Arquivo | abril 2015

LIMITES

limites2Existem assuntos que não se esgotam em um ou dois posts e o tema dos limites, certamente é um destes. Limites fazem parte das nossas vidas e não são produto apenas da civilização ou cultura. Convivemos com limites que são físicos, naturais, decorrentes da nossa natureza. Não respiramos debaixo d’água, não voamos, precisamos de afeto, dormir, beber água e comer. Pequenos exemplos de limites do nosso dia a dia que, por serem naturais, nem nos damos conta. Ninguém pensa em entrar no mar sem saber nadar, ou pular da janela, batendo os braços, supondo que vai voar. A estes limites, se somam todos os outros que tornam o convívio mais cordato e organizado. Em um palavra, mais civilizado.

Do mesmo modo que nenhuma mãe ou pai hesitaria em pegar seu filho sentado na beira da janela, sem consultá-lo, saber sua opinião e pouco se importando com o choro e espernear, todos nós devemos ter essa mesma firmeza e convicção quando se trata de dar, às crianças, outros limites. No post de hoje, fugindo um pouco ao meu estilo e convicção de não adotar regras, vou tentar dar algumas dicas para que o assunto da colocação de limites não fique muito vago ou filosófico.

O ponto de partida é que a noção de que autoridade é algo natural e reconhecida por todos. Pode haver uma confusão entre autoridade e autoritarismo, que iniba os pais. Esta última é quando alguém abusa da autoridade que porventura tenha. Já o exercício da autoridade é desejável é benéfico. Muitos pais, com receio de serem autoritários, abrem mão da sua autoridade. O primeiro passo para que possamos colocar limites é não termos o menor receio em utilizarmos nossa autoridade de pais.

O segundo ponto, é o de aceitarmos, antecipadamente, a reação de nossos filhos. Precisamos estar preparados para  reações de descontentamento, furor, raiva, ira, ódio, sem que estas gerem, em nós, culpa ou recuo no limite imposto. Lembrem-se do exemplo da criança sentada na janela. Pode espernear à vontade que, sem negociar nada, a tiraremos de lá!

O terceiro ponto é que a introdução e manutenção de limites pode ser frustrante, na medida em que exigirá repetições e  muita paciência. Nenhum de nós, quando criança, aprendeu um comportamento desejável com uma única instrução! Impor limites não é uma corrida de 100 metros raso, é uma maratona e, como tal, exige preparo, paciência e perseverança.

A seguir, dou algumas sugestões para aquelas situações onde a criança parece não nos ouvir. Não são regras! Apenas, tento separar um pouco situações, permitindo ou desejando que os leitores do blog, tirem suas próprias conclusões e implementem seus métodos, feitos sob medida para seus filhos.

CONSEQUÊNCIAS NATURAIS- Em algumas situações em que a criança ignora o que dizemos, podemos deixá-la experimentar o que pode acontecer se ela não nos obedecer ou se comportar como desejado. Claro que estou falando de situações onde não haja nenhum risco para a criança. Por exemplo: se uma criança atira a comida no chão e não para, mesmo quando advertida, podemos deixar que ela perceba que a comida vai acabar e ela ainda vai estar com fome. Ou, se atira os brinquedos e estes se quebram, podemos deixá-la descobrir que esse comportamento a deixará sem brinquedos inteiros.

CONSEQUÊNCIAS LÓGICAS- Estas são situações onde os pais vão interferir para criar uma consequência. Se você não fizer (ou fizer) isto, então, vai acontecer aquilo. Por exemplo, se você não guardar os seus brinquedos agora, eu vou tirá-los daqui e você só os terá de volta ao final do dia. Nesta forma de agir, algumas atitudes fundamentais:

  • Não ameace e deixe de fazer.  Faça exatamente o que disse que faria. Portanto, pense antes se a consequência lógica é algo que você está preparado para implementar.
  • Nunca retire algo que seja uma necessidade real da criança, como por exemplo, uma refeição.
  • Introduza a consequência o quanto antes. Não adie o que disse que iria fazer. Por exemplo: se você não guardar seus brinquedos agora, amanhã você ficará sem usá-los. Melhor seria dizer que se você não guardar seus brinquedos agora, eu vou fiar com eles e você não vai poder brincar , até mais tarde.Para crianças maiores (a partir de 7-8 anos), que saberão fazer a conexão entre o comportamento indesejável e a restrição, essa suspensão pode se dar algumas horas mais tarde. Exemplo: não ver televisão à noite.
  • Não é necessário gritar. Basta ser firme e responder às reações prováveis, com calma.
  • Não é preciso gastar muito tempo explicando ou negociando a consequência. A autoridade é sua e você a usou. Explicações em excesso podem confundir a criança ou sinalizar para ela (dependendo da idade) que você não está seguro ou sentiu culpa por impor um limite.

EXPULSAR DE CAMPO OU PENSAR UM POUCO NO QUE FEZ- Este tipo de atitude funciona  para regras que foram desrespeitadas por crianças a partir de 2-3 anos. Para que funcione melhor, leve em consideração as seguintes observações:

  • REGRAS ESTABELECIDAS PREVIAMENTE– definam duas ou três regras (não mais) que não podem ser violadas (bater em alguém, mexer em algum lugar onde haja risco etc.). Expliquem as regras para seu filho. Isso pode exigir muita repetição!
  • DEFINAM UM LUGAR PARA FICAR “FORA DE CAMPO” OU PENSANDO-  de preferência, um lugar sem atrativos (brinquedos, livros, TV), como uma cadeira ou banquinho.  O quarto inteiro pode se tornar um play! O berço ou cama, por ser um local do sono, atividade salutar, não deveria ser uma primeira escolha para um castigo. Escolham um lugar seguro. Banheiros e cozinha podem ser perigosos.
  • QUANDO COMEÇAR? em geral, vale um primeiro aviso, informando à criança que, caso a regra seja quebrada novamente, ela irá para o cantinho dela, pensar um pouco. Esta orientação pode ser abolida nos casos de agressão, onde os pais podem decidir que não há aviso prévio. Se a criança repetir o comportamento, os pais devem informar que isso constitui uma violação da regra e que deverá pensar um pouco no que fez. Essa comunicação deverá ser feita no tom de voz mais neutro possível (muitas vezes difícil). Se a criança resistir a se dirigir para o cantinho, pegue-a  e  leve para o lugar definido. Não dê ouvidos a apelos, promessas, desculpas, ofensas etc. Repita apenas que a está levando para o seu cantinho porque ela precisa pensar no que fez.
  • QUANTO TEMPO NO CANTINHO?  O suficiente para que a criança se acalme. Quanto menor a criança, menos tempo. Mesmo crianças maiores não devem ficar muito tempo. Os americanos, que adoram quantificar, sugerem que um minuto por ano de idade seria razoável. Assim, para uma criança de 4 anos, 4 minutos pensando no cantinho estaria ótimo. Mas, mesmo com 4 anos, pode ser menos tempo. No entanto, se, durante a permanência no cantinho a criança recomeçar a resmungar, não hesitem em recomeçar a contagem do tempo.
  • RETOMANDO AS ATIVIDADES- Quando o tempo de pensar estiver encerrado, ajude seu filho a voltar à brincadeira. Não dê broncas ou lições nesta hora. Não peça para a criança se desculpar pelo que fez nem você, em hipótese alguma, peça desculpas por tê-la colocado para pensar.  Se quiser falar sobre o comportamento do seu filho, faça em outro tempo.

Lembro que cada criança se desenvolve de uma maneira própria. Portanto, antes de punir um comportamento indesejável, certifique-se de que seu filho compreende e consegue fazer o que esperam dele.

Nunca é demais reforçar a importância de pensarmos antes de falarmos. Uma vez que você definiu uma regra ou disse que faria tal coisa, seja coerente. Por isso, é fundamental ser realista e, com a cabeça quente, tendemos a dizer coisas que não vamos conseguir cumprir. Também é importante manter uma certa consistência, tanto com a regras, quanto com as consequências. Se tudo muda, todos os dias, a criança ficará confusa e testará os limites, simplesmente para aprender quais são (os novos).

Não tenha medo dos “ataques” das crianças. Ceder a um ataque só ensina as crianças que esta estratégia dá certo!

É fundamental prestar atenção em algum padrão de comportamento e/ou nos sentimentos da criança. Se os pais percebem que o comportamento é motivado por, por exemplo, ciúmes, devem falar sobre o assunto e não somente repreender a criança pela sua atitude. Se a criança não quer guardar suas coisas,  e parece triste depois que um coleguinha foi embora, os pais podem reconhecer este sentimento, sem deixar de exigir que faça o que deve ser feito: sei que está triste com a ida do amigo, mas, é preciso guardar suas coisas.

Tentei, neste post, mostrar que existem algumas abordagens para a introdução de limites e o desenvolvimento de comportamentos desejáveis. Para quem me conhece, vou repetir uma metáfora que me parece apropriada. Quem só tem um martelo, enxerga todos os problemas como sendo pregos!  Introduzir limites e desenvolver comportamentos é uma tarefa mais fácil se tivermos uma “caixa de ferramentas” à nossa disposição. Em alguns momentos, firmeza, repreensão. Esta, pode ser implementada de várias formas com relatei acima. Em outros momentos, conversas, compreensão. Haverá momentos onde a negociação poderá funcionar e até certas flexibilizações podem ser possíveis. Mas, em todos esses momentos, haverá amor. Limites são uma expressão de amor, ao passo que liberdade plena, para uma criança, pode ser percebida como abandono.

Sejamos pais amorosos, dando limites aos nossos filhos. Serão adultos com mais autonomia, auto-estima e adaptados para viver em um mundo onde nos deparamos, diariamente, com limites e frustrações.

Acabo de reler, antes de publicar, o que escrevi. Me ocorreu que uma avó lendo este post, poderá exclamar, com toda razão: e precisava de um blog de pediatra para saber disso?

 

OS CINCO VETORES DA SAÚDE

Para quem me conhece ou lê estvetor1e blog com alguma regularidade, o título deste post deve ter soado estranho! Não costumo quantificar meus comentários, muito menos “ensinar regras”! Mas, algumas pessoas já devem me ter ouvido dizer que, se eu tivesse a falta de caráter necessária para escrever um desses livros de fórmulas de sucesso, receitas de saúde, segredos da longevidade, caminhos da felicidade, obrigatoriamente teria um número no título. Sempre achei que esse tipo de livro, com um número na capa, venderia muito mais! Pois bem, resolvi brincar com essa ideia e, ao mesmo tempo, matar o meu desejo de publicar algo com um número na capa (ou título).

Portanto, aviso aos navegantes deste post que o título é uma brincadeira e que não pretendo “revelar” cinco segredos guardados há milênios por monges tibetanos, guerreiros africanos ou índios da América Central! O que pretendo é abordar cinco grupos de ações que podemos implementar nas nossas vidas e, mais importante, ensinar aos nossos filhos, deixando um potencial caminho de saúde para que eles trilhem pela vida. 

Um segundo aviso é de que nada do que lerão aqui é novidade. Ora bolas, se não é novidade por que estaria eu usando meu tempo e o de vocês para escrever o que já é sabido? Porque existem conhecimentos importantes que vão sendo empurrados para o esquecimento, por uma sociedade de consumo onde a novidade é sempre melhor do que o que veio antes. Isso, que  pode ser válido para produtos e serviços, não é, necessariamente, para os valores e conhecimentos dos seres humanos. Não falo de novos equipamentos diagnósticos, mecanismos de doenças e vacinas. Estes progressos substituem conhecimentos prévios, mas, são baseados em tecnologias de produtos onde novos equipamentos nos permitem olhar a natureza de uma nova forma ou desenvolver novas drogas. Falo de um conhecimento a respeito de quem somos e o que estamos fazendo por aqui. Essa é uma conversa que tem mais de dois mil anos de registros e, se escolhermos qualquer texto, de qualquer época, quase que certamente terá alguma atualidade ou aplicabilidade, nos dias de hoje. O ser humano, ou a essência do ser humano é a mesma desde que surgimos como espécie falante, há cerca de 60 mil anos ! Este post é sobre cinco aspectos da nossa natureza que podem contribuir para nossa saúde e que, muito provavelmente, se beneficiam com o progresso tecnológico, mas, não são alterados por este.

  1. AFETO  Começo por este vetor porque costuma ser um relegado a um segundo plano. Como se o ser humano fosse uma máquina pensante e não um ser relacional, simbólico. Todo ser humano precisa de carinho, reconhecimento, cuidado, para se desenvolver e viver bem. O afeto começa antes do nascimento e continua pela vida afora. Carinho não é deixar a criança ou adolescente fazer tudo. Pelo contrário, significa cuidar e inclui colocar limites, forma importante de expressarmos nosso amor. O afeto é o que nos une aos amigos, à família e aos amores. A saúde está diretamente associada à nossa capacidade de relacionamento e esta, em grande parte, vem do modelo que recebemos quando crianças. Assim, os pais têm uma função importante no desenvolvimento da capacidade afetiva dos filhos. Não existem métodos para desenvolver essa capacidade. Pais afetuosos, carinhosos, respeitadores dos ritmos dos filhos, produzem um ambiente favorável a que estes sejam pessoas com boa capacidade de relacionamento. Pais que se permitem sentir mais e pensar menos (no quesito afeto), darão a seus filhos o que estes precisam para uma vida emocional saudável.
  2. ALIMENTAÇÃO –  Nossa saúde está diretamente relacionada à alimentação. Doenças como a hipertensão arterial, alguns tipos de câncer, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, a obesidade com suas consequências, são alguns exemplos conhecidos por todos, associados a uma alimentação inadequada ou incorreta. Alimentação é aprendizado. Ninguém nasce gostando de cheeseburguer ou brócolis! É preciso que sejamos apresentados a estes alimentos para podermos desenvolver um paladar e, consequentemente, um hábito alimentar. Se os pais possuem o hábito de comer cheeseburguer, dificilmente conseguirão que seus filhos comam brócolis! Uma boa alimentação não é nada sofisticado, nem precisa de pediatra ou nutricionista para orientar. Nossas avós sabiam exatamente o que era uma boa alimentação e  não incluía barrinhas, suplementos ou polivitamínicos. Se quiserem um pouco mais de informação a respeito de uma alimentação saudável, vejam o post Prato Saudável.
  3. ATIVIDADE FÍSICA- A atividade física é inerente ao ser humano. A criança corre, brinca, pula, sobe em árvore, revira as coisas, em constante atividade. A tecnologia e o progresso, contribuem para nossa inércia. A cultura também, com menos espaços livres, apartamentos menores e ambos os pais trabalhando, fazendo com que tudo que “distraia” a criança seja bem-vindo. Assim como a alimentação, se os pais são sedentários, será muito difícil introduzir hábitos de atividade física nos filhos. Atividade física também tem um aspecto secundário importante, ao contribuir para o vínculo entre pais e filhos. Andar de bicicleta, passear, soltar pipa, jogar um jogo ou esporte, são atividades que envolvem o corpo e o afeto. Tanto isso é verdade que muitos de nós temos vivo na memória momentos de atividade com nossos pais. A lembrança, em geral, é da parte afetiva, mais do que da física.
  4. SONO- Raramente nos lembramos que o sono é um elemento vital para a nossa saúde. Isso nunca foi um problema para os seres humanos, até a criação da iluminação artificial. Até esse momento, o que tinha que ser feito se fazia durante o dia e a noite era dedicada ao sono. Dormíamos mais e, assim, estávamos, mais bem dispostos para as atividades do dia. Hoje, vivemos em uma sociedade 24/7, 24 horas, sete dias na semana. Dormir é um desperdício de tempo e a tentação de produzir ou consumir (dois lados da mesma moeda) é enorme. Mas, nossa saúde física e mental depende de um sono quantitativa e qualitativamente bom. O sono exige uma certa rotina ou ritual que os pais devem introduzir na vida de seus filhos.
  5. TEMPO PARA SI- O ser humano tem necessidade de um tempo que eu chamaria de tempo da espécie. O calendário e o relógio são medidas de tempo que não se encontram na natureza. São criações artificiais do homem, importantíssimas para organizar nossas vidas, mas, que não dão conta de todas nossas necessidades. O ser humano saudável precisa de um tempo que é só seu. Podemos chamar esse tempo de reflexão, contemplação, meditação, oração ou qualquer outro nome que nos ocorra. É um momento onde a mente se esvazia ou se deixa preencher pelas sensações ao redor, sem análise, juízo ou tentativa de classificar e controlar. Nossa saúde precisa desses momentos que são diferentes do relaxamento produzido pelo sono. Como pais, podemos ajudar nossos filhos a desenvolverem a capacidade de ficarem sozinhos, ainda que estejamos por perto. Não estimulá-los 24h. por dia, não sentir necessidade de oferecer uma programação seguida da outra. Deixar a criança brincando, lendo, desenhando, sem estímulos externos, sem perguntas que interrompam aquele momento da criança, é uma forma de ajudá-las a desenvolver essa habilidade. Podemos ajudar com nosso exemplo ao termos nossos momentos de reflexão ou até de compartilhar um pôr do sol em silêncio. Tempo da espécie é um tempo que também está sendo empurrado para o esquecimento, substituído pelo tempo da eficiência máxima, do fazer constante. Podemos ensinar aos nossos filhos como ser eficientes e, preservar um tempo para si. Uma coisa não elimina a outra.

Chego ao final do blog e me dou conta de algo que não tinha pensado, ao começar a escrevê-lo. Juntei os cinco vetores e o que eu obtive foi algo como: a saúde de nossos filhos depende de uma família (afeto) que jante junto (mais afeto), comendo de forma saudável (alimentação). Depois do jantar, um pouco de conversa (mais afeto) e um rotina para colocar as crianças na cama (mais afeto e a preparação para um sono reparador). Quando tiver uma oportunidade, a família vai passear ao ar livre ou fazer algum esporte (mais afeto e atividade física). O silêncio vai ser praticado ocasionalmente e se as pessoas quiserem ficar sozinhas, serão respeitadas (mais afeto e tempo para si).

Nenhuma novidade! Ou, talvez, a novidade seja exatamente essa. Vamos parar de procurar novidades, onde o que somos (seres humanos) é a resposta para a pergunta- como posso ajudar meu filho a ser mais saudável? Sejamos o que sempre fomos, sem medo de sermos considerados ultrapassados ou antiquados!

COM QUE IDADE IR PARA A CRECHE OU ESCOLA?

Babies-Playing2Transcrevo,  um diálogo mantido no whatsapp, com a mãe de um menino de 1 ano e 10 meses,  que me motivou a escrever este post:

– Ele entrou na escolinha, será que tem exaustão misturada tb?

– Não só exaustão, como adaptação e emoções confusas.

– Quem está sofrendo mais com a adaptação é o pai. Hoje vasculhei seu blog sobre alguma coisa que falasse da idade para se colocar a criança no colégio mas não achei. Rsrs. Eu acho importante ele socializar. O pai acha que eu estou seguindo o hype das mães.

– Francamente, nessa idade, a socialização é mínima.

– Tô doida então?Rs. Devia esperar mais? Fica a dica para um post no blog!

– Vou pensar. Boa sugestão.

– Espero que pense no blog, não se eu estou doida. Rs

– Não está!

– Obrigada! Rs.

Afinal de contas, com que idade uma criança deveria ir para a creche ou escola? Como quase todas as perguntas que eu faço aqui no blog, esta também não tem uma resposta única, certa. A pergunta a se fazer, seria: qual a motivação que os pais têm para colocar os filhos na creche ou escola? Abaixo, algumas respostas que imagino possíveis:

Pais que trabalham. Neste caso, a ida para a creche ou escola será determinada pela necessidade dos pais e não da criança. Se a mãe precisa voltar ao trabalho após o término da licença maternidade, o que ocorre com a maioria das mães, alguém deverá cuidar do bebê de 4 ou 5 meses de idade. Ou um familiar adulto (avó, tia, madrinha) pode cuidar, ou alguém de muita confiança pode ser contratada para ficar cuidando do bebê ou os pais irão colocar o filho em uma creche. O motivo, neste caso, é uma necessidade dos pais se ausentarem de casa e decidirem qual a melhor alternativa possível, para esta família, resolver a questão de quem vai cuidar do bebê.

Pais que precisam de parte do dia livre. Nem todos os pais têm um emprego com carteira assinada e compromisso de horário. No entanto, muitos têm atividades como autônomos e precisam de parte do dia livre para poderem retomar suas atividades. Neste caso, nem sempre isso ocorre quando o bebê tem 4 ou 5 meses. Alguns pais conseguem se organizar para retomar suas atividades um pouco mais tarde, quando o bebê já está um pouco maior. Dentro desta categoria eu também incluiria pais que se sentem cansados da dedicação total e absoluta que um bebê exige e precisam de um tempo para si, sem que seja, necessariamente, um trabalho produtivo. Lazer ou ter seus interesses é necessário e saudável. Neste grupo de pais, a questão da necessidade é parecida com a dos que retornam ao trabalho com patrão que cobra o término da licença e horários. Quem precisa que o bebê seja cuidado são os pais e as opções serão as mesmas descritas acima: familiares, alguém contratado ou uma creche.

Pais que leram, ouviram falar ou acreditam que o quanto antes a criança interage com outras, melhor para o seu desenvolvimento. Sem dúvida, a interação com outras crianças (e adultos) é benéfica. No entanto, o  “quanto antes”pode ser questionado. Bebês seguem uma certa sequência de desenvolvimento motor e emocional. Isso é visível para todos nós. A diferença entre um recém-nascido, um bebê de 6 meses e uma criança de um ano e meio é gritante (no caso, o gritante pode ser a única coisa constante em todas as idades!). Portanto, em cada etapa do desenvolvimento da criança, ela se beneficia de determinados estímulos. Ninguém pensaria em dar um lego para um recém-nascido montar, por exemplo. Mas, quando a criança começa a crescer, estas decisões de que estímulos devemos dar fica menos clara. Mais do que isso, vivemos em um sociedade  onde há um predomínio  do fazer, do resultado, do objetivo alcançado. A cultura gerencial, ótima para empresas, invadiu nossas vidas privadas, quer nos demos conta, gostemos ou não. Assim, é fácil pensarmos que a ideia de socializar o quanto antes o filho vai ser bom para ele. No entanto, o fato é que crianças só irão se beneficiar de uma socialização quando estiverem prontas para isso. Em geral, isso ocorre ao redor dos dois anos. Cada criança é diferente e existem as que gostam da companhia de outros, um pouco antes dos 2 anos e outras que só vão achar graça em brincar com um amiguinho ou amiguinha, depois dos 2 anos. O normal não é uma idade precisa ou, crianças não são médias estatísticas. São indivíduos únicos. A “normalidade” é uma faixa e não um ponto.

Crianças de um ano, um ano e meio, gostam de brincar sozinhas. A presença de outras crianças, em geral, não faz a menor diferença para elas. Podem ter a curiosidade despertada para o outro bebê, como teriam para um brinquedo ou objeto. Ainda não percebem no bebê um semelhante com quem poderão interagir. Logo, pouca ou nenhuma socialização irá ocorrer, nesta idade. À medida que a criança se aproxima de 2 anos, a ideia de brincar ao lado de outra, eventualmente com alguma troca, começa a se fazer presente. É o início da socialização que vai aumentando, até que brincar em grupo se torna algo muito divertido.

Portanto, os pais podem colocar seus filhos na creche ou escola, em qualquer idade. Apenas, não utilizem o pretexto da socialização, antes da hora! O que não significa que a criança não se divirta e tenha prazer em frequentar uma creche ou escola que a acolha com carinho e tenha atrativos para seu entretenimento, como brinquedos, cores, e profissionais que leiam histórias e sejam amorosos.

Não vamos nos esquecer que, há muito pouco tempo, essa questão de com que idade devo colocar meu filho na a-kids-playingcreche ou escola, nem existia. Era o tempo em que existia a pracinha, o encontro das mães e das crianças, ao ar livre, sem projeto psico-pedagógico ou estimulação precoce. Crianças no chão, mães conversando entre si, interrompidas por um puxão de cabelo aqui, uma disputa de brinquedos ali e um choro ocasional. Muitas dessas crianças que brincaram na praça ontem, hoje, podem estar lendo este blog. São adultos que, em geral, convivem bem com os outros, trabalham, estabelecem vínculos afetivos, se relacionam com amigos e uns dias estão mais bem humorados e outros nem tanto.

Claro que vivemos em outros tempos. A começar pelo número de mulheres que trabalha e participa de forma significativa do orçamento familiar. A questão da segurança também se modificou. Hoje, todos temos receios que há alguns anos não eram tão marcantes.  As cidades também se modificaram com mais prédios e condomínios substituindo as casas. As famílias se tornaram menores e mais isoladas (nos apartamentos). Não podemos ter uma visão romântica de que a pracinha vai voltar a ser o que era. Mas, podemos afirmar que a socialização acontece sem que se tenha que fazer nada muito especial. A creche ou escola passaram a representar um pouco do que a pracinha representava. Se divertir é o melhor caminho para a socialização e a creche pode ser um lugar muito divertido. Só não sei responder com que idade uma criança deva ser levada para a creche ou escola! Como viram, vai depender de muito fatores. Até, se existe uma pracinha com crianças, perto de casa!

 

 

 

PÁSCOA – SÓ OVOS DE CHOCOLATE?

ovos ucranianosPensar em Páscoa é quase que obrigatoriamente imaginar ovos de chocolate. Junto com a ideia dos ovos, a questão de quantos serão necessários, o desejo de comprar os mais gostosos ou maiores e a realidade dos preços! A Páscoa é uma festa onde presentear (ovos, chocolate) é um hábito. Presentear em datas simbólicas, as transforma em momentos comerciais. Natal, Dia das Mães,  Pais, namorados e a Páscoa, são datas que o comércio espera com grande expectativas de boas vendas. Nada contra o comércio, pelo contrário. Se o comércio vai bem, as pessoas encontram empregos, há geração de riqueza e, em tese, maiores possibilidades de progresso, para todos. Mas, não sou economista e não é sobre os aspectos comerciais da celebração da Páscoa que eu gostaria de escrever hoje.

Antes de ser uma festa para as lojas que vendem ovos de chocolate, a Páscoa é uma festa simbólica. Isto é, através desta festa, uma história, uma tradição, com seus valores, é transmitida, narrada e mantida viva, através dos séculos. Existem duas grandes religiões que celebram a Páscoa: a religião judaica e as religiões cristãs.

O judeus comemoram a sua libertação do Egito, deixando de ser escravos e saindo em busca da terra prometida. Os cristãos, comemoram a ressurreição de Cristo que, com o seu sacrifício, oferece aos que nele creem a possibilidade da vida eterna. Claro que, não sendo teólogo e querendo chegar a um assunto que diga respeito às crianças, esta é uma síntese extremamente simplista, sem nenhuma pretensão a não ser nos lembrar de que a Páscoa tem uma origem muito antiga em algum episódio histórico. Em comum, ambas as religiões celebram a vida, através da libertação e da possibilidade de realização plena. Em ambas as religiões, a tradição é recontada, todos os anos, para que seja conhecida e lembrada. Os judeus, contam a história da fuga do Egito, no Seder (jantar) de Páscoa (que ocorreu ontem) e os cristãos, lembram e comemoram a ressurreição de Cristo, nos cultos religiosos (que vão ocorrer amanhã).

Depois dessa longa introdução (para criar o clima), chego na pergunta que dá o nome a este post. Páscoa- só ovos de chocolate?  E a minha sugestão de resposta é: Páscoa- bem mais do que só ovos de chocolate. Sim, ovos de chocolate, porque é uma tradição gostosa e prazerosa, mas algo além, mais duradouro. Algo para a vida toda. E o que seria isso? O afeto e carinho, produzindo efeitos imediatos e memórias duradouras.

Esse afeto pode se manifestar de diversas formas. Contar a história da família, por exemplo. De onde viemos, quem eram nossos avós ou bisavós, o que faziam. Isso dá às crianças um senso de pertencer a algo que é anterior a eles e do qual fazem parte. Mais do que fazer parte, levam adiante essa história, modificada por sua identidade e criatividade, mas, ainda assim, uma história coletiva e não só individual. A noção de pertencer, ao mesmo tempo que nos dá uma certa segurança, nos faz pensar na importância do coletivo. Pode ser, também, a história da própria Páscoa, principalmente para as pessoas que têm alguma fé religiosa. Pode ser a história do coelinho, ou de qualquer livro que seja interessante. O fato é que uma narrativa não só fascina as crianças, como as aproxima dos adultos. Contar histórias liga as pessoas, não só fisicamente, no momento da contação, mas, também, como uma transmissão oral de identificação. Contamos para nossos filhos histórias que ouvimos de nossos pais e, assim, essa mistura dá uma ótima liga para a vida.

Com relação ao simbolismo de libertação que ambas religiões celebram, poderíamos também pensar no valor da liberdade, nos tempos atuais. Desde como criamos nossos filhos para serem cidadãos que defendam os valores da democracia, respeitando diferenças de opiniões, culturas, opções e gêneros, até o que fazemos para que possam usar a educação e o conhecimento como meios de libertação. A ignorância e o obscurantismo não deixam de nos escravizar. Seja no nível individual, seja no coletivo com o acesso mais limitado às oportunidades existentes.

A Páscoa, portanto, pode ser uma excelente oportunidade para, além de presentearmos nossos filhos, estarmos com eles. Algumas culturas fazem jogos que aproximam crianças e adultos. Os judeus escondem, dentro de um guardanapo de linho, um pedaço do pão sem fermento (matza) que, ao final do Seder, as crianças procuram. Em alguns países cristãos, os adultos escondem ovos coloridos, como os da foto deste post, para que as crianças os procurem. Procurar algo escondido é  muito excitante para as crianças e, curiosamente (ou felizmente), para os adultos também. Todos gritam, adultos dando dicas, mães torcendo (sempre!) e o prazer de encontrar o objeto escondido é de todos. Não é preciso se fazer uma brincadeira como esta, mas, se pode planejar um dia de Páscoa, onde se faça algo, além de um delicioso almoço, onde pais e filhos possam estar juntos, encontrando algo perdido ou esquecido que é o prazer do carinho, do contato, sem outra finalidade, meta ou objetivo. Nesse sentido, a Páscoa também liberta os adultos da “seriedade”, das obrigações de desempenho, permitindo que sensações e emoções e memórias afetivas aflorem.

Afinal de contas, a festa da Páscoa, é uma festa da vida. Não é à toa que seus símbolo é um ovo que, muito antes de qualquer religião contemporânea, já simbolizava a vida. Vamos nos lembrar que viemos todos de um ovo!

Feliz Páscoa para todos!