Arquivo | março 2015

LENDO PARA BEBÊS.

bebê lendoUma das perguntas frequentes que pais fazem para pediatras é sobre como estimular seu bebê. Contida nesta pergunta está a preocupação natural de oferecer aos nossos filhos todos os meios para o seu pleno desenvolvimento. Todos nós desejamos que nossos filhos sejam adultos inteligentes e bem sucedidos. Para isso, deverão aprender muitas coisas, sendo que a mais importante é aprender a aprender. Como tudo evoluiu, avança, muda, as pessoas com a capacidade de incorporar novos conhecimentos, em princípio, terão maior possibilidade de realização pessoal e sucesso profissional. Assim, o assunto de como estimular os filhos faz todo sentido. O que nem sempre faz sentido, para os pais, é a resposta que costumo dar: leia para seu bebê! Não raro, me olham respeitosamente desconfiados, quando não decepcionados. Suponho que muitos esperavam uma resposta que envolvesse alguma tecnologia eletrônica, outros, algo menos comum e banal do que a leitura. Quem sabe expor o bebê às sonatas de Mozart?

O espanto, compreensível, advém do fato de que bebês não sabem ler. Parece completamente sem propósito ler para alguém que ainda não lê. Pergunto então por que falamos com nossos filhos, desde o momento do nascimento, se ainda não sabem falar? E cantamos cantigas, sem que saibam cantar? Falamos e cantamos porque temos vontade, é irresistível, instintivo e natural. Nunca passou pela cabeça de nenhum pai ou mãe ficarem mudos até que a criança comece a falar. Se ficássemos mudos, como aprenderiam a falar, cantar e se comunicar?

Falar é algo natural no ser humano. Já leitura é uma conquista da nossa evolução. Há cerca de aproximadamente 60 mil anos que o homem fala. Mas, a escrita e, consequentemente, a leitura, só têm aproximadamente 12 mil anos. Faz todo sentido que a fala, a narrativa verbal, tenha um força maior para nós, até os nossos dias. Nem todas as pessoas no planeta sabem ler, mas, todos sabemos contar uma história ou narrar um episódio. Ler é um processo adquirido e exige algum esforço adicional do que falar.

Ler é a base da transmissão do conhecimento estruturado. Se quisermos que nossos filhos aprendam a aprender, para que possam ser sujeitos do seu futuro, o hábito da leitura passa a ser determinante. Textos podem ter complexidades variáveis, desenvolvendo aptidões de análise e elaboração teórica que a fala, por si só, não é capaz de desenvolver. Textos e suas leituras são uma forma de prazer, que exige algum tempo para ser desenvolvida. Assim como comer tem algo de intuitivo e fácil (leite materno), evoluindo para gostos mais complexos que são aprendidos ao longo do tempo (se formos apresentados a estes sabores), assim é a leitura.

Espero que, se você leu até aqui, já esteja inclinada (o) a acreditar que ler é algo interessante para seus filhos. Mas, por que ler para um bebê? O primeiro motivo é o mesmo que usamos para falar para um bebê. Se esperamos que aprenda a falar, é preciso que falemos para nossos bebês. Se queremos que se tornem leitores, é preciso desenvolver nos bebês o gosto e prazer pela leitura, antes que seja uma obrigação escolar. Do que um bebê mais gosta? Do contato físico com seus pais e do som das suas vozes. Ler no colo dos pais irá produzir uma agradável associação entre o ato da leitura e o calor, carinho e voz dos pais. Ler estará associado a momentos de prazer e não de obrigação escolar.

O segundo motivo é porque a leitura, de fato, estimula  a inteligência dos bebês. Se fixar em cores, ouvir ruídos, gradativamente reconhecer as coisas que estão nos livros como também  fazendo parte das suas vidas, são poderosos estímulos que exigem a participação dos bebês. A leitura é um processo interativo, nunca passivo e isto é muito importante para o desenvolvimento das capacidade intelectuais da criança. Mesmo os bebês de 6 meses terão alguma interação com os livros. Batem nas páginas, mordem ou chupam os cantos (melhor livros de plástico!), arrancam das mãos dos pais, nunca ficando completamente passivos.

À medida que o bebê vai crescendo, sua capacidade de fixar a atenção aumenta (não é preciso terminar histórias, quando a criança se desinteressar, parem a leitura), começa a repetir sons, identificar objetos (mostre o objeto no livro e mostre na casa, se houver). Quando crescem um pouco mais, frequentemente preferem repetir o que já conhecem do que ler algo novo. Não raro trazem o livro para os pais lerem. Não é preciso ler uma história nova cada vez. A mesma história, repetidas vezes, produz o prazer da antecipação que é simplesmente delicioso.

Ler para os bebês e crianças, desenvolve a concentração, memória e capacidade de ouvir. Estas aptidões são importantes, pela vida afora e se não forem desenvolvidas cedo ou, no seu lugar, oferecermos apenas os estímulos rápidos e superficiais de jogos “hiperestimulantes”, corremos o risco dos nosso filhos não conseguirem se concentrar e fixar em questões mais profundas e complexas, que levam a uma compreensão mais abrangente da profissão e, mais importante, da vida e o estar no mundo. reading_baby

Guardo para o final do post, o motivo definitivo para que leiamos para nossos filhos, desde bebês e a infância afora. Com a nossa vida agitada,
ocupada, eficiente e produtiva, qual o valor de 10 minutos de contato físico  e compartilhamento de prazer com nossos filhos? Qual o valor de 10 minutos onde deixamos de ser qualquer outra coisa e podemos ser mães e pais, por inteiro? Qual o valor de perceber nossos bebês crescendo, desenvolvendo aptidões novas que geram comentários e perguntas fascinantes? O motivo para lermos para nossos bebês é porque é muito gostoso para nós, adultos.

 

EXISTE VACINA CONTRA A CORRUPÇÃO?

Stop corrupçãoSabem como é cabeça de pediatra, tudo é virose e só pensam em vacinas! Além disso, pediatras, em geral, são brincalhões ou espontâneos, rindo, inclusive desse modo curioso de pensar e ver o mundo: viroses e vacinas. E se a corrupção fosse uma virose, haveria uma vacina para prevenir esta doença? Estou convencido de que exista essa vacina e ela se chama educação.

Não me refiro à palavra esvaziada e desgastada, utilizada como uma espécie de elixir para todas as nossas mazelas. O que falta ao Brasil, é educação, repetimos todos, quase que em coro. Mas, dificilmente, paramos para nos perguntar que educação falta ao Brasil? Ou, melhor, que educação falta aos brasileiros  porque um país é feito de gente e não é um ser em si. Quando repetimos que o problema do Brasil é a falta de educação, o colocamos (o problema), longe de  cada um de nós. O Brasil é essa coisa grande, vaga, impessoal. Quando penso em educação para os brasileiros, já me sinto incluído na pergunta e, portanto, com algum compromisso com a resposta. Voltando à pergunta, que educação nos falta?

Fui buscar uma das possíveis respostas  em um pensador (sim, houve uma época em que pensar era muito valorizado pela sociedade) que dizia o seguinte: “E é observando as escolhas que os homens fazem, antes que seus atos, que nós os louvamos ou censuramos.”- Aristóteles. 

Mas, o que tem essa resposta com a pergunta- que educação está nos faltando? E, mais ainda, com pergunta sobre a vacina contra a corrupção? A corrupção é um ato que envolve, no mínimo, duas partes. De um lado quem corrompe, o corruptor e, do outro quem é corrompido. Portanto, fica fácil responder à pergunta de que educação precisamos? Uma que ensine a todos, começando pelas crianças, que é errado corromper e ser corrompido. Certo? Errado!

Essa educação que ensina o que é certo ou errado está fadada ao fracasso porque é superficial. Envolve noções de premiação e punição, que produzem comportamentos atraídos pelos prêmios ou repelidos pelos castigos. E que mal há nisso, perguntarão muitos dos (poucos) leitores do blog? De fato, para muitos comportamentos condicionados, esta é uma forma de se ensinar uma criança. Ensinar não é o mesmo que educar e nem todo comportamento é ou deveria ser condicionado. Não respondemos a tudo de forma pavloviana!

Vamos reler a frase de Aristóteles? E é observando as escolhas….. antes que seus atos….”. Aqui, uma sutil porém relevante diferenciação. A escolha precede o ato. A cada ato, corresponde uma escolha. Talvez, a educação que precisemos seja exatamente uma que contribua para que façamos escolhas desejáveis. Feita a escolha, se segue o ato, com uma naturalidade absoluta. No ato, não há investimento maior. Todo o investimento emocional e racional está na escolha. Meio confuso? Acho que sim. Vou tentar esclarecer.

Vamos considerar que lhe façam uma proposta de matar uma pessoa. Calma, é apenas um exemplo! Pois bem, a proposta completa é a de que você mate uma determinada pessoa e, para isso, você receberá uma soma impensável de dinheiro. Você mataria alguém que você nunca viu, não conhece, que não lhe fez nada, em troca de uma quantia irrecusável de dinheiro?  Vamos supor que você responda não. Agora, a proposta fica mais interessante. Além do dinheiro, você receber a garantia de que jamais será pego, julgado ou punido. Se você respondeu não à proposta só envolvendo dinheiro, mudaria sua resposta, respondendo sim, pelo fato de que, além do dinheiro, não sofrerá consequências legais? Pouco importa o que cada um respondeu. Mas, é razoável supor que um grupo de pessoas dirá não à proposta de matar um estranho, independente do pagamento e da impunidade. Por que alguém diria não a uma proposta que poderia mudar a vida material dela, sem risco de punição? É porque, para este grupo, a escolha que antecede o ato, é inaceitável. Assim, não há possibilidade desta pessoa considerar uma tal proposta. Esta pessoa, faz uma escolha moral, baseada nos seus valores. É na escolha de matar (ou não) que está todo o investimento emocional e racional.

A educação do premiar  e  punir, excelente para comportamentos condicionados, essenciais para a sobrevivência (não debruçar sobre a janela, enfiar o dedo em tomada ou chegar perto de fogo, pular ao ouvir uma freada do seu lado etc.) atua sobre os atos e não sobre as escolhas. A educação que atua sobre as escolhas é aquela em que se estimula a análise, reflexão, contemplação, compaixão e empatia. Enquanto nossas creches e escolas se limitarem a oferecer conhecimento e comportamento, teremos uma educação incompleta e, certamente, não estaremos vacinando nossos filhos contra o vírus da corrupção. Conhecimento e comportamento são fundamentais, mas, falta, para uma educação mais completa o entendimento ou compreensão. Compreender não é apenas conhecer e agir. Compreender implica em utilizar ferramentas humanas (enferrujadas?) como o o questionamento crítico (e auto-crítico), o aprendizado que é algo mais profundo e complexo do que o conhecimento. Compreender significa problematizar, algo do qual fugimos, correndo o risco da simplificação (que não é sinônimo de simplicidade) que torna nossa capacidade analítica em algo superficial, contribuindo para a banalização da vida cotidiana, incluindo a corrupção! A síntese da simplificação acrítica está contida na frase: “Isso é assim mesmo. Sempre foi e vai continuar sendo”. Que sociedade queremos para nossos filhos? Se for uma diferente desta em que estamos vivendo, teremos que enfrentar a pergunta- que educação precisamos oferecer para que nossos filhos?

Mas, que educação é esta? Não sou pedagogo, sou apenas um pediatra que vê viroses e pensa vacinas. Além disso, escrevo um blog com o intuito de informar e provocar reflexões. Como vamos introduzir filosofia moral nas nossas creches, é um tema a ser discutido. Mas, tenho a certeza de que sem, modificarmos o nosso modelo educacional, hoje baseado na avaliação como finalidade e não meio, destituído de uma provocação reflexiva a respeito das escolhas de cada um e seu impacto em todos, continuaremos repetindo, que o que falta ao Brasil é educação! Por outro lado, se os pais que leem o blog se sentirem mobilizados e, ao visitar as creches e escolas, não se preocuparem só com o cardápio (importante), segurança (muito importante), espaço físico (importante), limpeza (importante), número de funcionários (importante), mas fizerem uma pergunta desconcertante como: como vocês abordam as questões de filosofia moral com as crianças?  e prestarem atenção nas reações e respostas, talvez possamos almejar mudar algo.

Finalmente, uma nota de advertência. As escolas ou creches são apenas um prolongamento auxiliar do processo educativo que a acontece em casa, na família. A pergunta portanto, volta para nós. Mais do que uma bela resposta, ou dos nossos atos, vale a análise de como fazemos nossas escolhas. Crianças aprendem por imitação e admiração e, os primeiros a serem imitados e admirados, somos nós, os pais.

Se você é uma mãe ou um pai que não mataria por dinheiro e impunidade, ufa, esse post é para você! Dedique seu tempo na educação das escolhas, nos valores morais que preza e os atos, coerentes com estes, se seguirão. Ao participar das reuniões na creche ou escola, aborde o tema das escolhas antecedendo atos. Os pedagogos conhecem algumas formas de trabalhar o tema. Vamos provocá-los!

 

BATE PAPO COM OS PAIS, EM SÃO PAULO.

meetingEstarei em São Paulo para um bate papo informal com pais interessados em interagir com um pediatra, fora do ambiente do consultório. Não se trata de fazer consultas médicas sobre questões específicas, mas de conversarmos sobre o quanto do que se pergunta ao pediatra, já sabemos! Este encontro vai acontecer na próxima segunda feira, dia 16/03/2015, das 20:30 às 22:30h. Local: Clinica de Psicoterapia Rubens Kignel Endereço: Rua Faisão, 55 -Vila Madalena Reservas: rkignel@terra.com.br ou (11) 38193221.Espero vocês lá.

DIA INTERNACIONAL DA MULHER, DE NOVO!

Hoje se comemora o Dia Internacional da Mulher. Fiquei pensando no que eu gostaria de escrever a respeito e me perguntei o que teria mudado do ano passado para este, no que diz respeito à condição da mulher, na sociedade? Os indicadores não revelam mudanças e, por esse motivo, meu post do ano passado, relido criticamente por mim, me pareceu continuar atual. Repetir um post? Achei que seria mais honesto, com as mulheres (e comigo). Se a condição da mulher não muda, meu post não muda. Claro que sempre existe um ponto novo a ser comentado ou mesmo aprofundado. Mas, deixo ao leitor do blog a críticas se reler o post (e refletir) valeu a pena ou não.dia internacional da mulher

Apensas como curiosidade, fui pesquisar quantas mulheres foram eleitas para o Congresso Nacional, nas últimas eleições. As mulheres constituem 51% da população brasileira e temos 51 deputadas eleitas. Esse número representa 9,9% dos deputados (513). No Senado, temos, hoje, 11 mulheres, representando 13,6% do total de senadores (81). Definitivamente a representação das mulheres no poder legislativo não espelha, nem de longe, o percentual de mulheres na nossa população. Os deputados certamente dirão que não é preciso ser uma mulher para defender seus interesses. Como declaração conceitual, perfeita. Mas, francamente, em uma sociedade onde ainda há discriminação por gênero, evidenciada nas ofertas de emprego e salário por funções iguais, dá para acreditar que um homem vai defender os interesses da mulher tão bem quanto ela própria? Em uma sociedade machista, conservadora, como a nossa, uma deputada para dez deputados, parece razoável? Isso, sem entrar no mérito da violência contra a mulher, capítulo trágico que não queremos enxergar e enfrentar.

Para não repetir tudo do blog do ano passado, acrescentei uma foto da campanha produzida pelo Exército da Salvação da África do Sul que chama a atenção para a violência contra a mulher, usando o famoso vestido que ninguém sabe exatamente qual é a cor. A chamada é Why is it so hard to see black and blue? Em inglês, black and blue, além de se referir às cores propriamente, é o nome dado aos roxos (hematomas), decorrentes de pancadas ou traumas. Portanto, a peça da campanha, nos provoca com a pergunta (brincando com o famoso vestido)- por quê é tão difícil ver os roxos? É uma imagem forte, que coloquei no final do post , que segue abaixo.

Post de 8/3/14

O que um pediatra teria a falar sobre o Dia Internacional da Mulher? Em primeiro lugar, acredito que todos nós, independentemente de nossas escolhas profissionais, temos compromissos sociais. Isto é, vivemos em comunidade e o que fazemos (ou deixamos de fazer) influi, de alguma forma, em todos.  Desta forma, acredito que falar sobre o Dia  Internacional da Mulher é uma maneira que tenho para tentar contribuir por um mundo onde os seres humanos sejam igualmente respeitados, independentemente de seu gênero, cor, religião, opção sexual e nível sócio-econômico. Além desse aspecto mais amplo, como pediatra, lido com mães e, muitas vezes, percebo no seu dia a dia, o que significa ser mulher em um mundo onde a igualdade entre os gêneros ainda está  muito distante.

Portanto, não escrevo sobre o Dia Internacional da Mulher com o enfoque romântico de como as mulheres são importantes e como devemos admirá-las e amá-las. As mulheres de nossas vidas ( mães, filhas, avós, irmãs, namoradas, esposas, companheiras e amigas), merecem nosso carinho todos os dias. Carinho, com as pessoas que gostamos, não é algo que tem dia certo para ser feito.

O Dia Internacional da Mulher é um dia para nos lembrarmos do que acontece, hoje, com a mulher. Não falo da mulher distante, da que vive em uma cultura com valores diferentes dos nossos e é visivelmente segregada e oprimida. Falo da mulher que está do nosso lado, brasileira como nós. Falo da mulher que está nas nossas vidas, todos os dias. Este dia é para que não nos esqueçamos que essa mulher é, ainda hoje, aqui do nosso lado, discriminada pelo simples fato de ser mulher.

Mulheres brasileiras,  com a mesma formação e competência que homens, recebem salários menores do que estes. Isso é uma forma de discriminação.

Mulheres brasileiras sofrem violência doméstica, a maioria ainda calada, porque impor vergonha à vítima é uma forma de discriminação.

Mulheres brasileiras sofrem abusos sexuais  e, muitas, são julgadas culpadas ou parcialmente responsáveis pelo abuso porque “não estavam vestidas adequadamente” ou estavam no “lugar errado”. Isso é uma forma de discriminação.

Mulheres brasileiras, na sua maioria, fazem uma dupla jornanda de trabalho. Uma profissional e, outra, doméstica porque o trabalho de casa é “coisa de mulher”. Nesse aspecto vemos homens que são altos executivos nos seus trabalhos, tomando decisões complexas, todos os dias, muito bem formados e informados que, ao chegarem em casa, se tornam incapazes de fazer o que quer que seja, sob o argumento- “isso eu não sei fazer”. Um caso interessante de competência diurna seletiva ou incompetência domiciliar!  O brilhante profissional é incapaz de lavar louça, colocar termômetro no filho ou dar um remédio! O resultado dessa postura é a sobrecarga da mulher. Alguns homens, atentos, ainda dirão: deixa que eu te ajudo. Ajudar é um ato de participação na tarefa do outro. É o mesmo que dizer: esse trabalho é seu e eu vou te ajudar. Significa que o trabalho pertence à mulher e que posso não ajudar, quando não puder ou quiser. Bem diferente é a postura de dividir o trabalho. Quem divide trabalho, assume sua parte. Não é uma  ajuda,. É fazer o que lhe cabe. Isso seria uma forma de não discriminar. Mas, em casa, ainda discrminamos.

Se você é mãe ou pai de uma menina, com certeza não desja que sua filha seja discriminada. O dia de hoje é para que pense em como pode fazer para lhe dar os meios de ser uma pessoa que se desenvolva plenamente, segura de si, independente, sem se sentir menos ou obrigada a fazer coisas só porque é mulher.

Se você é mãe ou pai de um menino, com certeza não deseja que seu filho seja um discriminador. O dia de hoje é para que pense em como pode fazer para lhe dar os meios de ser uma pessoa que respeite as diferenças e não veja, numa mulher, um ser com menos direitos  ou mais obrigações do que ele, só porque é do sexo feminino.

O que podemos fazer? Como sempre, não tenho respostas prontas ou  fórmulas mágicas. Mas, acredito que o exemplo dos adultos, em casa, nos pequenos gestos e atitudes, terão um impacto muito maior na formação dos filhos do que belos discursos. Começemos por nossas casas, olhando para nossas mulheres como iguais a nós e nos perguntando onde existe alguma forma de discriminação por gênero e fazendo o que for possível para reduzir essa desigualdade. Olhemos para como educamos nossas meninas e meninos e nos perguntemos se estamos repetindo padrões que levem à manutenção das desigualdades. Se a menina arruma seu quarto e mamãe arruma o do menino, já temos algo para pensar em mudar.

Todos os dias são dias das mulheres (e dos homens, das crianças e dos velhos). Todos os dias são nossos dias. Mas, um dia como o de hoje, Dia Internacional da Mulher, é um dia para se pensar um pouco e se perguntar: o que posso fazer para que as mulheres sejam menos discriminadas?

black and blue

 

 

 

 

BLOG AO VIVO!

Recebi um convite (ou desafio) para conversar com um grupo de pais. A ideia surgiu de um papo  com Rubens Kignel, psicoterapeuta de S.P. Falávamos sobre como a medicina estava invadindo a vida das pessoas, fazendo com que estas perdessem um pouco a segurança no conhecimento que vem da experiência de vida, sensibilidade, intuição etc., sem desdenhar ou renunciar ao que a medicina tem de bom para nos oferecer. Falamos também sobre como as pessoas podem se sentir constrangidas de fazer perguntas ao médico, seja porque sentem que o tempo é escasso, seja porque ficam inseguras em compartilhar suas dúvidas.question mark

Desse papo, animado, surgiu a ideia de convidarmos pais para conversarem com um pediatra, fora do ambiente do consultório, sem ser para uma consulta médica e sim para uma troca de ideias e experiências. Assim surgiu o Perguntem ao Pediatra o que Jamais perguntaram, cuja divulgação diz:

Nesse encontro a proposta é conversar com um pediatra fora de uma consulta e em grupo, isto é, mães e pais terão a oportunidade de bater um papo que será determinado pela riqueza da experiência de maternidade e paternidade de vários casais.

Durante uma consulta com o pediatra, os pais podem se sentir pressionados pelo tempo ou até inibidos pela figura do médico. Não raro, saem com dúvidas e perguntas que gostariam de ter feito.

Por outro lado, será que estas dúvidas deveriam ser respondidas pelo pediatra ou os pais possuem o conhecimento necessário para respondê-las? Se possuem, porque não utilizam este conhecimento?

Este encontro vai acontecer na segunda feira, dia 16/03/2015, das 20:30 as 22:30h . Local: Clinica de Psicoterapia Rubens Kignel Endereço: Rua Faisão, 55 -Vila Madalena Reservas: rkignel@terra.com.br ou (11) 38193221, – apoio: R$ 50,00 por pessoa

Até hoje o blog só foi escrito. Agora, temos a chance de fazermos, juntos, um blog ao vivo! Espero vocês lá.

 

 

 

 

 

 

 

CRIANÇA SENTE ANSIEDADE?

bebê ansisosoComeço este post informando que não pretendo abordar o assunto da ansiedade em crianças seguindo nenhuma teoria psicológica ou psicanalítica. Existem vários autores e estudos, de excelente qualidade, que tratam do tema. O meu objetivo com o post de hoje e trazer o assunto à tona e abordá-lo de uma forma simples, objetiva, que nos faça pensar um pouco sobre o tema.

Meu interesse por abordar o assunto da ansiedade em crianças surgiu do relato de pais, a respeito do comportamento dos seus filhos, e das perguntas feitas. As situações poderiam ser as mais diversas, como por exemplo, um bebê que vinha dormindo muito bem e, de repente, passou a acordar à noite. Em geral, esse tipo de relato se dá com bebês em torno dos 8 ou 9 meses. Outros pais relatam que os filhos comiam muito bem, mas, de uns tempos para cá, “cismam” com determinados alimentos. Também ouço histórias de crianças que estavam adaptadas na creche e que, sem motivo aparente, passam a não querer ir, se agarrando na mãe aos prantos. Existem as crianças que roem as unhas, os que mentem, os que trazem objetos que não lhes pertencem para casa. Crianças podem acordar à noite morrendo de medo de ladrões, bruxas, dragões, a loura do espelho ou qualquer coisa! Algumas crianças não param quietas, outras parecem não querer fazer nada. Algumas são contestadoras, agressivas. Outras, ignoram seus pais, falando pouco ou nada.  Tem criança que não gosta de estudar e tem as que apesar de estudar muito, tiram notas baixas. Algumas crianças apresentam sintomas ou queixas: dor de cabeça, dor de barriga, constipação, sem uma aparente causa que os explique.

Vejam que a lista de comportamentos é bem grande e está longe de conter a diversidade de comportamentos que crianças podem apresentar. O interessante é que, muito provavelmente, nada do que eu relatei acima será novidade para quem estiver lendo este post. Ou já viveu isso com seus filhos ou já ouviu histórias de familiares e amigos relatando coisas parecidas.

Claro que para cada situação, é preciso uma avaliação individualizada. Não é possível se criar fórmulas ou receitas prontas, nem se fazer um diagnóstico único para cada comportamento descrito acima. Apenas usei esses comportamentos para dizer que, uma das perguntas que precisamos fazer, quando estamos diante de uma mudança de comportamento,  é-  seu filho pode estar sentindo alguma ansiedade?

Esta pergunta, quase que invariavelmente, produz uma reação de surpresa nos pais. Ansiedade? Doutor, criança tem ansiedade? O que poderia produzir ansiedade em uma criança que tem tudo que precisa?  É sobre esse espanto e perguntas que eu gostaria de fazer alguns comentários.

Esse espanto, em grande parte, vem do nosso entendimento do que seja ansiedade, do ponto de vista do adulto. Portanto, não é preciso escrever um post para dizer que crianças não possuem ansiedade com relação à manutenção do emprego, dinheiro, casamento ou relacionamento. Para nós, adultos, o mundo da criança é um sonho, onde todas suas necessidades são atendidas e elas não têm outra coisa a fazer na vida que não seja se divertir. Claro que as interrompemos para tomar banho, comer e ir dormir, mas, convenhamos, isso é pouco para produzir ansiedade. Portanto, na nossa visão de mundo, de fato, as crianças não teriam motivo para se sentirem ansiosas.

A questão é que não lembramos da visão de mundo que tínhamos quando éramos crianças nem temos acesso a ela agora que somos adultos. Só nos resta fazer um exercício de imaginação. Imaginemos que somos um bebê de 9 meses e estamos descobrindo que nossos pais desaparecem. Eles saem do quarto, saem da casa, somem do nosso campo visual. Em questão de segundos, nos vemos sozinhos e já temos essa consciência de que estamos sozinhos. Será que essa sensação de solidão, abandono, sem a certeza da volta do pai e da mãe, seria motivo para sentir ansiedade? Imagine-se adulto, em um aeroporto estrangeiro, onde o policial lhe pede para esperar em uma sala, sozinho e lhe diz, fique tranquilo, eu voltarei. E ele volta, não o libera, diz que só precisa de uma confirmação de algo e que vai voltar. Claro que, adultos, lógicos, racionais, não sentiremos nem um pouco de ansiedade. Ora, se ele disse que vai voltar, basta esperar. Pois bem, acho que todos nós ficaríamos muito ansiosos. O policial volta, diz que está tudo bem e nos deseja uma agradável estadia no seu país. Será um alívio, mas, já teremos passado por um momento de ansiedade (sem motivo, afinal de contas ele disse que voltaria e que só precisava fazer uma verificação!).

Imaginemos que temos 3 anos e vamos para a creche. Já aprendemos que nossa mãe ou pai nos deixa lá, desaparece, mas, alguém vai reaparecer para nos buscar. Entramos, brincamos, brincamos mais, lanchamos e nos buscam. Um dia, nos interessamos pelo brinquedo de um amigo e o pegamos. O amigo chora, a professora nos diz que é feio pegar o brinquedo do amigo e que devemos devolvê-lo. Ora, é feio pegar o brinquedo do amigo para alguém inserido na cultura, com valores de civilidade e cidadania, em uma palavra, educado. Mas, aos 3 anos, isso ainda não é compreensível. Um limite nos é imposto, sem que concordemos com ele. Como ainda não temos a noção do que é justo ou injusto, o sentimento que podemos ter é de desconforto, irritação. No dia seguinte a cena se repete. No outro dia idem. Essa tal de creche é um lugar que eu não quero mais ir e, no caminho, me agarro na minha mãe, desesperado com a possibilidade de ser, uma vez mais, frustrado.anxious-boy

Imaginemos que temos 9 anos. Somos grandes. Nossos pais nos falam coisas estranhas sobre ser adulto, ter responsabilidades. Nos falam que nossa única responsabilidade é estudar e tirar boas notas. Como se a nossa vida não tivesse outras responsabilidades como a de descobrir como tudo funciona, testar limites, brincar, se enturmar e, mais importante, ser reconhecido pelos amigos. Tanta coisa importantíssima para ser feita e ainda nos impõem a exigência de boas notas na escola, o que significa fazer deveres (uma perda de tempo total) e estudar (coisas sem a menor aplicação prática). Nesse cenário, vem o dia da prova. A figura dos pais preenche nosso imaginário e antecipamos a reação que terão, caso a nota seja baixa. Qual nosso sentimento, nesse momento? Relaxamento total, tranquilidade e serenidade ou, ansiedade?

Não vou deixá-los ansiosos com mais exemplos. Queria apenas mostrar que crianças possuem os seus motivos, para sentirem a sua ansiedade. Eles não entendem como podemos ficar ansiosos com os nossos motivos, porque não fazem o menor sentido para eles. O que me parece importante, sem ser nenhuma grande teoria, é que devemos aceitar que, só porque algo não faz sentido para nós, não significa que não possa fazer muito sentido para outros. Também deveríamos evitar procurar lógica onde o que está em cena é a emoção. Lembrem-se do exemplo de ficarmos em uma sala no aeroporto…. Ansiedade pode ter fatores desencadeantes e, geralmente, tem. Mas, não precisa ter lógica. Nossa vida não é exclusivamente lógica, nem a dos nossos filhos. Seres humanos, em qualquer idade, são simbólicos, afetivos e emotivos. A lógica se instala depois desses sentimentos. Estes sentimentos, em todos nós precedem e são mais profundos do que a racionalidade. Apesar da propaganda (enganosa) de que somos animais racionais!

Vejam que não abordei, a questão da ansiedade dos adultos e/ou do ambiente, como passível de ser percebido pelas crianças. Certamente percebem e são mobilizadas por nossas emoções. Muitas vezes, por ainda não terem desenvolvido plenamente uma capacidade crítica, se sentem (simbolicamente), responsáveis pelo que se passa conosco, gerando ansiedade nelas.

O que eu gostaria de propor com este post é que pensemos que nossos filhos tem motivos de sobra (os deles) para se sentirem ansiosos. Cabe a nós acolhê-los, aceitar e respeitar esses momentos, tentando minimizar os fatores desencadeadores e, principalmente contribuindo para que desenvolvam segurança e auto estima para enfrentarem as ansiedades que a vida sempre nos reserva. Não se trata de fazer todas as vontades dos filhos, nem tampouco de não impor limites ou ensinar a importância do convívio harmônico. Muitas manifestações de ansiedades podem ser exatamente porque os limites não estão sendo dados e a crianças se sente solta, sem amparo, insegura.

Só porque algo acontece no imaginário, irracional, não significa que não seja real. Ou, a imaginação não faz parte da realidade humana? Educar os filhos é percorrer esses caminhos menos retos, concretos, mais cheios de nuances, sutilezas e paradoxos. Os caminhos das certezas absolutas não são os da educação, mas os do adestramento. Nesse, as crianças terão que sentir suas ansiedades de forma solitária e reprimida. Lhes faltará o afeto acolhedor, que todos nós sabemos dar se ouvirmos mais nossos corações.