Arquivo | janeiro 2016

POR QUÊ LIMITES SÃO IMPORTANTES?

limites

Por onde se leia ou ouça algo a respeito de crianças, vai surgir a afirmação de que limites são importantes para as crianças. Aqui mesmo no blog eu já fiz esse comentário, sob diversas formas, várias vezes. Me ocorreu que essa afirmação pode ser algo que repetimos, sem realmente pararmos para pensar no que possa significar e qual a razão para se afirmar que limites são importantes. De forma mais prática, vou tentar responder à pergunta deste post. Para quem me conhece e sabe da brincadeira que faço a respeito de escrever um livro que tivesse um número na capa (As 7 regras da alimentação infantil; As 11 lições do Himalaia para a felicidade das crianças; As 9 formas de colocar o seu bebê para dormir; Domine as 3 técnicas infalíveis para a amamentar etc.), este post quase se chamou As 5 razões pelas quais limites são importantes! Vamos a elas.

1- LIMITES OFERECEM SEGURANÇA E PREVINEM ACIDENTES:

  • não pode ficar na janela
  • sai de perto do fogão
  • tira a mão da tomada
  • solta a faca agora
  • coloca o capacete ou não vai andar de bicicleta
  • segura com as duas mãos
  • desce daí já
  • coloca a boia

A lista de “comandos” poderia continuar. Mas, me parece que são autoexplicativos de como limites são importantes para garantir a segurança e prevenir acidentes. Este é um tipo de limite que os pais nunca têm dificuldade em impor, sem nenhuma negociação ou, dependendo da situação, conversa explicativa. A urgência impõe que o limite seja dado de forma rápida e enérgica, sem rodeios e, óbvio, sem a menor culpa por parte dos pais. Voltarei a esta situação quando falar de outros limites.

2- LIMITES PROMOVEM A SAÚDE:

  • coma um pouco dos legumes
  • hoje a sobremesa é fruta
  • não coma mais biscoitos
  • escovou os dentes?
  • vamos passar o protetor solar
  • coloque o chapéu
  • está na hora de dormir
  • chega de brincar com o celular
  • dói um pouco, mas, precisa tomar (vacina)

Novamente, a lista poderia ser mais longa e fica claro que todos os limites descritos acima têm relação com a saúde. Seja para produzir um benefício imediato, seja para prevenir doenças no longo prazo. Estes limites, diferente daqueles relacionados com a segurança da criança, nem sempre são implementados da mesma forma. Claro que nas questões de segurança não existe negociação e nas de saúde pode (e deve) haver uma conversa, explicação etc. Mas, o objetivo deste post é dar aos pais uma explicação de por que limites são importantes.  Neste tópico, mostrei que limites têm ou podem ter impacto direto na saúde dos filhos. A pergunta então poderia ser: se você pudesse fazer algo para tentar evitar que seu filho ou filha infartasse ou tivesse um derrame aos 50 anos, você faria? Se e resposta for sim, já entendeu porque limites relacionados à saúde são importantes e merecem o trabalho que dá para implanta-los.

3- LIMITES CONTRIBUEM PARA DESENVOLVER UMA PERSONALIDADE AJUSTADA:

  • levanta do chão, assim você não vai conseguir nada
  • estou aqui perto, pode ir dormir
  • chorando eu não te entendo, fala sem chorar
  • não vou dar na sua boca, você já sabe comer
  • é o que temos em casa
  • senta para fazer o dever de casa
  • não vai jantar no quarto vendo TV, vem sentar à mesa com seus pais

Crianças são economistas ortodoxos intuitivos. Tendem a buscar otimizar os benefícios, minimizando os custos. Como o seu horizonte de tempo é o presente, sua lógica é a do benefício e custo instantâneos. Não há consequência futura, nunca. Depois, é uma palavra sem o menor sentido para uma criança. Diga para ela comer um doce, depois. Ou, guardar o brinquedo para depois. Cabe a nós, adultos, modular esse imediatismo via limites. É através dos limites que vamos oferecer aos nossos filhos a oportunidade de se defrontarem e resolverem a frustração que estes geram. Se não houver o limite, não haverá a frustração e, sem esta, é impossível que uma criança desenvolva os meios de se autoconsolar e desenvolver os mecanismos que a permitirão conviver com as limitações que o dia a dia nos impõe, sem permanecer em um estado de irritação ou agressividade permanente. Nesse sentido, limites contribuem para o desenvolvimento de uma personalidade ajustada.

 

4-LIMITES PROMOVEM A CIDADANIA:

  • não jogue o lixo na rua, jogue na lixeira
  • não pode morder seus pais ou coleguinhas
  • não pode pegar a borracha do colega
  • se pegar esse biscoito, temos que pagar
  • o caixa deu mais  troco do que devia, vai lá e devolve
  • espera o sinal verde para atravessar a rua
  • agradece o presente que recebeu
  • a fila começa aqui, temos que esperar
  • se apresse, temos hora e não podemos atrasar

Viver e coletividade, de forma cidadã, nos impõe limites. São as regras do convívio social, incluindo nossas leis. Não podemos fazer o que quisermos, quando quisermos, do jeito que acharmos melhor. Em geral, sabemos reclamar quando alguém tem uma atitude menos respeitosa com os demais (fura uma fila, joga lixo no chão, estaciona em fila dupla, anda pelo acostamento de estrada com engarrafamento etc.), mas, costumamos ser tolerantes quando “precisamos” fazer uma destas coisas!  Não raro, afirmamos que o Brasil ou os brasileiros são assim mesmo, num misto de desolação pela realidade geral e justificativa para o comportamento individual. Mas, se de algum modo, desejamos que nossos filhos vivam em um país diferente, é preciso que eles aprendam a ser diferentes e isso se consegue, em parte, com limites e, muito, com exemplos. Temos aqui mais uma razão ou motivo pelo qual limites são importantes e necessários.

5- IMPOR LIMITES É UM ATO DE AMOR

Se eu fosse realmente ousado ou corajoso, este post teria apenas a frase acima! Mas, em um mundo onde precisamos de evidências tangíveis, achei melhor descrever as 4 razões objetivas, antes de chegar nesta.

Ao impor limites à criança, esta, habitualmente, reage de forma enérgica. O limite é um obstáculo real à realização de um desejo ou vontade e, nesse sentido, a reação da criança faz todo sentido. Cabe aos pais não se deixar sensibilizar ou, pior, se culpabilizar por esta reação. Aqui, volto com os exemplos dos limites que garantem a segurança dos nossos filhos. Alguém se sentirá culpado por puxar uma criança sentada na janela que começa a chorar e dizer “mas eu quero sentar lá, você é feia”? A criança poderá fazer o escândalo que quiser, dizer as atrocidades que desejar que os pais permanecerão absolutamente tranquilos e seguros com a decisão tomada e a ação enérgica que empreenderam. Guardadas as devidas proporções e adaptando às demais situações, os pais nunca deveriam se sentir culpados por impor limites cujo objetivo é o bem estar da criança, seja imediato (segurança), seja futuro (saúde, ajuste emocional, cidadania). Se o objetivo é o bem, esses limites, esses “nãos”, são um ato de amor. Para nós, entender que um não seja um ato de amor, nem sempre é fácil. Por isso eu uso a comparação (exagerada), com a criança sentada na janela do oitavo andar, balançando as perninhas para fora. Assim, para que se consiga impor limites aos filhos, é importante compreender que existe uma razão (buscar alguma forma de bem) e uma emoção (amor) envolvidas. Uma vez plenamente embebidos destes dois vetores que justificam os limites impostos, os pais poderão enfrentar, com mais tranquilidade, a reação que sempre vai ocorrer, até a adolescência (fase onde limites são fundamentais, pelos motivos expostos acima, de forma ainda mais dramática no que diz respeito à segurança e saúde).

Mas, além desta reação contrária, enérgica, crianças e adolescentes adoram limites! Ele escreveu adoram? Deixa eu ler de novo. Sim, ele escreveu adoram! Explico. Além dos objetivos lógicos pelos quais impomos limites (tópicos acima), estes (limites) dão à criança e ao adolescente a certeza (inconsciente) de que alguém cuida, se preocupa, olha, tem cuidados, com eles. O limite é como um abraço amoroso bem apertado. Ao mesmo tempo em que estamos contidos fisicamente pelo abraço, nos sentimos envolvidos por afeto e a sensação é prazerosa. O limite funciona como esse abraço, em um nível que as crianças não acessam, mas sentem. Se tem alguém que vai colocar limites, posso explorar o mundo sem medo porque, se houver alguma ameaça, o limite vai surgir. Essa frase, seria o inconsciente dos nossos filhos falando, se pudéssemos ouvi-lo. Por isso que, curiosamente, crianças que reagem de forma exagerada aos limites, podem estar pedindo mais! Sentem que o abraço está frouxo e, sem saber direito de onde vem aquele mal estar, se queixam do (pouco) limite como se fosse muito. Claro que isto não é uma regra, muito menos uma receita de bolo, mas, uma sugestão de reflexão para os pais.

Finalmente, uma recomendação e uma exceção. A recomendação é que escolham os “nãos” relevantes. Se tudo for não, ou se banaliza o limite e ele perde a função ou se massacra a criança, inibindo sua criatividade e, ao invés de reforçar sua autoestima, acabamos por reduzi-la.

A exceção são os bebês pequenos. Para estes, nem pensar em impor limites. Estes precisam, para que o seu pleno desenvolvimento físico e psíquico, que nos primeiros meses de vida, seus “desejos” sejam todos acolhidos. Bebês devem mamar quando quiserem, dormir quando conseguirem, ser pegos no colo o tempo que isso lhes der calma e prazer. Sem limites. Depois, a história muda e os pais de bebês pequenos que leram até aqui podem reler o blog quando seus filhos estiverem um pouco maiores!

Independentemente da idade, do recém-nascido ao adolescente, ou diria até filhos adultos e casados, mudam as razões pelas quais fazemos isso ou aquilo para e com nossos filhos. O que nunca muda é o afeto, o amor.

 

E NÃO É QUE CRESCEM?

Carolina e SylvioA crônica a seguir é uma ficção. Ou, como aparece nas embalagens de alimentos- meramente ilustrativa.

Planejada ou não, há uma gravidez. A vida muda radicalmente. Até o minuto antes de ver o resultado do exame, havia uma mulher com alguma expectativa. Positivo! A mulher continua ali, perplexa, alegre, triste,  preocupada, realizada, quando se aproxima uma mãe e fica ali do lado olhando. A mulher se movimenta e a mãe vai junto, como uma sombra, ainda externa. O corpo vai se modificando e a mãe, que era apenas uma sombra,  vai ocupando o lugar daquela mulher. Por um tempo, há uma enorme confusão de identidade: mulher ou mãe? Ambas? A gravidez avança e não dá mais para esconder, lá vai uma mãe, com a sombra de uma mulher a acompanhá-la. O pai fica meio que esperando para saber se, naquele dia, ou momento, está com a mulher ou a mãe do filho.

O bebê é um projeto, onde cabem todos os desejos e sonhos. Será educado de uma maneira ímpar, muito melhor do que os futuros pais foram, com muito mais tolerância, paciência e até sabedoria. Hoje somos mais bem informados, menos engessados, cabeça mais aberta. Nosso filho vai ser uma pessoa realizada e feliz que vai nos amar profundamente. Junto com esses sonhos, as providências de roupas, fraldas, arrumar um quarto, escolher um berço, tudo sempre visando o melhor para o filho. Nesse ponto o mercado faz a festa, inventando móbiles que desenvolvem o hemisfério esquerdo do cérebro e chocalhos para o direito. Chupetas orto-anatômicas e uma coleção de músicas que estimulam a capacidade matemática do bebê. Enfim, o mercado se aproveita desse momento de sonhos e idealizações para vender tudo que é tralha que pareça contribuir para um ser humano fabuloso. Fora os cuidados com a saúde, outro capítulo onde o mercado faz a festa. Travesseiros anti- isso, gotas anti-aquilo, bolsas térmicas para evitar aquilo outro e pomadas mágicas.

Nasce o bebê. Uma pessoa passa a ter existência real. Essa pessoa nunca é a mesma que foi planejada. Esta chora à  noite e quer mamar o tempo todo. Ou, dorme demais, preguiçosa para mamar. Ou, fica vermelha, se espremendo toda como se algo muito ruim estivesse acontecendo. Onde está aquele bebê do nosso plano? Foi substituído pela pessoa real!

Nessa fase, os amigos dizem: “calma, passa rápido”. Só pode ser ironia, pensam os pais. Nada passa. O tempo congelou e só existem mamadas, fraldas, cocôs, pomadas em ciclos intermináveis, não necessariamente na mesma ordem. Vida própria, vontades? Esqueçam! Isso nunca vai acabar,  pensam todos os pais. Mas, acaba. E não é que crescem?

Viram bebês que sorriem, sentam, engatinham e andam. Começam a comer sozinhos  e ter vontades próprias. A pirraça se instala e, na sequência a argumentação, pautada por intermináveis por quês! Nesse momento os pais se dão conta que aquele plano de ser melhor do que os avós meio que perdeu o sentido. Já ficaram irritados, chateados, perderam a cabeça e disseram coisas que haviam prometido nunca dizer. Pelo menos, ficaram mais humanos e, em algum momento, reconhecerão que seus pais até que foram bem legais.

Vem a escola, os amigos, o dormir fora, a vontade mais estruturada e um poder de negociação sedutora incrível. Que delícia! Mas, não é que crescem? Certa manhã os pais se dão conta que há um adolescente na casa. Se dão conta porque não acordou para tomar o café, dormindo até depois do meio dia e quando acorda, exige um determinado café da manhã. À noite quer sair e bate portas quando não lhe é dada a autorização. Informam aos pais, com todos os requintes de crueldade possível que os pais dos amigos são muito melhores do que eles. Sabem o que dizer para ferir, mortalmente seus pais. Nessa época, começam a pensar: ” quando eu tiver filhos, vou ser muito mais legal com eles do que esses meus pais”!

Os pais, em geral, só percebem o crescimento dos filhos, depois deste ocorrer. Namorar? Não é cedo demais? Vestibular? Mas, já? Ontem era um bebê! Pois é, o tempo congelado, imóvel quando tinham um bebê, virou um cachoeira, fluído, rápido e incontrolável. Os pais passam a correr atrás do tempo dos filhos, como corriam atrás dos mesmos quando aprenderam a andar.

Formatura, trabalho, ideias próprias! Escolhas! E não é que crescem?

E chega um dia onde apresentam um namorado ou namorada, mais “sério”. Os pais ficam ali olhando, sem saber se acham bom, acham ruim ou não acham nada. Mas, no íntimo, se perguntam: não é cedo, acabou de se formar, não seria melhor esperar um pouco mais?  Há um conflito na cabeça dos pais entre a alegria de ver uma pessoa feliz, independente, se realizando e a constatação de que a filha ou filho ganhou mundo. É um pouco a maldição da prece atendida. Tudo que os pais querem é filhos independentes, mas, precisava ser agora? Isso, porque eles crescem!

Até que um dia comunicam que vão se casar. Um ciclo que se inicia, repetindo um ciclo que os pais já viveram, assim como os pais dos pais,  ainda que novo e , único. A formação de uma nova família, ampliando a dos pais que aprendem  a conviver com noras e genros.  A perspectiva de se tornarem avós se aproxima desses pais, como uma sombra, ainda externa, aguardando o momento de dar o bote e transformá-los em vovó e vovô.

Qualquer semelhança desta crônica com realidade é mera coincidência. Não tem nada a ver com o fato da minha filha Carolina se casar, amanhã, com o Sylvio. Nenhuma relação com o espanto que é perceber o ciclo da vida acontecer de forma rápida (demais)! Mero acaso perceber que a minha família aumentou.

Sinto novas emoções e, curiosamente, uma renovação. Vejo na alegria da Carolina e do Sylvio, motivos para minha alegria. Vejo no amor deles, um toque de suavidade, necessário na vida. Vejo no sorriso cúmplice de ambos,  a eternidade do momento presente. E me vejo muito feliz em poder ver tudo isso, constatando – e não é que crescem?

Na foto que ilustra o post, Sylvio, Carolina, Saquê(gato) e Panda(cachorro), a família que se forma enquanto eu vou saindo, discretamente do palco e me sento na platéia. O palco, agora, é deles. E eu, sentado, aplaudo, feliz. Não contenho a emoção (nem quero).  Uma lágrima escorre pelo meu rosto.  Sorrio. Cresceram!