Arquivo | outubro 2017

PAIS HELICÓPTERO!

A vida não é fácil para ninguém. A vida pode ser boa, mas fácil, nunca é. A vida em si nos impõe dificuldades que se iniciam no nascimento. Nascer é um processo que tem lá seu grau de esforço e dificuldade, tanto para a mãe, quanto para o bebê. Depois, sucedem-se fases do desenvolvimento e amadurecimento que exigirão, por parte da criança, enfrentar e superar dificuldades inerentes a este processo. Das primeiras mamadas, aos primeiros dentes, seguindo para o esforço de engatinhar, ficar de pé e andar, ainda que naturais e comuns à nossa espécie, nada é “moleza”. Segue a vida e surgem as primeiras palavras. A linguagem é uma conquista que leva tempo e muito esforço. Temos ainda a socialização, a descoberta do outro e a frustração de um mundo que não está posto para me servir, com exclusividade. Vida que segue, regras e normas na escola, deveres, obrigações e um aprendizado de tantas coisas que não fazem sentido para nós. O despertar para o sexo oposto é um mundo de dúvidas e angústias. Ninguém vai olhar para mim, não sou suficientemente atraente ou, mais frequentemente, sou horrorosa ou horroroso! O que responder quando a família me pergunta- o que você quer ser quando crescer? Como vou saber? O resto da história, todos conhecem. Uma escolha profissional, uma escolha para constituir família, compromissos, obrigações, contas a pagar, ameaça de desemprego, plano de saúde que deixa a desejar e filhos. Ah, os filhos! Um novo mundo de amor, prazeres e alegrias se abre. Junto, novas dificuldades na vida cotidiana. Vejam que meu relato é superficial, abordando situações objetivas e visíveis. Mas a vida é muito mais do que isso que vemos. É o que sentimos e nem sempre falamos. É também o que se passa fora do mundo lógico, mas no simbólico, no mundo das emoções, nem sempre plenamente conscientes. A vida não é fácil para ninguém!
Se concordarem comigo de que a vida não é fácil para ninguém e ainda estiverem de acordo que pais, em geral, querem que seus filhos tenham vidas boas, felizes, plenas, vamos ter que rever o modelo de pais helicóptero, adotado por muitos. Mas o que seriam pais helicóptero? São pais que estão sobrevoando seus filhos, 24h por dia, 7 dias na semana, independentemente da idade que tenham. São pais que, apesar de saberem que a vida não é fácil, por algum mecanismo, confundem essa realidade com sofrimento. Esforço, superação de dificuldade, não é necessariamente sofrimento. Alguns pais não toleram a ideia de verem seus filhos fazendo um esforço (normal, desejável) que já descem de rapel do helicóptero ao resgate do filho. Os pais helicóptero ficam atentos à menor frustração vivida pelos filhos e, rapidamente, buscam elimina-la. Pais helicóptero não conseguem exercer sua autoridade legítima, impondo (escolhi esta palavra de propósito!) limites, porque temem que isso possa “traumatizar” seus filhos. Até situações evolutivas normais como a dentição, são vividos pelos pais helicóptero como um “problema” a ser “resolvido” e não como um processo natural que merece carinho e amparo, sem grandes dramas. De um modo muito simplista, pais helicóptero vivem a ilusão de que poderão evitar toda e qualquer dificuldade para seus filhos.
E qual o problema em ser um pai helicóptero? Afinal de contas, se conseguir evitar que meu filho sofra, não é melhor? Esta pergunta é ótima porque nos remete à confusão que citei acima. Esforço não é sinônimo de sofrimento. Longe de mim fazer a apologia de que o sofrimento é bom. Sofrimento, nunca é bom e merece ser atenuado, sempre que possível. Outro ponto importante é que, assumindo que a vida não é fácil para ninguém, como sustentar uma educação que impede a criança de enfrentar e superar dificuldades? Seria o mesmo que tentar ensinar uma criança a andar de bicicleta, sem nunca soltar o selim! Como esperar que nossos filhos sejam adultos resilientes, com capacidade de tolerar a frustração (que vivemos todos os dias em maior ou menor escala), que saibam se auto consolar, se, nunca lhes damos a oportunidade de desenvolver essas aptidões necessárias a uma vida harmônica em sociedade?
A questão é que, quando o bebê nasce e por uns bons meses, ele (o bebê) tem uma dependência absoluta dos pais. Nessa fase, temos todos que ser pais helicóptero! Temos que estar ali, sobrevoando o bebê, 24h por dia, 7 dias na semana, entendendo e antecipando suas necessidades. É uma fase em que esse cuidado absoluto é fundamental para o bom desenvolvimento e amadurecimento da criança. É o colo dos pais, associado ao cuidado com o ambiente em torno do bebê, de modo a que seja facilitador do desenvolvimento, que vai permitir que este desenvolva a capacidade que todos os bebês têm de amadurecimento. Não se “estraga” ou mima um bebê pequeno. O colo, o contato com os pais, não é um luxo e sim uma necessidade para que as fundações de um amadurecimento saudável sejam fixadas. Mas, há um momento em que, desta fase de dependência absoluta, o bebê passa para uma de dependência relativa. Neste momento, os pais devem aposentar o helicóptero (o cuidado absoluto) e passar a oferecer um cuidado relativo, coerente com a fase do filho. Assim, para cada fase dos nossos filhos, nós também devemos mudar o “perfil “do cuidado. Neste caso, onde pais abandonam o helicóptero, passam a oferecer o espaço necessário para que a criança se desenvolva, sem estar “sufocada” por um cuidado absoluto de que não precisa mais.
Não há uma fórmula que possa ensinar aos pais a quando deixarem o helicóptero de lado. Apenas recomendo que olhem para seus filhos (e não para o Google ou algum livro ou blog escrito por pediatra!) e ousem. Olhar cuidadoso associado a tentativas, erros e acertos, é o que funciona. Só não dá para imaginarmos que, para uma criança em evolução e amadurecimento, poderemos adotar uma forma única e contínua de sermos pais. À medida que a criança cresce, nós também temos que nos modificar e adequar nosso modo de interagir com os filhos.
A única coisa que não muda é o amor e afeto que sentimos. Este está presente sempre e é o que garante que pais que “falham” aos olhos dos filhos (deixar de ser pai helicóptero), pais que dizem não, pais que não tem receio de exercer a autoridade, sem autoritarismo, sejam amados por seus filhos, ainda que, na superfície reajam, briguem e esperneiem. Não temam essa superfície. É muito melhor ter uma superfície revolta do que uma tranquila, com correntezas profundas, perigosas e invisíveis. Estas, só se manifestarão mais tarde, em um adulto com dificuldades de viver uma vida boa, ainda que nada fácil!
Gostaria de agradecer à Fernanda, mãe da Ana Helena, que me apresentou à expressão pais helicóptero, inspirando este post.

DIA DA CRIANÇA E O NOBEL DE ECONOMIA.

Hoje, dia 12 de outubro, se comemora o dia da criança. Praticamente como todas as datas que celebram alguém, há forte cunho comercial que as criou e sustenta. Datas (mães, pais, namorados e crianças) vendem! Nada contra, afinal de contas a economia precisa se movimentar, gerando riqueza, empregos e melhoria do nível de vida de todos. Por falar em economia, nesta semana foi anunciado o vencedor do Prêmio Nobel de Economia. O vencedor deste ano foi Richard Thaler, professor de Ciências Comportamentais e Economia, na Universidade de Chicago. O prof. Thaler é um dos acadêmicos que estuda e divulga uma linha chamada de Economia Comportamental. Trata-se de uma abordagem que incorpora ao conhecimento de economia, boas doses de psicologia. Em 2002, outro pesquisador que segue a mesma linha, Daniel Kahneman, também recebeu o Nobel de Economia. De forma simplória (a ser criticada pelos eventuais economistas que leiam este post), a economia comportamental incorpora nas suas análises uma faceta irracional do comportamento humano. Uma linha mais “clássica” ou ortodoxa, crê firmemente que o ser humano tomará as melhores decisões, baseadas em uma análise lógica e buscando otimizar seus ganhos e/ou minimizar perdas ou riscos. Para estes estudiosos, seríamos um homo economicus, ator racional, cujo comportamento (tomada de decisões) é previsível e redutível a modelos matemáticos. Ocorre que a nossa história pessoal (sejamos sinceros, quantas decisões sem um fundamento racional tomamos? Ou, quantas decisões envelopamos em racionalidade apenas para não revelar um desejo irracional?) e coletiva (guerras, intolerância de toda espécie, machismo, obesidade, uso de tabaco) nos mostram que não podemos ser reduzidos a um modelo mecânico de uma máquina que pensa. Somos seres, indivíduos, com uma alta complexidade e vetores (muitos desconhecidos de nós) que nos impulsionam no percurso das nossas vidas. Nesse contexto, agraciar um pesquisador que introduz a irracionalidade e relativa imprevisibilidade no comportamento humano deveria nos fazer repensar o modelo vigente de privilegiar a lógica e racionalidade.

Se você chegou até aqui na leitura deste post, já deve estar se perguntado se eu deixei de ser pediatra e resolvi estudar economia! O elo que farei (me acompanhem neste salto!) é o de que crianças não precisam de um Prêmio Nobel para lembrá-las de que a irracionalidade é um atributo fundamental e inerente ao ser humano. Não é um atributo do homo economicus idealizado por alguns, mas do homo (quase) sapiens que somos.

Para começar, observemos um bebê com poucos dias de vida. É um ser humano, sem a menor capacidade de cognição, sem processar pensamentos de forma lógica, ordenada, analítica ou sistemática. É apenas uma esponja de sensações! Tudo que se passa ao seu redor é captado e absorvido, sem o filtro da racionalidade. Portanto, sem nenhuma possibilidade de discussão, a existência, repleta de estímulos e registros, precede a lógica e a racionalidade.

O bebê cresce e, dadas as boas condições, vai amadurecendo.  Esse amadurecimento leva um bom tempo e durante esse tempo, somos capazes de observar como um pensamento pré-lógico ou mágico infantil domina o universo da criança. Ainda não há espaço para metáforas, tudo é muito concreto. As fábulas lidas ou contadas, representam algo que, de fato, aconteceu ou acontece em algum lugar. Vestir-se de princesa ou homem aranha, não é uma fantasia. É uma transformação! Naquele momento a crianças se percebe e se sente como se princesa ou homem aranha fosse. As histórias que nossos filhos “inventam” são absolutamente fascinantes e dignas de serem registradas para que possam ser recontadas a eles mesmos, uma vez mais crescidos ou adultos. Isso, sem falar na criatividade que as crianças têm para inventar brinquedos, a partir de sucata doméstica ou realizar pinturas, modelagens e colagens. O medo, tão natural em crianças, é outra manifestação explícita e observável da fase de “irracionalidade” que precede a introdução da lógica no pensamento infantil. De forma resumida, a imensa criatividade das crianças é uma homenagem à irracionalidade. Para aqueles que ficam incomodados com o termo irracionalidade (contaminados que estamos com o valor da racionalidade), podemos usar a palavra simbolismo ou simbólico. A imensa criatividade das crianças é uma homenagem ao ser simbólico que elas exibem (e que nós temos vergonha de mostrar).

Neste dia da criança, como em outros, vale a pena pegarmos carona no Prêmio Nobel de Economia, para justificarmos uma boa dose de irracionalidade nos nossos atos. Amor, carinho e afeto não são lógicos ou racionais. Estar perto, estar junto, sem uma justificativa ou sem estar fazendo algo, simplesmente estando, não é lógico ou racional (não raro ficamos aflitos por não estarmos fazendo nada!). Fabular, inventar, criar, encenar, não é lógico nem racional. Vejam que tudo que nossos filhos querem de nós é que também sejamos irracionais!

Para concluir, um segredinho: se formos irracionais, nós vamos nos divertir também, e muito! Bom dia das crianças (todos os dias)!