Arquivo | agosto 2017

QUEM “DIPLOMA” O PAI?

Hoje, dia dos pais, acordei pensando nessa data. Claro que eu sei que é uma data comercial, cujo objetivo é ajudar o comércio, tão sofrido, a vender um pouco mais. Nesse sentido, é uma data que nos afasta do afeto e da emoção, na medida em que transforma um objeto (o presente) em símbolo do carinho. Reforça o paradigma da sociedade de consumo de que ter algo é o que nos faz ser alguém. Ou, que nossas emoções precisam de um objeto para se manifestar. Tudo precisa ter uma concretude, uma forma, um tamanho, para existir. Carinho é um vento, sem forma, sem peso, sem visibilidade, mas com muita presença. Mas isso é outra conversa, e não é por aí que eu gostaria de ir, ao menos hoje.

O que me ocorreu foi que eu não sou pai sozinho. Isto é, só sou pai porque a Carolina é minha filha. Isso é uma obviedade, mas que nos faz pensar, uma vez mais, que o ser humano só tem existência a partir do outro. Claro que não falo da existência biológica pura. Esta, a rigor, poderia existir, no isolamento total, ainda que poderíamos questionar se há isolamento total possível e, em havendo, se seria compatível com a vida. Na vida cotidiana, para o nosso dia a dia, temos inúmeros estímulos que nos remetem a um individualismo de performance. A ideia do indivíduo campeão. A vida não é assim e quando temos a oportunidade de nos lembrarmos disso, é bom pararmos para refletir um pouco. Lembrar que só sou pai porque a Carolina existe é uma dessas oportunidades. Como, para todos os pais que porventura lerem o blog, só o são, por conta dos filhos. Portanto, quem nos dá o “diploma” de pais, são os nossos filhos.

Talvez estejam se perguntando qual a importância disso? Onde esse pediatra e pai quer chegar? Quero chegar no ponto onde, se fomos diplomados por nossos filhos, estes, se formos atentos, certamente seguem nos ensinando, como em um processo de educação continuada. Carolina me ensinou e continua ensinando coisas maravilhosas que, talvez, façam parte do ensino que seus filhos ainda lhes oferecem.

Começo pelo afeto e amor. O nascimento de um filho dispara, de forma incontrolável, uma emoção inédita, ímpar. Para homens, criados em uma cultura com alguma restrição quanto à manifestação de emoções, o nascimento de um filho é uma janela que se abre em nossas vidas. Não dá para fingir que não está acontecendo nada. A emoção está ali, pulsando. É uma libertação de um preconceito tolo (qual preconceito não seria tolo?) que nos é dado, pelos nossos filhos.

Estabelecer contato físico. Alguns homens foram criados em famílias onde o contato físico era o normal. Outros, cresceram com um limite bem definido para o corpo. Um filho rompe essas barreiras. Desde bebê, ao pegar no colo, embalar, colocar próximo, até embolar em brincadeiras, agarrar na hora de dormir, fazer cócegas e gargalhar junto, filhos nos tornam menos assustados com o contato físico. Filhos nos ensinam que temos uma psiquê onde as emoções flutuam, mas é no corpo que elas se expressam e se realizam.

Desenvolver a criatividade. Filhos querem ouvir histórias, narrativas que, quanto mais fantásticas, mais encantam. Com nossos filhos, nos desligamos de uma lógica cartesiana, racional, e entramos no mundo do fantástico. Viajamos junto com nossos filhos, revivendo o prazer da fantasia. Aprendemos que a vida não é só uma trilha coerente, exata, precisa, demonstrável.

Aprofundar a curiosidade.  O que é um trovão? Por quê chove? De onde vem o sal do mar? Filhos fazem perguntas simples, impossíveis de serem respondidas sem que voltemos aos livros (ou google) para responder. Exigem um exercício de voltarmos a aprender.  Com nossos filhos, exercitamos a humildade do não saber e sentimos o prazer de aprender.

Manter viva a criança em nós.  Aprendemos, com nossos filhos, que temos todas as idades, ao mesmo tempo e podemos nos deliciar com isso. Rastejar de quatro pronunciando palavras incompreensíveis (adabadu, blu blau) ou ainda fazendo perguntas de forma bem lenta: quem é a queridinha do papai? Cadê a gostosura do papai? Podemos nos fantasiar, usar peruca, maquilagem. Ficamos escondidos atrás de árvores e corremos até o pique. Brincamos de amarelinha, jogo da memória e casinha. Assistimos filmes infanto-juvenis e secamos as lágrimas no escurinho do cinema. Filhos nos lembram que ser criança é muito bom.

Respeitar as diferenças. Filhos não seguem o plano que traçamos para eles. Começam a se “rebelar” contra o plano quando nascem e demonstram que possuem uma existência própria. Não se comportam como os livros diziam, muito menos os cursos de como ser pais. Choram de madrugada, mamam demais, mamam de menos. Um dia de um jeito, outro de outro. Crescem, revelando seus desejos e vontades. Sempre em busca da sua identidade, se rebelam aqui e acolá. Aderem a modas que não entendemos ou aprovamos. Escolhem profissão, amigos, parceiros. O aprendizado, contínuo é o do respeito às diferenças. Mais do que isso, a celebração da individualidade.

Mais do que tudo, filhos nos ensinam, desde pequenos, que pai não é o que fazemos e sim o que somos. Nosso amor, contato físico, criatividade, curiosidade e repeito pela individualidade, é que nos faz pais.  E, foram eles que nos ensinaram isso tudo!

No dia do pais, celebremos  o quanto nossa vida ficou mais afetiva, amorosa, alegre e divertida, com o “diploma ” que nossos filhos nos deram.

PS- na foto, Carolina, minha professora e eu.