Arquivo | agosto 2015

NOVA VACINA PENTAVALENTE

habitos-saudaveis-alimentaresNotícia divulgada na ilha-reino de Utopia revela que uma nova vacina pentavalente foi aprovada para uso em humanos. A vacina protege contra a obesidade, diabetes tipo 2, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e algumas formas de câncer. Os pesquisadores ainda acreditam que esta vacina possa ter um efeito protetor contra a hipertensão arterial, mas o órgão regulador de vacinas ainda não aprovou sua comercialização como sendo uma vacina hexavalente. O ministro da Saúde de Utopia, Dr. Otimissimus, declarou: “caminhamos rumo a uma vida sem doenças”.

Utopia é o nome de uma ilha-reino, que dá nome a um romance escrito em 1516, por Thomas More. Esta ilha, teria sido inspirada nas descrições feitas por Américo Vespúcio, do que hoje conhecemos por Fernando de Noronha. Utopia foi um neologismo criado pelo autor, significando lugar nenhum. Era uma ilha-reino onde havia igualdade e justiça, portanto só encontrável em lugar nenhum. Somente nesta Utopia, poderíamos ter uma vacina pentavalente como a que descrevi no primeiro parágrafo.

O leitor do blog deve estar confuso, com razão. Afinal de contas, existe essa tal vacina? Se não existe, por quê essa história toda sobre Utopia? Onde esse pediatra quer chegar?

Respondo, por partes. A vacina não existe, como vacina. Mas, se existisse, você a daria a seu filho? Não tenho a menor dúvida de que a resposta será sim. Quem não gostaria de proteger seu filho contra essas cinco ou seis doenças, tão frequentes? Mas, se não existe a vacina, existe o equivalente a uma vacina que pode proteger os nossos filhos destas doenças. O equivalente à vacina são bons hábitos de vida: alimentação, atividades física, sono regular, vida afetiva e um tempo para ficar quieto, pensando em nada. Simples, barato e eficiente. Por quê então não vemos mais gente aderindo e ensinando aos filhos uma forma de viver com prazer e que os proteja de doenças muito comuns e frequentes? Por que somente em um lugar idealizado, como Utopia, as pessoas se comportariam de forma a obter vantagens no longo prazo, ao invés de facilidades no curto prazo. Isso responde à segunda pergunta de porque usei Utopia para começar o post.

Onde eu quero chegar com esse post? Gostaria de propor que pensássemos em porque não hesitaríamos em dar a tal nova vacina pentavalente e não aderimos, nem ensinamos aos nossos filhos, hábitos saudáveis de vida. A seguir, algumas ideias que eu tenho a respeito e que poderiam explicar nosso comportamento.

1- Vacinas representam bem a nossa cultura de hoje. Uma aplicação rápida, eficiência comprovada, um custo aceitável (seja pagando via impostos, seja na clínica privada)  e, o mais importante- assunto resolvido! Em uma cultura do rápido, eficiente e ticar checklists, nada como uma vacina.

2- Vacinas encarnam o mito do moderno, fruto da pesquisa científica e tudo que é moderno e científico é o melhor que se pode oferecer.

3- Vacinas  são práticas, exigindo pouco ou nenhum envolvimento dos pais. Qualquer pessoa pode levar a criança para ser vacinada. Os pais se sentem cumpridores de um cuidado, sem ter que se dedicar muito tempo a ele.

4- Nenhuma criança gosta de tomar vacina, mas, o tempo que os pais precisam usar sua autoridade e impor que a vacina será dada, não passa de 3 a 5 minutos, no máximo.

Hábitos de vida saudável são o oposto desses atributos que descrevi para as vacinas. Exigem um reforço (para ficar na linguagem das vacinas), diário. Portanto, é uma atitude trabalhosa, árdua, contínua. O assunto nunca está completamente resolvido e não pode ser ticado da checklist. Ou melhor, é ticado todos os dias e, no dia seguinte, está na lista de pendências, novamente. Nada mais frustrante para quem, como nós, vive em uma cultura de eficácia gerencial, extrapolada para a vida. Algo que precisa ser cuidado todos os dias, denuncia alguma incapacidade de resolver, de uma vez, o “problema”. Mas, hábitos de vida não são um problema a ser resolvido, mas, uma solução!

Hábitos saudáveis de vida não apresentam o glamour da modernidade, nem o mito do conhecimento científico como sendo a única forma de saber.  O antigo é confundido com o ultrapassado.  Nem tudo que é do passado, deve ser considerado ultrapassado. Mas, francamente, não pensamos assim. Veja o exemplo da alimentação. Quanto mais se estuda, mais damos razão ao conhecimento dos nossos avós que diziam que um prato saudável era um prato colorido. Mas, ao nosso redor, o que mais se vê são modismos e “modernidades” alimentares.

Hábitos saudáveis exigem um envolvimento enorme dos pais. Exigem uma realocação do que seria o meu tempo, para o nosso tempo. Nosso sendo o tempo com a família, os filhos. Exigem que os pais também modifiquem comportamentos para serem exemplo e aí reside uma das maiores barreiras para que nosso filhos possam aderir a um estilo de vida que funcione como  uma vacina contra as doenças citadas. Hábitos saudáveis dão mais trabalho porque a alimentação industrializada, de fácil acesso e preparo, nem sempre é a mais adequada ou melhor. A lei da gravidade é infinitamente mais forte no sofá em frente à televisão, nos prendendo lá ao invés de uma vida ao ar livre, com atividade física.  E, finalmente, exige que os pais se valham da sua autoridade de forma mais contínua e não só por alguns minutos. Limites bem colocados são fundamentais para que a “vacina” funcione. Não só é importante seIsola_di_Utopia_Moro estimular o que deve ser feito, como traçar limites claros e rígidos com relação ao que não deve.

Dito desta forma, parece uma tarefa impossível, utópica. Mas, não ensinamos nossos filhos a escovarem os dentes,
todos os dias? Não os educamos para usarem cinto de segurança, quando andam de carro? Aos poucos, não vamos criando o hábito do uso diário do protetor solar? Temos exemplos de bons hábitos que conseguiram ser introduzidos na nossa vida rotineira. Nem nos damos conta de que se tratam de ações de prevenção.

Cabe a você leitor decidir se vai “vacinar” ou não seu filho com a nova pentavalente. Como não estamos em Utopia, ela, por aqui, se chama de bons hábitos de vida. Quem ensinar seus filhos a adota-los, vai lhes dar  não só mais anos de vida, como mais vida nesses anos.

SER PAI DA CAROLINA

Image (51) (2)Filhota,
Hoje, dia dos pais, fiquei pensando em o que eu gostaria de postar no blog. Primeiro, pensei em uma receita de pai. Pegar alguns ingredientes importantes e muitas vezes esquecidos no armário da cozinha da vida (afeto, ócio, escuta, contato físico, leitura conjunta, respeito à individualidade, reconhecimento de diferenças, limites)  e misturar com outros  (presentear, praticar esportes, viajar, ir ao cinema, comer sorvete), colocar tudo isso no forno do amor e tirar um pai maravilhoso, quentinho e prontinho para o dia de hoje! Pensei que  seria um contrassenso para alguém como eu que vive dizendo para os pais olharem para seus filhos que são únicos, sem dar bola para regras gerais, escrever sobre um pai genérico, ideal! Além do mais, esse pai não existe.

Recentemente você me mostrou uma carta que eu lhe escrevi quando você tinha três anos. Era uma carta onde eu contava algumas das coisas que você fazia e, de forma bem contida, descrevia meus sentimentos com relação a você e à paternidade. Então eu resolvi, para comemorar o dia de hoje, lhe escrever uma nova carta, 23 anos mais tarde, falando sobre como tem sido ser seu pai. Pode ser que muitas coisas do que eu escreva façam sentido para outros pais, outras não. Pode ser que algumas coisas inspirem os pais, outras não. O mais importante é que todos os pais celebrem, ao seu modo, o dia de hoje. Essa foi a forma que escolhi.

Ser pai de um bebê não é das coisas mais fáceis do mundo. No início eu não tinha função nenhuma, ficava ali rondando sua mãe, para ver se sobrava alguma coisa para fazer. É uma sensação esquisita, mas real. Tinha sempre uma troca de fralda, um colo para você arrotar, empurrar o carrinho e coisas assim. Dessa fase, me lembro de ser um pai mais ousado do que a média, fazendo coisas que espantavam um pouco as pessoas. Com 5 dias de vida saímos para almoçar com você! Com menos de um mês, descobri que o melhor lugar para limpar o seu bumbum era no tanque da área. Como você nasceu em fevereiro, pleno verão, a água saía morna e era o lugar onde mais facilmente eu conseguia te limpar. Eu andava com você literalmente pendurada no meu ombro. Isto é, seus braços ficavam para trás, suas axilas encaixadas no ombro e eu andava sem segurar você! Era um espanto. Você teve, nessa época, um pai que era bem abusadinho com as “regras” de como se deve fazer isto ou aquilo.

Com o crescimento, começa uma interação deliciosa. Você sempre foi tagarela, curiosa e muito alegre. Cedo, começamos a andar de bicicleta (naquela época ainda sem capacete, coisa que jamais faria hoje!). E lá íamos nós pela orla com as pessoas gritando: olha o pescoço dela! É que você dormia e sua cabeça pendia para um lado ou para ou outro, para desespero dos pedestres!  Depois, vem a fase da escola, com seus espetáculos de fim de ano. Ver você, mínima, declamando e dando uns pulinhos, me levou às lágrimas. E assim se inaugurou uma novidade na minha vida: chorar em espetáculos de encerramento de ano. Até na sua adolescência, naqueles intermináveis espetáculos de encerramento do ballet com 537 turmas (e você, invariavelmente era uma das últimas), lágrimas escorriam pelo meu rosto.

Faço aqui parêntese e um registro para algum  pai que esteja lendo este post. Valeu a pena estar presente em cada um desses momentos, como valeu aImage (54) (2)pena ter ido à maioria das reuniões de pais, na escola, independentemente do horário. Não só pelo lado objetivo de saber o que estava acontecendo, do progresso da filha, mas, principalmente, pela emoção que gerava em mim. Não me pergunte porque gerava emoção. Emoção, por definição, não é racional! Só sei que ouvir de uma professora um relato sobra a minha filha, produzia em mim uma emoção deliciosa. Por isso recomendo fortemente a todos os pais que se esforcem por comparecer no máximo que puderem. De brinde, ganham uma emoção!

Me lembro que dentre as minhas preocupações de pai estava a de que eu queria muito que você fosse uma pessoa analítica e crítica. Tínhamos conversas curiosas, com você pequena. Destas, nasceu um mote ou mantra: paciência e criatividade, nessa ordem! Foi uma fórmula que surgiu de conversas sobre problemas que enfrentávamos (você tinha uns 5 anos!) e concluímos que se tivéssemos paciência e criatividade, poderíamos resolver muitas coisas. Um dia, viajando, você me disse algo como: quando as pessoas morrem paciência e criatividade não resolvem. Eu fiquei quieto, sem saber o que dizer. Aí você emendou- resolve sim, é só dizer que a pessoa virou uma estrela! Certamente você tinha ouvido isso de alguém, em algum momento, mas, juntou com o nosso mantra e, para aquele momento, resolveu a angústia da finitude humana! Um segundo mantra, mais ou menos da mesma época, foi: quem disse que a vida é justa? Isso surgiu porque, parte dos seus argumentos era: mas isso não é justo! Quase sempre invocado por você quando lhe dávamos um limite ou negávamos algo que queria.

Outra preocupação da sua mãe e minha é que fosse independente. Ambos temos a independência,liberdade e autonomia como valores fundamentais e  sempre pensamos em como te dar as condições para ser assim. Ler, foi um dos caminhos. Na leitura encontramos não só o estímulo para o pensamento, como intermináveis situações humanas. Seus pais gostam de ler e sequer tinham um aparelho de TV na casa, quando você nasceu! Você não teve muita opção e se tornou uma leitora desde pequena. Um dos nossos programas era ir na Malasartes, no Shopping da Gávea ler e comprar livros. Lá, D. Yaci, com a sua interminável paciência, nos orientava. Outro caminho para lhe ajudar a construir sua autonomia foi deixar que fizesse coisas sozinha, cedo. Você ia em festa de criança, sem babá ou adulto que ficasse com você. Te deixávamos e perguntávamos a que horas era para pegar. Isso me rendeu o rótulo de um pai descuidado que abandona a filha em festas! Também permitimos que viajasse sozinha, cedo. Aos 7 anos você você foi para uma colônia de férias, no Canadá, acompanhada por seus responsáveis primos de 12 ou 13 anos!  Aos 15 anos, passou 6 meses na França, morando na casa de uma família. Um outro caminho foi a escolha da sua escola. Queríamos que você pudesse ser, se quisesse, uma cidadã de qualquer lugar do mundo, não só do Brasil. Mas, na minha opinião, o que mais contou e conta no desenvolvimento da sua autonomia e independência foi o modelo ou exemplo da sua mãe.

Outro momento marcante foi o seu ingresso na universidade. Você foi aceita para Yale, uma das melhores universidades americanas.Na sua”formatura” do segundo grau, fui surpreendido com a notícia de que você tinha sido a melhor aluna da escola. Foram momentos de grande alegria e emoção. Algo que, na cabeça de um pai funciona mais ou menos assim: o mundo é duro e é preciso ter aptidões para sobreviver bem. Boa performance escolar não garante isso, mas, pode ajudar. Dá um certo alívio ver um filho progredir no mundo acadêmico. Seus 4 anos na universidade como que fecharam um ciclo de querer que fosse independente, autônoma, livre, cidadã do mundo. Acho que sentimos algo como se uma  das missões dos pais estivesse  cumprida.

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Até aqui, fiz uma crônica, curtíssima, desses meus 26 anos de ser seu pai. Quero te contar um pouco da emoção que isso representa para mim. Primeiro, quero te dizer que nem sempre fui o pai que eu gostaria ou idealizei e imagino que não fui o que você queria ou precisava,em todos os momentos. Mas, também acredito que, take or give, o saldo é positivo! Dito isso, a maior revelação que você me traz é com o sentimento do amor. É algo inédito, diferente, único e indescritível. É um amor especial, não digo incondicional, mas, diferente de tudo. Um sentimento delicioso de ligação com alguém. Te amar, além de delicioso, mexe comigo. Como sabe, sou duro na queda para afetos. Sou um racional convicto que briga com suas emoções. Você sempre teve a capacidade de burlar todos meus mecanismos de proteção. Sei que você ainda reclama, achando que sou pouco afetivo, mas, da minha perspectiva, que progresso! Junto com o amor ou como parte dele, a imposição de aceitar as diferenças. Digo imposição porque, ao menos para mim, nem sempre é fácil admitir que a minha filha pense assim ou assado. Como pode? Mas, como a tela é feita de amor, a pintura pode aparecer e, nesta, percebo, olho, brigo e aprendo a respeitar diferenças. Outra emoção que você sempre despertou em mim foi a de sentir orgulho. Ver você ser você, sempre me deixou muito orgulhoso. Isso, eu tenho a certeza absoluta que eu sempre te disse!  Tenho um orgulho enorme em ser seu pai.

Como a vida segue, estou sentindo novas e deliciosas emoções com você e Sylvio morando juntos. Me pego pensando carinhosamente nos dois, querendo muito que sejam felizes e que se divirtam na vida, juntos. Até consigo ver que, nesses 26 anos você fez o seu trabalho de educar seu pai, direitinho. Não ligo muito, não vou na sua casa sem convite, estou quieto no meu canto e sei que você sabe que pode contar comigo, sempre. Me sinto feliz nessa posição de espectador de um casal se formando. É como um bastão que é passado e cabe a vocês seguir o destino darwiniano que temos (sem pressa, por favor!). Haverá um dia em que escreverão para um filho e, talvez, dirão algo como- quando eu tinha sua idade, seu avô me escreveu…

O post está longo e eu poderia continuar e continuar. Mas, preciso me lembrar que escrevo em um blog, público e que, ao menos em princípio, devo tratar de algo que seja do interesse de todos.  Para os pais que celebram o dia de hoje, a única mensagem que eu tenho a dar, depois desta carta para a minha filha é: pelo menos hoje, deixem de ser racionais e se entreguem à emoção! Se isso significar rolar no chão agarrado a um bebê, ótimo. Se for colocar no colo um filho e uma filha e, silenciosamente, ficar abraçados, ótimo. Se for deitar no colo de uma filha ou filho e deixar que um cafuné seja feito, ótimo. Hoje é o dia da emoção irracional. Hoje é como um carnaval ao contrário. Hoje é dia de rasgar a fantasia, mostrar quem somos e cairmos na folia!

Bom dia amoroso dos pais para todos!

Obrigado filhota por me fazer mais amoroso !

 

 

 

HE FOR SHE DESDE CRIANÇA.

heforsheExistem temas que retornam ao blog. Alguns porque apresentam diferentes aspectos que merecem mais de um post, outros, porque o assunto está em evidência naquele momento, como no caso de uma doença ou lançamento de vacina. Mas, existem alguns temas que voltam porque são assuntos que não se esgotam em si, muito menos em um post. Hoje, vou retomar a questão da (des) igualdade de gêneros, aproveitando o movimento He for She, das Nações Unidas. Trata-se de um movimento que convoca os homens e meninos a participarem ativamente do que era uma assunto exclusivo das mulheres e, mais especificamente, das feministas. O óbvio foi percebido: acabar com a desigualdade de gêneros é bom para todos nós, não só as mulheres. Se é bom para todos, exige a participação, envolvimento e comprometimento dos homens e meninos e não só das mulheres.

Vou tentar escrever sobre este tema, pela ótica do pediatra. E faço isto porque estou convencido de que as desigualdades de gênero somente serão reduzidas se os meninos de hoje, se tornarem homens diferentes do que nós, adultos. Talvez alguns homens adultos reajam, dizendo que já tratam as mulheres como iguais. Mas, o fato é que para qualquer indicador que se use (exceto longevidade), as mulheres aparecem em situação pior do que os homens. As mulheres recebem salários menores do que os homens, por trabalho igual ao nosso. Homens sofrem violências cometidas por mulheres, mas, não se compara com a que os homens produzem nelas. Seja violência física, sexual, moral ou psicológica. As estatísticas mundiais comprovam diferenças significativas nestes dois pontos fundamentais: remuneração e segurança. Ao mesmo tempo que a nossa sociedade valoriza a maternidade, não discutimos, em profundidade, o modelo de amparo que, como coletividade, desejamos dar à família de um recém-nascido. A licença maternidade dura quatro meses, findos os quais a mulher volta ao trabalho. Na prática o empregador percebe a mulher com um potencial custo e, não raro, entre um homem e uma mulher a ser contratado, opta pelo homem, por uma razão de gênero (homens não engravidam). E, em casa, a mulher tem a sua segunda jornada de trabalho, como dona de casa. Não raro para servir a um homem que chega em casa cansadíssimo da sua jornada de trabalho, se atirando em uma cadeira e querendo ser servido (e ela?).

Mas o que isso tem a ver com a pediatria ou as crianças? Nenhum de nós nasce com uma noção preconceituosa do que quer que seja. Nascemos  sem discriminarmos gênero, cor, orientação sexual ou religião. Com o crescimento, tomamos conhecimento dos valores dos nossos pais, nossas família, nosso bairro, nossa cidade e país. Esse conjunto de valores forma nossa cultura. Somos modelados por essas sucessivas camadas de valores/cultura. Quando pensamos o que pensamos, não o fazemos de forma isenta ou neutra. Sequer temos consciência de quanto do que pensamos e acreditamos é fruto de desse empilhado de valores. Só nos damos conta, talvez, quando viajamos para outra cidade ou país. Nesse momento, nos deparamos com seres humanos exatamente como nós, mas, com hábitos e crenças muito diferentes dos nossos. Muitas vezes é uma revelação perturbadora essa de descobrirmos que não há uma verdade única, um único modo certo de se agir e proceder.

Portanto, é exatamente com as crianças que  reforçamos esterótipos, rótulos, estigmas, ou não. Se repetirmos as afirmações preconceituosas que circulam pelo nosso meio, com relação às mulheres, estamos contribuindo para que nossos filhos (homens e mulheres) passem a construir um modelo onde as afirmações ganham contorno de verdade. Se, além de falarmos, nos comportarmos de forma discriminatória, preconceituosa, por sermos modelos para nossos filhos, estes tenderão a reproduzir o que lhes foi mostrado por nossa forma de agir.

Vamos sair da teoria e da filosofia? Vamos para um teste rápido, tipo revista de futilidades? Responda às seguintes afirmações como sendo falsas ou verdadeiras:

Não fica bem um bebê menino usar roupa rosa.

Meninos não devem brincar com bonecas.

Meninos não podem calçar os sapatos de salto alto da mãe, nem usar suas bijuterias. Os que fazem isso, demonstram um tendência para ser gay.

Meninos não devem aprender a servir uma mesa ou ajudar na cozinha. Isso é coisa para as meninas.

Imagine-se comentando sobre o pênis do seu filho, ainda pequeno. Seria capaz de dizer: esse vai ser macho, vai pegar todas!

Agora, imagine-se comentando sobre a vulva da sua filha. Seria capaz de dizer: essa vai ser um mulherão, vai pegar todos!

Você olha para as roupas das adolescentes com o mesmo nível de crítica que para a dos meninos.

Mulher de mini-saia e blusa decotada, está pedindo para ser cantada.

Você sabe que não é machista porque ajuda sua mulher nas tarefas da casa (Já pensou que ajudar significa que a tarefa é dela? Dividir tarefas transforma algumas em nossas!).

Meninos e meninas deveriam iniciar sua vida sexual na mesma idade.

Você iria a um urologista mulher com o mesmo conforto que iria a um homem.

Você fica constrangido de ser visto por um amigo, fazendo as unhas.  Se a reposta for falso, vamos sofisticar a pergunta- e se for no salão da sua mulher?

Você acha biquini bonito, mas, tem um limite para o tamanho. Pequeno demais é vulgar.

Gorda não deveria usar bikini (e gordo pode usar sunga?).

Mulher mal humorada ou irritada é sinônimo de mal amada (e nós, irritados e mal humorados?).

E a última afirmação do teste:

Mulher é assim mesmo!

Eu poderia continuar com a brincadeira, mas, só queria provocar o leitor a pensar um pouco. Se você, homem que leu isto, é como eu, pertence a esta cultura, sendo absolutamente sincero, respondeu a várias destas perguntas com o viés de quem tem algum preconceito ou discrimina o gênero feminino. Não é algo para nos sentirmos culpados. Como eu disse, não nascemos assim. Fomos modelados por uma cultura que nos faz ver a mulher desta forma. E, nos comportamos coerentemente com a forma com que vemos a mulher. O primeiro passo é reconhecer esta situação. Nem sempre vamos poder mudar, mas, podemos todos ficarmos mais atentos e percebermos quando o preconceito entra em cena.

Mais importante, podemos e devemos oferecer aos nossos filhos a possibilidade de perceber a mulher de um modo menos preconceituoso. Se conseguirmos isso, certamente será um homem feliz, tendo ao seu lado uma mulher com quem poderá dividir tarefas, funções, afetos e emoções. Um mundo onde não se discrimine a mulher será um mundo melhor, para todos.

He for She começa no berçário!

http://www.heforshe.org/