se parecerá? As preocupações de todos nós também aparecem no imaginário de casais grávidos: será saudável, perfeito, inteligente?

Nasce o bebê e há um choque de realidade. O imaginado não é exatamente como o real. Seja o aspecto físico (a carinha amassada, a orelha assim ou assado, o nariz que não lembra o de ninguém), seja o comportamento do bebê. O bebê imaginado era doce, meigo, manso. Dormia a noite toda como um anjo e, de dia, mamava feliz. Pois bem, o bebê chora, e chora mais, e chora muito. Não dorme à noite, só quer ficar no peito, machuca o peito, é incomapecido, não poupando a mãe, sugando leite, energia e vitalidade (que mãe não sentiu um cansaço jamais sentido antes?).

Claro que estou exagerando, pintando com tintas fortes, um quadro onde também há um sentimento de amor jamais vivido anteriormente. Quero apenas preparar o clima para o próximo movimento.  Diante da insegurança (natural e normal) que esta “pororoca” entre o imaginado e o real  produz, qual a solução? Consultemos nossos oráculos contemporâneos: Google, grupos de mães e o pediatra. A pergunta, expressa de diferentes maneiras é sempre- isso é normal? E acreditamos que a resposta, técnica, está fora de nós, dos nossos sentidos, guardada a sete chaves por algum sábio que entende mais do que nós de bebês.

Proponho que ao invés de consultar os oráculos ou especialistas com supostos saberes, os pais se voltem para a sua intuição, sensibilidade, emoções, imaginação e criatividade. Claro que os conhecimentos científicos adquiridos serão úteis e servirão como um guia ou norte, mas nunca como uma norma ou regra. De que adianta dizer que um bebê “deve” dormir 16h por dia se o seu dorme 14h ou 18h? O que importa é saber se o bebê está saudável e não se “obedece” a uma regra! De onde vêm as “regras” da introdução alimentar (ou alguém acha que um bebê sueco, vai ser alimentado com banana)? Aliás, de onde vêm tantas regras que assegurem um desenvolvimento “normal” do ser humano. Suspeito que venham, entre outros fatores, de uma exploração da insegurança natural que temos diante de algo novo (filhos, frágeis e dependentes absolutos de nós), com o intuito de vender um serviço ou o simples “conhecimento”. Claro que obedecer a uma regra remove a responsabilidade do eventual erro, mas também tira o que há de mais rico na maternidade e paternidade que é a autoria do processo de criar esse novo ser humano.

A explicação para a necessidade dos pais serem mais artistas e menos cientistas é muito simples. Cada ser humano, bebê, criança, adolescente, adulto, idoso, é único. Não existem duas impressões digitais iguais, duas vozes idênticas, personalidades replicadas etc. Nenhum ser humano está plenamente representado em uma média ou estudo.  O fato de sermos únicos cria um desafio e um prazer na maternidade e paternidade. O desafio de olhar e perceber o filho como sendo outro, literalmente, e não uma edição revista e melhorada dos pais e o prazer  é o de um artista  quando cria uma obra. Para criar uma obra, o artista lança mão da sua imaginação, criatividade e ousadia. Se não fosse assim, não teríamos um Michelangelo, Da Vinci, Monet, Chagall, Picasso, Cervantes, Drummond, Bandeira, Beatles, Caetano, Gil e, nessa relação interminável de artistas que nos emocionam com sua criatividade, por que não incluir os cientistas que, antes de desenvolver uma tese, ousaram pensar de forma inédita. Mesmo a ciência começa com o simbólico, o imaginado, o fantástico.

Ser mãe e pai é um processo continuado de criação artística e o resultado final é o orgulho ao ver a obra viva, feliz e integrada ao mundo. Diferentemente de Michelangelo que, ao ver o seu Moisés terminado, teria batido com o martelo na escultura e perguntado por que não falas, nossa obra fala (e sente).

Sejamos todos mais ousados, imaginativos e emotivos. Sejamos artistas que exploram as infinitas possiblidades de criação na tela da vida. Os filhotes agradecem. A humanidade também!

 

1- Entrevista dada a  G. S. Viereck, “What life means to Einstein”, Saturday Evening Post, 26/October/1929, reimpresso em G. S. Viereck, Glimpses of the Great, new York: Macauley, 1930, p. 447.

RISCOS DA VACINAÇÃO

“Para todo problema complexo, existe uma solução simples, elegante e completamente errada” Henry Louis Mencken.

Após a publicação do post da semana passada, recebi alguns comentários, relacionados à segurança da vacina contra a Febre Amarela. Algumas pessoas acreditam que as autoridades sanitárias omitam os casos onde ocorra algum efeito indesejável, após a vacinação. Não tenho nenhum envolvimento, direto ou indireto, com o setor público. Portanto, não posso afirmar nada em nome destes agentes. Mas, sei que o nosso sistema de vigilância epidemiológica é muito eficaz e, como parte desse sistema, temos um sistema de vigilância epidemiológica para efeitos adversos pós vacinação. Nem todas pessoas sabem desse sistema que é o responsável por coletar dados, de forma regular, através de procedimentos padronizados e, assim, acompanhar a incidência de efeitos colaterais que possam ocorrer com todas as vacinas administradas pelo Programa Nacional de Imunizações. Os profissionais de saúde envolvidos em vacinação recebem treinamento e/ou têm acesso aos manuais do Ministério da Saúde que tratam, especificamente, de efeitos adversos de vacinas e a forma de notificá-los. Estou detalhando um pouco mais esse sistema porque acho relevante a informação de que, no Brasil, acompanhamos, de forma sistemática, quaisquer efeitos colaterais de vacinas (não só a de Febre Amarela). Acredito que é pouco provável, nos dias de hoje, com a circulação eletrônica da informação que uma autoridade possa omitir ou ocultar dados, por um longo período de tempo.
Com relação à segurança das vacinas em geral, gostaria de citar alguns fatos:

1- Não sabemos tudo, nunca. O conhecimento é um processo contínuo e o conhecimento científico pressupõe que não se consiga chegar a uma Verdade (com V maiúsculo). O conhecimento científico é, na melhor das hipóteses, a melhor informação disponível, naquele momento. Por esse motivo algumas verdades (com v minúsculo), frequentemente são substituídas por outras (também com v minúsculo). Um exemplo caricato é a história do ovo. Ovo faz bem ou faz mal? Pode comer ovo ou precisamos parar de comer ovo? A cada momento, em função de novos conhecimentos embasados no método científico (que é algo bem complexo e não somente a apresentação de estatísticas), teremos uma verdade.

2- O impacto da vacinação no crescimento da expectativa de vida foi imenso e esta realidade só foi possível através da vacinação sistemática da população exposta. Este é um fato praticamente incontestável. Digo praticamente porque ainda existem pessoas ou grupos que se opõe à vacinação. Não há nenhuma evidência científica que embase esta resistência que, habitualmente, está baseada em argumentos relacionados com crenças (eu acho isso ou eu acho aquilo), crendices (mitos) ou ainda informações já demonstradas como falsas (vacina contra Sarampo produz autismo).

3-As vacinas não são 100% efetivas, e também não estão isentas de oferecerem possíveis riscos para a população. O senso comum é o oposto desta afirmação. Talvez porque seja o mais desejável, pensamos que, uma vez vacinados, estaremos 100% protegidos contra uma determinada doença e que a vacina não pode fazer mal algum (exceto um pouco de dor no local e, talvez, um pouco de febre). Nossa cabeça tem mais facilidade de pensar de forma binária onde ou algo faz bem ou faz mal. Ou protege, ou não protege. No mundo real, as coisas vivas não funcionam de modo binário (exceto computadores). Seres vivos são, por definição, variáveis. Vacinas aplicadas em seres vivos podem proteger a maioria, mas não todos. Podem ter pouquíssimos efeitos colaterais para a maioria, mas não para todos.

4- Nenhuma vacina está totalmente livre de provocar eventos adversos, porém, os riscos de complicações graves causadas pelas vacinas do calendário de imunizações são muito menores do que os das doenças contra as quais elas protegem. Esta é a chave que justifica (ou não) o uso de determinada vacina. É preciso que fique cientificamente demonstrado (usando métodos rigorosos e complexos) que, comparando os riscos da vacinação, com os da doença natural, aqueles (os riscos da vacinação) sejam significativamente menores do que estes (os riscos da doença natural).

Especificamente com relação à vacina contra a Febre Amarela:

1- Mesmo com a possibilidade de eventos adversos graves, incluindo o óbito, a vacina contra a Febre Amarela é o melhor meio de se evitar esta doença que apresenta uma alta taxa de mortalidade (em torno de 50% dos casos morrem) e deve ser utilizada de forma rotineira em áreas endêmicas (onde a Febre Amarela existe de forma contínua) e nas pessoas de áreas não endêmicas que poderiam estar expostas. Essa é a lógica pelo qual, até muito recentemente, pessoas de algumas áreas do Brasil recebiam a vacina contra a Febre Amarela como parte do calendário regular e outras não. Em uma área onde não há o risco de se contrair a doença, o risco de reações adversas da vacina não justifica o seu uso. No entanto, quando uma área ou região que não era de risco de se contrair a doença passa a ser de risco, justifica-se a vacinação porque a equação muda (a doença passa a ser mais “perigosa” do que os efeitos colaterais da vacina).

2- As estatísticas disponíveis para o risco de efeitos colaterais da vacina contra a Febre Amarela não são homogêneas porque dependem de estudos feitos em condições epidemiológicas e metodologias diferentes. Cito alguns números para que tenham uma ideia da frequência com que complicações podem ocorrer.
A pior consequência adversa que pode ocorrer é o óbito provocado pela vacina. As estimativas são de que 0,043 a 2,31 pessoas por um milhão de doses de vacinas, poderão falecer. Traduzindo em porcentagem seria 0,0000043% a 0,00023% das pessoas vacinadas que poderiam vir a falecer. É um número muito baixo, mas não é zero. Portanto, quando comparamos esta porcentagem com a taxa de mortalidade da doença (50% das pessoas podem morrer), verificamos que o risco de óbito pela doença é muito maior do que pela vacinação. Mas, para nós humanos, números são abstrações, e quando temos a notícia de um óbito provocado pela vacina, essa notícia “apaga” a nossa capacidade de pensar de forma abstrata, conceitual ou racional e o medo ou pânico se instalam.
Com relação aos possíveis efeitos colaterais no sistema nervoso central, estima-se que estes podem ocorrer em 1 em 125.000 vacinas aplicadas. O que corresponderia a 0,001 %. As alergias graves (não uma simples urticária ou edema de lábios e olhos), podem ocorrer em 1 em 55.000 vacinas aplicadas, correspondendo a 0,002%.

3- Alergia a ovo e outros componentes da vacina. A vacinação de pessoas com alergia a ovo ou outros componentes da vacina (gelatina, proteína de frango e outros possíveis componentes) deve ser avaliada caso a caso. Não há consenso em como lidar com esses casos, mesmo porque a expressão “alergia a ovo” pode significar desde uma urticária, até um choque anafilático. As pessoas que tenham alergia a ovo devem procurar um médico para que possam ser orientadas e, em função tanto da intensidade da sua reação alérgica, quanto do risco de contrair a doença (uma epidemia, por exemplo), definir qual a melhor estratégia. Do ponto de vista acadêmico, mas com imensa dificuldade de se fazer na prática, um teste com uma dose de vacina diluída poderia ser feito ao mesmo tempo que se faria um controle  (geralmente com histamina). Se o teste der negativo a pessoa poderia ser vacinada. Se der positivo, não deveria ser vacinada e poderia tentar um tratamento de dessensibilização. Como podem ver, na prática não é possível se implementar estas ações, principalmente em grande escala.

A mensagem, uma vez mais, é que a vacina contra a Febre Amarela, em uma situação de risco epidêmico, é o melhor meio para se proteger contra esta doença que mata metade das pessoas que adoecem. A vacina não é isenta de riscos (nenhuma vacina ou, por extensão medicamento é isento de riscos), mas, em uma situação epidemiológica como estamos vivendo em várias áreas do Brasil, estes riscos são muito menores do que os da doença natural.

Boa vacinação para todos!

2018 SEM LISTA DE DESEJOS!

Ano passado fiz uma lista de desejos para 2017. Talvez tenha desejado demais, mas o fato é que,  infelizmente, nenhum deles se realizou! Confiram clicando no link LISTA DESEJOS DE UM PEDIATRA PARA 2017!

Dizem que loucura é quando se faz tudo igual, esperando resultados diferentes. Portanto, neste ano, não vou fazer nenhuma lista, não vou desejar nada, criar metas, planejar o futuro, gerar expectativas a respeito do Trump, da desigualdade no mundo, da lava-jato, eleições e paz na terra para os homens de boa vontade!

Para 2018, proponho que se faça a abolição do futuro e consigamos viver no presente. Parece uma obviedade porque, afinal de contas, vivemos no presente. Mas, não raro, adoecemos de futuro. Isto é, os pés estão plantados no presente, mas a cabeça já voa longe, povoada por pensamentos, preocupada a respeito de algo que, supostamente, poderia ocorrer. A vida, no futuro, é um delírio. Nos permite tanto ganhar na mega sena, quanto sofrer por antecipação com pensamentos pessimistas. A vida no presente, é o que é. É o que temos de real, concreto. É a matéria prima com a qual podemos construir nossa felicidade, real. O presente é o que nos dá os elementos para que possamos enfrentar as dificuldades reais e não as imaginadas. É o fio que tece as nossas vidas.

Lidar com presente não é algo com o que estejamos habituados. Nossa cultura, sem crítica, apenas constatação, sempre nos empurra para o amanhã. Há sempre um amanhã, em geral ameaçador, que nos obriga a viver um presente tenso, preocupado, espartano. A frase: “nunca se sabe o dia de amanhã” resume bem esse tom ameaçador. Nunca é dita de forma a que se entenda que amanhã vai ser uma maravilha. É dita como um sinal luminoso, piscando: cuidado, perigo adiante!

Sem nos darmos conta (ou dando), a vida no presente vai sendo modelada por um futuro suposto ou imaginado. Talvez (não sou nem filósofo, nem psicanalista) a suposição de um futuro, ainda que ameaçador, nos faça afugentar a única certeza que temos a respeito do futuro- nossa finitude. Pensar, continuadamente, no futuro, pode nos trazer uma certa calma (ou ilusão) de um futuro continuado, interminável. Melhor não comer sorvete porque, lá na frente, pode ter diabetes. Melhor fazer exercício, para evitar que, lá na frente, esteja entrevado. Melhor trabalhar furiosamente, para, lá na frente, poder viver com mais conforto. E a lista de sacrifícios no presente, para um futuro melhor, é interminável. Não vou cansar vocês!

É evidente que não me oponho a hábitos saudáveis e atitudes responsáveis. Estou aproveitando este período onde todo mundo se permite alguns devaneios existenciais, para brincar um pouco com a ideia (meu devaneio) de uma resistência organizada contra a tirania do futuro! Afinal de contas, a vida não é binária. Ou nos submetemos à tirania do futuro, ou sucumbimos na esbórnia total. A vida é complexa, multifacetada, dinâmica, variável e, acima de tudo, imprevisível. Exatamente por ser imprevisível, devemos dar um pouco mais de atenção ao presente.

Sequer estou sendo original nessa sugestão. Horácio, poeta romano, escreveu há mais de 2000 anos uma frase que “viralizou”. A frase ficou conhecida por duas palavras: CARPE DIEM, que quer dizer aproveite o dia. O trecho mais completo seria: ” aproveite o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã”. Vários autores e pensadores se manifestaram a respeito do viver no presente. Cito mais dois, só para ilustrar o que estou dizendo. Albert Camus, escritor francês, prêmio Nobel de Literatura escreveu: ” A verdadeira generosidade para com o futuro, consiste em dar tudo ao presente.” Mas, o meu preferido, é o famoso filósofo Kung-Fu Panda: “O passado é história, o futuro é mistério, o agora é uma dádiva e por isso se chama presente”.

E assim, chegamos ao final deste post e de 2017 com uma contradição ou paradoxo (o que garante que este texto não foi escrito por um robô e sim um humano). Disse que não tinha lista de desejos, mas tenho um grande desejo. Desejo que todos possam, em suas vidas, viver um pouco mais intensamente o presente.

Viver o presente significa que o ser precede o ter. O existir se superpõe ao produzir. O sentir não fica inibido ou tolhido pela razão. Viver o presente significa esvaziar a cabeça de pensamentos do futuro, respirar fundo, apreciar o que nos cerca e dar vazão ao que nos une, o afeto.

Feliz hoje, todos os dias, em 2018!

 

DE REPENTE JÁ É NATAL!

Quando a gente menos espera, já é dezembro e, num piscar de olhos, o Natal chegou!  As lojas se enfeitam e ficam abertas até mais tarde, Papais Noel se multiplicam pelos shoppings e esquinas, listas de presentes são feitas e ainda compramos algo unissex para aquela pessoa que não sabemos quem é, mas que, certamente, teremos esquecido. Amigos ocultos e confraternizações ocupam nossos dias. Não há como esconder um Natal! Mas, o que escrever? Algo que seja original, divertido, sem ser bobo, lugar comum ou piegas. Difícil.

Reli meus últimos posts de natal: Papai Noel existe? e Natal é emoção, não razão e me deu vontade de misturar os dois e fazer o post desse ano, contando com a altíssima probabilidade de que ou não leram ou não lembram o que eu já tinha escrito. Seria um caminho fácil, mas pouco criativo. Resolvi então fazer um post para os adultos!

Natal é uma celebração da confraternização. Confraternizar significa estar junto do irmão (com= junto + frater= irmão). E quem é esse irmão? Ora, irmão é quem é filho da mesma mãe e/ou do mesmo pai. Podemos pensar nos nossos pais biológicos, genitores imediatos, como podemos pensar em Lucy, símbolo do primeiro homo sapiens.  Seguindo esse mesmo caminho, podemos retroceder, de forma Darwiniana e afirmar que todos os mamíferos são nossos irmãos. Por que parar nos mamíferos? Toda forma de vida animal é nossa irmã. Se você é uma pessoa religiosa, acredita que todos somos filhos de Deus. De um modo ou de outro, somos todos irmãos. Estar junto do irmão pode ser tanto aquele imediato, com quem me engalfinhei na infância, meu rival pelo amor dos meus pais e, ao mesmo tempo, meu companheiro solidário, na vida. Como também pode ser estar junto de outros humanos, tão parecidos e tão diferentes de mim. Pode ser ainda, estar junto de todas as formas de vida que conhecemos no nosso planeta.

Estar junto dos irmãos, celebrando a vida (Natal= nascimento= vida), exige que desenvolvamos a capacidade de respeitar o outro nas suas diferenças, não apenas com uma postura tolerante, mas de aprendizado. Exige que tenhamos uma abertura para o novo, eventualmente chocante ou conflitante com meus valores. Exige humildade e flexibilidade, competências que só adquirimos se as exercitarmos, já que retornar à infância onde ainda não tínhamos valores morais definidos pela nossa cultura e tudo era fascinante, é impossível. Forjados pela nossa cultura, olhamos para outras com desconfiança ou desdém. Mesmo dentro da nossa cultura, olhamos para as diferenças com desconfiança, partindo da premissa que meus valores são os “corretos”. Recusamos, pelo estranhamento que nos causa, as diferenças.

Confraternizar não é disparar centenas de WhatsApp com uma foto, música e mensagem açucarada. Não é apenas dar um presente por conta de obrigações sociais. Não é desejar um feliz natal repetido, mecanicamente, como um papagaio, sem emoção ou, pelo menos, sinceridade.

Confraternizar é exercitar o silêncio para que o outro possa ocupa-lo. É desenvolver a escuta, para que o outro possa se fazer presente e, com sua presença, me impressionar (ao invés de só me espantar). Confraternizar é negociar, ao invés de polarizar. Diferenças não significam, obrigatoriamente, inimizades, raiva e ódio. Confraternizar é resgatar a nossa essência de seres sociais por natureza, com a capacidade de utilizar a comunicação para nos expressarmos, trocar ideias e nos organizarmos. A cultura vigente, quer nos fazer crer que há uma competição permanente, fazendo com que meu irmão seja uma ameaça constante. Confraternizar é se colocar contra essa imposição cultural e nos inspirarmos nos nossos primos, os Bonobos. Confraternizar é deitar, sem medo, a cabeça no colo do outro e deixar que faça um cafuné, sem que se precise de um motivo, apenas pelo prazer de estarmos juntos.

Confraternizar é mais do que afeto, emoção. É uma posição política ou de cidadania. É se colocar contra as discriminações de raça, gênero ou credo, não como uma declaração genérica de boas intenções, mas como uma prática diária de atenção e combate às formas mais dissimuladas de racismo, sexismo e intolerância religiosa. Confraternizar é se expor, pelo outro.

Finalmente, para não deixar de falar nas crianças, confraternizar é respeitar a enorme criatividade dos nossos filhos, tomando o devido cuidado para que no processo de educa-los, não estejamos criando autômatos a serviço da economia (qualquer economia), mas seres humanos, emotivos, afetivos, inovadores, questionadores, respeitadores, integrados no mundo (e não destruindo o mundo e seus irmãos). Para isso, não bastam as palavras (de pais ou de um blog), é preciso o exemplo vivo, a ação, a prática da confraternização.

Para os que leem o blog, meu abraço fraterno, desejando a todos um Natal muito alegre.

PAIS HELICÓPTERO!

A vida não é fácil para ninguém. A vida pode ser boa, mas fácil, nunca é. A vida em si nos impõe dificuldades que se iniciam no nascimento. Nascer é um processo que tem lá seu grau de esforço e dificuldade, tanto para a mãe, quanto para o bebê. Depois, sucedem-se fases do desenvolvimento e amadurecimento que exigirão, por parte da criança, enfrentar e superar dificuldades inerentes a este processo. Das primeiras mamadas, aos primeiros dentes, seguindo para o esforço de engatinhar, ficar de pé e andar, ainda que naturais e comuns à nossa espécie, nada é “moleza”. Segue a vida e surgem as primeiras palavras. A linguagem é uma conquista que leva tempo e muito esforço. Temos ainda a socialização, a descoberta do outro e a frustração de um mundo que não está posto para me servir, com exclusividade. Vida que segue, regras e normas na escola, deveres, obrigações e um aprendizado de tantas coisas que não fazem sentido para nós. O despertar para o sexo oposto é um mundo de dúvidas e angústias. Ninguém vai olhar para mim, não sou suficientemente atraente ou, mais frequentemente, sou horrorosa ou horroroso! O que responder quando a família me pergunta- o que você quer ser quando crescer? Como vou saber? O resto da história, todos conhecem. Uma escolha profissional, uma escolha para constituir família, compromissos, obrigações, contas a pagar, ameaça de desemprego, plano de saúde que deixa a desejar e filhos. Ah, os filhos! Um novo mundo de amor, prazeres e alegrias se abre. Junto, novas dificuldades na vida cotidiana. Vejam que meu relato é superficial, abordando situações objetivas e visíveis. Mas a vida é muito mais do que isso que vemos. É o que sentimos e nem sempre falamos. É também o que se passa fora do mundo lógico, mas no simbólico, no mundo das emoções, nem sempre plenamente conscientes. A vida não é fácil para ninguém!
Se concordarem comigo de que a vida não é fácil para ninguém e ainda estiverem de acordo que pais, em geral, querem que seus filhos tenham vidas boas, felizes, plenas, vamos ter que rever o modelo de pais helicóptero, adotado por muitos. Mas o que seriam pais helicóptero? São pais que estão sobrevoando seus filhos, 24h por dia, 7 dias na semana, independentemente da idade que tenham. São pais que, apesar de saberem que a vida não é fácil, por algum mecanismo, confundem essa realidade com sofrimento. Esforço, superação de dificuldade, não é necessariamente sofrimento. Alguns pais não toleram a ideia de verem seus filhos fazendo um esforço (normal, desejável) que já descem de rapel do helicóptero ao resgate do filho. Os pais helicóptero ficam atentos à menor frustração vivida pelos filhos e, rapidamente, buscam elimina-la. Pais helicóptero não conseguem exercer sua autoridade legítima, impondo (escolhi esta palavra de propósito!) limites, porque temem que isso possa “traumatizar” seus filhos. Até situações evolutivas normais como a dentição, são vividos pelos pais helicóptero como um “problema” a ser “resolvido” e não como um processo natural que merece carinho e amparo, sem grandes dramas. De um modo muito simplista, pais helicóptero vivem a ilusão de que poderão evitar toda e qualquer dificuldade para seus filhos.
E qual o problema em ser um pai helicóptero? Afinal de contas, se conseguir evitar que meu filho sofra, não é melhor? Esta pergunta é ótima porque nos remete à confusão que citei acima. Esforço não é sinônimo de sofrimento. Longe de mim fazer a apologia de que o sofrimento é bom. Sofrimento, nunca é bom e merece ser atenuado, sempre que possível. Outro ponto importante é que, assumindo que a vida não é fácil para ninguém, como sustentar uma educação que impede a criança de enfrentar e superar dificuldades? Seria o mesmo que tentar ensinar uma criança a andar de bicicleta, sem nunca soltar o selim! Como esperar que nossos filhos sejam adultos resilientes, com capacidade de tolerar a frustração (que vivemos todos os dias em maior ou menor escala), que saibam se auto consolar, se, nunca lhes damos a oportunidade de desenvolver essas aptidões necessárias a uma vida harmônica em sociedade?
A questão é que, quando o bebê nasce e por uns bons meses, ele (o bebê) tem uma dependência absoluta dos pais. Nessa fase, temos todos que ser pais helicóptero! Temos que estar ali, sobrevoando o bebê, 24h por dia, 7 dias na semana, entendendo e antecipando suas necessidades. É uma fase em que esse cuidado absoluto é fundamental para o bom desenvolvimento e amadurecimento da criança. É o colo dos pais, associado ao cuidado com o ambiente em torno do bebê, de modo a que seja facilitador do desenvolvimento, que vai permitir que este desenvolva a capacidade que todos os bebês têm de amadurecimento. Não se “estraga” ou mima um bebê pequeno. O colo, o contato com os pais, não é um luxo e sim uma necessidade para que as fundações de um amadurecimento saudável sejam fixadas. Mas, há um momento em que, desta fase de dependência absoluta, o bebê passa para uma de dependência relativa. Neste momento, os pais devem aposentar o helicóptero (o cuidado absoluto) e passar a oferecer um cuidado relativo, coerente com a fase do filho. Assim, para cada fase dos nossos filhos, nós também devemos mudar o “perfil “do cuidado. Neste caso, onde pais abandonam o helicóptero, passam a oferecer o espaço necessário para que a criança se desenvolva, sem estar “sufocada” por um cuidado absoluto de que não precisa mais.
Não há uma fórmula que possa ensinar aos pais a quando deixarem o helicóptero de lado. Apenas recomendo que olhem para seus filhos (e não para o Google ou algum livro ou blog escrito por pediatra!) e ousem. Olhar cuidadoso associado a tentativas, erros e acertos, é o que funciona. Só não dá para imaginarmos que, para uma criança em evolução e amadurecimento, poderemos adotar uma forma única e contínua de sermos pais. À medida que a criança cresce, nós também temos que nos modificar e adequar nosso modo de interagir com os filhos.
A única coisa que não muda é o amor e afeto que sentimos. Este está presente sempre e é o que garante que pais que “falham” aos olhos dos filhos (deixar de ser pai helicóptero), pais que dizem não, pais que não tem receio de exercer a autoridade, sem autoritarismo, sejam amados por seus filhos, ainda que, na superfície reajam, briguem e esperneiem. Não temam essa superfície. É muito melhor ter uma superfície revolta do que uma tranquila, com correntezas profundas, perigosas e invisíveis. Estas, só se manifestarão mais tarde, em um adulto com dificuldades de viver uma vida boa, ainda que nada fácil!
Gostaria de agradecer à Fernanda, mãe da Ana Helena, que me apresentou à expressão pais helicóptero, inspirando este post.

DIA DA CRIANÇA E O NOBEL DE ECONOMIA.

Hoje, dia 12 de outubro, se comemora o dia da criança. Praticamente como todas as datas que celebram alguém, há forte cunho comercial que as criou e sustenta. Datas (mães, pais, namorados e crianças) vendem! Nada contra, afinal de contas a economia precisa se movimentar, gerando riqueza, empregos e melhoria do nível de vida de todos. Por falar em economia, nesta semana foi anunciado o vencedor do Prêmio Nobel de Economia. O vencedor deste ano foi Richard Thaler, professor de Ciências Comportamentais e Economia, na Universidade de Chicago. O prof. Thaler é um dos acadêmicos que estuda e divulga uma linha chamada de Economia Comportamental. Trata-se de uma abordagem que incorpora ao conhecimento de economia, boas doses de psicologia. Em 2002, outro pesquisador que segue a mesma linha, Daniel Kahneman, também recebeu o Nobel de Economia. De forma simplória (a ser criticada pelos eventuais economistas que leiam este post), a economia comportamental incorpora nas suas análises uma faceta irracional do comportamento humano. Uma linha mais “clássica” ou ortodoxa, crê firmemente que o ser humano tomará as melhores decisões, baseadas em uma análise lógica e buscando otimizar seus ganhos e/ou minimizar perdas ou riscos. Para estes estudiosos, seríamos um homo economicus, ator racional, cujo comportamento (tomada de decisões) é previsível e redutível a modelos matemáticos. Ocorre que a nossa história pessoal (sejamos sinceros, quantas decisões sem um fundamento racional tomamos? Ou, quantas decisões envelopamos em racionalidade apenas para não revelar um desejo irracional?) e coletiva (guerras, intolerância de toda espécie, machismo, obesidade, uso de tabaco) nos mostram que não podemos ser reduzidos a um modelo mecânico de uma máquina que pensa. Somos seres, indivíduos, com uma alta complexidade e vetores (muitos desconhecidos de nós) que nos impulsionam no percurso das nossas vidas. Nesse contexto, agraciar um pesquisador que introduz a irracionalidade e relativa imprevisibilidade no comportamento humano deveria nos fazer repensar o modelo vigente de privilegiar a lógica e racionalidade.

Se você chegou até aqui na leitura deste post, já deve estar se perguntado se eu deixei de ser pediatra e resolvi estudar economia! O elo que farei (me acompanhem neste salto!) é o de que crianças não precisam de um Prêmio Nobel para lembrá-las de que a irracionalidade é um atributo fundamental e inerente ao ser humano. Não é um atributo do homo economicus idealizado por alguns, mas do homo (quase) sapiens que somos.

Para começar, observemos um bebê com poucos dias de vida. É um ser humano, sem a menor capacidade de cognição, sem processar pensamentos de forma lógica, ordenada, analítica ou sistemática. É apenas uma esponja de sensações! Tudo que se passa ao seu redor é captado e absorvido, sem o filtro da racionalidade. Portanto, sem nenhuma possibilidade de discussão, a existência, repleta de estímulos e registros, precede a lógica e a racionalidade.

O bebê cresce e, dadas as boas condições, vai amadurecendo.  Esse amadurecimento leva um bom tempo e durante esse tempo, somos capazes de observar como um pensamento pré-lógico ou mágico infantil domina o universo da criança. Ainda não há espaço para metáforas, tudo é muito concreto. As fábulas lidas ou contadas, representam algo que, de fato, aconteceu ou acontece em algum lugar. Vestir-se de princesa ou homem aranha, não é uma fantasia. É uma transformação! Naquele momento a crianças se percebe e se sente como se princesa ou homem aranha fosse. As histórias que nossos filhos “inventam” são absolutamente fascinantes e dignas de serem registradas para que possam ser recontadas a eles mesmos, uma vez mais crescidos ou adultos. Isso, sem falar na criatividade que as crianças têm para inventar brinquedos, a partir de sucata doméstica ou realizar pinturas, modelagens e colagens. O medo, tão natural em crianças, é outra manifestação explícita e observável da fase de “irracionalidade” que precede a introdução da lógica no pensamento infantil. De forma resumida, a imensa criatividade das crianças é uma homenagem à irracionalidade. Para aqueles que ficam incomodados com o termo irracionalidade (contaminados que estamos com o valor da racionalidade), podemos usar a palavra simbolismo ou simbólico. A imensa criatividade das crianças é uma homenagem ao ser simbólico que elas exibem (e que nós temos vergonha de mostrar).

Neste dia da criança, como em outros, vale a pena pegarmos carona no Prêmio Nobel de Economia, para justificarmos uma boa dose de irracionalidade nos nossos atos. Amor, carinho e afeto não são lógicos ou racionais. Estar perto, estar junto, sem uma justificativa ou sem estar fazendo algo, simplesmente estando, não é lógico ou racional (não raro ficamos aflitos por não estarmos fazendo nada!). Fabular, inventar, criar, encenar, não é lógico nem racional. Vejam que tudo que nossos filhos querem de nós é que também sejamos irracionais!

Para concluir, um segredinho: se formos irracionais, nós vamos nos divertir também, e muito! Bom dia das crianças (todos os dias)!