Arquivo | maio 2016

AQUI NINGUÉM TOCA!

aqui-ninguem-toca2Não dispomos de estatísticas confiáveis a respeito da violência ou abuso sexual em crianças. Mas, a estimativa feita pelo Conselho da Europa é que aproximadamente uma criança em cinco sofreu ou sofrerá alguma forma de abuso sexual. Vou repetir o número- uma em cinco, estimado pelos países da comunidade europeia.  Uma em cinco é o mesmo que 20% ou ainda, numa turminha de 20 crianças, estatisticamente, 4 poderão ter sofrido ou sofrerão alguma forma de violência sexual. 

Este problema é tão grave que, além de todas as ações locais e recomendações internacionais feitas pela OMS e UNICEF, o Conselho da Europa desenvolveu um “pacote” para a divulgação de uma regra simples a ser ensinada às crianças: AQUI NINGUÉM TOCA.  A criança deve aprender que ninguém a toca por debaixo da fralda, calcinha ou cueca. Em inglês o nome da regra é The Underwear Rule. A regra foi criada para ajudar os pais e os educadores a começarem a falar sobre este tema com as crianças e pode ser uma ferramenta muito eficaz para prevenir o abuso sexual. 

A regra “Aqui ninguém toca” possui cinco princípios importantes:

1- O seu corpo é só seu. As crianças precisam ser ensinadas de que o seu corpo lhes pertence e que ninguém pode tocá-lo sem a sua autorização. Os pais devem falar com as crianças, desde pequenas, a respeito do corpo e do que é um contato permitido e o que não é. As crianças precisam aprender a dizer não de forma enérgica e serem incentivadas a comunicar qualquer situação à mãe ou ao pai. 

2- Contato físico próprio e impróprio. Para facilitar o entendimento das crianças do que seja um contato proibido, a regra delimitou a área do corpo coberta pelas roupas íntimas ou fraldas. Crianças devem ter muito claro que nessa parte do corpo, ninguém toca. Também devemos ensinar a nossos filhos que as partes do corpo de outra pessoa, coberta pelas peças íntimas (cueca e calcinha) não devem ser tocadas por eles. Isto é, a regra “Aqui ninguém toca” vale tanto para impedir que alguém toque nas crianças, quanto esta tocar um adulto. 

3- Bons e maus segredos. Um agressor de crianças é, em geral, alguém conhecido desta e que goza de certa confiança. O adulto agressor é, em geral, sedutor e uma das suas táticas é a de combinar segredos com a criança- isso é segredo só nosso, não vamos contar para ninguém! Combinado? Nossos filhos devem ser orientados a jamais guardarem nenhum tipo de segredo a respeito de alguém que tenha desejado ou conseguido tocar no corpo ou pedir que toquem no dele. Esse é um mau segredo e a crianças nem sempre vai entender isto. Devemos reforçar, dando exemplos de bons segredos, como uma festa surpresa para um irmão ou parente. Ou ainda onde determinado presente ou objeto foi escondido para que outra pessoa o procure. Crianças adoram segredos e os abusadores se utilizam desta vulnerabilidade. Portanto, nunca é demais incentivar a criança a contar tudo, sem guardar segredos a respeito de adultos que sugerem isso para tocar ou serem tocados. 

4- Comunicação aberta e sem julgamentos. Crianças abusadas podem sentir vergonha e medo. Por esse motivo não contam o que ocorreu aos pais. Eventualmente sentem medo da reação que os pais possam ter. É importante que estes mantenham uma postura de não julgamento ou repreensão da criança, acolhendo-a com carinho, estimulando que conte, sem medo, o que teria ocorrido. Os pais também devem controlar sua ansiedade ou raiva, para não tornar a conversa em um interrogatório que intimide a criança.  Se uma criança se sentiu desconfortável com algo, provavelmente merece ser conversado com os pais. Valorizem o desconforto dos filhos porque estes não ocorrem “por nada”. 

5- Quem é de confiança?  Entre desconfiar de todos e não desconfiar de ninguém, existe um enorme espaço. Com relação a estranhos é mais fácil se fazer essa diferenciação. As regras “clássicas” continuam valendo: não converse com estranhos, não aceite presentes, não entre no carro etc. A questão fica mais complexa com conhecidos, principalmente porque, não raro, o abusador é conhecido da criança, quando não da mesma família. A criança deve compreender que seus pais são de confiança, mas, deve saber que tem algum familiar fora do núcleo da casa com quem também possa falar e confiar. Pode ser um dos avós, um tio ou até uma madrinha ou padrinho. Isso porque, infelizmente, em alguns casos de abuso, o abusador vive na mesma casa da criança (pai, mãe, madrasta ou padrasto). 

O importante é que não façamos de conta que violência e abuso sexual não existem. Ou, se existem, estão limitados a determinados grupos sociais (longe do nosso).  Infelizmente, o abuso ou violência sexual é um desvio humano que atinge a todas as classes sociais e todas as culturas. É produzida por seres humanos com alto grau de conhecimento e sofisticação cultural, tanto quanto por pessoas sem escolaridade ou acesso à informação. Pior, os abusadores de bom nível educacional tendem a ser mais “sofisticados” na sua abordagem e os pais da criança abusada mais incrédulos de que isso possa ocorrer com seu filho.

Este é um post que não me dá prazer em escrever porque aborda um tema que preferíamos, todos, que não existisse. Mas, como existe, o pior que podemos fazer para nossos filhos é fingir que não existe ou que com os nossos, não ocorrerá. É preciso darmos um ambiente de grande segurança emocional para que nossos filhos falem conosco, se for necessário, sobre este assunto e meios para que se defendam. A regra “Aqui ninguém toca” pela sua simplicidade e objetividade pode ser um destes meios.

Para saber mais visite o site em http://www.underwearrule.org/default_pt.asp. Baixe o livro Kiko e a mão e leia-o com o seu filho. 

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MÃE COM M DE MULHER!

maternité Chagall 2Dias das mães! O que escrever de forma original, interessante tocando a emoção (e a razão) de quem lê este blog? Diante de tudo que já foi escrito e dito, o melhor seria passar batido pela data, deixando para os Drummond e Quintana da vida (para citar dois poetas que escreveram sobre a mãe), a função de homenagear a todas.  Também não dá para competir com o comércio em mensagens piegas e emotivas, cujo objetivo final é o de emocionar para vender mais. Ou ainda, enveredar pelo caminho da erudição, falando sobre a mãe através dos tempos, no pensamento filosófico ou psicanalítico. Afinal de contas, sou um pediatra e desses temas não entendo nada. Mas aí é que reside o meu dilema. Como pode um pediatra não enfrentar o desafio de escrever algo original, interessante e que possa tocar a emoção (e a razão) de quem lê este blog?  Me ocorre relatar um pouco do que vejo no meu dia a dia com mães, pais e filhos, tentando fugir do lugar comum.  Veremos no que isso vai dar!

Atualmente, a dinâmica familiar pode ter diversas configurações como por exemplo: mães e pais, avós ou outros familiares que substituem os pais, pais adotivos, mães solteiras, casais homoafetivos, relacionamentos poliafetivos e, eventualmente, outras que ainda se formarão. A maternidade não é exclusiva da descendência biológica, nem do gênero feminino, sendo, antes de tudo, uma atitude diante do filho e um processo no dia a dia da vida. Apenas para facilitar meu trabalho de escrever e o do leitor de ler, vou utilizar as palavras mulher e homem, deixando claro que me refiro a funções que podem ser exercidas por qualquer pessoa, de qualquer gênero, que tenha o vínculo afetivo e amoroso que caracteriza esta relação especial.

No princípio, era uma mulher. Certo dia, esta mulher conhece um homem e desse encontro, em algum momento, acontece uma gravidez. Agora, temos uma mulher com um bebê que cresce na sua barriga. E assim seguem os meses, com a mulher carregando o seu bebê. Um dia, a mulher se vira para o homem e diz- é hoje (esta história se passa no tempo em que não havia data marcada para o nascimento)!  E, no exato dia em que nasce o filho, a mulher se transforma em mãe. Sei que os leitores radicais me dirão que esta mulher já era mãe durante a gravidez. Peço a estes que sejam generosos e me deem o direito a uma certa licença literária, sem entrar na polêmica de quando uma mulher vira mãe. Mas, todos concordamos que, no princípio era uma mulher.

Aqui a história toma um novo rumo. Ao invés de percorrer o clássico conto onde a mãe embevecida acolhe com um amor inédito seu bebê (o que é absolutamente verdadeiro), a notícia é de um sequestro! A manchete nos jornais informa:

“FILHO SEQUESTRA MULHER E A TRANSFORMA EM MÃE!”

Aquela mulher que com seu companheiro levava uma vida “normal”, trabalhando, se divertindo, fazendo suas coisas, saindo com amigos, namorando, viajando, se vê, subitamente, em “cárcere privado”! Sua vida passou a ser definida pela necessidade do bebê. Aquela mulher dormia à noite e agora, já mãe, aprende a dormir fragmentadamente, duas horinhas à tarde, uma hora de madrugada e assim, todos os dias. Aquela mulher que tinha ânimo para fazer ginástica, ir ao cinema, sair para tomar um chope, agora, já mãe, se vê num ciclo interminável de peito, fralda, colo, choro, peito, fralda, colo, choro…. e olheiras!  E, quando vai ao pediatra, acompanhada pelo pai (sim, aquele que era o companheiro, agora é pai!), silenciosamente suplica com o olhar: doutor, isto vai acabar um dia?

O que é mais curioso nesse sequestro é que ele é celebrado por todos. Apavorada, percebe que ninguém se deu conta do sequestro da mulher e só falam, com alegria e orgulho da mãe! E a mãe, em geral, está encantada, sentindo uma forma única de amor por seu filho, um afeto ímpar e inédito. Mais, pode ter muito prazer em amamentar, trocar fraldas, acalentar e consolar o choro, descobrindo uma vitalidade que desconhecia ter (o termo moderninho seria resiliência)!  É uma variante da Síndrome de Estocolmo, onde a vítima passa a nutrir grande simpatia por seu sequestrador! A mãe acaba por convencer à mulher que ela nunca existiu, era uma fase passageira ou ainda uma ilusão.  Nesse sentido, a celebração do dia das Mães, corre o risco de reforçar essa noção de que quando uma entra em cena (a mãe) a outra, obrigatoriamente tem que sair (a mulher).

Meu ponto com essa ficção que espero seja lida como bem-humorada é que no princípio era uma mulher e que esta será sempre uma mulher. Ser mãe se soma ao ser mulher, sem nenhuma necessidade de exclusão. É claro que nos primeiros meses, o bebê precisa da mãe e a mulher, entendendo isso, cede o palco para esta. Mas, mesmos nesse período, a mulher não deve se recolher ao camarim.  Pode e deve entrar em cena, de tal forma que a plateia nunca esqueça da mulher que deu origem a tudo. Não deve competir com a mãe que nela habita, porque sabe que nos atos seguintes, voltará a brilhar e ter destaque. Não precisa “brigar” com a mãe que se tornou, no ato em que esta é a figura mais marcante em cena. Equilíbrio difícil, mas importante.

Ao pai ou quem desempenha essa função, cabe um papel importantíssimo nesse enredo. Quando a mãe entre em cena, o pai surge como um guardião daquela dupla (mãe-bebê). Cuida do em torno, da proteção, física e psíquica. Garante que a nova dupla tenha as condições necessárias para que tudo corra bem nesses primeiros meses de vida. Nesse sentido, não é apenas um ator coadjuvante, aquele que, nos programas de humor, chamam de “escada”. Mas, passado esse momento inaugural ou inicial, que não tem uma data precisa, mas que estou “didaticamente” colocando em torno do sexto ou sétimo mês de vida do bebê, esse pai deve reassumir mais intensamente seu papel de marido, companheiro, homem.

Caberá ao homem um papel importante, ajudando, ao mesmo tempo à mãe recuperar plenamente sua condição de mulher e à criança as condições para se desenvolver de forma plena. Sem a transformação da relação de dupla (mãe-filho) em trinca (mulher-homem-criança), podem não se dar as condições para que a criança desenvolva sua capacidade de tolerar a frustração, se auto consolar ou em linguagem mais simples e direta, se virar sozinha. É colocando limites ou usando uma expressão um pouco mais forte, estabelecendo a interdição da mãe e de espaços (reais e metafóricos) que o pai ajuda tanto à criança, quanto à mulher. É desse movimento de adaptação dinâmica de todos, que se resolve o sequestro e se restitui à mãe a condição de mulher, sem a perda da maternidade. À criança, se dá o espaço para que desenvolva sua identidade, sem a perda do pertencimento à família.

Em nada, esta história diminui a beleza e intensidade da maternidade. De forma alguma minimiza a importância vital do amor maternal que dura a vida toda e persevera nos filhos, mesmo depois que a mãe se foi. Afinal de contas, eu poderia também dizer que, para cada um de nós, no princípio era a mãe!

 Meu carinhoso abraço a todas as mães, mulheres generosas que tecem nossas vidas com fios de amor.