Arquivo | junho 2015

E O PAI?

Há um movimento crescente em torno da figura do pai, dentro de uma família. Volta e meia surgem matérias sobre a licença-paternidade em outros pai1países, mostrando diferenças importantes na forma com que a sociedade encara a importância do papel do pai na formação dos filhos e até a importância dos filhos no afeto dos pais. Os pais, no Brasil, com frequência assistem ao nascimento dos seus filhos. Muitos acompanham as mulheres nas consultas de pré-natal e nas primeiras idas ao pediatra. Pais são bem-vindos em cursos que pretendem ensinar o que já sabemos, não sendo mais  exclusivos para a mulher. Assim, a figura do pai, de alguma forma, está presente quando se fala em filhos. Existe até uma frase – não basta ser pai, é preciso participar – que sintetiza bem o que vem ocorrendo. Não gosto dessa frase porque o pai não é um participante (tomar parte em), mas, um protagonista (papel de destaque num acontecimento). É uma sutil, porem importante diferença. Voltarei a ela mais adiante.

Uma das características do ser humano é considerar que o mundo sempre foi como nós o percebemos. Para sermos justos, não exatamente igual, porque, afinal de contas, somos capazes de reconhecer o progresso tecnológico e algumas mudanças culturais. Mas, não faz parte do nosso “chip mental” recuar muito mais do que 500, 600 anos. Eventualmente, alguns que gostam de história, são capazes de imaginar o mundo dos gregos, em torno de 2500 anos atrás. Um tempão! Considerando que estamos por aqui há algo como 170 mil anos,  vamos convir que 2500 anos é muito pouco.

Por que fiz esse desvio, se o post é para ser sobre o pai? O que uma coisa (perspectiva histórica) tem a ver com o papel do pai? Tudo! O que entendemos como papel do pai é fruto de um modelo de organização social baseado no trabalho, na noção de propriedade privada, na instituição do casamento etc. O que pensamos como modelo do pai é o que nossos bisavôs eram, seguidos dos avôs e dos nossos pais. Homens que trabalhavam, gerando o sustento da família, enquanto as mulheres se incumbiam de toda a administração da casa e dos filhos. Esse é provavelmente o modelo que sempre existiu, desde que o homem passou a viver em cidades. A ruína mais antiga do que seria uma cidade, é de aproximadamente 9 mil anos atrás. E antes disso, como vivemos durante 160mil anos? Muito provavelmente em pequenas comunidades, tribos ou bandos.

Agora, vamos fazer um exercício de ficção no passado. Como seria o papel do pai em uma cenário como este?  A primeira pergunta é se haveria um pai! Pode ser que sim, pode ser que não. Mas, provavelmente, esse bebê era cuidado pelo grupo. Mulheres e homens se envolveriam com o cuidar das crianças. No mínimo, porque haveria uma proximidade física, uma intimidade e uma ausência completa de compromissos profissionais, reuniões e viagens de negócios. Os homens deveriam prover o grupo com a caça e a defesa da comunidade. O restante do tempo era de convívio. Isso é uma ficção porque não sou nem historiador, nem antropólogo. Mas, pensar que algo assim, ou próximo a isso, aconteceu por uns 160 mil anos e nós nem conseguimos imaginar, é espantoso. Pensamos que o relógio, o compromisso profissional, o salário e as contas a pagar, sempre fizeram parte da nossa história, chegando a se confundir com a nossa natureza. Ser pai era algo que não exigia nenhuma reflexão, nenhum auxílio ou benefício social, nenhum curso, nenhuma teoria psicanalítica ou filosófica. Ser pai era algo que acontecia com a naturalidade da natureza (não resisti ao pleonasmo!).

Mas, vivemos em um mundo que não é e nunca mais será aquele. Nesse cenário de hoje, o que é ser pai ou, o que queremos para o nosso papel de pais. Vivemos em cidades, nos organizamos socialmente em torno da família e  a caça contemporânea não é a de voltar para casa com um animal nas costas, mas com dinheiro no bolso, fruto do nosso trabalho. Como conciliar essas necessidades reais com o desenvolvimento de nossos filhos?

De uma maneira superficial e simplista eu vejo dois cenários onde podemos atuar. O primeiro, é o cenário social. Ao invés de nos afastarmos das discussões sobre licença paternidade, ofertas de creches  e  todas as questões relacionadas à rede de amparo social que pode ser estabelecida, nos aprofundarmos para além de preconceitos ou visões dogmáticas. Não estou aqui defendendo que se ofereça isto ou aquilo como benefício ou serviço. Apenas, que temos ou podemos ter a responsabilidade de discutirmos que sociedade queremos para nós. O que consideramos moralmente aceitável e o que é viável de ser feito. Sem nos aprofundarmos nisso, delegamos para outros que pensem e tomem as iniciativas que, não necessariamente, serão as que preferimos. Portanto, se vivemos em uma polis, não há como não ser um ser político. Ser político não significa ter um partido ou uma convicção filosófica (liberal, capitalista, socialista, anarquista, monarquista, parlamentarista etc.). Significa compreender a importância de investir parte do seu tempo individual para pensar  o coletivo, agindo coerentemente.

O segundo cenário é o individual.  Retomo a brincadeira do início do post. Não basta participar, é preciso protagonizar. Quem participa é alguém que está ali enquanto as coisas acontecem. É alguém que se coloca na posição de ajudar, contribuir, colaborar. Ora, quem ajuda, ajuda o outro a fazer o que é, de obrigação deste outro. Eu ajudo com os filhos, levando na escola. Eu ajudo, trocando as fraldas. Quem protagoniza é alguém a quem cabe fazer.  O pai protagonista é um pai que tem plena consciência de sua relevância e não delega para ninguém o que é função dele. É um pai que usa o “chip” histórico que temos, ainda que meio desligado. Mesmo que o ato seja parecido (levar na escola, trocar as fraldas etc.), a postura é diferente. O pai protagonista quer fazer essas funções porque lhe pertencem e não as faz para “ajudar” ou “aliviar” a mãe. Isso não impede que um protagonista também possa ser um participante e ajude, em determinados momentos, à mãe. Alguns pais que eventualmente lerem o post poderão dizer: mas se eu levo na escola, troco as fraldas ou dou de comer, não faz a menor diferença se sou protagonista ou participante. A diferença é enorme. É a diferença de você estar na platéia ou no palco de um show. Na plateia, você participa, aplaude, pula, dança, canta etc. No palco, você faz o show. O show é seu!

Mas, tenho uma suspeita que vou revelar aqui. Nós homens (não todos), temos alguma dificuldade com o que não é racional e lógico. Ficamos embaraçados com o que é emocional e simbólico. Participar nos deixa suficientemente perto do afeto para sentirmos o seu gostinho, mas, ao mesmo tempo, o tanto de longe que precisamos para não ficarmos sem jeito ou sem graça. Protagonizar é correr o risco de se deixar afetar. Talvez por isso, nós sejamos bons participantes. Está na hora de percebermos que estamos de fora do melhor da festa: o afeto! Filhos dão muito trabalho, sem dúvida alguma. Dão muito prazer também. Mas, se formos protagonistas, nos darão algo indescritível. Algo que mães conseguem viver sem ficarem confusas ou enroladas- amor. Está na hora de não ficarmos de fora dessa festa!

SEGURANÇA: A ETERNA VIGILÂNCIA!

segurança1Quem lê o blog, ou me conhece pessoalmente, sabe o quão pouco afeito a regras eu sou. Pelo contrário, sou um pediatra que briga contra as regras que medicalizam a vida ou transformam todo o cuidar dos filhos em uma questão de saúde. Mas, existe um tema ou assunto com o qual eu mantenho uma relação que beira ao transtorno obsessivo compulsivo! E esse tema é o da segurança das crianças. Já escrevi sobre esse tema no blog mais de uma vez. Retorno ao tema pela sua importância e, aproveitando a divulgação que um acidente com um berço está tendo na mídia. 

Para começar, explico a razão do meu TOC com segurança. Uma das formas de tomarmos decisões é a de anteciparmos as diversas consequências e nos perguntarmos se estamos em condições de lidar com as que podem ocorrer diante do pior cenário possível. Explico: o que pode acontecer se um bebê de 6 meses provar o sorvete que sua mãe está tomando? Desde nada (melhor cenário), até um vômito ou diarréia (pior cenário). O pior cenário, neste caso, não é algo que os pais, eventualmente, seriam capazes de enfrentar, tranquilamente. No caso de acidentes, o pior cenário pode ser algo insuportável, para o resto da vida dos pais. Portanto, na minha visão (que não é a verdade, apenas é a minha), acidentes possuem um potencial de um pior cenário insuportável, muito grande. Daí minha insistência com o tema.

Os pais que me conhecem sabem que eu repito as duas frases que sempre ouço quando um acidente doméstico ocorre:

  • eu nunca imaginei que …..
  • foi em um segundo!

De fato, não nos damos conta, que os bebês e as crianças são seres em constante e rápida evolução. A cada dia, hora ou minuto, amadurecem circuitos neuro-motores, conquistando habilidades e aptidões que, no momento anterior, não tinham. Por exemplo, um dia, sem aviso prévio, sem data e hora marcada, rolam! Quando isso acontece no berço ou no chão, os pais vibram de alegria. Mas, quando acontece na hora da troca de fraldas, e a mãe se virou para pegar a pomada, o risco de um bebê cair é enorme. E, se cair, uma vez passado o susto, a mãe dirá as duas frases acima: eu nunca imaginei que iria virar (nunca tinha virado antes!) e aconteceu em um segundo, eu só me virei para pegar a pomada!

O aprendizado é que devemos pensar o inimaginável, quando se trata de segurança.  É  difícil  pensar e  ficarmos atento ao fato de que umaplaying child nova aptidão ou competência motora pode produzir um acidente. Ficar em pé no berço, se debruçar e cair. Puxar um fio de lâmpada. Subir e/ouarrastar cadeiras. Escalar armários. Abrir armários e embalagens. A lista é imensa porque a capacidade criativa das crianças é ilimitada e sua curiosidade exploratória, imensa. À medida que a criança ganha mais mobilidade, engatinhando ou andando, o universo de possibilidades de “aventuras” é inesgotável. A solução? A primeira medida é  prevenir! Prevenir, imaginando o impensável e, agindo assim que pensar. Pensou que pode pegar material de limpeza no armário? Mude de lugar na hora. Não adie! Pensou que poderá ficar de pé no berço? Abaixe o berço, na hora, não adie! A segunda, dá o título ao post de hoje: eterna vigilância! Criar novos reflexos nos nosso cérebros. Não deixar uma criança no banho um segundo para atender o telefone. Não sair para fechar uma torneira do tanque ou se virar para tirar algo do microondas, com panelas no fogo. Não ir até a porta, um minuto, receber uma encomenda, deixando a criança desacompanhada. Para ajudar a criarmos esse reflexo, é precioso pensar, todos os dias, que nossos filhos vão aprender algo novo, hoje! Não sabemos o que é, nem a que horas isso vai acontecer. As crianças não nos avisam: amanhã, vou começar a engatinhar, terça, às 10h, vou andar!  Mas, vai acontecer e é desejável que ocorra. Só precisamos prevenir que não ocorra em lugar ou situação que traga risco para a criança.

Além destas situações, mais domiciliares, existem os cuidados que devemos oferecer aos nossos filhos, em termos de equipamentos de proteção: cadeirinha do carro, capacete sempre que andar de bicicleta (mesmo bebê e o adulto também usando), capacete, joelheira e cotoveleira para praticar skate, colete salva vidas quando andar de barco etc.

Um capítulo da segurança importante é o da prevenção do asfixia por alimentos. Evitar dar alimentos duros e pequenos (amendoins, pipocas, balas etc.) para crianças que ainda não tenham a dentição completa e estejam absolutamente confortáveis com a mastigação. Mesmo para estas, não dar alimentos em veículos em movimento. Evitar jogar o alimento na boca da criança ou até mesmo os pais comerem (amendoins) jogando para o alto e pegando na boca. A criança vai imitar o adulto, com risco de engasgar. Ainda no capítulo da asfixia, devemos ter cuidado com brinquedos, pequenas peças, tampas de caneta (aquela tampinha de trás da caneta esferográfica). Devemos puxar os olhos das bonecas, os botões dos pijamas dos ursos, para testar se estão firmes ou se há algum risco de se soltarem. Lembrem-se de imaginar o inimaginável (eu nunca imaginei que aquela tampa pudesse sair!).

Este é um post curto, de um assunto sério. Os exemplos que dei, são meros exemplos. O importante é o conceito de que segurança exige nossa eterna vigilância.Talvez seja o único assunto em que me verão escrever (e falar) de forma tão enérgica, rígida, quase autoritária. Estou convencido de que o pior cenário, em acidentes, é insuportável para qualquer mãe e pai. Valem todos os cuidados para que possamos não passar por isso.

segurança3

 

 

 

 

UMA AULA PRÁTICA DE COMO LER O MANUAL DA CRIANÇA.

Em um post recente, escrevi sobre a importância dos pais lerem o manual que acompanha cada filho. Cada manual é pessoal e intransferível e, para young-girl-crying-in-her-car-seat-Dcomplicar um pouco a tarefa dos pais, dinâmico. Quando os pais acham que entenderam tudo, os filhos mudam as instruções.

Hoje, vou compartilhar uma aula prática de como ler o manual da criança. Os nomes (e a foto) são fictícios, mas, a história é real. Os pais me autorizaram a compartilhar esta vivência deles que, certamente, poderá inspirar outros pais.

Silvia e Pedro são pais da Alice.  São pais amorosos, cuidadosos, preocupados com o bom desenvolvimento da Alice. Alice é uma linda menina de 2 anos, esperta, alegre, um pouco bagunceira demais para o gosto do pais. Ela não é de fazer muita pirraça. Não mais do que as crianças da sua idade. No entanto, andar na cadeirinha do carro era uma tortura para Alice. Ela ia toda animada para o carro, mas, ao colocá-la na cadeira, urrava, esperneava e não havia nada que a distraísse ou convencesse de que estava tudo bem. Os pais chegaram a imaginar que pudesse haver algum defeito na cadeira, ou um parafuso mais alto, que justificasse essa reação da Alice. Mas, a cadeira estava perfeita. Passear ou ir visitar familiares e amigos se tornou um pesadelo, para todos. Diante desta situação, os pais recorreram ao manual da Alice e à sua criatividade. Decidiram, antes de mais nada, tentar entender o que estava acontecendo. Ficou claro que, entender com a Alice dentro do carro, seria impossível. Assim, resolveram tirar a cadeirinha do carro e deixar na sala, sem dar muita atenção para este novo “móvel”.

Quatro dias após a cadeirinha estar na sala,  Silvia me enviou a seguinte mensagem: “A Alice agora há pouco pediu para sentar na cadeirinha (que ela já vê na sala desde segunda, pela manhã). Depois, pediu para que eu sentasse ao lado dela e eu sentei. Ele ficou um pouco, saiu e pediu que eu sentasse na cadeirinha. Eu sentei um pouco e ela pediu para eu sair. Depois, pediu água e foi para a cozinha(encerrando o assunto)”.  Meu comentário foi o de achar a história uma delícia. Ao que a Silvia me respondeu que também tinham achado e que estavam na torcida.

Ontem, recebi um   e-mail da Silvia, que transcrevo a seguir:

Após quase um mês com a cadeirinha em casa, achamos que era hora de colocá-la no carro. A Alice já estava à vontade com ela na sala de casa (assistia TV sentada nela, fazia desenhos, brincava etc.).

Então há uma semana atrás pedi a “ajuda” da Alice para colocar a cadeirinha no carro. Ela me “ajudou” a carregá-la e a colocá-la no assento do carro. Sentou nela a pedido e emendou “quero ir para Niterói”. Eu respondi que para passear de carro faltava colocar o cinto. Daí o tempo fechou, ela ficou inquieta, disse que não queria ir para Niterói, não queria o cinto e queria voltar para casa. Eu disse que tudo bem: “Hoje você não precisa, vamos para casa”. Meia hora depois, em casa, já em outra atividade ela me diz: “Mamãe, não quero cinto”.

Alguns dias depois encontramos a madrinha dela e o marido e eles, sabendo do problema, resolveram fazer uma brincadeira: tudo que fizéssemos de bacana colocávamos um “cinto” imaginário antes, porque aí ficava “melhor”. Vamos comer um doce? Então vamos botar o “cinto” antes… e assim por diante.

Hoje decidimos que seria um bom dia para tentarmos um passeio curto de carro, todos bem-humorados, calmos, o dia bonito etc. Não mencionamos a cadeirinha nem o cinto mas antes de sairmos o Pedro mostrou para ela um desenho animado para crianças, bem bonitinho, sobre a importância do uso do cinto, que ele pesquisou no youtube. Como só tinha em inglês, ele ficou fazendo a tradução simultânea. Ela assistiu com atenção e quis ver várias vezes a cena que mostra o que acontece com quem não usa o cinto (é uma cena bem leve).

Bom, fomos para o carro e ela sentou sem problemas mais uma vez. Falamos firme e gentil com ela: agora vamos botar o cinto. Ela começou a se agitar, eu falei que eu conseguia soltar o cinto quando ela quisesse. Ela ficou puxando o cinto para frente e me ofereci para segurar o cinto, desprendendo do peito dela. Conseguimos distrai-la e assim ela foi no percurso de ida: o cinto preso e eu segurando-o afastado do peito dela.

Na volta, surpresa: Apesar dos protestos (fracos) fechamos o cinto e ela o deixou na posição correta. Distraiu-se com desenho animado e de vez em quando resmungava que não queria o cinto, mas estava relaxada.

Enfim, por ora – e perto de como ela já esteve -, um sucesso estrondoso!!!!!

Eu fiz um relato longo porque os detalhes podem servir de ideia para outras situações semelhantes. Afinal, não sabemos exatamente o que deu resultado (ou se foi um somatório).

Um abraço e obrigada,

Silvia

Francamente, acho que, neste relato, podemos perceber um somatório de ações que Silvia e Pedro tomaram que contribuiu para que a Alice perdesse o pânico que tinha ao se sentar na cadeirinha. Dentre essas ações, destaco:

– o respeito dos pais à uma resistência da Alice. Ao não medir forças com Alice, Silvia e Pedro se colocaram em uma posição de não confronto. Quando há um confronto, haverá um vencedor e um vencido. Na posição de não confronto, pode surgir uma solução. O não confronto corresponde a ler o manual da Alice. Ler o manual do google, do livro, do curso de pais, das avós ou do pediatra pode dar a falsa sensação de que há uma verdade e esta deve “triunfar”.

– o envolvimento da Alice na solução.  A partir da posição de não confronto, Silvia e Pedro, permitiram que a Alice fosse dando as cartas, mostrando o caminho. Se aproximou da cadeirinha na sala, com certo cuidado. Testou, retestou, até que sentiu total conforto para sentar, desenhar, brincar com e na cadeirinha.

– a criatividade. Na ausência de uma solução pronta, foram criativos ao tirarem a cadeirinha do carro e “esquecer” ela na sala. O movimento racional, lógico, poderia ter sido um de dois. Ou tentar convencer Alice de que não havia nada de errado com a cadeirinha, ou forçá-la a se sentar e deixar que chorasse “até que se acostumasse”. Uma cadeirinha de carro é para ficar no carro. Só com  alguma criatividade se leva uma cadeirinha de carro, para a sala!

– a paciência. O resultado só apareceu quase um mês depois de iniciado o processo. O tempo que as coisa levam para acontecer, é o tempo que leva! Uma obviedade que, em tempos do instantâneo, do rápido, do agora, nem sempre nos lembramos. Respeitar esse tempo, sem atropelar o processo, é muito importante.

– a firmeza  e/ou energia, a partir de um dado momento onde perceberam que já era possível ou necessária essa atitude. Alice sinalizou que estava pronta, mas, na hora H, “amarelou”. Neste momento, o ato de amor foi o de “empurrar” a Alice. Em inglês, existe uma palavra que define esse empurrão- nudge. É o que a mãe do elefante faz com a sua tromba, para dirigir o filho. Amor não é só acolhimento, aceitação e tolerância ilimitada. Amor é, também, saber usar a autoridade e energia, na hora certa. Alice precisava desse “nudge”.

E, talvez, o mais importante- a ausência de regras pré-fabricadas. Foram construindo a solução, dia a dia, sem estarem presos a esquemas pré-concebidos.

Obrigado à Silvia, Pedro e Alice (eles sabem quem são!) por me permitir compartilhar esta história. Estou certo de que ela poderá inspirar os pais a, diante de uma situação inusitada, buscarem no manual dos filhos, uma solução criativa, envolvendo-os, com a necessária paciência e , no momento certo, o uso adequado de energia.

Parabéns aos três!