Arquivo | setembro 2015

FAMILIA S.A.

Cultura é o conjunto de comportamentos de uma determinada população, em uma época. Esta é uma definiçãoreuniao-domestica_2
simplista, portanto incompleta e superficial do que seja cultura. Mas, seu uso é apenas para este post, sem pretensões mais profundas ou complexas.

Em geral, pensamos em cultura como algo externo a nós. Seja algo que aconteceu no passado, seja uma manifestação artística ou até um padrão de comportamento de outro lugar que não o que vivemos. Dificilmente nos percebemos como participantes da cultura. Mas, se cultura é o conjunto de comportamentos, os meus, obrigatoriamente, estão inseridos ou influenciados pela cultura. Alguns exemplos de como a cultura, até certo ponto, nos modela: hoje se uma menos do que há alguns anos atrás. Não só houve uma divulgação maciça dos malefícios do fumo, como os não fumantes se tornaram mais intolerantes com os fumantes. Em contrapartida, comemos mais fast food do que nunca. A saúde virou item de consumo e há uma pressão para que nos exercitemos. Em alguns momentos, a tecnologia contribui para uma introdução de novos hábitos que, ao se tornarem rotineiros, se integram na cultura. A luz elétrica permitiu que nossos dias acordados fossem mais longos. Com isso, ganhamos lazer, diversão, trabalho e perdemos sono! A pílula anticoncepcional não mudou a libido das mulheres, apenas fez com que o medo da gravidez, que moderava o comportamento feminino, fosse superado. A informática nos conectou 24 horas por dia, 7 dias na semana. Compramos livros às 3 da manhã, como se sempre tivesse sido a coisa mais natural do planeta! Poderia encher o post de exemplos de como a cultura está dentro das nossas vidas, determinando comportamentos que consideramos naturais. Cultura não é aquela coisa de museu. Cultura é a vida que levamos, todos os dias.

Com a revolução industrial surgiu a necessidade de desenvolvermos mecanismos de controlar e garantir a qualidade, lucratividade e sustentabilidade das empresas. Nascia a administração de empresas com uma série de ferramentas indispensáveis. Estas foram se sofisticando à medida que a tecnologia permitia mais velocidade e complexidade (já houve uma época em que uma HP12C era a ferramenta do gestor!) no processo de coleta de dados e tomada de decisões. O mundo percebeu a enorme vantagem de negócios bem administrados: lucro, assegurando crescimento, inovação e mais empregos. Planilhas Excel e Powerpoint passaram a fazer parte da vida do gestor. Eficiência, eficácia e um mundo de palavras em inglês foram incorporadas à vida cotidiana: downsizing, outsourcing, P&L, EBITDA, team building, deliver, mission, vision, values e por aí vai.

Até aqui tudo bem. A questão é quando uma determinada prática, desenvolvida para um cenário, se esparrama e ocupa a vida, sem  nos darmos conta. Ou, pior, nos damos conta e achamos que isso é bom. Famílias passaram a responder à lógica dos negócios, se parecendo com empresas. Os pais fazem o equivalente a um business plan, definindo o momento ótimo de ter o primeiro filho. Este, nascerá de parto cesáreo numa sexta à tarde, o que permitirá ao pai estar lá, sem perder a reunião de diretoria. A mãe e o bebê terão alta no domingo. Logística perfeita. Quando o bebê nascer, mãe e pai já terão feito uma análise das diversas formas de se cuidar de um bebê e terão optado por um dos diversos métodos disponíveis em livros e, sobretudo na internet. Antes do nascimento, já terão escolhido escolas, baseado na melhor relação custo/benefício de aprovação no vestibular.

O bebê chega em casa e, infelizmente, não fez a Harvard School of  Business. Ele ainda não sabe desse mundo eficiente, competitivo, meritocrata, onde o empreendedorismo é premiado. Ele sabe  mamar, chorar e fazer cocô. Não necessariamente nesta ordem. Não necessariamente em ordem alguma. Por mais que os pais coloquem as mamadas e trocas de fralda em aplicativos de previsão, nada parece funcionar. Um recém nascido é um rebelde por natureza, se parecendo mais com a meteorologia (imprevisível) do que com o budget forecast! Os pais entram em pânico e resolvem terceirizar o cuidado para quem sabe. O princípio da expertise, da especialização, entra em cena. Uma babá experiente é o que precisam. Melhor ainda se a babá se apresentar com um cartão de visitas que diz – Enfermeira. Algo como você ser recebido pelo gerente do banco cujo título é Vice-Presidente de Relacionamento Pessoal! Os pais acreditam que aquela empresa (Enfermeira S.A.) tem o know-how necessário para cuidar do bebê. Coisa que, apesar das tentativas feitas, eles se mostraram incompetentes. Afinal, Enfermeira S.A. está no mercado há tantos anos, certamente sabe mais de bebês do que eles, pais de primeira viagem. Claro que ela sabe mais de bebês, no  plural, mas, não sabe nada sobre aquele bebê, singular.

Os finais de semana são planejados em função de melhor otimização do tempo. Não há tempo para se perder, nunca. Viagens são feitas de acordo com a melhor época para se fazer compras, rentabilizando cada centavo. Informática e eletrônica são oferecidos à criança para que se familiarize com o mundo e possa se tornar competitivo. Livros e sucata doméstica, são coisas ultrapassadas, uma perda de tempo.

À medida que a criança cresce, passa a ter uma agenda de executivo. Escola todas as manhãs, tênis às segundas e quartas, judô ou ballet terças e quintas, inglês quartas e sextas e, pelo menos uma atividade para o desenvolvimento das habilidades de mentais e de cálculo. O mundo é assim, gostemos ou não, suspiram os pais, orgulhosos.

E assim, segue a Familia S.A., sem se dar conta de quanto a cultura empresarial invadiu a vida privada de todos nós. É claro que planejar é preciso. Assim como controlar o orçamento doméstico e fazer escolhas a respeito de escolas e atividades. É óbvio que a tecnologia é um enorme avanço e faz parte da vida , incluindo a das crianças. Mas, Familia S.A. não tem algo fundamental para o desenvolvimento do ser humano: vínculo e afeto.

Vínculo e afeto acontecem quando a lógica não é a da preformance, das metas e resultados. A lógica é do relacionamento. Relacionamento é lento. Relacionamento é difícil, exigindo respeito à individualidade do outro. Relacionamento é colocar limites e elogiar. Relacionamento é emocionar-se, rir e chorar juntos. Relacionamento é ilógico e irracional, às vezes. Como sentar juntos, em silêncio, e ambos olharem na mesma direção.

Na vida em família significa aprender com o bebê, confiando no que sabemos como humanos. Se traduz em sentar para ler um livro, sem pressa, ou brincar deitado no chão com uma caixa de ovos vazia e um barbante. Jantar juntos, sem TV ligada, sem celular, conversando. Perguntar sobre a escola, cobrando performance, mas, querendo saber se está feliz. Mudar um plano porque algo mudou, inesperadamente.

Família não é meta a ser atingida, é prazer a ser vivido. Sejamos eficientérrimos nos nossos trabalhos. Na família, sejamos amorosos.

 

PEDIATRIA INVASIVA!

Jack-and-Barbossa-pirates-of-the-caribbean-30769540-500-334Pediatria invasiva? O que será isso? Procedimentos invasivos, cirurgia invasiva, são termos mais comuns e conhecidos. O que seria a pediatria invasiva, ao menos a que eu gostaria de comentar no post de hoje? Seria a pediatria que cuida de crianças graves e precisa fazer uso de procedimentos invasivos, necessários em cuidados intensivos? Esta é uma pediatria invasiva desejável, diante de uma situação crítica. O que eu gostaria de comentar hoje é sobre uma pediatria que invade um território que não lhe pertence e, ao fazê-lo, se coloca como sendo a legítima ocupante desse espaço, como se invasão sequer tivesse havido.

Falo da invasão da pediatria pelo território dos saberes da   saúde e, principalmente, dos cuidados com as crianças. Claro que já escrevi sobre este tema, mas, como ele me é muito caro, retorno a ele. Retorno para, usando bom humor, chamar a atenção dos pais sobre a “eleição” de alguns como detendo um conhecimento especial, inacessível aos demais. Se elegermos o pediatra (ou outro profissional) como sendo detentor de um conhecimento que não temos, abrimos a fronteira para o invasor. Este, treinado para pensar a partir de uma lógica da doença, ocupa, sem se dar conta, esse espaço, julgando que é o legítimo “proprietário” do terreno.

Vamos simplificar a conversa? Toda vez que perguntarem algo para o seu pediatra, após ouvirem a resposta dada, complementem com outra pergunta: ” Dr. em que curso da faculdade de medicina lhe ensinaram isto? ” ou, ” em que publicação científica, leu isto? “. Vou dar alguns exemplos simples e frequentes de perguntas cujas respostas nós pediatras damos a partir de um saber de observar, tão bom quanto o de avós, pais e amigos que também já observaram crianças, mas que parece ser um conhecimento científico :

  • posso dar banho no bebê à noite?
  • quantos minutos devo esperar com o bebê  no colo, até ele arrotar?
  • é melhor ventilador ou ar condicionado?
  • que alimentos eu posso introduzir, agora que meu filho tem 8 meses?
  • com que idade um bebê pode sair na rua?
  • meu filho está fazendo muito pirraça, o que posso fazer?
  • a que horas meu filho deve ir para cama dormir?

Poderia fazer uma lista realmente longa de perguntas que, frequentemente são feitas aos pediatras como se estes tivessem um conhecimento científico  a respeito e pudessem dar respostas “certas”. Na origem dessa delegação de saber para o pediatra, identifico algumas causas.

A primeira é que o saber científico se tornou hegemônico. Isto é, temos praticamente como certo  que se o conhecimento não vem da ciência, não tem valor. Ora, a ciência é algo que não tem mais do que 500 anos e o homo sapiens está na terra há cerca de 180 mil anos. Portanto, o conhecimento, não científico, acumulado ao longo desses milênios foi capaz de nos trazer até aqui. Sou defensor ferrenho do conhecimento científico, mas, é preciso reconhecer que nem tudo é ciência. Aliás, a própria ciência começa com uma curiosidade ingênua, não estruturada, não inserida em métodos. Mas, como nossa cultura passou a considerar este conhecimento (científico), como o único válido, o que vemos é uma proliferação de declarações baseadas em pseudo-ciência. Pseudo-ciência é a apresentação de um fato, recheado de números e estatísticas, como se isso fosse o método científico. Como poucos de nós está afeito ao que seja o rigor do método científico, bastam esses números e alguns gráficos, para validarmos o conhecimento como sendo científico. Resumindo e concluindo este ponto, o conhecimento científico (verdadeiro) é fundamental, mas não é o único que nos faz compreender e, principalmente, agir no mundo. É preciso  resgatar o valor de outros saberes baseados na observação, experimentação pessoal e emoção. Se o único saber válido é o científico, olhamos para o pediatra como sendo o detentor ( não é), desse conhecimento especializado.

A segunda causa, talvez consequência da primeira, é que deixamos de ousar aprender. Ousar aprender significa se apropriar desse processo, questionando, criticando, experimentando, validando o conhecimento. Estamos imprensados entre a noção de que não sabemos nada (só quem tem conhecimento científico sabe) e um modo de aprender que é baseado no modelo escolar de fazer prova. Aprender para passar na prova e não para apreender o conhecimento! Se nos lembrarmos dos mais de 150 mil anos de conhecimentos acumulados, sem ciência e sem provas escolares, talvez nos sintamos encorajados a ousar um pouco e testar, do mesmo modo que nossos antepassados fizeram (e deu certo!).

A terceira causa, seria o custo da ousadia. Nos tornamos reféns de uma cultura de performance, eficiência, resultados. É preciso ser excelente em tudo que fazemos. Qualquer coisa menos do que isso é sinônimo de fracasso. Num contexto como esse, ousar e, certamente, errar algumas vezes, não é algo fácil de ser feito. Melhor delegarmos para “quem entende”, não nos arriscando à sensação de frustração (ou culpa) que um “erro” pode gerar em nós. Pais erram, sempre. Mas, dificilmente, erramos no essencial, fundamental. Portanto, a ousadia de aprender com nossos filhos  como devemos cuidar deles, não os coloca em risco. Pelo contrário, lhes dá uma chance de serem tratados como únicos e não com uma receita “científica”, aplicada a todos, sem distinção.

Finalmente, uma quarta e última causa (ao menos para o post de hoje) seria um distanciamento afetivo ou o estabelecimento de relações com objetivos e metas. Afeto é a base do relacionamento humano. A razão ou racionalidade só nos fascina e encanta (é uma delícia ler ou ouvir uma pessoa inteligente ou brilhante) quando há afeto para formar o vínculo. Ora, o mundo da razão acabou nos convencendo de que afetos, emoções atrapalham mais do que ajudam. No entanto, não é preciso ser nenhum gênio para constatar que somos animais simbólicos, antes de sermos racionais. Olhamos para uma pessoa que não conhecemos e pensamos algo a seu respeito. Seja pelo sua roupa, postura, aspecto etc. Sem que nenhum contato racional com a pessoa tenha sido estabelecido, já formamos uma opinião, a partir dos símbolos que captamos e interpretamos. Poderia dar outros exemplos, como o de olharmos para um bebê e sentirmos algo, antes de pensarmos. A racionalidade, característica fundamental do ser humano não é melhor, nem pior do que a emotividade, também um atributo humano essencial. Mas, em um mundo onde racionalidade inibe o afeto, como desenvolver um aprendizado ou conhecimento baseado em emoções, sensações, experimentação sem “base científica”? Fica muito difícil e o mais fácil é “terceirizar” esse saber para quem identificamos como sendo dono de um conhecimento que não temos (mas poderíamos ter).

A síntese deste post poderia caber em uma frase. Pais, vocês sabem muito mais da saúde e cuidados dos filhos do que imaginam e podem aprender sempre, se forem ousados de criativos, sem medo de errar.

É isso, ou entregar o tesouro aos piratas!