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QUANDO TIRAR AS RODINHAS DA BICICLETA?

Como quase todas as boas perguntas, não há uma resposta certa. No entanto, neste caso, há uma resposta “universal”, que fere o senso comum do cuidar dos filhos ou crianças. Devemos tirar as rodinhas ANTES que a criança se sinta pronta para tal. Atenção à “pegadinha” na resposta. Antes que a criança SE SINTA pronta. Isto é, os pais deverão fazer um juízo de aptidão ou habilidade do seu filho, antes que este esteja seguro ou certo de que está pronto. Os pais terão que correr o risco de que o filho caia e, com toda certeza cairá. Não porque não esteja pronto. Pronto está, tanto que vai dar três ou quatro pedaladas e, somente quando perceber que não tem ninguém o segurando, vai bambolear e cair!

Em geral, crianças em torno dos três anos possuem a coordenação motora e força para pedalar. Nesta idade, a criança, depois de várias tentativas e erros, conseguirá “pilotar” um triciclo. Com o desenvolvimento motor, incluindo coordenação e força, passarão do triciclo para uma bicicleta com rodinhas. A mudança é radical para a criança. A bicicleta é mais alta e o equilíbrio, apesar das rodinhas, é instável. Em geral, a criança precisa de pouco ou nenhum apoio de um adulto para dominar a bicicleta com rodinhas. Quando a criança está absolutamente confortável pilotando sua bicicleta com rodinhas, demonstrando destreza, equilíbrio, coordenação que se manifestam por curvas bem feitas, nenhuma colisão com árvores, postes ou muros, nem o reflexo de colocar os pés no chão diante de qualquer risco, suposto ou real, é chegada a hora de tirar as rodinhas! 

A criança vive um misto de excitação e ansiedade. Por um lado, é tudo que deseja, por outro, sente certa insegurança normal e natural. Os pais por sua vez, ficam com o coração apertado porque sabem que seus filhos, obrigatoriamente cairão. Pais inseguros ou que não suportam a ideia de que os filhos cairão, terão grande dificuldade em ensina-los  a andar de bicicleta, eventualmente, privando-os de uma opção de  lazer ou esporte. 

O grande dia chega. A retirada das rodinhas se torna, praticamente, um ritual. Primeiro uma, depois a outra e ali no chão fica um momento da infância. Na bicicleta sustentada por um dos pais, o sinal de crescimento, o futuro. A criança se senta, desnecessário dizer que está usando capacete porque já o faz desde a época em que andava de triciclo. Em geral o pai ou a mãe seguram no selim e diz algo como: “estou te segurando, você não vai cair. está pronto?” Invariavelmente a criança diz algo como: “não vai me largar”. E lá vai a dupla… O pai ou a mãe do lado da bicicleta, correndo numa posição que não há coluna que resista, bufando e ainda tendo que dizer palavras de incentivo: “muito bem, está indo bem, continua, pedala!”. A criança, excitada, animada, bamboleia, olha para trás a cada 5 segundos, para se certificar que alguém está lá, segurando a bicicleta e dizendo: “olha para frente, não olha para mim, você está indo muito bem”. De repente, o pai ou a mãe solta o selim, para de correr e fica olhando aquele ser indefeso, seu filho, pedalando. Impossível resistir e um grito sai, involuntário e espontâneo: “isso meu filho, continua, continua”. A criança se dá conta de que a voz não está mais ali do seu lado, olha para trás e… cai! Lá vem um dos pais correndo, a vontade é de parar com aquilo de uma vez por todas, pegar o filho no colo e abandonar a bicicleta. Mas, o que faz essa mãe ou pai? Finge a maior serenidade do mundo e diz: “você estava ótimo, se não olhasse para trás não teria caído. Mas, não tem problema, vamos de novo” A criança pode resistir dar uma chorada e caberá a esse pai ou mãe não se deixar levar pela emoção de proteger seu filho e sim pela convicção de que esse é o caminho para se aprender a andar de bicicleta. Os pais também não devem temer um certo olhar furioso ou até uma acusação: “você me deixou cair”. A criança está no direito dela de reclamar e o que pais devem fazer não é vestir a carapuça da culpa e sim acolher essa “ira”, levantar a bicicleta e o filho do chão (verificando que está tudo bem) e dizer: “Vamos de novo. Agora vai ser melhor ainda”. Não tem como  se aprender a andar de bicicleta com uma mãe ou um pai, permanentemente segurando o selim. Para aprender, é preciso que os pais soltem o selim!

Tirar as rodinhas é algo que os pais decidem quando fazer e devem estar preparados para os tombos (choros e raivas) que se sucederão. Tirar as rodinhas não é só quando ensinamos nossos filhos a andar de bicicleta. Quando colocamos o bebê no seu quarto, não mais dormindo no dos pais, tiramos as rodinhas. Quando não atendemos a todas as demandas dos nossos filhos com um ano, deixando que se vire um pouco sozinho, tiramos as rodinhas. Quando dizemos não para o que deve ser negado, tiramos as rodinhas, deixando que os filhos desenvolvam mecanismos de auto consolo. Quando usamos nossa autoridade, sem medo de sermos autoritários, estabelecendo regras, horários, obrigações, de acordo com os valores da família, tiramos as rodinhas. Quando não protegemos nossos filhos diante de riscos calculados, deixando que encontrem a destreza e equilíbrio para superar os obstáculos, tiramos as rodinhas. 

Em todos esses momentos, tiramos as rodinhas quando o bebê, a criança ou o adolescente estão prontos, mas não sabem que estão. Se dependesse deles, continuariam usando rodinhas, para sempre! Por isso que nosso instinto de proteção, nossa dificuldade de lidar com os tombos que o crescimento impõe, em última análise, nossa dificuldade de perceber que filhos crescem, devem ser constantemente questionados.

Como pais, temos a obrigação de tirar as rodinhas e soltar o selim, se quisermos que nossos filhos sejam adultos seguros e felizes que saibam pedalar pela vida afora. 

LISTA DESEJOS DE UM PEDIATRA PARA 2017!

lista-de-desejos

Claro que desejo todas as “grandes coisas” que desejamos: saúde, paz, um país que saia da crise moral, política e econômica, uma cidade sem violência urbana e os cidadãos solidários e cordiais. Também desejo que o Trump acorde todos os dias de bom humor e não faça nenhuma besteira maior que interfira com o mundo. Gostaria de ver a descoberta da cura para várias doenças e que as pessoas adotassem hábitos de vida mais saudáveis, evitando ou diminuindo o seu adoecer. Adoraria que o mundo fosse um lugar mais solidário, com menos desigualdade. Mas, esses “grandes desejos”, não passam de um norte, um caminho a ser percorrido. Não acontecem da noite para o dia. Não acontecem só porque o calendário mudou de ano.

Eu tenho outra lista de desejos que é fruto da minha vivência de pediatra. Coisas que eu vejo no meu dia a dia, mesmo sem gravidade, que constariam da lista de desejos para 2017.  Não acho que estas também possam ocorrer da noite para o dia, numa virada de ano. Mas, dependem muito mais de nós mesmos (menos a primeira que é um sonho de todos!) do que as “grandes coisas”. Vamos a elas:

1- A descoberta da cura das viroses. Viroses são doenças agudas, de curtíssima duração (uma semana), mas que causam um enorme transtorno para todo mundo. Além do transtorno, deixam os pais muito inseguros. É uma semana com febre que vai e vem, perda de apetite, irritabilidade, choro inconsolável, muitas vezes com nariz escorrendo e tosse. Não raro, quando a criança fica boa, pega outra virose e parece que está doente o tempo todo. Seria uma maravilha se, em 2017, todas as crianças pudessem ir para suas creches com os pais tranquilos, sabendo que, em caso de uma virose, uma dose única da nova descoberta, resolveria!

2- O uso seletivo da internet. Informação é fundamental e a internet é uma maravilha para se obter informações. Ocorre que também é farta em mitos, erros, distorções, quando não informações totalmente falsas. Essas informações equivocadas geram insegurança ou comportamentos que colocam em risco a saúde dos filhos, como não vacina-los, por exemplo, por conta de mentiras lidas na internet. Ou adotar uma determinada alimentação restritiva, sem fundamento algum. Seria um espetáculo se, em 2017, os pais passassem a usar a internet para consultar sites institucionais, sites oficiais de sociedades médicas, sites de ministérios da saúde, do Brasil e do exterior, evitando aqueles que são baseados em relatos e testemunhos em detrimento de evidências científicas.

3- O abandono dos cursos para mães. Atualmente, existem cursos para quase tudo que se possa imaginar. Curso para o parto, para amamentar, para dar banho no bebê, para alimentar depois dos 6 meses. Cursos de música e natação para bebês. Breve, vão nos oferecer curso de inglês e sobrevivência na selva, para bebês menores de um ano de idade! A pergunta é: a quem interessam esses cursos? A resposta é uma só: aos donos dos cursos que enriquecem explorando a ideia de que alguém sabe fazer melhor do que a própria mãe e que esta “precisa” destas informações para ser uma “boa” mãe. Em bom português, exploram a insegurança normal que todos nós temos diante de algo novo e tão importante quanto um filho recém-nascido. Vamos considerar que estamos na terra, como espécie falante, há uns 70 mil anos. Como chegamos até aqui, hoje, 2016 entrando em 2017, sem curso algum, sem Google, sem pediatras? Chegamos aqui porque a espécie, como as demais espécies, tem um conhecimento intrínseco do que deve ser feito para cuidar da sua prole. O mais interessante é que, provavelmente, durante uns 60mil desses 70 mil anos, a nossa espécie não tinha lugar fixo para ficar. Éramos caçadores-coletadores, vagando pelo planeta, em grupos de até umas 100 pessoas. Portanto, imagine que, dentro do seu DNA, existe informação mais do que suficiente para você cuidar do seu bebê, sem que ninguém tenha que lhe ensinar como! Vai ser muito mais divertido se em 2017 as mães se rebelarem contra cursinhos disso e daquilo, tomando em suas mãos, com criatividade, individualidade e originalidade, o cuidado de seus bebês.

4- Amamentar no peito continua sendo o melhor, mas sem meta de quanto tempo. Amentar no peito, exclusivamente, por 6 meses, continua sendo o melhor para o bebê. Mas, seria ótimo se, em 2017, as mães deixassem de pensar nos 6 meses como uma meta e sim como uma referência. Quando pensam em meta, passam a ficar preocupadas se vão atingir a tal meta. Como um corredor de maratona que tem uma distância a cumprir. Se não cumprir, não completou a maratona, não tem sequer uma classificação. Amamentar não é como uma corrida com meta. Amamentar é um meio, não um fim em si. O fim em si, me parece, é o de oferecer o melhor possível para os nossos filhos. Se o melhor possível for o peito, ótimo. Se não for, ótimo também. A ideia de que é uma meta, gera insegurança e frustração nas mães. Abre espaço para “cursos” e “consultorias”. Estas, ao invés de contribuírem para a formação do vínculo entre mãe e bebê, deslocam o foco para a mãe-amamentação. Claro que vamos estimular e incentivar a amamentação exclusiva, sempre. Mas, vamos desejar que, em 2017, as mães se libertem da tirania de uma meta temporal de amamentação.

5- Ler para os filhos. Até hoje, o melhor método de estimular o desenvolvimento intelectual, cognitivo e criativo das crianças é a leitura. Ao invés da busca de métodos mais “modernos” ou que incorporem tecnologias (olha os cursinhos se aproveitando, de novo!), ler para os filhos, a partir de quando são bebês, é o melhor que podemos fazer para estimula-los. A leitura, diferentemente da tela eletrônica, do desenho, do filme, provoca a imaginação criativa da criança. Cada criança terá que “inventar” o seu sapo, sua lagoa, seus três porquinhos, sua princesa etc. Além desse aspecto, a leitura com os pais é um momento de vínculo afetivo, contato físico e, porque não, de criatividade para os adultos que devem modular a voz, adequando-a à história. Ou, melhor ainda, quando a história toda é uma criação dos pais. Ler tem um ritmo que é mais sereno e calmo do que o estímulo eletrônico e contribui para o desenvolvimento de algo importante na vida adulta que é a capacidade de se concentrar por períodos mais longos. Claro que não vamos ler um romance russo para os bebês, mas, para ler um clássico na vida adulta, é preciso começar com um sapo na lagoa, por exemplo. À medida que os filhos crescem, a leitura junto passa a ser menos importante e o exemplo, em casa, de pais que leem se torna importante. Portanto, filhos podem nos ajudar a aderir a novos hábitos saudáveis e prazerosos, como a leitura (alimentação, exercícios etc.).

6- O triunfo da emoção sobre a razão. Vivemos em um mundo que faz muita propaganda da nossa racionalidade. Mas, fala pouco ou desdenha nossa emotividade. Ora, nossa emotividade precede nossa razão. O bebê é emoção pura e se comunica com seus pais, por um bom período, através desta. O afeto e acolhimento que damos aos bebês são fundamentais. Não dá para deixar um bebê no colo e “explicar”  que o amamos ou o que está acontecendo. A única linguagem que um bebê entende é colo e carinho. Crescemos e continuamos sendo seres simbólicos, antes de sermos racionais. Vemos uma pessoa que não conhecemos na rua e temos um sentimento de simpatia, espanto, curiosidade, medo etc. Esses sentimentos, reais, precedem conhecermos a pessoa para podermos fazer um “juízo” racional a respeito dela. Mas, a cultura divulga a razão como superior. Divulga a eficiência como sendo um objetivo de vida, quando a vida não é para ser eficiente e sim alegre, feliz, realizada etc. Eficiência é para empresas e seres humanos e suas famílias não são empresas. Assim, encerro esta minha lista de desejos com este: que possamos ser emotivos e afetivos com nossos filhos e próximos, sem receio de que seja algo menor ou que interfira na nossa capacidade de sermos racionais. Não se trata de escolhermos entre racionais ou emocionais. Mesmo porque, essa escolha já foi feita muito antes, à nossa revelia e veio pronta dentro do nosso DNA. Somos ambos e não adiante tentar esconder um lado porque o preço a pagar é caro. Se formos mais emotivos, em 2017, equilibrando esse desbalanço cultural, daremos aos nossos filhos um exemplo que fará com que a vida deles possa ser mais feliz e harmônica.

Que 2017 seja um ano divertido para todos !

 

PAPAI NOEL EXISTE?

Ora, até uma criança sabe a resposta a essa pergunta: claro que existe! Existe porque somos seres simbólicos e adoramos uma fábula. E não sãosanta só nossos filhos que adoram uma historinha. Nós adultos, mantemos esse fascínio por fábulas. Claro que não são mais histórias de princesas, dragões, porquinhos e bruxas. Mas, adoramos ouvir fábulas de suplementos, vitaminas, cremes, alimentos que fazem isso ou aquilo, novos exercícios que fazem perder milhares de calorias em poucos minutos, métodos para mantermos a memória ou aumentarmos a libido, livros que garantem a felicidade plena em 10 passos, sem esquecer a quantidade de pessoas que devolvem a pessoa amada em três dias! A lista de fábulas que nós adultos nos contamos mutuamente é interminável. E ainda temos a ousadia de questionarmos se Papai Noel existe!

A fábula tem uma função importante no desenvolvimento das crianças ao estimular a criatividade e contribuir para que elas lidem com as questões da vida, inicialmente de forma lúdica. Nesse contexto, não há nenhuma discussão a respeito da existência do Papai Noel. Só nos resta definir que Papai Noel vai existir. Como assim, existe mais de um Papai Noel? Sendo uma narrativa, existirão tantos Papais Noel quantas narrativas existirem. Mas, basicamente, existem dois Papais Noel e devemos escolher qual deles será o que vamos apresentar aos nossos filhos.

Existe o Papai Noel que representa a sociedade de consumo, trazendo presentes, se tornando o destinatário de listas intermináveis de pedidos. De alguma forma, esse Papai Noel existirá em todas as narrativas porque vivemos em uma sociedade onde o consumo é algo hipertrofiado e que, muitas vezes, preenche vazios existenciais das pessoas. Esse vazio não é só dos adultos que acabam confundindo ser com ter. Para muitos, o que eu tenho define quem eu sou. Como a possibilidade de ter é sempre infinita, a sensação de ser é frágil e sujeita aos modismos de consumo. Assim que eu acabo de comprar o tablet de última geração, me tornando alguém, lançam outro e passo a me sentir vulnerável, inseguro, por não TER o último modelo. Se os pais são consumistas ou mesmo que não sejam, mas por vários motivos se sintam “devedores” dos filhos (trabalham muito, por exemplo), podem tentar “compensar” com a compra de presentes. Esse Papai Noel é o do comércio que tenta nos confundir com mensagens que embaralham objetos, coisas, com afeto e emoção. Esse Papai Noel de listas enormes e pouco ou nenhum limite, é uma narrativa que ensinará nossos filhos a se tornarem consumidores vorazes, muitas vezes na tentativa de preencher uma lacuna que não é de coisas materiais. Esse é o Papai Noel que incentiva o egocentrismo porque a minha felicidade está em ter o que o outro não tem.

Existe um outro Papai Noel que representa a bondade, solidariedade e generosidade. Um Papai Noel que fala sobre quem somos, antes de falar sobre o que temos. Um Papai Noel que recebe uma cartinha onde eu conto o que eu fiz no ano que passou e não só uma lista do que eu quero. Quando pedimos a nossos filhos que escrevam contando o que fizeram, estamos dando a oportunidade (e o aprendizado) de que parem um minuto para pensar nas suas realizações e não só nos seus desejos de possuir algo.  Um Papai Noel que tem limites nas possibilidades de presentear, que associa presentes a algum mérito e que coloca cada criança como fazendo parte de um universo de outras crianças (ele tem muito trabalho, precisa visitar todas as crianças), fazendo com que cada uma se sinta especial, mas não única. Esse Papai Noel é o do afeto e do carinho. É o que ensinará nossos filhos que as coisas (objetos) fazem parte das nossas vidas e nos dão muito prazer, mas que nossa felicidade não pode ser definida pelo que temos e sim por quem somos. Somos humanos e como tal, seres carregados de emoção e empatia, além de, também, sermos racionais. Somos, originalmente, gregários, dependendo uns dos outros. Podemos (e somos) diferentes em muitas coisas, mas, nem melhores, nem piores do que ninguém. Esse é o Papai Noel que incentiva a solidariedade porque, diferente do que ocorre com objetos, quanto mais dividimos emoções e sentimentos, mais se multiplicam.

Cada família vai escolher qual narrativa de Papai Noel quer para si e, consequentemente, para seus filhos.

Um Natal alegre e afetivo para todos!

A MALA DE CADA UM!

mala

Em um dos meus posts  comentei sobre o fato de que cada bebê chega com o seu manual. Na entrevista que dei para o Roberto D’Ávila ele me perguntou se bebês vinham com bula e eu respondi que sim, para surpresa do meu entrevistador. Tanto a metáfora do manual quanto a da bula significam que não existe conhecimento maior sobre aquele bebê específico do que o que aqueles pais já têm e vão ampliar. O Google, pediatras, avós, grupos de mães do facebook, não sabem nada a respeito daquele bebê, único. O que todos sabemos são generalidades que nos ajudam, orientam e norteiam, mas, que não dão conta das especificidades daquele bebê.

Do mesmo modo que todos os bebês chegam com um manual, me ocorreu que também trazem, desde o nascimento, uma mala. De início, é uma mala que vem com a etiqueta de identificação do bebê- seu genoma. A mala, por enquanto está vazia e leve. Mas, muito rapidamente, os pais começam, sem se dar conta, colocar coisas nessa mala.

Que coisas? Em geral, as definições, descrições, de quem é o bebê. Começa um longo período onde os pais literalmente fabulam a respeito dos seus filhos. Estes, ainda na impossibilidade de se comunicarem na linguagem dos adultos, vão tendo a sua mala preenchida com pequenas declarações como: ele tem uma personalidade muito forte, ela só gosta de dormir em cima do braço esquerdo, ela é muito inteligente, ele é exatamente como eu, até prisão de ventre tem! A lista poderia continuar, mas é sempre uma criação do adulto, a partir da percepção do bebê. E a mala desse ser humano vai sendo recheada. Nem sempre o recheio é o de “rótulos” de como aquela pessoa é percebida pelos seus pais. Pode estar sendo recheada de advertências, cautelas, proteções e restrições. Muitas, essenciais e importantes. Outras, nem tanto. As fundamentais, não pesam, mas, os excessos de zelo podem se tornar um peso adicional. O recheio também pode ser de admiração, orgulho, carinho e amor. Eu diria que esses sentimentos nem seriam um recheio, funcionando  mais como rodinhas que facilitarão o transporte dessa mala, pela vida afora.

Com o crescimento, não só as percepções a respeito da criança vão sendo revistas, atualizadas, como acontecem as comparações com irmãos, primos, outras crianças. Não raro, a comparação é feita com os pais, quando estes eram pequenos. Essa é a contribuição dos avós para a mala dos netos: ela é igualzinha a você quando tinha essa idade, não sei de onde vem esse gênio- tão diferente de você!

Já viram que a mala vai ficando mais pesada, à medida que a criança cresce! O mais curioso é que, numa família, não raro, cada membro passa a representar um “tipo” de mala. Tem o primo que é meio esquisito, caladão, antissocial. Na mala dele a família coloca esses traços, de todos. Tem a tia maluquinha, e lá vão todas as loucurinhas da família para dentro da mala da tia. Tem o talentoso, bem-sucedido, tem o que não presta para nada, tem a de saúde fraca e a egoísta. Cada um com a sua mala “principal” onde o restante da família exclui da sua mala aquele traço, transferindo-o  para um só membro.

Claro que estou exagerando nas tintas, apenas para que o quadro chame a atenção. O que eu gostaria de compartilhar com vocês é o fato de que, pertencendo a famílias, não somos unidades autônomas, independentes, exclusivamente moldados por nosso genoma.  Do mesmo modo que um povo, uma etnia, uma nação, tem seu comportamento moldado por sua cultura- uma séria de crenças e valores compartilhados- também na família somos fortemente influenciados por uma dinâmica que não é tão visível assim.

Qual a aplicação prática deste conhecimento? Diria que pouco importa uma aplicação prática. O que importa é termos a consciência de que, o comportamento humano, normal, inclui fabular sobre nossos filhos, criar uma história para cada um deles e, à medida que crescem e, sem nos darmos contas, transferir para outros membros da família, aspectos que são de todos. Em geral, são os aspectos que nos incomodam e que preferimos ver atribuído a outro do que a mim.

Acredito que parte do trabalho do pediatra deva ser o de ajudar os pais a deixarem a mala dos seus filhos a mais leve possível, pontuando, quando for o caso, o risco de uma transferência de conteúdo que leve excesso de peso na bagagem da criança. Diferentemente de uma viagem aérea onde se paga um valor e a mala segue viagem no bagageiro, na vida, uma mala com excesso de peso pode significar a diferença entre caminhar e se arrastar. Pode tornar a vida um esforço permanente, com uma sensação mal definida de algo que puxa a pessoa para baixo, como se a gravidade fosse muito maior. Antes mesmo de ajudar os pais a não colocar excesso de peso na mala dos filhos, o pediatra pode estimular a instalação das rodinhas de carinho e afeto que contribuem tanto para a auto estima e segurança do bebê.

O manual, como a mala, é invisível. Mas, só porque não podem ser vistos, não significa que não existam. Alguém já viu uma onda de rádio ou tv? Alguma dúvida de que exista?  Negar a existência do manual é perder a chance de ousar, errar, aprender, mas, amar, criar e educar o seu filho e não o filho médio dos livros. Negar a existência da mala pode significar deixar para seu filho um peso que não lhe pertence.  Podemos fazer com que a viagem dos nossos filhos, pela vida, seja bem mais leve. Basta lhe dar as rodinhas e  não colocar na mala dele, o que não lhe pertence!

PÁSCOA!

Easter-Eggs

Hoje, o mundo cristão celebra a sua Páscoa. Em menos de um mês, no dia 22 de abril, o mundo judaico celebra a sua Pesach.  É uma festa alegre, para ambas as religiões porque evoca a renovação e a libertação.  Portanto, o simbolismo da Páscoa, mesmo para as pessoas que não professam nenhuma fé religiosa é muito bonito e nos toca, diretamente. Nos toca porque fala de uma esperança, não aquela mágica ou milagrosa, mas uma que podemos incorporar no nosso cotidiano. Todos nós podemos almejar e agir, no sentido de vermos nossas vidas renovadas. Talvez um dos nossos equívocos, humanos, seja o de só fazer o registro do grande evento, do acontecimento surpreendente, sem notar as pequenas, porém significativos pequenos eventos do nosso dia a dia. Assim, a renovação só seria percebida quando uma mega sena batesse à nossa porta, mudando, radicalmente, nossas vidas. Mas, a pergunta que fica no ar, com a celebração das páscoas (cristã e judaica) é se não há uma renovação possível no nosso cotidiano?  Uma que não seja espetacular, feérica, retumbante, simplesmente aconteça, pequena e discreta?  Do mesmo modo, nos queixamos de rotinas que mais parecem nos escravizar e, novamente, as páscoas nos provocam a buscar, não uma fuga do Egito com o mar se abrindo (isso sim seria algo realmente espetacular!), mas uma libertação cotidiana. Tanto a renovação e a libertação de que fala o simbolismo das páscoas, depende mais de nós do que de uma intervenção externa, maior, divina.

Como então fazer acontecer essa renovação e libertação cotidiana? Se eu soubesse a resposta já teria escrito um best seller de autoajuda e estaria milionário! Como não tenho respostas, me propus, hoje, a olhar para minha inspiração profissional e grande prazer da vida- a criança. Estou convencido de que nós adultos perdemos oportunidades incríveis por não olharmos para as crianças como mentoras, tutoras, mestras, na arte do viver de forma renovada e livre. Claro que temos nossas responsabilidades como educadores, apresentadores do mundo, introdutores dos limites, necessários ao bom desenvolvimento de nossos filhos. Mas, hoje, apenas como exercício lúdico, como uma brincadeira de páscoa, vamos olhar para nossos filhos como professores de vida. O que podemos aprender com eles? Sem ser por ordem de prioridade ou até relacionando tudo que podemos aprender, proponho, a seguir, algumas coisas que poderíamos aprender (ou rememorar) com as crianças.

1- Tempo- Em um mundo veloz, eletronicamente conectado, instantâneo, tempo é um bem que se torna escasso. Falta tempo, sempre. Se eu tivesse mais tempo é um sonho de muitos. Tempo é dinheiro e este se tornou medida de eficiência. Se você é bom no que faz isso se reflete no quanto você ganha.  Os versos de Pessoa se tornam uma realidade (cruel?):

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:  

“Navegar é preciso; viver não é preciso”.  

Crianças não precisam navegar, só viver. Viver para o prazer das descobertas, do afeto, do jogo. Crianças não precisam chegar ao cais, bater metas, cumprir objetivos. Crianças vivem e ponto.

Não sou ingênuo a ponto de propor que deixemos de lado nossas obrigações e compromissos. Apenas sugiro que, como movimento de renovação e libertação, nos demos conta da importância que é viver (ainda que navegar seja preciso), hoje. Com frequência nos iludimos com o “depois”. Primeiro farei isso, para depois então usufruir e viver. Que tal pensarmos em trazer esse depois para hoje?

2- Certezas e convicções- para muitos de nós, a vida adulta se caracteriza por certezas e convicções bem estabelecidas. Temos um senso de estética bem definido, valores morais desenhados, sabemos como o mundo “deveria ser” para que fosse um lugar melhor. Esse “deveria ser” é exatamente o nosso conjunto de certezas e convicções. Não raro, nos tornamos prisioneiros de nossas convicções. Como olhar para algo que acreditei por tanto tempo, com um olhar crítico?  Crianças não possuem sistemas de crenças estabelecidos. São, por definição, a curiosidade ambulante. Não raro, suas perguntas nos deixam impactados e sem respostas, apesar de todas nossas convicções. Papai, porque você passou pelo sinal vermelho? Mamãe porque você disse para aquele moço que você não tinha um trocado? Crianças estão livres para a descoberta do mundo, sua imensidão, contradições e paradoxos, sem uma moldura rígida que a vida adulta nos dará (e muitos vamos sentir orgulho de andar para lá e para cá com nossas molduras, ainda que barrocas!). Certezas e convicções nos afastam de pensar de forma diferente, de ampliar nossos horizontes e, em última análise, de poder interagir de forma respeitosa com um ser humano que não pense como eu.

Claro que não estou propondo um viver sem norte, sem rumo, sem valores pessoais. Seria tolice ou imaturidade minha. Mas, frequentemente, existe um rigor nas nossas convicções que podemos tornar mais maleáveis, aprendendo com as crianças a manter um olhar de curiosidade e espanto, sem juízo de valores, para a imensidão do mundo.

3- Ser e ter- Muito se falou e escreveu sobre sociedade de consumo e a forma como ter algo passou a substituir o ser alguém. Sou reconhecido pelo que tenho (carro, bolsa, casa, caneta etc.) e não pelo que sou (simpático, chato, ranzinza, bem-humorado, culto etc.).  Ser, aparentemente, perdeu seu valor para o ter. Plagiando o Pessoa do início deste blog:  ter é preciso; ser não é preciso não!  Crianças adoram ter, dirão alguns dos leitores deste blog. Sem dúvida que adoram ter, mas, antes desse gostar (que é estimulado por nós, adultos), crianças são. Sua existência não é dada por uma posse, mas por um afeto existencial. O colo, o peito, o acolhimento, fazem o bebê poder formar uma identidade (se tornar um ser), antes que qualquer noção de posse ou propriedade se instale (sei que os psi me dirão que existe posse que não é de objetos e coisas, mas, peço uma trégua teórica para o pediatra!). A noção de ter algo e mais, desejar ter esse algo, só se instala em uma criança maior, estimulada por nós adultos. Tanto isso é um fato que, não raro, crianças se divertem mais abrindo os presentes, rasgando os papéis, brincando com as fitas, do que com o objeto em si.

Evidentemente que, vivendo numa sociedade de consumo, não poderia advogar em favor de um desprendimento total e absoluto. Mas, o que podemos aprender com nossos filhos é que ser precede o ter. Mais do que aprender, buscar reviver essa memória porque já fomos bebês e nos formamos em seres, antes de termos tudo que temos hoje. Ser, neste caso significaria olhar para si, para seus desejos que não exclusivamente materiais e buscar a realização através destes também. O vazio existencial não pode ser preenchido por pela compra de objetos. Nos tornamos adictos de objetos e a cada “soluço existencial” temos que ir às compras! Quem sabe, um mergulho nas águas dos nossos desejos imateriais como os afetivos, amorosos ou mesmo de realização através de novos conhecimentos e aptidões, não diretamente relacionados a uma profissão ou produtividade, nos façam sentir mais tranquilos. Talvez, desta forma, possamos ser quem somos para nossos filhos, sem a necessidade de darmos, continuadamente, coisas para eles.

Paro por aqui, na expectativa de que cada leitor continue esta relação de aprendizados que podemos ter com nossas crianças. Elas são a representação viva da Páscoa: livres e em constante renovação.

FELIZ PÁSCOA (todos os dias)!

 

POR QUE MULHERES NOS ASSUSTAM?

mulher chagallComo ser original no dia Internacional da Mulher? Me ocorreu escrever algo sobre nós homens, diante das mulheres. Escolhi começar por uma pergunta muito provocadora que, provavelmente, vai gerar um certo olhar crítico, um levantar de sobrancelhas e uma cara de  desdém por parte dos meus pares masculinos. Para estes, começo por dizer que não sou filósofo, psicanalista, sociólogo ou antropólogo. Sou apenas um pediatra que está escrevendo sobre um assunto que me diz respeito na medida em que nós cuidamos da saúde das crianças visando também a sua vida adulta. E me alinho com aqueles que consideram uma vida saudável não apenas a ausência de doença, mas, a capacidade de se relacionar, interagir, respeitar diferenças, defender a liberdade e a dignidade humana. Uma sociedade saudável, essa que aparentemente todos nós desejamos, não acontece por um pensamento mágico. Ela é construída a partir de indivíduos que se comprometam com determinados valores como os que acabei de citar. 

Para começar, quem disse que mulheres nos assustam? Ninguém disse, mas eu fico pensando que se um ser humano como eu, é tratado de forma violenta, agredido, assassinado, de um modo tão intensivo quanto as mulheres são, deve haver algum sentimento muito forte que motive essa atitude bárbara. Se uma pessoa como eu, fazendo o mesmo trabalho do que eu, recebe menos do que eu, deve haver alguma percepção de desvalor que justifique essa desigualdade. Se a minha sexualidade pode ser explícita, minhas conquistas amorosas expostas com orgulho, minha roupa ser a que eu escolher, mas se exigir da mulher, recato, pudor, passividade e constrangimento com o erótico, deve haver alguma ameaça muito grande que explique esse comportamento. 

Eu poderia continuar com outros exemplos de como a mulher é desrespeitada, discriminada, desvalorizada. Basta olhar em torno para vermos, em toda parte, uma sociedade que é organizada em torno do homem, apesar de hoje, mais da metade dos domicílios brasileiros terem uma mulher como “chefe de família”.  Só para brincar com ideias, imaginem um diretor de empresa que, às 16h pede desculpas por não poder participar da reunião porque tem que buscar seus filhos na escola. Muito provavelmente será percebido como um pai participativo, amoroso, atuante. Agora, imaginemos a diretora que faz o mesmo. Muito provavelmente será vista como pouco comprometida com o trabalho ou empresa (e nós homens, na discrição da fofoca diremos- é o que dá colocar uma mulher na diretoria!). 

Mas, que sentimento é esse que nos faz tratar da mulher dessa forma? Claro que não é um só. Nunca é. Quero pensar a respeito de um que, salvo melhor juízo, aparece de forma disfarçada sob nomes mais “técnicos”: preconceito, machismo etc. Quero sugerir que nós homens temos medo das mulheres! O medo explicaria muito desse nosso comportamento. Medo de um ser mais frágil, menor do que nós? Que medo é esse?  

Temos medo do que na mulher é muito mais forte do que nós. E não são poucas coisas! Vamos começar pelo começo. O começo é a gravidez. É onde tudo e todos nós começamos. Quem tem essa capacidade, competência e sabedoria, é a mulher. A força de levar a vida adiante. Temos nossa contribuição, é óbvio. Mas, uma vez que a vida se instalou, só a mulher tem essa capacidade de leva-la adiante, até o momento em que esteja pronta (essa criança) a nos ser apresentada. Portanto, não só a mulher sustenta e suporta a nova vida, como a conhece muito antes de nós! A conhece em um nível que nós homens nem somos capazes de imaginar. Temos medo dessa força enorme! E mais, toda gravidez, em tese, nos coloca diante da insegurança da infidelidade. Nós os conquistadores gabolas, os sedutores irresistíveis, podemos não ser o pai daquela criança. Mas ela, mulher, tem a certeza de que é a mãe (ainda que ela mesmo não tenha de quem seja o pai). Certeza absoluta versus insegurança relativa, quem detém a força? Quem fica com medo?

Não satisfeita em assegurar que o bebê se desenvolva, a mulher, num ato de injustiça complementar da natureza, produz leite! Se ao menos ela ficasse grávida e nós produzíssemos leite, ainda daria para equilibrar um pouco essa história. Mas, não! Ela fica grávida e ela amamenta. Tudo ela! E tudo para o bebê, nada para mim. Nunca vou confessar isso em público, mas olha o medo de perder a minha mulher se instalando em mim! Ser pai vai incluir reconquistar essa mulher, separando-a do bebê, deixando bem claro que esta mulher é minha. Pais que fazem isso, entendem o que é a paternidade e aliviam seus filhos de um sentimento de disputa. Mas, até para se fazer esse gesto fundamental de interditar o filho à sua mãe, dá medo. Muitos não o fazem e as consequências para todos, mas, principalmente para os filhos podem ser terríveis.

Vamos dar um pulo no tempo, até a adolescência. Lá estamos nós, meninos e meninas, com uma overdose de hormônios circulando. Sexo passa a ser algo interessante. Misterioso, desconhecido, mas muito desejado. Ouvimos histórias dos mais velhos, todos “pescadores” contando lorotas. Lorotas que estabelecem um nível de excelência e performance que somente atletas sexuais olímpicos atingem. E lá estamos nós, diante da mulher. Se ela toma a iniciativa, ouso dizer que, na adolescência sairíamos correndo. Se ela não toma que seja dócil e passiva porque eu já estou assustado demais comigo mesmo. O medo do “fiasco” me obriga a desqualificar minha cúmplice.

Crescemos, a adolescência ficou para trás. Com ela, o medo. Certo? Errado! Millôr Fernandes dizia que a mulher tem uma enorme vantagem sobre o homem: “pode animar no meio”. Nós, temos que “largar animados”. Nesse cenário, quem tem mais medo?

Mudemos de prosa, uma vez mais. A mulher pensa diferente de nós. Ela é “complicada” demais. Mulher pensa diferente de nós porque usa mais recursos do que nós. Somos fortes e lógicos. Uma combinação que nos impede de pedir instruções, nem quando perdidos em uma estrada em país estrangeiro. Mulheres podem ser lógicas, como podem não o ser. Mulheres podem ser intuitivas, irracionais, ouvindo outros recantos da cabeça e do corpo. Ora, se a minha caixa de ferramentas só tem um martelo e a da mulher tem uma coleção completa, quem tem mais “força” para resolver problemas? Força assusta, mete medo!

E, para concluir, se com toda essa força, a mulher ainda é capaz de aninhar no nosso colo e dizer: me abraça com vontade porque eu adoro quando você faz isso, demonstrando uma aparente fragilidade que apenas reflete o entendimento que elas têm de nós (eles precisam se sentir os protetores!), não nos resta outra coisa a não ser ter muito medo.

Ou então, abrir mão desse lugar tão árido onde nos colocamos e passar a olhar a mulher com a admiração, respeito e consideração que ela, legitimamente merece. Não é um favor ou concessão que faremos. É o reconhecimento pleno dessa beleza diferente da nossa (sim, temos a nossa!)  e que não precisamos sufocar, excluir, denegrir porque não é uma ameaça, mas uma solução para a vida.

E o pediatra? O pediatra dirá que para que tenhamos uma sociedade saudável é preciso cuidar para que nossos meninos não herdem o que herdamos (nem nossas meninas). É preciso construir uma imagem da mulher que seja mais real e verdadeira do que essa que nos assusta e nos faz dizer e agir de forma bárbara. É preciso que libertemos nossos filhos e filhas de paradigmas falsos dando a eles a chance de uma vida mais harmônica e amorosa. Uma vida que as mulheres sabem nos ensinar. Basta querer aprender.

 

Para Carolina, filha, hoje mulher adulta, que muito me ensinou e ensina. Que ela persevere na sua busca por um sociedade mais respeitosa e acolhedora para as mulheres. 

SE EU SOU O ESPECIALISTA, QUEM É VOCÊ?

Muitas vezes sequer nos damos conta do poder das palavras.  Palavras em si não passam de um amontoado de letrinhas. Só fazem sentido quandobomb_hidr se transformam em um símbolo (imagem, conceito etc.). Quando escrevo as letras asac você certamente vai parar um minuto porque nada lhe veio à mente. No entanto, tecnicamente, é uma palavra. É uma palavra inexistente porque a ela não temos nenhum significado atrelado, amarrado. Agora, quando eu escrevo casa, você imediatamente fez uma imagem mental e “entendeu” a palavra. Esta é uma palavra existente porque ela faz sentido, ao menos para nós que usamos a língua portuguesa.

O poder das palavras, por ser simbólico, faz um curto-circuito na nossa racionalidade. Veja, por exemplo, se você se sentiria igualmente confortável comprando um carro usado ou um seminovo? Racionalmente, concordamos que ambas as palavras se referem a carros que já tiveram algum uso ou que não são zero km. Nenhuma das duas palavras define claramente, quanto uso o carro teve. No entanto, seminovo parece melhor do que usado!

Um outro exemplo, este no campo da saúde, é aquele lugar onde realizamos exames complementares. Aqui, já introduzi uma palavra que é conhecida dos médicos, mas, pouco ou nada usada pela população. Me refiro à palavra complementares. Complementar a o quê? Essa seria a pergunta a ser feita. Ora, os exames são complementares a uma consulta médica que inclua uma boa entrevista (anamnese) e exame físico. Isso, hoje em dia, é raro. Frequentemente o próprio paciente já chega no médico com exames que ele fez, “para ganhar tempo”. Um dos motivos está no uso das palavras e os botões que elas apertam no nosso pensamento. O lugar onde realizamos exames complementares se chamavam laboratório de análises clínicas ou simplesmente, laboratório. A imagem que nos vêm à cabeça é de um lugar cheio de vidros e reagentes. Hoje, o mesmo lugar se chama centro de medicina diagnóstica! O que nos vêm à mente? Que é neste lugar que terei meu diagnóstico feito, bastando levar ao médico para que este prescreva o tratamento mais adequado, ganhando, assim, tempo. O que mudou? Apenas o nome do lugar, mas o impacto em nós é radicalmente diferente. Impacto, neste caso que nos leva a um erro de entendimento do seja a consulta médica e um exame complementar.

Espero que, com esses dois exemplos, tenhamos entendido que palavras são poderosas porque transportam símbolos que significam algo para nós. Essa é a lógica de uma marca. Quando determinada marca é dita ou escrita, já “entendemos tudo”. Não há necessidade de explicarmos o que seja uma Bic. Tudo já está dito com a marca. Se eu escrevo Shell, ninguém pensa em sorvete (claro que um detalhista me dirá- mas, tem a loja de conveniências…). Assim, posso chegar na palavra que é o objeto deste post (finalmente!): ESPECIALISTA.

O que essa palavra nos faz pensar? Em alguém que tem um conhecimento profundo de algo especial ou específico. Alguém que dedicou anos da sua vida estudando e/ou praticando determinada atividade que o torne detentor de um saber, conhecimento ou prática muito acima daquela que nós possuímos. Um especialista sabe algo que eu não sei. Ou sabe muito mais sobre algo que eu conheço um pouco. Nesse sentido, se eu sou um especialista em algo, quem é você? Essa a pergunta do post! Não sei o que vocês responderiam, mas eu sei o que eu diria se me fizessem essa pergunta. Eu responderia que eu sou um ignorante (total ou parcial) no assunto e que o conhecimento do especialista poderá, dependendo da situação, resolver algo para o qual eu não tenho competência. Exemplos: um pintor de paredes, um eletricista, um encanador, são especialistas que sabem o que eu não sei e resolverão um problema que eu tenho o virei a ter nessas áreas do conhecimento. E, se eu tiver um problema nessas áreas, eu dependo de um especialista para me tirar daquela situação problemática.

Vou tentar resumir, em palavras isoladas, o que é um especialista e o que ele pode representar para as pessoas: conhecimento maior do que o meu; sabe o que eu não sei; dependência desse conhecimento para resolução de problemas.

Se estivermos de acordo até aqui, podemos dizer que especialistas são pessoas muito necessárias para resolver situações especiais, para as quais não temos competência, conhecimento ou habilidades. Portanto, para utilizarmos um especialista, é preciso que haja um problema ou situação para a qual não nos sentimos capazes de resolver. Ocorre que, com a valorização da tecnologia e o acesso global à informação, houve uma hiper valorização do conhecimento “científico”, como se este fosse a única forma de saber válida. O conhecimento científico é algo que um especialista domina. Portanto, se só o conhecimento científico é válido, eliminando-se a tradição, o bom senso, a intuição e a experiência, praticamente tudo que fizermos na vida vai precisar de um especialista. Sem um especialista eu posso errar porque eu não sei o que ele sabe. Passo, não só a desvalorizar qualquer forma de conhecimento que eu possa ter, como sentir insegurança e paralisia diante das situações habituais da vida cotidiana.

Vamos deixar bem claro que o conhecimento científico é uma conquista da evolução intelectual do ser humano. O método científico nos ajuda a superar nossas ignorâncias e até a reduzir mitos e crendices. Mas, não pode, nem se propõe a ser um novo mito, ainda que muitos a entendam assim. No século XVIII, William Cowper, um poeta inglês disse: ” A ciência é orgulhosa por tanto saber; a sabedoria é humilde por não saber mais.” Existe, portanto, algo que vai além do conhecimento científico que é, para usarmos uma só palavra, a sabedoria. A sabedoria é composta do conhecimento científico, mas bebe nas outras fontes que eu citei:  tradição, o bom senso, a intuição e a experiência.

Sabedoria não é exclusividade de quem estudou algo. Sabedoria não depende de nível social ou econômico. Todos nós temos alguma forma de sabedoria. E, quando o assunto é viver ou sobreviver, todos nós temos muita sabedoria acumulada. A questão é que em um mundo tecnológico, com uma mistificação da ciência e, pior, da pseudociência, nossa sabedoria ficou escondida, acanhada, envergonhada. Pior, toda vez que eu penso em usá-la, o meu entorno, o facebook e o google, me dizem que estou errado! Só um louco furioso para enfrentar esse tsunami de especialistas em tudo!

Por quê escrevi esse post? Porque eu garanto que todos nós temos sabedoria suficiente para:

– Engravidar. Quando há um problema e o casal deseja engravidar, aí sim faz sentido ouvir um especialista. Não é preciso ler no google como se engravida!

-Ter filhos. Há uma sabedoria da espécie para se ter filhos. A obstetrícia não tem 400 anos de idade e nascemos há cerca de 160 mil anos. Claro que o conhecimento obstétrico tornou o parto mais seguro e confortável. Mas, daí a se precisar fazer um curso, com alguém que sabe o que eu não sei, vai uma certa distância. Todas as mulheres sabem, ao menos o mínimo necessário, como ter um filho. De novo, se há um problema no parto, é altamente desejável que um especialista esteja presente.

-Amamentar. A simples ideia de que haja um especialista que vá ensinar a uma mãe como amamentar é muito estranha. Aquela mãe e aquele bebê são únicos. Precisam de um tempinho para se entenderem. Um conselho, fruto da experiência ou tradição, podem ajudar. Uma palavra de reconhecimento dessa dificuldade inicial, também. Mas, ensinar “técnicas” é alienar a mãe da sabedoria intrínseca dela. Em algumas situações especiais e pouco frequente, pode haver um problema pontual onde um especialista pode e deve ajudar.

– Dar banho no bebê. Que tal um curso de banho para o bebê? Alguém com grande experiência, um especialista, vai lhe mostrar como é o melhor modo de dar banho em um bebê. Você terá aulas de simulação com um boneco e vai dominar a técnica. Nasce seu filho e você vai dar o primeiro banho. Ele chora! Surpresa máxima, isto não estava previsto. O boneco do curso não chorava! Ou, apesar de você fazer tudo “certo”, seu bebê não gosta desse banho. Claro que você vai demorar uns dias até desconfiar que o errado é o método, não você, nem o bebê. Aí, você vai usar a sua sabedoria (que será a de tentativa e erro), até descobrir como é o melhor banho, para o seu filho.

– Introduzir alimentos sólidos. Cada cultura tem uma tradição (escrevi um post sobre isso). Não há regras fixas, nem grandes conhecimentos científicos envolvidos. Mas, quem sabe, não seria melhor ouvirmos um nutricionista? Afinal de contas, deve haver algo que eu não sei, fundamental, definitivo, importantíssimo, a respeito de frutas e sopa de legumes com músculo!

-Engatinhar/andar. Não seria melhor contratarmos uma nova técnica de estimulação fisioterápica que “ensinasse” nossos filhos a andarem, de preferência com um nome ou vinda de um lugar remoto (técnica Walfrid de deambulação balanceada ou técnica sueca de estimulação motora)? De novo vemos o poder simbólico das palavras. Imaginem a técnica Severino de deambulação precoce ou a técnica paraguaia de estimulação motora!

A lista de exemplos de situações cotidianas onde NÃO PRECISAMOS DE ESPECIALISTAS   poderia continuar. Poderia incluir o pediatra como sendo um detentor de um conhecimento específico, melhor do que a sabedoria dos pais. Um exemplo rápido: doutor, o que é melhor para o bebê- ar condicionado ou ventilador? Ora, nenhum pediatra teve essa aula no curso de medicina! Essa é uma resposta que deve vir da sabedoria dos pais em, uma vez mais, usarem o melhor método que existe para se cuidar dos filhos: tentativa-erro-aprendizado. Mas, para isso, é preciso três coisas:

  • que estejamos convencidos de que temos sabedoria;
  • que confiemos na nossa sabedoria;
  • que saibamos que especialistas são fundamentais para resolver problemas. Onde não há problema não precisamos de especialista

Se continuarmos a confiar cegamente em especialistas ou não confiar na nossa sabedoria, breve estarei contratando um bombeiro para abrir as torneiras de casa. Como especialista, ele deve saber fazer isso melhor do que eu!