Arquivo | fevereiro 2018

PAIS NÃO SÃO CIENTISTAS, MAS ARTISTAS!

“A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação dá a volta ao mundo.” Albert Einstein ¹

Inicio o texto com uma citação de uma das mais brilhantes mentes científicas da humanidade. É uma afirmação de uma pessoa que passou sua vida envolvida em fórmulas matemáticas, desenvolvendo teorias que, algumas, só vieram a ser comprovadas muito recentemente. No entanto, quando perguntado se confiava mais na sua imaginação do que no seu conhecimento, deu a resposta acima, surpreendente para um físico brilhante. Talvez surpreendente para qualquer um de nós que viva neste planeta, neste século. Vivemos a era das certezas e convicções “científicas”. Coloquei aspas em científicas porque muitas das nossas convicções são baseadas em pseudociência, fraudes, farsas e manipulações. Mas isso é outro assunto. O fato é que o valor dado à racionalidade, lógica, precisão, previsão, modelos matemáticos, estatísticas, algoritmos, big data, é inequivocamente maior do que o dado à arte, intuição, sensações, imaginação, afeto e amor.

Nenhum de nós escapa ao tsunami da cultura, sendo esta o conjunto de valores que expressam uma época ou um grupo humano. Imersos em dados, números, estatísticas, gráficos que projetam eventos futuros, não poderíamos ser mães e pais sem estarmos “contaminados” por esta praga contemporânea.

Imagino que, a esta altura do texto, engenheiros, matemáticos, economistas e físicos já pararam de ler, irritados com minha irreverência com a ciência. Eventualmente, um grande número de leitores, sentiu desconforto ao ver um nossos oráculos atuais (a razão) ser provocado por um pediatra! Mas, antes que não tenha nenhum leitor que chegue ao final do texto, explico alguns pontos. A ciência é fundamental. O pensamento científico é um passo enorme da humanidade para sair do obscurantismo dos mitos e crendices. O pensamento científico é ainda muito jovem na nossa história, datando de aproximadamente 500 anos, o que é muito pouco para o confronto com 60 mil anos de fantasias e crenças, sem nenhuma fundamentação ou comprovação. Portanto, sou um ferrenho defensor do pensamento científico. A proposta deste texto é a de, preservando o pensamento científico, afirmar que é uma condição necessária, mas não suficiente, para a nossa vida, neste planeta. Dito de outra forma há uma característica humana chamada emoção, que não se opõe à razão, sendo, com esta, parte de um todo indivisível do ser humano. Não existe, no mundo real, a divisão ou polarização entre razão e emoção. Fomos induzidos a acreditar nisso por modelos culturais que nos precederam (Descartes sendo um dos mais conhecidos) e que se mantém até hoje. Para me “garantir”, comecei o post com uma declaração de Einstein, valorizando a imaginação, que nada tem de racional!

Como em vários outros posts, tem uma hora em que o leitor, se chegou até aqui, se pergunta- mas o que isso tem a ver com ser mãe e pai? Aonde esse pediatra quer chegar?

Uma mulher engravida. Ao mesmo tempo em que faz o seu pré-natal, baseado nos melhores conhecimentos científicos disponíveis, imagina seu filho. Pode até ver uma imagem de ultrassom do bebê, mas o que os pais imaginam não é aquela imagem, ainda que seja emocionante. Durante a gravidez, a mulher e o pai, imaginam o parto, o recém-nascido, como será, que personalidade terá, com quem se parecerá? As preocupações de todos nós também aparecem no imaginário de casais grávidos: será saudável, perfeito, inteligente?

Nasce o bebê e há um choque de realidade. O imaginado não é exatamente como o real. Seja o aspecto físico (a carinha amassada, a orelha assim ou assado, o nariz que não lembra o de ninguém), seja o comportamento do bebê. O bebê imaginado era doce, meigo, manso. Dormia a noite toda como um anjo e, de dia, mamava feliz. Pois bem, o bebê chora, e chora mais, e chora muito. Não dorme à noite, só quer ficar no peito, machuca o peito, é incomapecido, não poupando a mãe, sugando leite, energia e vitalidade (que mãe não sentiu um cansaço jamais sentido antes?).

Claro que estou exagerando, pintando com tintas fortes, um quadro onde também há um sentimento de amor jamais vivido anteriormente. Quero apenas preparar o clima para o próximo movimento.  Diante da insegurança (natural e normal) que esta “pororoca” entre o imaginado e o real  produz, qual a solução? Consultemos nossos oráculos contemporâneos: Google, grupos de mães e o pediatra. A pergunta, expressa de diferentes maneiras é sempre- isso é normal? E acreditamos que a resposta, técnica, está fora de nós, dos nossos sentidos, guardada a sete chaves por algum sábio que entende mais do que nós de bebês.

Proponho que ao invés de consultar os oráculos ou especialistas com supostos saberes, os pais se voltem para a sua intuição, sensibilidade, emoções, imaginação e criatividade. Claro que os conhecimentos científicos adquiridos serão úteis e servirão como um guia ou norte, mas nunca como uma norma ou regra. De que adianta dizer que um bebê “deve” dormir 16h por dia se o seu dorme 14h ou 18h? O que importa é saber se o bebê está saudável e não se “obedece” a uma regra! De onde vêm as “regras” da introdução alimentar (ou alguém acha que um bebê sueco, vai ser alimentado com banana)? Aliás, de onde vêm tantas regras que assegurem um desenvolvimento “normal” do ser humano. Suspeito que venham, entre outros fatores, de uma exploração da insegurança natural que temos diante de algo novo (filhos, frágeis e dependentes absolutos de nós), com o intuito de vender um serviço ou o simples “conhecimento”. Claro que obedecer a uma regra remove a responsabilidade do eventual erro, mas também tira o que há de mais rico na maternidade e paternidade que é a autoria do processo de criar esse novo ser humano.

A explicação para a necessidade dos pais serem mais artistas e menos cientistas é muito simples. Cada ser humano, bebê, criança, adolescente, adulto, idoso, é único. Não existem duas impressões digitais iguais, duas vozes idênticas, personalidades replicadas etc. Nenhum ser humano está plenamente representado em uma média ou estudo.  O fato de sermos únicos cria um desafio e um prazer na maternidade e paternidade. O desafio de olhar e perceber o filho como sendo outro, literalmente, e não uma edição revista e melhorada dos pais e o prazer  é o de um artista  quando cria uma obra. Para criar uma obra, o artista lança mão da sua imaginação, criatividade e ousadia. Se não fosse assim, não teríamos um Michelangelo, Da Vinci, Monet, Chagall, Picasso, Cervantes, Drummond, Bandeira, Beatles, Caetano, Gil e, nessa relação interminável de artistas que nos emocionam com sua criatividade, por que não incluir os cientistas que, antes de desenvolver uma tese, ousaram pensar de forma inédita. Mesmo a ciência começa com o simbólico, o imaginado, o fantástico.

Ser mãe e pai é um processo continuado de criação artística e o resultado final é o orgulho ao ver a obra viva, feliz e integrada ao mundo. Diferentemente de Michelangelo que, ao ver o seu Moisés terminado, teria batido com o martelo na escultura e perguntado por que não falas, nossa obra fala (e sente).

Sejamos todos mais ousados, imaginativos e emotivos. Sejamos artistas que exploram as infinitas possiblidades de criação na tela da vida. Os filhotes agradecem. A humanidade também!

 

1- Entrevista dada a  G. S. Viereck, “What life means to Einstein”, Saturday Evening Post, 26/October/1929, reimpresso em G. S. Viereck, Glimpses of the Great, new York: Macauley, 1930, p. 447.

RISCOS DA VACINAÇÃO

“Para todo problema complexo, existe uma solução simples, elegante e completamente errada” Henry Louis Mencken.

Após a publicação do post da semana passada, recebi alguns comentários, relacionados à segurança da vacina contra a Febre Amarela. Algumas pessoas acreditam que as autoridades sanitárias omitam os casos onde ocorra algum efeito indesejável, após a vacinação. Não tenho nenhum envolvimento, direto ou indireto, com o setor público. Portanto, não posso afirmar nada em nome destes agentes. Mas, sei que o nosso sistema de vigilância epidemiológica é muito eficaz e, como parte desse sistema, temos um sistema de vigilância epidemiológica para efeitos adversos pós vacinação. Nem todas pessoas sabem desse sistema que é o responsável por coletar dados, de forma regular, através de procedimentos padronizados e, assim, acompanhar a incidência de efeitos colaterais que possam ocorrer com todas as vacinas administradas pelo Programa Nacional de Imunizações. Os profissionais de saúde envolvidos em vacinação recebem treinamento e/ou têm acesso aos manuais do Ministério da Saúde que tratam, especificamente, de efeitos adversos de vacinas e a forma de notificá-los. Estou detalhando um pouco mais esse sistema porque acho relevante a informação de que, no Brasil, acompanhamos, de forma sistemática, quaisquer efeitos colaterais de vacinas (não só a de Febre Amarela). Acredito que é pouco provável, nos dias de hoje, com a circulação eletrônica da informação que uma autoridade possa omitir ou ocultar dados, por um longo período de tempo.
Com relação à segurança das vacinas em geral, gostaria de citar alguns fatos:

1- Não sabemos tudo, nunca. O conhecimento é um processo contínuo e o conhecimento científico pressupõe que não se consiga chegar a uma Verdade (com V maiúsculo). O conhecimento científico é, na melhor das hipóteses, a melhor informação disponível, naquele momento. Por esse motivo algumas verdades (com v minúsculo), frequentemente são substituídas por outras (também com v minúsculo). Um exemplo caricato é a história do ovo. Ovo faz bem ou faz mal? Pode comer ovo ou precisamos parar de comer ovo? A cada momento, em função de novos conhecimentos embasados no método científico (que é algo bem complexo e não somente a apresentação de estatísticas), teremos uma verdade.

2- O impacto da vacinação no crescimento da expectativa de vida foi imenso e esta realidade só foi possível através da vacinação sistemática da população exposta. Este é um fato praticamente incontestável. Digo praticamente porque ainda existem pessoas ou grupos que se opõe à vacinação. Não há nenhuma evidência científica que embase esta resistência que, habitualmente, está baseada em argumentos relacionados com crenças (eu acho isso ou eu acho aquilo), crendices (mitos) ou ainda informações já demonstradas como falsas (vacina contra Sarampo produz autismo).

3-As vacinas não são 100% efetivas, e também não estão isentas de oferecerem possíveis riscos para a população. O senso comum é o oposto desta afirmação. Talvez porque seja o mais desejável, pensamos que, uma vez vacinados, estaremos 100% protegidos contra uma determinada doença e que a vacina não pode fazer mal algum (exceto um pouco de dor no local e, talvez, um pouco de febre). Nossa cabeça tem mais facilidade de pensar de forma binária onde ou algo faz bem ou faz mal. Ou protege, ou não protege. No mundo real, as coisas vivas não funcionam de modo binário (exceto computadores). Seres vivos são, por definição, variáveis. Vacinas aplicadas em seres vivos podem proteger a maioria, mas não todos. Podem ter pouquíssimos efeitos colaterais para a maioria, mas não para todos.

4- Nenhuma vacina está totalmente livre de provocar eventos adversos, porém, os riscos de complicações graves causadas pelas vacinas do calendário de imunizações são muito menores do que os das doenças contra as quais elas protegem. Esta é a chave que justifica (ou não) o uso de determinada vacina. É preciso que fique cientificamente demonstrado (usando métodos rigorosos e complexos) que, comparando os riscos da vacinação, com os da doença natural, aqueles (os riscos da vacinação) sejam significativamente menores do que estes (os riscos da doença natural).

Especificamente com relação à vacina contra a Febre Amarela:

1- Mesmo com a possibilidade de eventos adversos graves, incluindo o óbito, a vacina contra a Febre Amarela é o melhor meio de se evitar esta doença que apresenta uma alta taxa de mortalidade (em torno de 50% dos casos morrem) e deve ser utilizada de forma rotineira em áreas endêmicas (onde a Febre Amarela existe de forma contínua) e nas pessoas de áreas não endêmicas que poderiam estar expostas. Essa é a lógica pelo qual, até muito recentemente, pessoas de algumas áreas do Brasil recebiam a vacina contra a Febre Amarela como parte do calendário regular e outras não. Em uma área onde não há o risco de se contrair a doença, o risco de reações adversas da vacina não justifica o seu uso. No entanto, quando uma área ou região que não era de risco de se contrair a doença passa a ser de risco, justifica-se a vacinação porque a equação muda (a doença passa a ser mais “perigosa” do que os efeitos colaterais da vacina).

2- As estatísticas disponíveis para o risco de efeitos colaterais da vacina contra a Febre Amarela não são homogêneas porque dependem de estudos feitos em condições epidemiológicas e metodologias diferentes. Cito alguns números para que tenham uma ideia da frequência com que complicações podem ocorrer.
A pior consequência adversa que pode ocorrer é o óbito provocado pela vacina. As estimativas são de que 0,043 a 2,31 pessoas por um milhão de doses de vacinas, poderão falecer. Traduzindo em porcentagem seria 0,0000043% a 0,00023% das pessoas vacinadas que poderiam vir a falecer. É um número muito baixo, mas não é zero. Portanto, quando comparamos esta porcentagem com a taxa de mortalidade da doença (50% das pessoas podem morrer), verificamos que o risco de óbito pela doença é muito maior do que pela vacinação. Mas, para nós humanos, números são abstrações, e quando temos a notícia de um óbito provocado pela vacina, essa notícia “apaga” a nossa capacidade de pensar de forma abstrata, conceitual ou racional e o medo ou pânico se instalam.
Com relação aos possíveis efeitos colaterais no sistema nervoso central, estima-se que estes podem ocorrer em 1 em 125.000 vacinas aplicadas. O que corresponderia a 0,001 %. As alergias graves (não uma simples urticária ou edema de lábios e olhos), podem ocorrer em 1 em 55.000 vacinas aplicadas, correspondendo a 0,002%.

3- Alergia a ovo e outros componentes da vacina. A vacinação de pessoas com alergia a ovo ou outros componentes da vacina (gelatina, proteína de frango e outros possíveis componentes) deve ser avaliada caso a caso. Não há consenso em como lidar com esses casos, mesmo porque a expressão “alergia a ovo” pode significar desde uma urticária, até um choque anafilático. As pessoas que tenham alergia a ovo devem procurar um médico para que possam ser orientadas e, em função tanto da intensidade da sua reação alérgica, quanto do risco de contrair a doença (uma epidemia, por exemplo), definir qual a melhor estratégia. Do ponto de vista acadêmico, mas com imensa dificuldade de se fazer na prática, um teste com uma dose de vacina diluída poderia ser feito ao mesmo tempo que se faria um controle  (geralmente com histamina). Se o teste der negativo a pessoa poderia ser vacinada. Se der positivo, não deveria ser vacinada e poderia tentar um tratamento de dessensibilização. Como podem ver, na prática não é possível se implementar estas ações, principalmente em grande escala.

A mensagem, uma vez mais, é que a vacina contra a Febre Amarela, em uma situação de risco epidêmico, é o melhor meio para se proteger contra esta doença que mata metade das pessoas que adoecem. A vacina não é isenta de riscos (nenhuma vacina ou, por extensão medicamento é isento de riscos), mas, em uma situação epidemiológica como estamos vivendo em várias áreas do Brasil, estes riscos são muito menores do que os da doença natural.

Boa vacinação para todos!