Arquivo | dezembro 2017

2018 SEM LISTA DE DESEJOS!

Ano passado fiz uma lista de desejos para 2017. Talvez tenha desejado demais, mas o fato é que,  infelizmente, nenhum deles se realizou! Confiram clicando no link LISTA DESEJOS DE UM PEDIATRA PARA 2017!

Dizem que loucura é quando se faz tudo igual, esperando resultados diferentes. Portanto, neste ano, não vou fazer nenhuma lista, não vou desejar nada, criar metas, planejar o futuro, gerar expectativas a respeito do Trump, da desigualdade no mundo, da lava-jato, eleições e paz na terra para os homens de boa vontade!

Para 2018, proponho que se faça a abolição do futuro e consigamos viver no presente. Parece uma obviedade porque, afinal de contas, vivemos no presente. Mas, não raro, adoecemos de futuro. Isto é, os pés estão plantados no presente, mas a cabeça já voa longe, povoada por pensamentos, preocupada a respeito de algo que, supostamente, poderia ocorrer. A vida, no futuro, é um delírio. Nos permite tanto ganhar na mega sena, quanto sofrer por antecipação com pensamentos pessimistas. A vida no presente, é o que é. É o que temos de real, concreto. É a matéria prima com a qual podemos construir nossa felicidade, real. O presente é o que nos dá os elementos para que possamos enfrentar as dificuldades reais e não as imaginadas. É o fio que tece as nossas vidas.

Lidar com presente não é algo com o que estejamos habituados. Nossa cultura, sem crítica, apenas constatação, sempre nos empurra para o amanhã. Há sempre um amanhã, em geral ameaçador, que nos obriga a viver um presente tenso, preocupado, espartano. A frase: “nunca se sabe o dia de amanhã” resume bem esse tom ameaçador. Nunca é dita de forma a que se entenda que amanhã vai ser uma maravilha. É dita como um sinal luminoso, piscando: cuidado, perigo adiante!

Sem nos darmos conta (ou dando), a vida no presente vai sendo modelada por um futuro suposto ou imaginado. Talvez (não sou nem filósofo, nem psicanalista) a suposição de um futuro, ainda que ameaçador, nos faça afugentar a única certeza que temos a respeito do futuro- nossa finitude. Pensar, continuadamente, no futuro, pode nos trazer uma certa calma (ou ilusão) de um futuro continuado, interminável. Melhor não comer sorvete porque, lá na frente, pode ter diabetes. Melhor fazer exercício, para evitar que, lá na frente, esteja entrevado. Melhor trabalhar furiosamente, para, lá na frente, poder viver com mais conforto. E a lista de sacrifícios no presente, para um futuro melhor, é interminável. Não vou cansar vocês!

É evidente que não me oponho a hábitos saudáveis e atitudes responsáveis. Estou aproveitando este período onde todo mundo se permite alguns devaneios existenciais, para brincar um pouco com a ideia (meu devaneio) de uma resistência organizada contra a tirania do futuro! Afinal de contas, a vida não é binária. Ou nos submetemos à tirania do futuro, ou sucumbimos na esbórnia total. A vida é complexa, multifacetada, dinâmica, variável e, acima de tudo, imprevisível. Exatamente por ser imprevisível, devemos dar um pouco mais de atenção ao presente.

Sequer estou sendo original nessa sugestão. Horácio, poeta romano, escreveu há mais de 2000 anos uma frase que “viralizou”. A frase ficou conhecida por duas palavras: CARPE DIEM, que quer dizer aproveite o dia. O trecho mais completo seria: ” aproveite o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã”. Vários autores e pensadores se manifestaram a respeito do viver no presente. Cito mais dois, só para ilustrar o que estou dizendo. Albert Camus, escritor francês, prêmio Nobel de Literatura escreveu: ” A verdadeira generosidade para com o futuro, consiste em dar tudo ao presente.” Mas, o meu preferido, é o famoso filósofo Kung-Fu Panda: “O passado é história, o futuro é mistério, o agora é uma dádiva e por isso se chama presente”.

E assim, chegamos ao final deste post e de 2017 com uma contradição ou paradoxo (o que garante que este texto não foi escrito por um robô e sim um humano). Disse que não tinha lista de desejos, mas tenho um grande desejo. Desejo que todos possam, em suas vidas, viver um pouco mais intensamente o presente.

Viver o presente significa que o ser precede o ter. O existir se superpõe ao produzir. O sentir não fica inibido ou tolhido pela razão. Viver o presente significa esvaziar a cabeça de pensamentos do futuro, respirar fundo, apreciar o que nos cerca e dar vazão ao que nos une, o afeto.

Feliz hoje, todos os dias, em 2018!

 

DE REPENTE JÁ É NATAL!

Quando a gente menos espera, já é dezembro e, num piscar de olhos, o Natal chegou!  As lojas se enfeitam e ficam abertas até mais tarde, Papais Noel se multiplicam pelos shoppings e esquinas, listas de presentes são feitas e ainda compramos algo unissex para aquela pessoa que não sabemos quem é, mas que, certamente, teremos esquecido. Amigos ocultos e confraternizações ocupam nossos dias. Não há como esconder um Natal! Mas, o que escrever? Algo que seja original, divertido, sem ser bobo, lugar comum ou piegas. Difícil.

Reli meus últimos posts de natal: Papai Noel existe? e Natal é emoção, não razão e me deu vontade de misturar os dois e fazer o post desse ano, contando com a altíssima probabilidade de que ou não leram ou não lembram o que eu já tinha escrito. Seria um caminho fácil, mas pouco criativo. Resolvi então fazer um post para os adultos!

Natal é uma celebração da confraternização. Confraternizar significa estar junto do irmão (com= junto + frater= irmão). E quem é esse irmão? Ora, irmão é quem é filho da mesma mãe e/ou do mesmo pai. Podemos pensar nos nossos pais biológicos, genitores imediatos, como podemos pensar em Lucy, símbolo do primeiro homo sapiens.  Seguindo esse mesmo caminho, podemos retroceder, de forma Darwiniana e afirmar que todos os mamíferos são nossos irmãos. Por que parar nos mamíferos? Toda forma de vida animal é nossa irmã. Se você é uma pessoa religiosa, acredita que todos somos filhos de Deus. De um modo ou de outro, somos todos irmãos. Estar junto do irmão pode ser tanto aquele imediato, com quem me engalfinhei na infância, meu rival pelo amor dos meus pais e, ao mesmo tempo, meu companheiro solidário, na vida. Como também pode ser estar junto de outros humanos, tão parecidos e tão diferentes de mim. Pode ser ainda, estar junto de todas as formas de vida que conhecemos no nosso planeta.

Estar junto dos irmãos, celebrando a vida (Natal= nascimento= vida), exige que desenvolvamos a capacidade de respeitar o outro nas suas diferenças, não apenas com uma postura tolerante, mas de aprendizado. Exige que tenhamos uma abertura para o novo, eventualmente chocante ou conflitante com meus valores. Exige humildade e flexibilidade, competências que só adquirimos se as exercitarmos, já que retornar à infância onde ainda não tínhamos valores morais definidos pela nossa cultura e tudo era fascinante, é impossível. Forjados pela nossa cultura, olhamos para outras com desconfiança ou desdém. Mesmo dentro da nossa cultura, olhamos para as diferenças com desconfiança, partindo da premissa que meus valores são os “corretos”. Recusamos, pelo estranhamento que nos causa, as diferenças.

Confraternizar não é disparar centenas de WhatsApp com uma foto, música e mensagem açucarada. Não é apenas dar um presente por conta de obrigações sociais. Não é desejar um feliz natal repetido, mecanicamente, como um papagaio, sem emoção ou, pelo menos, sinceridade.

Confraternizar é exercitar o silêncio para que o outro possa ocupa-lo. É desenvolver a escuta, para que o outro possa se fazer presente e, com sua presença, me impressionar (ao invés de só me espantar). Confraternizar é negociar, ao invés de polarizar. Diferenças não significam, obrigatoriamente, inimizades, raiva e ódio. Confraternizar é resgatar a nossa essência de seres sociais por natureza, com a capacidade de utilizar a comunicação para nos expressarmos, trocar ideias e nos organizarmos. A cultura vigente, quer nos fazer crer que há uma competição permanente, fazendo com que meu irmão seja uma ameaça constante. Confraternizar é se colocar contra essa imposição cultural e nos inspirarmos nos nossos primos, os Bonobos. Confraternizar é deitar, sem medo, a cabeça no colo do outro e deixar que faça um cafuné, sem que se precise de um motivo, apenas pelo prazer de estarmos juntos.

Confraternizar é mais do que afeto, emoção. É uma posição política ou de cidadania. É se colocar contra as discriminações de raça, gênero ou credo, não como uma declaração genérica de boas intenções, mas como uma prática diária de atenção e combate às formas mais dissimuladas de racismo, sexismo e intolerância religiosa. Confraternizar é se expor, pelo outro.

Finalmente, para não deixar de falar nas crianças, confraternizar é respeitar a enorme criatividade dos nossos filhos, tomando o devido cuidado para que no processo de educa-los, não estejamos criando autômatos a serviço da economia (qualquer economia), mas seres humanos, emotivos, afetivos, inovadores, questionadores, respeitadores, integrados no mundo (e não destruindo o mundo e seus irmãos). Para isso, não bastam as palavras (de pais ou de um blog), é preciso o exemplo vivo, a ação, a prática da confraternização.

Para os que leem o blog, meu abraço fraterno, desejando a todos um Natal muito alegre.